23 Coisas que Não Nos Contaram sobre o Capitalismo

19 - Apesar da queda do comunismo, ainda estamos vivendo em economias planejadas

 

19

 

Apesar da queda do comunismo, ainda estamos

 

vivendo em economias planejadas

 

O que eles dizem

 

Os limites do planejamento econômico foram ressonantemente demonstrados

pela queda do comunismo. Nas complexas economias modernas, o

planejamento não é nem possível nem desejável. Somente decisões

descentralizadas tomadas por intermédio do mecanismo do mercado, baseadas

no fato de as pessoas e as empresas estarem sempre atentas a oportunidades

lucrativas, são capazes de sustentar uma complexa economia moderna.

Devemos acabar com a ilusão de que podemos planejar qualquer coisa neste

mundo complexo e em eterna transformação. Quanto menos planejamento

houver, melhor.

 

O que eles não dizem

 

As economias capitalistas são em grande parte planejadas. Os governos nas

economias capitalistas também praticam o planejamento, embora de uma

maneira mais limitada do que no planejamento central comunista. Todos

financiam uma parcela significativa do investimento em P&D e infraestrutura.

A maioria deles planeja uma parte significativa da economia por meio do

planejamento das atividades das empresas estatais. Muitos governos capitalistas

planejam a configuração futura dos setores industriais por intermédio da

política industrial setorial ou até mesmo a da economia nacional por

intermédio do planejamento indicativo. O mais importante é que as modernas

economias capitalistas são formadas por grandes corporações hierárquicas que

planejam detalhadamente as suas atividades, até mesmo além das fronteiras

nacionais. Por conseguinte, a questão não é planejar ou deixar de planejar, e

sim planejar as coisas certas nos níveis adequados.

República do Alto Volta com mísseis

 

Na década de 1970, muitos diplomatas ocidentais chamavam a União Soviética

de “República do Alto Volta com mísseis”. Que insulto — ou seja, para a

República do Alto Volta (renomeado Burkina Faso em 1984), que estava sendo

rotulado de país pobre por excelência, quando ele não estava nem mesmo

perto da extremidade inferior da liga mundial da pobreza. O apelido, contudo,

resumia o que estava errado com a economia soviética.

Era um país capaz de enviar pessoas ao espaço mas cuja população fazia

fila para conseguir gêneros alimentícios básicos como pão e açúcar. O país não

tinha nenhuma dificuldade em produzir continuamente mísseis balísticos

intercontinentais e submarinos nucleares, mas não conseguia fabricar uma

televisão decente. Dizem que nos anos 1980, a segunda maior causa de

incêndios em Moscou era — acredite ou não — televisões que explodiam. Os

grandes cientistas russos eram tão inventivos quanto os seus equivalentes nos

países capitalistas, mas o restante do país não parecia ser capaz de viver à altura

do mesmo padrão. O que estava acontecendo?

Ao perseguir a visão comunista de uma sociedade sem classes baseada na

propriedade coletiva dos “meios de produção” (p. ex., máquinas, fábricas,

estradas), a União Soviética e os seus aliados comunistas tinham como

desígnio o pleno emprego e um grau elevado de qualidade. Como ninguém

tinha permissão para possuir qualquer meio de produção, praticamente todos

os empreendimentos eram administrados por administradores profissionais

(com exceções secundárias como os pequenos restaurantes e cabeleireiros), o

que impedia o surgimento de empreendedores visionários como Henry Ford

ou Bill Gates. Tendo em vista o compromisso político com uma elevada

igualdade, a remuneração máxima de um administrador estava claramente

limitada. Isso significava que o incentivo para que os administradores

transformassem as tecnologias avançadas que o sistema era claramente capaz

de produzir em produtos que os consumidores efetivamente desejavam era

limitado. A política do pleno emprego a todo custo significava que os

administradores não poderiam usar a suprema ameaça — a demissão — para

disciplinar os trabalhadores. Este fato contribuiu para o trabalho relaxado e o absenteísmo; ao tentar reformar a economia soviética, Gorbachev

frequentemente mencionava o problema da disciplina no trabalho.

