23 Coisas que Não Nos Contaram sobre o Capitalismo

10 - Os Estados Unidos não têm o padrão de vida mais elevado do mundo

 

10

 

Os Estados Unidos não têm o padrão de vida

 

mais elevado do mundo

 

O que eles dizem

 

Apesar dos seus recentes problemas econômicos, os Estados Unidos ainda

gozam do padrão de vida mais elevado do mundo. Considerando-se as taxas

de câmbio do mercado, vários países têm uma renda per capita superior à dos

EUA. Entretanto, se considerarmos o fato que o mesmo dólar (ou qualquer

outra moeda comum que possamos escolher) pode comprar mais produtos e

serviços nos EUA do que em outros países ricos, constata-se que os EUA têm

o padrão de vida mais elevado do mundo, excetuando-se a minicidade-estado

de Luxemburgo. É por esse motivo que outros países procuram imitar os

EUA, ilustrando a superioridade do sistema de livre mercado que os EUA

representam mais acuradamente (ou até mesmo com perfeição).

 

O que eles não dizem

 

O cidadão americano médio de fato tem um comando maior sobre os

produtos e serviços do que o seu equivalente em qualquer outro país do

mundo com exceção de Luxemburgo. No entanto, considerando-se a grande

desigualdade do país, essa média é menos precisa ao representar a maneira

como as pessoas vivem do que a média de outros países com uma distribuição

de renda mais semelhante. A elevada desigualdade também está por trás dos

indicadores de saúde mais insatisfatórios e das estatísticas de crime mais

desfavoráveis dos EUA. Além disso, o mesmo dólar compra mais coisas nos

EUA do que na maioria dos outros países ricos principalmente porque nos

EUA os serviços são mais baratos do que em qualquer outro país semelhante,

graças ao maior número de imigração e péssimas condições de trabalho. Além

do mais, os americanos trabalham um número bem maior de horas do que os europeus. Considerando-se a hora trabalhada, o comando deles sobre os

produtos e os serviços é menor do que o de vários países europeus. Embora

possamos debater que estilo de vida é melhor — mais bens materiais com

menos horas de lazer (como nos EUA) ou menos bens materiais com mais

tempo de lazer (como na Europa) — isso sugere que os EUA não têm um

padrão de vida inequivocamente mais elevado do que o de países semelhantes.

 

As estradas não são pavimentadas com ouro

 

Entre 1880 e 1914, quase três milhões de italianos migraram para os EUA.

Quando lá chegaram, muitos ficaram amargamente desapontados. O seu novo

lar não era o paraíso que imaginaram que seria. Dizem que muitos deles

escreveram para casa, declarando que “além de não ser verdade que as estradas

sejam pavimentadas com ouro, elas nem mesmo são pavimentadas; na

realidade, somos nós que devemos pavimentá-las”.

Esses imigrantes italianos não foram os únicos a achar que os EUA eram o

lugar onde os sonhos se tornavam realidade. Foi somente por volta de 1900

que os EUA se tornaram o país mais rico do mundo, mas mesmo nos seus

primeiros dias de existência, ele exercia uma forte influência na imaginação das

pessoas pobres de outros lugares. No início do século XIX, a renda per capita

dos EUA ainda se situava apenas em torno da média europeia e era mais ou

menos 50% mais baixa do que a da Inglaterra e a da Holanda. No entanto,

mesmo assim os europeus pobres queriam se mudar para lá porque o país

tinha um suprimento de terra quase ilimitado (bem, se você estivesse disposto

a expulsar do local alguns índios americanos) e uma intensa escassez de mão

de obra, o que significava que os salários eram de três a quatro vezes mais

elevados do que os da Europa. O mais importante é que a ausência do legado

feudal significava que o país tinha uma mobilidade social muito mais elevada

do que a dos países do Velho Mundo, como é proclamado na ideia do sonho

americano.

Não são apenas os possíveis imigrantes que são atraídos pelos EUA.

