A Águia Solitária

Danielle Steel · Capítulo 8 de 25

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A Águia Solitária

Capítulo 7

 

A guerra aqueceu em outubro desse ano, e algum as notícias eram m ais encoraj adoras do que haviam sido até ali. Os Australianos e seus aliados andavam expulsando os Japoneses da Nova Guiné, e estes pareciam estar enfraquecendo em Guadalcanal. Os Britânicos com eçavam finalm ente a cansar as forças alem ãs no Norte de África. E Estalinegrado resistia ainda aos Alem ães, se bem que a m uito custo.

Joe efetuava m issões constantes e aquela em que sobrevoou Gibraltar entrou para a história. Ele e três outros pilotos de Spitfires abateram doze caças de m ergulho Stuka num a m issão de reconhecim ento anterior à grande cam panha de invasão dos Aliados conhecida com o Operação Archote. A m issão fora um grande êxito.

Joe foi condecorado na Grã-Bretanha, e retornou a Washington para receber outra m edalha das m ãos do presidente. Daquela vez Kate soube da sua vinda com bastante antecedência. Pegou um trem de Boston para Washington para se encontrar com ele três dias antes do Natal. Dispunham de quarenta e oito horas antes de ele retornar para a Inglaterra. Foi um a dádiva inesperada para os dois. O Departam ento de Guerra instalou-o num hotel e Kate aloj ou-se num pequeno quarto no m esm o andar. Foi à cerim ônia na Casa Branca com ele, o presidente apertou-lhe a m ão e ela e Joe pousaram para um a fotografia com ele. Tudo aquilo fazia lem brar a Kate um film e.

Joe levou-a para j antar depois. Ela sorriu-lhe após terem feito o pedido. Ele ainda tinha a m edalha ao peito. Estava m ais bonito que nunca.

— Ainda m al acredito que você estej a aqui — disse ela, radiante.

Joe era um verdadeiro herói. A cerim ônia fora um a estranha m istura de felicidade e de tristeza para Kate ao perceber de que ele podia ter sido facilm ente m orto. A vida naquela época parecia agridoce. Todos os dias em que ele sobrevivia eram um a dádiva, e quase todos os dias ela ouvia notícias de rapazes que tinham m orrido na Europa ou no Pacífico. As suas antigas colegas j á tinham perdido m uitos entes queridos. Até ali, ela tivera m uita sorte. Rezava todos os dias por Joe.

— Nem eu acredito que estou aqui — respondeu Joe bebendo um gole de vinho. — E num abrir e fechar de olhos estarei de novo congelando na Inglaterra

Ali, com o a guerra não estava tão próxim a, as coisas pareciam m ais festivas. Havia árvores de Natal por todo o lado, cantores de Natal, e crianças sorridentes à espera do Papai Noel. Havia ainda rostos felizes, em contraste com os rostos de sofrim ento, fam intos e assustados da Inglaterra. Mesm o as crianças de lá pareciam exaustas, todos estavam dem asiado cansados das bom bas e dos ataques aéreos. As casas desapareciam num abrir e fechar de olhos, perdiam -se os am igos, as crianças eram m ortas. Na Inglaterra, parecia quase im possível ser-se feliz naquela época e no entanto, as pessoas que Joe conhecia lá eram bastante coraj osas.

Washington parecia a am bos tirada de um conto de fadas. Depois de j antar, regressaram a pé ao hotel e ficaram conversando na sala de estar j unto à recepção. Dem oraram -se ali várias horas porque não queriam afastar-se e retornar aos quartos. À m edida que a noite foi passando, as correntes de ar aum entaram na sala, m as Kate achava pouco próprio irem sentar-se num dos quartos. Os pais tinham querido vir a Washington com ela, não só para a guardar, m as tam bém para festej ar com Joe. Acabaram por não poder ir. Clientes im portantes de Clarke vinham visitá-lo de Chicago e Elizabeth tinha de o acom panhar. Perm itiram a Kate ir sozinha e sabiam que Joe era um hom em responsável. Por fim , sentiam -se am bos tão gelados na sala que ele sugeriu irem até ao seu quarto.

Subiram a escada estreita. Era um hotel pequeno com um a diária m uito barata para os m ilitares, e fora por isso que o haviam aloj ado ali. O quarto de Kate era ligeiram ente m ais caro. Os quartos eram pequenos e tinham um a decoração sim ples, m as serviam perfeitam ente por dois dias. A única coisa que lhes im portava era estarem um com o outro. Vê-lo era o presente de Natal que Kate desej ara e não esperara recebê-lo.

Desde setem bro que m orria de saudades dele. Quase sentia rem orsos por vê-lo. Conhecia m ulheres que não viam os irm ãos e os noivos desde Pearl Harbor. Ela j á vira Joe duas vezes nos últim os quatro m eses.

Com o os quartos eram m enores, ficaram m ais quentes ali do que na sala j unto à recepção. Havia em cada um um a cam a, um a cadeira, um a côm oda e um lavatório, e havia um chuveiro e um vaso sanitário no que j á devia ter sido um quarto de vestir. O único local onde podia pendurar-se a roupa era atrás da porta, m as Kate preferia ter um banheiro só para si.

Assim que chegaram ao quarto, Joe sentou-se na cam a e ela na cadeira. Ele abriu um a pequena garrafa de cham panhe que com prara quando chegara a Washington. Era para com em orar a condecoração que ainda trazia ao peito.