É claro que isso não significava que ninguém nos países comunistas estava

motivado a trabalhar arduamente ou a administrar um bom negócio. Até

mesmo nas economias capitalistas, não fazemos as coisas apenas por dinheiro,

mas os países comunistas se apoiavam, com algum sucesso, no aspecto menos

egoísta da natureza humana. Principalmente nos primeiros dias do

comunismo, havia um grande idealismo com relação à construção de uma

nova sociedade. Ocorreu também na União Soviética uma enorme onda de

patriotismo durante a Segunda Guerra Mundial e por um breve período depois

que ela terminou. Em todos os países comunistas, havia muitos

administradores e trabalhadores dedicados que eram competentes por

profissionalismo e dignidade. Além disso, nos anos 1960, o igualitarismo ideal

dos primórdios do comunismo tinha dado lugar ao realismo, e a remuneração

relacionada com o desempenho se tornara a norma, mitigando (se bem que de

modo algum eliminando) o problema do incentivo.

Apesar disso, o sistema mesmo assim deixou de funcionar bem devido à

ineficácia do sistema de planejamento central comunista, que deveria ser uma

alternativa mais eficiente para o sistema de mercado.

A justificativa comunista para o planejamento central se baseava em uma

lógica relativamente judiciosa. Karl Marx e os seus seguidores argumentavam

que o problema fundamental do capitalismo era a contradição entre a natureza

social do processo de produção e a natureza privada da propriedade dos meios

de produção. Com o desenvolvimento econômico — ou o desenvolvimento

das forças produtivas, no jargão marxista — a divisão do trabalho entre as

empresas se desenvolve ainda mais e, consequentemente, elas se tornam cada

vez mais dependentes umas das outras — ou a natureza social do processo de

produção se intensifica. No entanto, apesar da crescente interdependência

entre as empresas, argumentavam os marxistas, a propriedade delas permanece

firmemente em mãos privadas separadas, o que torna impossível coordenar as

ações dessas empresas interdependentes. É claro que as variações de preços

garantem que exista alguma coordenação ex post das decisões das empresas,

mas a sua amplitude é limitada e o desequilíbrio entre a oferta e a procura,

criado por essa (em termos não marxistas) “incapacidade de coordenação”, se acumula em crises econômicas periódicas. Durante uma crise econômica,

rezava o argumento, um grande número de recursos valiosos é desperdiçado.

Muitos produtos não vendidos são jogados fora, máquinas que produziam

coisas agora indesejadas são inutilizadas, e trabalhadores capazes e dispostos a

trabalhar são demitidos devido à falta de demanda. Com o desenvolvimento

do capitalismo, prognosticaram os marxistas, essa contradição sistêmica se

tornaria maior e, por conseguinte, as crises econômicas se tornariam cada vez

maiores e mais violentas, finalmente derrubando todo o sistema.

Em contrapartida, com o planejamento central, argumentavam os

marxistas, todos os meios de produção são de propriedade da sociedade como

um todo e, consequentemente, as atividades das unidades de produção

interdependentes podem ser coordenadas ex ante por meio de um plano

unificado. Uma vez que qualquer falha potencial de coordenação é resolvida

antes que aconteça, a economia não precisa passar por essas crises periódicas a

fim de equilibrar a oferta e a procura. Com o planejamento central, a

economia produzirá apenas exatamente o que é necessário. Em nenhum

momento algum recurso permanecerá inativo, já que não haverá crises

econômicas. Por conseguinte, o sistema de planejamento central,

argumentavam os marxistas, administrará a economia com muito mais

eficiência do que o sistema de mercado.

Essa, pelo menos, era a teoria. Lamentavelmente, o planejamento central

não funcionou muito bem na prática. O principal problema era a

complexidade. Os marxistas podem ter estado certos ao pensar que o

desenvolvimento das forças produtivas, por aumentar a interdependência entre

diferentes segmentos de capital, aumenta a necessidade do planejamento central.

No entanto, eles deixaram de reconhecer que isso também torna a economia

mais complexa, tornando mais difícil planejar centralmente.

O planejamento central funcionava bem quando os objetivos eram

relativamente simples e claros, como foi presenciado no sucesso da

industrialização nos primórdios da União Soviética, quando a principal tarefa

era produzir um número relativamente pequeno de produtos fundamentais em

grandes quantidades (aço, tratores, trigo, batata etc.). No entanto, à medida que

a economia se desenvolvia, o planejamento central foi se tornando cada vez

mais difícil, com um crescente número de produtos diversificados (efetivos e potenciais). É claro que, com o desenvolvimento econômico, a capacidade de

planejar também aumentou graças ao aprimoramento da qualificação

administrativa, das técnicas matemáticas do planejamento e dos computadores.

Entretanto, o aumento da capacidade de planejar não foi suficiente para lidar

com o aumento da complexidade da economia.

