A Águia Solitária
Capítulo 15
Reed fizera dois m eses e m eio em m aio quando Andy chegou em casa certa noite, m uito anim ado. Fora nom eado para um a com issão que iria à Alem anha ouvir os depoim entos nos j ulgam entos de guerra que ali decorriam j á há algum tem po. Advogados de diversas especialidades estavam sendo recrutados para períodos de vários m eses. Andy adquirira bastante experiência na firm a do pai e ser convidado para participar nos j ulgam entos dos crim es de guerra era um a honra enorm e para ele
— Posso ir com você? — perguntou Kate m uito anim ada, aquilo parecia um desafio interessante e ela desej ava vê-lo trabalhando.
— Não m e parece boa ideia, querida. Vam os ficar aquartelados em casernas. O aloj am ento não é bom , m as o trabalho vai ser m aravilhoso. — Estava encantado com a perspectiva da viagem , em bora detestasse ter de deixar Kate e Reed.
— Quanto tem po você vai lá ficar? — Aquilo não lhe soava a um a viagem de dois dias, nem sequer de duas sem anas.
— Essa é a parte m ais difícil — disse ele. Pensara m uito no assunto antes de aceitar. Tinham -lhe pedido um a resposta im ediata, m as ele tinha certeza de que Kate haveria de querer que ele participasse em algo tão excepcional. Era um a oportunidade que ele am bicionara, m as que nunca esperara.
— Tenho de ficar lá três ou quatro m eses — respondeu com ar infeliz.
Kate ficou espantada.
— Uau! Isso é m uito tem po. — Andy iria perder tanto do crescim ento do bebê.
— Perguntei se seria possível term os uns dias de férias, talvez no m eio, m as disseram -m e que era im possível. Vou ficar retido lá, e nenhum dos hom ens levará a m ulher. — Durante três ou quatro m eses seria com o estar na tropa, m as com o ele não fizera o serviço m ilitar nem estivera na guerra, achava que era um a boa oportunidade para servir o seu país.
— Lam ento, querida. Fazem os algum a coisa boa depois, tiram os um as férias. — Queria levá-la à Califórnia, pois adorara estar lá.
— Está bem , acho que vou ter de m e m anter atarefada.
— O j ovem príncipe encarregar-se-á disso por você. — Kate passava quase todo o tem po tratando dele e dando-lhe o peito. Pelo m enos tinha um filho, senão sentir-se-ia m uito sozinha na ausência de Andy. — Quere ir para casa dos seus pais?
Kate abanou a cabeça.
— A m inha m ãe adoraria ter lá o Reed, m as eu ficaria doida. Vam os ficar aqui à sua espera. Não se esqueça de levar uísque para os seus cornflakes.
— Obrigado por aceitar, Kate — disse, beij ando-a.
— Tenho alternativa? Posso fazer birra? — perguntou, sorrindo. Sabia que iria ter saudades de Andy, m as estava satisfeita por ele. O convite era um a honra.
— Podia fazer birra, m as ainda bem que não faze. Eu quero m esm o ir. É um trabalho m uito im portante. — Kate aceitara m uito bem e ele am ava-a ainda m ais por isso.
— Eu sei que é. — Respeitava-o m uito, e não teria feito nada para o deter. — Quando é que você vai?
— Dentro de quatro sem anas — respondeu ele com um a careta, e ela atirou-lhe um a alm ofada.
— Seu patife! Vai estar fora todo o verão. — E ainda m ais algum tem po depois disso. Partiria em 1 de j ulho e fora inform ado de que não contasse retornar até ao fim de outubro. Viriam advogados de vários pontos do país e partiriam para a Alem anha num avião m ilitar.
Enquanto Kate aj udava Andy a organizar os papéis e a fazer a m ala durante as sem anas seguintes, com eçou a perceber com o iria sentir-se sozinha no apartam ento só com o bebê. Durante aquele prim eiro ano de casam ento habituara-se à com panhia de Andy e não se im aginava sem ele. Quatro m eses iriam parecer interm ináveis para am bos.
Dois dias m ais tarde, no prim eiro aniversário do casam ento, ele deu-lhe um a m agnífica pulseira de diam antes Cartier. Kate ficou m aravilhada. Tinha-lhe com prado um relógio na Tiffany, m as o relógio não era tão im pressionante com o a pulseira.
— Andy ! Você estraga-m e com m im os! — exclam ou encantada, e Andy ficou satisfeito. Era bom para ela, gostava de o ser, sentia-se feliz na sua com panhia, m ais até do que esperara. Kate era um a boa m ulher, um a excelente m ãe e um a ótim a com panhia. Adorava estar com ela, fazer am or com ela, rir com ela. Eram m esm o bons am igos.
— Isso foi por ter aceitado m uito bem as notícias.
