23 Coisas que Não Nos Contaram sobre o Capitalismo
7 - As políticas de livre mercado raramente fazem os países pobres ficarem ricos
7
As políticas de livre mercado raramente fazem os
países pobres ficarem ricos
O que eles dizem
Depois de se tornarem independentes do domínio colonial, os países em
desenvolvimento tentaram desenvolver a sua economia por meio da
intervenção estatal, às vezes até mesmo adotando explicitamente o socialismo.
Eles tentaram desenvolver artificialmente indústrias como a do aço e a do
automóvel, que estavam além da sua capacidade, usando medidas como o
protecionismo comercial, a proibição do investimento estrangeiro direto,
subsídios industriais e até mesmo a propriedade estatal de bancos e
empreendimentos industriais. Em um nível emocional, isso era compreensível,
tendo em vista que os seus antigos senhores coloniais eram países capitalistas
que adotavam políticas de livre mercado. No entanto, essa estratégia produziu,
nos casos mais favoráveis, a estagnação, e, nos menos favoráveis, o desastre. O
crescimento era anêmico (ou até mesmo negativo) e as indústrias protegidas
deixaram de “crescer”. Felizmente, quase todos esses países recobraram o
juízo a partir da década de 1980 e passaram a adotar uma política de livre
mercado. Pensando bem, essa era a coisa certa a ser feita desde o início. Todos
os países ricos da atualidade, com exceção do Japão (e possivelmente a Coreia,
embora este seja um ponto controvertido), ficaram ricos por meio de políticas
de livre mercado, especialmente do livre comércio com o resto do mundo. E
os países em desenvolvimento que adotaram mais plenamente essas políticas
se saíram melhor no período mais recente.
O que eles não dizem
Ao contrário do que comumente se acredita, o desempenho dos países em
desenvolvimento no período em que o estado dominou o desenvolvimento foi superior ao que eles alcançaram durante o período subsequente de reforma
voltada para o mercado. Houve alguns fracassos grandiosos da intervenção
estatal, mas quase todos esses países cresceram muito mais rápido, com uma
distribuição de renda mais equitativa e com um número bem menor de crises
financeiras, durante os “maus dias do passado” do que o fizeram no período
das reformas voltadas para o mercado. Além disso, também não é verdade que
quase todos os países ricos tenham ficado ricos por meio de políticas de livre
mercado. A verdade é mais ou menos o oposto. Com apenas algumas
exceções, todos os países ricos de hoje, entre eles a Grã-Bretanha e os Estados
Unidos — os supostos lares do livre comércio e do livre mercado — ficaram
ricos por meio da combinação do protecionismo, subsídios e outras políticas
que hoje eles aconselham os países em desenvolvimento a não adotar. As
políticas de livre mercado tornaram poucos países ricos até agora e poucos
ficarão ricos por causa dela no futuro.
Dois casos perdidos
Eis o perfil de dois países em desenvolvimento. Você é um analista econômico
que está tentando avaliar as perspectivas de desenvolvimento deles. O que
você diria?
País A: Até uma década atrás, o país era altamente protecionista, com uma
tarifa industrial típica bem acima de 30%. Apesar da recente redução da tarifa,
permanecem importantes restrições ao comércio, visíveis e invisíveis. O país
tem fortes restrições aos fluxos de capital transnacionais, bem como
numerosas restrições à detenção estrangeira de ativos financeiros. As empresas
estrangeiras que produzem no país se queixam de que sofrem discriminação
por meio de taxas e regulamentações diferenciadas da parte dos governos
locais. O país não tem eleições e é permeado pela corrupção. Os seus direitos
de propriedade são obscuros e complicados. Em particular, a sua proteção dos
direitos da propriedade intelectual é fraca, o que o torna a capital mundial da
pirataria. O país tem um grande número de empreendimentos de propriedade
do governo, muitos dos quais apresentam grandes perdas mas são sustentados
por subsídios e direitos de monopólio concedidos pelo governo.
