A Águia Solitária

Danielle Steel · Capítulo 20 de 25

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A Águia Solitária

Capítulo 19

 

Os prim eiros dias do casam ento de Joe e Kate foram m uito felizes e exatam ente aquilo que tinham esperado. Andavam felizes e atarefados. Ela contratou um a am a para a aj udar a cuidar dos filhos, a fim de poder ter tem po livre para Joe. Ia vê-lo no escritório, aconselhava-o relativam ente a alguns proj etos. Voavam j untos ao fim de sem ana e quando Joe voltava para casa à noite brincava com as crianças. Em j aneiro foi para a Califórnia com ele e ficou im pressionada com o que ele tinha lá. Até o acom panhou à Nevada e viu-o fazer os voos de ensaio. Depois ele levou-a num avião e fizeram um parafuso. Ela adorava todas as loucuras dele. E o m elhor de tudo era que Joe lhe pertencia.

— Ainda bem que não casei com a Mary — disse ele com um sorriso após um voo particularm ente ousado sobre o deserto. Espantara Kate com um a série de loopings e rotações. Ela sem pre adorara fazer aquilo com ele. Dizia que era m elhor do que a m ontanha-russa, e nada do que ele fazia, por m uito assustador que fosse, a punha enj oada. Adorava voar com ele, fizesse ele o que fizesse, em bora ela própria j á não pilotasse. Passara m uito tem po.

— Provavelm ente ela cozinha m elhor do que eu — respondeu Kate alegrem ente ao sair do cockpit.

— Lá isso é verdade. Mas ter-m e-ia vom itado todo depois deste voo.

Mary recusara-se term inantem ente a subir a bordo de um avião com ele e nem sequer gostava de o ouvir contar o que fizera. Joe percebera j á na época que ficar noivo dela fora um a grande asneira, m as sentira-se aborrecido e sozinho quando Kate ficara com Andy e quisera provar a si m esm o que era capaz de viver com outra pessoa. No entanto, a única m ulher que ele realm ente am ava era Kate.

Na opinião dele, Kate salvara-o de um destino pior do que a m orte se tivesse decidido casar-se, m as duvidava que tivesse chegado a tanto. Kate era perfeita para ele em todos os aspectos. Adorava voar, am ava-o, adorava os aviões dele.

E acrescentava algo à sua vida que, sem ela, não existia. Era um a m ulher travessa com um espírito infantil e divertido. Confiava nele e am ava-o. Ficava séria quando ele queria que ela ficasse, era m ais inteligente do que qualquer outra m ulher que ele conhecera, e até do que m uitos hom ens. Am ava-o m ais do que à própria vida, e ele am ava-a. Tinham tudo. E form avam um casal tão atraente que onde quer que fossem as pessoas paravam para os contem plar. Todos sabiam quem ele era, e o seu estilo calm o e poderoso com binava na perfeição com a perspicácia, o encanto e a postura dela.

Kate e os filhos m udaram -se para o apartam ento de Joe um m ês depois do casam ento, j untam ente com a cadelinha. Havia espaço para todos, até para a am a das crianças. E, aos poucos, ela foi acrescentando coisas bonitas ao apartam ento, toques fem ininos que tornaram o espaço m ais acolhedor. Até j á falavam em com prar um a vivenda.

Falavam sobre m uitas coisas. Nada era tabu para am bos. Ele até trouxe à baila a “tentativa de suicídio” dela. Isso atorm entava-o desde que Andy lhe contara havia dois anos. Joe disse-lhe que lam entava m uito. Kate escutava-o com perplexidade.

— Do que é que você está falando? — perguntou, intrigada.

— Está tudo bem , Kate, eu sei — respondeu Joe. Mas não lhe disse com o soubera. Nunca lhe contara que Andy o fora visitar naquele dia. Achava que ela não precisava saber.

— Você sabe o quê? — insistiu Kate ainda confusa, e Joe achou que ela estava sendo reservada.

— Que você tentou m atar-se depois de nos term os afastado da últim a vez. — Quase perdoara isso a si próprio, m as continuava tentando com pensar Kate. Sentira-se cheio de rem orsos durante os últim os dois anos.