Kate estava radiante por terem ido à Casa Branca. Mrs Roosevelt fora m uito sim pática para ela, e era exatam ente com o Kate im aginara. Sem saber por que m otivo, reparara que a prim eira dam a tinha um as m ãos m uito bonitas e não parara de olha-las. Kate sabia que iria recordar-se para sem pre daquela tarde. Joe parecia m uito m ais desprendido, m as era natural porque ao longo dos anos j á estivera em lugares bastante interessantes com Charles, e havia coisas que o im pressionavam m ais. Coisas com o grandes feitos aeronáuticos ou pessoas com o pilotos. Mas não deixava de se sentir satisfeito com a condecoração, em bora lam entasse os hom ens que haviam m orrido durante as m issões em que pilotara. Teria preferido não receber a m edalha e tê-los feito aterrissar sãos e salvos. Isso dificultava as suas com em orações e im pedia que ficasse genuinam ente excitado com a m edalha. Já perdera tantos am igos. Conversavam acerca disso quando ele lhe entregou o copo de cham panhe.

A cadeira em que Kate estava sentada era tão desconfortável que ele a convidou a sentar-se na cam a ao seu lado. Ela sabia que estavam tentando o destino, m as sabia tam bém que podiam confiar um no outro. Não iam fazer nenhum a idiotice só por se encontrarem sentados na cam a de um hotel. Sem hesitar, ela foi sentar-se ao seu lado e continuaram conversando. Bebera apenas m eio copo de cham panhe, e Joe dois. Nenhum deles bebia m uito e passado algum tem po Kate disse que era m elhor retornar ao seu quarto.

Antes de ela se levantar, ele beij ou-a. Foi um longo beij o cheio de tristeza e de saudade, m as tam bém cheio de alegria pelo reencontro. Quando Joe acabou de a beij ar Kate estava ofegante, e ele tam bém . Tinham a sensação de estar fam intos. Parecia que todas as privações do ano anterior se faziam finalm ente sentir e que não conseguiam saciar-se um do outro. Kate nunca desej ara tanto Joe, nem ele a ela. Ele nem pensou no que estava fazendo quando a deitou na cam a e a beij ou, pondo-se suavem ente em cim a dela. Para seu próprio espanto, Kate não o deteve. Tinham de recuperar o fôlego e de parar antes de avançarem m ais, ou seria dem asiado tarde, com o sabiam . Ele m urm urava em voz rouca dizendo que a am ava m uito. Nunca a am ara tanto.

— Eu tam bém te am o sussurrou ela sem fôlego. — Só queria beij á-lo, abraçá-lo e senti-lo em cim a de si e, sem pensar, com eçou a desabotoar-lhe o casaco. Queria sentir a sua pele, e aninhar-se nele. Não conseguia saciar-se e Joe sabia que não seria capaz de conter-se durante m uito m ais tem po.

— O que você está fazendo? — perguntou Joe quando ela lhe abriu o casaco. Com eçou a desabotoar a cam isa dela. Segundos depois tinha nas m ãos os seus seios e baixou-se para os beij ar. Kate gem eu quando ele lhe tirou a cam isa e o sutiã. Nessa hora j á tirara o casaco de Joe e ele j á despira a cam iseta e encontrava-se com o tronco nu. Sentirem a carne um do outro era m aravilhoso. — Querida... quer parar? — perguntou ele. Tentava controlar a situação, m as com eçava a perder todo o controle. Só de olhar para ela e senti-la assim tão perto im possibilitava-o de pensar.

— Sei que devíam os parar — m urm urou ela entre os beij os. Contudo, não queria parar. Não podia. Ele era tudo o que queria. Tinham se contido durante tanto tem po e naquele m om ento só queria estar com ele. Quando com eçou a entregar-se-lhe, Joe afastou-a e olhou para ela, fazendo um enorm e esforço para se conter. Am ava-a tanto!

— Kate, escuta, não tem os de fazer isto se você não quiser... — Era o seu últim o esforço para salvá-la, m as daquela vez ela não queria ser salva. Só queria am á-lo e ser am ada

— Am o-te tanto... quero-te, Joe... — Queria fazer am or antes de ele partir. Depois da cerim ônia daquele dia, percebera quão efêm era e fugaz era a vida. Ele poderia nunca m ais retornar.

Ele tornou a beij á-la em resposta ao que ela dissera e tirou-lhe suavem ente o resto das roupas. Despiu-se tam bém e ficaram nus, as roupas am ontoadas no chão. Joe percorreu o corpo perfeito de Kate com os dedos e beij ou-a por todo lado, saboreando o m om ento, e saboreando Kate enquanto ela gem ia sob os seus lábios e dedos. Ela estava beij ando-o quando ele a penetrou, e a dor foi apenas m om entânea. Segundos depois abandonara-se-lhe com pletam ente. Estavam am bos dom inados pela paixão e ele nunca am ara ninguém com o ela. Entregou-se totalm ente e assustou-o sentir que quase desaparecia dentro dela, as suas alm as unas. Fizeram am or durante bastante tem po, e quando term inaram estavam dem asiado cansados para se m over ou falar. Foi Joe quem se m exeu prim eiro, deitando-se de lado e olhando para ela com um a ternura infinita. Kate abrira nele portas que ele j ulgara nem existirem .

— Am o-te, Kate — m urm urou para o cabelo dela, percorrendo o seu tronco com um dedo preguiçoso e tapando-a suavem ente com o cobertor. Ela j á estava m eio dorm indo, m as ainda lhe sorriu. Não se sentia envergonhada, nem arrependida, nem dolorida. Nunca fora tão feliz em toda a sua vida. Finalm ente era dele.

