23 Coisas que Não Nos Contaram sobre o Capitalismo

9 - Não vivemos em uma era pós-industrial

 

9

 

Não vivemos em uma era pós-industrial

 

O que eles dizem

 

A nossa economia tem sido fundamentalmente transformada ao longo das

últimas décadas. Especialmente nos países ricos, o setor industrial, que um dia

foi a força propulsora do capitalismo, deixou de ser importante. Com a

tendência natural da demanda (relativa) de os serviços aumentarem com a

prosperidade e com o aumento dos serviços de alta produtividade baseados no

conhecimento (como a atividade bancária e a consultoria de gestão), as

indústrias manufatureiras entraram em declínio em todos os países ricos. Esses

países entraram na era “pós-industrial”, na qual a maioria das pessoas trabalha

no setor de serviços e quase todos os produtos são serviços. O declínio do

setor industrial não apenas é uma coisa natural com a qual não devemos nos

preocupar mas também algo que na realidade devemos celebrar. Com o

aumento dos serviços baseados no conhecimento, pode ser melhor até mesmo

para alguns países em desenvolvimento passar por cima completamente dessas

atividades manufatureiras condenadas e avançar diretamente para uma

economia pós-industrial baseada nos serviços.

 

O que eles não dizem

 

Podemos estar vivendo em uma sociedade pós-industrial no sentido que quase

todos nós trabalhamos em lojas e escritórios e não em fábricas. Mas não

ingressamos em um estágio de desenvolvimento pós-industrial no sentido que

a indústria deixou de ser importante. A maior parte (embora não a totalidade)

do encolhimento da parcela da manufatura na produção total não se deve à

queda na quantidade absoluta de bens manufaturados produzidos e sim à

queda nos seus preços com relação aos dos serviços, o que é causado pelo seu

crescimento mais rápido na produtividade (produção por unidade de insumo). Hoje, embora a desindustrialização se deva principalmente a esse crescimento

diferencial de produtividade através dos setores, e portanto talvez não seja uma

coisa negativa em si mesma, ele tem consequências negativas para o

crescimento da produtividade na economia como um todo e para o balanço de

pagamentos, o que não pode ser desconsiderado. Quanto à ideia de que os

países em desenvolvimento podem em grande medida passar por cima da

industrialização e entrar diretamente na fase pós-industrial, trata-se de uma

fantasia. O escopo limitado deles para o crescimento da produtividade torna

os serviços um mecanismo de crescimento ineficaz. A baixa negociabilidade

dos serviços significa que uma economia mais baseada em serviços terá uma

menor capacidade de exportar. Uma receita menor com a exportação significa

uma capacidade mais fraca de comprar tecnologias avançadas do exterior, o

que por sua vez conduz a um crescimento mais lento.

 

Existe alguma coisa que não seja fabricada na China?

 

Certo dia, Jin-Gyu, o meu filho de 9 anos (isso mesmo, o que apareceu como

o “meu filho de 6 anos” no meu livro anterior Bad Samaritans — ele é um ator

realmente versátil) me perguntou: “Papai, existe alguma coisa que não seja

fabricada na China?” Eu respondi que, de fato, podia parecer que tudo fosse

feito lá, mas que outros países ainda fabricavam coisas. Em seguida, fiz um

esforço para arranjar um exemplo. Eu estava prestes a mencionar o console de

video game Nintendo DSI “japonês” dele, mas me lembrei que tinha visto

“Made in China” escrito nele. Consegui dizer ao meu filho que alguns

telefones celulares e televisões de tela plana são fabricados na Coreia, mas não

consegui pensar em muitas outras coisas que um menino de 9 anos

reconheceria (ele ainda é jovem demais para coisas como o BMW). É

compreensível que a China seja hoje chamada de “fábrica do mundo”.

É difícil acreditar, mas a expressão “fábrica do mundo” foi originalmente

inventada para a Grã-Bretanha, que hoje, segundo Nicolas Sarkozy, o

presidente da França, não tem “nenhuma indústria”. Por ter iniciado com

sucesso a Revolução Industrial antes de outros países, a Grã-Bretanha se

tornou um potência industrial de tal maneira dominante em meados do século

XIX que se sentiu confiante o bastante para liberalizar completamente o seu comércio. Em 1860, ela produzia 20% da produção industrial do mundo. Em

1870, era responsável por 46% do comércio mundial de produtos

manufaturados. A atual participação da China nas exportações mundiais é

apenas de mais ou menos 17% (em 2007), embora “tudo” pareça ser fabricado

na China, de modo que você pode imaginar o grau da dominância britânica

naquela época.

