A Águia Solitária

Danielle Steel · Capítulo 11 de 25

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A Águia Solitária

Capítulo 10

 

Um a noite chegou em casa bastante tarde, depois de ter passado o dia trabalhando num a enferm aria super lotada. Com o era m uito tarde, calculava que os pais deviam estar preocupados. Mas assim que entrou em casa e viu o rosto do pai, soube que algo terrível acontecera. A m ãe estava sentada no sofá ao seu lado, lim pando os olhos com um lenço. Kate desconfiou im ediatam ente que alguém m orrera. Sentiu um arrepio.

— O que foi, pai? — perguntou calm am ente enquanto avançava para eles.

— Nada, Kate. Vem sentar-se aqui.

Ela obedeceu e alisou o uniform e. Estava cheio de nódoas e o bivaque encontrava-se de lado. Fora um dia m uito longo e ela sentia calor e exaustão.

— Você está bem , m ãe? — perguntou. A m ãe assentiu, m as ficou calada. — O que aconteceu? — Olhava para um e para outro, expectante. Não tinha avós vivos, nem tios, por isso sabia que tinha de ser um am igo, ou talvez o filho de um am igo. Alguns dos feridos não tinham sobrevivido à viagem de volta.

— Recebi um telefonem a de Washington hoj e — disse o pai. Kate ficou na m esm a. Todas as m ás notícias para ela j á haviam chegado. Isso perm itia-lhe sentir um a grande com paixão no seu trabalho. Sabia o que era perder a pessoa que m ais am ava. Fitou os olhos do pai para ver se descobria neles algum a pista quanto ao que tanto os perturbara, e ele prosseguiu após um a hesitação. — Encontraram o Joe, Kate. Ele está vivo.

Ela ficou tão atordoada com aquelas palavras que foi incapaz de dizer fosse o que fosse.

— O quê? — conseguiu por fim perguntar, m uito pálida. — Não com preendo. — Tinha a sensação de estar entrando em choque. Recordou-lhe a noite em que havia perdido o bebê. — O que quer dizer, pai? — Mesm o depois de ter m antido a esperança durante tanto tem po aquilo j á não lhe parecia possível. Kate com eçara finalm ente a acreditar que Joe m orrera. E agora, ao escutar as palavras que j á perdera a esperança de voltar a ouvir, sentiu-se m uito confusa.

— Ele foi abatido a oeste de Berlim — disse o pai chorando. Teve um problem a com o paraquedas e ficou m uito m al das pernas. Foi escondido por um agricultor e depois tentou chegar à fronteira, m as foi preso e enviado para Colditz, j unto a Leipzig. Não tinha form a de contatar ninguém e, por aquilo que o Ministério de Guerra j á nos tinha dito, sabem os que ele levava docum entos falsos. Tiveram m edo de o deixar sobrevoar a Alem anha com docum entação verdadeira, porque isso o colocaria ainda m ais em perigo — disse o pai enquanto lim pava as lágrim as.

Kate olhava para ele em basbacada. Tinha dificuldade em entender e tentou concentrar-se. Achava que tam bém ela própria voltava do m undo dos m ortos e não apenas Joe.

— Ele foi m antido na solitária e, por qualquer razão, os Alem ães não o fizeram constar da lista de prisioneiros. Ninguém sabe por que, podem ter suspeitado que o nom e que ele utilizava era falso e torturaram -no para lhe tirar inform ações. Ele esteve em Colditz durante sete m eses até que por fim conseguiu fugir. Já há quase um ano que estava na Alem anha. Desta vez, chegou à Suécia e tentava em barcar num cargueiro quando foi novam ente apanhado. Foi alvej ado e ficou gravem ente ferido. Acharam que ele esteve delirarando ou consciente durante vários m eses, e que depois foi de novo enviado para Colditz. Levava docum entos suecos falsos e foi por isso que voltou a não constar da lista de prisioneiros. Não sei se eles sabiam quem era. Encontraram -no na solitária em Colditz há algum as sem anas, m as só ontem é que ele conseguiu contar-lhes tudo. Neste m om ento encontra-se num hospital m ilitar em Berlim . E Kate... — o pai tentou controlar a em oção, — parece que ele está m uito m al. Disseram que estava quase m orto quando o encontraram . Mas, Deus o abençoe, ele conseguiu aguentar-se lá. Acham que vai safar-se, a m enos que surj am com plicações. Manteve-se vivo e incógnito durante todo este tem po. As pernas ainda estão em m au estado, foram novam ente partidas. Ainda tem ferim entos de balas nas pernas e nos braços. Esteve no inferno durante todo este tem po. E se conseguirem que ele m elhore o suficiente para viaj ar, colocaram -no em um navio dentro de duas sem anas. Deve chegar lá para j ulho.

Kate ainda não dissera um a palavra e, tal com o o pai, só era capaz de chorar. A m ãe olhava-a desesperada. Sabia, sem que ninguém lhe dissesse, que a vida de Kate iria alterar-se radicalm ente. Andy Scott e tudo o que ele tinha para lhe oferecer acabavam de desaparecer num a nuvem de fum o e por m uito que Kate am asse Joe, ele iria destruir a sua vida. No entanto, sabiam o quanto ele significava para ela, fora im possível não reparar nisso nos últim os dois anos. O pai só desej ava a sua felicidade, custasse o que custasse. Sem pre nutrira um grande respeito por Joe.