Não voltou para o quarto nessa noite, ficou com ele. Joe aconchegou-lhe a roupa e depois deitou-se ao seu lado. Queria voltar a fazer am or com ela, m as tinha m edo de a m achucar. No entanto, de m anhã foi Kate quem o procurou e, m om entos depois, encontraram -se e viaj aram de novo até novos cum es. Na vida de am bos tinham -se aberto novos locais e nascido novos sentim entos. E quando Kate se levantou e olhou para ele, percebeu que um elo ainda m ais forte se form ara entre am bos. Não im portava onde ele havia estado, nem para onde iria, sabia instintivam ente que durante o resto da vida seria sua. Não saberia com o dizer-lhe aquilo, m as soube, quando se m eteu na ducha com ele, que lhe pertencia. A sua alm a era dele.

Deixar Joe em Washington foi ainda m ais difícil desta vez do que fora deixá-lo em Boston em setem bro. Ele era agora parte de si e tratou-a ainda com m ais ternura. Parecia pressentir que ela era de fato sua e só queria protegê-la. Avisou-a m il vezes para ter cuidado no cam inho de volta para casa, para ter cuidado consigo e não fazer nenhum a idiotice. Desej ou poder ficar com ela, m as tinha de retornar a Inglaterra para as suas m issões.

O m om ento da separação foi agonizante para os dois. Pela prim eira vez na vida, Joe entregara-se com pletam ente. Fora vulnerável e forte ao m esm o tem po e, tal com o ela, rendera-se-lhe. Não porque dorm ira com ela, m as porque se responsabilizara por ela. E separarem -se não foi fácil

— Escreve-m e todos os dias Kate, am o-te — disse Joe antes de partir. E quando a levou a Union Station, ela j ulgou que o seu coração iria despedaçar-se no m om ento em que o trem arrancou da estação. Ele correu ao lado do vagão enquanto pôde e depois ficou na plataform a acenando-lhe. Kate acenou-lhe da j anela com as lágrim as correrendo-lhe pelo rosto. Já não podia im aginar a vida sem ele e naquele m om ento acreditou que se ele m orresse não suportaria o desgosto. Não queria viver um a hora m ais que ele. Isso fê-la recordar a dor de ter perdido o pai. Joe despertava nela sentim entos de am or que nunca conhecera. Deixá-lo fê-la de novo sentir a perda que passara m etade da vida tentando esquecer

Fez a m aior parte da viagem de olhos fechados. Era véspera de Natal e Joe estaria num avião rum o a Inglaterra antes de ela chegar em casa. Só ao fim da noite estaria em Boston e sabia que os pais se encontrariam à sua espera. Quando desceu do trem e cham ou um táxi m al conseguia articular um a palavra devido ao sofrim ento. Não im aginava sobreviver sem Joe. Aquilo que ele lhe dera e que ela o deixara dar-lhe era a cola que cim entaria a união de am bos para sem pre. Fora a últim a peça do quebra-cabeças. Ele não a pedira em casam ento, m as não fora necessário. Kate pressentira, tal com o ele, que as suas alm as haviam se tornado unas.

E quando entrou na sala e a m ãe viu o rosto dela, Kate percebeu que Elizabeth devia ter pensado que algum a coisa terrível acontecera. Contudo, a única coisa que acontecera fora que Kate tinha tantas saudades de Joe que não suportava ter de esperar m eses ou anos até voltar a vê-lo ou, pior ainda, pensar na hipótese de ele m orrer. Tudo ficara subitam ente diferente. Os m uros haviam sido derrubados.

— Aconteceu algum a coisa? — perguntou a m ãe com um a expressão de pânico.

Kate abanou a cabeça, e com preendeu nesse instante que a sua liberdade desaparecera. Deixara de ser um a garota apaixonada por um hom em . Fazia parte de um todo e achava que não seria capaz de funcionar sem Joe. Os últim os dois dias haviam alterado tudo.

— Não, — respondeu Kate, m as não foi convincente.

— Tem certeza? Vocês discutiram antes de ele partir? — Isso às vezes acontecia devido à tensão.

— Não, ele foi m aravilhoso. — E ao dizer isto, Kate desatou a chorar e lançou-se nos braços da m ãe. O pai observava-as, preocupado. — E se ele m orre, m ãe? E se ele nunca m ais voltar? — Toda a paixão, todo o m edo, todo o desej o, todos os sonhos e necessidades e excitação e desilusão fundiram -se num a explosão gigante, sem elhante a um a bom ba que lhe caíra em cim a por causa de ele ter ido em bora para a Inglaterra. Kate não suportaria perder de novo alguém que am ava. Tem ê-lo fê-la sentir-se um a criança.

— Só podem os rezar para que ele volte, querida. Não podem os fazer m ais nada. Se o destino assim o quiser, ele voltará. Agora tem de ser coraj osa — disse a m ãe com ternura, olhando para o m arido com um a enorm e tristeza e arrependim ento.

— Não quero ser coraj osa — disse Kate soluçando. — Quero que ele volte para casa... que a guerra acabe. — Parecia um a criança, e os pais ficaram cheios de pena. Era terrível, m as m eio m undo enfrentava a m esm a agonia. Kate não estava sozinha na sua dor. Aliás, tinha m ais sorte que a m aioria. Outras m ulheres j á haviam perdido os hom ens que am avam , os filhos, os irm ãos e os m aridos. E Kate ainda tinha Joe. Por enquanto.