No entanto, a pole position da Grã-Bretanha durou pouco. Depois de

liberalizar completamente o seu comércio por volta de 1860, a sua posição

relativa começou a declinar a partir da década de 1880, quando países como os

Estados Unidos e a Alemanha rapidamente a alcançaram. Ela perdeu a posição

de liderança na hierarquia industrial do mundo na época da Primeira Guerra

Mundial, mas a dominância do setor industrial na economia britânica em si

continuou durante um longo tempo depois disso. Até o início da década de

1970, junto com a Alemanha, a Grã-Bretanha tinha uma das maiores

proporções do mundo de emprego industrial no emprego total, em torno de

35%. Na época, a Grã-Bretanha era a economia industrial por excelência,

exportando produtos manufaturados e importando alimentos, combustível e

matéria-prima. O seu superávit comercial do setor industrial (exportações

industriais menos importações industriais) permaneceu sistematicamente entre

4 e 6% do PIB durante as décadas de 1960 e 1970.

A partir dos anos de 1970, contudo, a importância do setor industrial

britânico encolheu rapidamente. A produção industrial como uma parcela do

PIB da Grã-Bretanha era de 37% em 1950. Hoje, ela é responsável apenas por

mais ou menos 13%. A proporção da indústria no emprego total caiu de cerca

de 35% no início dos anos de 1979 para pouco mais de 10%.[28] Essa posição

no comércio internacional mudou drasticamente. Hoje em dia, a Grã-Bretanha

tem déficits comerciais no setor industrial por volta de 2 a 4% do PIB ao ano.

O que aconteceu? A Grã-Bretanha deve ficar preocupada?

A opinião predominante é que não há motivo para preocupação. Para

começar, a Grã-Bretanha não é o único país em que essas coisas aconteceram.

A participação declinante do setor industrial na produção e no emprego total

— fenômeno conhecido como desindustrialização — é uma ocorrência

natural, argumentam muitos analistas, comum a todos os países ricos

(acelerada no caso britânico pela descoberta de petróleo no Mar do Norte). Acredita-se amplamente que isso seja assim porque, quando ficam mais ricas,

as pessoas começam a exigir mais serviços do que produtos manufaturados.

Com a queda da demanda, é natural que o setor industrial encolha e o país

ingresse no estágio pós-industrial. Muitas pessoas efetivamente celebram o

crescimento dos serviços. Segundo elas, a recente expansão dos serviços

baseados no conhecimento com um rápido crescimento de produtividade —

como os serviços financeiros, de consultoria, design, computação e informação,

P&D — significa que os serviços substituíram a manufatura como o

mecanismo de crescimento, pelo menos nos países ricos. A manufatura é hoje

uma atividade de baixa qualidade executada por países em desenvolvimento

como a China.

 

Computadores e cortes de cabelo: por que a desindustrialização acontece

 

Entramos realmente na era pós-industrial? A indústria é irrelevante hoje? As

respostas são: “apenas de algumas maneiras” e “não”.

É indiscutível que uma proporção muito menor de pessoas nos países ricos

trabalha hoje em fábricas do que trabalhava antigamente. Houve uma época no

final do século XIX e início do século XX na qual, em alguns países

(particularmente na Grã-Bretanha e na Bélgica), cerca de 40% das pessoas

empregadas trabalhavam na indústria manufatureira. Hoje, esse coeficiente é,

no máximo, de 25%, e em alguns países (especialmente nos Estados Unidos,

no Canadá e na Grã-Bretanha) ele mal chega a 15%.

