A Águia Solitária
Capítulo 23
Depois de deixar Kate, Joe passou seis m eses na Califórnia e em seguida cinco m eses em Londres. Ofereceu a Kate um a pensão que ela recusou. Kate tinha dinheiro seu, não queria nada dele. A única coisa que quisera ao longo de dezesseis anos fora ser sua m ulher. Fora-o durante quatro, e isso era tudo o que Joe Allbright tinha para dar, ou o que j ulgava ter quando partiu.
Kate fizera-o sofrer tanto, levara-o a sentir tantos rem orsos que ele só quisera fugir. Desej ara-a m ais do que tudo, am ara-a m ais do que ousara, dera-lhe m ais do que j ulgara ser capaz. E apesar de tudo, isso não bastara a Kate. Durante os anos de casam ento ele sentira que ela queria cada vez m ais. Isso assustara-o e fizera ressurgir as velhas feridas. A cada vez que a escutava, ouvia a voz da prim a a dizer-lhe que não prestava e o quanto ele a desapontara. A cada vez que via Kate ao voltar para casa recordava-se de com o se sentira desaj ustado quando criança e sentia-se um fracasso com o ser hum ano e com o hom em . Isso era um dem ônio de que ele fugira durante toda a vida. E nem o vasto im pério que construíra podia protegê-lo disso. A dor que vira nos olhos de Kate catapultara-o de novo para o pior m om ento da sua infância e fizera ressurgir as suas culpas. No fim , fora m ais fácil para ele ficar sozinho do que atorm entar-se por causa dela, ou do que fazê-la sofrer. Não suportava m agoá-la. Mas havia tam bém a sua faceta egoísta: os únicos desej os que queria satisfazer eram os seus.
Kate levou m eses para com preender o que lhes acontecera. Já tinham pedido o divórcio e estavam separados há quase um ano. Ele recusara-se a vê-la durante esse tem po, m as ligava de vez em quando para saber com o estavam as crianças. Durante m eses, Kate vagueara pelo apartam ento que alugara, atordoada. Era difícil reaprender a viver sem ele; era sem elhante a viver sem ar.
Pensava constantem ente no que lhes acontecera, tentando com preender o seu papel E ao longo dos m eses repletos de desespero, com eçou a ver luz, a princípio tênue, depois m ais intensa, à m edida que ela principiou a com preender que o seu desej o constante de ter Joe por perto o pusera em pânico. Sem intenção, ela aterrorizara-o Sem saber com o lidar com ela, nem com o parar aquela dança m ortal, só ocorrera a Joe fugir. Nunca quisera fazer tal coisa a Kate, m as no final percebeu que só a m agoaria, e a si próprio, se ficasse.
A princípio, Kate só era capaz de pensar no que perdera quando ele partira, e durante m eses o seu pânico aum entou. Lem brava-se constantem ente do que sentira ao perder o pai e suportou outro duro golpe quando Clarke faleceu na prim avera. Tal com o acontecera antes, a m ãe de Kate refugiou-se no seu m undo e praticam ente desapareceu. Kate chorava todas as noites até adorm ecer e a sua solidão era arrebatadora. Mas à m edida que os m eses foram passando, ela com eçou a voltar à norm alidade.
Joe sugerira que ela fosse a Reno para acelerar o divórcio, m as ela colocara os papéis em Nova Iorque, sabendo que levaria m ais tem po. Era a sua últim a tentativa para se agarrar a ele, m as o fio que os ligava era cada vez m ais tênue. Aliás, nada restava a Kate de Joe a não ser o seu nom e.
Seria difícil dizer quando é que a m udança ocorreu nela. Não foi de repente. Não foi um despertar súbito. Foi um processo lento e árduo m ontanha acim a rum o à m aturidade e ao crescim ento e à m edida que ia subindo a m ontanha ia ficando m ais forte. As coisas que outrora a tinham deixado tão desesperada pareciam m enos am eaçadoras. Perdera tantas coisas im portantes que o seu abandono se tornou finalm ente um m onstro que ela foi capaz de enfrentar e derrotar sozinha. De todas as coisas que m ais a aterrorizavam , perder Joe era a pior. Mas perdera-o e sobrevivera.