País B: A política comercial do país tem sido literalmente a mais
protecionista do mundo nas últimas décadas, com uma tarifa industrial média
entre 40 e 55%. A maioria da população não pode votar, e a compra de votos
e a fraude eleitoral são difundidas. A corrupção é desenfreada, com os partidos
políticos vendendo empregos públicos para aqueles que os apoiam
financeiramente. O país nunca recrutou um único funcionário público por
intermédio de um processo aberto e competitivo. As suas finanças públicas
são precárias, com registros de inadimplência de empréstimos do governo que
preocupam os investidores estrangeiros. Apesar disso, o país discrimina
intensamente os investidores estrangeiros. Especialmente no setor bancário, os
estrangeiros são proibidos de se tornar diretores enquanto os acionistas
estrangeiros nem mesmo podem exercer o seu direito de voto, a não ser que
residam no país. Ele não tem uma lei de concorrência, permitindo que cartéis e
outras formas de monopólio se espalhem incontrolados. A sua proteção da
propriedade de direitos intelectuais é incoerente, particularmente desfigurada
pela recusa do país em proteger os direitos autorais dos estrangeiros.
Esses dois países estão envolvidos até o pescoço com coisas que
supostamente obstruem o desenvolvimento econômico, ou seja, o intenso
protecionismo, a discriminação contra os investidores estrangeiros, a fraca
proteção dos direitos de propriedade, monopólios, a ausência da democracia, a
corrupção, a falta de meritocracia e assim por diante. A impressão que se tem é
que ambos estão caminhando em direção a um desastre sob o aspecto do
desenvolvimento. Mas reflita um pouco.
O País A é a China de hoje — alguns leitores talvez o tenham adivinhado.
No entanto, poucos leitores devem ter adivinhado que o País B é os Estados
Unidos — ou seja, por volta da década de 1880, quando era um tanto mais
pobre do que a China de hoje.
Apesar de todas as políticas e instituições supostamente contrárias ao
desenvolvimento, a China tem sido uma das economias mais dinâmicas e bem-
sucedidas das três últimas décadas, enquanto os Estados Unidos na década de
1880 eram um dos países que mais cresciam no mundo e que estavam se
tornando uma das nações mais ricas do planeta. Portanto, as grandes estrelas do final do século XIX (Estados Unidos) e dos nossos dias (China) seguiram
receitas de políticas que contrariam quase que totalmente a ortodoxia do livre
mercado neoliberal.
Como isso é possível? A doutrina do livre mercado não foi destilada a
partir de dois séculos de experiências de desenvolvimento bem-sucedidas
pelos doze países mais ricos da atualidade? A fim de responder a essas
perguntas, precisamos recuar na história.
Presidentes mortos não falam
Alguns americanos chamam as suas notas de dólares de “presidentes mortos”.
Todos estão bem mortos, mas nem todos os políticos cujo retrato adorna as
notas de dólares são ex-presidentes dos Estados Unidos.
Benjamin Franklin — que figura no papel-moeda mais famoso do mundo,
a nota de 100 dólares — nunca foi presidente. No entanto, poderia ter sido.
Ele era o mais velho dos Pais Fundadores e é bem possível que fosse o político
mais respeitado no país recém-criado. Embora ele fosse velho demais e a
envergadura política de George Washington fosse grande demais para que ele
se candidatasse à presidência em 1789, Franklin era a única pessoa que talvez
pudesse ter desafiado Washington.
A verdadeira surpresa no panteão de presidentes no papel-moeda
americano é Alexander Hamilton, que figura na nota de 10 dólares. À
semelhança de Franklin, Hamilton nunca foi presidente dos Estados Unidos.
No entanto, à diferença de Franklin, cuja história tornou-se uma lenda
americana, ele era, ou melhor, não era Franklin. Hamilton foi um mero
Secretário do Tesouro, embora tenha sido o primeiro. O que ele está fazendo
entre os presidentes?
Hamilton está lá porque, fato que muitos americanos de hoje
desconhecem, ele é o mentor do moderno sistema econômico americano.
