23 Coisas que Não Nos Contaram sobre o Capitalismo
20 - A igualdade de oportunidades pode não ser justa
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A igualdade de oportunidades pode não ser justa
O que eles dizem
Muitas pessoas ficam irritadas com a desigualdade. No entanto, existe
igualdade e igualdade. Quando recompensamos as pessoas da mesma maneira
independentemente dos seus esforços e realizações, os mais talentosos e os
mais esforçados perdem o incentivo para ter um bom desempenho. Isso
equivale à igualdade do resultado. É uma má ideia, como foi comprovado pela
queda do comunismo. Devemos buscar a igualdade de oportunidades. Por
exemplo, não apenas era injusto como também ineficaz que um estudante
negro no apartheid da África do Sul não pudesse frequentar melhores
universidades dos “brancos”, mesmo se ele fosse um aluno com um
desempenho mais satisfatório. As pessoas devem ter oportunidades iguais.
Entretanto, é igualmente injusto e ineficaz introduzir uma ação afirmativa e
começar a aceitar alunos de qualidade inferior simplesmente porque eles são
negros ou têm uma origem desprivilegiada. Ao tentar igualar os resultados, não
apenas distribuímos erroneamente os talentos mas também penalizamos os
mais talentosos e esforçados.
O que eles não dizem
A igualdade de oportunidades é o ponto de partida para uma sociedade justa,
mas não é suficiente. É claro que as pessoas devem ser recompensadas por um
desempenho melhor, mas a questão é se elas estão efetivamente competindo
sob as mesmas condições que os seus concorrentes. Se uma criança não tem
um bom desempenho na escola porque está com fome e não consegue se
concentrar na aula, não podemos dizer que ela não está se saindo bem por ser
inerentemente menos capaz. A concorrência justa só pode ser alcançada
quando a criança está bem alimentada — em casa por meio do apoio da renda familiar e na escola por intermédio de um programa de refeições gratuitas. A
não ser que exista alguma igualdade no resultado (p. ex., a renda de todos os
pais está acima de um certo limite mínimo, o qual possibilita que as crianças
não passem fome), as oportunidades iguais (p. ex., a instrução gratuita) não são
realmente significativas.
Mais católicos do que o Papa?
Na América Latina, as pessoas frequentemente usam a expressão que alguém é
“mais católico do que o Papa” (mas Papista que el Papa). A expressão se refere à
tendência das sociedades na periferia intelectual de aplicar doutrinas —
religiosas, econômicas e sociais — com mais rigidez do que os seus países de
origem.
Os coreanos, o meu povo, são provavelmente os campeões do mundo no
que diz respeito a ser mais católicos do que o Papa (não no sentido literal, já
que apenas cerca de 10% deles são católicos). A Coreia não é exatamente um
país pequeno. A população combinada da Coreia do Norte e da Coreia do Sul,
que durante quase um milênio, até 1945, era um único país, é hoje de mais ou
menos 70 milhões de habitantes. No entanto, ela está exatamente no meio de
uma zona na qual os interesses dos gigantes — a China, o Japão, a Rússia e os
Estados Unidos — se chocam. Desse modo, nós nos tornamos extremamente
versados em adotar a ideologia de um dos grandes e em ser mais ortodoxos a
respeito dela do que ele. Quando praticamos o comunismo (na Coreia do
Norte), somos mais comunistas do que os russos. Quando praticamos o
capitalismo de estado no estilo japonês (no Sul) entre as décadas de 1970 e
1980, aplicamos mais rigorosamente esse sistema do que os japoneses. Agora
que passamos a adotar o capitalismo no estilo americano, fazemos preleções
aos americanos sobre as virtudes do livre mercado e os humilhamos
desregulamentando os mercados financeiros e de trabalho à esquerda, à direita
e no centro.
Por conseguinte, era natural que até o século XIX, quando estávamos sob a
esfera de influência chinesa, fôssemos mais confucionistas do que os chineses.
O confucionismo, para aqueles que não estão familiarizados com ele, é um
sistema cultural baseado nos ensinamentos de Confúcio — o nome latinizado do filósofo político chinês, Kong Tze, que viveu no século V a.C. Hoje, tendo
presenciado o sucesso econômico de alguns países confucionistas, muitas
pessoas acham que se trata de uma cultura particularmente adequada ao
desenvolvimento econômico, mas ela foi uma ideologia tipicamente feudal até
ser adaptada às exigências do capitalismo moderno na segunda metade do
século XX.[73]
À semelhança de quase todas as outras ideologias feudais, o confucionismo
adotava uma rígida hierarquia social que restringia a escolha das ocupações de
acordo com a origem da pessoa. Isso impedia que homens talentosos das
castas inferiores fossem além da sua classe social. No confucionismo, havia
uma divisão crucial entre os agricultores (que eram considerados a base da
sociedade) e as outras classes trabalhadoras. Os filhos dos agricultores podiam
prestar o exame (extraordinariamente difícil) para o serviço público estatal e
ser incorporados à classe dominante, embora isso raramente acontecesse na
prática, ao passo que os filhos dos artesãos e comerciantes nem mesmo
tinham permissão para prestar o exame, por mais inteligentes que fossem.
