A Águia Solitária

Danielle Steel · Capítulo 7 de 25

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A Águia Solitária

Capítulo 6

 

Nesse ano o Natal foi triste para todas as pessoas. Duas sem anas e m eia após Pearl Harbor o m undo ainda reverberava com o choque. Os filhos da Am érica tinham com eçado a partir para a guerra, e estavam sendo enviados para a Europa e para o Pacífico. Nom es de locais que nunca ninguém tinha ouvido falar estavam de repente na boca de todos, e a Kate serviu de pouco consolo saber que Joe se encontrava na Inglaterra. Pela única carta que recebera dele até à data, a sua vida parecia bastante civilizada.

Encontrava-se colocado em Swm derby. Contou-lhe apenas aquilo que os censores perm itiam . A m aior parte da carta expressava preocupação com ela e falava-lhe das pessoas que conhecera. Descrevia o cam po e a form a calorosa com que os Ingleses os tratavam . Mas não lhe disse que a am ava. Dissera-o um a vez, m as não se sentiria bem escrevendo.

Os pais j á tinham percebido o quanto Kate estava apaixonada por Joe, e o seu único consolo era sentirem que ele tam bém a am ava. Mas nos seus m om entos a sós, Elizabeth Jam ison continuava a expressar as suas preocupações ao m arido. Essas preocupações eram agora m aiores, porque se algum a coisa acontecesse a Joe, Elizabeth tem ia que Kate iria chorá-lo para sem pre. Seria um hom em difícil de esquecer.

— Deus m e perdoe por dizer isto — afirm ou Clarke, m as se algum a coisa lhe acontecer, ela irá conseguir superar, Liz. Já aconteceu a outras m ulheres antes dela. Só espero que nada aconteça.

Não era apenas a guerra que preocupava Elizabeth, era algo m ais profundo que ela pressentia em Joe desde o m om ento em que o conhecera, e nunca seria capaz de o expressar por palavras a Clarke. Achava que Joe era incapaz de deixar alguém aproxim ar-se, de am ar e de se entregar com pletam ente. Ele retraía-se sem pre. E a sua paixão pelos aviões que desenhava e pilotava, e o m undo que se abria para ele, era a m aneira que tinha de fugir à vida. Duvidava que fizesse Kate feliz m esm o que sobrevivesse à guerra. Outra coisa que tam bém pressentia era o elo de ligação entre eles, e o fascínio que sentiam um pelo outro. Eram com pletam ente opostos. Pressentia igualm ente que eram perigosos um para o outro. Não sabia por que m otivo tem ia tanto que Kate o am asse, m as tem ia.

A data da festa de debutante cancelada chegou e passou, e Kate não lam entou que ela não tivesse se realizado. Não estava m uito voltada para festas, m as sentia que teria de se esforçar para isso por causa dos pais. E nessa noite, sentada em casa lendo um livro para as aulas, ficou surpreendida ao receber um telefonem a de Andy Scott.

Quase todos os rapazes que ela conhecia estavam sendo m obilizados e alguns j á se encontravam prestes a partir. No entanto Andy j á lhe explicara havia m uitas sem anas que tinha um sopro no coração desde criança. Não o incapacitava de form a algum a, m as m esm o em tem po de guerra fazia-o passar à reserva. Ele ficara bastante aborrecido e tentara convencer os m ilitares a aceitarem -no, m as estes haviam -no recusado categoricam ente.

Contou a Kate que lhe apetecia andar com um cartaz a explicar às pessoas por que m otivo não andava fardado ou por que razão continuava em casa. Sentia-se um traidor por continuar na pátria com as m ulheres. Estava m uito incom odado com essa situação quando ligou a Kate e conversaram durante um bom tem po. Ele queria convidá-la para j antar, m as ela não se sentia à vontade para ir. Parecia inj usto, dado o que sentia por Joe e ao fato de ele se encontrar em Inglaterra. Explicou a Andy o m otivo e disse-lhe que não podia. Mesm o assim ele tentou convencê-la a ir ao cinem a. Ela não estava com disposição. Nunca tinham sido m ais que colegas, m as sabia por interm édio de am igas que ele era louco por ela. E tentara dizer-lhe algo desde que ela chegara a Radcliffe no outono.

— Acho que você devia sair — declarou a m ãe com firm eza, depois de perguntar a Kate o que quisera Andy. — Não pode ficar em casa para sem pre. A guerra talvez continue durante m uito tem po. — E nada fora tratado com Joe. Ele não a pedira em casam ento, não estavam noivos nem haviam feito qualquer prom essa. Am avam -se apenas. E a m ãe teria ficado m uito m ais satisfeita se a visse sair com Andy Scott.