Dois anos depois de se tornar Secretário do Tesouro em 1789 quando era
incrivelmente jovem, com apenas 33 anos de idade, Hamilton submeteu à
apreciação do congresso o Report on the Subject of Manufacture [Relatório sobre as
Manufaturas], no qual expôs a estratégia de desenvolvimento econômico para o
seu jovem país. No relatório, ele argumentou que “as indústrias que estavam na infância”, como as americanas, precisavam ser protegidas e cultivadas pelo
governo antes que pudessem se erguer sozinhas. O relatório de Hamilton não
era apenas sobre o protecionismo comercial — ele também defendia o
investimento público na infraestrutura (como os canais), o desenvolvimento
do sistema bancário, a promoção de um mercado de títulos do governo —
mas o protecionismo estava na essência da sua estratégia. Considerando-se as
suas opiniões, se Hamilton fosse hoje ministro da fazenda de um país em
desenvolvimento, ele teria sido fortemente criticado pelo Departamento do
Tesouro dos Estados Unidos em virtude da sua heresia. O seu país talvez
tivesse até mesmo um pedido de empréstimo recusado pelo FMI e pelo Banco
Mundial.
O interessante, contudo, é que Hamilton não estava sozinho nesse caso.
Todos os outros “presidentes mortos” teriam enfrentado hoje a mesma
desaprovação do Tesouro Americano, do FMI, do Banco Mundial e de outros
defensores do livre mercado.
George Washington, o primeiro presidente, figura na nota de 1 dólar. Na
cerimônia da sua posse, ele insistiu em usar roupas americanas, especialmente
tecidas em Connecticut para a ocasião, em vez de trajes ingleses de melhor
qualidade. Hoje em dia, isso teria sido uma violação da regra proposta pela
OMC sobre a transparência das aquisições do governo. E não devemos nos
esquecer de que foi Washington que indicou Hamilton para o cargo de
Secretário do Tesouro, com pleno conhecimento de quais eram as suas
opiniões a respeito da política econômica — Hamilton foi ajudante-de-campo
de Washington durante a Guerra da Independência americana e, depois disso,
o seu mais próximo aliado político.
Na nota de 5 dólares, figura Abraham Lincoln, famoso protecionista, que
durante a Guerra Civil elevou as tarifas para os níveis mais elevados até então.
[23] Na nota de 50 dólares, temos Ulysses Grant, o herói da Guerra Civil que
veio a ser presidente. Resistindo à pressão inglesa para que os Estados Unidos
adotassem o livre comércio, ele fez certa vez o seguinte comentário: “daqui a
duzentos anos, depois que a América tiver extraído da proteção tudo o que
esta pode oferecer, ela também adotará o livre comércio.”
Benjamin Franklin não era partidário da doutrina de Hamilton a respeito
das indústrias na infância, mas insistia em uma alta proteção tarifária por outro motivo. Na época, a existência de terras praticamente gratuitas nos Estados
Unidos obrigava os produtores americanos a oferecer salários mais ou menos
quatro vezes superiores à média europeia, caso contrário os trabalhadores
teriam optado por se dedicar à atividade agrícola (não se tratava de uma
ameaça inútil, considerando-se que muitos deles tinham sido anteriormente
agricultores). Por conseguinte, argumentava Franklin, os produtores
americanos só poderiam sobreviver se fossem protegidos contra a
concorrência dos baixos salários — ou o que é conhecido como “dumping
social” — da Europa. Essa é exatamente a lógica que Ross Perot, o bilionário
que virou político, usou para se opor ao NAFTA (Tratado Norte-Americano
de Livre Comércio) na campanha da eleição presidencial de 1992 — uma
lógica que 18,9% dos eleitores americanos se sentiram satisfeitos em endossar.
No entanto, poderá você dizer, Thomas Jefferson (que figura na nota
raramente vista de 2 dólares) e Andrew Jackson (na nota de 20 dólares), os
santos padroeiros do capitalismo do livre mercado, certamente passariam no
“Teste do Departamento do Tesouro Americano”, não é mesmo?
Thomas Jefferson talvez se opusesse ao protecionismo de Hamilton mas,
ao contrário deste último, que apoiava o sistema de patentes, Jefferson se
opunha fortemente a elas. Ele acreditava que as ideias são “como o ar” e,
portanto, não deveriam pertencer a ninguém. Tendo em vista a ênfase que
quase todos os economistas atuais que defendem o livre mercado colocam na
proteção de patentes e outros direitos da propriedade intelectual, as opiniões
de Jefferson seriam muito mal recebidas por eles.