A China, por ser o lugar de origem do confucionismo, se sentia confiante e
à vontade para adotar uma abordagem mais pragmática na interpretação das
doutrinas clássicas e permitia que pessoas das classes dos comerciantes e dos
artesãos prestassem o exame para o serviço público. A Coreia — por ser mais
confucionista do que Confúcio — ateve-se obstinadamente a essa doutrina e
recusou-se a contratar pessoas talentosas simplesmente porque elas tinham
nascido de pais “errados”. Foi somente depois que nos libertamos do jugo
colonial japonês (1910-1945) que o sistema tradicional de castas foi
completamente extinto e a Coreia se tornou um país onde a origem da pessoa
não coloca um teto na realização individual (embora o preconceito contra os
artesãos — engenheiros na terminologia atual — e os comerciantes —
administradores de empresas na terminologia atual — tenha perdurado por
mais algumas décadas até que o desenvolvimento econômico tornou atrativas
essas profissões).
Obviamente a Coreia feudal não estava sozinha ao se recusar a conceder às
pessoas a igualdade de oportunidades. As sociedades feudais europeias
operavam com sistemas semelhantes, e na Índia o sistema de castas ainda está
em vigor, se bem que informalmente. Tampouco era apenas em função da casta que era recusada às pessoas a igualdade de oportunidades. Até a Segunda
Guerra Mundial, a maioria das sociedades se recusava a permitir que as
mulheres fossem eleitas para cargos públicos; na realidade, era-lhes
completamente recusada a cidadania política e elas nem mesmo tinham
permissão para votar. Até recentemente, muitos países costumavam restringir
o acesso das pessoas à instrução e a empregos em função da raça. No final do
século XIX e no início do século XX, os Estados Unidos proibiam a imigração
de raças “indesejáveis”, especialmente os orientais. A África do Sul, durante o
regime do apartheid, tinha universidades separadas para os brancos e para o
resto (os mestiços [coloured] e os negros), sendo que estas últimas eram
precariamente financiadas.
Portanto, não faz muito tempo que a maior parte do mundo emergiu de
uma situação na qual as pessoas eram impedidas de progredir individualmente
em função da sua raça, sexo ou casta. A igualdade de oportunidades é algo que
deve ser altamente promovido.
Os mercados liberam?
Muitas das regras formais que restringiam a igualdade de oportunidades foram
revogadas nas últimas gerações. Isso se deve em grande parte às lutas políticas
dos discriminados — como a exigência cartista do sufrágio universal
(masculino) na Grã-Bretanha em meados do século XIX, o movimento dos
Direitos Civis dos negros americanos da década de 1960, a luta antiapartheid na
África do Sul na segunda metade do século XX e a luta das pessoas das castas
inferiores na Índia atual. Sem essas e um sem número de outras campanhas
realizadas pelas mulheres, pelas raças oprimidas e pelos membros das castas
inferiores, ainda estaríamos vivendo em um mundo no qual restringir os
direitos das pessoas de acordo com uma “loteria da condição de nascimento”
seria considerado natural.
Nessa luta contra a desigualdade de oportunidades, o mercado representou
uma grande ajuda. Quando somente a eficiência garante a sobrevivência,
ressaltam os economistas que defendem o livre mercado, não há espaço para
que preconceitos raciais ou políticos se insinuem nas transações comerciais.
Milton Friedman declarou isso de uma maneira sucinta no livro Capitalism and Freedom: “Ninguém que compra pão sabe se o trigo com o qual ele foi feito foi
cultivado por um comunista ou um republicano (...) por um negro ou por um
branco.” Por conseguinte, argumentou Friedman, o mercado com o tempo
expulsará o racismo, ou pelo menos o reduzirá significativamente, porque os
empregadores racistas que insistem em só contratar pessoas brancas serão
expulsos por outros de espírito mais aberto que contratam os melhores
talentos disponíveis, independentemente da sua raça.