Especialmente nas últimas décadas, empresários e elaboradores de políticas do

mundo inteiro têm desejado, e com frequência tentado, imitar o modelo

econômico dos EUA. O seu sistema de livre iniciativa, segundo os admiradores do modelo americano, deixa as pessoas competirem sem limites e

recompensa os vencedores sem restrições impostas pelo governo ou por uma

cultura igualitária equivocada. Por conseguinte, o sistema cria incentivos

excepcionalmente fortes para o empreendedorismo e a inovação. O seu

mercado de mão de obra livre, no qual contratar e demitir é fácil, possibilita

que os seus empreendimentos sejam ágeis e, portanto, mais competitivos, já

que eles podem redistribuir os seus trabalhadores com mais rapidez do que os

seus concorrentes, em resposta a condições de mercado variáveis. Com os

empresários esplendidamente remunerados e os trabalhadores tendo que se

adaptar rapidamente, o sistema de fato cria uma elevada desigualdade. No

entanto, argumentam os seus defensores, até mesmo os “perdedores” nesse

jogo aceitam de boa vontade esses resultados porque, considerando-se a

elevada mobilidade social do país, os seus próprios filhos poderão ser o

próximo Thomas Edison, J. P. Morgan ou Bill Gates. Com esses incentivos

para trabalhar arduamente e exercitar a inventividade, é compreensível que o

país tenha sido o mais rico do mundo durante o último século.

 

Os americanos simplesmente vivem melhor...

 

Na realidade, isso não é inteiramente verdadeiro. Os EUA não são mais o país

mais rico do mundo. Hoje, vários países europeus têm uma renda per capita

mais elevada. Os dados do Banco Mundial nos dizem que a renda per capita

anual dos EUA em 2007 foi de 46.040 dólares. Sete países tiveram uma renda

per capita superior à dos EUA tomando-se como base o dólar americano: o

primeiro é a Noruega (76.450 dólares), seguido por Luxemburgo, Suíça,

Dinamarca, Islândia, Irlanda e, por último, a Suécia (46.060 dólares). Se

desprezarmos os dois miniestados da Islândia (311 mil habitantes) e

Luxemburgo (480 mil habitantes), mesmo assim os EUA são apenas o sexto

país mais rico do mundo.

No entanto, alguns de vocês poderão dizer, isso não pode estar certo.

Quando vamos aos EUA, podemos ver que as pessoas lá vivem melhor do que

os noruegueses e os suíços.

Uma das razões pelas quais temos essa impressão é o fato de os EUA

terem uma desigualdade muito maior do que a dos países europeus, aparentando, portanto, serem mais prósperos para os visitantes estrangeiros do

que realmente são, já que os visitantes estrangeiros em qualquer país raramente

chegam a ver as partes carentes, as quais, nos EUA, são muito mais numerosas

do que na Europa. No entanto, mesmo se desconsiderarmos esse fator de

desigualdade, há um bom motivo pelo qual a maioria das pessoas acredita que

os EUA têm um padrão de vida mais elevado do que o dos países europeus.

Você talvez tenha pago 35 francos suíços, ou 35 dólares, por uma corrida

de táxi de oito quilômetros em Genebra, quando uma corrida semelhante teria

custado em torno de 15 dólares em Boston. Em Oslo, você talvez tenha pago

550 coroas, ou 100 dólares, por um jantar que não poderia de jeito nenhum ter

custado mais do que 50 dólares, ou 275 coroas, em St. Louis. O inverso

também teria sido o caso se você tivesse trocados os seus dólares por bahts

tailandeses ou pesos mexicanos nas suas férias. Depois de fazer a sua sexta

massagem da semana ou pedir a terceira margarita antes do jantar, você teria

tido a impressão de que os seus 100 dólares tinham se multiplicado e se

transformado em 200 dólares, ou até mesmo 300 (ou terá sido o álcool?). Se as

taxas de câmbio do mercado refletissem com precisão as diferenças nos

padrões de vida entre os países, esse tipo de situação não aconteceria.

Por que existem diferenças tão grandes entre as coisas que conseguimos

comprar em diferentes países com o que deveria ser a mesma quantidade de

dinheiro? Essas diferenças basicamente existem porque as taxas de mercado

são em grande medida determinadas pela oferta e procura de produtos e

serviços negociados internacionalmente (embora a curto prazo a especulação

monetária possa influenciar as taxas de câmbio do mercado), enquanto o que

uma quantia pode comprar em um determinado país é determinado pelos

preços de todos os produtos e serviços, e não apenas pelos que são negociados

internacionalmente.