Resta ainda Andrew Jackson, o protetor do “homem comum” e defensor
do conservadorismo fiscal (ele pagou todas as dívidas do governo federal pela
primeira vez na história dos Estados Unidos) não é mesmo? Infelizmente para
os seus fãs, nem mesmo ele passaria no teste. Durante o governo de Jackson,
as tarifas industriais médias se situavam em torno de 35 a 40%. Ele também
era notoriamente contra o investimento estrangeiro. Quando cancelou em
1836 a licença do (segundo) banco dos Estados Unidos (o governo federal
americano era dono de 20% dele), uma das principais desculpas foi que os
investidores estrangeiros (principalmente os britânicos) eram proprietários de
uma parte “grande demais” do banco. E quanto foi considerado grande
demais? Apenas 30%. Se o presidente de um país em desenvolvimento cancelasse hoje a licença de um banco porque os americanos eram
proprietários de 30% dele, essa medida faria com que o Departamento do
Tesouro dos Estados Unidos tivesse um “chilique”.
Então, aí está. Diariamente, dezenas de milhões de americanos passam o
dia pagando o táxi e comprando sanduíches com um Hamilton ou um
Lincoln, recebendo o troco em Washingtons, sem se dar conta de que esses
venerados políticos são detestáveis protecionistas que os meios de
comunicação do seu país, tanto conservadores quanto liberais, adoram
recriminar. Os banqueiros de Nova York e os professores universitários de
Chicago emitem sons de desaprovação enquanto leem artigos que criticam a
palhaçada contra os investimentos estrangeiros de Hugo Chávez, o Presidente
venezuelano, em exemplares do Wall Street Journal comprado com um Andrew
Jackson, sem se dar conta de que ele condenava ainda mais o investimento
estrangeiro do que Chávez.
Presidentes mortos não falam. Mas se falassem, diriam aos americanos e ao
resto do mundo que as políticas que os seus sucessores promovem hoje são
totalmente opostas às que eles usaram para transformar uma economia agrária
de segunda qualidade, dependente do trabalho escravo, na maior potência
industrial do mundo.
Faça o que eu digo, não o que eu fiz
Quando são lembrados do passado protecionista dos Estados Unidos, os
economistas que defendem o livre mercado geralmente retrucam que o país
prosperou apesar do protecionismo, e não por causa dele. Eles afirmam que,
de qualquer modo, o país estava destinado a crescer rápido, por ter sido
excepcionalmente bem provido de recursos naturais e por ter recebido muitos
imigrantes esforçados e altamente motivados. Eles também comentam que o
grande mercado interno da nação de algum modo mitigou os efeitos negativos
do protecionismo, permitindo um certo grau de concorrência entre empresas
do país.
Mas o problema que essa resposta encerra é que, por mais dramático que
isso possa ser, os Estados Unidos não são o único país que prosperou com
políticas que contrariam a doutrina do livre mercado. Na realidade, como detalharei mais adiante, quase todos os países ricos de hoje prosperaram com
essas políticas.[24] E, uma vez que são países com condições muito diferentes,
não é possível afirmar que todos compartilhavam algumas condições especiais
que neutralizaram os impactos negativos do protecionismo e outras políticas
“erradas”. Os Estados Unidos podem ter sido favorecidos por um grande
mercado interno, mas o que dizer da minúscula Finlândia ou da Dinamarca? Se
você acha que os Estados Unidos foram beneficiados com a abundância de
recursos naturais, como você explica o sucesso de países como a Coreia e a
Suíça que praticamente não tinham recursos naturais? Se a imigração foi um
fator positivo para os Estados Unidos, o que dizer de todos esses outros países
— entre eles a Alemanha e Taiwan — que perderam alguns dos seus melhores
cidadãos para os Estados Unidos e outros países do Novo Mundo? O
argumento das “condições especiais” simplesmente não funciona.
A Grã-Bretanha, o país que muitas pessoas acreditam ter inventado o livre
comércio, construiu a sua prosperidade baseada em políticas semelhantes às
promovidas por Hamilton. Isso não foi uma coincidência. Embora Hamilton
tenha sido a primeira pessoa a teorizar o argumento da “indústria na infância”,
muitas das suas políticas foram copiadas de Robert Walpole, considerado o
primeiro Primeiro-Ministro britânico,[25] que governou o país entre 1721 e
1742.