Esse ponto é poderosamente ilustrado pelo fato que até mesmo o regime
notoriamente racista do apartheid da África do Sul teve que chamar os
japoneses de “brancos honorários”. De modo algum os executivos japoneses
que geriam as fábricas locais da Toyota e da Nissan poderiam morar em
cidadezinhas como Soweto, onde os não brancos eram obrigados a viver
debaixo da lei do apartheid. Por conseguinte, os supremacistas sul-africanos
brancos tiveram que engolir o seu orgulho e fingir que os japoneses eram
brancos, já que queriam desfilar em carros japoneses. Esse é o poder do
mercado.
O poder do mercado como “nivelador” é mais difundido do que
imaginamos. Como mostra de um modo tão pungente a peça de Alan Bennett
transformada em filme, History Boys,[74] os alunos dos grupos desprivilegiados
tendem a carecer da segurança intelectual e social, ficando portanto em
desvantagem na hora de ingressar nas universidades de elite e, por extensão, na
hora de conseguir empregos bem-remunerados. Obviamente, as universidades
não precisam reagir às pressões do mercado com a mesma rapidez das
empresas. No entanto, se uma universidade sistematicamente discriminasse
minorias étnicas ou jovens da classe trabalhadora e só aceitasse pessoas com
antecedentes “certos” apesar do seu desempenho inferior, os possíveis
empregadores viriam a preferir pessoas formadas nas universidades não
racistas. A universidade preconceituosa, para recrutar os melhores alunos
possíveis, mais cedo ou mais tarde teria que abandonar os seus preconceitos.
Considerando-se tudo isso, é tentador argumentar que, uma vez que
garantirmos a igualdade de oportunidades, livre de qualquer discriminação
formal a não ser aquela conferida pelo mérito, o mercado eliminará quaisquer
preconceitos residuais por intermédio do mecanismo competitivo. Entretanto, esse é apenas o início. Muito mais precisa ser feito para a criação de uma
sociedade genuinamente justa.
O fim do apartheid e da sociedade cappuccino
Embora muitas pessoas ainda tenham preconceito contra certas raças, as
pessoas pobres, as castas inferiores e as mulheres, hoje poucas contestariam
abertamente o princípio da igualdade de oportunidades. Mas neste ponto, as
opiniões se dividem acentuadamente. Alguns argumentam que a igualdade
deveria acabar junto com a da oportunidade. Outros, entre os quais me incluo,
acreditam que não basta ter uma igualdade de oportunidades formal.
Os economistas que defendem o livre mercado advertem que, se
tentarmos igualar os resultados das ações das pessoas e não apenas as suas
oportunidades de praticar determinadas ações, isso criará enormes
desincentivos contra o trabalho árduo e a inovação. Você trabalharia
arduamente se soubesse que, não importa o que fizesse, receberia a mesma
coisa que a pessoa do seu lado que fica o dia inteiro sem fazer nada? Não foi
esse o motivo pelo qual as comunas agrícolas chinesas de Mao Zedong foram
um enorme fracasso? Se tributarmos desproporcionalmente os ricos e
usarmos essa receita para financiar o estado do bem-estar social, os ricos não
perderão o incentivo de criar a riqueza, enquanto os pobres perderão o
incentivo de trabalhar, já que têm garantido um padrão de vida mínimo quer
trabalhem arduamente ou não — ou até mesmo se não trabalharem? Dessa
maneira, argumentam os economistas que defendem o livre mercado, todo
mundo fica em uma situação pior devido à tentativa de reduzir a desigualdade
do resultado.
Sem dúvida é verdade que as tentativas exageradas de igualar os resultados
— digamos, a comuna maoista, onde praticamente não havia nenhum vínculo
entre o esforço da pessoa e a recompensa que ela recebia — terão um impacto
adverso no esforço de trabalho das pessoas. E isso também é injusto. Mas
acredito que um certo grau de equalização de resultados se faz necessário para
que possamos construir uma sociedade genuinamente justa.
A questão é que, para poder se beneficiar das oportunidades iguais que lhes
são oferecidas, as pessoas precisam da capacidade de utilizá-las. De nada adianta que os sul-africanos negros tenham hoje as mesmas oportunidades que
os brancos de obter um emprego altamente remunerado, se eles não têm o
grau de instrução necessário para se qualificar para esse tipo de emprego. De
nada adianta que os negros hoje possam ingressar nas melhores universidades
(anteriormente exclusivas para brancos), se eles ainda têm que frequentar
escolas deficientemente financiadas com professores subqualificados, alguns
dos quais mal sabem ler e escrever.