Sentou-se no sofá ao pé dos pais e recom pôs-se. A m ãe estendeu-lhe um lenço e o pai abraçou-a. Tinham m uita pena dela e nessa noite, depois de Elizabeth ter lhe ido aconchegar a roupa à cam a, com o fizera quando ela era pequena, retornou ao quarto com o m arido. Fechou a porta com um suspiro e sentou-se diante do toucador

— Era precisam ente isto que eu não queria para ela — com entou Liz com tristeza. — Não queria que ela o am asse tanto. Agora é dem asiado tarde. Não estão noivos, não estão casados. Ele não lhe prom eteu nada. Não têm nada. Só o am or que nutrem um pelo outro.

— E isso é m uito, Liz. Talvez sej a tudo o que precisam . Estar casado não o aj udaria a m anter-se vivo. Está tudo nas m ãos de Deus. Pelo m enos eles am am -se.

— Se algum a coisa lhe acontecer agora, Clarke, ela nunca se recuperará. — Não com entou nada com o m arido, m as ao ver Kate chorar nessa noite recordou-lhe com o a filha ficara abalada com a m orte do pai.

— Ela está no m esm o barco que m etade das m ulheres deste país. Se algum a coisa acontecer, ela terá de recuperar. É j ovem . Não será difícil.

— Espero que ela nunca tenha de passar por isso — disse a m ãe com fervor

Na m anhã seguinte, dia de Natal, Kate continuava triste. A m ãe dera-lhe um lindo colar de safiras com brincos com binando, e o pai oferecera-se para lhe com prar um carro com dois anos que vira, em perfeito estado, se a condução dela m elhorasse. Mas com o racionam ento da gasolina tinha poucas oportunidades para praticar, e Elizabeth não achava que fosse boa idéia. Kate tam bém com prara presentes para os pais. No entanto, sentada à m esa diante do j antar de Natal só conseguia pensar em Joe e foi incapaz de dizer um a palavra. Sabia que ele j á estava de volta a Inglaterra, pilotando os bom bardeiros.

Durante as sem anas seguintes, não conseguiu anim ar-se. A m ãe andava m uito preocupada com ela e chegou a pensar em levá-la ao m édico. Kate estava pálida e cansada sem pre que vinha para casa nos finais de sem ana. Parecia j á não ter vida social e Andy ligara-lhe para casa várias vezes, queixando-se de que não a via há m uito. As únicas coisas que Kate parecia querer fazer eram dorm ir e reler as cartas de Joe. Nelas ele parecia igualm ente deprim ido. Não fora fácil retornar a Inglaterra e o tem po m antinha-se péssim o. Fora necessário cancelar várias m issões e os hom ens andavam inquietos e aborrecidos.

Foi no Dia dos Nam orados que Elizabeth com eçou a ficar em pânico por causa da filha. Vira Kate na noite anterior quando viera j antar em casa. Mal tocara na com ida, estava pálida e com ar cansado, e chorava a cada vez que falava em Joe. Depois de ela ter ido em bora, Elizabeth disse a Clarke que queria levar Kate ao m édico.

— Ela sente-se apenas sozinha — retorquiu ele. — Está frio e escuro e ela anda trabalhando m uito na escola. Vai ficar boa, Liz. Dá-lhe só algum tem po. E talvez ele tenha outra licença em breve.

Mas em fevereiro de 1943 ele voava m ais do que nunca.

Joe participara no ataque noturno a Wilhem shaven. Fazia essencialm ente voos diurnos, um a vez que os Britânicos preferiam encarregar-se dos noturnos. No entanto, foi convidado a voar com eles no bom bardeam ento de Nurem berg.

Foi m ais para o fim de fevereiro que a própria Kate com eçou a entrar em pânico. Estivera com Joe havia oito sem anas, e o que a princípio fora apenas um a suspeita, transform ara-se num a certeza havia um m ês. Estava grávida. Não sabia o que fazer e não queria contar aos pais. Arranj ara o nom e de um m édico em Manhattan por interm édio de um a colega, fingindo que era para um a am iga, m as não tivera coragem para lhe ligar. Sabia que daria acabaria com tudo ter um bebê naquela época. Teria de abandonar os estudos, todas as pessoas ficariam escandalizadas, e m esm o que o quisessem , ela e Joe não podiam casar-se. Ele escrevera-lhe havia pouco dizendo que não tinha esperança de poder vir para casa em breve, e ela não lhe contara por que m otivo lhe perguntara. Dissera apenas que tinha saudades dele. Nunca iria querer forçá-lo a casar. Sabia igualm ente que se fizesse um aborto e algo acontecesse a Joe nunca se perdoaria. Casada ou não, queria o bebê. Em vez de tom ar um a decisão acerca do assunto, deixou o tem po passar até ser tarde dem ais para abortar. Ainda não sabia o que iria dizer aos pais, nem im aginava a sua vergonha quando tivesse de inform ar o colégio.

Andy foi visitá-la um a noite e perguntou-lhe se estava com gripe. Todos em Harvard foram contagiados e ele achou-a com um ar adoentado. Ela andava enj oada desde o princípio de j aneiro, e estavam quase em m arço. Kate j á havia decidido levar a gravidez a bom term o, sabia que não tinha alternativa, e queria m esm o o bebê. Era o bebê de Joe. Esperaria para contar aos pais quando não tivesse alternativa. Tam bém calculou que se a barriga j á se notasse na Páscoa, teria de abandonar o colégio. Teria gostado de esperar até j unho e term inar o segundo ano e de retornar depois no outono, após o nascim ento do bebê. Mas em j unho, quando com eçassem as férias, j á estaria grávida de seis m eses, e não haveria form a de ocultar a barriga. Mais tarde ou m ais cedo teria de enfrentar a realidade. O que a espantava era a m ãe ainda não ter desconfiado de nada. Quando isso acontecesse, teria de penar m uito e sabia que os pais não Joe perdoariam facilm ente.