Em meados do século XVIII, a Grã-Bretanha entrou na indústria
manufatureira da lã, a indústria de tecnologia avançada da época e que fora
dominada pelos Países Baixos (que são hoje a Bélgica e a Holanda), com a
ajuda da proteção tarifária, de subsídios e outros respaldos que Walpole e os
seus sucessores proporcionaram aos fabricantes de lã do país. A indústria logo
passou a fornecer a principal fonte de receita de exportação da Grã-Bretanha,
o que permitiu que o país importasse os alimentos e a matéria-prima de que
necessitava para iniciar a Revolução Industrial no final do século XVIII e no
início do século XIX. A Grã-Bretanha só veio a adotar o livre comércio na
década de 1860, quando a sua dominância industrial era absoluta. Da mesma
maneira pela qual os Estados Unidos eram o país mais protecionista do
mundo durante a maior parte da sua fase de ascendência (da década de 1830
até a década de 1940), a Grã-Bretanha foi um dos países mais protecionistas do mundo durante grande parte da sua ascensão econômica (da década de
1720 à década de 1850).
Praticamente todos os países ricos da atualidade usaram o protecionismo e
subsídios para promover as suas indústrias na infância. Muitos deles
(especialmente o Japão, a Finlândia e a Coreia) também restringiram
fortemente o investimento estrangeiro. Entre as décadas de 1930 e 1980, a
Finlândia costumava classificar todas as empresas com mais de 20% de
propriedade estrangeira como “empreendimentos perigosos”. Vários deles
(especialmente a França, a Áustria, a Finlândia, Cingapura e Taiwan) usavam
empresas estatais para promover indústrias essenciais. Cingapura, que é famosa
pelas suas políticas de livre comércio e atitudes receptivas para com os
investidores estrangeiros, gera mais de 20% da sua produção por meio de
empresas estatais quando a média internacional está situada em torno de 10%.
Tampouco os países ricos de hoje protegeram muito bem os direitos de
propriedade intelectual dos estrangeiros, às vezes até deixando de fazê-lo
completamente; em muitos deles, era legal patentear a invenção de outra
pessoa, desde que essa pessoa fosse um estrangeiro.
É claro que houve exceções. A Holanda, a Suíça (até a Primeira Guerra
Mundial) e Hong Kong usaram pouco protecionismo, mas nem mesmo esses
países seguiam as doutrinas ortodoxas atuais. Argumentando que as patentes
são monopólios artificiais que contrariam o princípio do livre comércio (um
ponto que estranhamente perdeu terreno com a maioria dos economistas que
hoje defendem o livro comércio), a Holanda e a Suíça se recusaram a proteger
patentes até o início do século XX. Embora não fizesse o mesmo baseado
nesses mesmos princípios, Hong Kong era até recentemente ainda mais
notório pela violação de direitos de propriedade intelectual do que os países
que acabo de citar. Aposto como você conhece alguém — ou pelo menos tem
um amigo que conhece alguém — que comprou software pirata, a imitação de
um Rolex ou uma camiseta “não oficial” de Calvin & Hobbes de Hong Kong.
A maioria dos leitores poderá considerar o meu relato histórico ilógico.
Depois de ter ouvido repetidamente que as políticas de livre mercado são as
melhores para o desenvolvimento econômico, eles talvez achem misterioso o
fato de quase todos os países de hoje poderem ter usado todas essas políticas
supostamente nocivas — como o protecionismo, os subsídios, a regulamentação e a propriedade estatal da indústria — e mesmo assim terem
ficado ricos.
A resposta reside no fato de que essas más políticas eram na verdade boas
políticas, considerando-se o estágio de desenvolvimento econômico no qual
esses países se encontravam na época, por várias razões. Primeiro temos o
argumento de Hamilton da indústria na infância, que explico mais
detalhadamente no meu livro anterior Bad Samaritans. Pelo mesmo motivo que
enviamos os nossos filhos para a escola em vez de obrigá-los a competir com
os adultos no mercado de trabalho, os países em desenvolvimento precisam
proteger e cultivar os seus produtores antes que eles adquiram a capacidade de
competir sem ajuda no mercado mundial. Segundo, nos primeiros estágios de
desenvolvimento, os mercados não funcionam muito bem por várias razões —
transporte ineficiente, fluxo de informações insatisfatório, o pequeno tamanho
do mercado que faz com que os grandes participantes tenham mais facilidade
em manipular as coisas e assim por diante. Isso significa que o governo precisa
regulamentar mais ativamente o mercado e, às vezes, deliberadamente criar
alguns mercados. Terceiro, nesses estágios, o governo precisa fazer ele mesmo
muitas coisas por intermédio de empresas estatais, porque simplesmente não
há um número suficiente de empresas no setor privado capazes de assumir
projetos de alto risco em grande escala.