As crianças foram as prim eiras a notar a m udança, antes até de a própria Kate perceber. Ria com m ais frequência, chorava com m enos facilidade. Fez um a viagem para Paris com eles e quando Joe lhe telefonou depois de ela ter retornado para casa, ouviu algo diferente na sua voz. Era algo efêm ero e intangível, e teria tido dificuldade em explicá-lo, m as parecia-lhe que Kate j á não estava apavorada nem desesperada por se encontrar sozinha. Dera inúm eros passeios dem orados em Paris, descera vielas e avenidas pensando nele. Não o via há quase um ano. Ele m antivera-se afastado e não pretendia voltar a vê-la, em bora tivesse voltado para o apartam ento de Nova Iorque.
— Você parece feliz, Kate — com entou Joe calm am ente. Não podia deixar de se perguntar se haveria um hom em na vida dela. Esperava que sim , m as ao m esm o tem po, que não. Evitara todas as m ulheres solteiras que conhecera no últim o ano, pois não queria envolver-se com ninguém . Talvez nunca m ais, disse a si m esm o. Com o sem pre, para Joe era m ais fácil ficar sozinho. Contudo, durante vários m eses sentira a falta de Kate e do calor que ela trazia à sua vida. O que o m antinha longe era o preço m uito elevado que era forçado a pagar para estar com ela e por am á-la. Tinha certeza de que se se aproxim asse ou se voltasse a vê-la feriria de novo as suas asas.
— Acho que estou feliz — respondeu Kate com um a gargalhada. — Sabe Deus por que! A m inha m ãe está pondo-m e louca porque se sente sozinha sem o Clarke. A Stevie cortou o cabelo quase todo na sem ana passada e o Reed ficou sem os dois dentes da frente j ogando basebol com um am igo.
— Parece estar tudo bem ! — exclam ou Joe tam bém rindo. Quase se esquecera do que era viver com eles; ou m elhor, não esquecera.
Tal com o Kate se recordava todas as m anhãs ao acordar, Joe tam bém recordava com nitidez o que era acordar ao lado dela. Há um ano que não tocava num a m ulher. Kate com eçara a ir j antar com outros hom ens de vez em quando, m as não era capaz de fazer m ais nada. Quando com parados com Joe eram todos m uito pouco excitantes. Não se im aginava vivendo com m ais ninguém . E quando voltava para casa à noite ficava aliviada por se deitar sozinha. Na verdade, a solidão j á não lhe parecia am eaçadora. Tornara-se confortável, e ela tinha os filhos e os am igos. Enfrentara a perda e não m orrera. E lentam ente, com eçou a perceber que nada voltaria a assustá-la com o antes. Via tudo com m ais clareza. Percebia com o a vida de casado fora um suplício para Joe e que por tudo o que ele lhe dissera era j á m uito tarde.
Um m ês depois, quando estava escrevendo no seu diário, Joe telefonou por causa de um porm enor do divórcio. Ela continuara recusando aceitar o dinheiro dele. Clarke deixara-lhe m etade da fortuna e ela nunca quisera tirar nada de Joe. Ele sugeriu que o seu advogado fosse entregar-lhe uns docum entos por causa de um a propriedade que ele vendera, para garantir que ela nunca reclam aria esse dinheiro. Kate concordou, m as por m om entos a sua voz soou estranha.
— Será que voltarei a ver-te? — perguntou com voz triste. Continuava sentindo a sua falta, de lhe tocar, de o cheirar, de o sentir, m as aceitara o fato de ele ter saído da sua vida. Sabia que não m orreria por causa disso, m as parecia ter perdido um a parte essencial de si própria, com o um a perna ou um braço, ou o coração. No entanto, estava preparada para continuar sem ele. Não lhe restava alternativa e j á se conform ara.