— Não m e parece correto — retorquiu Kate, retornando ao quarto com o livro. Sabia que a guerra iria ser m uito longa e que ficaria em casa indefinidam ente com os pais, m as não se im portava.

— Ela não pode ficar ali dia após dia e noite após noite! — queixou-se m ais tarde Liz ao m arido. — Não há qualquer com prom isso entre eles. Não estão noivos nem com prom etidos. — A m ãe queria que ela tivesse tudo a que tinha direito.

— É um com prom isso do coração, pelo que m e deu a perceber, — redarguiu calm am ente Clarke. Andava preocupado com Joe e entendia a filha. Não partilhava das suspeitas da m ulher acerca do aviador. Achava-o um excelente hom em .

— Não sei se o Joe irá para além do com prom isso — insistiu Liz, preocupada.

— Acho que ele está sendo bastante responsável e não quer torná-la num a j ovem viúva. Parece-m e que tom ou a decisão acertada.

— Não creio que hom ens com o ele cheguem a com prom eter-se verdadeiram ente — continuou Liz. — Ele está dem asiado apaixonado pelos aviões. Todo o resto na sua vida virá depois disso. Nunca dará à Kate aquilo de que ela precisar. O seu prim eiro am or será sem pre pilotar, — predisse com ar soturno, e Clarke sorriu.

— Isso não é necessariam ente verdade. Olha para o Lindbergh. É casado e tem filhos.

— Quem sabe se a m ulher é feliz? — retorquiu ela com ceticism o.

Mas independentem ente da opinião dos pais, Kate continuou a agir com o até ali. Ficou em casa com eles durante as férias e quando retornou às aulas em j aneiro, as colegas pareciam tão infelizes com o ela. Cinco delas tinham se casado antes de os nam orados em barcarem , pelo m enos dez haviam ficado noivas e as restantes pareciam estar envolvidas com rapazes que iriam para o outro lado do oceano m uito em breve. A vida delas parecia girar à volta de fotografias e de cartas, o que recordou a Kate que não possuía um a única fotografia de Joe. No entanto, tinha um saco cada vez m aior com cartas dele.

Dedicou-se aos estudos e viu Andy de vez em quando. Continuava recusando-se a sair à noite, m as eram am igos e ele ia m uitas vezes visitá-la em Radcliffe. Davam longos passeios pelo com plexo universitário e depois paravam na cafeteria, e ele provocava-a com a elegância das refeições partilhadas por am bos. No entanto, desde que a única coisa que fizessem fosse com er no com plexo universitário Kate achava que não contava com o um a verdadeira saída e que dessa form a não traía Joe. Andy era de opinião que ela estava sendo tonta e tentou convencê-la a saírem .

— Porque não m e deixa levar-te a um lugar decente? — queixou-se na m esa preta da cafeteria enquanto com iam rolo de carne seco e um pedaço de frango quase incom estível. O local era fam oso pela péssim a qualidade da com ida.

— Acho que não seria correto. E isto serve — insistiu ela.

— Serve? Acha que isto serve? — Enterrou o garfo no purê de batata que parecia argam assa e o frango estava tão duro que ela não conseguiu m astigá-lo. — A dor de estôm ago com que fico cada vez que j antam os leva-m e dois dias a passar.

No entanto, Kate só conseguia pensar nas rações que Joe estava recebendo na Inglaterra. Sentir-se-ia m al se fosse a restaurantes caros com Andy. Se ele queria estar com ela só lhe restava com er na cafeteria do colégio.

Em bora Kate recusasse sair, Andy tinha um a vida social bastante ativa. Era alto, m oreno e bem -apessoado, um dos poucos rapazes disponíveis do com plexo universitário e que ainda por cim a não ia para a guerra. As garotas quase faziam fila para sair com ele, e Andy podia ter qualquer um a m enos a que realm ente desej ava. Desej ava Kate.

Andy continuou a visitá-la e ao longo dos m eses foi-se form ando entre os dois um forte laço de am izade. Ela gostava m uito dele, m as não sentia nenhum a das coisas que sentia por Joe. Aquilo que sentia por Andy era sólido, calm o e confortável, não tinha o fogo e a paixão e a atração irresistível da sua relação com Joe. Andy parecia m ais um irm ão. Jogavam tênis várias vezes por sem ana e por fim , perto da Páscoa, ela deixou-se levar ao cinem a, em bora tenha se sentido culpada. Foram ver A Família Miniver com Greer Garson e Kate chorou do princípio ao fim .