Com um número tão menor de pessoas (proporcionalmente) trabalhando

em fábricas, a natureza da sociedade mudou. Somos em parte formados pelas

nossas experiências de trabalho (um ponto que a maioria dos economistas

deixa de reconhecer), de modo que onde e como trabalhamos influencia quem

somos. Em comparação com os operários de fábricas, os funcionários de

escritório e os vendedores de loja fazem muito menos trabalho físico e, por

não precisar trabalhar com as correias transportadoras, têm mais controle

sobre o processo do seu trabalho. Os operários de fábrica cooperam mais

estreitamente com os colegas durante o trabalho e fora dele, especialmente por

meio de atividades sindicais. Em contraposição, as pessoas que trabalham em

lojas e escritórios tendem a trabalhar de uma maneira mais individual e não são muito ligados a sindicatos. Os vendedores de lojas e alguns funcionários de

escritório interagem diretamente com os clientes, ao passo que os operários de

fábrica nunca veem os seus clientes. Não tenho um conhecimento suficiente

de sociologia ou psicologia para dizer algo profundo a respeito dessa situação,

mas tudo isso significa que as pessoas nos países ricos de hoje não apenas

trabalham de uma maneira diferente mas também são diferentes dos seus pais

e avós. Desse modo, os países ricos de hoje se tornaram sociedades pós-

industriais no sentido social.

No entanto, eles não se tornaram pós-industriais no sentido econômico. O

setor industrial ainda desempenha o principal papel nas suas economias. Para

poder entender este ponto, precisamos primeiro compreender por que a

desindustrialização teve lugar nos países ricos.

Uma parte pequena, porém não desprezível, da desindustrialização se deve

a ilusões de ótica, no sentido que ela reflete mudanças na classificação

estatística e não mudanças em atividades autênticas. Uma dessas ilusões é

causada pela terceirização de algumas atividades que são na realidade serviços

na sua natureza física mas costumavam ser prestados pelas próprias empresas

industriais, com os seus recursos internos (p. ex., fornecimento de refeições,

limpeza, suporte técnico). Quando essas atividades são terceirizadas, a

produção de serviços registrada aumenta sem um aumento genuíno das

atividades de serviços. Embora não haja uma estimativa confiável da sua

magnitude, especialistas concordam em que a terceirização foi uma importante

fonte de desindustrialização nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha,

especialmente nos anos de 1980. Além do efeito da terceirização, o grau da

contração do setor industrial é exagerado pelo que é chamado de “efeito de

reclassificação”.[29] Um relatório do governo do Reino Unido estima que

algumas empresas industriais possam ser responsáveis por até 10% da queda

do emprego no setor industrial entre 1998 e 2006 no Reino Unido, que ao

constatar que as suas atividades no serviço se tornaram dominantes,

solicitaram ao órgão estatístico do governo que fossem reclassificadas como

empresas de serviço, mesmo ainda estando envolvidas com algumas atividades

industriais.

Uma das causas da desindustrialização genuína atraiu recentemente muita

atenção. Trata-se do aumento das importações de produtos industrializados de países em desenvolvimento com um baixo custo de produção, especialmente a

China. Por mais dramático que isso possa parecer, não é a principal explicação

para a desindustrialização nos países ricos. As exportações da China só

causaram um verdadeiro impacto no final dos anos de 1990, mas o processo

de desindustrialização já havia começado na década de 1970 na maioria dos

países ricos. Quase todas as estimativas mostram que a ascensão da China

como a nova fábrica do mundo só pode explicar cerca de 20% da

desindustrialização que teve lugar até agora nos países ricos.

Muitas pessoas acham que os restantes 80% podem ser em grande medida

explicados pela tendência natural de a demanda (relativa) dos produtos

manufaturados diminuir com o aumento da prosperidade. No entanto, um

exame mais atento revela que esse efeito da demanda é na realidade muito

pequeno. Tudo indica que estamos gastando uma parcela cada vez maior da

nossa renda com serviços, não porque estejamos consumindo cada vez mais

serviços em termos absolutos, mas principalmente porque os serviços estão se

tornando cada vez mais dispendiosos em termos relativos.

