23 Coisas que Não Nos Contaram sobre o Capitalismo
11 - A África não está destinada ao subdesenvolvimento
11
A África não está destinada ao
subdesenvolvimento
O que eles dizem
A África está destinada ao subdesenvolvimento. Ela tem um clima
desfavorável, o que acarreta graves problemas de doenças tropicais. A sua
situação geográfica é péssima; muitos dos seus países não têm acesso ao mar, e
são cercados por outros cujos pequenos mercados oferecem limitadas
oportunidades de exportação e cujos conflitos violentos se espalham pelas
nações vizinhas. O continente tem um excesso de recursos naturais, o que fez
com que o seu povo se tornasse preguiçoso, corrupto e predisposto a
conflitos. As nações africanas são etnicamente divididas, o que as torna difíceis
de administrar e mais propensas a experimentar conflitos violentos. As suas
instituições não protegem adequadamente os investidores. A sua cultura é
ruim; as pessoas não trabalham muito, não poupam e não são capazes de
cooperar umas com as outras. Todas essas desvantagens estruturais explicam
por que, ao contrário de outras regiões do mundo, o continente deixou de
crescer mesmo depois de ter implementado uma significativa liberalização do
mercado a partir da década de 1980. A África só conseguirá avançar com o
apoio da ajuda externa.
O que eles não dizem
A África nem sempre esteve estagnada. Nas décadas de 1960 e 1970, quando
todos os supostos impedimentos estruturais ao crescimento estavam presentes
e eram, com frequência, mais restritivos, ela na realidade apresentou um
desempenho de crescimento satisfatório. Além disso, todas as desvantagens
estruturais que supostamente refreiam a África estiveram presentes na maioria
dos países ricos de hoje — um clima desfavorável (ártico e tropical), a falta de acesso ao mar, recursos naturais abundantes, divisões étnicas, instituições
deficientes e uma cultura ruim. Essas condições estruturais só parecem atuar
como impedimentos ao desenvolvimento da África porque os países desse
continente ainda não possuem as tecnologias, instituições e habilidades
organizacionais necessárias para lidar com as suas consequências adversas. A
verdadeira causa da estagnação africana nas últimas três décadas são as
políticas de livre mercado que o continente foi obrigado a implementar
durante esse período. Ao contrário da história e da geografia, as políticas
podem ser modificadas. A África não está destinada ao subdesenvolvimento.
O mundo segundo Sarah Palin... ou terá sido The Rescuers? [Bernardo e
Bianca?][33]
Dizem que Sarah Palin, a candidata republicana à vice-presidência nas eleições
americanas de 2008, achava que a África era um país e não um continente.
Muitas pessoas se perguntavam de onde ela teria tirado essa ideia, mas eu acho
que sei a resposta. Foi do desenho animado de 1977 da Disney The Rescuers.
The Rescuers gira em torno de um grupo de camundongos chamado Rescue
Aid Society que percorre o mundo, ajudando animais em dificuldades. Em
uma das cenas, tem lugar um congresso internacional da sociedade, com
delegados camundongos dos mais diversos países vestindo os seus trajes
tradicionais e com o sotaque apropriado (quando falavam). O camundongo
francês usa uma boina, a alemã traja um melancólico vestido azul e o
camundongo turco tem um fez na cabeça. Há ainda o camundongo com
chapéu de pele e barba representando a Letônia e uma “camundonga”
representando, bem, a África.
Talvez a Disney não acreditasse literalmente que a África fosse um país,
mas atribuir um delegado para cada país com 2,2 milhões de habitantes e um
único delegado para um continente com mais de 900 milhões de habitantes e
quase sessenta países (o número exato depende de você reconhecer entidades
como Somalilândia e Saara Ocidental como países) nos diz alguma coisa a
respeito da visão da Disney sobre a África. Assim como a Disney, muitas
pessoas veem a África como uma massa amorfa de países que sofrem com o mesmo clima quente, doenças tropicais, a pobreza opressiva, guerras civis e a
corrupção.
