A Águia Solitária
Capítulo 16
Kate acordou na m anhã seguinte tendo encontrado Joe, sentindo-se pesada. Tivera pesadelos toda a noite, e quando o bebê chorou acordou com um a sensação desagradável, com o se tivesse traído Andy. E enquanto bebia um café, depois de ter posto Reed para dorm ir, disse a si própria que não fizera nada de errado. Portara-se bem , não se m ostrara interessada nele, não o encoraj ara, não dissera que lhe telefonaria. Mas sem saber por que, sentia-se culpada por tê-lo visto, com o se tivesse sido responsável por aquele encontro fortuito. Era um a sensação desagradável que não a largou durante o resto do dia. E nessa noite, depois de ter escrito a Andy e de ter colocado algum as fotografias de Reed no envelope, o telefone tocou. Devia ser a m ãe, calculou Kate ao pegar no auscultador. Mas a voz do outro lado quase lhe arrancou o coração. Era o m esm o trovão aveludado que sem pre a arrepiara e por que ansiara durante m uitos, m uitos anos.
— Olá, Kate. — Ele parecia cansado e descontraído. Era tarde. Ainda estava no escritório
— Olá, Joe — Kate não disse m ais nada. Aguardou. Não fazia idéia por que m otivo ele estava ligando-lhe.
— Pensei que talvez você estivesse aborrecida sem o Andy.
Era um a escolha de palavras inteligente. Dissera ”aborrecida” em vez de ”sozinha”. Na verdade, ela sentia-se am bas as coisas, m as não pretendia adm iti-lo perante ele. — Gostaria de ir alm oçar com igo, em m em ória dos bons velhos tem pos?
Ele soava m eigo e j ovem , e quase hum ilde. E certinho, o que era enganador. Mesm o que pretendesse sê-lo, não era, nem nunca seria.
— Não m e parece. — Não era um a boa idéia, e ela sabia-o.
— Sem pre quis que você visse o nosso edifício aqui na cidade. É incrível. Um dos m ais bonitos do país. Você esteve com igo no início, achei que gostaria de ver para onde a em presa foi depois... depois de você...
— Gostaria m uito, m as acho que não devem os.
— Porque não? — Ele parecia desiludido, e aquilo sensibilizou-a. Perigo! Perigo! Parecia um a luz a piscar. Ela preferiu ignorá-la.
— Não sei, Joe — respondeu com um suspiro. Estava cansada. E ele era-lhe tão fam iliar. Sentia-se bem em falar com ele e Kate desej ou poder fazer recuar o tem po. Recordou-se dos dois anos de agonia quando todos pensavam que ele tinha m orrido, e de o ter visto no navio pela prim eira vez quando regressara da Alem anha. Havia tantas recordações desses dias a aquecendo-lhe o coração, em bora não fossem suficientes só por si. — Já passou m uita água debaixo da ponte desde que saí de New Jersey.
— É precisam ente essa a questão. Quero que você vej a qual é o aspecto da barragem . É um a beleza.
— Você é incorrigível! — exclam ou ela com um a gargalhada. Sentia-se j á um pouco m ais à vontade com ele.
— Serei? Porque não podem os ser am igos, Kate? — “Porque eu ainda te am o”, quis ela responder-lhe. Mas am aria? Talvez fosse apenas a recordação do am or, e não o am or em si. Talvez tivesse sido tudo um a ilusão. O que ela tinha com Andy era am or verdadeiro. Kate tinha certeza. Joe era outra coisa, um a ilusão, um sonho, um a esperança que se recusava a m orrer, um conto de fadas para o qual ela sem pre quisera um final feliz e não conseguia. Joe era um desastre à espera de acontecer, e ela sabia-o. Sabiam -no am bos.
— Alm oça com igo... por favor... eu porto-m e bem . Prom eto.
— Tenho certeza de que am bos nos portaríam os bem — retorquiu ela com firm eza, — m as por que suj eitarm o-nos a isso?
— Porque gostam os da com panhia um do outro, sem pre gostam os. Você está preocupada com o quê? Você é casada, tem um filho, um a vida. Eu só tenho aviões. — Ele tentou soar infeliz, e ela riu-se.