Para a maioria dos jovens negros na África do Sul, a recém-adquirida
igualdade de oportunidade de ingressar em boas universidades não significa
que eles possam frequentar essas universidades. As suas escolas continuam a
ser pobres e deficientemente administradas. Os professores subqualificados
não ficaram talentosos de repente com o fim do apartheid. Os seus pais ainda
estão desempregados (até mesmo a taxa de desemprego, que subestima
imensamente o verdadeiro desemprego em um país em desenvolvimento, está
entre 26 e 28%, uma das mais elevadas do mundo). Para eles, o direito de
ingressar em melhores universidades é simplesmente irrealista. Por esse
motivo, a África do Sul pós-apartheid se transformou no que alguns sul-
africanos chamam de “sociedade cappuccino”: uma massa marrom no fundo,
uma fina camada de espuma branca sobre ela, e um borrifo de cacau por cima.
Os economistas que defendem o livre mercado lhe dirão que aqueles que
não têm a instrução, a determinação e a energia empreendedora necessária
para tirar proveito das oportunidades de mercado têm que culpar a si mesmos.
Por que as pessoas que trabalharam arduamente e conquistaram um diploma
universitário enfrentando grandes dificuldades deveriam ser recompensadas da
mesma maneira que outra, que tem os mesmos antecedentes de pobreza, e que
optou por viver praticando pequenos delitos?
Esse argumento está correto. Não podemos, e não devemos, explicar o
desempenho de uma pessoa em função apenas do ambiente no qual ela foi
criada. As pessoas têm responsabilidades pelo que fizeram com a sua vida.
Entretanto, embora correto, esse argumento é apenas parte da história. As
pessoas não nascem em um vácuo. O ambiente socioeconômico no qual elas
atuam impõe sérias restrições ao que elas podem fazer. Ou até mesmo ao que
elas querem fazer. O seu ambiente pode fazer com que você desista de certas
coisas sem ao menos tentar. Por exemplo, muitas crianças britânicas da classe trabalhadora com talento acadêmico nem mesmo tentam ir para a universidade
porque as universidades “não são para elas”. Essa atitude está mudando aos
poucos, mas ainda me lembro de um documentário a que assisti na BBC no
final da década de 1980 no qual um velho mineiro e a sua esposa estavam
criticando um dos filhos, que tinha ido para a universidade e se tornado
professor, como um “traidor da classe”.
Embora seja tolo colocar a culpa de tudo no ambiente socioeconômico, é
igualmente inaceitável acreditar que para que as pessoas possam alcançar
qualquer coisa, basta que “acreditem em si mesmas” e tentem arduamente,
como nos dizem os filmes românticos de Hollywood. A igualdade de
oportunidades não faz sentido para aqueles que não têm os recursos e as
habilidades necessários para aproveitá-la.
O curioso caso de Alejandro Toledo
Nos dias de hoje, nenhum país impede deliberadamente que as crianças pobres
frequentem a escola, mas muitas crianças nos países pobres não podem ir à
escola porque não têm dinheiro para pagar a taxa de anuidade. Além disso,
mesmo nos países onde a instrução pública é gratuita, as crianças pobres estão
destinadas a ter um mau desempenho na escola, seja qual for a sua capacidade
inata. Algumas delas passam fome em casa e também não almoçam na escola,
o que impossibilita a sua concentração, com consequências previsíveis para o
seu desempenho acadêmico. Em casos extremos, o desenvolvimento
intelectual dessas crianças pode já ter sido interrompido devido à alimentação
deficiente nos primeiros anos de vida. Elas também podem ficar doentes com
mais frequência, o que faz com que faltem mais às aulas. Se os seus pais forem
analfabetos e/ou tiverem que trabalhar longas horas, as crianças não terão
quem as ajude com o dever de casa, ao passo que as crianças da classe média
serão ajudadas pelos pais e as ricas podem até ter professores particulares.
Tendo ou não ajuda, elas podem nem mesmo ter tempo para fazer o dever de
casa, caso tenham que tomar conta de irmãos mais novos ou cuidar das cabras
da família.
Considerando-se tudo isso, desde que aceitemos que não devemos punir as
crianças por ter pais pobres, devemos tomar medidas para garantir que todas as crianças recebam uma quantidade mínima de alimento, cuidados de saúde e
ajuda com o dever de casa. Grande parte disso pode ser propiciado por meio
de políticas do governo, como acontece em alguns países — almoço gratuito
na escola, vacinação, exames médicos básicos periódicos e alguma ajuda com o
dever de casa depois do horário das aulas proporcionada por professores ou
auxiliares de ensino contratados pela escola. No entanto, uma parte disso tudo
precisa ser suprida em casa. As escolas têm uma certa limitação.