— Posso telefonar-lhe? — perguntou ela finalm ente, a voz pouco m ais que um sussurro, m as o pai duvidava que isso fosse possível. Escrevera num papel o nom e do hospital, m as as com unicações com a Alem anha eram m uito ruins.

Ela tentou ligar-lhe m ais tarde, m as a telefonista disse que era im possível fazer a ligação. Ficou sentada no quarto, olhando para o luar e pensando nele. Só conseguia lem brar-se da certeza que tivera durante tanto tem po de que ele estava vivo. Só nos últim os m eses é que com eçara a acreditar que ele m orrera.

Durante as sem anas seguintes teve a sensação de se m over debaixo de água. Ia trabalhar no porto todos os dias, e nas instalações da Cruz Verm elha entre os navios. Ia visitar hom ens nos hospitais, escrevia-lhes cartas, aj udava-os a com er, a sentarem -se e a beber. Ouviu m il histórias de sofrim ento e quando Andy telefonou, ela foi m uito vaga. Não queria contar-lhe ao telefone que Joe estava vivo e não sabia o que dizer. Tentara tanto convencer-se a am á-lo, e talvez um dia o tivesse conseguido, m as perante a chegada im inente de Joe, m al conseguiu falar com Andy. No entanto, não achou j usto estragar a viagem dele com um a notícia daquelas.

Foi trabalhar às cinco da m anhã no dia em que estava prevista a chegada do barco de Joe. Sabia que o esperavam às seis da m anhã, com a m aré. Tinham ancorado j unto à costa e contatado o porto via rádio. Kate envergava um uniform e lavado e o bivaque, e as m ãos trem iam -lhe quando o prendera com ganchos. Não se im aginava voltando a vê-lo. Tudo com eçava a parecer um sonho estranho.

Apanhou o trem elétrico até ao porto, apresentou-se à supervisora e foi verificar os m antim entos. Havia setecentos feridos a bordo e o navio era um dos prim eiros a vir da Alem anha. Os outros tinham vindo da Inglaterra e da França. Havia am bulâncias e veículos de transporte m ilitar alinhados no cais que depois levariam os hom ens para hospitais m ilitares num raio de várias centenas de quilôm etros. Não fazia idéia do local para onde Joe seria enviado. Mas fosse para onde fosse, pretendia estar com ele o m áxim o de tem po que pudesse. Nunca conseguira contatá-lo pelo telefone nas últim as sem anas, e tinham -lhe dito que nem um a carta chegaria a tem po. Não contatavam desde outubro, quase dois anos antes.

O navio aproxim ou-se devagar e os conveses estavam cheios de hom ens com m uletas, ataduras; ouviam -se os seus gritos e assobios e viam -se os seus acenos antes do navio atracar. Era um a cena que ela j á vira várias vezes, e fazia-a sem pre chorar. Desta vez, ficou parada observando-os, de olhos sem icerrados, à procura de Joe nos conveses, em bora duvidasse que ele se encontrasse em condições de estar de pé. Devia ser um dos hom ens deitados nas m acas. Kate j á pedira autorização à supervisora para subir a bordo.

— Alguém conhecido?

Norm alm ente, as voluntárias esperavam que os hom ens desem barcassem , só de vez em quando em barcavam para dar um a aj uda. A enferm eira aposentada encarregada das voluntárias percebeu a ansiedade de Kate. Com o cabelo verm elho-escuro a em oldurar lhe o rosto, nunca vira ninguém tão pálido aguentando-se em pé.

— Eu... o m eu... o m eu noivo vem a bordo — respondeu ela por fim . Era m uito com plicado explicar o que ele significava para ela e onde estivera nos últim os dois anos. O m ais fácil era em pregar um a m entira diplom ática.

— Há quanto tem po não o vê? — perguntou ela a Kate, enquanto viam o barco aproxim ar-se.

— Vinte e um m eses. — A enferm eira olhou para a j ovem com os seus enorm es olhos azul-escuros. — Até há três sem anas pensávam os que ele tinha m orrido.

A supervisora im aginou o que aquilo devia ter sido para ela. Tam bém j á sofrera m uito; era viúva e perdera três filhos.

— Onde é que o encontraram ? — perguntou para distrair Kate. A pobre garota parecia prestes a soçobrar.

— Na Alem anha. Na prisão — respondeu. — Foi abatido durante um bom bardeam ento. — Ainda não fazia idéia dos ferim entos que ele tinha. Sentia-se apenas grata por ele estar vivo.

Levaram quase um a hora para m anobrar o navio e depois os hom ens com eçaram a desem barcar. Havia pessoas gritando vivas e chorando e no cais viram -se m uitas lágrim as. Daquela vez, Kate não chorava por eles, chorava por Joe. Só duas horas depois conseguiu subir a bordo. Já estavam desem barcando as m acas e ela acom panhou um grupo de auxiliares que ia para essa tarefa. Teve de controlar-se para não desvia-los da sua frente. Não fazia idéia de onde encontrar Joe naquele navio im enso. Percebeu que os auxiliares e a tripulação traziam as m acas para o convés superior. Foi andando com cuidado pelas filas de feridos e m oribundos. Havia no ar um cheiro de doença e de corpos suados, e ela teve de suster a respiração.