Ainda não lhe contara nada, em bora lhe escrevesse todos os dias. Pensara no assunto, m as não queria perturbá-lo ou irritá-lo. Ele precisava estar concentrado nas suas m issões. Por isso suportava tudo sozinha, vom itando no banheiro todas as m anhãs e arrastando-se para as aulas. Até as colegas notaram que ela passava o tem po todo dorm indo e a governanta perguntou-lhe se ela precisava ir ao m édico. Kate insistiu que estava bem , apenas um pouco cansada por estudar m uito, m as as suas notas com eçavam a cair e todos os professores haviam reparado nisso.

A sua vida com eçava rapidam ente a transform ar-se num pesadelo, e ela andava apavorada com a eventual reação dos pais quando lhes contasse que iria ser m ãe solteira em setem bro. Receava que o pai tentasse obrigar Joe a casar-se quando retornasse, m as não iria perm itir que ele o fizesse. Sabia que Joe era um espírito livre e fora bastante claro quando lhe dissera que nunca quisera ter filhos. Poderia adaptar-se um dia e apaixonar-se pelo bebê, m as ela não iria deixar que lhe apontassem um a arm a para o forçar a casar. As únicas coisas de que tinha certeza no m eio de todas as suas preocupações era de que o am ava m uito e que queria ter aquele filho. Tom ou a decisão no início de m arço e ficou bastante anim ada. Era o seu segredo. Não dissera a ninguém .

— Então o que é que te tem acontecido? — perguntou-lhe Andy certa tarde quando foi visita-la. A sua prim eira sem ana na Faculdade de Direito enchera-o de trabalho. Os dois cam inhavam devagar pelo Harvard Yard e a beleza de Andy despertava a atenção de todas as garotas. Elas com eçavam a desesperar-se.

— Você está m uito m im ado — gracej ou Kate, e ele sorriu. Tinha um sorriso lindo e grandes olhos escuros cheios de ternura e bondade.

— Ora, alguém tem de cuidar destas garotas até o retorno dos nossos rapazes fardados. Não é fácil, m as alguém tem de fazer isso. — Fizera-lhe bem ter ficado em casa, e j á superara o em baraço de ser um 4-F. Explicara o m otivo tantas vezes que j á não se sentia incom odado.

— Você é noj ento, Andy Scott — asseverou Kate. Gostava da com panhia dele e nos últim os dois anos tinham -se tornado bons am igos.

Ele iria voltar a trabalhar no hospital nesse verão. Ela hesitara em procurar um trabalho de verão porque sabia que a barriga j á iria notar-se e, enquanto m ãe solteira, ninguém haveria de querer contratá-la. Estava pensando ficar na casa de Cape Cod até ter o bebê. E dali a algum as sem anas iria ter de inform ar Radcliffe que estaria ausente uns m eses após a Páscoa. Isso significava que não concluiria o colégio com a sua turm a, m as, com sorte, só ficaria para trás um sem estre. Sentir-se-ia recom pensada se a aceitassem de volta. Teria de explicar por que m otivo iria se ausentar. Não era a prim eira m ulher a quem isso acontecia, e j á tom ara a sua decisão. Perguntou a si m esm a o que pensaria Joe quando descobrisse. Não iria dizer-lhe até ele voltar, m esm o que isso significasse ter o bebê sem ele saber. Teve pena de não poder partilhar a notícia com o seu am igo Andy, m as sabia que não poderia fazer isso. E ele deveria ficar chocado. Era um preço que ela estava disposta a pagar.

— Então o que vai fazer neste verão, Kate? Trabalhar outra vez para a Cruz Verm elha?

— Provavelm ente — respondeu ela com ar distante, em bora ele não tenha reparado. Kate estava com m elhor cara do que em fevereiro e ele tentava convencê-la a ir ao cinem a. Ela aceitava os seus convites de vez em quando, especialm ente depois de ele ter desistido de engata-la e a aceitara com o am iga. Mas Kate tinha de entregar um trabalho no dia seguinte e respondeu que daquela vez não podia aceitar.

— Você é um a seca. Bem , pelo m enos anda com m elhor aspecto. Da últim a vez que te vi estava com cara de m oribunda. — Os enj oos com eçavam a desaparecer, estava quase no terceiro m ês de gravidez e praticam ente term inando o prim eiro trim estre. Andava m uito excitada com o bebê e esperava que fosse um rapaz e se parecesse com Joe

— Estive com gripe — desculpou-se, e ele acreditou. Não tinha m otivo para duvidar ou suspeitar que estava grávida. Tal nem lhe passava pela cabeça.

— Ainda bem que você está m elhor. Faz lá o trabalho para poderm os ir ao cinem a na próxim a sem ana — disse ele subindo na bicicleta. Acenou-lhe quando se afastou, o seu cabelo escuro agitado pelo vento, os olhos azuis sorridentes. Andy era um bom rapaz e Kate gostava m uito dele.