Uma solução óbvia foi limitar a variedade de produtos, mas isso deixou os

consumidores extremamente insatisfeitos. Além disso, mesmo com a redução

do sortimento, a economia continuava a ser complexa demais para ser

planejada. Muitos produtos não desejados eram produzidos e não eram

vendidos, ao passo que havia escassez de outros, resultando nas filas

generalizadas. Quando o comunismo começou a se desintegrar nos anos 1980,

o ceticismo com relação ao sistema que se mostrava cada vez mais incapaz de

cumprir as suas promessas era tão grande que a piada corrente nos países

comunistas era a seguinte: “Nós fingimos trabalhar e eles fingem que nos

pagam.”

Não é de causar surpresa que o planejamento central tenha sido

abandonado de cabo a rabo quando os partidos comunistas governantes foram

desapossados em todo o bloco soviético, depois da queda do Muro de Berlim.

Até mesmo países como a China e o Vietnã, que ostensivamente mantiveram o

regime comunista, abandonaram gradualmente o planejamento central,

embora o estado ainda exerça um elevado grau de controle sobre a economia.

Portanto, todos vivemos hoje em economias de mercado (bem, a não ser que

você more na Coreia do Norte ou em Cuba). O planejamento desapareceu.

Mesmo?

 

Existe planejamento e planejamento

 

O fato de o comunismo ter desaparecido para todos os efeitos práticos não

significa que o planejamento tenha deixado de existir. Os governos nas

economias capitalistas também planejam, embora não da maneira abrangente

como faziam as autoridades planejadoras centrais nos países comunistas.

Até mesmo em uma economia capitalista, existem situações — a guerra,

por exemplo — nas quais o planejamento central é mais eficaz. Durante a

Segunda Guerra Mundial, por exemplo, as economias dos principais beligerantes capitalistas, os Estados Unidos, o Reino Unido e a Alemanha,

foram todas centralmente planejadas em tudo exceto no nome.

No entanto, o que é mais importante, muitos países capitalistas usaram

com êxito o que é conhecido como “planejamento indicativo”. Trata-se de um

tipo de planejamento no qual o governo de um país capitalista define alguns

objetivos amplos relacionados com importantes variáveis econômicas (p. ex.,

investimentos nas indústrias estratégicas, desenvolvimento da infraestrutura,

exportações) e trabalha junto com o setor privado, e não contra ele, para

alcançá-los. Ao contrário do que ocorre no planejamento central, esses

objetivos não são obrigatórios do ponto de vista jurídico, daí o adjetivo

“indicativo”. Entretanto, o governo se esforçará ao máximo para atingi-los

mobilizando vários incentivos (p. ex., subsídios, a concessão de direitos de

monopólio) e punições (p. ex., regulamentações, a influência por meio de

bancos estatais) que têm à sua disposição.

A França obteve um grande sucesso nas décadas de 1950 e 1960 ao

promover o investimento e a inovação tecnológica por meio do planejamento

indicativo, ultrapassando assim a economia britânica como a segunda potência

industrial da Europa. Outros países europeus, como a Finlândia, a Noruega e a

Áustria, também utilizaram com sucesso o planejamento indicativo para

modernizar as suas economias entre as décadas de 1950 e 1970. As economias

do milagre asiático, o Japão, a Coreia e Taiwan, também usaram o

planejamento indicativo entre os anos 1950 e 1980. Isso não quer dizer que o

planejamento indicativo tenha sido bem-sucedido em todos os casos; na Índia,

por exemplo, ele não foi. Não obstante, os exemplos da Europa e do Leste

Asiático mostram que certas formas de planejamento não são incompatíveis

com o capitalismo, podendo até mesmo promover muito bem o

desenvolvimento capitalista.

Além disso, mesmo quando não planejam explicitamente toda a economia,

nem mesmo de uma maneira indicativa, os governos da maioria das economias

capitalistas fazem e implementam planos para certas atividades essenciais que

podem ter implicações para a economia como um todo.

A maioria dos governos capitalistas planeja e configura o futuro de

algumas indústrias essenciais por intermédio do que é chamado de “política

industrial setorial”. Os países da Europa e do Leste Asiático que praticaram o planejamento indicativo também praticaram a política industrial setorial. Até

mesmo países que não praticaram o planejamento indicativo, como a Suécia e

a Alemanha, praticaram a política industrial setorial.