— Você acha que devíam os ver-nos, Kate? — perguntou ele hesitante. Durante m ais de um ano considerara-a perigosa. Não que ela fizesse de propósito, m as ele receava apaixonar-se por ela se voltasse a vê-la e que a dança m ortal recom eçasse. Não estava disposto a correr esse risco. Conhecia m uito bem os encantos de Kate. — Talvez não sej a boa idéia.
— Talvez não — concordou ela. E não se sentiu arrasada nem despedaçada. Não havia desespero na sua voz, nem censuras sutis que o fizessem sentir-se culpado. Parecia em paz, sensata e calm a. Continuaram conversando sobre um a subdivisão que ele abrira e sobre um novo avião que ele desenhara.
Desligaram e Joe ficou rem oendo. Nunca a ouvira daquela m aneira, parecia m ais adulta. Joe percebeu que ela continuara a sua vida, m ais até do que ele. Encontrara finalm ente a sua liberdade. E ao perdê-lo, encontrara a paz. Enfrentara o pior dos seus receios, enfrentara os m onstros e conseguira ficar em paz não só consigo m esm a, com o tam bém com ele e prosseguir com a sua vida. Sabia que não havia chance de ele voltar. Kate desistira do seu sonho.
Ele ficou acordado durante bastante tem po pensando nela e, de m anhã, disse para si m esm o que fora indelicado em nem sequer querer ver os filhos. Eles não tinham culpa de o seu casam ento com Kate não ter dado certo. Nem ela o censurara.
Não se m ostrara ressentida durante o últim o ano e não lhe pedira nada. Caíra no abism o que sem pre tem era e em vez de se agarrar a ele para sobreviver e de o estrangular, deixara-se ir. Isso espantava-o e durante todo o dia, no trabalho, perguntou a si m esm o por que. Devia ser por ter se agarrado em outro hom em . Tinha de ser. Joe sentira-se devorado pelas necessidades dela. Mas no final dessa tarde voltou a telefonar para Kate. O docum ento continuava na sua m esa. Esquecera-se de pedir que o enviassem a Kate.
Ela atendeu o telefone. Joe sentia sem pre algum nervosism o. Contava que um dia fosse um hom em a atender. Kate soou descontraída ao falar.
— Oh... olá... desculpa, estava na banheira. — As palavras dela fizeram surgir de im ediato im agens que ele reprim ira durante m eses. Joe j á não queria pensar nela daquela m aneira. Não havia m otivo. Para si, Kate deixara de existir. Tinha de ser assim . Não houvera alternativa para nenhum dos dois. Sabia que fizera o correto. Salvara-se. Se não o tivesse feito, Kate teria destruído a sua vida e tê-lo-ia enlouquecido. A culpa e as queixas que ela lhe atirava constantem ente à cara haviam sido piores que balas ou navalhas. Se tivesse ficado, isso ter-lhe-ia custado tudo. Mas a voz dela soava tão inocente. Custava a crer que ela fora um perigo tão grande há um ano atrás. A recordação da dor e da culpa com eçara a esm orecer na m ente de Joe.
— Ontem esqueci-m e de te m andar o docum ento para assinar — disse ele à guisa de desculpa, tentando não im agina-la nua ao telefone. Perguntou a si m esm o se estaria em brulhada num a toalha ou dentro de um roupão. Olhou para a j anela, e a única coisa que foi capaz de ver foi Kate. — Vou passar por aí e deixar-te. — Podia ter m andado alguém lá ou enviado o docum ento pelo correio. Sabiam am bos disso. Mas Kate respondeu-lhe com grande naturalidade.
— Você quer subir quando vier aqui entrega-lo?
Houve um longo silêncio enquanto Joe pensava num a resposta e em Kate. Os seus instintos diziam -lhe para desistir dela e fugir, para resistir aos seus encantos velados. Não queria voltar a tê-la na sua vida, m as ela continuava lá. Eram ainda casados, ela era sua m ulher.