— Você está m aluco? Eu era louca por você, m as não a esse ponto. O que raio te fez pensar que eu tentei m atar-m e? — A expressão dela fê-lo estacar.

— Você está dizendo-m e que nunca tentou suicidar-te, Kate. — Ela não sabia se ele estava irritado ou aliviado, nem ele próprio sabia.

— É precisam ente isso que estou dizendo. É a coisa m ais noj enta que j á ouvi. Com o é que você pode pensar que eu fui capaz de fazer algo assim ? Am o-te, Joe, m as nunca perdi o j uízo. Isso é um ato terrível. — Ela sabia-o bem . Joe tinha um a expressão assustadora.

— Algum a vez você foi a um psiquiatra?

— Não — respondeu ela. — Acha que eu devia?

— Aquele filho da m ãe! — exclam ou ele levantando-se furioso da cadeira e com eçando a andar de um lado para o outro.

— Do que é que você está falando? — O que ele dissera não fazia sentido para Kate, m as tudo fazia sentido para Joe agora.

— Estou falando daquele estuporzinho noj ento com quem você esteve casada. Nem sei com o hei de contar-te o que ele fez, nem com o fui um idiota. — Sentia ainda m ais rem orsos naquele m om ento por ter acreditado em Andy, em bora com preendesse perfeitam ente o que ele fizera e o m otivo. Aproveitara-se de todos os velhos m edos de Joe e este ficou doente só de pensar com que facilidade m ordera a isca e puxara a linha. Isso custara-lhe, e a Kate, m ais dois anos.

— Você está dizendo que o Andy te contou que eu tentei m atar-m e? — perguntou ela, olhando para Joe com incredulidade. — E você acreditou nele? Estava espantada e m agoada.

— Acho que na época estávam os um pouco loucos. Foi logo após você ter-lhe dito dito que queria o divórcio e ele recusou deixa-la partir. Você foi ao m eu escritório dizer-m e que ele não te daria o divórcio e no dia seguinte ele apareceu. Detesto adm itir isto, m as ele m anipulou-m e na perfeição. Disse-m e que você estava desesperada e insegura, que era m uito instável, que tinha tentado m atar-se depois de term os rom pido e m eteu-m e tanto m edo que receei em purrar você de novo para o suicídio se com etesse algum erro ou voltasse a m agoar-te. Disse-m e que Você estava consultando um psiquiatra várias vezes por sem ana e eu com ecei a pensar que se você voltasse a sentir-se abandonada podia tentar novam ente. Não quis correr esse risco. — E tam bém sentia m edo de tudo o que Andy lhe contara, incluindo o pânico que ela tinha de ser abandonada, e o fato de querer ter m ais filhos.

— Porque você não m e perguntou? — retorquiu ela espantada.

— Não queria perturbar-te m ais do que j á estavas e levar-te a fazer algo que você não devia. Mas agora percebo o que ele fez, o estupor! Manipulou-m e na perfeição. Sabia os rem orsos que eu iria sentir ao pensar que você tinha tentado m atar-se por m inha causa e o m eu m edo de que tornasse a fazê-lo.

Kate tam bém entendia e isso fê-la odiar Andy m ais do que nunca. Ele usara tudo o que ela lhe contara para m anipular Joe. Fora um gesto m uito cruel, em bora ela soubesse que na época Andy lutara pela sua vida e tentara não perder a fam ília. Mas fora Andy quem afastara Joe. Era um m ilagre terem voltado a encontrar-se.

— Ele fez com que tudo parecesse tão real! Fiquei m uito abalado na época para questionar o que ele dissera, ou para desconfiar dele. O Andy descreveu-m e algo que eu sabia ser incapaz de suportar. Senti-m e culpado durante vários m eses só de pensar nisso.

— Com o é que ele foi capaz de fazer um a coisa dessas! — Ocorreu a Kate que ele devia ter-lhe contado m ais qualquer coisa, algo que tivesse dado credibilidade às m entiras. Havia um a coisa que ela nunca contara a Joe, e perguntou a si m esm a naquele m om ento se ele saberia. Olhou para ele m uito quieta e só viu am or nos olhos dele. — Ele tam bém te falou do m eu pai? — Detestava falar daquele assunto, e nunca o fizera antes. Contudo, não existia nada que não pudesse contar a Joe. Sabia que com ele estava em segurança.

