23 Coisas que Não Nos Contaram sobre o Capitalismo
2 - A gestão das empresas não deve estar voltada para o interesse dos seus donos
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A gestão das empresas não deve estar voltada
para o interesse dos seus donos
O que eles dizem
Os acionistas são donos das empresas. Por conseguinte, a gestão das empresas
deve estar voltada para os interesses deles. Não se trata simplesmente de um
argumento moral. Os acionistas não têm nenhum pagamento fixo garantido,
ao contrário dos funcionários (que têm um salário fixo), dos fornecedores (que
recebem um valor específico pelo pagamento dos seus produtos), dos bancos
que concedem empréstimos (que recebem taxas de juros fixas) e de outros
envolvidos no negócio. A renda dos acionistas varia de acordo com o
desempenho da empresa, o que dá a eles o maior incentivo para garantir que a
empresa tenha um bom desempenho. Se a empresa for à falência, os acionistas
perdem tudo, ao passo que outros stakeholders recebem pelo menos alguma
coisa. Desse modo, os acionistas correm os riscos que outros envolvidos na
empresa não correm, o que os incentiva a maximizar o desempenho da
empresa. Quando a gestão da empresa está voltada para os acionistas, o lucro
(o que resta depois que todos os pagamentos fixos são efetuados) é
maximizado, o que também maximiza a contribuição social da empresa.
O que eles não dizem
Os acionistas podem ser os donos das corporações mas, sendo os mais
instáveis dos stakeholders, com frequência são aqueles que menos se importam
com o futuro a longo prazo da empresa (a não ser que sejam tão grandes que
não possam realmente vender as ações sem abalar seriamente o negócio). Por
conseguinte, os acionistas, em especial, mas não exclusivamente, os menores,
dão preferência a estratégias corporativas que maximizem os lucros a curto prazo, geralmente em detrimento de investimentos a longo prazo, e
maximizem os dividendos desses lucros, o que enfraquece ainda mais a
perspectiva a longo prazo da empresa por reduzir a quantidade de lucros
acumulados que podem ser usados como reinvestimento. A gestão da empresa
voltada para os acionistas não raro reduz o seu potencial de crescimento a
longo prazo.
Karl Marx defende o capitalismo
Você provavelmente já reparou que o nome de muitas empresas no mundo
anglófono contém a letra L — PLC, LLC, Ltd. etc. A letra L nesses acrônimos
representa “limitada”, a forma abreviada de “responsabilidade limitada” —
companhia pública limitada (PLC — Public Limited Company), companhia de
responsabilidade limitada (LLC — Limited Liability Company) ou
simplesmente companhia limitada (Ltd.). Responsabilidade limitada significa
que aqueles que investiram na empresa só perderão o que investiram (as suas
“ações”), caso ela vá à falência.
No entanto, você talvez não tenha se dado conta de que a letra L, ou seja,
responsabilidade limitada, é o que tornou possível o capitalismo moderno.
Hoje, essa forma de organizar uma empresa é aceita como coisa natural, mas
nem sempre foi assim.
Antes da invenção da companhia de responsabilidade limitada na Europa
no século XVI — ou sociedade por ações, como era conhecida nos seus
primeiros dias — os empresários tinham que arriscar tudo quando iniciavam
um empreendimento. Quando digo tudo, eu realmente quero dizer tudo —
não apenas a propriedade individual (responsabilidade ilimitada significava que
um empresário falido tinha que vender todas as suas propriedades particulares
para pagar as dívidas) mas também a liberdade individual (ele poderia ir para
uma prisão de devedores, caso deixasse de honrar as suas dívidas). Levando
isso em consideração, é quase um milagre que uma pessoa estivesse disposta a
abrir um negócio.
Lamentavelmente, mesmo depois da invenção da responsabilidade
limitada, até meados do século XIX era muito difícil utilizá-la na prática; os
interessados precisavam de uma carta real para fundar uma companhia de responsabilidade limitada (ou uma carta do governo, no caso de uma
república). Acreditava-se que aqueles que estivessem gerindo uma companhia
de responsabilidade limitada sem possuí-la integralmente se disporia a correr
riscos excessivos, porque parte do dinheiro que estariam arriscando não seria
deles. Ao mesmo tempo, os investidores que não estivessem envolvidos com a
gestão em uma companhia de responsabilidade limitada também tomariam
menos cuidado com a monitoração dos administradores, já que os seus riscos
eram limitados (aos seus respectivos investimentos). Adam Smith, o pai da
economia e o santo padroeiro do capitalismo de livre mercado, se opunha à
responsabilidade limitada baseado nesses argumentos. Em uma declaração que
ficou famosa, ele afirmou que “não se pode exatamente esperar que os
diretores das companhias [sociedades por ações]..., por administrar o dinheiro
de outras pessoas e não o próprio, zelem por ele com a mesma cautela
apreensiva com a qual os sócios de uma sociedade privada com
responsabilidade ilimitada frequentemente zelam pelo seu próprio dinheiro”.
