23 Coisas que Não Nos Contaram sobre o Capitalismo
6 - A maior estabilidade macroeconômica não tornou a economia mundial mais estável
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A maior estabilidade macroeconômica não
tornou a economia mundial mais estável
O que eles dizem
Até a década de 1970, a inflação era o inimigo público número um. Muitos
países sofriam com experiências desastrosas de hiperinflação. Mesmo quando
uma magnitude hiperinflacionária não era alcançada, a instabilidade econômica
causada por uma inflação alta e flutuante desestimulava o investimento e,
portanto, o crescimento. Por sorte, o monstro da inflação foi exterminado na
década de 1990, graças a atitudes mais rigorosas com relação aos déficits
orçamentários do governo e à crescente introdução de bancos centrais
politicamente independentes que são livres para se concentrar unilateralmente
no controle da inflação. Considerando-se que a estabilidade econômica é
necessária para o investimento a longo prazo e, portanto, para o crescimento, a
subjugação da fera chamada inflação assentou a base para uma maior
prosperidade a longo prazo.
O que eles não dizem
A inflação pode ter sido subjugada, mas a economia mundial tornou-se
consideravelmente mais instável. A proclamação entusiástica do nosso sucesso
ao controlar a volatilidade dos preços nas três últimas décadas não deu atenção
à extraordinária instabilidade exibida pelas economias ao redor do mundo
nessa ocasião. Houve um número enorme de crises financeiras, entre elas a
crise financeira mundial de 2008, que destruiu a vida de muitas pessoas por
meio do endividamento pessoal, da falência e do desemprego. O foco
excessivo na inflação distraiu a nossa atenção de questões como o pleno
emprego e o crescimento econômico. O emprego se tornou mais instável em nome da “flexibilidade do mercado de trabalho”, o que desestabilizou a vida
de muitas pessoas. Apesar da afirmação de que a estabilidade dos preços é a
precondição para o crescimento, as políticas que tencionavam reduzir a
inflação produziram apenas um crescimento anêmico a partir da década de
1990, época em que a inflação foi supostamente subjugada.
É lá que está o dinheiro — está mesmo?
Em janeiro de 1923, tropas francesas e belgas ocuparam a região do Ruhr na
Alemanha, conhecida pela sua produção de carvão e aço. Isso aconteceu
porque, em 1922, a Alemanha atrasou seriamente os pagamentos de
indenização que estavam obrigados a fazer pelo Tratado de Versalhes, assinado
na conclusão da Primeira Guerra Mundial.
Se queriam mais dinheiro, contudo, os franceses e os belgas deveriam ter
tomado os bancos — afinal de contas, “é lá que está o dinheiro”, como
supostamente teria declarado o famoso assaltante de bancos americano Willie
Sutton, quando lhe perguntaram por que ele assaltava bancos — em vez de
ocupar um punhado de minas de carvão e usinas de aço. Por que não fizeram
isso? Porque estavam preocupados com a inflação alemã.
A partir do verão de 1922, a inflação na Alemanha começara a ficar
descontrolada. O índice do custo de vida subiu 16 vezes em seis meses no
segundo semestre de 1922. É claro que a hiperinflação era causada, pelo
menos em parte, pelas onerosas indenizações exigidas pelos franceses e pelos
belgas, mas depois que ela começou, a ocupação do Ruhr pelos franceses e
belgas a fim de garantir que receberiam o pagamento das indenizações de
guerra em mercadorias, como carvão e aço, e não em um papel inútil, cujo
valor diminuiria rapidamente, foi uma atitude completamente racional.
Eles acertaram ao fazer isso. A inflação alemã ficou totalmente
descontrolada depois da ocupação do Ruhr, com os preços aumentando mais
de dez bilhões de vezes (isso mesmo, bilhões, não milhares ou mesmo
milhões) até novembro de 1923, quando foi introduzido o Rentenmark, a nova
moeda.