Embora devamos ter o cuidado de não amontoar todos os países africanos
em um único grupo, não há como negar que a maioria deles é muito pobre,
especialmente se restringirmos o nosso interesse à África subsaariana (ou
África “negra”), que é realmente o que quase todo mundo quer dizer quando
se refere à África. De acordo com o Banco Mundial, a renda média anual per
capita da África subsaariana foi estimada em 952 dólares em 2007. Esse valor é
um pouco mais elevado do que os 880 dólares do Sul Asiático (Afeganistão,
Bangladesh, Butão, Índia, Maldivas, Nepal, Paquistão e Sri Lanka), porém mais
baixo do que o de qualquer outra região do mundo.
Além disso, muitas pessoas falam da “tragédia de crescimento” da África.
Ao contrário do Sul Asiático, onde as taxas de crescimento se aceleraram a
partir da década de 1980, a África parece estar sofrendo de uma “incapacidade
crônica de crescimento econômico”.[34] A renda per capita atual da África
subsaariana é mais ou menos a mesma que era em 1980. Ainda mais
preocupante é o fato que essa falta de crescimento não parece ser causada
principalmente por escolhas de políticas equivocadas (afinal de contas, como
muitos outros países em desenvolvimento, os países da região implementaram
reformas de livre mercado a partir da década de 1980) e sim pelas
desvantagens transmitidas a eles pela natureza e pela história, sendo portanto
extremamente difícil, ou até mesmo impossível, modificá-las.
A lista de supostas desvantagens “estruturais” que estão refreando a África
é impressionante.
Primeiro, temos todas as condições definidas pela natureza: o clima, a
situação geográfica e os recursos naturais. Por estar perto demais do Equador,
o continente tem uma quantidade excessiva de doenças tropicais, como a
malária, o que reduz a produtividade dos trabalhadores e aumenta os custos
dos cuidados com a saúde. Por não ter acesso ao mar, muitos dos países
africanos têm dificuldade em se integrar na economia mundial. Eles estão em
uma “área desfavorável” no sentido que estão cercados por outros países
pobres que têm mercados pequenos (o que limita as suas oportunidades de
comércio) e, frequentemente, conflitos violentos (que não raro se espalham
para os países vizinhos). Os países africanos supostamente também são “amaldiçoados” pelos seus abundantes recursos naturais. Dizem que a
abundância de recursos torna os africanos preguiçosos — porque eles “podem
se deitar debaixo de um coqueiro e esperar que o coco caia”, como diz uma
expressão popular dessa ideia (se bem que aqueles que dizem isso obviamente
nunca fizeram essa tentativa, porque correriam o risco de ter a cabeça
esmagada). A riqueza oriunda de recursos não ganhos em troca de trabalho
também supostamente estimula a corrupção e os conflitos violentos em torno
das benesses. O sucesso econômico de países pobres em recursos do Leste
Asiático, como o Japão e a Coreia, é frequentemente citado como um caso de
“maldição de recursos reversa”.