Às vezes perguntava a si m esm a se as coisas entre am bos teriam sido diferentes se Joe não tivesse existido. Era difícil dizer. Sentia um grande afeto por Andy, m as não se im aginava sentindo por ele o que sentia por Joe. Andy era m eigo, carinhoso e terno, m as não provocava a excitação e a paixão que ela sentia por Joe. No entanto, sabia que ele daria um ótim o m arido. Era responsável, honrado e m eigo, todas as coisas que as m ulheres procuravam em um hom em . Ao contrário de Joe, que era acabrunhado, distante, m as brilhante, totalm ente obcecado pelos seus aviões e sem o m ínim o desej o de assentar. Nunca esperara apaixonar-se por um hom em com o Joe Allbright, e m uito m enos ter um filho seu sem estar casada. A sua vida tom ara um rum o surpreendente nos últim os tem pos. No entanto, com o bebê dele crescendo dentro de si, Kate sentia-se ainda m ais apaixonada por Joe.

Nesse fim de sem ana sentia-se m uito bem , m enos cansada. Concluíra o trabalho e recebera três cartas de Joe no m esm o dia. Às vezes chegavam assim , por causa da form a com o os censores as enviavam , depois de as terem lido para se certificarem de que não revelavam segredos m ilitares. As cartas de Joe nunca tinham esse problem a. Ele escrevia-lhe sobre pessoas, sobre o cam po e os seus sentim entos por ela, tudo assuntos inofensivos.

Kate tinha planej ado ir para casa naquele fim de sem ana, m as m udou de idéia no últim o m inuto. Foi ao cinem a com um grupo de am igos e viu Andy lá com um a garota que j á conhecia de um a das aulas. Era um a loura alta do Midwest, com um sorriso bonito e pernas fabulosas, e fora recentem ente transferida de Wellesley. Kate sorriu para Andy quando a garota se virou para vestir o casaco e ele fez-lhe um a careta. Depois Kate retornou com as colegas de bicicleta. Era a m elhor form a de viaj ar pelo com plexo universitário e por Cam bridge. Estavam quase em casa quando um rapaz de bicicleta apareceu vindo de nenhum lugar, atravessou o grupo e bateu em Kate com tanta força que ela voou pelo ar, caiu no chão e ficou m om entaneam ente inconsciente. Quando as outras desm ontaram das bicicletas ela j á tinha recuperado os sentidos, m as continuava um pouco tonta. O rapaz que a atingira estava parado ao pé dela com ar de pânico e desorientação. Encontrava-se visivelm ente em briagado.

— Você é m aluco? — gritou-lhe um a das garotas enquanto duas outras aj udavam Kate a levantar-se. Ela m achucara o braço e o quadril, caíra de bunda, m as não parecia ter fraturado nenhum osso. Ao coxear até em casa só conseguia pensar no bebê. Não disse nada a ninguém , m as foi logo para a cam a assim que entrou em casa e um a das colegas levou-lhe sacos de gelo para o braço e para o quadril.

— Você está bem ? — perguntou Diana com o seu sotaque arrastado do Sul. — Estes rapazes do norte não têm m aneiras!

Kate sorriu-lhe e agradeceu os sacos de gelo, m as não era o braço nem o quadril que a preocupavam . Doía-lhe a barriga há vários m inutos e não sabia o que fazer a respeito disso. Ainda pensou em ir à enferm aria, m as era m uito longe para ir a pé e tinha m edo de piorar ainda m ais as coisas. Pensou que se ficasse na cam a m elhoraria. O bebê devia ter levado um a sacudidela forte. Mas talvez não fosse nada.

— Se precisar de algum a coisa cham a-m e — disse Diana ao sair do quarto de Kate. Desceu as escadas e foi fum ar um cigarro com um rapaz do MIT que tinha ido visitá-las. Quando foi ver Kate um a hora m ais tarde, esta adorm ecera. Às quatro da m anhã, Kate acordou. Estava cheia de dores e quando m udou de posição na cam a para ficar m ais confortável, reparou que sangrava. Tentou não fazer barulho, apesar das dores, para não acordar as garotas que dorm iam no m esm o quarto. Dirigiu-se ao banheiro quase dobrada ao m eio. Não reparou, m as deixou um rastro de sangue ao cam inhar. O braço e o quadril doíam -lhe tam bém , m as não tanto com o a barriga. Mal se aguentava de pé.

Fechou a porta do banheiro tentando não fazer barulho e quando se olhou ao espelho reparou que da cintura para baixo estava coberta de sangue. Tinha um a hem orragia. Iria perder o bebê de Joe. Teve m edo de cham ar alguém , podia ser expulsa do colégio ou podiam m andar cham ar os pais. Não sabia quais seriam as consequências se a adm inistração soubesse que ela estava grávida. Calculava que lhe pediriam que fosse em bora.

Não era assim que queria que as coisas acontecessem . Não sabia o que fazer, quem cham ar, ou o que iria suceder. Não teve tem po de pensar nisso, porque as dores que a tinham acordado eram tão fortes que ela m al conseguia respirar. Tinha contrações após contrações. Estava de j oelhos, tentando respirar, com sangue por todo o lado, quando Diana, a garota do Sul, entrou para ir beber água e deparou com ela.

— Oh m eu Deus... Kate... o que aconteceu? — Parecia ter sido atingida com um m achado, e Diana só pensou em cham ar um m édico, um a am bulância, alguém . Disse-o a Kate, m as ela im plorou-lhe que não o fizesse.

— Não... por favor... não posso... Diana... — Não foi capaz de term inar a frase, m as a garota de Nova Orleans calculou o que acontecera.

