A Águia Solitária
Capítulo 21
Joe passou a m aior parte do m ês de fevereiro no Oriente e na Califórnia e Kate foi de avião encontra-lo em Los Angeles no final do m ês. Ele estava m uito anim ado quando chegou, a viagem correra bem e alcançara m uitos dos seus obj etivos. Quando viu Kate ficou adm irado ao reparar que ela ganhara peso.
— Você engordou — brincou ele.
— Muito obrigada! — Estava feliz por voltar a vê-lo, tudo corria bem . Continuou sem dizer a Joe que o m édico achava que iriam ter gêm eos.
Joe nunca a vira durante as gravidezes e por vezes sentia-se pouco à vontade j unto dela. Tinha m edo que ela voltasse a desm aiar, que não se sentisse bem ou que se m achucasse. Tam bém se sentia pouco à vontade ao fazer am or. Kate ria.
— Não há problem a, Joe, eu estou bem . — Ele não queria que ela dirigisse, repreendia-a quando ela dançava e achava que tam bém não devia nadar. — Não vou passar os próxim os seis m eses na cam a.
— Você vai sim , se eu te m andar. — Mas apesar dos receios dele, fizeram am or m ais vezes do que o costum e. A viagem a Los Angeles foi um a espécie de lua-de-m el. Apesar do bebê, ou talvez por causa dele, Joe sentia-se estranham ente próxim o de Kate.
Ele ficou duas sem anas em Nova Iorque quando retornaram e em seguida voltou a partir. Kate com eçava a habituar-se às ausências dele, m antinha-se ocupada com os filhos e visitava as am igas. A gravidez anim ara-a. Ansiava pelo nascim ento do bebê, que estava previsto para o fim de agosto, ou talvez m ais cedo, se fossem gêm eos. O m édico prevenira-a de que talvez tivesse de passar os últim os dois m eses na cam a. Mas até agora, apesar do tam anho dela, ele não ouvira dois corações, apenas um .
O filho de Andy nasceu em m arço. Kate m andou-lhes um a lem brança com um bilhete, desej ando-lhes as m aiores felicidades. Ele tinha um ar feliz a cada vez que ia buscar os filhos. Parecia que o tem po que tinham vivido j untos nunca existira. Era com o se Andy fosse um a pessoa que ela conhecera há m uito tem po. As m elhores recordações eram da época em que haviam sido am igos. O casam ento fora um a experiência dolorosa para am bos.
Joe encontrava-se em Paris quando Andy telefonou a Kate no final de um a sexta-feira de abril. Tinha ficado de ir buscar Reed e levá-lo durante o fim de sem ana para a casa no Connecticut, m as estava com bastante trabalho. A m ulher e o bebê encontravam -se um pouco adoentados, pelo que ela tam bém não podia ir buscar Reed.
— Talvez você possa coloca-lo no trem , Kate. A Julie pode ir buscá-lo em Greenwich. Não vou chegar m uito tarde em casa.
Ela não achava que isso fosse um a boa idéia, e Reed ficou triste por não ir. Adorava ir a Greenwich visitá-los. Kate telefonou a Andy depois de ter falado com o filho e ofereceu-se para o levar até lá de carro. A viagem levava apenas um a hora para cada lado, o tem po estava bom e, com Joe fora, ela não tinha m ais nada para fazer.
— Você tem certeza? Não m e agrada nada que faça isso. — Kate estava grávida de cinco m eses.
— Vai ser divertido. Assim m antenho-m e ocupada. — Reed ficou m uito anim ado quando ela lhe contou. Deixaram Stephanie com a am a, pois Kate voltaria bem tarde para o horário da filha, e saíram às seis horas. Disse à am a que estaria de volta pelas oito. Era m eia-noite em Paris e Joe j á telefonara.