— Talvez você deva ir para fora m ais vezes — brincou ela. Passaram um a noite m agnífica no Clube Stork.
E quando ele partiu no dia 1 de j ulho, ficaram am bos tristes. Ela levou o bebê quando o acom panhou ao aeroporto. De Nova Iorque iriam partir cinco advogados num voo m ilitar. Os outros vinham de outras cidades. Andy beij ou-a e abraçou-a durante bastante tem po. Disse que tentaria ligar-lhe, m as que não pensava poder fazê-lo m uitas vezes.
— Eu escrevo-te — prom eteu ele, m as Kate desconfiava que ele não teria m uito tem po para o fazer. Iriam ser quatro longos m eses solitários sem ele. Em bora tivesse hesitado em casar com Andy, agora não se im aginava passando um dia sem ele. Andy beij ou o bebê, beij ou-a de novo e correu para o avião. Era o m ais novo do grupo, e as m ulheres dos outros advogados sorriram a Kate quando saíram do aeroporto. Reed tinha três m eses e m eio e quando Andy voltasse a vê-lo j á teria aprendido m uitas coisas. Kate prom etera tirar-lhe m uitas fotografias.
Ela passou o 4 de j ulho em Nova Iorque e fez um calor abrasador. Mal saía de casa com o bebê, pois tinham ar condicionado; o resto do m ês foi igualm ente quente. Ela levava o filho para passear no parque de m anhã e tentava chegar em casa pelas onze, ficavam lá toda a tarde e saíam no fim do dia para tom ar ar quando as ruas com eçavam a arrefecer. Mas apesar do bebê e do esforço que fazia para se m anter ocupada, Kate sentia-se surpreendentem ente sozinha sem Andy. Tinha m uitas saudades dele.
Certa tarde, depois de ter ido ao j ardim zoológico com Reed, Kate descia a Quinta Avenida olhando para as m ontras e em purrando o carrinho do bebê. Tinha com eçado a atravessar a rua quando alguém apareceu disparado e chocou com ela. Kate sobressaltou-se e espreitou de im ediato o filho, para ver com o ele estava. Quando levantou a cabeça, deparou com os olhos de Joe Allbright. Ficou em basbacada olhando para ele. Pensara nele m uitas vezes e pensara que só voltaria a vê-lo nos j ornais.
— Olá, Kate. — Parecia que tinham se visto nessa m anhã. Nada m udara. Ele estava na m esm a, só que não havia a aspereza que Kate vira no últim o dia, nem as palavras cruéis, ou a desilusão. Só aquele rosto incrível e aqueles olhos azuis que a perfuravam , parecendo que Joe estivera à sua espera, em bora ela soubesse que isso não passava de um a ilusão. Podia ter-lhe telefonado e nunca o fizera. Havia épocas em que Joe, apesar da sua tim idez, podia ser encantador. E naquele m om ento era-o. Com o se tivesse esperado por ela três anos.
Continuavam no m eio da rua, e os carros com eçaram a apitar quando o sem áforo ficou verde. Joe agarrou nela por um braço e acom panhou-a até à esquina, aj udando-a a levantar o carrinho para o passeio, e sorriu ao ver o bebê.
— Quem é este m enino? — perguntou ele divertido, quando o bebê com eçou a palrar com o se estivesse satisfeito por ver Joe.
— É o m eu filho Reed — respondeu Kate orgulhosa. — Tem três m eses.
— É um rapaz bonito — retorquiu Joe pensativo, sorrindo em seguida para Kate, — m uito parecido com você. Não sabia que tinha casado. Você se casou?
A pergunta teria sido insultuosa vinda de outra pessoa, m as Joe era m esm o assim . Para ele, ter um bebê não significava autom aticam ente que a pessoa era casada. Às vezes parecia ser m uito avançado para a sua época, outras vezes não.
— Casei há um ano.
— Não perdeu tem po em ter o bebê — disse ele, em bora isso não o surpreendesse. Sabia que era isso que queria. Deixara-o bem claro quando fora em bora. Não a via há três anos, m as achou-a igual. Quando m uito, estava m ais bonita, e ele tam bém . Tinha trinta e nove anos, m as ninguém teria sido capaz de adivinhar a sua idade. Possuía um ar eternam ente arrapazado, em especial com o cabelo louro tom bando-lhe para os olhos. Afastou-o com um gesto que Kate sem pre achara enternecedor. Pensara nisso m il vezes à noite, quando chorara por causa de Joe. E agora tinha-o ali à frente, e era um a sensação estranha, triste e vazia. Teria gostado de poder dizer que não se im portava, que ele não a afetava, m as tinha a m esm a sensação estranha na boca do estôm ago, com o se um a pedra estivesse girando lentam ente. Sem pre j ulgara que o am or era isso. Mas nunca sentira a pedra com Andy. Com ele, sem pre se sentira em paz. E agora, com Joe apenas a alguns centím etros, estava m uito nervosa. Ele era apenas um pedaço do seu passado, disse a si m esm a. Mas um pedaço m uito grande. Havia a m esm a eletricidade entre am bos quando ele a olhou nos olhos. Ela perguntou a si m esm a se aqueles sentim entos algum a vez desapareceriam .
