A Águia Solitária
Capítulo 11
Quando Joe foi para New Jersey prom eteu a Kate convidá-la para passar um fim de sem ana assim que se instalasse. Julgou que isso levaria duas sem anas, m as só ao fim de um m ês é que encontrou um apartam ento. Havia um hotel perto onde ela podia ficar, o hotel onde ele vivera durante o últim o m ês. Mas a verdade era que ele não dispunha de tem po para estar com ela. Trabalhava noite e dia e ficava no escritório até m uito depois da m eia-noite e tam bém trabalhava aos finais de sem ana. Às vezes até dorm ia no sofá do gabinete.
Joe estava contratando pessoal, m ontando a fábrica e redesenhando a pista de aviação. Parecia não ter tem po para respirar, m as a indústria aeronáutica com eçava a interessar-se pelo que ele estava fazendo. A fábrica seria totalm ente inovadora e tinham sido publicados vários artigos sobre ela em revistas e j ornais. Por vezes nem conseguia telefonar a Kate à noite, e tinham passado seis sem anas desde que saíra de Boston. Quando finalm ente a convidou para ir passar um fim de sem ana em New Jersey. Estava exausto quando ela chegou e quando lhe contou o que tinha feito, ela ficou m uito im pressionada. Era um a operação fantástica, e Joe adorou o fato de ela com preender tudo quando lhe explicou.
Passaram dois dias m aravilhosos. Ficaram a m aior parte do tem po na fábrica e voaram num avião novo em folha que ele desenhara. Quando ela voltou para casa, contou tudo ao pai. Este tam bém estava ansioso por ir a New Jersey. As pessoas do m undo dos negócios com eçavam perceber que Joe estava fazendo história com as suas idéias.
Duas sem anas depois, Joe foi passar o Dia de Ação de Graças com eles. No entanto, estava tendo problem as na fábrica e foi obrigado a retornar na sexta-feira de m anhã. Nunca tivera antes tantas responsabilidades e o peso de toda um a indústria recaía nos seus om bros. Às vezes parecia até que era o m undo inteiro. Joe lidava bem com isso, m as ficara sem tem po livre para se distrair e por vezes até para telefonar a Kate. E no Natal, apesar do seu entusiasm o com o trabalho, ela com eçou a queixar-se. Vira-o duas vezes em três m eses e sentia-se sozinha em Boston sem ele. Ele ficava cheio de rem orsos, m as nada podia fazer.
Kate com eçava a pensar que a m ãe tinha razão e que deviam casar. Pelo m enos assim estariam j untos, em vez de a quilôm etros de distância. Disse-o a Joe quando ele foi passar o Natal em casa, e ele ficou adm irado.
— Agora? Passo cinco horas por noite em casa, Kate. Não iria ser m uito divertido. E ainda não posso m udar-m e para Nova Iorque. — Continuava achando que o casam ento não fazia sentido.
— Então vam os viver em New Jersey. Pelo m enos estaríam os j untos — argum entou Kate.
Estava farta de viver com os pais e não queria com prar um apartam ento em Boston, um a vez que ia casar. Tinha a sensação de que a sua vida parara enquanto esperava que ele se estabelecesse e tivesse tem po para viver. No entanto, isso não era fácil para ele. Metera-se num proj eto gigantesco e só naquela época com eçara a perceber o tem po e o trabalho que teria para fazer bem as coisas. Em três m eses, m al passara da superfície. Trabalhava cento e vinte horas por sem ana, ou m ais.
— Acho que é um a idiotice casarm o-nos agora — explicou-lhe ele na véspera de Natal, depois de ter se esgueirado para o quarto dela.
Kate com eçara a achar que a vida assim era um a loucura, e sim ultaneam ente frustrante. Sentia-se um a criança ainda a viver com os pais. A m aior parte das suas am igas j á tinha casado. As que não o haviam feito antes da guerra, ou durante, casaram -se naquela época e tinham bebês. Ela estava ansiosa por com eçar, ou pelo m enos por viver com ele.
— Dá-m e só m ais algum tem po para pôr isto a andar, e depois procuram os um apartam ento em Nova Iorque e casam os. Prom eto.
Um ano antes estivera num a prisão na Alem anha sendo torturado. E agora dirigia um im pério m onum ental. Era necessário um enorm e esforço de adaptação. Não queria casar-se até dispor de tem po para Kate. Achava que de outra form a não seria j usto. Contudo, aquilo tam bém não era.