— Você está grávida? Diz-m e a verdade, Kate. — Queria aj udá-la, m as tinha de saber a causa da hem orragia. A m ãe era enferm eira e o pai m édico, pelo que ela entendia de prim eiros socorros. Nunca vira tanto sangue. Tinha m edo que Kate m orresse se não cham assem alguém para a aj udar. Era um grande risco não levarem Kate para o hospital.

— Estou sim — adm itiu Kate a custo enquanto Diana a aj udava a deitar-se sobre um m onte de toalhas. Kate chorava com dores e m ordia um a toalha para não fazer barulho. — Quase de três m eses...

— Merda. Eu abortei um a vez. O m eu pai quase m e m atou. Eu tinha dezessete anos e tive m edo de lhe contar... por isso procurei alguém fora da cidade... fiquei quase tão m al com o você... — disse, colocando um pano úm ido sobre a testa de Kate e segurando-lhe a m ão a cada contração. Trancara a porta para ninguém poder entrar, m as o que m ais tem ia era que Kate perdesse a vida se ela não fosse procurar aj uda. A hem orragia era m uito forte. No entanto, pareceu abrandar à m edida que as contrações se intensificavam . Nenhum a delas sabia ao certo o que estava acontecendo, m as era fácil perceber que Kate iria expulsar o bebê. Era im possível ele não m orrer com aquela hem orragia.

Passou-se m ais um a hora até o corpo de Kate se contorcer de dores e, segundos depois, o bebê ser expulso. Ela perdeu m ais sangue, m as assim que o feto saiu, o sangue abrandou. Diana lim pava o que podia com toalhas, em brulhara o feto num a e colocara-o onde Kate não o visse. Esta estava dem asiado fraca para entrar em histeria e quando tentou sentar-se quase desm aiou. Diana teve de voltar a deitá-la.

Eram quase sete horas, e estavam no banheiro havia três, quando Diana aj udou Kate a ir para a cam a. Tudo fora lim po e assim que deitou Kate, Diana correu para a lixeira, a fim de se livrar da toalha com o feto.

A hem orragia dim inuíra e as dores j á eram suportáveis. Diana explicou-lhe que era o útero a contrair-se para deter a hem orragia, o que era bom . As dores anteriores haviam sido para expelir o bebê. E se ela não sangrasse m uito m ais, ficaria bem . Era o que Diana esperava. Já dissera a Kate que se ela piorasse cham aria um a am bulância e a m andaria para o hospital, por m uito que ela obj etasse. E Kate concordara, estava apavorada e dem asiado cansada para discutir, e em choque devido à perda de sangue. Trem ia violentam ente e Diana cobriu-a com m ais três cobertores. As outras garotas com eçaram a acordar.

— Você stá bem ? — perguntou um a ao levantar-se. Tinham aulas nessa m anhã. — Está bem pálida. Deve ter ficado com um a concussão quando aquele cara te derrubou da bicicleta — com entou ela ao dirigir-se bocej ando ao banheiro.

Kate disse que lhe doía m uito a cabeça e continuava trem endo na cam a.

Diana m anteve-se perto dela e um a garota de outro quarto entrou para pedir um as toalhas em prestadas. Ficou m uito preocupada ao ver os lábios acinzentados de Kate e o seu rosto branco.

— O que te aconteceu ontem à noite? — perguntou ela, aproxim ando-se para tom ar o pulso de Kate.

— Caiu da bicicleta e bateu com a cabeça — encobriu Diana, m as a outra não se deixou enganar. Tal com o Diana, vinha de um a fam ília de m édicos de Nova Iorque, e sabia o suficiente para perceber que Kate tinha m ais do que um a dor de cabeça ou um a concussão. Estava tão cinzenta que parecia ter perdido m uito sangue, e encontrava-se possivelm ente em choque.

Aproxim ou devagar o rosto do ouvido de Kate e tocou-lhe ao de leve no om bro.

— Kate... diz-m e a verdade... você está sangrando? — Kate lim itou-se a assentir e a continuava trem endo. Batia tanto os dentes que m al conseguia falar. — Acho que você está em choque... Fez um aborto? — m urm urou.

Kate sem pre gostara dela e decidiu contar-lhe a verdade. Sabia que estava em apuros. Sentia-se tonta e o seu corpo fora tão traum atizado que ela gelara e não conseguia deixar de trem er apesar da pilha de cobertores com que Diana a cobrira. As duas garotas encontravam -se j unto à cam a m uito aflitas

— Não, — sussurrou Kate à garota que se cham ava Beverly. — Perdi o bebê.

— Está com hem orragia?

Kate achava que não, pois sentia a cam a seca. Tinha m edo de olhar.

— Creio que não.

— Hoj e não vou às aulas e fico aqui com você. Não deve ficar sozinha. Quer ir ao hospital?

Kate abanou a cabeça. Era a últim a coisa que queria.

— Eu tam bém fico, — ofereceu-se Diana, indo buscar um a xícara de chá. Meia hora depois, as outras j á tinham ido para as aulas, e as duas vigilantes ocupavam os seus postos um a de cada lado da cam a de Kate. Esta estava m uito desperta e chorava. A experiência assustara-a e deprim ira-a.

— Você vai ficar bem , Kate — disse Beverly. — Eu fiz um aborto no ano passado. Foi horrível. Tenta dorm ir, daqui a um dia ou dois j á se sentirá m elhor. Vai ficar adm irada com a rapidez da recuperação. — Depois lem brou-se de algo. — Quer que eu telefone para alguém ? — Havia outra pessoa envolvida e Beverly desconhecia a situação de Kate. Esta abanou a cabeça.

— Ele está em Inglaterra — m urm urou a custo. Nunca se sentira tão m al na vida, a perda de sangue abalara-a m uito.