Com a quantia (ajustada pela inflação) que você gastava para comprar um

PC há dez anos, você consegue hoje provavelmente comprar três, e talvez até

quatro, computadores com uma capacidade computacional igual ou ainda

maior (e certamente com um tamanho muito menor). Por conseguinte, você

provavelmente tem dois computadores em vez de apenas um. No entanto,

mesmo com dois computadores, a parcela da sua renda que você gasta com

computadores caiu bastante (em consideração ao argumento, estou partindo

do princípio que a sua renda, depois de ajustada pela inflação, continua a

mesma). Em contrapartida, o número de vezes que você vai ao barbeiro cortar

o cabelo provavelmente continua o mesmo (a não ser que você tenha ficado

calvo no alto da cabeça). O preço do corte de cabelo provavelmente aumentou

um pouco, de modo que a proporção da sua renda que vai para cortes de

cabelo é maior que era há dez anos. O resultado é que parece que você está

gastando uma parcela maior (menor) da sua renda em cortes de cabelo

(computadores) do que antes, mas a realidade é que você está na verdade

consumindo mais computadores do que antes, ao passo que o seu consumo de

cortes de cabelo permanece o mesmo.

Na realidade, se fizermos os ajustes das mudanças nos preços relativos (ou,

usando o jargão técnico, se medirmos as coisas em preços constantes),

verificaremos que o declínio do setor industrial nos países ricos foi bem menos

pronunciado do que parece. No caso da Grã-Bretanha, por exemplo, a parcela

da produção industrial na produção total, sem levar em conta os efeitos dos

preços relativos (usando o jargão, em preços correntes), caiu em mais de 40%

entre 1955 e 1990 (de 37 para 21%). Entretanto, quando levamos em

consideração os efeitos dos preços relativos, constatamos que a queda foi

apenas levemente superior a 10% (de 27 para 24%).[30] Em outras palavras, o

efeito real da demanda — ou seja, o efeito da demanda depois de levar em

conta as mudanças nos preços relativos — é pequeno.

Por que então os preços relativos dos produtos manufaturados estão

caindo? Porque as indústrias manufatureiras tendem a ter um crescimento da

produtividade mais rápido do que os serviços. Como a produção do setor

industrial aumenta mais rápido do que a produção do setor de serviços, os

preços dos produtos manufaturados relacionados caem em comparação com

os dos serviços. No setor industrial, onde a mecanização e a utilização de

processos químicos são muito mais fáceis, é mais fácil aumentar a

produtividade do que no setor de serviços. Em contrapartida, devido à sua

natureza, muitas atividades do setor de serviços são inerentemente

impermeáveis ao aumento da produtividade sem diluir a qualidade do produto.

Em alguns casos, a própria tentativa de aumentar a produtividade destruirá

o produto. Se um quarteto de cordas tocar uma composição musical de 27

minutos em apenas nove minutos, você diria que a produtividade dele

triplicou?

No caso de alguns outros tipos de serviços, a aparente produtividade mais

elevada se deve à degradação do produto. Uma professora pode quadruplicar a

sua aparente produtividade colocando um número quatro vezes maior de

alunos na sala de aula, mas a qualidade do seu “produto” foi diluída pelo fato

que ela não pode prestar a mesma atenção individual aos alunos que prestava

anteriormente. Grande parte do aumento da produtividade dos serviços de

varejo em países como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha foi obtido à custa

da redução da qualidade do serviço em si e pela oferta simultânea ostensiva de

sapatos, sofás e maçãs mais baratos: o número de vendedores nas lojas de sapatos diminuiu, de modo que temos que esperar vinte minutos para ser

atendidos, em vez de cinco; temos que esperar quatro semanas, em vez de

duas, pela entrega do sofá novo e provavelmente também temos que faltar um

dia ao trabalho porque eles fazem a entrega “dentro do horário comercial”;

gastamos muito mais tempo do que antes dirigindo até o novo supermercado e

percorrendo os corredores mais longos quando chegamos lá, porque as maçãs

são mais baratas do que no antigo supermercado apenas porque o novo

estabelecimento fica situado no meio do nada e, portanto, tem uma área útil

maior.

Algumas atividades do setor de serviços, como a atividade bancária, têm

uma margem maior para o aumento da produtividade do que outros tipos de

serviços. Entretanto, como foi revelado na crise financeira de 2008, grande

parte do crescimento da produtividade nessas atividades se deveu não a um

aumento genuíno na sua produtividade (p. ex., redução dos custos de

negociação devido a melhores computadores) e sim a inovações financeiras

que ocultaram (em vez de genuinamente reduzir) a condição arriscada dos

ativos financeiros, possibilitando assim que o setor financeiro crescesse a uma

taxa insustentavelmente rápida.