— O Clarke contou-m e antes de eu te pedir em casam ento em Cape Cod. Achou que eu devia saber — respondeu Joe com m eiguice, pegando-lhe na m ão e puxando-a para si. — Desculpa, Kate. Deve ter sido terrível para você.

— E foi, — disse ela com lágrim as nos olhos. — Lem bro-m e tão bem desse dia... lem bro-m e de tudo. O m ais engraçado é que m e lem bro pouco dele. Devia lem brar-m e, m as não lem bro. Tinha oito anos quando ele m orreu, m as ele afastara-se de todos dois anos antes — continuou com um a expressão triste. Fora o m aior traum a da sua vida, para além de ter perdido Joe. — Tam bém deve ter sido horrível para a m inha m ãe, em bora ela nunca fale do assunto. Devia ter falado. Sei pouco a respeito dele, apenas o que Clarke conta: que ele era um bom hom em .

— Era com certeza. — Joe percebeu o quanto aquele assunto ainda era delicado para Kate. Era a raiz e o centro de todos os m edos dela, o m edo da perda, da dor e do abandono. Inadvertidam ente, o pai causara-lhe isso tudo. Mas agora Kate estava feliz e em paz com Joe. Encontrara finalm ente um bom porto de abrigo.

— Ainda bem que você sabe — disse ela baixinho. Fora o único segredo que guardara dele.

E nessa noite, quando foram para a cam a, falaram novam ente da traição de Andy. Kate ficara horrorizada, e m ais ainda com o fato de Joe ter acreditado no que ele dissera; ao aproveitar-se da culpa e da fragilidade de Joe de form a tão brilhante, Andy conseguira afastá-lo. Concordavam que era um gesto desprezível, m as engenhoso. Kate não o j ulgara capaz de algo tão m esquinho, e isso dizia-lhe m uito a respeito do caráter dele. Queria pensar um pouco m ais no assunto e sabia que um dia o confrontaria. No fim , depois de ter usado todos os truques que sabia, Andy acabara por perdê-la da m esm a form a. E ela voltara a encontrar o cam inho de retorno até Joe e sentia-se diariam ente grata pela bondade do destino.

Durante a prim avera, Joe com eçou a passar m ais tem po na Califórnia. Precisava aí de um a base m aior para a sua com panhia de aviação. No verão, passava m etade dos m eses em Los Angeles e quis que Kate estivesse lá tam bém . Ela levou os filhos e a am a e instalaram -se no Hotel Beverly Hills. No início ela gostou bastante, foi às com pras, brincou com os filhos e observou as estrelas de cinem a j unto à piscina. Joe estava constantem ente no escritório, retornava ao hotel quase sem pre depois da m eia-noite e saía às seis da m anhã. Estava tentando estender a operação até ao Pacífico e queria estabelecer novas rotas onde nunca haviam existido. Era um a tarefa m onstruosa estabelecer num erosas bases além -m ar e planej ar a logística de um a com panhia de aviação que com eçara a tornar-se um a das m ais im portantes do m undo.

Em setem bro, Joe passou m uito tem po em Hong Kong e no Japão. Concordaram que era m uito distante para Kate o visitar, e ela detestava ter de abandonar os filhos durante várias sem anas. Tam bém não fazia sentido ficar em Los Angeles no hotel à espera que ele voltasse. Por isso foi para Nova Iorque. Ele ligava todas as noites, estivesse onde estivesse, e contava-lhe o que estava acontecendo. E tanto quanto ela entendia, Joe fazia m ilhares de coisas ao m esm o tem po. Dirigia Nova Iorque, estendia-se para o Oriente, desenhava aviões, dirigia um a com panhia de aviação e fazia voos de ensaio sem pre que podia. Claro que andava frenético, e m esm o quando ligava para Kate soava tenso. Apesar das pessoas com petentes que tinha trabalhando com ele, agia com o se estivesse sozinho. E queixava-se constantem ente de que não tinha tem po para pilotar os seus aviões, nem para ver a m ulher. Quando voltou para casa em outubro tinha estado ausente durante quatro sem anas e Kate com entou que quase nunca o via.