Pegaram um pouco de trânsito à saída, m as nada de especial, e chegaram a casa de Andy às sete e um quarto. Julie tinha o bebê no colo, tinham -se constipado os dois e ela estava com cólicas. O bebê era o rosto de Andy e dava uns ares de Reed. Kate despediu-se do filho e deixou-o com a m adrasta. Julie perguntou-lhe se desej ava com er algum a coisa, m as ela queria voltar para casa. Riram -se am bas e concordaram que ela estava enorm e. Kate tinha cada vez m ais a certeza de que iria ter gêm eos.
— Talvez sej a um bebê elefante — disse ela com um a gargalhada, entrando no carro. Abriu a j anela e ligou o rádio. A noite estava agradável e ela gostava de dirigir. Saiu às oito m enos um quarto. Mas à m eia-noite, a am a ligou para Greenwich. Kate ainda não chegara.
Foi Julie que atendeu o telefone. A am a estava preocupada; a princípio pensara que Kate parara na casa de alguns am igos, m as quando chegou a m eia-noite com eçou a pensar que acontecera algo de grave. Decidira ligar para os Scott para perguntar se Kate estava dorm indo lá. Achava que isso era pouco provável, m as pareceu-lhe m elhor telefonar. Julie ficou adm irada ao saber que Kate ainda não estava em casa. Não fazia idéia de quais eram os seus planos. Ela dem orara-se em sua casa apenas alguns m inutos. Julie virou-se para Andy, que estava m eio dorm indo, e perguntou-lhe se Kate tinha lhe dito algum a coisa. Ele abanou a cabeça e abriu os olhos.
— Deve ter ido j antar com am igos em Nova Iorque. Disse-m e que o Joe estava fora. — Sabia que ela passava a m aior parte do tem po sozinha.
— Ela não veio vestida para ir j antar fora — observou Julie. Kate usava um a saia de algodão e um a blusa larga, prendera o cabelo num rabo-de-cavalo e calçara sandálias.
— Talvez tenha ido ao cinem a — respondeu Andy, voltando a adorm ecer.
Julie pediu à am a que voltasse a telefonar-lhe se entretanto Kate não chegasse. Sem pre sim patizara com ela. Sabia que Kate m agoara Andy quando se envolvera novam ente com Joe, m as o m arido perdoara-lhe isso agora que voltara a casar. E Julie estava grata a Kate por esta tê-lo deixado. Era m uito feliz com ele.
A am a voltou a ligar às sete da m anhã, e desta vez Andy ficou m uito preocupado.
— Isso não é nada típico dela — disse ele a Julie ao desligar o telefone. Reed estava tom ando o café da m anhã lá em baixo, e ele não queria que o filho soubesse que algo acontecera. — Vou ligar para a brigada de trânsito, e perguntar se houve algum acidente ontem à noite. Kate era boa m otorista e não havia m otivos para ter tido um acidente, m as nunca se sabia.
Esperou um a eternidade até a brigada atender o seu telefonem a e descreveu Kate e o carro que ela conduzia, um Chevrolet. O agente pediu-lhe que esperasse. Passado bastante tem po tornou a aparecer em linha.
— Houve um a colisão frontal em Norwalk, às oito e um quarto. Um Chevrolet e um Buick de três volum es. O condutor do Buick m orreu, a condutora do Chevy estava inconsciente quando a tiraram do carro. Tem trinta e dois anos, e não tenho aqui um a descrição dela. Deu entrada no hospital às dez horas. Levaram duas horas para conseguir tirá-la do carro.
O agente não sabia m ais nada. Andy contou a Julie o que o hom em lhe dissera e em seguida ligou para o núm ero do hospital que ele lhe dera. As m ãos trem iam -lhe enquanto aguardava que alguém atendesse o telefone.
A enferm eira da urgência disse-lhe o que sabia. Kate estava lá, ainda inconsciente, e em estado crítico. Tinham ligado para a casa dela depois da m eia-noite, m as ninguém atendera. A am a devia estar dorm indo. Andy olhou para Julie m uito aflito quando desligou.