A hiperinflação alemã deixou marcas enormes e duradouras na evolução da
Alemanha. Alguns afirmam, justificadamente, que a experiência da hiperinflação assentou a base para a ascensão dos nazistas por ter
desacreditado as instituições liberais da República de Weimar. Aqueles que
adotam essa perspectiva estão então implicitamente dizendo que a
hiperinflação da década de 1920 na Alemanha foi uma das principais causas da
Segunda Guerra Mundial. O trauma alemão causado pela hiperinflação foi tão
grande que o Bundesbank, o banco central da Alemanha Ocidental depois da
Segunda Guerra Mundial, ficou famoso pela sua aversão excessiva a uma
política monetária flexível. Mesmo depois da criação da moeda única europeia,
o euro, e a consequente extinção de facto dos bancos centrais nacionais nos
países da zona do euro, a influência da Alemanha fez com que o Banco
Central Europeu (BCE — European Central Bank) aderisse a uma rígida
política monetária mesmo diante de um desemprego persistentemente elevado,
até que a crise financeira mundial de 2008 obrigou-o a se juntar a outros
bancos centrais ao redor do mundo em um relaxamento sem precedente da
política monetária. Portanto, quando falamos sobre as consequências da
hiperinflação alemã, estamos falando a respeito de uma onda de choque que já
dura quase um século depois do acontecimento e vem afetando não apenas a
Alemanha, mas também a história de outros países da Europa e no mundo.
O quanto a inflação é prejudicial?
A Alemanha não é o único país que passou pela experiência da hiperinflação.
Na imprensa financeira, a Argentina tornou-se sinônimo de hiperinflação nos
tempos modernos, mas a taxa de inflação mais elevada que ela teve foi apenas
de aproximadamente 20.000%. Pior do que a alemã foi a inflação húngara logo
depois da Segunda Guerra Mundial e a do Zimbábue em 2008 nos últimos
dias da ditadura do Presidente Robert Mugabe (hoje ele divide o poder com a
antiga oposição).
A hiperinflação debilita a base do capitalismo, transformando os preços de
mercado em ruídos inexpressivos. No auge da inflação húngara em 1946, os
preços duplicavam a cada quinze horas, enquanto haviam duplicado a cada
quatro dias nos piores dias da hiperinflação alemã de 1923. Os indicadores de
preços não devem ser guias absolutos, como argumento ao longo de todo este
livro, mas é impossível ter uma economia satisfatória quando os preços aumentam com essa velocidade. Além disso, a hiperinflação é com frequência
o resultado ou a causa de desastres políticos, como Adolf Hitler ou Robert
Mugabe. É extremamente compreensível que as pessoas desejem
desesperadamente evitar a hiperinflação.
No entanto, nem toda inflação é hiperinflação. Naturalmente, existem
pessoas que temem que qualquer inflação, se ignorada, aumentará e se
transformará em uma hiperinflação. No início do milênio, por exemplo, o Sr.
Masaru Hayami, presidente do banco central do Japão, ficou famoso ao se
recusar a afrouxar o suprimento de dinheiro com a justificativa de que estava
preocupado com a possibilidade de uma hiperinflação — apesar do fato de o
país estar na ocasião no meio de uma deflação (preços em queda). Mas não
existe nenhuma evidência de que isso seja inevitável — ou mesmo provável.
Ninguém argumentaria que a hiperinflação é desejável, ou até mesmo aceitável,
mas é altamente questionável afirmar que toda inflação é nociva, seja qual for a
taxa.
A partir da década de 1980, os economistas que defendem o livre mercado
conseguiram convencer o resto do mundo de que a estabilidade econômica,
que eles definem como uma inflação muito baixa (idealmente zero), deveria ser
alcançada a todo custo, já que a inflação é nociva para a economia. A inflação-
alvo recomendada por eles tem sido algo em torno de 1 a 3% ao ano, como
sugerido por Stanley Fischer, ex-professor de economia do MIT e economista
principal do FMI de 1994 a 2001.[17]
Entretanto, não existe efetivamente nenhuma evidência de que, em níveis
baixos, a inflação seja prejudicial à economia. Por exemplo, até mesmo estudos
realizados por alguns economistas vinculados a instituições como a University
of Chicago e o FMI indicam que, quando menor do que 8 a 10% ao ano, a
inflação não tem nenhum relacionamento com a taxa de crescimento de um
país.[18] Outros estudos até mesmo elevam esse limite, colocando-o em de 20
a 40% ao ano.[19]
A experiência isolada de cada país também sugere que uma inflação
relativamente elevada é compatível com um rápido crescimento econômico.
Durante os anos de 1960 e 1970, o Brasil teve uma inflação anual média de
42%, mas foi uma das economias mundiais que cresceram mais rápido, com a
renda per capita aumentando 4,5% ao ano. Nesse mesmo período, a renda per capita da Coreia do Sul estava aumentando 7% ao ano, apesar de apresentar
uma taxa de inflação média anual de quase 20%, que era na verdade superior à
encontrada em muitos países latino-americanos na época.[20]
Além disso, há indícios de que políticas anti-inflacionárias excessivas
podem na realidade ser prejudiciais à economia. Desde 1996, quando o Brasil,
por ter passado por uma fase traumática de inflação acelerada, embora não
exatamente de magnitude hiperinflacionária, começou a controlar a inflação
elevando as taxas de juros reais (as taxas de juros nominais menos a taxa de
inflação) para níveis que estão entre os mais altos do mundo (10 a 12% ao
ano), a sua inflação caiu para 7,1% ao ano mas o crescimento econômico
também sofreu, pois a sua taxa de crescimento da renda per capita foi de apenas
1,3% ao ano. A África do Sul também passou por uma experiência semelhante
a partir de 1994, quando começou a conferir uma alta prioridade ao controle
da inflação elevando as taxas de juros aos níveis brasileiros que acabo de
mencionar.