Passou um Natal m aravilhoso com a fam ília dela e conseguiu ficar três dias em Boston. Foram voar de novo, e até passaram um dia inteiro na cam a de um hotel. Quando Joe foi em bora, Kate sentia-se m elhor. Ele tinha razão. Fazia m ais sentido esperarem até ele dom inar o negócio. Kate com preendia isso. A Cruz Verm elha com eçava a ter m enos trabalho, pelo que ela decidiu procurar em prego. E logo a seguir ao Ano Novo encontrou um a coisa de que gostava. Passara o ano em New Jersey com Joe, e percebeu novam ente o quanto tinham sorte. Ainda há um ano estivera a chorá-lo, j ulgando-o m orto. Teria dado tudo por aquilo que tinha agora, em bora o visse poucas vezes. Pelo m enos tinham a vida inteira pela frente, e um futuro rosado assim que se casassem .
Janeiro foi um m ês difícil para am bos. Ela estava adaptando-se ao trabalho em um a galeria de arte e ele travou um a luta terrível com os sindicatos. O m ês foi um pesadelo, e fevereiro ainda pior. Não conseguiu ir visitá-la no Dia dos Nam orados, aliás até se esqueceu dele. Não tinham conseguido obter a últim a autorização para a pista de aviação. Isso era um a coisa crucial, e Joe teve de passar três dias engraxando políticos e exercendo pressão sobre alguns funcionários. Só se recordou do Dia dos Nam orados quando ela lhe ligou dois dias depois chorarando. Já não se viam há seis sem anas. Ele prom eteu com pensá-la e sugeriu que ela fosse passar o fim de sem ana em New Jersey.
Divertiram -se bastante. Ela aj udou-o a organizar o escritório e conseguiram ir j antar fora um a noite. Joe ficou no hotel com Kate, e ela retornou a Boston no dom ingo à noite sorridente e feliz. Gostara tanto que sugeriu ir passar todos os finais de sem ana com ele, o que pareceu boa idéia. Joe sentia-se sozinho e tinha m uitas saudades dela, m as tam bém sabia que era obrigado a trabalhar dezoito horas por dia, e até em finais de sem ana. Sentia pena de Kate, contudo de m om ento nada podia fazer. Parecia-lhe viver num carrossel, encurralado entre os seus rem orsos por causa de Kate e a obrigação de gerir um negócio que lhe devorava todas as horas. E quanto m ais rem orsos tinha, de m enos tem po parecia dispor. Aquilo nem para ele fazia sentido. Por fim , desesperado, convidou-a para ir passar lá um a sem ana para poderem estar j untos. E ficou adm irado ao ver com o as coisas corriam bem com ela aj udando-o no escritório. Via-a rapidam ente durante o dia, m as ela parecia radiante. E podiam dorm ir j untos à noite e tom ar o café da m anhã no café. Durante o resto do dia ele com ia andando de um lado para o outro ou sentado à m esa. A única vez que se sentara num restaurante fora quando ela o visitara em New Jersey, e na época arrependera-se do tem po que isso o fizera perder. Sentia que o puxavam de dez m il direções distintas.
As coisas só com eçaram a ficar m elhores em m aio. Ela largou o em prego e foi trabalhar com ele durante o verão. Funcionou às m il m aravilhas, e em bora ela m antivesse um quarto no hotel por causa das aparências, ficou no apartam ento dele. Nunca fora tão feliz e ele teve de adm itir que aquilo tam bém lhe agradava. Kate j á não se queixava de que não o via. Parecia a com binação perfeita para eles, m as não para os pais. Não gostavam que ela fosse visitar Joe em New Jersey, m as ela tinha vinte e três anos e dizia-lhes que dorm ia no hotel. Mantinha lá o quarto para o caso de eles telefonarem .
Joe j á regressara aos Estados Unidos havia um ano, e nunca falaram do noivado. Andavam m uito ocupados pensando no trabalho dele. Só quando tiraram um a sem ana de férias e foram encontrar com os pais dela em Cape é que Clarke o cham ou à parte e teve com ele um a conversa séria. Passara quase um ano desde a explosão de Liz, e ela andava furiosa com Joe e Kate. Com eçara a desconfiar do esquem a do hotel e desaprovava-o com veem ência. E se Kate engravidasse? Ele casaria com ela nessa hora? Deitava fum o de cada vez que via Joe e fazia-o sentir-se um a criança travessa. Sem pre que a via ele tinha vontade de fugir. Era com o um a m áquina de culpa, cuspindo na direção dele, m esm o que não dissesse um a palavra. Tam bém j á não precisava dizer. E Kate sentia-se dividida entre os pais e Joe.