Recebia cartas de Joe várias vezes por sem ana, e calculava que ele andava pilotando Spitfires nas m issões com a RAF. No entanto, desde que as cartas continuassem chegando, ela saberia que ele estava vivo e com saúde. Vivia no pânico constante de um dia ler no j ornal que o avião dele fora abatido, e as suas m ãos trem iam ao abri-lo todas as m anhãs. Sabia que, por ele ser tão conhecido e pela sua associação a Charles Lindbergh, leria a notícia no j ornal antes de alguém ter tido oportunidade de avisá-la. No entanto, até à data, ele parecia bastante anim ado nas cartas. Queixara-se am argam ente do frio e da fraca com ida durante todo o inverno. E em m aio, contou-lhe com o a prim avera era bonita, que havia flores em todo o lado e que até as pessoas m ais pobres tinham j ardins encantadores. Mas não lhe dissera que a am ava desde que se fora em bora.

No fim de m aio, a RAF enviou m il bom bardeiros num ataque sobre Colônia. Joe nunca falou nisso, m as quando Kate leu a notícia, teve a certeza de que Joe estivera presente.

Em j unho, Andy form ou-se em Harvard ao fim de três anos num program a acelerado e iria para a Faculdade de Direito no outono.

Kate term inou o prim eiro ano, foi à festa de Andy no final do ano letivo e durante todo o verão trabalhou em período integral na Cruz Verm elha. Enrolava ataduras e dobrava roupas quentes que seriam enviadas para o outro lado do Atlântico. Expediam em brulhos, forneciam m edicam entos e passavam um a grande parte do tem po fazendo pequenas coisas úteis. Não era um trabalho excitante, m as parecia o m ínim o que ela podia fazer pelo esforço de guerra. Mesm o no seu pequeno círculo de am igas j á houvera tragédias. Duas das garotas tinham perdido os irm ãos em navios torpedeados pelos Alem ães e outra perdera dois. Um a das suas colegas de quarto voltara para casa, a fim de aj udar o pai a dirigir o negócio da fam ília. Vários noivos haviam sido m ortos e das cinco garotas que se casaram no Natal, um a j á perdera o m arido e voltara para casa. Era difícil não pensar nisso ao olhar constantem ente para os olhos tristes e rostos preocupados. A possibilidade de receber um telegram a do Departam ento de Guerra deixava todas as pessoas geladas.

Andy foi trabalhar com o voluntário num hospital m ilitar durante o verão. Quisera fazer algum a coisa para com pensar o fato de não ter podido ir para a guerra com os outros hom ens. E quando telefonava para Kate, falava-lhe dos feridos que via e das experiências que eles partilhavam consigo. Não o adm itiria a ninguém , exceto a Kate, m as ao ouvir as histórias dos feridos havia m om entos em que se sentia feliz por não ter podido ir para a guerra. A m aior parte dos hom ens que via tinha estado na Europa; os que haviam sido feridos no Pacífico iam recuperar-se em hospitais da costa oeste. Quase todos tinham perdido m em bros, pisado m inas ou estavam cheios de estilhaços. E Andy contou-lhe que havia um a enferm aria cheia de hom ens que enlouqueceram por causa do traum a da guerra. Ficavam os dois horrorizados só de pensar nisso E sabiam que durante os m eses seguintes as coisas só iriam piorar.

Depois de trabalhar na Cruz Verm elha dois m eses e m eio, Kate foi para Cape Cod passar as duas últim as sem anas do verão com os pais. Era um dos poucos lugares em que as coisas pareciam iguais ao que sem pre haviam sido. A com unidade era pequena e form ada essencialm ente por pessoas de idade, pelo que a m aior parte dos rostos que ela se habituara a ver continuava lá. Mas os netos não foram visitá-los nesse ano, e m uitos dos rapazes com que Kate crescera estavam ausentes. No entanto, m uitas das garotas que conhecia estavam lá e, no Dia do Trabalho, os vizinhos fizeram o habitual churrasco. Kate foi a casa deles com os pais. Durante um a sem ana não teve notícias de Joe. As cartas que recebia haviam sido escritas sem anas antes e por vezes recebia m ais do que um a ao m esm o tem po. Ele podia ter m orrido havia sem anas e ela continuaria a receber as suas cartas. Ficava sem pre apavorada quando isso lhe ocorria.

Há nove m eses que não via Joe e esse tem po com eçava a parecer infindável. Falara algum as vezes com Andy desde que chegara a Cape. Ele estava passando a últim a sem ana de férias com os avós no Maine, depois de ter trabalhado no hospital durante três m eses. Pelas conversas do am igo percebeu que ele am adurecera bastante no verão. Concluíra os estudos em três anos em vez de quatro. Um a vez que não podia ir para a guerra, estava ansioso por com eçar a trabalhar. Parecia ser a decisão acertada, um a vez que o pai era sócio m aj oritário da m ais prestigiada firm a de advogados em Nova Iorque. Ele era aí esperado de braços abertos.