Por que isso acontece? Porque as políticas que visam reduzir a inflação na
realidade reduzem os investimentos e, portanto, o crescimento econômico, se
levadas longe demais. Os economistas que defendem o livre mercado
frequentemente tentam justificar a sua rígida atitude contra a inflação
argumentando que a estabilidade econômica incentiva a poupança e o
investimento, o que, por sua vez, estimula o crescimento econômico. Assim, ao
tentar argumentar que a estabilidade macroeconômica, definida em função de
uma inflação baixa, foi um fator fundamental no rápido crescimento das
economias do Leste Asiático (uma proposição que na verdade não se aplica à
Coreia do Sul, como acabamos de ver), o Banco Mundial argumenta no seu
relatório de 1993: “A estabilidade macroeconômica estimula o planejamento e
o investimento privado a longo prazo e, por intermédio do seu impacto sobre
as taxas de juros reais e o valor real dos ativos financeiros, ajudou a aumentar a
poupança financeira.” No entanto, a verdade é que as políticas necessárias para
reduzir a inflação a um nível muito baixo, de um único algarismo,
desestimulam os investimentos.
Taxas de juros reais de 8, 10 ou 12% ao ano significam que os investidores
em potencial não considerariam atrativos os investimentos não financeiros, já
que poucos desses investimentos têm taxas de lucros superiores a 7%.[21] Nesse caso, os únicos investimentos lucrativos são os ativos financeiros com
retorno elevado de alto risco. Embora os investimentos financeiros possam
impulsionar o crescimento durante algum tempo, esse crescimento não pode
ser sustentado, pois esses investimentos precisam no final estar respaldados
por investimentos viáveis a longo prazo em atividades do setor real, como foi
incisivamente demonstrado pela crise financeira de 2008.
Portanto, os economistas que defendem o livre mercado deliberadamente
se aproveitaram dos receios justificados das pessoas com relação a
hiperinflação a fim de pressionar a implantação de políticas anti-inflacionárias
exageradas, que causam mais mal do que bem. Isso já é ruim o bastante, mas
se torna ainda pior. As políticas anti-inflacionárias não apenas prejudicaram o
investimento e o crescimento, como também deixaram de atingir o seu
suposto objetivo, ou seja, aumentar a estabilidade econômica.
Falsa estabilidade
Desde os anos 1980, mas especialmente a partir dos anos 1990, o controle da
inflação tem estado no topo da agenda política de muitas nações. Foi
recomendado com insistência aos países que refreassem os gastos públicos,
para que os déficits do orçamento não alimentassem a inflação. Eles também
foram incentivados a tornar o banco central politicamente independente, para
que ele pudesse elevar as taxas de juros para níveis bem altos, se necessário
contra o protesto popular, algo a que os políticos não conseguiriam resistir.
A luta foi longa, mas o monstro chamado inflação foi subjugado na
maioria dos países em anos recentes. De acordo com dados do FMI, entre
1990 e 2008, a taxa média de inflação caiu em 97 de 162 países, em
comparação com as taxas das décadas de 1970 e 1980. O combate à inflação
foi particularmente bem-sucedido nos países ricos: a inflação caiu em todos
eles. A inflação média nos países da OCDE — Organização para Cooperação
e Desenvolvimento Econômico (cuja maioria é rico, embora nem todos os
países ricos façam parte da OCDE) caiu de 7,9% para 2,6% entre os dois
períodos (décadas de 1970 e 1980 versus décadas de 1990 e 2000). O mundo,
especialmente se você vive em um país rico, ficou mais estável — ficou
mesmo?
O fato é que o mundo ficou mais estável somente se encararmos a inflação
baixa como o único indicador da estabilidade econômica, mas ele não se
tornou mais estável na maneira como a maioria de nós o vivencia.