Nessa época, Clarke tam bém j á não estava satisfeito, a situação arrastava-se há m uito tem po, e ele disse-o a Joe quando deram um passeio pela praia de Cape Cod. Joe fora até lá a bordo de um avião com um as linhas bastante atraentes que a sua em presa estava fabricando. Com eçavam a ganhar m uito dinheiro. A vida de Joe m odificara-se bastante desde que o haviam tirado daquele navio em Boston. Tornara-se um hom em m uito rico, m as m al tinha tem po de respirar. Clarke andava preocupado com eles. Gostava de Joe.
Joe levou Clarke para voar no seu novo avião e concordaram não contar a Liz, que estava ainda m ais furiosa agora que sabia que Kate voava m uitas vezes com Joe. Apesar da fam a dele com o piloto e dos seus anos com o herói de guerra, ela continuava convencida de que um dia ele iria cair e m orreriam am bos. Ficara fora de si ao descobrir que Joe dava aulas de pilotagem a Kate. Esta distraíra-se e contara-lhe sem querer. Mas Joe tinha confiança nas capacidades de Kate. Ensinara-a bem , em bora ela ainda não tivesse tido tem po para voar as horas exigidas para poder tirar o brevê. Andava m uito atarefada trabalhando para ele.
Clarke ficou bastante im pressionado com o fabuloso avião novo de Joe, e depois no cam inho de volta para casa pararam num a estalagem para beber um as cervej as. Fazia m uito calor, e Joe sentia-se feliz com o seu avião. Clarke tinha várias coisas em m ente: a felicidade da filha, a sanidade da m ulher, e desej ava dar a Joe alguns conselhos de pai. Fora por esse m otivo que quisera andar com ele de avião, em bora tivesse adorado voar.
— Anda trabalhando m uito, filho — com eçou ele. — Assim vai passar ao lado da vida e, à velocidade a que se desloca, pode com eter uns erros im portantes que lhe sairão caros a longo prazo.
Joe percebeu im ediatam ente que ele estava falando de Kate, m as tam bém sabia que tudo estava bem entre os dois. Era a m ãe que andava sem pre agitada com o assunto.
— As coisas vão acalm ar daqui a algum tem po, Clarke, a em presa é bastante j ovem — disse num tom cheio de confiança.
— Você tam bém , m as por pouco tem po. Devia saborear a vida agora.
— E estou saboreando. Adoro o que faço. — Era verdade e via-se. Mas tam bém adorava Kate, e Clarke sabia-o. Adorava-a o suficiente para ele se sentir j ustificado ao violar a prom essa que fizera a Liz de não falar sobre o suicídio do m arido a pessoas que não os conheciam na época, nem de dizer que não era pai de Kate.
Quando Clarke adotara Kate, Liz dissera-lhe que não queria que o suicídio de John Barrett pairasse sobre a vida de Kate com o um a nuvem negra. Contudo, Clarke sabia m elhor do que Liz que fora isso que acabara por acontecer. E achava que Joe devia sabê-lo. Era um a parte im portante do tudo o que era Kate e não podia ser ignorada. Não era j usto para ela nem para Joe. E Clarke achou que podia abrir os olhos e o coração de Joe, se ele soubesse.
— Há um a coisa que diz respeito à Kate que você devia saber — disse Clarke depois de terem bebido a segunda rodada de cervej a e de terem passado para o gim . Sabia que Liz não ficaria satisfeita se eles chegassem em casa em briagados, m as de m om ento isso não o preocupava. Decidira contar aquilo a Joe e precisava de algum a coragem para fazer isso.