Resumindo, a queda na participação do setor industrial na produção total

nos países ricos não se deve predominantemente à redução da demanda

(relativa) dos produtos manufaturados, como muitas pessoas pensam.

Tampouco ela é atribuível principalmente ao aumento das exportações de

produtos manufaturados da China e de outros países em desenvolvimento,

embora isso tenha causado um grande impacto em alguns setores. Em vez

disso, o principal impulsionador do processo de desindustrialização é a queda

dos preços relativos dos produtos manufaturados causada pelo crescimento

mais rápido da produtividade no setor industrial. Portanto, embora os cidadãos

dos países ricos possam estar vivendo em sociedades pós-industriais no que

diz respeito à sua ocupação, a importância do setor industrial sob o aspecto da

produção nessas economias não foi reduzida a ponto de podermos declarar uma

era pós-industrial.

 

Devemos nos preocupar com a desindustrialização?

Mas se a desindustrialização ocorre devido ao próprio dinamismo do setor

industrial do país, isso não é uma coisa boa?

Não necessariamente. O fato de a desindustrialização ser causada

principalmente pelo dinamismo comparativo do setor industrial vis-à-vis o setor

de serviços nada nos diz a respeito do seu desempenho em comparação com

os seus equivalentes em outros países. Se o setor industrial de um país tiver um

crescimento de produtividade mais lento do que os seus equivalentes em

outros países, ele deixará de ser competitivo internacionalmente, o que conduz

a problemas no balanço de pagamentos a curto prazo e na queda do padrão de

vida a longo prazo. Em outras palavras, a desindustrialização pode ser

acompanhada tanto pelo sucesso quanto pelo fracasso econômico. Os países

não devem se deixar iludir por uma falsa sensação de segurança pelo fato de

que a desindustrialização se deve a um dinamismo comparativo do setor

industrial, porque até mesmo um setor industrial que seja muito pouco

dinâmico segundo os padrões internacionais pode ser (e geralmente é) mais

dinâmico do que o setor de serviços do mesmo país.

Quer ou não o setor industrial de um país seja dinâmico segundo os

padrões internacionais, o encolhimento do peso relativo do setor industrial

causou um impacto negativo no crescimento da produtividade. À medida que

a economia for sendo dominada pelo setor de serviços, no qual o crescimento

da produtividade é mais lento, o crescimento da produtividade na economia

como um todo desacelerará. A não ser que acreditemos (como alguns

acreditam) que os países que estão passando pela desindustrialização são hoje

ricos o bastante para não precisar mais do crescimento da produtividade, a

desaceleração desta última é algo com que os países deveriam se preocupar —

ou pelo menos aceitar.

A desindustrialização também exerce um efeito negativo no equilíbrio do

balanço de pagamentos porque é inerentemente mais difícil exportar serviços

do que produtos manufaturados. Um déficit no balanço de pagamentos

significa que o país não pode “pagar as suas contas” no mundo. É claro que

um país pode tampar o buraco durante algum tempo por meio de

empréstimos externos, mas com o tempo terá que diminuir o valor da sua

moeda, reduzindo assim a sua capacidade de importar e, portanto, o seu

padrão de vida.

Na raiz da baixa “negociabilidade” dos serviços reside o fato que, ao

contrário dos produtos manufaturados que podem ser expedidos para

qualquer lugar do mundo, a maioria dos serviços requer que os prestadores de

serviços e os consumidores estejam no mesmo local. Ninguém até hoje

inventou maneiras de oferecer um corte de cabelo ou uma faxina a distância. É

claro que esse problema será resolvido se o prestador do serviço (o barbeiro

ou o faxineiro nos exemplos que acabo de apresentar) puderem se mudar para

o país do cliente, porém na maioria dos casos isso envolve a imigração, que é

fortemente restringida na maioria dos países. Considerando-se isso, o aumento

da proporção dos serviços na economia significa que o país, com outras coisas

permanecendo iguais, terá uma receita menor com a exportação. A não ser que

as exportações dos produtos manufaturados aumentem

desproporcionalmente, o país não conseguirá pagar pela mesma quantidade de

importação que pagava anteriormente. Se a sua desindustrialização for de um

tipo negativo acompanhada pelo enfraquecimento da competitividade

internacional, o problema do balanço de pagamentos poderá ser ainda mais

grave, já que o setor industrial não será capaz de aumentar as suas exportações.