— Eu... hum ... acha um a boa idéia? Verm o-nos, quero eu dizer. — Um a vozinha na m ente de Joe dizia-lhe para fugir.
— Não vej o porque não. Acho que consigo lidar com isso. E você? — Era quase o m esm o que dizer “Já te esqueci”, m as em bora Joe não o soubesse, ela não o esquecera e achava que nunca esqueceria. No entanto, não valia a pena dizer-lhe isso.
— Acho que não faz m al — disse ele, soando de novo distante.
Mas Kate pareceu não se im portar. Ele j á não a assustava. Não podia abandoná-la porque j á o fizera. Haviam -lhe acontecido todas as coisas m ás, todas as coisas com que ela tinha pesadelos, e ela sobrevivera.
Mais im portante ainda, conseguira finalm ente com preender quem Joe era. Mesm o que nunca m ais voltasse a vê-lo, não lhe restavam dúvidas. Iria am á-lo para sem pre e com pararia todos os hom ens com ele. Joe era o m aior e o m elhor, o único hom em que ela realm ente am ara e aceitara o fato de não poder tê-lo. Adm itir isso, e ainda por cim a por a culpa ter sido sua, fora um golpe rude, m as ela resistira. Tornara-se m ais forte com aquela derrota. Mesm o pelo telefone, Joe notou que algo m udara nela. Já não parecia a m ulher que ele deixara, m as sim um a velha am iga m uito querida. Fê-lo sentir um a enorm e saudade, um a saudade que há m eses não sentia.
— Quando quer passar por aqui? — perguntou Kate.
— Quando é que as crianças estarão em casa? — perguntou ele, sentindo-se m uito sozinho. Recebia naquele m om ento o im pacto da perda, e não sabia por quê. Por que m otivo agora? Protegera-se tão bem até ali...
— Esta sem ana estão na casa do Andy — respondeu Kate. Talvez possa vir agora entregar-m e isso, desde que não atirem os coisas um ao outro, e depois você vem vê-los em outra hora.
Joe percebeu que ela estava rindo dele.
— Gostaria m uito — respondeu ele feliz. Sentia-se j ovem e tolo de novo, e isso fê-lo recordar de im ediato quão perigosa ela era. Esteve quase dizendo que afinal ia m andar entregar lá os docum entos. Contudo, Kate continuou falando com calm a, porque de fato estava calm a.
— Que tal às cinco? — perguntou.
— Cinco quê? — retorquiu ele em pânico. Tinha m edo de voltar a vê-la. E se ela o culpasse por tudo ter corrido m al? E se lhe dissesse que ele fora um patife. E se o acusasse de tê-la abandonado.
Kate riu e na sua voz parecia não haver qualquer am eaça
— Às cinco horas, tontinho. Você parece um bocado distraído. Você está bem ?
— Estou ótim o e às cinco horas está m uito bem . Não vou dem orar m uito.
— Eu deixo a porta aberta — brincou ela, e você nem precisa se sentar. — Sabia que ele estava em pânico, m as não por que. Nunca lhe ocorreu que fosse por ele voltar a vê-la. Am ava-o da m esm a form a. A vulnerabilidade e os m edos de Joe tornavam -no ainda m ais apetecível. Kate aprendera m uito. Só lam entava não poder partilhar com ele os seus conhecim entos. Sabia que não teria essa oportunidade e duvidava que depois daquela tarde voltasse a vê-lo. Depois de o docum ento estar assinado não havia m otivos para voltarem a ver-se.