Ali no churrasco, torrando m arshm allows, era difícil para Kate não pensar em Joe. Fora ali que com eçara o rom ance de am bos. Tinham iniciado a troca de correspondência pouco depois e em seguida ela convidara-o para o j antar do Dia de Ação de Graças. Lem brava-se de todas as palavras que ele dissera na noite em que tinham passeado pela praia. Estava m ergulhada em pensam entos quando alguém atrás dela falou.

— Porque é que sem pre deixa isso queim ar? — perguntou a voz.

Ela sobressaltou-se e voltou-se rapidam ente. Era Joe, ali parado atrás dela, m uito alto, m agro e pálido, e um pouco m ais velho. Sorria e, em m enos de um segundo, Kate atirou o espeto para a areia e correra para abraçá-lo. Era a m elhor coisa que podia lhe ter acontecido naquele m om ento.

— Oh, m eu Deus, oh, m eu Deus. — Não podia ser, m as era. O que estaria ele fazendo ali? Recuou para o observar m elhor, com um a expressão preocupada, e viu que ele estava inteiro. — O que você está fazendo aqui?

— Tenho duas sem anas de licença. Na próxim a terça-feira terei de m e apresentar no Ministério de Guerra. Acho que devo ter abatido a m inha quota de Alem ães, por isso m andaram -m e para casa para ver com o você está. Parece m uito bem . Com o está, m inha querida?

Kate estava m uito m elhor agora que o vira. Podia considerar-se um a felizarda. Joe parecia tão contente com o ela. Não conseguia largá-la; afagou-lhe o cabelo e m anteve-a bem j unto a si. De vez em quando beij ava-a. Não se im portavam que os vissem . Kate sentia-se radiante por ele estar vivo.

Clarke viu-os pouco depois. A princípio, não percebeu quem era o hom em louro j unto a Kate, m as quando o viu beij á-la percebeu que era Joe e correu para eles.

Deu um grande abraço em Joe e olhou-o com ar feliz dando-lhe palm adinhas no om bro.

— Que bom vê-lo, Joe. Estávam os m uito preocupados com você.

— Estou bem . O senhor devia era estar preocupado com os Alem ães. Tem os andado a lim par-lhes o sebo.

— Bem o m erecem — retorquiu o pai de Kate com um sorriso. Já quase que considerava Joe um filho

— Só o fiz para poder voltar para casa — disse Joe radiante. Era um hom em feliz, e Kate um a m ulher excepcionalm ente feliz. Mal conseguia acreditar no que lhe acontecera. Era um m ilagre após os longos m eses de sofrim ento à espera dele e rezando pela sua segurança. Duas sem anas pareciam um m ilagre para am bos. Só queria olhá-lo e abraçá-lo. Ele ainda não se afastara um centím etro. Queria estar o m ais próxim o possível dela e sentir o seu cheiro

— Com o vão as coisas por lá, filho? — perguntou Clarke num tom sério.

Kate largou Joe o tem po suficiente para ir procurar a m ãe e dizer-lhe que ele estava ali

— Os Britânicos estão passando um m au bocado — respondeu Joe. — Os Alem ães bom bardearam todas as cidades. A vida lá não é fácil. Acho que acabarem os por derrotá-los, m as não vai ser j á.

Nos últim os dois m eses as notícias vindas da Europa eram desencoraj adoras. A Alem anha dom inava Sebastopol e lançara um ataque feroz e im placável sobre Estalinegrado. Rom m el ceifava os Ingleses no Norte de África E os Australianos com batiam os Japoneses na Nova Guiné.

— Fico contente por estar bem , filho — disse Clarke. Já sentia que ele fazia parte da fam ília, em bora ainda não tivesse sido feita qualquer prom essa. E Elizabeth parecia m enos ressistente ao aproxim ar-se dele com Kate. Abraçou-o e beij ou-o e disse-lhe que estava feliz por se encontrar bem . E estava, por causa da filha.

— Perdeu algum peso, Joe — com entou Elizabeth com ar preocupado. Ele voava m uitas horas e com ia pouco. As rações que recebiam eram horríveis, com o Kate sabia pelas cartas. — Está tudo bem com você? — Fitou-o nos olhos

Ele assentiu

— Sim , agora que vou poder passar aqui duas sem anas. Am anhã tenho de ir a Washington, m as volto na quinta. Depois tenho m ais dez dias. — Estava com esperanças de ir a Boston. Por razões óbvias.

Kate estava radiante.

— Gostaríam os m uito que nos visitasse — interveio Clarke rapidam ente olhando para a m ulher, e nem ela pôde resistir à expressão de felicidade da filha.