Além da natureza, a história da África também está supostamente
refreando o continente. As nações africanas são etnicamente heterogêneas
demais, o que faz com que as pessoas desconfiem umas das outras, tornando
as transações de mercado dispendiosas. Argumenta-se que a diversidade étnica
pode estimular conflitos violentos, especialmente se houver alguns grupos
igualmente fortes (em vez de muitos grupos pequenos, que são mais difíceis de
organizar). Acredita-se que a história do colonialismo tenha produzido
instituições de baixa qualidade na maioria dos países africanos, já que os
colonizadores não queriam se fixar em países com um excesso de doenças
tropicais (de modo que existe uma interação entre o clima e as instituições) e
portanto instalaram apenas as instituições mínimas necessárias para a extração
de recursos, em vez daquelas fundamentais para o desenvolvimento da
economia local. Algumas pessoas até mesmo especulam que a cultura africana
é desfavorável para o desenvolvimento econômico — os africanos não se
esforçam no trabalho, não fazem planos para o futuro e não são capazes de
cooperar uns com os outros.[35]
Considerando-se tudo isso, as perspectivas futuras da África parecem
sombrias. No caso de algumas dessas desvantagens estruturais, qualquer
solução parece inalcançável e inaceitável. Se não ter acesso ao mar, estar perto
demais do Equador e estar situada em uma região desfavorável são coisas que
estão refreando Uganda, o que a nação deveria fazer? Deslocar fisicamente um
país não é uma opção, de modo que a única resposta exequível é o
colonialismo, ou seja, Uganda deveria invadir, digamos, a Noruega, e transferir
todos os noruegueses para Uganda. Se ter um excesso de grupos étnicos é nocivo para o desenvolvimento, deveria a Tanzânia, que tem uma das maiores
diversidades étnicas do mundo, favorecer a prática da purificação étnica? Se ter
um excesso de recursos naturais tolhe o crescimento, deveria a República
Democrática do Congo tentar vender as partes do seu território com
depósitos minerais para, digamos, Taiwan para poder passar adiante a maldição
para outro país? O que deveria Moçambique fazer se a sua história colonial
deixou o país com más instituições? Inventar uma máquina do tempo e
corrigir essa história? Se Camarões tem uma cultura desfavorável ao
desenvolvimento econômico, deveria a nação iniciar um programa de lavagem
cerebral em massa ou colocar as pessoas em um campo de reeducação, como o
Khmer Vermelho fez no Camboja?
Todas essas conclusões de políticas ou são fisicamente impossíveis
(deslocar um país, inventar uma máquina do tempo) ou são política e
moralmente inaceitáveis (invasão de outro país, purificação étnica, campos de
reeducação). Por conseguinte, aqueles que acreditam no poder dessas
desvantagens estruturais mas consideram essas soluções extremas inaceitáveis
argumentam que os países africanos deveriam ser colocados em uma espécie
de “auxílio-invalidez” permanente por intermédio da ajuda externa e de um
auxílio adicional com o comércio internacional (p. ex., os países ricos
reduziriam a sua proteção agrícola somente para os países africanos — e
outros países semelhantemente pobres e estruturalmente desfavorecidos).
Mas existe outra maneira de a África ter um desenvolvimento futuro que
não seja aceitar o seu destino ou se apoiar na ajuda externa? Os países
africanos não têm nenhuma esperança de ser realmente independentes?
Uma tragédia de crescimento africana?
Uma pergunta que precisamos fazer antes de tentar explicar a tragédia do
crescimento da África e examinar possíveis maneiras de superá-la é se tal
tragédia realmente existe. E a resposta é “não”. A falta de crescimento na
região não tem sido crônica.
Durante os anos 1960 e 1970, a renda per capita na África subsaariana
cresceu a uma taxa respeitável. Ela girou em torno de 1,6% e não se
aproximou nem um pouco da taxa de crescimento “milagrosa” do Leste Asiático (5 a 6%) ou mesmo da taxa da América Latina (por volta de 3%)
nesse período. No entanto, não é uma taxa de crescimento a ser desprezada.
Ela se compara favoravelmente com as taxas de 1 a 1,5% alcançadas pelos
países ricos de hoje durante a sua “Revolução” Industrial (aproximadamente
de 1820 a 1913).
O fato de a África ter crescido a uma taxa respeitável antes da década de
1980 sugere que os fatores “estruturais” não podem ser a principal explicação
da falta de crescimento da região (a qual, na realidade, é recente). Se fossem, o
crescimento da África nunca deveria ter existido. Não se trata de os países
africanos terem sido repentinamente deslocados para os trópicos ou alguma
atividade sísmica ter retirado de repente o acesso ao mar de alguns deles. Se os
fatores estruturais eram tão cruciais, o crescimento econômico africano
deveria ter se acelerado com o tempo, já que pelo menos alguns desses fatores
teriam sido atenuados ou eliminados. As instituições de má qualidade deixadas
pelos colonizadores, por exemplo, poderiam ter sido abandonadas ou
aprimoradas. Até mesmo a diversidade étnica poderia ter sido reduzida por
meio da educação compulsória, do serviço militar e dos meios de comunicação
de massa, do mesmo modo como a França conseguiu transformar
“camponeses em franceses”, como diz o título de um livro clássico de 1976 de
autoria do historiador americano Eugen Weber.[36] No entanto, não foi isso
que aconteceu; o crescimento africano se contraiu de repente a partir dos anos
1980.