Na maioria dos países capitalistas, o governo é dono, e com frequência

também opera, uma parcela considerável da economia nacional por intermédio

das empresas estatais (SOEs). Estas últimas são frequentemente encontradas

nos setores de infraestrutura fundamentais (p. ex., estradas de ferro, rodovias,

portos, aeroportos) ou nos serviços essenciais (p. ex., água, eletricidade,

correios), mas também existem nos setores industrial e financeiro (mais

histórias sobre as empresas estatais podem ser encontradas no capítulo “Man

Exploits Man” do meu livro Bad Samaritans). A parcela de empresas estatais na

produção nacional pode chegar a mais de 20%, como no caso de Cingapura,

ou ser apenas de 1%, como no caso dos Estados Unidos, mas a média

internacional gira em torno de 10%. Como o governo planeja as atividades das

empresas estatais, isso significa que uma parte significativa da economia

capitalista típica é diretamente planejada. Quando consideramos o fato que as

empresas estatais geralmente atuam em setores que exercem um impacto

desproporcional no restante da economia, o efeito indireto do planejamento

por intermédio das empresas estatais é ainda maior do que é indicado pelo

percentual de participação das empresas estatais na produção nacional.

Além disso, em todas as economias capitalistas, o governo planeja o futuro

tecnológico nacional financiando uma elevada proporção da pesquisa e

desenvolvimento (de 20 a 50%). Curiosamente, os Estados Unidos são uma

das economias mais planejadas nesse aspecto. Entre os anos 1950 e 1980, a

participação do financiamento do governo na P&D total no suposto livre

mercado americano representou entre 47 e 65%, dependendo do ano,

enquanto esse percentual ficou em torno de 20% no Japão e na Coreia e em

menos de 40% em vários países europeus (p. ex., Bélgica, Finlândia, Alemanha

e Suécia).[71] A proporção caiu a partir da década de 1990, já que o

financiamento na P&D militar foi reduzido com o fim da Guerra Fria. No

entanto, mesmo assim, a participação do governo em P&D nos Estados

Unidos continua a ser maior do que em muitas outras economias capitalistas.

É digno de nota o fato que quase todas as indústrias nas quais os Estados

Unidos possui a liderança tecnológica internacional são as que vêm recebendo um importante financiamento do governo em P&D por intermédio de

programas militares (p. ex., computadores, semicondutores, aeronaves) e

projetos de saúde (p. ex., produtos farmacêuticos, biotecnologia).

É claro que a extensão do planejamento governamental a partir da década

de 1980 declinou, em grande parte devido à ascensão da ideologia pró-

mercado durante esse período. O planejamento indicativo foi desativado na

maioria dos países, entre eles aqueles nos quais ele fora bem-sucedido. Em

muitos países, embora não em todos, a privatização resultou na redução da

participação das empresas estatais na produção e no investimento nacionais. A

participação do financiamento do governo no total de P&D também caiu

praticamente em todos os países capitalistas, embora não muito na maioria dos

casos. Entretanto, eu argumentaria que, apesar do relativo declínio do

planejamento do governo no período mais recente, continua a haver um

planejamento amplo, e crescente, nas economias capitalistas. Por que estou

afirmando isso?

 

Planejar ou não planejar — essa não é a questão

 

Suponhamos que um novo CEO tenha assumido o cargo em uma empresa e

dito: “Acredito profundamente nas forças do mercado. Neste mundo em

rápida transformação, não devemos ter uma estratégia fixa e devemos manter

o máximo possível de flexibilidade. Assim, de hoje em diante, todo mundo

nesta empresa vai se deixar guiar pelos preços de mercado que estão em

constante mudança, e não por um plano rígido.” O que você acha que

aconteceria? Os seus funcionários aplaudiriam um líder com uma visão

adequada ao século XXI? Os acionistas aplaudiriam a abordagem amigável ao

mercado do novo CEO e lhe concederiam um aumento de salário?

Ele não duraria uma semana na empresa. As pessoas iriam dizer que ele

não possui qualidades de liderança. Ele seria acusado de carecer da “coisa da

visão” (como disse certa vez George Bush). Seria ressaltado que o principal

tomador de decisões deveria estar disposto a moldar o futuro da empresa, em

vez de simplesmente deixar que as coisas acontecessem. Seguir às cegas os

sinais do mercado, diriam elas, não é a maneira correta de gerir uma empresa.