— Gostaria de ficar em nossa casa? — perguntou Elizabeth. Kate agradeceu à m ãe quase chorando de felicidade. Até Elizabeth sabia que não se pode ir sem pre contra a m aré e se algum a coisa acontecesse a Joe, não queria que Kate sentisse que os pais tinham feito tudo para os m anter afastados. Parecia m elhor agir com m agnanim idade, desde que Kate não fizesse um disparate. A m ãe pretendia falar com ela acerca disso depois de os ter visto j untos. Afinal de contas, Joe tinha trinta e um anos, e necessidades e desej os pouco convenientes para Kate naquele m om ento. Desde que eles se portassem bem , Elizabeth estava com a disposição de o deixar ficar em sua casa. Cabia à filha zelar pelo bom com portam ento de am bos.

O resto da noite pareceu passar m uito depressa. Joe foi-se em bora bem depois da m eia-noite para estar em Washington na m anhã seguinte. Tinha de ir de carro até Boston e depois pegar um trem . Não havia aviões disponíveis para ele. Quando deixou Kate, beij ou-a com força durante bastante tem po e prom eteu vê-la em Boston dali a três dias. Ela detestava o fato de ter de voltar para o colégio enquanto ele estava lá, m as os pais insistiram para que ela não atrasasse o retorno às aulas. Kate teria de aproveitar ao m áxim o o tem po de que dispunham . A única concessão que fizeram foi deixá-la ir dorm ir em casa enquanto Joe lá estivesse, desde que fosse às aulas todos os dias.

— Eu m esm o a levo lá e certificar-m e-ei de que ela não se esbalda — prom eteu Joe. Kate teve a sensação de ter dois pais em vez de um . Havia em Joe algo m uito paternal e protetor, e isso contribuía para que Kate se sentisse tão à vontade com ele. Antes de a deixar nessa noite, Joe apertou-a nos braços durante m uito tem po e disse-lhe que tivera m uitas saudades e que a am ava m uito. Kate olhou para ele e bebeu aquelas palavras. Há m uito que não as ouvia.

— Tam bém te am o, Joe. Tenho estado tão preocupada contigo! — Muito m ais do que adm itiria na presença dele.

— Havem os de superar isto, querida. Prom eto. E quando acabar tudo, nos divertirem os m uito.

Não era o tipo de prom essa que a m ãe de Kate esperava, m as ela não se im portou. Estar com ele bastava.

Joe retornou de Washington m ais cedo que o previsto, ao fim de dois dias, e foi para a casa. Era cortês, atencioso, educado, bem com portado e respeitava m uito Kate, o que agradava aos seus pais. Até Elizabeth ficou im pressionada com a conduta dele. A única coisa que ele ainda não fizera e que lhes teria agradado ainda m ais fora pedi-la em casam ento.

O pai aflorou o assunto delicadam ente um a tarde ao chegar em casa do trabalho, encontrando Joe na cozinha fazendo esboços para um novo avião. Naquela época era im possível m andar construí-lo, m as depois de a guerra term inar seria o avião dos seus sonhos. Já enchera vários blocos de apontam entos com porm enores m inuciosos.

Aquilo levou a um a breve discussão sobre Charles Lindbergh, que estava aj udando Henry Ford a organizar a produção de bom bardeiros. Lindbergh quisera alistar-se, m as Roosevelt recusara. O que ele estava fazendo com Ford tinha m uita im portância para o esforço de guerra. No entanto, o público e a im prensa continuava criticando-o devido às posições políticas que defendera antes da guerra.

Com o o resto do país, Clarke ficara desiludido com os seus discursos a favor da Am érica. Prim eiro. Tinham -no feito parecer sim patizante dos Alem ães. E com o m uitos outros, Clarke perdera algum do respeito que sentia por ele. Sem pre considerara Lindbergh um patriota e parecera-lhe um a grande ingenuidade e um a falta de caráter da parte do piloto ter se deixado im pressionar pelos Alem ães antes da guerra. Contudo, recentem ente ele redim ira-se aos olhos de Clarke ao contribuir para o esforço de guerra de todas as form as ao seu alcance.

A conversa passou de Lindbergh a Kate e Clarke não perguntou diretam ente, m as deu a entender a Joe que estava curioso, se não m esm o preocupado, a respeito das intenções dele para com a filha. Joe não hesitou a dizer que a am ava. Foi sincero e frontal, e em bora parecesse pouco à vontade falando no assunto, não fez rodeios. Olhou para as m ãos durante um longo m om ento e depois para Clarke. Este gostou do que viu no olhar de Joe, sem pre gostara. Até ali o rapaz nunca o desapontara. Avançava apenas um pouco devagar dem asiado para o gosto de Elizabeth, m as Kate parecia não se im portar e Clarke tinha de respeitar isso. Fosse o que fosse que sentiam um pelo outro, pareciam avançar na direção que desej avam . Eram inseparáveis quando ele se encontrava em casa e estavam visivelm ente apaixonados.