— Isso parece m isterioso — retorquiu Joe com um sorriso. Gostava de Clarke, e durante toda a vida sem pre se sentira m ais à vontade com hom ens. Kate era a única m ulher com quem se abrira e sentira totalm ente descontraído, m as m esm o ela o assustava algum as vezes. Especialm ente quando se enfurecia com qualquer coisa, o que, felizm ente, era raro. Quando isso acontecia, a m enor crítica afastava-o. Nunca lhe explicou. Dizer-lhe que ela por vezes o assustava torná-lo-ia ainda m ais vulnerável. Depois de ter passado os prim eiros anos de vida com os prim os sem pre a dizerem -lhe que ele não valia nada, qualquer alusão posterior a isso fazia-o ter vontade de fugir. Era o botão que a m ãe de Kate pressionava nele, sem pre com m aus resultados.
— E é m isterioso — confirm ou Clarke. — Mas m ais tenebroso que m isterioso. E não quero que a Liz ou a Kate saibam que falam os disto. — Sério, Joe — disse cheio de fervor após o segundo gim . Clarke com eçava a sentir-se em briagado, e Joe sorria m uito. Ficava expansivo sem pre que bebia. Atenuava algum a depressão.
— Então qual é o m istério tenebroso? — perguntou Joe com um sorriso infantil. Cada vez gostava m ais de Clarke. Considerava-o um bom hom em . Respeitavam -se desde o início.
— Eu não sou o pai dela, Joe — disse Clarke baixinho, subitam ente sóbrio. Em treze anos nunca dissera aquelas palavras.
O sorriso de Joe desapareceu quando os seus olhares se cruzaram .
— O que isso quer dizer? Não faz sentido. — Parecia preocupado. Pressentia problem as.
— A Liz foi casada antes. Durante m uito tem po. Quase trinta anos. Só estam os casados há catorze. Às vezes parece um a eternidade — com entou ele com um sorriso, e Joe riu-se. Contudo, sabia quanto Clarke am ava Liz. Tinha de am ar, para poder aturá-la. — O m arido dela era m eu am igo, um bom hom em , m eigo, carinhoso, oriundo de um a boa fam ília. Estudei com o irm ão dele, e foi assim que conheci o John. Ele perdeu tudo no colapso financeiro de m il novecentos e vinte e nove, não só o seu dinheiro e o da fam ília, m as tam bém o dinheiro das pessoas cuj os investim entos ele geria, e algum a da fortuna da Liz tam bém . Felizm ente, a fam ília dela tinha continuado a gerir o seu dinheiro, e tiveram m ais sorte do que o John. A m aior parte do dinheiro dela não foi afetada pelo colapso financeiro. Mas John perdeu tudo. — Era um a história que Clarke não queria contar, e Joe sentiu m edo de ouvir m ais. — Ele quase m orreu na época. Era o hom em m ais honrado que conheci, e aquilo destruiu-o. Passou dois anos, fechado num quarto do prim eiro andar, sentado no escuro. Tentou beber até m orrer, m as não resultou. Suicidou-se em trinta e um . Kate tinha oito anos quando ele m orreu.
— Ela estava lá? Viu-o m atar-se? — perguntou Joe horrorizado com a história, m as Clarke abanou a cabeça.
— Não, graças a Deus. Foi a Liz quem o encontrou. Acho que a Kate estava na escola. Quando ela chegou em casa j á tudo tinha term inado. Mas ela soube com o ele m orrera. Eu conhecia a Liz, o John e a Kate há m uitos, m uitos anos. Fiz o que pude por elas depois, apenas com o intuito de ser prestável. A Liz ficou em estado de choque. Eu perdera a m inha m ulher alguns anos antes. As coisas com eçaram a evoluir entre a Liz e eu, m as acho que m e apaixonei pela Kate antes de m e apaixonar pela Liz. Ela estava apavorada, era um a criança destroçada pela m orte do pai. Achei que ela nunca m ais se recuperaria. Tinha oito anos na época. Casei com a Liz um ano m ais tarde, e adotei a Kate no ano seguinte, quando ela fez dez anos. Levei m ais dois anos a fazê-la sair da “gruta” onde se escondera desde o suicídio do pai. Acho que durante anos ela não confiou em m im , nem em ninguém , especialm ente nos hom ens. A Liz adorava-a, m as não sei se sabia com unicar-se com ela, ficara m uito chocada com a m orte do m arido. Houve um a época terrível logo após o nosso casam ento: a Liz adoeceu. Foi apenas um a gripe. Mas vi a Kate entrar em pânico. Estava apavorada com a possibilidade de perder a m ãe. Não sei se a Liz chegou aperceber. A Kate levou a vida inteira para tornar-se a m ulher que é hoj e. Forte, confiante, feliz, divertida, capaz. A m ulher que você am a foi durante m uito tem po um a criança aterrorizada, destroçada. Acho que durante anos teve receio de que eu tam bém a abandonasse, com o o pai. Coitado, ele não pôde evitá-lo. Faltou-lhe a energia para sobreviver ao que lhe tinha acontecido, por m uito dinheiro que a Liz tivesse. Aquilo destruiu o am or próprio dele, a sua virilidade, o seu orgulho. Mas quando se m atou quase destruiu Kate.