— O que quer que eu faça, Kate? Não posso estar em quatro lugares ao m esm o tem po. — Estivera em Tóquio por duas sem anas, fechando negócios e estabelecendo rotas, um a sem ana em Hong Kong, batalhando com os Britânicos, e cinco dias em Los Angeles. E um dos seus m elhores pilotos caíra pouco antes, sem razão aparente, num avião que Joe tinha verificado pessoalm ente pouco antes. Joe fora a Reno um a noite inspecionar os destroços e visitar a viúva, e quando chegou a Nova Iorque estava m eio m orto.

— Porque você não tenta dirigir as coisas a partir daqui? — perguntou Kate.

Era com plicado.

— Com o posso fazer isso? — perguntou ele exasperado. Andava com pouca paciência. Sentia-se cansado, andava sem pre correndo, sem pre a bordo de um avião a cam inho de algum lugar. Kate sentia-se aborrecida em casa e ansiosa sem pre que ele estava fora. As prolongadas ausências de Joe com eçavam a fazer-lhe m uita falta. Sabia que o m arido a am ava, m as sentia-se m uito sozinha quando ele estava fora. — Com o é que quer que eu fique sentado aqui num gabinete quando tenho funcionários por todo o m undo? Porque você não faz algo para se m anter ocupada? Volta a trabalhar para a Cruz Verm elha, ou algo parecido. Brinca com os pequenos. — Andava m uito cansado para enfrentar o assunto e a m aior parte das vezes rej eitava-o. Quando viaj ava, estava sem pre irritado e com pouca paciência. Kate, com trinta anos, estava casada com um hom em que am ava e passava a m aior parte do tem po sozinha.

Ia a festas sem ele, passava finais de sem ana fora com os filhos, deitava-se sozinha à noite e tinha de explicar às pessoas que os queriam ver que o m arido não estaria presente. Nova Iorque inteira desej ava convidar os Allbright; Joe tornara-se um dos hom ens m ais im portantes da aviação em apenas oito anos e só tinha quarenta e dois de idade. Conseguira obter tudo sozinho e era não só adm irado pelas suas qualidades com o piloto, m as tam bém pelo seu j eito para o negócio. Tudo aquilo em que Joe tocava se transform ava em ouro. Mas o dinheiro que ele ganhava não aquecia Kate à noite. Ela sentia saudades de Joe, m ais saudades do que nunca. E as ausências dele faziam surgir velhos fantasm as. Mas Joe não percebia isso. Só reparava que ela se queixava das suas ausências assim que ele chegava em casa, o que o fazia retrair-se, e deixava Kate ainda m ais nervosa. Ela precisava dele e tinha dificuldade em encontrá-lo.

— Porque você não vem com igo? — sugeriu ele. — Você iria adorar. —Há anos que ela não ia a Tóquio; estivera lá quando criança com os pais. Joe levara-a a Hong Kong. — Você pode ir às com pras, a m useus ou tem plos, ou a algo parecido — disse ele, tentando criar um com prom isso que funcionasse para am bos. No entanto, sabiam que m esm o que ela fosse não o veria m uito. Ele trabalhava constantem ente quando estava fora, tal com o em casa.

— Não posso deixar as crianças durante sem anas a fio, Joe. Ainda são pequenas.

— Traga-as — respondeu ele.

— Para Tóquio? — perguntou, horrorizada.

— Há crianças no Japão, Kate. Juro. Vi um a, um a vez. Confia em m im .

Mas era m uito distante. E se os filhos adoecessem enquanto estivessem lá? Não poderia falar com o m édico. E de que valeria estarem todos no hotel à espera que Joe aparecesse? Fazia m ais sentido esperar por ele em casa.

Por época do Dia de Ação de Graças, Joe encontrava-se na Europa e Kate foi para a casa dos pais com os filhos. Ele telefonou-lhe de Londres e falou com Clarke e Liz. O pai dela queria saber tudo o que ele andava fazendo. E Liz fez um com entário sobre ele nessa noite que enervou Kate m ais do que ela gostaria de adm itir.