— Vem o-nos então às cinco — disse ele num tom profissional e Kate sorriu ao desligar o telefone. Sabia que era ridículo continuar a am ar um hom em que queria divorciar-se dela. Não fazia sentido, m as nunca nada nas suas vidas fizera. Ela tinha trinta e quatro anos e finalm ente crescera, e entristecia-a perceber que a m ulher que pusera fim ao seu casam ento fora um a criança assustada. Não havia sido j usto para ela e para Joe. Quisera que ele com pensasse o sofrim ento que sentia em criança. Ele não tivera j eito de o fazer, nem ela pudera aliviar-lhe as feridas enquanto passara o tem po chorando. Haviam sido duas crianças, com m edo do escuro, e Joe só soubera fugir. Kate am ava-o apesar disso, e a introspecção espiritual que fizera aj udara-a.
Joe chegou às cinco em ponto com o docum ento na m ão. A princípio pareceu acabrunhado e recordou-se da prim eira vez que tinham se visto. Ela m anteve-se a um a certa distância dele e não tentou aproxim ar-se. Sentaram -se e conversaram tranquilam ente sobre as crianças, sobre o trabalho dele e sobre um avião que ele queria desenhar. Era um sonho que há m uito acalentava. Os sonhos de Kate giravam em torno dele. Ficou adm irada por ver quão fácil era am á-lo tal com o ele estava, ali sentado, um pouco rígido a princípio, e depois m ais à vontade. Estavam ali há quase um a hora quando ela lhe ofereceu um a bebida e ele sorriu. Vê-lo assim sensibilizou-a. Teria adorado abraçá-lo e dizer-lhe que sem pre o am aria, m as não tinha coragem . Sentada de frente para ele, adm irou-o e am ou-o com o se ele fosse um pássaro m uito belo no qual ela nunca pudesse tocar. Se o fizesse, ele voaria para longe. Ele dera-lhe essa oportunidade m ais de um a vez, e ela ferira-o. Kate sabia que essa oportunidade nunca voltaria a surgir. A única coisa que podia fazer agora era am á-lo em silêncio e desej ar-lhe boa sorte. Era o suficiente e tudo o que ela tinha para dar. Joe nunca m ais poderia aceitar outra coisa dela.
Eram quase oito horas quando ele foi em bora. Ela assinou os docum entos e ficou adm irada quando ele telefonou no dia seguinte. Parecia de novo acabrunhado, m as descontraiu-se m ais rapidam ente e, com um a certa atrapalhação, convidou-a para alm oçar. Ela ficou boquiaberta. Desconhecia que não saíra do pensam ento de Joe toda a noite. Tornara-se na m ulher que ele sem pre desej ara e não o assustara. Joe não sabia se aquela independência recém -adquirida era um a ilusão ou algo que ele queria ver, m as pressentia que ocorrera em Kate um a m udança e a aura que a envolvia deixara de conter culpa, dor e era apenas de afeto e paz em relação a ele e a ela própria. Joe recordou-se do que am ara nela e perguntou a si m esm o se poderiam ser am igos.
— Alm oçar? — perguntou ela atordoada, m as depois de conversarem m ais um pouco pareceu-lhe tudo bem . Tinha era receio de se apaixonar ainda m ais por ele. Mas nada havia a perder, arriscava-se era a sofrer. Confiava em Joe agora, m ais do que confiara antes, porque confiava tam bém em si própria. Seria capaz de suportar tudo o que a vida lhe reservava. Isso era novidade, e Joe pressentia-o.
Alm oçaram no Plaza dois dias depois de ele ter telefonado e deram um passeio pelo parque no fim de sem ana seguinte. Conversaram sobre os erros que tinham com etido e no que podia ter sido a vida de am bos. Ela teve finalm ente a oportunidade de lhe pedir desculpa, queria fazê-lo há m eses e estava grata pela oportunidade de lhe dizer o quanto lam entava a dor que lhe causara. Constrangia-a saber o quanto o am edrontara e o ferira. Punira-se vezes sem conta durante o últim o ano por não ter sido capaz de o entender. Com eçara por fim a perdoar-se pela sua própria estupidez, e a perdoar a Joe pela dele.