— Não vou casar com ela agora — respondeu Joe abruptam ente, agitando-se um pouco na estreita cadeira da cozinha, com o um a ave grande num poleiro com as asas dobradas. — Não seria certo. Se algum a coisa m e acontecer ela ficaria viúva.

Clarke não precisou de lhe dizer que, casada ou não, ela ficaria devastada. Era m uito j ovem . E aos dezenove anos, era o prim eiro hom em que ela am ava, e talvez o últim o, se a m ãe conseguisse obter dele aquilo que desej ava. Dissera a Clarke na noite anterior que achava que eles deviam ficar noivos. Isso pelo m enos clarificaria as intenções dele e dem onstraria algum respeito por Kate.

— Não precisam os de ser casados. Am am o-nos. Não há m ais ninguém na m inha vida. Não ando saindo com ninguém , nem sairei — explicou Joe a Clarke. Não o havia dito a Kate, m as ela sabia-o por instinto. Confiava nele totalm ente, e entregara-lhe o coração. Não tinha defesas nem um m uro protetor à sua volta, não ocultara nada dele, e era precisam ente isso que preocupava Elizabeth. Não sabia se Joe tinha feito o m esm o, m as desconfiava que não. Ele tinha idade e cautela suficientes para guardar algo para si. Quanto era, precisam ente, a questão. Kate era m uito m ais nova, e m ais ingênua, m ais vulnerável e inocente, em bora tam bém tivesse podido m agoá-lo. Contudo seria incapaz de tal coisa. Disso não havia dúvidas.

— Im agina-se a assentar um dia? — perguntou Clarke. Tinha naquele m om ento a oportunidade de saber o que Joe queria da vida. Nunca haviam podido conversar antes da guerra.

— Acho que sim . Desde que possa continuar a voar e a construir aviões. Sei que terei de fazer isso. Desde que o resto se encaixe, acho que poderia assentar. Nunca pensei m uito no assunto. — Não era bem um a declaração de am or, nem um pedido de casam ento. Era apenas talvez. Joe levara m uito tem po a crescer e não tinha a necessidade em ocional de outra pessoa na sua vida. Com o dissera a Kate, nunca se im portara com o fato de vir a ter filhos ou não. Precisava era de ter aviões. — É bastante difícil pensar no futuro quando colocam os a nossa vida em risco todos os dias, várias vezes ao dia. Quando fazem os isso, nada m ais im porta.

Chegava a efetuar três m issões por dia e quando descolava não sabia se iria retornar. Era difícil pensar para além disso. Na verdade, nem o queria fazer. Restava-lhe concentrar-se no trabalho e na im portância de abater o inim igo. O resto era secundário. Nesses m om entos até Kate o era. Era um luxo que ele podia perm itir-se depois de as coisas im portantes terem sido feitas. Ela teria de esperar até ele ter concluído os seus negócios. E naquele m om ento, a guerra era o negócio dele.

— Am o a Kate, Mister Jam ison — disse Joe a Clarke, pegando no copo de bourbon que Clarke lhe estendia e bebendo um gole. — Acha que ela seria feliz com um hom em com o eu? Alguém seria? Voar está para m im em prim eiro lugar. Sem pre estará. Ela tem de saber isso.

À sua m aneira, Joe era um gênio, tinha idéias brilhantes sobre engenharia aeronáutica e conhecia porm enorizadam ente as m ais ínfim as peças dos seus aviões. Era capaz de voar em qualquer condição im aginável. Sabia tudo o que havia a saber sobre aerodinâm ica. Entendia m uito m enos de m ulheres, sabia-o, e Clarke com eçava a com preender isso. A m ãe de Kate pressentira-o de im ediato.

— Acho que ela seria feliz se você lhe proporcionasse um a vida estável e gostasse dela. Acho que ela vai querer aquilo que todas as m ulheres acabam por querer, um hom em em quem confiar, um a boa casa, filhos. É bastante básico. — Os luxos poderiam os pais dar-lhe, e dariam com a herança, m as a estabilidade em ocional, a segurança teriam de vir dele.

— Acho que isso não é assim tão com plicado — respondeu Joe coraj osam ente, bebendo um longo gole de bourbon.

— Às vezes é m ais com plicado do que parece. As m ulheres aborrecem -se com as coisas m ais estranhas. Não podem os atirá-las para o porta-m alas de um carro com o a um a m ala. Se lhes am arrotarm os as pernas, ou não as apoiarm os, não só a nível em ocional, as coisas não correm m uito bem . — Era um bom conselho, m as Clarke não sabia se Joe j á estaria preparado para ouvi-lo.