— Ele algum a vez está em casa, Kate?

Nem agora Liz aprovava aquele casam ento. Sem pre desconfiara que Joe destruíra o casam ento de Kate com Andy e culpava-o por isso, m ais ainda do que à filha. Na sua opinião, fora um ato terrível e em bora tivesse casado com ela, Joe nunca andava por perto.

— Ele passa pouco tem po em casa, m ãe. Mas está construindo algo extraordinário. Dentro de um ou dois anos irá assentar. — Kate tinha a certeza disso.

— Com o é que você sabe. Antes eram os aviões. Agora é a em presa e os aviões. Quando é que ele está com você? — Nas horas e nos dias entre viagens, pensou Kate em silêncio, quando ele estava cansado até para conversar, ou exausto para dorm ir, por isso ia até ao escritório às quatro da m anhã. Naquela época j á não faziam am or há cerca de dois m eses, ele andava m uito cansado para pensar nisso durante os poucos dias em que dorm ia em casa. Queria fazer am or, queria tudo, queria estar com ela, ter noites sensuais e m anhãs sonolentas, m as j á não havia tem po. Havia m il forças a puxá-lo. — É m elhor olhar bem para aquilo que você tem , Kate. Um m arido que nunca vai estar presente, aconteça o que acontecer. Não consegue. E o que acha você que ele faz naquelas viagens? Deve ter um a m ulher em algum lugar, é um hom em .

Kate sofria só de pensar nisso, e sem pre disse a si própria que tal não era verdade. Isso j á lhe ocorrera, m as ela decidira rej eitar a idéia. Era im pelido pela sua paixão pelos aviões e a sua obsessão pelo trabalho. Estava construindo um a fortuna e um im pério, o que para ele era tão viciante com o um a droga. Tinha quase certeza que durante aquele ano de casam ento ele nunca a traíra e ela seria incapaz de o fazer.

Mas o que a m ãe lhe disse deixou as suas m arcas. Ele nunca estava por perto. Fossem quais fossem as razões, boas ou não, nunca se encontrava em casa. Quando ia lá, havia papéis e problem as e am eaças dos sindicatos. Passava o tem po ao telefone com a Califórnia, com a Europa, com Tóquio, com a Casa Branca ou com Charles Lindbergh. Era sem pre alguém ou algo que lhe consum ia o tem po e parecia ser m ais im portante do que Kate. Ela tinha de ficar na fila com o todas as pessoas e, na m aior parte das vezes, ficava por últim o. Era assim que as coisas funcionavam . E se ela queria ter um a vida com ele, e disso não havia dúvidas, não conseguiria obter m ais nada. Ele não podia dividir-se m ais e esperava que ela com preendesse. E na m aior parte das vezes Kate com preendia. Am ava-o e adm irava o seu êxito. Mas m esm o assim sentia-se m agoada. Joe não com preendia a solidão dela. E em bora Kate tentasse relativizar as coisas, por vezes sentia-se abandonada quando ele partia.

Tentou explicar-lhe tudo isso calm am ente num a tarde em que ele estava em casa. Foi na sem ana a seguir ao Dia de Ação de Graças e Joe assistia a um j ogo de futebol na televisão. Chegara em casa de m anhã e não pregara olho durante a noite. Estava olhando para a televisão, bebendo um a cervej a e descontraindo, o que raram ente podia fazer.

— Por am or de Deus, Kate, não com ece outra vez com isso. Acabei de chegar em casa. Sei que estive fora três sem anas e não fui na casa dos seus pais, m as os Britânicos estavam quase cancelando-m e as rotas! — Parecia arrasado e tinha um a enorm e necessidade de descontrair sem pressões da parte dela.

— Não pode ser outra pessoa a negociar com eles de vez em quando?

Joe com eçava a tornar-se egocêntrico, tinha de fazer tudo ele próprio. A verdade era que construíra aquele im pério e fazia-o m elhor do que ninguém . Quando tom ava as coisas nas m ãos, elas corriam bem . Não tinha vontade de correr o risco que alguém destruísse o que ele construíra.