As mais importantes das coisas não negociadas são os serviços de mão de

obra de pessoa para pessoa, como dirigir táxis e servir refeições em

restaurantes. O comércio nesses serviços requer a migração internacional, mas

ela é severamente limitada pelo controle de imigração, de modo que os preços

desses serviços de mão de obra acabam sendo extremamente diferentes nos

vários países. Em outras palavras, coisas como corridas de táxi e refeições são

caras em países como a Suíça e a Noruega porque eles têm trabalhadores dispendiosos. Eles são mais baratos em países com trabalhadores baratos,

como o México e a Tailândia. Quando se trata de coisas internacionalmente

negociadas, os preços são basicamente os mesmos em todos os países, ricos e

pobres.

A fim de levar em conta os preços diferenciais de produtos e serviços não

negociados entre países, os economistas inventaram a ideia de um “dólar

internacional”. Baseada na noção da paridade do poder de compra (PPC) —

ou seja, avaliar o poder de uma moeda de acordo com que proporção de uma

cesta básica comum ela pode comprar em diferentes países — essa moeda

fictícia possibilita que convertamos a renda de diferentes países em uma

medida comum de padrões de vida.

O resultado de converter a renda de diferentes países no dólar

internacional é que a renda dos países ricos tende a se tornar mais baixa do

que a sua renda na taxa de câmbio do mercado, enquanto a dos países pobres

tende a se tornar mais elevada. Isso acontece porque grande parte do que

consumimos são serviços, que são muito mais caros nos países ricos. Em

alguns casos, a diferença entre a renda da taxa de câmbio do mercado e a renda

da PPC não é grande. De acordo com dados do Banco Mundial, a renda dos

EUA segundo a taxa de câmbio do mercado dos EUA foi de 46.040 dólares

em 2007, enquanto a sua renda de PPC foi mais ou menos a mesma, 45.850

dólares. No caso da Alemanha, a diferença entre as duas foi maior, de 38.860

dólares versus 33.820 dólares (uma diferença de 15%, por assim dizer, embora

não possamos realmente comparar os dois valores tão diretamente). No caso

da Dinamarca, a diferença chegou a quase 50% (54.910 dólares versus 36.740

dólares). Em contrapartida, a renda da China em 2007 mais do que duplica de

3.360 dólares para 5.370 dólares e a da Índia praticamente triplica, indo de 950

dólares para 2.740 dólares, quando calculada baseada na PPC.

Entretanto, o cálculo da taxa de câmbio de cada moeda com o dólar

internacional (fictício) não é uma questão fácil e objetiva, em grande parte

porque temos que pressupor que todos os países consomem a mesma cesta de

produtos e serviços, o que evidentemente não é o caso. Isso torna as rendas da

PPC extremamente sensíveis às metodologias e às informações utilizadas. Por

exemplo, quando o Banco Mundial alterou o seu método de estimar as rendas

de PPC em 2007, a renda per capita da China caiu em 44% (de 7.740 dólares para 5.370 dólares), ao passo que a de Cingapura subiu 53% (de 31.710 dólares

para 48.520 dólares) da noite para o dia.

Apesar desses limites, a renda de um país em dólares internacionais

provavelmente nos dá uma ideia melhor do seu padrão de vida do que a sua

renda em dólares à taxa de câmbio do mercado. E se calcularmos a renda de

diferentes países em dólares internacionais, os EUA (quase) voltam ao

primeiro lugar no mundo. Depende da estimativa, mas Luxemburgo é o único

país que tem uma renda per capita da PPC mais elevada do que a dos EUA em

todas as avaliações. Assim sendo, desde que coloquemos de lado a minúscula

cidade-estado de Luxemburgo, que tem menos de meio milhão de habitantes,

o cidadão americano típico pode comprar a maior quantidade de produtos e

serviços do mundo com a sua renda.

Isso permite que afirmemos que os EUA têm o mais elevado padrão de

vida do mundo? Talvez. Mas temos que considerar algumas coisas antes de

tirar uma conclusão precipitada.

 

... vivem mesmo?

 

Para começar, ter uma renda média mais elevada do que a de outros países não

significa necessariamente que todos os cidadãos americanos vivam melhor do

que os seus equivalentes estrangeiros. Se esse é ou não o caso depende da

distribuição da renda. É claro que em nenhum país a renda média fornece uma

representação correta de como as pessoas vivem, mas em um país com uma

elevada desigualdade ela tem a propensão de ser particularmente enganosa.