Nem todos os serviços são igualmente não negociáveis. Os serviços

baseados no conhecimento que mencionei anteriormente — bancários, de

consultoria, de engenharia e assim por diante — são altamente negociáveis.

Por exemplo, a partir dos anos de 1990, na Grã-Bretanha, as exportações de

serviços baseados no conhecimento têm desempenhado um papel

fundamental para tapar o buraco no balanço de pagamentos deixado para trás

pela desindustrialização (e pela queda nas exportações de petróleo do Mar do

Norte, que possibilitara que o país — com dificuldade — sobrevivesse às

consequências do balanço de pagamentos negativo da desindustrialização

durante a década de 1980).

Entretanto, até mesmo na Grã-Bretanha, que é extremamente avançada

nas exportações desses serviços baseados no conhecimento, o superávit no

balanço de pagamentos gerado por esses serviços está bem abaixo de 4% do

PIB, sendo suficiente apenas para cobrir os déficits industriais do país. Com o

provável fortalecimento da regulamentação financeira global em consequência

da crise financeira de 2008, é pouco provável que a Grã-Bretanha consiga

manter no futuro esse nível de superávit comercial nos serviços financeiros e outros serviços baseados no conhecimento. No caso dos Estados Unidos,

supostamente outro modelo de economia pós-industrial, o superávit comercial

nos serviços baseados no conhecimento é na realidade menos de 1% do PIB

— que está muito longe de compensar os seus déficits comerciais do setor

industrial, que se situam em torno de 4% do PIB.[31] Os Estados Unidos têm

sido capazes de manter esse grande déficit comercial do setor industrial

somente porque pôde pedir grandes empréstimos externos — uma capacidade

que só tenderá a encolher nos próximos anos, considerando-se as mudanças

na economia mundial — e não porque o setor de serviços tenha atuado para

tapar o buraco, como no caso britânico. Além disso, é questionável se o poder

dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha nos serviços baseados no

conhecimento poderá ser mantido ao longo do tempo. Em serviços como os

de engenharia e design, nos quais as descobertas obtidas do processo de

produção são fundamentais, um encolhimento contínuo da base industrial

conduzirá a um declínio da qualidade dos seus produtos (serviços) e a uma

consequente perda da receita de exportação.

Se a Grã-Bretanha e os Estados Unidos — dois países que deveriam ser os

mais desenvolvidos nos serviços baseados no conhecimento — têm pouca

probabilidade de atender às necessidades dos seus balanços de pagamento a

longo prazo por meio das exportações desses serviços, é altamente improvável

que outros países sejam capazes disso.

 

Fantasias pós-industriais

 

Por acreditar que a desindustrialização é resultado da mudança do mecanismo

de crescimento do setor industrial para o de serviços, algumas pessoas

argumentaram que os países em desenvolvimento podem em ampla medida

passar por cima da industrialização e avançar diretamente para a economia de

serviços. Especialmente com o aumento da terceirização dos serviços no

exterior, esse ponto de vista tornou-se muito popular entre alguns

observadores da Índia. Esqueçam as indústrias poluidoras, dizem eles; por que

não saltar diretamente da agricultura para os serviços? Se a China é a fábrica

do mundo, reza o argumento, a Índia deveria tentar se tornar o “escritório” do

mundo.

No entanto, achar que um país pobre pode se desenvolver com base

principalmente no setor de serviços é pura fantasia. Como foi ressaltado

anteriormente, o crescimento da produtividade do setor industrial é

inerentemente mais rápido do que o do setor de serviços. Sem dúvida, alguns

setores de serviços têm um potencial de crescimento de produtividade rápido,

particularmente os serviços baseados no conhecimento que mencionei há

pouco. Entretanto, trata-se de atividades de serviços que atendem

principalmente às empresas industriais, de modo que é muito difícil

desenvolver esses segmentos sem primeiro desenvolver uma forte base

industrial. Se um país basear o seu desenvolvimento desde cedo

predominantemente no setor de serviços, a sua taxa de produtividade a longo

prazo será muito mais lenta do que se ele apoiar no setor industrial.