[2]
Por conseguinte, os países normalmente só concediam a responsabilidade
limitada para empreendimentos excepcionalmente grandes e arriscados
considerados de interesse nacional, como a Companhia Holandesa das Índias
Orientais fundada em 1602 (e a sua arqui-inimiga, a Companhia Britânica das
Índias Orientais) e a notória Companhia Britânica dos Mares do Sul, cuja
bolha especulativa que a cercou em 1721 conferiu durante gerações uma má
reputação às companhias de responsabilidade limitada.
No entanto, por volta de meados do século XIX, com o surgimento de
indústrias em grande escala como as ferrovias, as siderúrgicas e indústrias
químicas, a necessidade da responsabilidade limitada foi sendo sentida cada
vez com mais intensidade. Muito poucas pessoas tinham uma fortuna grande o
bastante para fundar sozinha uma siderúrgica ou uma ferrovia, de modo que,
começando pela Suécia em 1844 e em seguida pela Grã-Bretanha em 1856, os
países da Europa Ocidental e da América do Norte[3] tornaram a
responsabilidade limitada disponível de um modo geral —
predominantemente nas décadas de 1860 e 1870.
Entretanto, a desconfiança com relação à responsabilidade limitada
perdurava. Ainda no final do século XIX, algumas décadas depois da introdução da responsabilidade limitada generalizada, os pequenos
empresários na Grã-Bretanha “os quais, sendo ativamente responsáveis por
um negócio e também os seus proprietários, buscavam limitar a
responsabilidade para as suas dívidas por meio do recurso da incorporação
[responsabilidade limitada]” eram malvistos, de acordo com uma historiografia
influente do empreendedorismo na Europa Ocidental.[4]
Curiosamente, uma das primeiras pessoas a perceber a importância da
responsabilidade limitada para o desenvolvimento do capitalismo foi Karl
Marx, o suposto arqui-inimigo do capitalismo. Ao contrário de muitos dos
seus contemporâneos defensores do livre mercado (e Adam Smith antes deles)
que se opunham à responsabilidade limitada, Marx compreendeu como ela
possibilitaria a mobilização dos capitais de vulto necessários para as indústrias
pesadas e químicas que estavam surgindo por reduzir o risco para os
investidores individuais. Ao escrever em 1865, quando o mercado de ações
ainda era em grande parte uma atração secundária no drama do capitalismo,
Marx teve a presciência de chamar a sociedade por ações de “o maior
desenvolvimento da produção capitalista”. À semelhança dos seus adversários
defensores do livre mercado, Marx tinha consciência e criticava a tendência da
responsabilidade limitada de incentivar os gestores a correr riscos excessivos.
No entanto, Marx a considerava um efeito colateral do enorme progresso
material que essa inovação institucional estava prestes a ocasionar. É claro que,
ao defender o “novo” capitalismo dos seus críticos no livre mercado, Marx
tinha um motivo dissimulado. Ele achava que a sociedade por ações era um
“ponto de transição” para o socialismo porque ela separava a propriedade da
gestão, tornando possível com isso eliminar os capitalistas (que hoje não
dirigem a empresa) sem comprometer o progresso material que o capitalismo
havia alcançado.
O fim da classe capitalista
O prognóstico de Marx de que um novo capitalismo baseado em sociedades
por ações prepararia o terreno para o socialismo não se realizou. No entanto, a
sua predição de que a nova instituição da responsabilidade limitada generalizada colocaria as forças produtivas do capitalismo em um novo plano
se revelou extremamente presciente.
Durante o final do século XIX e início do século XX, a responsabilidade
limitada acelerou enormemente a acumulação do capital e o progresso
tecnológico. O capitalismo se transformou, deixando de ser um sistema
formado pelas fábricas de alfinetes, açougues e padarias de Adam Smith, com
no máximo algumas dezenas de empregados e administrados por um único
dono, e passando a ser um sistema de enormes corporações que contratavam
centenas, ou até mesmo milhares, de funcionários, entre estes os próprios
executivos de alto nível, com uma complexa estrutura organizacional.