— Porque está contando-m e isso? — perguntou Joe desconfiado, ainda chocado com o que acabara de ouvir.
— Porque é um a parte im portante da Kate. Ela am ava o pai e ele adorava-a. E depois com eçou a am ar-m e. E agora am a você. Você foi para a guerra e durante dois anos ela pensou que estava m orto. Teria sido um a tragédia para qualquer garota, m as foi-o ainda m ais para ela. Reabriu-lhe as velhas feridas, vi-o todos os dias nos seus olhos. Foi o tipo de perda que podia tê-la destruído se ela não fosse tão forte. E depois, m iraculosam ente, você retornou do m undo dos m ortos. A vida foi boa para ela. Mas há um a peça partida cuj a existência você tem de saber, se a am a. De cada vez que você a deixa, ou a rej eita, ou a faz sentir-se abandonada, recorda-lhe tudo o que ela perdeu. É com o um a corça ferida, é preciso serm os m eigos e darm os-lhe um abrigo. Se for bom , ela sem pre será boa para você, Joe. Mas tem de saber da existência dessa peça. A Kate é com o um pássaro com um a asa partida, em bora você pense que ela sabe voar m uito bem . Tem de ser m eigo para com aquela asa... Ela é a ave m ais bonita que eu j á vi, e voará m ais longe do que qualquer outra por você. Mas peço-lhe que não a assuste e j ulgo que isso não acontecerá se souber aquilo por que passou.
Joe ficou em silêncio durante bastante tem po, pensando nas palavras de Clarke. Era um a dose de realidade bastante forte para ser partilhada em um dia de verão com uns gins. Mas ele tinha razão, era um a parte im portante de Kate, e explicava m uita coisa. Ela parecia sem pre em pânico quando ele estava longe. Nunca o dissera abertam ente, m as sem pre que ele a deixava para ir a algum lugar, via-o nos seus olhos. E aquela expressão de terror assustara-o algum as vezes. Era com o a som bra da qual fugira toda a vida.
— O que é que está tentando dizer-m e, Clarke? — inquiriu Joe, perguntando a si m esm o qual seria o m otivo daquela conversa.
— Acho que devia casar com ela, Joe. Não pelas razões que a Liz quer: um a festa com pom pa e circunstância e respeitabilidade, um a grande festa e um vestido branco. Quero saber que ela tem um lar feliz. Merece-o, Joe, m ais do que m uitas. O pai levou com ele um a parte dela que nenhum de nós poderá restituir-lhe. Mas você pode fazê-lo em parte. Quero que ela se sinta em segurança sabendo que você vai ficar por perto.
Joe teve vontade de perguntar: “Então e eu?” O casam ento era precisam ente aquilo que ele m ais tem ia. Um a j aula. Um a arm adilha. Por m uito que a am asse, o casam ento em si era um a enorm e am eaça. Maior do que Clarke conseguiria im aginar.
— Não sei se serei capaz — respondeu Joe com sinceridade, sorrindo um pouco.
— Porque não.
— Parece um a arm adilha ou um a corda à volta do m eu pescoço. Os m eus pais abandonaram -m e de outra form a. Morreram e deixaram -m e com pessoas que m e odiavam . Trataram -m e m uito m al, e sem pre que penso em casam ento, ou em fam ílias, ou em assentar, tenho vontade de fugir.
— Ela será boa para você, Joe. Conheço-a bem . É boa garota, e am a-o m ais do que à vida.
— Isso tam bém m e assusta — adm itiu ele. — Não quero ser tão am ado. — Clarke viu o m edo nos olhos dele, m edo com o nunca tinha visto antes. — Não sei se sou capaz de dar-lhe o am or de que ela precisa. Não quero desiludi-la, Clarke. Não suportaria os rem orsos de falhar. Am o-a m uito para lhe fazer isso.