— Kate, eu sou assim . Se quer alguém que passe o tem po sentado aos seus pés, com pra outro cão. — Bateu com a cervej a na m esa, entornando-a para o chão.

Kate não fez m enção de a lim par. Estava à beira das lágrim as. Queria que ele com preendesse o que estava dizendo-lhe, m as ele não queria ouvir.

— Você não entende, Joe? Quero estar com você. Am o-te. Eu percebo. Sei aquilo que tem de fazer, m as isto é difícil para m im . — Mais difícil do que ele pensava. Mas quanto m ais ela tentava aproxim ar-se, m ais ele se afastava. Kate fazia-o sentir-se de novo culpado. Era o nem esis dele. A única coisa que não podia tolerar a ninguém .

— Por quê? Por que não aceita o fato de eu estar fazendo algo im portante pela m inha vida? Não o faço só por m im , faço-o tam bém por você. Adoro aquilo que estou construindo. O m undo precisa disso. — Tinha razão, m as Kate tam bém precisava dele. — Não quero chegar e casa e ter você sem pre m assacrando-m e. Não é j usto. Você devia aproveitar os m om entos em que estou em casa.

À sua m aneira, Joe pedia-lhe que não o repreendesse. Isso doía m uito. Contudo, Kate não conseguia com preender isso tal com o ele não com preendia o quanto ela se sentia abandonada. O círculo vicioso de há alguns anos recom eçara.

Não valia a pena discutir com ele, nem havia form a de equilibrar o êxito profissional e as pressões com o que ela queria do m arido. Um deles tinha de ceder, e Kate sabia que teria de ser ela. As coisas eram m esm o assim , m as sofria m uito, especialm ente quando pensava que ele estava afastando-se dela. Isso deixava-a em pânico.

Em dezem bro ele passou ainda m enos tem po em casa. Regressara a Hong Kong para se encontrar com os banqueiros, e eles não estavam facilitando-lhe as coisas. Depois disso tinha ainda de passar pela Califórnia, havia problem as na fábrica e o m otor de um dos últim os m odelos dele falhara. Morrera outro piloto e Joe culpava-se por isso. Estava certo de que daquela vez fora um erro de designer. Jurara a Kate que, custasse o que custasse, passaria o Natal em casa. Ela esperava-o. Joe até lhe dissera que se fosse necessário não iria à Califórnia e que voltaria lá depois das festividades. Prom etera-lhe que na véspera de Natal estaria em casa.

O telefone tocou nessa m anhã enquanto ela estava decorando a árvore com Reed. O m enino gritava de excitação e Kate cantarolava. Falara com Hazel, a secretária de Joe, depois do café da m anhã, e em bora não tivesse obtido confirm ação, tinha certeza de que ele vinha no voo. Joe dissera-lhe na véspera que era isso que pretendia fazer.

Kate foi atender e era Joe. Percebeu de im ediato que era um a cham ada interurbana. A telefonista estabeleceu a ligação e Kate m al o ouvia. Ele gritava para o bocal.

— O quê? Onde você está? — perguntou ela tam bém aos gritos.

— Continuo no Japão.

Kate sentiu um aperto no coração.

— Por quê?

— Perdi o avião. — Havia estática e interferências na linha, m as se tentasse não chorar, Kate conseguia ouvi-lo m elhor. — Reuniões... tive de ir a m ais reuniões... a situação está bastante difícil. — Kate tinha lágrim as nos olhos e sabia que devia dizer qualquer coisa, m as não foi capaz. — Desculpa, querida... volto para casa daqui a alguns dias... Kate?... Kate?... Você está aí? Consegue ouvir-m e?

— Consigo — respondeu ela, lim pando os olhos. — Tenho saudades suas... quando você volta?

— Talvez dentro de dois dias. — O que provavelm ente significava três, quatro ou cinco. Levava sem pre m ais tem po do que o planej ado, em bora a culpa não fosse dele. Tentava fazer tudo ao m esm o tem po.