Inicialmente, o antigo problema, muito temido, do incentivo gerencial das
companhias de responsabilidade limitada, ou seja, que os gestores, por estar
usando o dinheiro de terceiros, tenderiam a correr riscos excessivos, não
pareceu ter muita importância. Nos primeiros dias da responsabilidade
limitada, muitas empresas de grande porte eram administradas por um
empresário carismático, como Henry Ford, Thomas Edison e Andrew
Carnegie, que eram donos de uma parte significativa da empresa. Embora
esses gestores, que eram parcialmente donos da empresa, pudessem abusar da
posição que ocupavam e correr riscos excessivos (o que não raro faziam), havia
um limite para isso. Como grande parte da empresa era deles, eles iriam
prejudicar a si mesmos se tomassem uma decisão excessivamente arriscada.
Além disso, muitos desses gestores parcialmente proprietários eram homens
que possuíam uma capacidade e uma visão excepcionais, de modo que até
mesmo as suas decisões precariamente incentivadas eram com frequência
superiores àquelas tomadas pela maioria dos gestores que eram totalmente
donos das empresas e tinham um bom incentivo.
Entretanto, à medida que o tempo foi passando, surgiu uma nova classe de
gestores profissionais que substituiu esses empresários carismáticos. À medida
que as empresas foram crescendo, foi ficando cada vez mais difícil para
qualquer pessoa isolada possuir uma parte significativa delas, embora em
alguns países europeus, como a Suécia, as famílias fundadoras (ou fundações
de propriedade delas) continuassem sendo os principais acionistas, graças à
permissão legal de que fossem emitidas novas ações com um menor direito de
voto (normalmente 10%, às vezes até mesmo com 0,1%). Com essas mudanças, os gestores profissionais se tornaram os protagonistas dominantes,
e os acionistas foram ficando cada vez mais passivos no que dizia respeito à
maneira como as empresas eram geridas.
A partir da década de 1930, falava-se cada vez mais sobre o surgimento do
capitalismo gerencial, no qual os capitalistas no sentido tradicional — os
“capitães da indústria”, como os vitorianos costumavam chamá-los — haviam
sido substituídos por burocratas de carreira (burocratas do setor privado, mas
mesmo assim burocratas). Havia uma crescente preocupação de que esses
administradores contratados estivessem administrando os negócios visando a
seus próprios interesses e não aos interesses dos seus donos legítimos, ou seja,
os acionistas. Argumentava-se que quando deveriam estar maximizando os
lucros, esses administradores estavam maximizando as vendas (para maximizar
o tamanho da empresa e, portanto, o seu próprio prestígio) e os seus próprios
privilégios, ou, pior ainda, que estavam diretamente envolvidos em projetos de
prestígio que favoreciam enormemente o seu ego mas pouco aumentavam os
lucros da empresa e, portanto, o seu valor (que era basicamente avaliado em
função da sua capitalização no mercado de ações).
Alguns aceitavam a ascensão dos gestores profissionais como um
fenômeno inevitável, ou até mesmo totalmente favorável. Joseph Schumpeter,
o economista americano nascido na Áustria, famoso pela sua teoria do
empreendedorismo, argumentou na década de 1940 que, com o aumento da
dimensão das empresas e a introdução de princípios científicos na pesquisa e
no desenvolvimento corporativo, os heroicos empresários do início do
capitalismo seriam substituídos por administradores burocráticos profissionais.
Schumpeter acreditava que esse fenômeno reduziria o dinamismo do
capitalismo, mas considerava-o inevitável. Na década de 1950, John Kenneth
Galbraith, o economista americano nascido no Canadá, também argumentou
que a ascensão das grandes corporações administradas por gestores
profissionais era inevitável e que, portanto, a única maneira de contrapor
“forças equivalentes” a esses empreendimentos era por meio de uma maior
regulamentação do governo e do aumento do poder dos sindicatos.