Alguns dos hom ens estenderam os braços na sua direção, tentaram agarrar-lhe as m ãos e tocar-lhe nas pernas. Ela tinha de parar de vez em quando para falar com eles. Apesar do que sentia, não podia lim itar-se a passar. Avançava com cuidado para não pisar em ninguém , e parou pela centésim a vez quando um hom em sem pernas lhe pegou na m ão. Perdera m etade do rosto e pela form a com o inclinava a cabeça, ela percebeu que o olho que lhe restara não via. O hom em queria apenas falar-lhe e dizer-lhe com o estava feliz por se encontrar em casa. Tinha o sotaque do Sul. Ainda estava inclinada falando com ele quando um a m ão por trás lhe tocou suavem ente no braço. Acabou de falar com o hom em do Sul e depois virou-se para ver o que podia fazer por aquele que lhe tocara... e ali estava ele, fitando-a com um sorriso rasgado. Tinha o rosto m agro e pálido e com pequenas cicatrizes das surras que levara dos Alem ães, m as apesar disso Kate soube quem ele era. Aj oelhou-se ao lado de Joe e ele sentou-se, tom ando-a nos braços. As lágrim as dele m isturaram -se com as suas.

— Oh, m eu Deus...

— Olá, Kate — disse ele num a voz trêm ula, m as ainda assim fam iliar. — Eu disse-te que tinha cem vidas.

Ela chorava tanto que foi incapaz de falar, e ele lim pou-lhe delicadam ente as lágrim as com um a m ão áspera. Perdera m uito peso e, quando se endireitou, Kate viu que ele trazia as pernas engessadas; tinham -no operado na Alem anha, m as os m édicos ainda não sabiam se ele voltaria a andar. Os captores tinham -nas partido durante os interrogatórios e haviam -no alvej ado ali quando ele tentara fugir. Joe estivera preso à vida por um fio, e voltara para Kate. Esta nem im aginava aquilo por que ele passara, custava-lhe a crer que ele estivera pior do que estava naquele m om ento, m as sabia que assim fora.

— Pensei que nunca te veria — disse ele baixinho enquanto os auxiliares transportavam a sua m aca para o cais e Kate cam inhava ao seu lado segurando-lhe um a m ão; Joe usava a outra para lim par as lágrim as.

— Nem eu, — disse ela.

A supervisora aproxim ou-se. Chorara ao vê-los desem barcar. Era um a cena que todas j á haviam visto m ilhares de vezes, m as aquela tocou-a particularm ente, pois gostava m uito de Kate. Alguém m erecia ganhar no m eio de tudo aquilo, pensou. Já houvera tragédia suficiente nos últim os quatro anos.

— Estou vendo que encontrou o seu hom em . Bem -vindo a casa, filho — disse a m ulher, dando-lhe um a palm adinha no braço. Ele não largava a m ão de Kate. — Quer ir na am bulância com ele, Kate? — Iam enviá-lo para um hospital de veteranos perto de Boston, e seria fácil para ela ir visitá-lo depois. A sua sorte com eçara finalm ente a m udar. Kate sabia que, independentem ente do que lhes viesse ainda a acontecer, ficaria sem pre grata pela dádiva da vida de Joe.

Subiu na am bulância e sentou-se no chão ao lado dele. Trouxera-lhe um tablete de chocolate na m ala e deu-lhe quando a am bulância arrancou. Viaj avam com eles m ais três hom ens e Kate dividiu outro tablete entre eles. Um com eçou a chorar. Tinham estado todos na Alem anha, dois em cam pos de prisioneiros de guerra, e o quarto havia sido pego ao tentar entrar na Suíça. Fora torturado durante quatro m eses e depois abandonado à m orte. Tinham sido bastante m altratados nas m ãos dos Alem ães, m as foram todos salvos por civis com exceção de Joe, que a princípio fora escondido por um agricultor e depois tivera de sobreviver na prisão até ser encontrado.

— Você está bem ? — Joe observava-a com o um a m ãe galinha. Nunca vira nada tão bonito com o o cabelo dela, a sua pele e os seus olhos, e os outros hom ens tam bém não eram capazes de desviar o olhar. Iam deitados nas m acas contem plando-a, enquanto Joe lhe agarrava a m ão.

— Estou. Sem pre achei que você estava vivo — m urm urou. — Sabia que não tinha m orrido, apesar do que todas as pessoas diziam .

— Espero que ainda não tenha casado — disse ele com um a gargalhada, e Kate abanou a cabeça. Se ele tivesse dem orado m ais tem po para aparecer, ela talvez j á estivesse casada.

— Term inou o colégio? — queria saber tudo. Pensara nela um m ilhão de vezes e adorm ecia pensando nela e perguntando-se se voltaria a vê-la. Por causa dela, recusara-se a m orrer.

— Term inei em j unho — respondeu. Havia m uita coisa a dizer. Dezoito m eses para pôr em dia, e isso levaria tem po. — Trabalho com o voluntária para a Cruz Verm elha.

— Não m e diga — retorquiu ele com um sorriso nos lábios dolorosam ente m achucados que Kate j á beij ara m uitas vezes. Tinha a certeza de que não havia nada m ais doce na vida que os beij os dela. — Pensei que era apenas um a enferm eira sim pática. — Mal pudera acreditar quando a vira ao seu lado no navio. Não conseguira contatá-la antes de em barcar. Ainda bem que o tinham m andado para Boston e não para Nova Iorque. Assim ela poderia visitá-lo todos os dias.

Acom panhou-o enquanto ele dava entrada no hospital, m as depois teve de retornar ao porto com a am bulância e term inar o trabalho.