— Não m e venha com isso, Joe Allbright! Foi sem pre o que você quis! Mais do que queria a m im , aliás. Foi por isso que te deixei.
— Podíam os ter tido am bas as coisas — retorquiu ele com tristeza, e daquela vez parecia estar falando sério.
Ela detestou-o por ele dizer aquilo naquele m om ento. Era m uito tarde.
— Tentei dizer-te isso, m as você não ouviu.
— Fui incrivelm ente estúpido e tive m edo de m e prender. Agora sou m ais esperto e m ais coraj oso. Sou m ais velho. E sei o que perdi quando você m e deixou. Fui m uito orgulhoso para adm itir o quanto você significava para m im . A m inha vida não tem tido significado sem você, Kate.
Joe soava tal e qual com o quando ela o am ara m ais, e aquelas palavras eram o que ela sem pre quisera ouvir. Era um a peça cruel do destino ouvi-las naquele m om ento. Dem asiado tarde.
— Sou casada, Joe — disse ela baixinho.
— Eu sei. Não estou pedindo que m ude isso. Com preendo que você construiue um a vida. Eu só quero alm oçar. Um a sandes, um a hora. Pode dar-m e isso. Só quero m ostrar-te aquilo que fiz. — Parecia tão orgulhoso e sem ninguém com quem partilhar esse sentim ento. Mas a culpa era sua. Ela tinha de acreditar que houvera outras m ulheres depois da sua partida, m as conhecendo-o, talvez não, ou talvez ninguém im portante. Ele vivia para os seus aviões e para a sua em presa. E há m uito que era considerado o desenhista de aviões m ais im portante do m undo. Era um gênio. — Aceita, Kate. Bolas, não deve ter m uito m ais coisas para fazer com o Andy fora. Arrum a um a am a e vem alm oçar com igo, ou traz o bebê.
Kate não o levaria. Já usara várias am as quando saíra com Andy à noite, e tinha o contato de algum as. Não levaria Reed para um edifício de escritórios, não fosse ele perturbar as pessoas que aí trabalhavam .
— Está bem , está bem — assentiu ela com um suspiro. Parecia que estava discutindo com um a criança. Ele era tão persuasivo! — Eu vou.
— Você é m aravilhosa, Kate. Obrigado.
Que diferença fazia?, perguntou Kate a si própria. Porque haveria de querer que ela visse o seu gabinete? Tinha de recordar-se constantem ente que estava casada com Andy.
— Que tal am anhã?
Ela pensou durante um longo m om ento e acabou por ceder.
— Está bem .
Queria resolver aquele assunto e provar que era capaz de alm oçar com ele sem voltar a apaixonar-se, sem o desej ar e sem se sentir atraída por ele. Tinha de ser possível. Parecia um ex-alcoólatra a tentar provar que era capaz de passar à porta de um bar sem beber. E ela sabia que seria capaz de o fazer, por m uito atraente que ele fosse.
— Quer que eu te busque? — perguntou.
Ela declinou, dizendo que iria encontra-lo no restaurante. Ele sugeriu o Giovanni e Kate disse que estaria lá ao m eio-dia e m eia.
Chegou ao restaurante no dia seguinte à hora com binada, envergando um terno de linho, o cabelo apanhado e um grande chapéu de palha que com prara no Bonwit Teller. Estava m uito elegante, e Joe j á se encontrava à espera. Cum prim entou-a com um beij o no rosto e várias pessoas olharam para eles. Joe tinha um a figura m uito distinta e facilm ente reconhecível depois de toda a cobertura de im prensa que tivera, e ela era um a m ulher bonita com um chapéu deslum brante. Mas ninguém sabia quem era.
— Você sem pre m e fez parecer bem — disse ele quando se sentaram num a m esa de canto que lhes perm itia ter algum a privacidade.