Não obstante, durante as décadas seguintes, mais ferrenhos defensores da
propriedade privada acreditavam que os incentivos gerenciais precisavam ser
concebidos de uma maneira que levasse os gestores a maximizar os lucros. Muitas pessoas inteligentes haviam trabalhado nesse problema de “projeto de
incentivo”, mas o “santo graal” se revelou fugidio. Os gestores sempre
conseguiam descobrir uma maneira de cumprir as palavras exatas do contrato,
mas não o seu espírito, especialmente se considerarmos que não era fácil para
os acionistas verificar se o mau desempenho dos lucros alcançado por um
gestor havia resultado da sua incapacidade de prestar uma atenção suficiente
aos valores do lucro ou se havia sido causado por forças além do seu controle.
O santo graal ou uma aliança profana?
Foi então que, na década de 1980, o santo graal foi encontrado. Ele foi
chamado de maximização do valor do acionista. Argumentou-se que os
gestores profissionais deveriam ser remunerados de acordo com o montante
que são capazes de fornecer aos acionistas. Argumentou-se que, para alcançar
isso, primeiro os lucros teriam que ser maximizados por meio de uma redução
brutal dos custos — despesas com salários, investimentos, estoques, gerentes
de nível médio e assim por diante. Segundo, a maior parcela possível desses
lucros precisava ser distribuída para os acionistas — por meio de dividendos e
da recompra de ações. A fim de estimular os gestores a se comportar dessa
maneira, a proporção dos seus pacotes de compensação salarial expressada
pelas opções de ações precisava ser aumentada, para que eles se identificassem
mais com os acionistas. A ideia foi defendida não apenas pelos acionistas, mas
também por muitos gestores profissionais, sendo o mais famoso deles Jack
Welch, que foi durante muito tempo presidente do conselho de administração
da General Electric (GE), a quem com frequência é atribuído o mérito de ter
criado o termo “valor do acionista” em um discurso proferido em 1981.
Pouco depois do discurso de Welch, a maximização do valor do acionista
tornou-se o espírito do mundo corporativo americano. No início, a ideia
pareceu funcionar realmente bem tanto para os gestores quanto para os
acionistas. A participação dos lucros na renda nacional, que havia apresentado
uma tendência decrescente desde a década de 1960, aumentou acentuadamente
em meados da década de 1980 e vem apresentando uma tendência crescente
desde então.[5] E os acionistas recebiam uma parcela maior desse lucro sob a
forma de dividendos, enquanto viam o valor das suas ações subir. Os lucros distribuídos como uma parcela do lucro corporativo total dos Estados Unidos
permaneceram em 35 a 45% entre as décadas de 1950 e 1970, mas adquiriram
uma tendência ascendente a partir do final da década de 1970 e hoje estão em
torno de 60%.[6] Os gestores viram a sua remuneração disparar, mas os
acionistas pararam de questionar os pacotes salariais deles, já que estavam
felizes com os preços cada vez mais altos das ações e dos dividendos. A prática
logo se espalhou para outros países — com mais facilidade em países como a
Grã-Bretanha, que tinha uma estrutura de poder corporativo e uma cultura de
gestão semelhantes às dos Estados Unidos, e com menos facilidade em outros
países, como veremos mais adiante.
No entanto, essa aliança profana entre os gestores profissionais e os
acionistas foi completamente financiada pela opressão dos outros stakeholders
da empresa (motivo pelo qual ela se espalhou muito mais devagar em outros
países ricos nos quais os outros stakeholders têm um poder relativo maior). Os
empregos foram brutalmente reduzidos, muitos trabalhadores foram
demitidos e novamente contratados como mão de obra não sindicalizada com
salários mais baixos e menos benefícios, e os aumentos salariais foram
reprimidos (não raro por meio da transferência ou terceirização em países com
baixos salários, como a China ou a Índia — ou da ameaça de que essa medida
seria tomada). Os fornecedores, e os seus funcionários, também foram
oprimidos por uma constante redução nos preços dos bens e serviços,
enquanto o governo era pressionado para reduzir as alíquotas de impostos
corporativos e/ou oferecer mais subsídios, com a ajuda da ameaça de se
transferirem para países com alíquotas de impostos corporativos mais baixos
e/ou subsídios comerciais mais elevados. Em decorrência disso, a desigualdade
de renda cresceu vertiginosamente e, em um boom corporativo aparentemente
infinito (que terminou, como sabemos, em 2008), a vasta maioria das
populações americana e britânica só pôde participar da (aparente)
prosperidade contraindo empréstimos com taxas sem precedente.