— Vej o-te quando você voltar — disse ela, tentando não soar aborrecida. Sabia o quanto ele detestava isso. E àquela distância, não valia a pena discutir. Não m udaria nada. Kate não tinha vontade de o repreender nem de o afastar ainda m ais. Desej ava m uito ser um a boa m ulher para Joe, custasse o que custasse.

— Feliz Natal... dá um beij o nas crianças. — Ouvia-se cada vez m enos a voz dele.

— Am o-te! — gritou ela, esperando que ele conseguisse ouvi-la. — Feliz Natal!... Am o-te, Joe! — Mas a cham ada caíra. E enquanto Reed a observava perto da árvore de Natal, ela sentou-se num a cadeira e com eçou a chorar.

— Não fique triste, m am ã! — pediu ele aproxim ando-se e sentando-se no colo dela. Kate abraçou-o. Não estava zangada, apenas m uito decepcionada. Sabia que a culpa não devia ser de Joe, m as custava m esm o assim . Ele não estaria em casa no Natal e ela obrigou-se a recordar o que sentira quando o avião dele fora abatido durante a guerra. Julgara-o m orto.

Agora pelo m enos sabia que ele voltaria. Pousou Reed no chão e foi assoar-se. Nada podia fazer para alterar aquela situação. Tinham de tirar o m aior partido dela e com em orar o Natal com Joe quando ele retornasse para casa. Kate estava decidida a não deixar que ele percebesse o quanto ficara aborrecida.

O Natal foi tranquilo sem Joe. Ela e os filhos abriram os presentes. Os pais tinham -lhe m andado o seu e havia alguns de am igos. Ela calculou acertadam ente que Joe não tivera tem po para ir às com pras. Mas não im portava. O único presente que queria era Joe.

Andy foi buscar Reed no dia do Natal para passar com ele algum as horas e estava com um a cara m uito séria. Kate acabara de saber que ele ia casar e ficara feliz por ele. Esperava que daquela vez ele fizesse a escolha certa. Ela não a fora para ele. E em bora as coisas não fossem fáceis com Joe, achava m elhor estar casada com um a pessoa que realm ente am ava, independentem ente dos problem as.

— Olá, Kate — cum prim entou Andy da porta, um pouco atrapalhado. Tratavam -se com cortesia desde o divórcio, m as não haviam voltado a aproxim ar-se. Kate confrontara-o finalm ente com as m entiras que ele contara a Joe a seu respeito, e Andy pedira desculpa e adm itira que fora um gesto cruel. Ficara bastante atrapalhado.

Kate sabia que ele ainda visitava os seus pais sem pre que ia a Boston, m as não se im portava. Afinal de contas, era o pai dos seus filhos e Liz e Clarke sem pre haviam gostado dele. Haviam lam entado o divórcio. Fora Liz que dissera a Kate que Andy ia casar-se. Nam orava um a garota há um ano, o que Kate achava razoável.

— Feliz Natal — disse Kate, convidando-o a entrar. Quando ele recusou, ela acrescentou: — Não há problem a. O Joe não está aqui. Está fora.

— No Natal? — perguntou Andy chocado, entrando para o vestíbulo do apartam ento que era de Joe j á antes de ele casar com Kate. — Lam ento, Kate. Deve ser difícil para você.

— Não é fantástico, m as ele não pôde evitá-lo. Ficou retido no Japão. — Tentou aligeirar as coisas.

— Ele é um hom em m uito ocupado — observou Andy.

Nesse m om ento, Reed apareceu, deu um gritinho e Stephanie seguia-o engatinhando. Ela iria ficar em casa com a m ãe.

— Ouvi dizer que você vai casar — disse ela quando Reed foi buscar o casaco. Não sabia se Andy j á com entara isso com o filho, pois este não lhe havia dito nada.

— Só em j unho. Não tenho pressa. — Sorriram . Ele não quis acrescentar “Para não com eter outro erro”, m as Kate adivinhou o que lhe ia na m ente.

— Espero que você sej a feliz. Merece-o — disse quando Reed reapareceu com o casaco e o gorro vestidos, as luvas calçadas, e pegou na m ão do pai.

— Você tam bém . Feliz Natal, Kate — disse Andy, indo-se em bora. Traria Reed de volta às oito da noite. Ela foi brincar com Stephanie.