— Acho que tem razão. Nunca pensei no assunto. Nunca tive de o fazer. — Tornou a agitar-se na cadeira e abaixou o olhar. Fitava a bebida e não Clarke quando prosseguiu um m inuto depois. — Não m e parece que consiga pensar nisso tudo agora. Por um m otivo: é dem asiado cedo. A Kate e eu m al nos conhecem os e, por outro lado, neste m om ento só consigo pensar em m atar alem ães. Depois, quando a guerra term inar, podem os decidir a cor do linóleo, ou se vam os precisar de cortinas. Neste m om ento, nem sequer tem os um a casa. Creio que nenhum de nós está preparado para tom ar grandes decisões.

Era um a coisa razoável para dizer naquelas circunstâncias, e verdadeira tam bém , m as Clarke ficou um pouco desapontado. Esperava que Joe lhe fosse pedir a m ão de Kate em casam ento. Ele não dissera que não o faria, m as adm itira que não estava pronto. Talvez fosse m elhor ele ser sincero a esse respeito. Clarke achava que, se Joe estivesse preparado para fazer o pedido, Kate teria ficado encantada. Com dezenove anos ela estava m ais pronta a assentar, pelo m enos com Joe, do que ele, j á com trinta e um .

Até ali a sua vida fora bastante diferente. Andara flutuando à volta do m undo, transitando entre pistas de aterrissagem , concentrando-se em voar e no futuro da aviação. Tinha sonhos sobre aviões, e poucos a respeito da vida diária. O que ele precisava fazer depois da guerra, na opinião de Clarke, era concentrar-se m ais naquilo que acontecia no solo em vez de estar sem pre olhando para o céu. De certa form a, Joe Allbright era um sonhador. Os seus sonhos incluiriam Kate?

— O que disse ele? — perguntou nessa noite Elizabeth ao m arido, depois de terem dado boa-noite a Joe e a Kate e fechado a porta do quarto. Pedira-lhe que falasse com Joe se tivesse oportunidade. E para lhe agradar, ele chegara em casa m ais cedo a fim de ter um a conversa com o rapaz, antes de Kate retornar das aulas.

— Resum idam ente. Que não está preparado. ”Não estão preparados”, foi o que ele disse. — Clarke tentou não m ostrar-se m uito desiludido para não apoquentar a m ulher.

— Acho que a Kate estaria pronta se ele estivesse — retorquiu Liz com tristeza.

— Eu tam bém . Mas não podem os forçar as coisas. Ele está na guerra e arrisca a vida todos os dias. É um bocadinho difícil convencê-lo de que precisa ficar noivo.

Um a vez que Kate o am ava tanto, tinham concordado em fazer o possível para aj udá-la. Teriam gostado de clarificar as coisas antes de ele partir de novo. Fora um a bênção ele ter podido vir aos Estados Unidos durante duas sem anas, m as Clarke j á percebera que durante aquele período não haveria noivado. Talvez m ais tarde.

— Não m e parece que ele sej a o tipo de hom em que assenta, m as acho que poderia m udar por am or a Kate. Não tenho a m enor dúvida de que ele a am a m uito, ele próprio m e disse. Acredito nele. Não esteve com rodeios. É louco por ela. Mas tam bém é louco pelos seus aviões.

Fora precisam ente aquilo que Elizabeth tem era nele desde o início.

— E o que acontece se ela ficar a guerra toda à espera dele e ele decidir depois que não quer assentar? A nossa filha desperdiça vários anos e ele destroça-lhe o coração.

Não queria isso para a filha e não havia form a de garantir que tal não iria suceder. Mesm o que se casassem ele podia m orrer e ela ficaria viúva. No entanto, nesse caso talvez ela j á tivesse um filho. Pelo m enos seria algum a coisa. Contudo, não fora aquilo que tinham sonhado para ela. Queriam que tivesse um m arido que a am asse, que quisesse estar com ela e tivesse um a vida estável. Clarke com eçava a achar que Joe seria sem pre um pouco excêntrico. O fato de ser brilhante desculpava a sua peculiaridade. Clarke não sabia se isso era m au, m as dificultava tudo. Concluiu que teriam de ser pacientes e disse-o a Liz.

— Acha que ele estava dizendo que nunca irá casar-se? — perguntou Liz em pânico.

— Não. E creio que acabará por casar com ela. Conheci outros caras com o ele. Levam m ais algum tem po a entrar no estábulo; nem todos os cavalos são dóceis — explicou com um sorriso. — E este é um cavalo selvagem . Tem paciência. Pelo m enos a Kate não parece incom odada.

— É isso que m e preocupa. Ela era capaz de ir para a Lua com ele. Está com pletam ente apaixonada e concordaria com tudo o que ele quisesse. Não a quero ver vivendo num a tenda ao pé de um aeroporto.