Além disso, já vimos que, considerando-se que os serviços são muito

menos negociáveis, os países que se especializam em serviços estão propensos

a enfrentar problemas muito mais sérios no balanço de pagamentos do que

aqueles que se especializam na fabricação de produtos. Essa situação já é

bastante desagradável para um país desenvolvido, no qual os problemas do

balanço de pagamentos reduzirão os padrões de vida a longo prazo. No

entanto, ela é gravemente prejudicial para os países em desenvolvimento. A

questão é que, para se desenvolver, o país em desenvolvimento precisa

importar do exterior tecnologias mais avançadas (quer na forma de máquinas,

quer na forma do licenciamento da tecnologia). Por conseguinte, quando ele

tem um problema no balanço de pagamentos, a sua capacidade de se

modernizar e, portanto, de desenvolver a sua economia implementando

tecnologias mais avançadas é tolhida.

Enquanto menciono essas coisas negativas a respeito das estratégias de

desenvolvimento econômico baseadas nos serviços, alguns de vocês poderão

perguntar: e os países como a Suíça e Cingapura? Eles não se desenvolveram

baseados no setor de serviços?

Acontece que a realidade dessas economias tampouco corresponde ao que

é divulgado. Na verdade, elas são histórias de sucesso do setor industrial.

Muitas pessoas, por exemplo, acreditam que a Suíça vive à custa do dinheiro

roubado depositado nos seus bancos pelos ditadores do Terceiro Mundo ou

vendendo sinos de vaca e cucos para turistas japoneses e americanos, mas ela é na verdade uma das economias mais industrializadas do mundo. Não

encontramos muitos produtos fabricados na Suíça porque o país é pequeno

(tem cerca de sete milhões de habitantes), o que faz com que o total de

produtos manufaturados suíços seja pequeno, e também porque os seus

fabricantes se especializam em bens de produção, como máquinas e produtos

químicos industriais, e não em bens de consumo que são mais visíveis. No

entanto, do ponto de vista per capita, a produção industrial da Suíça é a maior

do mundo (ela pode estar em segundo lugar, depois do Japão, dependendo do

ano e das informações examinadas). Cingapura também é uma das cinco

economias mais industrializadas do mundo (uma vez mais, dados medidos sob

o aspecto do valor agregado da produção per capita). A Finlândia e a Suécia

compõem o resto dos cinco países mais industrializados. Na realidade, com

exceção de alguns lugares como a República de Seicheles, que têm uma

população muito pequena e recursos excepcionais para o turismo (85 mil

pessoas com uma renda per capita em torno de 9 mil dólares), nenhum país até

agora conseguiu alcançar um padrão de vida razoável (que dirá elevado)

apoiando-se somente no setor de serviços, e certamente nenhum o conseguirá

no futuro.

Resumindo, até mesmo os países ricos não se tornaram inequivocamente

pós-industriais. Embora a maioria das pessoas nesses países não trabalhe mais

em fábricas, a importância do setor industrial nos sistemas de produção deles

não caiu muito, uma vez que levemos em conta os efeitos dos preços relativos.

Mas mesmo que a desindustrialização não seja necessariamente um sintoma de

declínio industrial (embora frequentemente o seja), ela tem efeitos negativos

no crescimento da produtividade a longo prazo e no balanço de pagamentos,

ambos os quais precisam ser considerados. O mito de que vivemos hoje em

uma era pós-industrial fez com que muitos governos desconsiderassem as

consequências negativas da desindustrialização.

Quanto aos países em desenvolvimento, é uma fantasia achar que eles

podem passar por cima da industrialização e construir a prosperidade

baseando-se nas indústrias de serviços. A maioria dos serviços apresenta um

lento crescimento de produtividade e quase todos os serviços que têm um

crescimento de produtividade elevado não podem ser desenvolvidos na

ausência de um forte setor industrial. A baixa negociabilidade dos serviços significa que um país em desenvolvimento especializado em serviços

enfrentará um problema maior de balanço de pagamentos, o que para um país

em desenvolvimento significa uma redução na sua capacidade de modernizar a

sua economia. As fantasias pós-industriais já são bastante desfavoráveis para

os países ricos, mas são seguramente perigosas para os países em

desenvolvimento.

 

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