Um dos sentidos no qual o mundo se tornou mais instável ao longo das
três décadas de dominância do livre mercado e fortes políticas anti-
inflacionárias é a crescente frequência e extensão das crises financeiras. De
acordo com um estudo de Kenneth Rogoff, um ex-economista principal do
FMI e hoje professor da Harvard University, e Carmen Reinhart, professora da
University of Maryland, praticamente nenhum país se encontrava em uma crise
bancária entre o final da Segunda Guerra Mundial e meados da década de
1970, quando o mundo era muito mais instável do que hoje, quando avaliado
pela inflação. Entre meados dos anos 1970 e o final dos anos 1980, quando a
inflação se acelerou em muitos países, a proporção de países com crises
financeiras aumentou para 5 a 10%, influenciada pela sua participação na
renda mundial, aparentemente confirmando a visão do mundo centrada na
inflação. No entanto, a proporção de países com crises bancárias subiu de
repente para cerca de 20% em meados dos anos 1990, quando supostamente
havíamos subjugado o monstro chamado inflação e atingido a meta evasiva da
estabilidade econômica. Essa proporção caiu então por um breve período para
zero em meados da década de 2000, mas subiu novamente para 35% depois da
crise financeira mundial de 2008 (e está propensa a subir mais ainda enquanto
escrevo estas linhas, ou seja, no início de 2010).[22]
Outro sentido no qual o mundo se tornou mais instável durante as três
últimas décadas é o fato de a insegurança no emprego ter aumentado para
muitas pessoas nesse período. A segurança no emprego sempre foi baixa nos
países em desenvolvimento, mas a parcela de empregos inseguros no chamado
“setor informal” — o conjunto de empresas não registradas que não pagam
impostos e nem respeitam leis, inclusive as que definem a segurança no
emprego — aumentou em muitos países em desenvolvimento durante esse
período, devido à prematura liberalização das profissões que destruiu muitos
empregos “formais” seguros nas suas indústrias. Nos países ricos, a
insegurança no emprego também aumentou durante os anos de 1980, devido
ao crescente desemprego (em comparação com o período entre os anos 1950 e
1970), o que, em parte, foi resultado de políticas macroeconômicas restritivas que colocaram o controle da inflação acima de tudo o mais. O desemprego
diminuiu a partir da década de 1990, mas a insegurança no emprego aumentou
ainda mais, em comparação com o período anterior à década de 1980.
Existem muitas razões para isso. Primeiro, a proporção de empregos de
curto prazo aumentou na maioria dos países ricos, embora não tanto quanto
algumas pessoas pensam. Segundo, embora aqueles que conservam o emprego
possam permanecer no mesmo emprego quase (embora não exatamente)
tanto tempo quanto os seus equivalentes do período anterior à década de 1980
costumavam permanecer, uma proporção mais elevada de rescisões do
contrato de trabalho tornou-se involuntária, pelo menos em alguns países
(especialmente nos Estados Unidos). Terceiro, particularmente no Reino
Unido e nos Estados Unidos, empregos que haviam sido predominantemente
seguros até mesmo durante os anos de 1980 — executivos, administrativos e
os das profissões especializadas — se tornaram inseguros a partir dos anos de
1990. Quarto, mesmo que o emprego em si tenha permanecido seguro, a sua
natureza e intensidade se tornaram sujeitas a mudanças mais frequentes e
maiores — com frequência para pior. De acordo com um estudo de 1999
realizado para a Joseph Rowntree Foundation, por exemplo, a instituição
beneficente da reforma social britânica que recebeu o nome em homenagem
ao famoso empresário filantropo quacre, quase dois terços dos trabalhadores
britânicos declararam ter sofrido um aumento na velocidade ou intensidade do
trabalho com relação ao período precedente de cinco anos. Finalmente e
igualmente importante, em muitos (embora não em todos) países ricos, o
estado do bem-estar social foi reduzido a partir da década de 1980, de modo
que as pessoas se sentem mais inseguras, mesmo que a probabilidade objetiva
da perda do emprego seja a mesma.
A questão é que a estabilidade dos preços é apenas um dos indicadores da
estabilidade econômica. Na realidade, para algumas pessoas, esse não é nem
mesmo o indicador mais importante. Os acontecimentos mais
desestabilizadores na vida da maioria das pessoas são coisas como perder o
emprego (ou tê-lo radicalmente redefinido) ou perder a sua casa em uma crise
financeira, e não a alta dos preços, a não ser que o aumento seja de uma
magnitude hiperinflacionária (você consegue jurar de pés juntos que consegue
diferençar uma inflação de 4% de uma de 2%?). É por esse motivo que o controle da inflação não conferiu à maioria das pessoas a sensação de
estabilidade que os guerreiros anti-inflacionários tinham dito que ela faria.