— Volto logo à noite prom eteu.

Quando chegou na casa dos pais e lhes pediu o carro em prestado, j á passava das seis. Eram quase sete quando chegou ao hospital. Ele j á tinha sido lavado e dorm ia profundam ente. Kate sentou-se ao lado da cam a, e ficou adm irada quando, duas horas m ais tarde, ele se m exeu. Virou-se com um esgar de dor e, pressentindo a presença dela, abriu os olhos.

— Estarei sonhando? Ou estarei no Céu? — perguntou com um sorriso ensonado. — Não pode ser você aí sentada, Kate... Nunca fiz nada na vida para m erecer isto.

— Fez sim . — Ela beij ou-o no rosto e depois nos lábios. — Eu é que sou a sortuda. A m inha m ãe tinha m edo que eu ficasse para tia.

— Pensei que tinha casado com o tal Andy, aquele que dizia ser só um am igo. Rapazes com o ele dão sem pre a volta à garota quando o herói m orre.

— Mas o herói não m orreu.

— Pois não — disse Joe, m udando de posição com um suspiro. As pernas continuavam engessadas. — Nunca pensei que voltaria a sair daquela prisão. Todos os dias j ulgava que iam m atar-m e. Acho que estavam divertindo-se m uito para m e deixarem m orrer. — Tinham -no torturado im piedosam ente. Ela não era capaz de im aginar os dezoito m eses de suplício que ele tivera, nem com o tinha conseguido sobreviver.

Ficou com ele até depois das dez horas e foi para casa, porque o viu m uito cansado e não porque lhe apetecesse ir-se em bora. Iam m edicá-lo. Joe adorm eceu novam ente antes de Kate partir e ela ficou um m inuto olhando para aquele rosto forte e característico com o qual sonhara um m ilhão de vezes.

Quando chegou em casa, o pai aguardava-a.

— Com o ele está, Kate? — perguntou preocupado. Ainda se encontrava no escritório quando ela fora buscar o carro.

— Está vivo, — respondeu ela radiante, — e em m elhor form a do que seria de esperar. Tem as pernas engessadas e o rosto cheio de cicatrizes. — O cabelo estivera m uito com prido, m as haviam -no cortado no hospital. Joe dissera que nessa época tinha m uito pior aspecto. — É um verdadeiro m ilagre ele estar conosco, pai.

Ele sorriu ao ver a sua expressão feliz. Há anos que não a via daquela m aneira.

— Se bem o conheço, não tarda nada estará de novo pilotando aviões — disse Clarke.

— Receio que tenha razão. — Ainda tinham de ver com o é que as pernas dele se recuperariam , talvez tivessem de voltar a operá-lo, e havia a possibilidade de ele ficar coxeando. Mas havia destinos piores. Ele regressara dos m ortos e o que restasse dele bastava a Kate.

— O Andy telefonou enquanto você estava fora — disse o pai com um a expressão séria. — O que vai lhe dizer, Kate.

— Nada até ele regressar. — Viera pensando nisso no cam inho para casa, e estava cheia de pena dele. Era azar, e esperava que ele com preendesse. — Vou contar-lhe a verdade. Assim que lhe disser que o Joe voltou, ele saberá. Não sei se teria sido capaz de casar com ele, pai. Ele sabia que eu ainda am ava o Joe.

— Tam bém eu e a sua m ãe. Esperávam os que ultrapassasse isso, para o seu bem , se o Joe tivesse m orrido. Não queríam os que o chorasse durante o resto da vida. Vocês vão casar agora? — perguntou. Parecia-lhe um a coisa evidente, depois de tudo aquilo por que haviam passado. Já percebera que eles estavam unidos para toda a vida.

— Não falam os disso. Ele ainda está m uito doente, pai. Não creio que sej a um assunto im portante neste m om ento.

Quando Clarke Jam ison foi visitar Joe no dia seguinte, percebeu por que. Ficou chocado com o aspecto terrível de Joe, pior ainda do que im aginara. Kate j á vira tantos hom ens feridos que não ficara m uito sobressaltada. Até pensara que ele viesse com pior aspecto.

Joe m ostrou-se encantado ao vê-lo e conversaram durante bastante tem po. Clarke não lhe fez perguntas acerca da sua experiência na Alem anha, achou m elhor não falar no assunto, m as Joe acabou por lhe contar com o havia sido e com o fora a queda do avião. Era um a história incrível, m as m esm o assim Joe parecia anim ado. Os seus olhos brilharam quando viu Kate. Ela fora visitá-lo enquanto o pai ainda estava lá. Clarke foi-se em bora pouco depois e Kate perguntou a Joe com o estavam as pernas. Os m édicos tinham -no exam inado e pareciam esperançosos. A operação na Alem anha havia sido bem feita.

Durante o m ês seguinte, Kate visitou-o todas as noites depois do trabalho, passava com ele os finais de sem ana e levava-o a passear no j ardim com a cadeira de rodas. Ele cham ava-lhe o seu anj o. E quando ninguém os via, beij avam -se e davam as m ãos. Duas sem anas depois de ter regressado, ele am eaçara sair do hospital e levá-la para o hotel.

Ela riu-se.