Considerando-se que os EUA têm, de longe, a distribuição de renda mais

desigual entre os países ricos, podemos supor com segurança que a renda per

capita nos EUA exagera os efetivos padrões de vida de um número maior dos

seus cidadãos do que em outros países. E essa conjectura é indiretamente

apoiada por outros indicadores de padrões de vida. Por exemplo, apesar de ter

a renda da PPC mais elevada, os EUA estão classificados apenas por volta do

trigésimo lugar no mundo em estatísticas de saúde como a expectativa de vida

e a mortalidade infantil (é bem verdade que a ineficiência do sistema de saúde

americano contribui para isso, mas não vamos entrar nesse assunto). O índice

de criminalidade muito mais elevado do que na Europa ou no Japão — do ponto de vista per capita, os EUA têm oito vezes mais pessoas na prisão do que

a Europa e doze vezes mais do que o Japão — demonstra que a classe baixa é

bem maior nos EUA.

Segundo, o fato de a sua renda da PPC ser mais ou menos a mesma que a

sua renda da taxa de câmbio do mercado é uma prova de que o elevado padrão

de vida dos EUA se baseia na pobreza de muitos. O que eu quero dizer com

isso? Como ressaltei anteriormente, é normal que a renda da PPC de um país

rico seja mais baixa, às vezes acentuadamente, do que a sua renda da taxa de

câmbio do mercado, porque os seus trabalhadores do setor de serviços são

dispendiosos. No entanto, isso não acontece nos EUA, porque ao contrário de

outros países ricos, o país tem trabalhadores de baixo custo no setor de

serviços. Para começar, há uma grande entrada de imigrantes dos países

pobres, muitos deles ilegais, que aceitam trabalhar com salários baixos, o que

os torna ainda mais baratos. Além disso, até mesmo os trabalhadores nativos

nos EUA têm segundas opções de emprego muito mais fracas do que os seus

equivalentes em países europeus com um nível de renda semelhante. Como

têm muito menos estabilidade no emprego e uma assistência social muito mais

fraca, os trabalhadores americanos, especialmente os não sindicalizados do

setor de serviços, trabalham por salários mais baixos e em condições inferiores

do que os seus equivalentes europeus. É por esse motivo que coisas como

corridas de táxi e refeições em restaurantes são tão mais baratas nos EUA do

que em outros países ricos. Isso é ótimo quando você é o cliente, mas não é

tão bom se você for o motorista de táxi ou o garçom ou a garçonete. Em

outras palavras, o maior poder de compra da renda média dos EUA é obtido à

custa de uma renda mais baixa e de condições de trabalho inferiores para

muitos cidadãos americanos.

Finalmente e igualmente importante, ao comparar padrões de vida entre

países, não devemos desprezar as diferenças nas horas de trabalho. Mesmo que

alguém esteja ganhando 50% mais do que eu ganho, você não diria que essa

pessoa tem um padrão de vida mais elevado do que o meu, se ela tiver que

trabalhar o dobro do número de horas que eu trabalho. O mesmo se aplica aos

EUA. Os americanos, como condiz com sua reputação de ser viciados em

trabalho, trabalham mais horas do que os cidadãos de qualquer outro país que

tenha uma renda per capita de 30 mil dólares anuais à taxa de câmbio do mercado em 2007 (com a Grécia sendo a mais pobre do grupo, com uma

renda per capita levemente inferior a 30 mil dólares). Os americanos trabalham

10% mais do que a maioria dos europeus e cerca de 30% mais do que os

holandeses e os noruegueses. Segundo um cálculo do economista islandês

Thorvaldur Gylfason, sob o aspecto da renda (em termos da PPC) por hora

trabalhada em 2005, os EUA estavam classificados apenas em oitavo lugar —

depois de Luxemburgo, da Noruega, da França (isso mesmo, a França, a nação

de indolentes), da Irlanda, da Bélgica, da Áustria e da Holanda — e era seguido

bem de perto pela Alemanha.[32] Em outras palavras, por unidade de esforço,

os americanos não estão obtendo um padrão de vida tão elevado quanto os

seus equivalentes em nações concorrentes. Eles compensam essa

produtividade mais baixa trabalhando um número muito maior de horas.