Portanto, se os fatores estruturais sempre estiveram presentes e se a
influência deles teria, no mínimo, diminuído com o tempo, esses fatores não
podem explicar por que a África estava crescendo a uma taxa satisfatória nas
décadas de 1960 e 1970 e, de repente, parou de crescer. O colapso repentino
do crescimento precisa ser explicado por alguma coisa que aconteceu em
torno de 1980. O principal suspeito é a mudança radical na orientação da
formulação de políticas que teve lugar por volta dessa época.
Desde o final dos anos 1970 (começando pelo Senegal em 1979), os países
da África subsaariana foram obrigados a adotar políticas de livre mercado e de
livre comércio devido às condições impostas pelos chamados Programas de
Ajustamento Estrutural (PAEs) do Banco Mundial e do FMI (e pelos países
ricos que, em última análise, controlam essas entidades). Ao contrário do que diz a sabedoria convencional, essas políticas não são vantajosas para o
desenvolvimento econômico. Por expor de repente produtores imaturos à
concorrência internacional, essas políticas resultaram no colapso dos pequenos
setores industriais que esses países haviam conseguido formar durante os anos
1960 e 1970. Portanto, tendo sido forçados a retroceder e se apoiar novamente
na exportação de commodities primárias, como o cacau, o café e o cobre, os
países africanos continuaram a sofrer com as violentas flutuações de preços e
tecnologias de produção estagnadas que caracterizam a maioria dessas
commodities. Além disso, quando os PAEs exigiram um rápido aumento das
exportações, os países africanos, com recursos tecnológicos somente em uma
gama limitada de atividades, acabaram tentando exportar coisas semelhantes
— fossem eles produtos tradicionais como o café e o cacau ou produtos
novos como flores de corte. O resultado foi com frequência um colapso de
preços nessas commodities devido a um grande aumento da oferta, o que às
vezes significou que esses países estavam exportando uma quantidade maior
porém tendo uma receita menor. A pressão sobre os governos para que
equilibrassem os seus orçamentos resultou em cortes nas despesas cujo
impacto demora a aparecer, como no caso da infraestrutura. Com o tempo,
contudo, a qualidade deteriorante da infraestrutura colocou os produtores
africanos em uma situação ainda mais desvantajosa, fazendo com que as suas
“desvantagens geográficas” assomassem ainda mais.
O resultado dos PAEs — e das suas diversas “encarnações” posteriores,
entre elas os atuais DERPs (Documentos Estratégicos de Redução da
Pobreza) — foi uma economia estagnada que deixou de crescer (do ponto de
vista per capita) durante três décadas. Durante os anos 1980 e 1990, a renda per
capita na África subsaariana caiu a uma taxa de 0,7% ao ano. A região
finalmente começou a crescer na década de 2000, mas a retração das duas
décadas precedentes significou que a taxa média de crescimento da renda per
capita na África subsaariana entre 1980 e 2009 foi de 0,2%. Portanto, depois de
passar quase trinta anos usando políticas “melhores” (ou seja, de livre
mercado), a sua renda per capita encontra-se basicamente no mesmo nível que
estava em 1980.
Por conseguinte, os chamados fatores estruturais são na verdade bodes
expiatórios apresentados pelos economistas que defendem o livre mercado. Ao constatar que as suas políticas prediletas não estavam produzindo bons
resultados, eles tinham que encontrar outras explicações para a estagnação (ou
retrocesso, se não contarmos os grandes aumentos dos últimos anos causados
pelo boom das commodities, o qual chegou ao fim). Era inconcebível para eles que
essas políticas “corretas” pudessem fracassar. O fato de os fatores estruturais
só ser citados como a principal explicação para o sofrível desempenho
econômico da África depois que o crescimento se evaporou no início da década
de 1980 não é nenhuma coincidência.