— Você não se safaria com isso — disse, apontando para o gesso. Mas estava tão ansiosa por isso com o ele. Por enquanto tinham de contentar-se com beij os clandestinos. Ele ainda não estava em condições de ir a parte algum a, m as m elhorava a cada dia que passava e j á conseguia m exer as pernas, apesar do gesso. E quando o tiraram quatro sem anas depois de ele ter regressado, para espanto de todos, com eçou a andar. A princípio, conseguia apenas dar alguns passos com a aj uda de m uletas, m as o prognóstico era bom .

Os pais dela j á tinham ido visitá-lo nessa época, e Liz levara-lhe livros e flores. Ficou satisfeita por vê-lo, m as no dia seguinte encurralou Kate na cozinha com um a expressão séria.

— Você e o Joe j á falaram em casam ento? — perguntou.

Kate suspirou irritada

— Mãe, j á viu o estado em que ele se encontra? Porque não o deixam os com eçar a andar prim eiro.

— Chorou por ele durante dois anos, Kate. E conhece-o há quase cinco. Há algum m otivo para vocês não fazerem planos? Algum a coisa que eu desconheça? Ele é casado?

— Claro que não. O Joe não vai a lugar nenhum . Só acho que isso não é im portante. Ele está vivo, é tudo o que eu quero, m ãe.

— Isso não é norm al. E o Andy ?

Kate sentou-se com um a expressão séria para responder à pergunta.

— Ele volta esta sem ana, digo-lhe nessa época.

— Diz-lhe o quê? Acho que não há nada a dizer-lhe. Talvez sej a m elhor pensar bem antes de decidir não voltar a vê-lo. Kate, fixa o que eu te digo, assim que o Joe com eçar a andar, não vai levar-te ao altar, vai, m as é direitinho à pista m ais próxim a. Ontem só falou de aviões. Está m uito m ais excitado com a perspectiva de voltar a voar do que com o fato de estar ao seu pé. Talvez sej a m elhor adm itir isso antes que sej a tarde de m ais.

— É disso que ele gosta, m ãe.

Mas Liz tinha razão. Ele passava o tem po todo falando de voar. Estava m ortinho por subir a bordo de um avião, tal com o estava por levá-la para a cam a, m as Kate não podia dizer isso à m ãe.

— E ele am a-te? Acho que é um a pergunta m uito m ais relevante.

— Não pode gostar das duas coisas? Tem de optar?

— Não sei, Kate. Pode gostar das duas? Não tenho assim tanta certeza. Um a pode excluir a outra.

— Isso é um a loucura. Não estou à espera que ele desista de voar. É a vida dele. Sem pre foi.

— Ele tem trinta e cinco anos e acabou de passar dois à beira da m orte. Se quer assentar, casar e ter um a fam ília, acho que está na hora.

Kate não discordava, m as não queria pressioná-lo. Ainda não tinham falado no assunto. Calculava que isso acontecesse em breve. Não estava preocupada. Sentia-se casada com ele. Joe não se interessava por outras m ulheres, apenas pelos seus aviões.

Andy foi visitar Kate assim que retornou. Acabara de descer do trem vindo de Chicago, depois de ter passado as últim as sem anas de férias em São Francisco. Ficou um pouco desapontado ao ver que ela não o fora esperar na estação, m as sabia que ela trabalhava m uito. O dia tinha sido quente, e ela parecia m uito cansada ao chegar em casa. Tinham recebido dois navios nesse dia. Andy ficou encantado ao vê-la, m ais do que ela. Percebeu im ediatam ente que algum a coisa acontecera.

— Você está bem ? — perguntou quando os pais dela os deixaram sozinhos. Liz foi para o quarto e chorou ao pensar no que Kate ia dizer. Sabia que ele iria ficar destroçado, m as a filha tinha de ser sincera. Ela só tinha olhos para Joe.

— Sim , m as m uito cansada — respondeu, afastando o cabelo. Ele tentara beij á-la quando os pais dela tinham saído da sala, e ela parecera pouco à vontade. Sabia que não podia esperar m ais tem po. — Não, acho que não estou bem ... ou m elhor, estou... m as não estam os.

— O que quer isso dizer? — perguntou ele preocupado, pressentindo j á o que aí vinha.

Kate sabia que a notícia da volta de Joe o iria deixar atordoado, tal com o ela ficara.

Fitou-o com um a expressão coraj osa. Odiava m agoá-lo, m as não tinha alternativa. O destino pregara-lhes um a peça com o retorno de Joe. Parecia que ela não estava destinada a ficar com Andy. Tinham am bos de aceitar isso, em bora para ela fosse m ais fácil. Todos os seus sonhos tinham se tornado realidade e os de Andy estavam prestes a term inar. E quando ele a fitou, soube, ainda antes de ouvir as palavras.

— O que aconteceu ao certo enquanto eu estive ausente, Kate? — perguntou a custo.

— O Joe voltou para casa — respondeu ela sim plesm ente. Isso dizia tudo. A relação deles chegara ao fim . Andy nunca se iludira quanto aos sentim entos dela.

— Está vivo? Com o é que conseguiu isso? Esteve preso num cam po de guerra? — Parecia im possível o Ministério de Guerra ter pensado que ele havia estado m orto durante dois anos e ter regressado agora.

— Esteve preso, com um nom e falso, fugiu e foi apanhado novam ente. Nunca souberam quem ele era. É um m ilagre ter sobrevivido, em bora estej a m uito ferido.

Tudo o que Andy via nos olhos dela era o seu am or por Joe. Não havia nada para si.