— Você safa-se bem sozinho — retorquiu ela com um sorriso. Era divertido sair para alm oçar e Kate ficou adm irada ao constatar que não o fazia desde que o bebê nascera. Com Andy fora, nada m ais tinha para fazer do que cuidar de Reed, e sabia bem retornar ao m undo com o adulta. Am ava Reed, m as não tinha com quem falar. As am igas de infância estavam todas em Boston e ela perdera o contato da m aior parte durante os anos que passara com Joe. A sua paixão por ele e o tem po que passara a aj udá-lo a m ontar o negócio tinham -na isolado de todas as pessoas conhecidas. E depois dessa época andara envolvida na vida de casada. Não dispusera de tem po ou de desej o para fazer novos am igos.
Ela e Joe falaram de m il coisas durante o alm oço, sobre a em presa dele, os desenhos, os problem as, o últim o avião. E depois passaram um a hora falando da sua com panhia aérea. Joe estava envolvido em m uitos proj etos interessantes. A sua vida era m uito diferente da dela. Kate tinha um a vida calm a e feliz com o m arido e o filho.
— Você vai arrum ar em prego agora, Kate? — perguntou ele. Portara-se com o um verdadeiro cavalheiro durante o alm oço e Kate ficou adm irada por se sentir tão bem na sua com panhia.
— Não m e parece. Quero estar em casa com o bebê. — Mas tinha pensado nisso. Andy não queria que ela trabalhasse e por enquanto ela concordara. Tinha gostado do trabalho no Museu Metropolitano, m as não ansiava m uito por um a carreira.
— Ele é um garoto bonito, m as deve ser bastante aborrecido — com entou Joe.
Kate riu-se
— Às vezes é. Mas tam bém é divertido.
— Ainda bem que você está feliz, Kate — disse ele observando-a.
Kate assentiu. Não queria falar do assunto com ele. Abria dem asiadas portas para o passado e não lhe parecia correto que falassem sobre Andy, achava um a falta de respeito. Sabia que o m arido não teria gostado que ela alm oçasse com Joe, m as sentia que tinha de o fazer para provar algo a si m esm a. E fora inofensivo. Tinham -se lim itado a falar de aviões. Continuava sendo o tem a preferido de Joe e Kate sabia m uitas coisas a esse respeito, ou costum ava saber. Ele sem pre dera valor aos seus conselhos e gostara de a ter trabalhando com ele logo no início. Era por esse m otivo que ela entendia tanto do que ele fazia. Contudo, a em presa crescera exponencialm ente desde essa época e Kate nada sabia sobre a com panhia aérea, exceto o que lera nos j ornais.
Entraram no carro dele quando saíram do restaurante e ela ficou m uito im pressionada quando viu o edifício. Era um arranha-céus repleto de funcionários dele, tanto da em presa de design com o da com panhia aérea.
— Meu Deus, Joe, quem haveria de ter pensado que isto iria crescer desta m aneira. — Em cinco anos ele construíra um im pério.
— É espantoso quando pensam os que quando m enino com ecei por parar perto das pistas de aviação. Este país é isso m esm o, Kate. Estou m uito orgulhoso. — Parecia hum ilde, e ela ficou sensibilizada.
— Tem m otivos para isso. — Ela assobiou ao ver o gabinete dele, no últim o andar, com vista sobre a cidade. Parecia m esm o que estava voando. O escritório tinha painéis de m adeira na parede, bonitas antiguidades inglesas e quadros que ela reconheceu. Joe era um colecionador de arte e tinha m uito bom gosto. Era um hom em extraordinário e não tardaria a tornar-se um dos hom ens m ais ricos do m undo. Mas, recordou a si m esm a, podia ter partilhado tudo aquilo com Joe nos term os dele: sem casam ento e sem filhos. Independentem ente do que ele alcançara ou adquirira, continuava a não ser a vida que ela quisera, por m uito que o tivesse am ado. Talvez m ais ainda porque o am ara. Preferia o que tinha com Andy, e o bebê. Para Kate, aquilo nunca fora um a questão de dinheiro. Fora um a questão de am or, de em penho e de filhos, que ela alcançara agora. Mas não com Joe. Há m uito que se conform ara com o fato de não poder ter tudo o que desej ava.
Entrou na sala de reuniões com ele e foi apresentada a várias pessoas, incluindo à secretária, que estava com Joe desde o início e ficou encantada ao tornar a ver Kate. Cham ava-se Hazel e era um a m ulher m uito doce.