A coexistência da estabilidade de preços (ou seja, a inflação baixa) e o
aumento da instabilidade econômica em formas não ligadas aos preços, como
crises bancárias mais frequentes e a crescente insegurança no emprego, não é
uma coincidência. Tudo isso é resultado do mesmo pacote de medidas do livre
mercado.
No estudo citado anteriormente, Rogoff e Reinhart ressaltam que a
proporção de países nas crises bancárias está estreitamente relacionada com o
grau de mobilidade do capital internacional. Essa maior mobilidade
internacional é uma meta primordial para os economistas que defendem o livre
mercado, que acreditam que o fato de o capital ter uma maior liberdade para
atravessar fronteiras melhoraria a eficiência do uso do capital. Por conseguinte,
eles têm pressionado a abertura do mercado de capital ao redor do mundo,
embora recentemente tenham suavizado a sua posição nesse sentido com
relação aos países em desenvolvimento.
Do mesmo modo, a crescente insegurança no emprego é uma
consequência direta das políticas de livre mercado. A insegurança manifestada
na elevada taxa de desemprego nos países ricos nos anos de 1980 foi resultado
de rigorosas políticas macroeconômicas anti-inflacionárias. Entre a década de
1990 e a irrupção da crise de 2008, embora o desemprego tenha diminuído, a
probabilidade de uma rescisão involuntária do contrato de trabalho aumentou,
a parcela de empregos de curto prazo cresceu, os empregos foram redefinidos
com mais frequência e o trabalho foi intensificado em muitas ocupações —
tudo resultado de mudanças nas regulamentações do mercado de trabalho que
se destinavam a aumentar a flexibilidade do mercado de trabalho e, portanto, a
eficiência econômica.
O pacote de medidas do livre mercado, frequentemente conhecido como
pacote de medidas neoliberais, enfatiza uma menor inflação, uma maior
mobilidade do capital e mais insegurança no emprego (eufemisticamente
chamada de maior flexibilidade do mercado de trabalho), essencialmente
porque está voltado para os interesses dos detentores dos ativos financeiros. O
controle da inflação é enfatizado porque muitos ativos financeiros têm taxas
de retorno fixadas nominalmente, de modo que a inflação reduz o retorno real. A maior mobilidade do capital é promovida porque a principal fonte da
capacidade de os detentores dos ativos financeiros colherem um retorno mais
elevado do que os detentores de outros ativos (físicos e humanos) é a sua
capacidade de deslocar mais rápido os seus ativos. A maior flexibilidade do
mercado de trabalho é exigida porque, do ponto de vista dos investidores
financeiros, tornar mais fácil a contratação e a demissão dos trabalhadores
possibilita que as empresas sejam reestruturadas com mais rapidez, o que
significa que elas podem ser vendidas e compradas mais de imediato com
melhores balanços patrimoniais a curto prazo, gerando retornos financeiros
mais elevados.
Mesmo que tenham aumentado a instabilidade financeira e a insegurança
no emprego, as políticas que visam aumentar a estabilidade dos preços
poderiam ser parcialmente justificadas, se tivessem aumentado os
investimentos e, consequentemente, o crescimento, como haviam previsto os
exterminadores da inflação. No entanto, a economia mundial cresceu muito
mais lentamente durante a era de baixa inflação que se seguiu à década de
1980, em comparação com o período de inflação elevada das décadas de 1960
e 1970. Mesmo nos países ricos a partir da década de 1990, onde a inflação foi
completamente controlada, o crescimento da renda per capita caiu de 3,2% nas
décadas de 1960 e 1970 para 1,4% durante o período de 1990 a 2009.
Em suma, a inflação, em níveis baixos a moderados, não é tão perigosa
quanto insinuam os economistas que defendem o livre mercado. Tentativas de
fazer a inflação baixar para níveis muito baixos reduziram o investimento e o
crescimento. O que é ainda mais importante, a inflação mais baixa nem mesmo
trouxe uma genuína estabilidade econômica para a maioria de nós. As
liberalizações de capital e dos mercados de trabalho que são parte integrante
do pacote de medidas do livre mercado, aumentaram a instabilidade financeira
e a insegurança no emprego, tornando o mundo mais instável para quase todo
mundo. E jogando mais sal na ferida, o suposto impacto positivo no
crescimento que o controle da inflação acarretaria não se materializou.
A nossa obsessão pela inflação deve terminar. A inflação se tornou o
bicho-papão que tem sido usado para justificar políticas que favoreceram
principalmente os detentores dos ativos financeiros, à custa da estabilidade a
longo prazo, do crescimento econômico e da felicidade humana.
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