— E onde é que isso nos deixa, Kate? Ou será que preciso m esm o de perguntar? — O am or nos olhos dela quando falava de Joe dizia-lhe tudo. — Acho que não preciso, certo? Ele teve sorte. Você nunca deixou de o am ar enquanto esteve ausente. Eu sem pre o soube. Achei que um dia haveria de o esquecer. Nunca m e passou pela cabeça que podia ter razão e ele estivesse vivo. Achei que não queria enfrentar a sua m orte. Espero que ele saiba o quanto o am a.

— Acho que ele m e am a do m esm o j eito — respondeu baixinho. Odiava o sofrim ento que via nos olhos de Andy. Ele reagira com o um cavalheiro, m as estava destroçado.

— Vão casar? — quis saber Andy, desej ando que ela tivesse lhe contado antes do seu retorno, em bora com preendesse por que m otivo não o fizera. Teria sido um choque ainda m aior ouvi-lo pelo telefone. Passara o verão inteiro pensando nela, planej ando o noivado e o casam ento. Pretendia com prar-lhe o anel assim que chegasse a Boston.

— Por enquanto não. Mas penso que um dia. Não estou m uito preocupada com isso.

— Desej o-te sorte, Kate — disse Andy, — desej o a am bos. Dá ao Joe os m eus parabéns.

Hesitou um m om ento e ela estendeu-lhe a m ão, m as ele não a apertou. Saiu em silêncio, m eteu-se no carro e arrancou.

Joe saiu do hospital dois m eses depois de ter chegado, com o auxílio de bengalas, m as as pernas estavam se recuperando bem . Os m édicos achavam que pelo Natal voltaria a andar norm alm ente. Ninguém podia acreditar na sua recuperação, m uito m enos Kate. Ainda lhe parecia um m ilagre ele ter voltado.

Dois dias depois, Joe recebeu os papéis da sua desm obilização. Nessa época j á tinham passado um a tarde no Hotel Copley Plaza. Kate não podia ausentar-se durante um a noite agora que estava vivendo com os pais. Ele aceitara o convite deles para ficar lá na casa, m as sabia que não poderia perm anecer ali para sem pre e queria privacidade com Kate.

Joe telefonara a Charles Lindbergh m uito antes de sair do hospital e pretendia ir a Nova Iorque visitá-lo. O seu m entor tinha um as idéias interessantes que queria discutir com ele, e havia algum as pessoas que Joe queria ver. Iria ficar vários dias em Nova Iorque e depois retornaria a Boston.

Kate levou-o ao trem antes de ir trabalhar um a sem ana após ele ter tido alta. Estavam no fim de setem bro e a guerra term inara. A vitória sobre o Japão surgira em agosto. O pesadelo term inara finalm ente.

— Divirta-se em Nova Iorque — disse ela beij ando-o antes de ele sair do carro. Arranj ara um j eito de se esgueirar até ao seu quarto à noite sem acordar os pais. Era m uito difícil para ele chegar até ela. Sentiam -se duas crianças travessas m urm urando na cam a dele todas as noites.

— Volto daqui a alguns dias. Eu telefono. Não engate nenhum soldado enquanto eu estiver fora, por favor.

— Então não dem ore m uito — preveniu, e ele am eaçou-a com um dedo. Kate ainda tinha dificuldade em acreditar na sua sorte, na sorte de am bos. Ele fora m aravilhoso. Até Liz cedera finalm ente. Apesar de adorar voar, Joe era um bom hom em , responsável e era notório que a am ava m uito. Os pais esperavam que eles ficassem noivos rapidam ente.

Não tivera notícias de Andy desde que lhe dissera que Joe tinha retornado. Sabia que ele j á estava em Nova Iorque trabalhando para o pai. Esperava que j á se sentisse m elhor e que um dia lhe perdoasse. Sentia falta da presença dele na sua vida. Perdera o seu m elhor am igo. Mas continuava convencida de que a am izade não teria sido suficiente para a fazer am á-lo com o m arido. As coisas tinham corrido com o deviam .

Acenou a Joe enquanto ele coxeava para o trem . Já se m ovim entava surpreendentem ente bem e era bastante independente. Kate seguiu para o trabalho no carro pensando nele e, durante o resto do dia, a sua m ente esteve ocupada com os hom ens que era necessário aj udar.

Esperava que ele lhe ligasse nessa noite, m as isso não aconteceu. Em vez disso, ligou-lhe na m anhã seguinte m uito cedo.

— Que tal vai isso? — perguntou Kate.

— É tudo m uito interessante — respondeu Joe enigm aticam ente. — Conto-te quando regressar. — Ia ter um a reunião a seguir e ela tinha de ir trabalhar. — Telefono-te logo à noite. Prom eto.

E daquela vez cum priu. Passara o dia em reuniões com hom ens que Charles Lindbergh lhe apresentara. E, para alegria de Kate, retornou a Boston no fim de sem ana. Ela ficou abism ada com o que ele lhe contou.

Os hom ens que Charles lhe apresentara queriam fundar um a em presa com ele, para desenhar e construir os aviões m ais avançados. Estavam com prando terrenos desde o início da guerra, haviam rem odelado um a velha fábrica e até possuíam um a pista de aviação própria. Iriam instalar-se em New Jersey e não só queriam que Joe dirigisse a em presa, com o tam bém que desenhasse e testasse os aviões. No com eço ele teria várias funções, m as quando as coisas assentassem , dirigiria toda a operação. Os hom ens investiriam o dinheiro. Joe seria o cérebro.