A África pode alterar a sua geografia e a sua história?
Ressaltar que as variáveis estruturais anteriormente mencionadas foram
invocadas na tentativa de evitar um constrangimento para os economistas que
defendem o livre mercado não significa que elas sejam irrelevantes. Muitas das
teorias apresentadas a respeito de como uma variável estrutural específica afeta
o resultado econômico fazem sentido. O clima desfavorável pode tolher o
desenvolvimento. Estar cercado por países pobres infestados de conflitos
limita as oportunidades de exportação e torna mais provável o extravasamento
de conflitos através das fronteiras. A diversidade étnica ou a abundância de
recursos podem gerar uma dinâmica política desfavorável. No entanto, essas
consequências não são inevitáveis.
Para começar, esses fatores estruturais podem se desenrolar de muitas
maneiras diferentes. Os recursos naturais abundantes, por exemplo, podem
criar resultados desagradáveis, mas também podem promover o
desenvolvimento. Para início de conversa, se esse não fosse o caso, não
consideraríamos o mau desempenho de países ricos em recursos como
desfavorável. Os recursos naturais possibilitam que os países pobres obtenham
as moedas estrangeiras com as quais podem comprar tecnologias avançadas.
Dizer que esses recursos são uma maldição é como dizer que todas as crianças
nascidas em uma família rica serão um fracasso na vida porque ficarão
estragadas por causa da riqueza que herdarem. Algumas fazem exatamente isso
por essa razão, mas muitas outras tiram proveito da sua herança e alcançam
um sucesso ainda maior do que os seus pais. O fato de um fator ser estrutural (ou seja, fornecido pela natureza ou pela história) não significa que o resultado
da sua influência seja predeterminado.
Na realidade, o fato de todas essas desvantagens estruturais não serem
intransponíveis é demonstrado pelo fato que quase todos os países ricos de
hoje se desenvolveram apesar de sofrer de desvantagens semelhantes.[37]
Vamos examinar primeiro o caso do clima. O clima tropical supostamente
tolhe o crescimento econômico por criar um ônus para a saúde devido a
doenças tropicais, especialmente a malária. Esse é um problema horrível,
porém contornável. Muitos dos países ricos de hoje eram atingidos pela
malária e outras doenças tropicais, pelo menos durante o verão; não estou
falando apenas de Cingapura, que está situada no meio dos trópicos, mas
também do sul da Itália, do sul dos Estados Unidos, da Coreia do Sul e do
Japão. Essas doenças não são mais muito importantes porque esses países têm
melhores condições sanitárias (o que reduziu enormemente a sua incidência) e
melhores instalações médicas, graças ao desenvolvimento econômico. Uma
crítica mais séria do argumento do clima é que os climas frígidos e árticos, que
afetam vários dos países ricos, como a Finlândia, a Suécia, a Noruega, o
Canadá e parte dos Estados Unidos, impõem fardos economicamente tão
onerosos quanto os climas tropicais; as máquinas enguiçam, o custo do
combustível dispara e o transporte é interrompido pela neve e pelo gelo. Não
existe nenhuma razão a priori para acreditarmos que o tempo frio seja melhor
do que o quente para o desenvolvimento econômico. O clima frio não refreia
esses países porque eles têm o dinheiro necessário para lidar com ele (o
mesmo pode ser dito com relação ao clima tropical de Cingapura). Portanto,
atribuir a culpa do subdesenvolvimento da África ao clima é confundir a causa
do subdesenvolvimento com os seus sintomas — o clima desfavorável não
causa o subdesenvolvimento; a incapacidade de um país de superar o seu clima
desfavorável é meramente um sintoma de subdesenvolvimento.
No que diz respeito à situação geográfica, a falta de acesso ao mar de
muitos países africanos têm sido bastante enfatizada. Mas e a Suíça e a Áustria?