— Quem é o sortudo? — perguntou ele num tom casual. Parecia não querer deixá-la.
— O Andy Scott, o m eu velho am igo de Harvard.
— A sua m ãe sem pre disse que vocêdevia casar com ele. Deve estar m uito feliz. — Havia um a certa tensão na sua voz. Sabia que a m ãe dela o detestara.
— E está — respondeu Kate, atordoada. Parecia que ele exsudava um arom a estranho que a hipnotizava. Já conseguia senti-lo e disse a si m esm a que tinha de ir em bora. Mas estava paralisada, e em balada pela voz dele, e não se m exeu. — Ela adora o bebê.
— É um m enino bonito. O negócio está correndo bem , a propósito.
Ela sorriu ante tanta m odéstia. Era um a das em presas m ais im portantes do país e Andy dissera-lhe várias vezes que Joe faturava m ilhões. A últim a coisa que lera a respeito dele era que ia fundar um a com panhia aérea cham ada AllWorld.
— Leio m uitas coisas a seu respeito, Joe. Continua voando m uito?
— O m áxim o que posso. Não tenho tem po suficiente. Continuo testando os m eus m odelos, m as isso é um tipo de voo diferente. Agora estam os desenvolvendo aviões com erciais, capazes de voos transoceânicos. O Charles e eu fom os a Paris há algum as sem anas. Mas a m aior parte do tem po estou preso na sala de reuniões ou no m eu gabinete. Tenho um a casa aqui na cidade — disse ele.
Pareciam dois velhos am igos a pôr a conversa em dia, parados num a esquina, só que não eram . Havia correntes perigosas nas águas onde estavam m etendo-se. Kate tentou dizer a si própria que não era verdade, m as instintivam ente sabia que era.
— Tem os um prédio de escritórios aqui, outro em Chicago, e outro em Los Angeles. Vou m uitas vezes à costa oeste, m as passo m ais tem po em Nova Iorque do que em outro lugar — disse. Tinha acabado de sair do escritório quando a encontrara na Rua 57.
— Você é um hom em im portante, Joe. — Recordava-se de quando ele nada tinha e de com o o am ara na época. De certa form a, ele estava diferente. Tinha a aura de um hom em com poder, m as quando olhava para ela continuava o m esm o, acabrunhado, tím ido, num m inuto com receio de a olhar, no outro fitando-a diretam ente nos olhos, com o se contem plasse a alm a dela e soubesse aquilo que estava pensando. Kate era incapaz de evitar o poder daqueles olhos.
— Quer carona para algum lugar, Kate? Está m uito calor para andar na rua com o bebê.
— Estávam os só tom ando ar. Moro a poucos quarteirões. Não m e im porto de andar.
— Anda — disse, pegando-lhe no braço, sem esperar pela reação dela. Havia um carro no outro lado da rua à espera dele e com o se fosse arrastado pela corrente de um rio, ele em purrou o carrinho de bebê nessa direção enquanto Kate os seguia e, antes de dar por isso, estava sentada no banco de trás do carro dele, com o bebê no colo. O m otorista pusera o carrinho no porta-m alas e Joe sentara-se ao lado dela. — Onde é que vocêm ora? — Kate deu-lhe o endereço, Joe deu-o ao m otorista, e ela reclinou-se no banco. — Moro apenas a alguns quarteirões de você. Num apartam ento de cobertura, pois assim tenho a sensação de que estou voando. E você, o que vai fazer neste verão?
— Não sei... nós... eu... — Com eçava a sentir-se dom inada por Joe, ele era tão forte e tão poderoso que arrastava todos atrás de si, com o um a contracorrente. Kate tinha a sensação de descer as cataratas do Niagara num barril. Ele sem pre tivera aquele efeito nela. Nunca conseguira resistir-lhe, ou à eletricidade que sentia quando estava perto dele. Era de um a intensidade que a deixava sem fôlego. E para seu espanto, m esm o ao fim de três anos, parecia nada ter m udado. Era a form a com o lhe reagia, e a m aneira com o ele lidava com as pessoas, especialm ente agora que era tão bem sucedido. Estava habituado a conseguir tudo o que queria. — Não sei quais são os nossos planos — respondeu ela num tom vago, tentando ordenar as idéias e não sentir o efeito de Joe. Estar com ele era com o um a droga, e ali sentada no carro sentiu o apelo do seu velho vício. Sabia que tinha de resistir. Era um a m ulher casada.