— Todos nós falham os, e aprendem os com isso. Ela é boa para você. Aprenderão um com o outro, m esm o que às vezes isso custe. O am or sara m uitas feridas. A Liz sarou m uitas das m inhas. — Era um lado dela que Joe nunca teria im aginado, m as estava disposto a acreditar em Clarke. Era evidente que Liz passara por m uito. — Um dia será um hom em solitário se não deixar que alguém o am e, Joe. É um preço m uito alto a pagar.
— Talvez — respondeu Joe, olhando para o copo.
— Vocês precisam um do outro, Joe. Ela precisa da sua força, e de saber que não vai abandona-la, que a am a o suficiente para casar com ela. E você tam bém precisa da força dela, e da sua ternura. Não é fácil estar sozinho. Sofri m uito quando a m inha m ulher m orreu. A solidão é triste. Um a garota com o a Kate não o fará triste, se você a deixar entrar na sua vida. Às vezes irá enfurecê-lo, m as não o deixará destroçado, pois você é m ais forte do que j ulga. Já não é um a criança, ninguém pode voltar a fazer-lhe aquilo que os seus prim os fizeram . Agora é um hom em , Joe, eles partiram . Não passam de fantasm as. Não os deixe dom inar-lhe a vida.
— Porque não? Deu certo até aqui, não deu? Acho que tenho um a vida bastante boa — disse Joe com um sorriso cínico.
— É precisam ente aí que quero chegar. Terá um a vida m elhor se a partilhar com ela. Será um hom em triste se um dia perder a Kate. E isso pode acontecer. As m ulheres são engraçadas nisso, deixam -nos quando m enos esperam os. Se nos esforçarm os, som os capazes de perder um a pessoa. No entanto ela não o abandonará, a m enos que você a obrigue. Am a-o m uito. Agarre-a enquanto pode. Para o bem de am bos. Quero isto para vocês os dois. Confie em m im , filho. Fará bem a am bos. Se lhe der espaço para crescer, terá um a boa m ulher perto de si. Acho que ela tem m edo que m ais tarde ou m ais cedo você a abandone.
— E poderei abandonar — retorquiu Joe, olhando Clarke nos olhos.
— Espero que não o faça. Mas se o fizer, espero que sej a hom em suficiente para voltar atrás e dar-lhe outra oportunidade. É raro ver aquilo que vocês dois têm . Já não podem fugir, por m uito que façam , ou por m uito que tentem . Vej o-o nos seus olhos e nos dela. Perderão am bos se fugirem . O tipo de am or que vocês partilham é para toda a vida, Joe. Quer estej am j untos quer não.
Era um a espécie de prisão perpétua para Joe m as, apesar de todos os seus receios, ele pressentiu que Clarke tinha razão e que aquilo que ele dizia era verdade.
— Vou pensar nisso — respondeu ele.
Clarke assentiu. Não podia dizer m ais nada. Falara com o coração nas m ãos, por am or a Kate e a Joe.
— Ela ainda precisa crescer um pouco. Dê-lhe um a oportunidade, Joe. E não lhe diga que lhe falei do pai. Acho que ela tem vergonha disso. Um dia contar-lhe-á.
— Folgo em saber. — Na verdade aquilo dificultava-lhe ainda m ais as coisas. Saber aquilo que ela sentia a respeito do suicídio do pai e do fato de ele a ter abandonado tornava o fardo de Joe ainda m ais pesado. Não parecia j usto. Ele tinha os seus próprios problem as com o passado. Contudo, um a coisa que Clarke dissera era verdade. Joe nunca am ara tanto ninguém na sua vida, nem Kate. E acreditava que aquilo que partilhavam era único. Mas o m ais irônico de tudo era que ele tinha necessidade de fugir, de ser livre, e ela tinha de se agarrar a alguém para poder viver. Parecia um a luta para ver quem conseguia ganhar. No entanto, ele sentia que se fossem capazes de se descontrair, a relação poderia funcionar. Sabendo o que sabia agora, Joe perguntava a si m esm o se ela seria capaz de o fazer. E ele? Quando m uito, aprenderem a dançar um com o outro levaria tem po. Clarke tam bém sabia disso. Mas tinham m uito tem po. Eram novos. A única dúvida de Clarke era se os dois seriam suficientem ente sensatos para m anterem o com prom isso até que as coisas funcionassem . Podia apenas rezar para que fossem . Caso contrário, teriam m uito a perder.