São duas das economias mais ricas do mundo, e não têm acesso ao mar. O
leitor poderá responder dizendo que esses países puderam se desenvolver
porque tinham um bom transporte fluvial, mas muitos países africanos sem
acesso ao mar estão potencialmente na mesma posição: p. ex., Burkina Faso (a antiga República do Alto Volta), Mali e Níger (a República do Níger),
Zimbábue (o Limpopo) e Zâmbia (o Zambezi). Portanto, o problema é a
ausência de investimentos no sistema de transporte fluvial, e não a situação
geográfica em si. Além disso, devido aos mares congelados no inverno, os
países escandinavos ficavam efetivamente sem acesso ao mar durante seis
meses, até que desenvolveram o navio quebra-gelo no final do século XIX. O
efeito da vizinhança desfavorável pode de fato existir, mas ele não precisa ser
limitante; basta contemplarmos o rápido crescimento recente da Índia, que
está situada na região mais pobre do mundo (mais pobre do que a África
subsaariana, mencionada anteriormente), que também tem a sua parcela de
conflitos (a longa história dos conflitos militares entre a Índia e o Paquistão, as
guerrilhas dos maoistas naxalitas na Índia e a guerra civil tâmil-cingalesa no Sri
Lanka.)
Muitas pessoas falam da maldição dos recursos, mas o desenvolvimento de
países como os Estados Unidos, o Canadá e a Austrália, que são muito mais
bem providos de recursos naturais do que todos os países africanos, com as
possíveis exceções da África do Sul e da RDC (República Democrática do
Congo), demonstra que a abundância de recursos pode ser uma bênção. Na
realidade, a maioria dos países africanos não é tão bem provida de recursos
naturais; menos de doze países africanos descobriram até agora quaisquer
depósitos minerais importantes.[38] Quase todos os países africanos podem
ser dotados com recursos naturais em termos relativos, mas isso é apenas
porque eles têm muito poucos recursos fabricados pelo homem, como
máquinas, infraestrutura e mão de obra especializada. Além disso, no final do
século XIX e início do século XX, as regiões que mais cresceram no mundo
eram ricas em recursos como a América do Norte, a América Latina e a
Escandinávia, o que leva a crer que a maldição dos recursos nem sempre
existiu.
As divisões étnicas podem tolher o crescimento de várias maneiras, mas a
sua influência não deve ser exagerada. A diversidade étnica também é a norma
em outros lugares. Mesmo sem considerar a diversidade étnica em sociedades
baseadas na imigração como os Estados Unidos, o Canadá e a Austrália,
muitos dos países europeus atualmente ricos sofreram separações linguísticas,
religiosas e ideológicas — especialmente de “grau médio” (alguns grupos, não numerosos), as quais, segundo se acredita, são extremamente conducentes a
violentos conflitos. A Bélgica tem dois grupos étnicos (e um pouco mais, se
incluirmos a minúscula minoria falante do alemão). A Suíça tem quatro
idiomas e duas religiões, e já foi palco de várias guerras civis baseadas na
religião. A Espanha tem graves problemas de minorias com os catalães e os
bascos, que até mesmo envolveram o terrorismo. Devido ao fato de ter
governado a Finlândia durante 560 anos (de 1249 a 1809, quando ela foi
cedida à Rússia), a Suécia possui uma significativa minoria finlandesa (que
monta a cerca de 5% da população) e a Finlândia tem uma população sueca de
uma escala semelhante. E assim por diante.
Até mesmo os países do Leste Asiático que supostamente se beneficiaram
particularmente da sua homogeneidade étnica têm sérios problemas com
divisões internas. Você talvez pense que Taiwan é etnicamente homogênea já
que os seus cidadãos são todos “chineses”, mas a população consiste de dois
(ou quatro, se fizermos uma divisão mais refinada) grupos linguísticos (os
“habitantes do continente” versus os taiwaneses) que se hostilizam
mutuamente. O Japão apresenta sérios problemas de minorias com os
coreanos, os okinawanos, os ainus e os burakumins. A Coreia do Sul talvez seja
um dos países mais homogêneos do mundo do ponto de vista etnolinguístico,
mas isso não impediu os meus compatriotas de odiar uns aos outros. Por
exemplo, há duas regiões na Coreia do Sul que particularmente se odeiam (a
sudeste e a sudoeste), a ponto de algumas pessoas dessas regiões não
permitirem que os seus filhos se casem com alguém “do outro lugar”.