— É a com binação perfeita, Kate — disse ele com um sorriso rasgado que ilum inou o seu rosto esculpido. Nada o fazia m ais feliz que os aviões. Até ela teve de adm itir que aquilo parecia perfeito. — Fico com cinquenta por cento da propriedade, e se tiverm os cotação na bolsa, recebo m etade das ações. É um bom negócio, pelo m enos para m im .

— E tam bém m uito trabalho — acrescentou ela.

O proj eto parecia ter sido feito de encom enda para Joe. Ele contou os porm enores a Clarke nessa noite e este ficou bastante im pressionado. Já conhecia de nom e os investidores e pareciam ser de confiança. Era um a oportunidade única.

— Quando é que com eça? — perguntou interessado.

— Tenho de estar em New Jersey de segunda a oito. Não é um local desagradável. Fica a m enos de um a hora de Nova Iorque. No início não devo sair m uito da fábrica, e tem os de fazer algum as alterações à pista. — Joe j á só conseguia pensar nas coisas que teria de fazer. A sua experiência iria aj udar bastante, e Clarke concordou com Kate que era um a com binação perfeita.

Quando Clarke estava felicitando-o, a m ãe de Kate falou inesperadam ente, surpreendendo-os a todos.

— Isso significa que vocês dois vão casar-se em breve? — Joe olhou para Kate e fez-se silêncio na sala.

— Não sei, m ãe — respondeu Kate corada, tentando aligeirar a coisa, m as a m ãe j á se cansara de esperar que Joe fizesse a sugestão. No que lhe dizia respeito, chegara a época de lhe perguntar diretam ente quais as suas intenções para com Kate.

Joe parecia bastante atrapalhado sem saber o que dizer.

— Porque não deixa o Joe responder? Parece que você vai ter um a excelente oportunidade com este em prego, não só tem porariam ente, m as tam bém para o futuro. Quais são os seus planos para a Kate?

Ela esperara dois anos por ele e j á o am ava havia quatro. Tinham -se conhecido há cinco anos, tem po suficiente, na opinião de Liz, não só para que descobrisse as suas intenções, m as tam bém para se declarar.

— Não sei, Mistress Jam ison. A Kate e eu ainda não falam os disso — respondeu Joe, evitando olhar para ela e para Kate. Sentia-se encurralado apesar do que sentia por ela. Liz tratara-o com o um a criança irresponsável, não com o um hom em m erecedor de respeito.

— Sugiro que pense no assunto. A Kate quase m orreu de desgosto quando o seu avião foi abatido. Acho que ela m erece um pouco de reconhecim ento pela sua lealdade e coragem . Esperou m uito tem po por você, Joe.

Ouvir Elizabeth Jam ison era com o estar sendo repreendido por um a travessura. Sentiu-se irritado e culpado e com vontade de fugir.

— Eu sei — retorquiu Joe calm am ente. — Não tinha percebido que o casam ento era assim tão im portante para ela.

Kate nunca lhe falara nisso, e estavam divertindo-se m uito esgueirando-se para o quarto um do outro durante a noite. O peso da culpa com que Liz o sobrecarregara era im enso, m as ele não deu a entender nada.

— Com o se o casam ento não fosse im portante para ela. — exclam ou Liz enquanto o m arido a fitava perplexo. Ela fora bastante frontal, m as Clarke não discordava. Fora um a abordagem m ais direta do que a que ele teria em pregado, se decidisse falar do assunto com Joe. — E se não é, Joe, devia ser e talvez sej a o m om ento de lhes recordarm os isso. Parece-m e um a boa hora para anunciarem o noivado.

Ele nem sequer a pedira em casam ento e não pareceu m uito satisfeito com o fato de estar sendo pressionado pela m ãe dela, m as com preendia-a. Não tinha dúvidas de que a am ava, m as talvez os pais dela precisassem saber isso. Contudo, ainda não se sentia preparado para dar esse passo. Estava disposto a prescindir da sua liberdade, m as não a perm itir que lhe roubassem e ainda era senhor das suas ações.

— Se não se im porta, Mistress Jam ison, preferia esperar até m e enturm ar no trabalho e ter o proj eto j á um pouco avançado. Isso vai levar algum tem po, m as nessa época poderei oferecer algum a coisa à sua filha. Tinha pensado que nessa época poderíam os viver em Nova Iorque e eu iria todos os dias de trem até New Jersey.

Já fizera planos, m as ainda não com eçara a trabalhar. Nem estava pronto para casar. Kate sabia isso e vira a expressão de pânico nos seus olhos. O que a m ãe acabara de dizer só o fazia querer fugir. Joe não era hom em para se deixar encurralar.

— Isso parece razoável — interveio Clarke. Aquilo com eçava a parecer a Inquisição Espanhola e ele fez sinal à m ulher para que m udasse de tem a. Todas as pessoas perceberam e o que Joe dissera fazia sentido. Não havia m uita pressa, e ele precisava de se estabelecer. Tinha diante de si um a tarefa m onum ental.

O serão chegou ao fim pouco depois e, m ais tarde, quando foi ao quarto de Joe, Kate estava furiosa.

— Não acredito na form a com o a m inha m ãe se com portou ao j antar! Peço desculpa. O m eu pai devia tê-la feito calar-se. Acho que ela foi bastante rude com você.

Kate estava danada com a m ãe, o que perm itiu a Joe m ostrar-se m agnânim o.