— Sei que fui m uito estúpida, Joe. Não com preendia. Tentava sem pre agarrar-te e quanto m ais o fazia, m ais você queria fugir. Não sei por que não percebi isso na época. Levei bastante tem po para descobrir. Quem m e dera ter sido m ais inteligente. — Sabendo o pavor que ele tinha da culpa e da prisão, fora um m ilagre ele ter ficado tanto tem po com ela.
— Eu tam bém com eti alguns erros, — adm itiu ele. — E estava apaixonado por você. — Kate sentiu um aperto no coração ao ouvir o pretérito do verbo, m as parecia-lhe j usto. Não a surpreendeu. Não era norm al, m as continuava apaixonada por ele e desconfiava que continuaria. Achava que depois de tudo o que acontecera não m erecia ter outra oportunidade com ele.
Retornaram depois para casa e ele viu Stevie e Reed pela prim eira vez depois de ter ido em bora. Eles gritaram de alegria ao vê-lo. Foi um a tarde feliz. Ela ficou calada durante m uito tem po depois de ele ter ido em bora, queria acreditar que podiam ser am igos. Não tinha o direito de exigir m ais nada dele e tentou convencer-se a contentar-se com isso.
No cam inho para casa Joe tentou convencer-se do m esm o. Sabia que não podiam voltar a tentar. Continuava sendo m uito perigoso e talvez ele viesse a sofrer de novo.
A am izade deles continuou durante os dois m eses seguintes. Iam j antar de vez em quando e alm oçar aos sábados. Aos dom ingos ela fazia j antar para ele e para as crianças. Quando Joe ia em bora, Kate pensava nele, m as j á não era o dram a de antigam ente. Aliás, não havia qualquer dram a. Ela j á não sabia ao certo o que partilhavam m as fosse o que fosse, foi oculto atrás da m áscara da am izade durante dois m eses. Era um a situação confortável para am bos.
Num a tarde chuvosa de sábado em que as crianças estavam no Connecticut, na casa do pai, Joe apareceu inesperadam ente para lhe em prestar um livro de que tinham falado na sem ana anterior. Ela agradeceu-lhe e ofereceu-lhe um a xícara de chá. Não era apenas isso que Joe queria dela, m as ele não sabia com o atravessar a ponte da am izade até algo novo. Não podiam retornar àquilo que haviam tido. Se se aventurassem para a frente, tinham de ir aportar em local diferente. Joe não sabia com o prosseguir.
Tudo aconteceu com surpreendente naturalidade. Ela acabara de encher a xícara quando levantou a cabeça e viu Joe m uito próxim o. Pousou o bule e, sem dizer um a palavra, ele puxou-a para si.
— Acharia um a loucura, Kate, se eu dissesse que ainda te am o?
Ela ficou sem fôlego ao ouvir aquilo.
— Acharia sim — respondeu, aninhando-se j unto a ele, tentando não se lem brar das coisas que j á não partilhariam , das partes dele que não poderia voltar a ver. — Fui m uito m á para você — acrescentou cheia de rem orsos.
— Eu fui um idiota. Portei-m e com o um garoto. Tinha m edo, Kate.
— Eu tam bém — m urm urou ela abraçando-o. — Fom os tão estúpidos, quem dera que não tivéssem os sido... Quem m e dera ter sabido o que sei agora. Sem pre te am ei — disse baixinho. Há m uito que não se sentia tão próxim a dele.
— Eu tam bém sem pre te am ei. — Os cabelos sedosos de Kate roçavam -lhe o rosto. Só não sabia com o lidar com esse sentim ento. — Sentia-m e culpado a m aior parte do tem po. — Fez um a pausa. — Você acha m esm o que aprendem os algum a coisa? — Sabiam que sim . Via a m udança nela e sentia-a em si. Já não tinham m edo.
— Você é m aravilhoso tal com o é e eu consigo am ar-te assim m esm o — disse ela com um sorriso, — quer estej a aqui quer não. A sua ausência j á não m e assusta. Quem m e dera ter agido de outra form a.