Curiosamente, Ruanda é quase tão homogênea do ponto de vista
etnolinguístico quando a Coreia, mas isso não impediu que os Hutus, que eram
maioria, promovessem a purificação étnica da minoria anteriormente
dominante, os Tutsis — exemplo que prova que o “caráter étnico” não é uma
estrutura natural, e sim política. Em outras palavras, os países ricos não sofrem
com a heterogeneidade étnica porque ela não existe, mas sim porque tiveram
êxito ao construir a nação (o que, é importante observar, envolveu com
frequência um processo desagradável e até mesmo violento).
As pessoas dizem que instituições de má qualidade estão refreando a África
(e de fato estão), mas quando os países ricos estavam em níveis de
desenvolvimento material semelhantes aos encontrados hoje na África, o
estado das suas instituições era bem pior.[39] Apesar disso, eles cresceram
continuamente e alcançaram níveis elevados de desenvolvimento. Eles
construíram as instituições de qualidade muito tempo depois do seu
desenvolvimento econômico, ou pelo menos simultaneamente a ele. Isso
mostra que a qualidade institucional é tanto um resultado quanto um fator
causal do desenvolvimento econômico. Tendo isso em vista, as más
instituições não podem ser a explicação da falta de crescimento da África.
As pessoas mencionam a “má” cultura da África, mas foi argumentado que
quase todos os países ricos de hoje tiveram culturas comparativamente ruins,
como documentei no capítulo “Lazy Japanese and thieving Germans”[40] no
meu livro anterior Bad Samaritans. Até o início do século XX, os australianos e
americanos que iam ao Japão diziam que os japoneses eram preguiçosos. Até
meados do século XIX, os ingleses que iam à Alemanha afirmavam que os
alemães eram burros demais, individualistas demais e emocionais demais para
desenvolver a sua economia (a Alemanha não estava unificada na época) — o
exato oposto da imagem estereotípica que eles têm hoje dos alemães e
exatamente o tipo de coisa que as pessoas dizem hoje a respeito dos africanos.
A cultura japonesa e a alemã foram transformadas com o desenvolvimento
econômico, à medida que as exigências de uma sociedade industrial altamente
organizada fizeram com que as pessoas se comportassem de uma maneira
mais disciplinada, calculista e cooperativa. Nesse sentido, a cultura é mais um
resultado, do que uma causa, do desenvolvimento econômico. É errado
colocar a culpa do subdesenvolvimento da África (ou de qualquer região ou
país) na sua cultura.
Vemos portanto, que o que parecem ser impedimentos estruturais
inalteráveis ao desenvolvimento econômico da África (aliás, também de outros
lugares) são geralmente coisas que podem ser, e foram, superadas com
tecnologias mais avançadas, habilidades organizacionais superiores e melhores
instituições políticas. O fato de quase todos os países ricos ter sofrido (e em
certa medida ainda sofrerem) dessas condições é uma prova indireta desse
ponto. Além disso, apesar desses obstáculos (não raro de uma forma mais
rigorosa), os países africanos não tiveram nenhum problema para crescer nas
décadas de 1960 e 1970. A principal razão para a recente falta de crescimento
da África reside na política — a saber, a política de livre comércio, de livre mercado que foi imposta ao continente pelo PAE. A natureza e a história não
condenam um país a um futuro específico. Quando uma política está causando
o problema, o futuro pode ser modificado com mais facilidade ainda. A
verdadeira tragédia da África é o fato de termos deixado de enxergar isso, e
não a sua falta de crescimento supostamente crônica.
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