Isso significa que precisa haver uma igualdade mínima de resultados no
que diz respeito à renda dos pais, para que as crianças possam ter alguma coisa
que se aproxime de uma oportunidade justa. Sem isso, nem mesmo a instrução
gratuita, refeições grátis nas escolas, a vacinação gratuita e assim por diante
poderão oferecer uma verdadeira igualdade de oportunidades às crianças.
Mesmo na vida adulta, é preciso que haja uma certa igualdade de renda.
Todo mundo sabe que, uma vez alguém fique desempregado por um longo
tempo, torna-se extremamente difícil para essa pessoa retornar ao mercado de
trabalho. Entretanto, o fato de alguém perder o emprego não é inteiramente
determinado pelo “valor” da pessoa. Algumas pessoas, por exemplo, perdem o
emprego porque escolheram ingressar em um setor que parecia ter boas
perspectivas quando elas começaram mas que depois foi duramente atingido
pelo aumento da concorrência estrangeira. Poucos operários siderúrgicos
americanos ou trabalhadores britânicos no setor da construção naval que
ingressaram nessas indústrias no início da década de 1960, ou, na realidade,
nenhuma outra pessoa, poderiam ter previsto que no início da década de 1990
as suas indústrias teriam sido praticamente eliminadas pela concorrência
japonesa e coreana. É realmente justo que essas pessoas tenham que sofrer
desproporcionalmente e ser despachadas para o monte de sucata da história?
É claro que, em um livre mercado idealizado, isso não seria um problema
porque os operários siderúrgicos americanos e os trabalhadores britânicos do
setor de construção naval poderiam conseguir empregos em indústrias em
expansão. Mas quantos antigos operários siderúrgicos americanos você
conhece que se tornaram engenheiros de computador ou antigos
trabalhadores ingleses do setor da construção naval vieram a ser depois
banqueiros de investimento? Essa conversão raramente ocorre, se é que
alguma vez acontece.
Uma abordagem mais equitativa teria sido ajudar os trabalhadores que
perderam o emprego a encontrar uma nova carreira por meio do auxílio-
desemprego, do seguro-saúde mesmo sem que eles estivessem trabalhando, de
programas de treinamento e ajuda na procura de emprego, como fazem com
especial competência os países escandinavos. Como examino em outra parte
do livro, essa também pode ser uma abordagem mais produtiva para a
economia como um todo.
Sem dúvida, na teoria, um engraxate de uma pequena cidade provinciana
do Peru pode ir para Stanford e ingressar em um programa de doutorado,
como fez o ex-presidente peruano Alejandro Toledo, mas para cada Toledo
temos milhões de crianças peruanas que nem mesmo chegam ao ensino
médio. É claro que poderíamos argumentar que esses milhões de crianças
peruanas pobres são vagabundas e preguiçosas, já que o Sr. Toledo
demonstrou que elas também poderiam ter ido para Stanford se tivessem se
esforçado bastante. No entanto, acho que é mais plausível que o Sr. Toledo
seja a exceção. Sem uma certa igualdade de resultados (da renda dos pais), os
pobres não conseguem extrair o máximo proveito da igualdade de
oportunidades.
De fato, a comparação internacional da mobilidade social corrobora esse
raciocínio. De acordo com um estudo cuidadoso realizado por um grupo de
pesquisadores na Escandinávia e no Reino Unido, os países escandinavos têm
uma mobilidade social mais elevada do que o Reino Unido, o qual, por sua vez,
tem mais mobilidade do que os Estados Unidos.[75] Não é coincidência que
quanto mais forte o estado do bem-estar social, maior a mobilidade.
Particularmente no caso dos Estados Unidos, o fato de a baixa mobilidade
geral ser em grande medida explicada pela baixa mobilidade na camada inferior
indica que é a falta da garantia de uma renda básica que está impedindo que as
crianças pobres aproveitem a igualdade de oportunidades.
A excessiva equalização dos resultados é nociva, embora exatamente o que
é excessivo seja discutível. Não obstante, a igualdade de oportunidades não é
suficiente. A não ser que criemos um ambiente no qual sejam asseguradas a
todos algumas aptidões mínimas por meio da garantia de um salário mínimo,
instrução e cuidados de saúde, não poderemos dizer que temos uma
competição justa. Quando algumas pessoas precisam participar de uma corrida de cem metros rasos com sacos de areia amarrados às pernas, o fato de não ser
permitido que ninguém tenha uma vantagem inicial não torna a corrida justa.
A igualdade de oportunidades é absolutamente necessária porém não
suficiente para a construção de uma sociedade genuinamente justa e eficiente.
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