A imediata redistribuição da renda em lucros já era bastante nociva, mas a
participação cada vez maior do lucro na renda nacional a partir da década de
1980 tampouco se converteu em investimentos mais elevados. O investimento
como uma parcela da produção nacional dos Estados Unidos na realidade
diminuiu, em vez de aumentar, de 20,5% na década de 1980 para 18,7% a partir de então (1990-2009). Isso poderia ter sido aceitável se essa menor taxa
de investimento tivesse sido compensada por uma utilização mais eficiente do
capital, gerando um crescimento maior. Entretanto, a taxa de crescimento per
capita dos Estados Unidos caiu de cerca de 2,6% ao ano nas décadas de 1960 e
1970 para 1,6% no período de 1990 a 2009, o auge do capitalismo do
acionista. Na Grã-Bretanha, onde mudanças semelhantes no comportamento
corporativo estavam tendo lugar, o crescimento da renda per capita caiu de
2,4% nas décadas de 1960 e 1970, quando o país estava supostamente
sofrendo da “Doença Britânica”, para 1,7% durante o período de 1990 a 2009.
Portanto, administrar as empresas visando aos interesses dos acionistas nem
mesmo beneficia a economia no sentido habitual (ou seja, desconsiderando a
redistribuição ascendente da renda).
E isso não é tudo. A pior coisa a respeito da maximização do valor do
acionista é que ela nem mesmo faz muito bem à companhia. A maneira mais
fácil de uma empresa maximizar o lucro é reduzindo os gastos, já que
aumentar a receita é mais difícil — diminuindo os gastos com salários por
meio da redução de empregos e reduzindo os gastos com capital minimizando
os investimentos. Gerar mais lucros, contudo, é apenas o início da
maximização do valor do acionista. A proporção máxima do lucro assim
gerado precisa ser entregue aos acionistas na forma de dividendos mais
elevados. Ou a empresa usa parte dos lucros para recomprar as suas próprias
ações, mantendo assim elevado o preço das ações e, portanto, indiretamente
redistribuindo ainda mais lucros para os acionistas (que podem realizar ganhos
de capital mais elevados caso decidam vender algumas das suas ações). As
recompras de ações costumavam corresponder a menos de 5% dos lucros
corporativos americanos durante décadas, até o início dos anos de 1980, mas
continuaram a aumentar a partir de então e atingiram a proporção épica de
90% em 2007 e absurdos 280% em 2008.[7] William Lazonick, o economista
de negócios americano, estima que, se a GM não tivesse gasto os 20,4 bilhões
de dólares que gastou em recompras de ações entre 1986 e 2002, e tivesse
colocado o dinheiro no banco (com um retorno anual de 2,5% após os
impostos), ela não teria tido nenhum problema para conseguir os 35 bilhões de
dólares de que precisava para evitar a falência em 2009.[8] E em toda essa farra de lucros, os gestores profissionais também se beneficiam enormemente, já
que são donos de muitas ações devidos às opções de compra de ações.
Tudo isso prejudica a perspectiva a longo prazo da empresa. Reduzir
empregos pode aumentar a produtividade a curto prazo, mas pode ter
consequências negativas a longo prazo. Um menor número de funcionários
significa um aumento da intensidade do trabalho, o que deixa os trabalhadores
cansados e mais propensos a cometer erros, diminuindo a qualidade dos
produtos e, portanto, a reputação da empresa. Mais importante ainda, a
crescente insegurança, oriunda da constante ameaça de demissões, desestimula
os trabalhadores, fazendo com que não desejem investir na aquisição de
habilidades específicas ligadas à empresa, desgastando o potencial produtivo
da empresa. Dividendos mais elevados e uma maior recompra das ações da
própria empresa reduzem os lucros retidos, que são as principais fontes de
investimento corporativo nos Estados Unidos e em outros países capitalistas
ricos, diminuindo assim o investimento. O impacto da redução do
investimento pode não ser sentido a curto prazo, mas a longo prazo torna
retrógrada a tecnologia da empresa e ameaça a sua própria sobrevivência.
Mas os acionistas não deveriam se importar com isso? Na condição de
donos da empresa, não são eles que têm mais a perder se ela se desvalorizar a
longo prazo? Essa não é exatamente a ideia central quando uma pessoa é dona
de um ativo — seja ele uma casa, um terreno ou uma empresa — que ela se
preocupe com a produtividade dele a longo prazo? Se os donos estão deixando
tudo isso acontecer, argumentariam aqueles que defendem o status quo, deve
ser porque é isso que desejam, por mais insano que possa parecer para as
pessoas de fora.