— Estou tão feliz por voltar a vê-la! O Joe disse-m e que você acabou de ter um bebê. Não parece nada! — Kate agradeceu-lhe e depois voltou com Joe para o gabinete dele, onde se sentaram m ais alguns m inutos. Ela tinha de retornar para j unto do filho em breve. Dissera à am a que estaria de volta pelas três e m eia e essa hora estava aproxim ando-se. E tinha de am am entar.
— Obrigado por ter alm oçado com igo — disse quando ela com eçou a preparar-se para partir.
— Acho que quis provar a m im m esm a, e a você, que podem os ser am igos. — Fora um desafio extraordinário, m as ela enfrentara-o bem .
— E será que passei no teste? Podem os ser am igos? — Tinha um ar inocente e esperançoso, e ela sorriu.
— Você não precisava de passar no teste — adm itiu ela, — eu precisava.
— Acho que passam os com distinção. — Ele parecia satisfeito.
— Espero que sim — disse Kate, m ais bonita do que nunca sob o grande chapéu de palha. Joe achou que os olhos dela brilhavam . Tudo nela sem pre o havia fascinado. Era tão cheia de vida, tão j ovem e bonita. Tudo o que sem pre quisera num a m ulher. Mas ela quisera m ais dele do que aquilo que ele pudera dar-lhe, ou dar a qualquer m ulher. Quisera m uito.
Kate levantou-se e beij ou-o no rosto, e ele fechou os olhos e inspirou o seu perfum e. Era-lhe dolorosam ente fam iliar, tal com o era para Kate sentir a pele dele e a form a com o ele a agarrava. Havia m uitas coisas, talvez dem asiadas, que am bos recordavam . As m em órias estavam à flor da pele e nos seus corações.
— Vam os alm oçar outra vez um dia destes — disse ele quando a acom panhou até ao carro. O m otorista iria levá-la para casa.
— Gostaria m uito — respondeu ela.
Joe fechou a porta da lim usine e ela acenou-lhe quando se afastou. Ele ficou im óvel por uns m om entos e depois retornou ao gabinete, com eçando de im ediato a desenhar aviões.
Um a sem ana m ais tarde, num a noite quente, Kate estava vendo televisão com o ar condicionado ligado. O bebê dorm ia quando o telefone tocou. Era Joe, e Kate ficou adm irada ao ouvi-lo. Sentira-se aliviada com a form a com o o alm oço decorrera e orgulhava-se do seu com portam ento. Fora um a situação agridoce, algo divertida, m as não de sofrim ento. E depois soubera bem retornar para j unto do bebê e de um a carta de Andy que acabara de chegar. Joe pertencia ao passado.
— O que você está fazendo? — perguntou ele, parecendo descontraído. Estava em casa pensando nela.
— Vendo televisão — respondeu, adm irada por voltar a ouvi-lo.
— Você quer ir com er um ham búrguer? Estou aborrecido, — confessou.
Ela soltou um a gargalhada.
— Gostaria m uito, m as não consigo arrum ar um a am a.
— Traz o bebê.
— Não posso, Joe. Ele está dorm indo e se o acordo vai ficar chorando durante várias horas. Acredita, você não iria gostar.
— Você tem razão. Não iria. Já com eu?
— Mais ou m enos. Com i um sorvete esta tarde. Não tenho m uita fom e. Está m uito calor.
— E se eu te levar aí um ham búrguer — sugeriu ele.
— Aqui?
— Bem , sim . Para onde m ais haveria de levá-lo? — Parecia estranho recebê-lo no apartam ento que partilhava com o m arido, m as, por outro lado, estavam am bos sozinhos sem nada para fazer, e eram am igos. Ela podia fazer aquilo, provara-o na sem ana anterior.
— Você tem certeza de que quer fazer isso? — perguntou Kate
— Porque não? Tem os am bos de com er. — Parecia razoável, e por fim ela concordou. Ele sabia o endereço e disse-lhe que estaria lá dentro de m eia hora.
Chegou quinze m inutos depois, com dois grandes cheeseburgers num saco de papel escorrendo gordura, tal com o am bos gostavam . Kate não com ia um assim havia anos, e enquanto os ham búrgueres pingavam gordura e ketchup por todo o lado, eles lam beram os dedos e riram -se sentados à m esa da cozinha.