— Ela encontra-se em estado crítico. Tem um a concussão na cabeça e um a perna quebrada.
— E o bebê? — sussurrou a m ulher, cheia de pena.
— Não sei, não disseram . — Vestiu-se e disse a Julie que iria ver Kate ao hospital.
— Não acha um a boa idéia ligar para o Joe?
— Deixa-m e ver prim eiro com o é que ela está.
Andy levou m eia hora para chegar ao hospital e, quando entrou no quarto dela, ficou horrorizado. Kate tinha a cabeça enfaixada, a perna engessada e reparou de im ediato que, debaixo do lençol, o ventre dela estava liso. Kate ainda não sabia, m as perdera o bebê no acidente. Andy aproxim ou-se dela com lágrim as nos olhos e pegou-lhe na m ão. Vê-la trouxe-lhe m uitas recordações. No princípio tinha havido m uitos m om entos felizes, e o prim eiro ano em que estivera casado com ela fora um a das épocas m ais felizes da sua vida.
Ela continuava em com a quando ele saiu do quarto. Andy foi falar com o m édico e este disse-lhe que ainda não sabia se ela iria sobreviver. Dem orariam algum tem po para ter certeza.
Andy ficou na sala de espera durante horas e isso fê-lo recordar-se do nascim ento de Reed; tam bém passara um dia na sala de espera. Tinha telefonado para a am a assim que saíra do quarto e pedira-lhe que entrasse em contato com Joe.
— Não sei com o, Mister Scott — respondeu ela desatando a chorar. Tem era que algum a coisa tivesse acontecido a Kate, e os seus tem ores haviam se confirm ado. Tivera um pressentim ento quando ela não chegara à hora prevista e quando o telefone tocara de m adrugada ela não o ouvira. — Mistress Allbright tem o nom e do hotel, j ulgo eu, m as não sei onde é. Norm alm ente é o m arido que lhe telefona. É m ais sim ples.
— Sabe em que cidade ele está? — Que vida tão solitária tinha Kate, pensou Andy, com o m arido sem pre viaj ando. Mas sabia que ela estava disposta a tudo para continuar casada com Joe.
— Não, não sei — respondeu a am a, continuando a chorar. — Em Paris, acho. Creio que foi isso que ela disse. Ele telefonou ontem .
— Acha que vai ligar hoj e?
— Talvez. Não liga todos os dias.
Andy odiou Joe naquele m om ento por tudo o que ele não fazia por Kate. Ela m erecia ter alguém por perto que cuidasse dela, não um caixeiro viaj ante que corria m undo vendendo a sua com panhia de aviação e os seus aviões.
Andy disse à am a o que dizer a Joe se este telefonasse, o estado de Kate e o nom e do hospital em que ela se encontrava. E disse-lhe que não deveria sair de perto do telefone a nenhum a hora do dia ou da noite. Andy não podia telefonar para o escritório de Joe porque era fim de sem ana. Se não tivessem notícias dele em breve, Kate talvez estivesse m orta quando ele voltasse a telefonar. Não teria podido fazer nada por ela, m as seria bom tê-lo ali apoiando Kate.
— O bebê... o bebê está bem ? — perguntou a am a receosa.
Fez-se um longo silêncio.
— Não sei — respondeu finalm ente Andy. Achou que não devia ser ele a dizer-lhe que o bebê m orrera. Era m elhor Joe saber prim eiro.
Depois de desligar, Andy telefonou aos pais de Kate, que ficaram em pânico ao saber do acidente. Andy disse-lhes que os m anteria inform ados e eles responderam que iriam para lá o m ais depressa possível. Em seguida telefonou para Julie e pediu-lhe que fosse a Nova Iorque com os filhos buscar Stephanie, m as que deixasse a am a na cidade para o caso de Joe telefonar.
— Com o é que ela está? — perguntou Julie, cheia de pena de Kate.