— Acho que as coisas nunca chegarão a esse ponto. Podem os com prar-lhes um a casa se for necessário.

— Não é com a casa que estou preocupada É com quem vai viver nela e com quem não vai.

— Ele há de ir lá — tranquilizou Clarke.

— Espero ainda estar viva para presenciar isto — retorquiu ela pesarosa.

O m arido beij ou-a.

— Você inda não é assim tão velha, m inha querida.

No entanto, ela andava sentindo-se cansada, e tam bém deprim ida por estar quase fazendo sessenta anos e querer ver Kate instalada e feliz. O problem a é que estavam na época errada. Havia um a guerra ocorrendo.

Kate não estava infeliz de m om ento, excetuando com o fato de Joe ir partir novam ente para Inglaterra. Contudo, a m ãe achava que o futuro dela não estava assegurado. Joe era um a ave selvagem e orgulhosa e um espírito totalm ente livre. No que dizia respeito a Liz, não havia form a de saber o que ele faria quando voltasse. Não estava tão certa com o o m arido de que ele casaria com Kate, m as pelo m enos tinham tentado.

Nessa noite Joe contou a Kate a conversa e ela ficou furiosa.

— Isso é detestável — disse ela com ar ofendido. Achava que os pais estavam obrigando-o a casar com ela e não queria isso. Só o desej ava se ele a desej asse, e se ele quisesse casar. — Porque é que o m eu pai faz isso. Parece que quer obrigar-te a casar com igo

— Estão preocupados com você — respondeu ele. Com preendia a situação, m as tam bém se sentia pouco à vontade. Nunca tivera de se j ustificar daquela form a, de explicar o que queria, onde iria e o que faria. — Eles estão bem intencionados, Kate. Querem o m elhor para você, e talvez tam bém para m im . Por acaso, sinto-m e lisonj eado. Não m e m andaram em bora da sua casa nem m e disseram que eu não era suficientem ente bom para a filha, e podiam tê-lo feito. Querem saber se eu pretendo m anter-m e por perto e se te am o. E para que saiba, disse ao seu pai que sim . Só tem os de decidir o resto quando eu retornar de Inglaterra, Deus sabe quando.

Aquilo tam bém não agradou a Kate. Ele fora sem pre em purrado pelo vento para a pista de aviação m ais apelativa. No entanto, não quis fazer-lhe perguntas a respeito disso. O pai j á o interrogara o suficiente para um a tarde e ela estava m esm o aborrecida, apesar da boa disposição de Joe. Ficou satisfeita por ele não ter ficado ofendido. Sabia que as palavras que ele dissera ao pai voltariam para a atorm entar, m as naquele m om ento não quis preocupar-se com isso.

O tem po que passaram j untos em setem bro de 1942 foi m ágico. Ela ia às aulas todos os dias e Joe ia lá encontra-la depois. Passavam horas conversando e passeando, sentados sob as árvores, falando da vida e de todas as coisas que eram im portantes para eles. No caso de Joe, eram quase sem pre aviões. Havia tam bém outras coisas, pessoas e lugares que ele queria fazer e conhecer. Enfrentar a m orte todos os dias tornava a vida m ais valiosa.

Passavam tardes preguiçosas de m ãos dadas e aos beij os, e j á tinham com binado que não dorm iriam um com o outro. À m edida que os dias foram passando, isso foi se tornando um desafio cada vez m aior, m as com portaram -se de form a adm irável. Tal com o não queria deixá-la viúva se m orresse, tam bém não queria deixá-la grávida quando voltasse para a Europa. E se um dia casassem , queria que fosse porque am bos o desej avam , não porque tinha de ser. E ela concordara, em bora parte de si quase desej asse que, se algo acontecesse a Joe, ela tivesse no ventre o seu filho. Naquele m om ento restava-lhes apenas confiar no futuro. Não havia prom essas, garantias ou coisas certas, apenas as esperanças, os sonhos e o tem po que tinham passado j untos. O resto era com pletam ente desconhecido.

Quando ele finalm ente a deixou, estavam m ais apaixonados do que nunca e sabiam tudo um do outro. Pareciam com plem entar-se e encaixar na perfeição. Eram diferentes, m as com binavam tão bem que Kate estava convencida de que tinham nascido um para o outro e Joe não discordou. Ainda se sentia por vezes acabrunhado, era tím ido e reservado de vez em quando, perdido nos seus pensam entos, m as ela era capaz de com preender isso e achava as suas pequenas singularidades e m aneirism os deliciosos. E quando ele foi em bora havia nos seus olhos lágrim as ao beij á-la e ao dizer-lhe que a am ava. Prom eteu escrever assim que chegasse na Inglaterra. Foi a única prom essa que lhe fez antes de partir. E para Kate, foi o suficiente.