— Você está toda besuntada — disse. Ela riu-se, parecia ter de novo dezessete anos.
— Eu sei e adoro. — Estendeu-lhe guardanapos de papel e lim param depois o chiqueiro.
Kate ofereceu-lhe sorvete. Aquilo fazia lem brar os velhos tem pos, quando ele dorm ia na casa dos pais dela em Boston, e depois a época de New Jersey. Kate sentira falta disso, em bora se divertisse bastante com Andy. Joe era com o um pássaro gigante que descia em voo picado, depois deixava-se ficar no chão durante algum tem po e em seguida tornava a levantar voo e desaparecia. Apesar disso, Kate gostara de encontrá-lo. Esquecera-se de com o ele era um a com panhia agradável e do quanto gostavam um do outro. Joe adorava as histórias dela, e ela fez ele rir de coisas disparatadas. Fazia-lhe bem , sem pre fizera. Ele, há m uito tem po, tam bém fora bom para Kate, m as ela esforçara-se por esquecer isso. Dem orara anos. Depois de com er, viram televisão. Ela usava sandálias e descalçou-as, e Joe descalçou tam bém os sapatos. Kate gozou com ele quando viu as suas m eias esburacadas.
— Você é m uito bem sucedido para usar m eias assim .
— Não tenho quem m e com pre um as novas — respondeu ele, tentando fazê-la ficar cheia de pena. — Mas é assim que você gosta, lem bra-se?
— Pede à Hazel que com pre-as. — A secretária dele tinha outras coisas para fazer, por isso ele continuava sem m eias novas.
— Não gosto, só não quero casar-m e para poder ter m eias decentes. Isso é um preço m uito elevado para pagar por m eias sem buracos — retorquiu ele. Estavam sentados no sofá conversando, com a televisão com o barulho de fundo.
— Ai, é? Por quê?
— Não sei. Você conhece-m e. Tenho m edo de m e sentir preso. Tenho m edo de perder algum a coisa, ou de que alguém exij a m uito de m im . Que exij a um a parte de m im que eu não quero dar. — Sem pre tivera m edo disso. Fora por essa razão que não casara com Kate. Mas agora j á não tinha m edo dela. Por um a razão desconhecida, finalm ente confiava nela. Dem orara m uito, m uito tem po.
— Ninguém pode tirar-te o que não quer dar — observou Kate.
— Podem tentar. Acho que tenho m edo de m e perder no processo. — Isso quase acontecera com Kate. Ela levara um grande pedaço dele consigo, em bora ele suspeitasse que ela o desconhecesse. E naquele m om ento ele queria reclam á-lo, e a ela.
— Você é m uito grande para se perder, Joe. Acho que não tem idéia do seu tam anho. Você é enorm e. — Era o m aior hom em que ela j á conhecera. Tinha um espírito enorm e e um a m ente brilhante.
— Penso sem pre que sou invisível, ou que quero ser — confessou Joe, parecendo um a criança.
— Acho que ninguém consegue ver-se com o realm ente é. No seu caso, tem m uitos m otivos de orgulho. — Era estranho estar ali sentada com ele. Se alguém tivesse lhe dito no m ês anterior que isso iria acontecer, ela não teria acreditado, m as estava gostando da com panhia dele e eram de novo am igos. Isso era bastante reconfortante. Para am bos.
— Há m uita coisa de que não m e orgulho, Kate — confessou ele. Ela sentiu-se sensibilizada. Sem pre adorara aquela m etade dele, e sabia que sem pre adoraria, em bora odiasse a outra m etade, a que a fizera sofrer tanto quando partira. — Não m e orgulho da form a com o te tratei — continuou, e ela ficou surpreendida ao ouvir aquilo. — Fui péssim o para você antes de você ir em bora. Obriguei-te a trabalhar m uito, usei-te, não pensei em ti, apenas em m im . Mas você assustou-m e m uito. Am ava-m e tanto que m e senti pouco m erecedor e culpado. Encurralado, acho. Só queria fugir e esconder-m e. Você fez bem em ir em bora, Kate. Quase m orri quando foi, m as não te culpo. Foi por isso que nunca te telefonei, por m uito que o quisesse fazer. Foi bom você ir em bora. Ali não havia nada para você. Não podia dar-te aquilo de que precisava. Não com preendi a sorte que tinha. Levei algum tem po paraa acalm ar e para perceber isso. — E nessa época havia m uito que ela partira.