— Muito m al — respondeu Andy, voltando em seguida para o quarto de Kate. Ficou lá até depois das seis. Ligou então para Nova Iorque e Joe ainda não ligara para casa.
Ele e Julie revezaram -se no hospital durante a noite e não disseram nada às crianças. Reed pressentiu que acontecera qualquer coisa, m as contentara-se em brincar na rua toda a tarde e o pai disse-lhe que a m ãe fora passar o fim de sem ana fora. Andy com binara com Julie que Reed ficaria em Greenwich com eles durante a sem ana e não iria à escola.
Kate não recobrou os sentidos durante o fim de sem ana e Joe não telefonou. Os pais dela estavam no hospital, arrasados. A situação de Kate não se agravou nem m elhorou; ela pairava entre a vida e a m orte. Por aquilo que viu quando retornou ao hospital no dom ingo à tarde, Andy depreendeu que a vida de Kate estava presa por um fio. E continuava a não haver sinal de Joe. Liz chorava a cada vez que alguém falava nele.
Andy não foi trabalhar na segunda e ligou para o gabinete de Joe logo de m anhã. Hazel, a secretária de Joe, inform ou-o que Mr. Allbright estava em trânsito entre a França e a Espanha e que teria notícias dele m ais tarde. Andy explicou-lhe qual era a situação e ela ficou m uito abalada. Prom eteu tentar encontrar Joe durante as próxim as horas.
Andy só voltou a ter notícias dela às cinco da tarde. Joe m udara de idéia e deixara recado em Madrid. Ninguém conseguira contatá-lo e ela perdera-o por pouco em Paris. Disse que achava que ele fora para Londres, m as não tinha certeza. Deixou-lhe recados em todos os hotéis da Europa onde ele costum ava ficar.
Era terça-feira à tarde quando finalm ente tiveram notícias de Joe. Ele disse a Hazel que passara o fim de sem ana em um barco no Sul da França. Optara por não ir a Espanha e tirara um dia de folga, o que era raro. Fora-lhe im possível telefonar a Kate. Chegara a Londres à m eia-noite de terça-feira e encontrara o recado de Hazel no hotel.
— O que se passa. — Não fazia idéia de que todos tinham tentado localizá-lo nem do que acontecera à m ulher. Achava que Hazel estava preocupada com qualquer coisa de trabalho e não tivera pressa em telefonar-lhe. Sentia-se descontraído e feliz depois do fim de sem ana de três dias no barco e detestava estragar essa boa disposição.
— É a sua m ulher — respondeu Hazel indo direto ao assunto, contando-lhe em seguida sobre o acidente. Explicou-lhe que Kate se encontrava em estado crítico num hospital de Connecticut e que Andy Scott telefonara.
— O que estava ela fazendo em Connecticut? — Ainda não digerira o que Hazel lhe dissera, por isso fizera um a pergunta absurda.
— Acho que foi levar o Reed na sexta à noite. O acidente deu-se no cam inho de volta.
Joe com eçou finalm ente a entender a gravidade da situação.
— Tenho de voltar — disse instantaneam ente, m as sabiam am bos que àquela hora era m uito tarde para pegar um avião, e ele não tinha à disposição nenhum dos seus. Fizera aquela viagem em voos com erciais, o que não era incom um . — Vou fazer o que puder. Creio que não consigo estar de volta antes de am anhã à tarde. Tem o núm ero do telefone do hospital?
Hazel deu-lhe e, assim que desligou, Joe ligou para lá. Quando pousou o auscultador ficou olhando para o teto. Não acreditava no que tinham lhe dito. A vida de Kate estava por um fio, e ela perdera os bebês, explicara a enferm eira. Dissera-lhe que Kate estava grávida de gêm eos. Mas ali sentado na beira da cam a, no Hotel Claridge’s, Joe só pensava no que iria fazer se Kate m orresse.