Ele beij ou-a à guisa de resposta. Sentia-se em segurança com ela, provavelm ente pela prim eira vez desde que se conheciam . Sem pre a am ara, m as nunca sentira aquela segurança.
Ficaram aos beij os na cozinha durante bastante tem po e depois, sem dizer um a palavra, Joe pôs-lhe um braço sobre os om bros e levou-a para o quarto. Fitou-a hesitante. Beij á-la trouxera-lhe tantas recordações.
— Não sei o que estou fazendo aqui... provavelm ente som os m alucos... e não sei se vou conseguir sobreviver se estragarm os tudo outra vez. Mas tenho este pressentim ento louco que vai correr tudo bem .
— Nunca pensei que você voltaria a confiar em m im — disse Kate olhando-o bem nos olhos.
— Nem eu — respondeu ele beij ando-a Mas confiava nela agora. Kate conhecia-o m elhor do que nunca. Por fim sentiam -se em segurança um com o outro. Nunca tinham deixado de se am ar. Era assustador pensar que quase tinham se perdido. Haviam estado à beira do precipício, m as parado a tem po. A m ão da Providência fora benevolente com eles.
Joe passou o fim de sem ana com ela e quando as crianças voltaram para casa ficaram felizes ao encontrá-lo. A vida voltou rapidam ente ao norm al, com o se ele nunca tivesse chegado a partir. Joe vendera m eses antes o apartam ento em que haviam vivido e m udou-se para a vivenda de Kate. Depois com praram outra j untos e m udaram -se. Ele fazia as suas viagens e por vezes estava ausente várias sem anas, m as Kate não se im portava. Conversavam ao telefone, e ela sentia-se feliz com o previra. E ele tam bém . Daquela vez a coisa funcionou e parecia um m ilagre e quando tinham discussões, elas eram quentes, m as tal com o o fogo-de-artifício, elas ilum inavam o céu e eram esquecidas pouco depois. Eram felizes j untos, m ais felizes do que nunca. Haviam desistido do divórcio logo que ele voltara a viver com ela.
Fora um a boa vida para am bos, e j á tinham passado quase dezessete anos desde que haviam se separado. Haviam tido razão em confiar um no outro um a últim a vez. Os anos que tinham passado j untos provaram -no.
Quando as crianças saíram de casa para viverem as suas vidas, tiveram m ais tem po sozinhos. Kate viaj ava com ele, m as sentia-se sem pre bem em casa. Os dem ônios tinham desaparecido da sua vida. Haviam m atado os dragões m uito antes, em bora com algum custo Os prim eiros anos tinham sido penosos e deixado as suas m arcas, m as no final Joe e Kate sentiram -se gratos por aquilo que tinham aprendido. Ela aprendera a não pressioná-lo, a não prendê-lo, a não conj urar os fantasm as do passado, a não avivar-lhe a culpa e em bora fosse um a ave orgulhosa, Joe descia do céu e aproxim ava-se de Kate o m ais possível. Nos últim os anos isso bastava-lhe e nada m ais precisava ou queria dele. As feridas haviam finalm ente sarado.
Tinham sido abençoados com um a grande dádiva, um am or raro, um a ligação tão forte que nem eles próprios, com os seus erros, haviam sido capazes de destruir. A tem pestade viera e a casa que tinham construído m anteve-se forte. Joe e Kate com preendiam -se com o poucas pessoas. Isso era o que todos procuravam , m as poucos alcançavam . Haviam se encontrado e perdido várias vezes. Miraculosam ente tinham tido um a últim a oportunidade. Não lhes restavam dúvidas de que tinham vencido e de que haviam sido bafej ados pela sorte. Quase haviam perdido tudo, m as a últim a escolha fora acertada. Para am bos. Não só haviam encontrado o am or, m as tam bém a paz. Desta vez, podiam preservar o m ilagre.