É perfeitamente razoável que uma pessoa argumente que deseja trabalhar

mais horas se isso for necessário para que ela tenha uma renda mais elevada;

ela prefere ter mais uma televisão do que mais uma semana de férias. E quem

sou eu, ou qualquer outra pessoa, para afirmar que a prioridade dela está

errada?

No entanto, ainda é válido perguntar se as pessoas que trabalham um

número maior de horas mesmo em níveis de renda elevados estão fazendo a

coisa certa. Muitos concordariam em que, em um nível baixo de renda, um

aumento na renda tem a tendência de melhorar a qualidade de vida da pessoa,

mesmo que isso signifique uma jornada de trabalho mais longa. Nesse nível,

mesmo que você tenha que trabalhar mais horas na fábrica, uma renda mais

elevada provavelmente lhe proporcionará uma qualidade de vida mais elevada

como um todo, ao melhorar a sua saúde (por meio de uma alimentação,

aquecimento, higiene e cuidados com a saúde melhores) e ao reduzir as

exigências físicas das tarefas domésticas (por meio de mais eletrodomésticos,

água encanada, gás e eletricidade —. Entretanto, acima de um determinado

nível de renda, o valor relativo do consumo material vis-à-vis o tempo de lazer

diminui, de modo que ter uma renda mais elevada à custa de trabalhar um

número maior de horas poderá reduzir a sua qualidade de vida.

O mais importante é que o fato de os cidadãos de um país trabalharem

mais tempo do que outros em países equiparáveis não significa

necessariamente que eles gostem de trabalhar mais horas. Eles podem se ver obrigados a trabalhar muitas horas, mesmo que na realidade desejem ter férias

mais longas. Como ressaltei há pouco, o tempo que uma pessoa trabalha é

afetado não apenas pelas suas preferências com relação ao equilíbrio entre o

trabalho e o lazer, mas também por coisas como a provisão para o bem-estar

social, a proteção dos direitos do trabalhador e a força sindical. As pessoas têm

que aceitar essas coisas da maneira como são concedidas, mas as nações têm

uma escolha com relação a elas. Elas podem reescrever as leis trabalhistas,

reforçar o estado do bem-estar social e efetuar outras mudanças na política

para fazer com que as pessoas tenham menos necessidade de trabalhar muitas

horas.

Grande parte do apoio ao modelo americano tem se baseado no “fato”

que os EUA têm o nível de vida mais elevado do mundo. Embora não exista

nenhuma dúvida de que os EUA têm um dos padrões de vida mais elevados

do mundo, a sua suposta superioridade parece muito mais fraca quando temos

uma concepção mais ampla dos padrões de vida do que aquilo que a renda

média de um país poderá comprar. A maior desigualdade dos EUA significa

que a sua renda média é menos indicativa dos padrões de vida dos seus

cidadãos do que em outros países. Isso se reflete em indicadores como a saúde

e a criminalidade, onde o desempenho dos EUA é bem pior do que o de países

comparáveis. O maior poder de compra dos cidadãos americanos (em

comparação com o de cidadãos de outros países ricos) se deve, em grande

parte, à pobreza e insegurança de muitos dos seus concidadãos, especialmente

no setor de serviços. Os americanos também trabalham consideravelmente

mais do que os seus equivalentes em nações concorrentes. Considerando-se a

hora trabalhada, a renda nos EUA é inferior àquela de vários países europeus,

mesmo no que diz respeito ao poder de compra. É discutível que isso possa

ser descrito como ter um padrão de vida mais elevado.

Não existe uma maneira simples de comparar padrões de vida entre países.

A renda per capita, especialmente no que diz respeito ao poder de compra, é

possivelmente o indicador mais confiável. No entanto, se nos concentramos

apenas em quantos produtos e serviços a nossa renda pode comprar, omitimos

muitas outras coisas que constituem elementos da “boa vida” como a

quantidade de um tempo de lazer de qualidade, estabilidade no emprego,

ausência da criminalidade, acesso aos cuidados com a saúde, provisões para o bem-estar social e assim por diante. Embora diferentes pessoas e países

decididamente terão pontos de vista diferentes a respeito de como comparar

esses indicadores uns com os outros e com valores de renda, as dimensões que

não envolvem a renda não devem ser deixadas de lado, para que possamos

construir sociedades nas quais as pessoas genuinamente “vivam bem”.

 

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