Fora um dia de grande solidão para Kate. Tentou ligar para o hotel de Joe, m as não conseguiu. E provavelm ente ele teve o m esm o problem a ou passou o tem po todo em reuniões porque não lhe telefonou. Restava-lhe apenas dizer a si própria que não tinha im portância. Teriam o Natal do ano seguinte. Às vezes as coisas eram assim , e Kate sabia que tinha de reagir com o um a adulta. Contudo, quase chorou quando os pais telefonaram e lhes assegurou que estava bem .

Só dois dias depois teve notícias de Joe. Ele ligou-lhe dizendo que iria sair de Tóquio no dia seguinte e que pararia em Los Angeles.

— Pensei que tinha m e dito que iria para lá depois — observou, tentando m anter um tom neutro, m as não conseguindo. Joe estava sem pre m udando de idéia e desiludindo-a. O tom de Kate não o enganou.

— Não posso. Tenho de ir agora. Os sindicatos estão intervindo. Para além disso, não é correto, Kate. Há um a viúva que perdeu o m arido por causa de um dos m eus aviões. Acho que lhe devo um a visita de cortesia. É o m ínim o que posso fazer. — Kate não discordou, ele tinha sem pre bons m otivos, m as teve de conter-se para não gritar: “Então e eu?” Parecia sem pre ser a últim a prioridade na lista dele, em bora com preendesse o quanto ele tinha para fazer. No entanto, Joe acabara de estar ausente no Natal e ela queria-o de volta em casa.

— Quando é que você volta? — perguntou com voz cansada.

— Na véspera de Ano Novo. — Talvez. Se em Los Angeles não acontecesse nada que o retivesse. Kate j á não contava com ele. Tinham com binado ir j antar e dançar com uns am igos na passagem do ano e ela estava desej osa de que chegasse essa noite. Mas se Joe não retornasse a tem po, ela teria de ficar em casa com os filhos. Não queria ficar sozinha na com panhia de outros casais.

Ele retornou no dia 31 e com eçou a nevar em Nova Iorque antes de ele partir de Los Angeles. O tem po foi piorando e o avião chegou atrasado. Joe entrou em casa às nove da noite, exausto. Pilotara ele próprio o avião da com panhia. Não confiava em m ais ninguém com o tem po assim . Kate j á despira o vestido e aguardava-o na cam a, com um livro. Não o ouviu entrar e, de súbito, ali estava ele ao pé da cam a, olhando-a envergonhado. Mas a expressão dos seus olhos fê-la derreter-se. Joe era irresistível para ela, sem pre fora.

— Ainda m oro aqui, Kate? — Joe sabia que as últim as sem anas tinham sido m uito difíceis para ela.

— Acho que sim — respondeu, sorrindo-lhe quando ele se sentou ao seu lado. — Você está com um ótim o aspecto.

— Desculpa, querida. Estraguei-te esta data festiva. Queria m esm o voltar para casa. Lam ento ser tão idiota. Você quer sair? — Ela teve um a idéia m elhor, e levantou-se para fechar a porta do quarto. Joe despira o casaco e estava tirando a gravata quando ela se aproxim ou e com eçou a desabotoar-lhe a cam isa. — Você quer que eu m e vista? Estava disposto a fazer tudo o que ela quisesse para a com pensar.

— Não — respondeu Kate, abrindo-lhe a braguilha das calças.

Joe sorriu.

— Isto parece sério — disse ele, beij ando-a.

— E é. É o preço que você vai ter de pagar por ter m e deixado ficar sozinha no Natal — brincou enquanto o beij ava. Apesar de Joe estar exausto, conseguiu excitá-lo im ediatam ente.

— Se m e você tivesse falado disto eu teria voltado para casa m uito m ais cedo — m urm urou, m etendo-se na cam a com ela.

— Estou sem pre aqui à sua disposição, Joe — disse Kate beij ando-o nos lugares que ele m ais gostava.

Joe gem eu.

— Para a próxim a, lem bra-m e — disse ele e abandonaram -se nos braços um do outro. Foi a passagem de ano perfeita.