Apesar da sua história, os países ricos obrigam os países em
desenvolvimento a abrir as fronteiras e expor a sua economia à plena força da
concorrência internacional, usando as condições agregadas à sua ajuda
econômica bilateral e aos empréstimos das instituições financeiras
internacionais que eles controlam (como o FMI e o Banco Mundial) bem
como a influência ideológica que eles exercem por meio da dominância
intelectual. Ao promover políticas que não usaram quando eram países em
desenvolvimento, eles estão dizendo aos países em desenvolvimento de hoje:
“Façam o que eu digo, e não o que fiz.”
Uma doutrina a favor do crescimento que reduz o crescimento
Quando a hipocrisia histórica dos países ricos é enfatizada, alguns defensores
do livre mercado retrucam dizendo o seguinte: “Bem, o protecionismo e outras políticas intervencionistas podem ter funcionado na América do século
XIX ou no Japão de meados do século XX, mas os países em
desenvolvimento não se deram mal quando tentaram essas políticas nas
décadas de 1960 e 1970?” O que talvez tenha funcionado no passado, dizem
eles, não dará necessariamente certo hoje.
A verdade é que os países em desenvolvimento não tiveram um mau
desempenho nos “velhos dias perniciosos” do protecionismo e da intervenção
estatal dos anos 1960 e 1970. Na realidade, o seu crescimento econômico
nesse período foi bem superior ao que eles alcançaram a partir de 1980 na
presença de uma maior abertura e desregulamentação.
Desde os anos 1980, além da crescente desigualdade (o que era de se
esperar devido à natureza das reformas, que favorece os ricos —, a maioria
dos países em desenvolvimento experimentou uma significativa desaceleração
do crescimento econômico. O crescimento da renda per capita no mundo em
desenvolvimento caiu de 3% ao ano nas décadas de 1960 e 1970 para 1,7% no
período de 1980 a 2000, quando teve lugar o maior número de reformas de
livre mercado. Durante a década de 2000, houve uma recuperação no
crescimento do mundo em desenvolvimento, o que elevou a taxa de
crescimento para 2,6% no período de 1980 a 2009, mas esse aumento foi
causado em grande medida pelo rápido crescimento da China e da Índia —
dois gigantes que, embora tenham tomado medidas liberalizantes, não
adotaram políticas neoliberais.
O desempenho do crescimento em regiões que seguiram religiosamente a
receita neoliberal, ou seja, a América Latina e a África subsaariana, foi muito
inferior ao que fora nos “velhos dias perniciosos”. Nos anos de 1960 e 1970, o
crescimento per capita da América Latina foi de 3,1%. Entre 1980 e 2009, esse
crescimento foi apenas levemente superior a um terço desse percentual: 1,1%.
E mesmo assim, essa taxa deveu-se, em parte, ao rápido crescimento de países
da região que haviam explicitamente rejeitado as políticas neoliberais em algum
momento da década de 2000, a saber, a Argentina, o Equador, o Uruguai e a
Venezuela. O crescimento per capita da África subsaariana foi de 1,6% durante
os “velhos dias perniciosos”, mas a sua taxa de crescimento entre 1980 e 2009
foi de apenas 0,2%.
Resumindo, o livre comércio, as políticas de livre mercado são políticas que
raramente funcionaram, se é que um dia deram certo. A maioria dos países
ricos não utilizou essas políticas quando eram países em desenvolvimento,
enquanto essas políticas desaceleraram o crescimento e aumentaram a
desigualdade da renda nos países em desenvolvimento nas últimas três
décadas. Poucos países ficaram ricos por meio do livre comércio e de políticas
de livre mercado, e poucos jamais ficarão.
OceanofPDF.com