As pessoas esperariam que o CEO dissesse algo assim: “É aqui que a nossa

empresa se encontra hoje. Ali está o lugar aonde pretendo levá-la nos

próximos dez anos. A fim de chegar lá, vamos desenvolver novas indústrias, A,

B e C, ao mesmo tempo que acabaremos com D e E. A nossa subsidiária na

indústria D será liquidada. Vamos fechar a nossa subsidiária da indústria E no

país, mas parte da produção será deslocada para a China. A fim de desenvolver

a nossa subsidiária da indústria A, teremos que fazer uma subvenção cruzada

com os lucros de empresas existentes. A fim de estabelecer uma presença na

indústria B, teremos que formar uma aliança estratégica com a Kaisha

Corporation do Japão, o que poderá envolver fornecer a ela alguns insumos

que nós produzimos a preços abaixo do mercado. Com o objetivo de expandir

os nossos negócios na indústria C, precisaremos aumentar o nosso

investimento em P&D nos próximos cinco anos. Tudo isso poderá significar

que a empresa como um todo venha a ter algum prejuízo no futuro próximo.

Se esse for o caso, que assim seja, porque esse é o preço que teremos que

pagar para ter um futuro mais brilhante.” Em outras palavras, espera-se que o

CEO seja “um homem (ou uma mulher) que tenha um plano”.

As empresas planejam as suas atividades, às vezes nos mínimos detalhes.

Na realidade, foi aí que Marx teve a ideia de planejar centralmente toda a

economia. Quando ele falava em planejamento, na realidade não havia nenhum

governo na vida real que estivesse praticando o planejamento. Na época,

somente as empresas planejavam. O que Marx prognosticou foi que a

abordagem do planejamento “racional” das empresas capitalistas acabaria se

revelando superior à destrutiva anarquia do mercado e, portanto, com o

tempo, seria estendida para a economia como um todo. Sem dúvida ele

criticava o planejamento dentro das empresas, acusando-o de representar o

despotismo dos capitalistas, mas ele acreditava que, uma vez que a propriedade

privada fosse extinta e os capitalistas eliminados, os elementos racionais desse

despotismo poderiam ser isolados e canalizados para o bem social.

Com o desenvolvimento do capitalismo, uma quantidade cada vez maior

de áreas da economia passou a ser dominada por grandes corporações. Isso

significa que a área da economia capitalista que é coberta pelo planejamento na

realidade cresceu. Para dar um exemplo concreto, hoje em dia, dependendo da estimativa, de um terço à metade do comércio internacional consiste de

transferências entre diferentes unidades dentro de corporações transnacionais.

Herbert Simon, ganhador do Prêmio Nobel de economia de 1978, que foi

um dos pioneiros do estudo das organizações empresariais, defendeu

sucintamente esse argumento em 1991 em um dos artigos que escreveu,

“Organisations and Markets”. Se um marciano, sem nenhuma ideia

preconcebida, visitasse a Terra e observasse a nossa economia, refletiu Simon,

ele chegaria à conclusão de que os terráqueos vivem em uma economia de

mercado? Não, afirmou Simon; é quase certo que o marciano teria concluído

que os terráqueos vivem em uma economia organizacional no sentido que a maior

parte das atividades econômicas da terra é coordenada dentro dos limites de

empresas (organizações), em vez de por meio de transações de mercado entre

essas empresas. Se estas últimas fossem representadas pela cor verde e os

mercados, por vermelho, argumentou Simon, o marciano veria “grandes áreas

verdes interligadas por linhas vermelhas”, em vez de “uma rede de linhas

vermelhas ligando pontos verdes”.[72] E nós achamos que o planejamento

está morto.

Simon não falou muito a respeito do planejamento do governo, mas se o

adicionarmos, as modernas economias capitalistas são ainda mais planejadas

do que indica o seu exemplo marciano. Entre o planejamento que está tendo

lugar dentro das corporações e vários tipos de planejamento do governo, as

modernas economias capitalistas são planejadas em um grau bastante elevado.

Um ponto interessante que resulta dessas observações é que os países ricos

são mais planejados do que os países pobres, devido à existência mais

difundida de grandes corporações e à presença não raro mais predominante

(embora menos visível, devido à sua abordagem mais sutil) do governo.

A questão, portanto, não é planejar ou deixar de planejar, e sim quais são

os níveis e formas de planejamento apropriados para diferentes atividades. O

preconceito contra o planejamento, embora compreensível considerando-se o

fracasso do planejamento central comunista, nos leva a interpretar

erroneamente a verdadeira natureza da economia moderna na qual a política

do governo, o planejamento corporativo e os relacionamentos de mercado são

fundamentais e interagem de uma maneira bastante complexa. Sem os

mercados, acabaremos tendo as mesmas ineficiências que o sistema soviético. Entretanto, achar que podemos viver apenas em função do mercado é como

acreditar que podemos viver comendo apenas sal, porque o sal é essencial para

a nossa sobrevivência.

 

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