— Não faz m al, querida. Eles preocupam -se contigo e querem ter a certeza de que vou te fazer feliz e de que sou um hom em sério. Eu teria feito o m esm o se você fosse m inha filha. Só não tinha percebido que isto era um a preocupação para eles, pelo m enos agora. Você tem pensado nisso? — perguntou, abraçando-a e beij ando-a. Não parecia tão nervoso com o na sala, sob a pressão de Liz.

— Não, não tenho pensado nisso. E você está sendo m uito generoso. Ela foi horrível. Lam ento m uito. — Kate parecia bastante agastada, o que para ele foi um alívio.

— Não lam ente. As m inhas intenções são honradas, Miss Jam ison, prom eto. Em bora, se não se im porta, no entretanto gostaria de abusar de você.

Quando Joe lhe despiu o roupão, ela riu-se. A últim a coisa em que pensava nesse m om ento era no casam ento. Sentia-se divinam ente feliz por estar com ele. Queria apenas o seu am or, não a sua rédea.

A cena no quarto dos pais dela era um pouco m enos rom ântica. Clarke repreendia Liz por ela ter tom ado o touro pelos chifres.

— Não percebo por que m otivo você está tão incom odado. Alguém tinha de lhe perguntar, e você não queria.

Clarke j á aprendera a não reagir àquele tom acusador.

— O pobre rapaz acabou de retornar do m eio dos m ortos. Deixa-o ao m enos voltar a organizar a vida, Liz. Não é j usto j á estar pressionando-o.

No entanto, Liz discordava dele. Era um a m ulher determ inada a cum prir a sua m issão e não se deixava distrair.

— Ele não é um rapaz, Clarke. É um hom em de trinta e quatro anos, retornou há dois m eses e viu-a todos os dias. Teve m ais do que tem po de a pedir em casam ento e não o fez. — Isso dizia-lhe m uito a respeito do caráter dele.

— Ele quer resolver prim eiro a vida profissional. Isso é perfeitam ente razoável e respeitável, e eu aprovo.

— Quem m e dera ter tanta certeza de que ele vai fazer o correto. Acho que assim que voltar a entrar nem um avião vai se esquecer de casar com ela. Está obcecado pelos aviões e nada interessado no casam ento. Não quero que ela fique para sem pre à espera dele.

— Aposto contigo que eles estarão casados dentro de um ano, ou talvez m enos — disse Clarke cheio de confiança. A m ulher lançou-lhe um olhar irado com o se a culpa fosse sua. Mas ele j á estava habituado.

— Olha que não m e im portarei de perder essa aposta — retorquiu Liz, e o m arido sorriu-lhe. Parecia um a leoa defendendo a cria, e ele adm irava-a por isso, m as parecia-lhe que Kate e Joe não tinham achado m uita graça. Joe aparentava estar especialm ente pouco à vontade sob o ataque e Clarke nunca o vira assim . Sentira pena dele.

— Porque não confia nele, Liz? — perguntou Clarke quando se deitaram . Sabia que ela não confiava, ela não o escondia, em bora adm itisse que gostava dele, m as não necessariam ente para a filha. Liz teria ficado m uito m ais satisfeita se Kate tivesse casado com Andy. A seus olhos, ele teria sido um m arido m uito m elhor que Joe.

— Acho que os hom ens com o o Joe não casam — explicou ela. — E se casam , estragam tudo. Não sabem realm ente o que é o casam ento. É algo com que se ocupam durante o tem po livre quando não estão entretidos com os brinquedos ou com os am igos. Não são m aus caras, m as as m ulheres das suas vidas são m enos im portantes para eles. Gosto m uito do Joe, ele é um hom em honrado e sei que a am a, m as não sei se lhe prestará atenção. Vai passar o resto da vida brincando com os aviões e ainda por cim a sendo pago por isso E se a coisa correr bem , nunca casará com ela.

— Acho que casará — retorquiu o m arido com firm eza. — E pelo m enos conseguirá sustentá-la. Aliás, penso até que será capaz de ganhar bastante dinheiro por aquilo que ele disse. Você não tem razão, Liz. Creio que ele conseguirá gerir a carreira e a m ulher. É um cara inteligente. Às vezes penso até que é brilhante. É um gênio com os aviões e pilota-os com o ninguém . Só tem de vir de vez em quando a terra para faze-la feliz. Eles am am -se, isso deve bastar.

— Por vezes não basta — disse ela triste. — Mas espero que baste para bem deles. Atravessaram um período terrível, agora m erecem um pouco de felicidade. Só quero ver a Kate instalada com um hom em que a am e num a boa casa, com alguns filhos.

— Ele há de chegar lá. É louco por ela.

— Espero que sim — disse Liz com um suspiro, m etendo-se na cam a e aninhando-se j unto do m arido. Queria que Kate fosse tão feliz com o ela, e isso seria pedir m uito. Hom ens com o Clarke Jam ison eram raros.

No quarto de Joe, Kate encontrava-se nos braços dele feliz e saciada e prestes a adorm ecer.

— Am o-te — m urm urou ela. Ele sorriu ensonado.

— Eu tam bém te am o, querida... até am o a tua m ãe.

Ela soltou um a risada e m om entos depois estavam dorm indo, tal com o Liz e Clarke. Um casal de am antes, o outro casado. Era difícil dizer qual dos dois era m ais feliz nessa noite.