— É sim pático da sua parte dizer isso — com entou Kate com generosidade, — m as a relação nunca teria dado certo. Agora com preendo isso.
— Porque não? — perguntou Joe franzindo o cenho. Nada o anim ava m ais do que um desafio.
— Porque era isto que eu queria — disse ela abarcando com um gesto o apartam ento e o quarto do filho. — Um m arido, um filho, um a vida norm al. Você precisava de m uito m ais, precisava de poder e de êxito, de excitação e de aviões, e você está disposto a sacrificar tudo por isso, até pessoas. Eu não. Era isto que eu queria.
— Podíam os ter tido isso, e m ais, se você tivesse esperado.
— Não foi isso que você disse na época.
— Era o m om ento errado para m im , Kate. Estava m ontando um negócio. Não conseguia pensar em m ais nada. — Era verdade, m as ela sabia que a aversão dele ao casam ento, às crianças e à responsabilidade era m ais intensa do que adm itia. Kate vira isso. Conhecia-o m elhor do que ele conhecia a si próprio. Joe sentira-se m uito aterrorizado para deixá-la entrar.
— E agora? — perguntou ela com ceticism o. — Você está desej oso de ter um a m ulher e um a m ão-cheia de filhos. — Sorriu. — Não m e parece. Acho que tinha razão. Iria detestar. — Kate estava convicta do que dizia.
— Depende de quem for a m ulher. Mas não, não ando à procura. Encontrei a m ulher certa há m uito tem po, e fui suficientem ente idiota para a perder. — Eram palavras sim páticas, m as deixaram Kate pouco à vontade. Não valia a pena falar daquilo agora, nem ela queria. Mas ele continuou determ inado. — Estou falando sério, Kate. Fui um idiota, e quero que saiba isso.
— Oh, eu sabia! — respondeu ela com um a gargalhada — Só não pensei que você sabia. — Depois ficou m ais séria — Agradeço que tenha m e contado o que você sentiu, Joe. As coisas seguem o rum o que têm de seguir.
— Isso é um a treta, — exclam ou. — Seguem um certo rum o porque nós estragam os tudo, ou tem os m edo, ou som os estúpidos, ou sim plesm ente cegos. É preciso m uita inteligência e m uita coragem para fazer as coisas certas, Kate, e nem todas as pessoas o consegue. Às vezes levam os algum tem po para perceber e então é tarde dem ais. Mas tem os de rem ediar a situação se puderm os. Não podem os ficar parados e deixar as coisas estragadas, e dizer que seguiram o rum o que tinham de seguir. Só os idiotas fazem isso. — E sabiam am bos que ele não era idiota.
— Não se podem m udar algum as coisas — respondeu ela calm am ente. Com preendia o que ele dizia, m as não sabia se lhe agradava. Não valia a pena falarem do passado.
— Não m e deste tem po suficiente — queixou-se ele, olhando para os olhos de Kate que eram da cor dos dele. Pareciam a im agem no espelho um do outro. Kate e Joe eram tão parecidos num as coisas, e tão diam etralm ente opostos noutras. E era tudo tão perfeito quando funcionava.
— Depois de te deixar, esperei dois anos para casar — afirm ou ela. — Você teve todo o tem po do m undo para m udar de opinião e vir buscar-m e. E não o fez.
— Estava furioso. Tinha m edo. Andava m uito atarefado. Ainda não tinha percebido. Mas agora j á percebi — declarou, e ela sentiu o coração dar um salto quando viu a expressão dos olhos dele. Joe queria aquilo que haviam tido antes, m as que agora pertencia a outra pessoa. Era-lhe difícil aceitar isso. Queria sem pre aquilo que não podia ter. — Olha, Kate, eu percebi. Tenho um a vida excelente, construí um a em presa sólida, m as nada disso tem significado para m im sem você.