Joe levou Clarke no carro, em bora j á tivesse bebido bastante, e Clarke confessou que tam bém j á estava em briagado. Liz reparou nisso assim que eles entraram , m as não disse nada. Clarke aproxim ou-se dela e abraçou-a. Joe ficou aliviado ao ver que ela não os repreendera e se lim itara a rir e a oferecer-lhes xícaras de café, enquanto Clarke aceitava a sua e dizia que lam entava estragar um a boa bebedeira, piscando o olho a Joe. Form ara-se entre am bos um a verdadeira am izade nessa tarde, e Joe sabia que, independentem ente do que acontecesse entre si e Kate, nunca deixaria de gostar de Clarke.
Nessa noite, depois do j antar, Joe e Kate foram dar um passeio pela praia. Iam retornar a New Jersey no dia seguinte. E Joe surpreendeu-a quando a abraçou e a beij ou com um a expressão terna nos olhos. O que Clarke lhe contara nessa tarde alterara tudo de form a sutil. Joe continuava tendo m edo de se sentir sufocar com prom etendo-se com ela, m as ao m esm o tem po desej ava protegê-la não só do m undo, m as de si própria. Ainda conseguia pressentir nela a criança solitária cuj o pai se suicidara. Apesar da sua aparência forte, ele agora conseguia ver nela a ave com a asa partida que ela fora em criança. E isso fê-lo am á-la ainda m ais. Ela tornara-se um a m ulher forte e voltara a ser capaz de voar, pelo m enos aos olhos do m undo, m as no seu íntim o continuava sendo um a criança assustada. Tal com o ele antes fora um rapaz solitário. Tinham se encontrado por acaso, tinham sentido-se atraídos um pelo outro porque o destino assim o fadara. Ele haveria sem pre de recordar a form a com o ela o deslum brara a prim eira vez que a vira. Talvez aquilo estivesse m esm o destinado.
— Conseguiu m esm o em bebedar o m eu pai hoj e! — exclam ou ela com um a gargalhada, enquanto cam inhavam pela praia de m ãos dadas.
— Passam os um bom tem po j untos.
— Ainda bem . — Ao ouvi-la, Joe perguntou a si m esm o se um dia ela seria com o a m ãe. E se fosse, com o se sentiria ele? Contudo, apesar dos seus receios, era difícil ignorar a sensatez das palavras de Clarke. Muito do que ele dissera tocara-o.
— Acho que devíam os casar um dia destes — disse Joe num tom casual.
Kate estacou e fitou-o surpreendida.
— Você ainda está bêbado? — perguntou, sem saber se ele estava falando sério.
— Provavelm ente. Mas porque não, Kate? Podia resultar lindam ente. — Não parecia m uito convencido, m as pela prim eira vez em trinta e cinco anos estava disposto a tentar.
— O que te fez decidir isso? O m eu pai fez-te um ultim ato?
— Não. Ele disse-m e que um dia destes eu poderia perder-te se não abrisse os olhos E talvez tenha razão.
— Não vai perder-m e, Joe — disse ela baixinho quando se sentara na areia. Ele puxou-a para j unto de si. — Am o-te m uito. Você não tem de casar com igo. — Quase tinha pena dele. Com preendia o quanto a liberdade significava para ele.
— Talvez eu queira casar com você. O que acha?
— Acho m aravilhoso — respondeu ela sorrindo, e Joe nunca a am ou tanto com o naquele m om ento. — Muito, m uito m aravilhoso. Tem certeza? — Estava atordoada. Ele declarara-se finalm ente.
— Tenho algum a certeza — respondeu ele com sinceridade. As palavras de Clarke tinham feito bastante sentido. Clarke via neles algo que Joe tam bém via quando tinha a coragem de olhar. Um am or poderoso e infinitam ente raro. — Acho que não devem os apressar-nos — continuou com cautela. — Talvez sej a m elhor esperar seis m eses ou um ano. Preciso de tem po para m e habituar à idéia. Que tal guardarm os segredo?
— Parece-m e bem — respondeu ela. Ficaram sentados em silêncio durante m ais algum tem po, e depois regressaram a casa de m ãos dadas.