Lamentavelmente, apesar de serem os donos legítimos da empresa, entre
os diversos stakeholders, os acionistas são os que estão menos comprometidos
com a viabilidade a longo prazo da empresa. Isso acontece porque eles são
aqueles que podem deixar a empresa com mais facilidade; tudo o que precisam
fazer é vender as suas ações, se necessário com uma pequena perda, desde que
sejam inteligentes o bastante para não aderir a uma causa perdida por tempo
demais. Em contrapartida, é mais difícil para outros stakeholders, como
funcionários e fornecedores, deixar a empresa e encontrar outro compromisso,
porque é provável que tenham acumulado habilidades e bens de capital (no caso dos fornecedores) especificamente relacionados com as empresas com
quem fazem negócio. Por conseguinte, eles têm um interesse maior na
viabilidade da empresa do que a maioria dos acionistas. É por esse motivo que
maximizar o valor do acionista é ruim para a empresa, bem como para o
restante da economia.
A ideia mais idiota do mundo
A responsabilidade limitada propiciou um enorme progresso na capacidade
produtiva humana ao possibilitar a acumulação de enormes quantidades de
capital, exatamente porque ofereceu aos acionistas uma saída fácil, reduzindo
assim o risco envolvido em qualquer investimento. Ao mesmo tempo, no
entanto, essa facilidade de saída é exatamente o que torna os acionistas
guardiões duvidosos do futuro a longo prazo de uma empresa.
É por esse motivo que quase todos os países ricos fora do mundo anglo-
americano tentaram reduzir a influência dos acionistas móveis e manter (ou até
mesmo criar) um grupo de stakeholders de longo prazo (entre eles alguns
acionistas) por intermédio de vários métodos formais e informais. Em muitos
países, o governo tem permanecido dono de uma quantidade considerável de
ações nos empreendimentos essenciais — quer de uma maneira direta (p. ex., a
Renault na França, a Volkswagen na Alemanha), quer indireta, quando os
donos são bancos estatais (p. ex., França e Coreia) — e atuado como um
acionista estável. Como foi mencionado anteriormente, países como a Suécia
permitiram diferentes direitos de voto para classes de ações distintas, o que
possibilitou que as famílias fundadoras conservassem um controle significativo
das corporações enquanto arrecadavam capital adicional. Em alguns países,
existem representações formais de trabalhadores, que têm uma maior
orientação a longo prazo do que os instáveis acionistas, na gestão da empresa
(p. ex., a presença de representantes de sindicatos nas juntas fiscalizadoras da
empresa na Alemanha). No Japão, as empresas minimizaram a influência dos
instáveis acionistas por meio de uma compra cruzada de ações entre empresas
amigas. Em decorrência disso, os gestores profissionais e os instáveis
acionistas têm tido muito mais dificuldade em formar a “aliança profana” nesses países, embora eles também prefiram o modelo da maximização do
acionista, considerando-se os óbvios benefícios que ele lhes proporciona.
Por ser fortemente influenciadas, ou até mesmo completamente
controladas, por stakeholders de longo prazo, as empresas nesses países não têm
tanta facilidade em saquear os trabalhadores, oprimir os fornecedores,
negligenciar os investimentos e usar os lucros para dividendos e recompra de
ações como fazem as companhias americanas e britânicas. Tudo isso significa
que, a longo prazo, elas podem ser mais viáveis do que as empresas americanas
ou britânicas. Pense por um instante em como a General Motors
desconsiderou o seu domínio absoluto da indústria automobilística mundial e
finalmente foi à falência ao mesmo tempo em que estava na vanguarda da
maximização do valor do acionista por meio de um constante downsizing e
abstendo-se de investir. A fraqueza da estratégia voltada para o curto prazo da
GM tornou-se visível pelo menos a partir do final da década de 1980, mas a
estratégia prosseguiu até que a empresa foi à falência em 2009, porque ela
deixava tanto os gestores quanto os acionistas felizes embora ao mesmo
tempo debilitasse a empresa.
Administrar empresas visando aos interesses de acionistas instáveis não
apenas é injusto como também ineficaz, não apenas para a economia nacional
mas também para a própria empresa. Jack Welch recentemente confessou que
o valor do acionista é provavelmente “a ideia mais idiota do mundo”.
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