— Joe, é m elhor não falarm os m ais disto. Não vale a pena.
— Vale sim , Kate — disse ele, olhando-a nos olhos. — Am o-te. — E antes que ela pudesse dizer m ais algum a coisa, ele beij ou-a e abraçou-a. Kate sentiu que viaj ava para outro m undo com ele, que pairava no espaço, e m om entos depois aterrissou abruptam ente quando o repeliu.
— Joe, você tem de te ir em bora.
— Não vou até você m e convencer. Ainda m e am a? — Tinha de saber.
— Am o o m eu m arido — respondeu ela, desviando o rosto para ele não poder ver-lhe os olhos.
— Não foi isso que te perguntei — insistiu, olhando-a finalm ente nos olhos. — Perguntei se você ainda m e am a.
— Sem pre te am ei — respondeu com sinceridade. — Mas não está certo. E agora é im possível. Estou casada com outra pessoa. — Parecia estar sofrendo enquanto falava com ele. Não quisera que aquilo acontecesse. Convencera-se de que podiam ser am igos.
— Com o é que pode am ar-m e e estar casada com o Andy ? — perguntou Joe, bastante perturbado.
— Porque não pensei que você m e am ava, você não queria casar... — pensara no assunto cem , m il, um m ilhão de vezes. E era tarde dem ais.
— Então casou-se com o prim eiro cara que apareceu?
— É cruel da sua parte dizer isso. Esperei dois anos.
— Bom , eu levei m ais do que isso para entender. — Parecia um a criança, m as independentem ente do que dissesse, não im portava. O que im portava era o que ela sentira quando ele a beij ara, o que vira nos olhos dele quando ele a olhara, e o que ela sentira no seu íntim o. Continuava apaixonada por ele e continuaria para sem pre. Parecia que tinha sido condenada a prisão perpétua, e não havia nada que pudesse fazer.
— Não posso fazer isto ao Andy. Ele é o m eu m arido. Tem os um filho. — Levantou-se com um a expressão infeliz.
— Já não im porta o que aconteceu, o que dissem os ou fizem os e por que. Fizem o-lo, dissem o-lo. Eu fui-m e em bora e você quis que eu fosse. Se não quisesse, teria m e im pedido, teria im plorado para eu regressar. Foi a única coisa que quis durante dois longos anos, que você m e quisesse de volta. Você andava m uito ocupado com os seus aviões para se preocupar com isso. E eu tinha m uito m edo para arriscar ser engolida. E a verdade é que ainda te am o. Sem pre am arei. Mas é m uito tarde para nós. Sou casada com outra pessoa. Tenho de respeitar isso, m esm o que você não respeite. Olhou-o com um a expressão infeliz e levantou-se. — Você tem de ir em bora. Não posso fazer isto a m im própria nem ao Andy. Ele não o m erece e eu tam bém não.
— Você está castigando-m e porque não quis casar com você — disse ele levantando-se, e olhando-a arrependido.
— Estou castigando-m e porque sou casada com um hom em que m erece um a m ulher verdadeira, não alguém que sem pre esteve apaixonada por outro. Isso não está certo, Joe. Tem os de nos esquecer. Não sei com o o fazer, e Deus sabe o quanto tentei. Mas j uro que o farei, nem que isso m e m ate. Não posso estar casada com ele e apaixonada por você o resto da m inha vida.
— Então deixa-o.
— Am o-o, não faria um a coisa dessas. Acabam os de ter um filho.
— Quero-te de volta, Kate. — Disse-o com o um hom em habituado a conseguir o que queria, sem se contentar com m enos.
— Por quê? Porque sou casada com outro? Por que agora? Não sou um brinquedo, ou um avião, ou um a em presa que te pertença ou que queira com prar. Esperei dois m alditos anos enquanto todos diziam que você estava m orto em algum lugar na Alem anha. Estive sem pre à sua espera. Não passava de um a garota e não fui capaz de olhar para m ais ninguém . E sofri durante dois anos depois de ter m e dito que nunca iria querer casar. Por que agora? — perguntou Kate a chorando.
— Não sei. Só sei que você faz parte de m im . Não quero viver o resto da m inha vida sem você, Kate. Chegam os longe dem ais. Conhecem o-nos há dez anos e estam os apaixonados há nove.