— Ele sabe? — perguntou Diana, fazendo um a festa no om bro de Kate.

Kate olhou-a com gratidão. Não teria sobrevivido sem a aj uda dela. E assim , ninguém iria saber, nem Radcliffe, nem os pais. Nem Joe.

— Não lhe contei. Pretendia ter o bebê.

— Pode ter outro quando ele voltar para casa. — Beverly não acrescentou ”se ele sobreviver”. Mas Kate e Diana adivinharam e Kate com eçou a chorar de novo. Aquele foi um dia m uito longo para ela e só quarenta e oito horas depois com eçou a sentir-se m elhor.

Diana e Beverly regressaram às aulas no dia seguinte e Kate ficou na cam a chorando. Saiu da cam a na quarta e, quando o fez, parecia um fantasm a e tinha perdido quatro quilos. Não com ia desde dom ingo, m as a hem orragia parara quase por com pleto. Tinha um ar péssim o que condizia com o seu estado de espírito e estava com olheiras, m as as am igas concordaram que ela j á não corria perigo. Kate tentou agradecer-lhes o que tinham feito por ela, m as cada vez que tentava com eçava a chorar.

— Vai ser assim durante uns tem pos, — preveniu Beverly. — Eu chorei durante um m ês. É um a coisa horm onal. — Mas não eram apenas horm ônios, era o bebê de am bos. Ela perdera um a parte de Joe.

Ninguém sabia o que tinha lhe acontecido e todos em casa pensavam que ela ficara na cam a por causa do acidente de dom ingo à noite. Nunca desm entiu essa versão. Tinha a sensação de ter vivido em outro planeta durante vários dias. Tudo parecia irreal e diferente e a única coisa que a anim ava eram as cartas de Joe. Mas chorou de novo ao perceber que nem a ele podia contar o que acontecera e o que haviam perdido.

Passou o fim de sem ana seguinte na cam a, estudando. Continuava m uito pálida e calada quando Andy a foi visitar no sábado à tarde. Passara-se um a sem ana desde o aborto e ela tinha m á aparência. Descera as escadas m uito devagar para ir ao encontro dele. Beverly e Diana tinham -lhe levado com ida da cafeteria durante toda a sem ana e a prim eira vez que ela saiu do quarto foi para ver Andy, que a aguardava na sala de estar.

— Credo, Kate, você está com cara de defunta. O que é que te aconteceu? — Achou-a tão frágil e m agra que tem eu pela vida dela.

— Fui atingida por um a bicicleta no dom ingo à noite. Acho que fiz um a concussão.

— Foi ao hospital m andar exam inar isso?

— Não, j á estou bem — respondeu, sentando-se num a cadeira ao lado dele.

Andy continuava m uito preocupado.

— Acho que devia ir ao m édico. Talvez tenha tido um a parada cerebral — acrescentou com um sorriso

— Muito engraçado. Já m e sinto m elhor.

— Não m e agradaria nada ter-te visto na segunda.

— Im agino. — Vê-lo fez com que retornasse ao m undo e se sentisse m enos deprim ida ao voltar para o quarto, em bora continuasse cansada. Diana dissera-lhe que andaria anêm ica durante uns tem pos e m andou-a com er m uito fígado.

Na sem ana seguinte, m elhorara o suficiente para retornar às aulas. Ninguém tinhaidéia do que lhe acontecera e, à m edida que as sem anas foram passando, ela esqueceu o assunto. Não contou a Joe. Durante o resto do segundo ano Kate andou m uito atarefada. Recebia constantem ente cartas de Joe, m as não se perspectivavam nenhum dia de licença.

Estavam na prim avera de 1943 e Kate ia ao cinem a ver as notícias, na esperança de avistar Joe no ecrã.

A RAF continuava bom bardeando Berlim , Ham burgo e outras cidades. Tunis fora tom ada pelos Britânicos e os Am ericanos haviam recuperado Bizerte, no Norte de África. Na frente oriental, os Alem ães e os Russos tinham chegado a um im passe, enterrados na lam a até aos j oelhos com o degelo da prim avera.

Kate via frequentem ente os pais aos finais de sem ana, escrevia a Joe e de vez em quando ia j antar com Andy ou iam ao cinem a. Ele tinha um a nova nam orada em Wellesley e por isso passava lá m uito tem po, vendo Kate com m enor frequência. Ela não se im portava. Tinha ficado m uito am iga de Diana e Beverly. Nesse verão iria trabalhar para a Cruz Verm elha novam ente.

Foram para Cape Cod no fim de agosto, m as desta vez Joe não apareceu para a surpreender no churrasco. Fazia oito m eses que não vinha para casa, desde o Natal anterior, quando tinham se encontrado em Washington. E ao dar passeios solitários pela praia, Kate não conseguia deixar de pensar que, se não tivesse perdido o bebê, estaria grávida de oito m eses. Os pais nunca descobriram o que acontecera. E a m ãe continuava falando do fato de Joe nunca ter feito prom essas acerca de um futuro com ela. Recordava constantem ente a Kate que ela estava à espera de um hom em que não lhe prom etera nada. Nem casam ento, nem anel, nem futuro. Contava apenas que ela esperasse por ele e que vissem o que acontecia quando ele voltasse. Kate tinha vinte anos, ele trinta e dois, idade suficiente para saber o que queria fazer quando retornasse.

A m ãe recordava-lhe isso sem pre que ia para casa, e continuou a fazê-lo quando as folhas tinham com eçado a cair.