— E depois? Você devia ter pensado nisso antes. É m uito tarde.
— Isso é ridículo. Você não o am a. É isso que quer para o resto da sua vida?
— Sim ! — exclam ou ela com firm eza, quando o bebê com eçou a chorar. — Você tem de ir em bora, Joe — im plorou ela chorando. Tenho de dar de m am ar ao bebê.
— Não tem de estar calm a para o fazer?
— Sim , m as é um pouco tarde para isso. — Ele aproxim ou-se dela e lim pou-lhe as lágrim as. — Não faça isso... por favor... — pediu ela chorando ainda m ais. Joe abraçou-a. Ela só queria estar com ele e não podia. Era um a peça cruel do destino ele querê-la de volta. Não podia abandonar Andy e levar o filho, por m uito que am asse Joe. Tam bém am ava Andy, m as de m aneira diferente.
— Desculpa... não devia ter vindo aqui esta noite. — Sentia-se cheio de rem orsos por tê-la posto naquele estado.
— A culpa não é sua — adm itiu ela, lim pando os olhos. — Eu tam bém queria vê-lo. Foi tão bom te-lo encontrado no outro dia, e ter estado com você... Oh, Joe... o que vam os fazer? — perguntou ela abraçando-o. — Estavam perdidos, e m uito apaixonados.
— Não sei, havem os de pensar em algum a coisa — disse ele, abraçando-a e beij ando-a. Kate só queria estar com ele. Afastou-o então para ir buscar o bebê e deitou-o no sofá entre am bos. Era um bebê bonito e Joe olhou para ele em silêncio e depois para Kate. — Vai correr tudo bem , Kate. Talvez possam os ver-nos de vez em quando.
— E depois? Vam os sem pre desej ar estar j untos. Isso não é vida.
— É tudo o que tem os por agora. Talvez sej a suficiente.
Mas Kate sabia que não o seria por m uito tem po. Haviam sem pre de querer m ais do que m om entos roubados e de saber que se am avam e não podiam estar j untos. Parecia a Kate um a vida de tortura. Joe olhou então para ela. Viu-a atorm entada e infeliz.
— Você quer que eu vá em bora ou que espere até ter lhe dado de m am ar?
Ela sabia que ele devia ir em bora, m as não queria que partisse. Não sabia quando nem se voltaria a vê-lo.
— Se quiser pode esperar.
Foi para o outro quarto enquanto ele ficava vendo televisão, e quando voltou Joe tinha adorm ecido no sofá. Tivera um dia longo e a noite fora bastante em otiva para am bos. Kate estava m ais calm a depois de ter dado peito a Reed, e este dorm ia profundam ente no berço.
Kate sentou-se e observou Joe durante algum tem po, tocou-lhe no cabelo e afagou-lhe o rosto. Era tudo tão fam iliar. Ele pertencera-lhe durante tantos anos, e ela a ele. Tinham tanta história em com um ; isso era um elo m uito forte. Ficou em silêncio observando-o durante bastante tem po até que ele acordou.
— Am o-te, Kate — m urm urou ele, e ela sorriu.
— Não am a, não. Eu não deixo — respondeu ela tam bém num m urm úrio, e ele beij ou-a. Deitaram -se no sofá e beij aram -se durante m uito tem po. Era um a situação im possível com um hom em im possível. — Você tem de ir em bora — sussurrou ela. Ele assentiu, m as não se m exeu dali, e beij ou-a um a e outra vez. Passado algum tem po, ela j á não queria saber se ele se ia em bora ou não, queria que ele ficasse. Desej ou não o ter abandonado, não queria m agoar Andy nem o filho... não queria que nada daquilo acontecesse, m as a força que os unia era m ais forte do que eles. Joe pegou-a no colo e deitou-a na cam a. Sabia que devia dizer-lhe para ir em bora, m as não foi capaz. Em vez disso, deixou-o despi-la tal com o fizera m uitas vezes. Joe despiu-se tam bém . Fizeram am or com todo o desej o que os atorm entara durante três anos e depois caíram num sono profundo e tranquilo nos braços um do outro.