A Águia Solitária

Danielle Steel · Capítulo 19 de 25

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A Águia Solitária

Capítulo 18

 

A atm osfera entre Andy e Kate foi tensa durante m eses. Mal se falavam , ela andava m uito deprim ida e perdeu m uito peso. Não faziam am or desde que ele regressara aos Estados Unidos. Kate m antinha-se o m ais longe o possível dele. Falava com Joe de vez em quando. Mas tal com o ele sabia que iria acontecer, o tem po e a distância entre eles com eçou a afastá-los, por m uito que ainda se am assem . Andy executara o seu plano de form a brilhante. O golpe fatal fora desferido. No entanto, Kate sabia que por m uito que ele a m antivesse prisioneira, nunca seria capaz de m udar o que ela sentia. Perdera-a para sem pre no m om ento em que a obrigara a ficar com ele e a chantageara com o filho. Kate deixara de sentir algo por ele, até sim patia. A partir daquele m om ento, tudo acabara para ela. Odiava-o, e odiá-lo-ia ainda m ais se soubesse o que ele dissera a Joe.

As coisas m elhoraram ligeiram ente depois do prim eiro aniversário de Reed, em m arço. Andy retornara da Alem anha havia oito m eses, e haviam sido uns m eses difíceis.

Os pais dela com entavam o assunto, m as nenhum deles ousou perguntar o que se passava. Era evidente que o que acontecera os afetara bastante.

Foram para Cape Cod no verão, com o sem pre, e daquela vez Kate e Andy dorm iram em quartos separados. Andy podia obrigar Kate a continuar casada, m as não podia obrigá-la a fazer am or. A vida de am bos tornara-se um pesadelo, o casam ento um a concha vazia. E Kate parecia um fantasm a a deam bular pela casa.

Nesse ano Kate não foi ao churrasco, e quando chegou em casa, o pai com entou que Joe Allbright não fora lá nesse ano. Quando acabou de falar, Andy olhou para Kate e o ódio entre am bos foi tão visível que Clarke ficou atordoado. Quando Kate e Andy voltaram para casa, os pais dela sentiram -se desesperados com o que tinham visto.

Reed j á andava nessa época. Quando chegaram em casa, Kate telefonou a Joe, com o fazia de vez em quando, para saber com o é que ele estava. Hazel inform ou-a de que ele se encontrava na Califórnia, em voos de ensaio, e Kate pediu que lhe m andasse um abraço. Apenas recebia dele postais lacônicos de vez em quando. Há m uito que não conversavam . Aproxim ava-se o Dia de Ação de Graças quando Andy olhou para ela certa noite. O pesadelo em que o casam ento de am bos se tornara durava há um ano.

— Há algum a possibilidade de voltarm os a ser am igos? Sinto saudades de falar com você, Kate. — Tinham perdido tudo o que havia entre am bos quando ele se recusara a deixá-la partir. A sua vitória fora oca, de Kate só restava o invólucro. — Porque não tentam os ao m enos ser am igos? — Ao acabar de falar, viu nos olhos dela que não havia a m enor esperança. Ela partira. Ele fora seu inim igo durante m uito tem po.

— Não sei — respondeu ela. Durante o últim o ano nada sentira por ele. O único hom em que am ava era Joe, e ele saíra da vida dela para voltar à sua, e ao seu outro am or. Os aviões tinham tornado a ser a paixão dele, haviam -no sido sem pre. Só durante um breve espaço de tem po é que ele percebera que podia ter am bos. E agora que ela fora em bora, os aviões eram tudo o que ele queria, tudo o que tinha. Não houvera outra m ulher na sua vida.

Foram passar o Dia de Ação de Graças na casa dos pais de Andy e depois disso, devido a sentir-se sozinha, Kate com eçou de novo a falar com ele. Mas nada m ais. Há dezoito m eses que não dorm ia com ele nem faziam am or. Ela m udara-se para o outro quarto com o filho. Passaram o fim do ano com am igos, chegaram m esm o a dançar e Kate bebeu um a enorm e quantidade de cham panhe. Ele ouviu-a rir nessa noite, e Kate estava tão bêbada que nam oricou com ele a cam inho de casa. Há ano e m eio que Andy não se divertia tanto, e recordou-se dos velhos bons tem pos. Aj udou-a a despir o casaco quando chegaram em casa, e a alça do vestido escorregou do om bro, revelando partes dela que Andy não via há m uito. Ele próprio tam bém bebera bastante e de repente deu consigo a beij á-la e a acariciá-la e ficou espantado quando ela correspondeu.

— Kate?... Não queria aproveitar-se dela durante a em briaguez, m as a tentação era m uito grande para am bos.

Viviam um a vida de celibato apesar de serem casados. Kate tinha vinte e oito anos e ele fizera trinta nesse m ês e haviam acabado de viver o ano m ais solitário das suas vidas.

Ela seguiu-o até ao quarto que j á não partilhavam . Continuava dorm indo no quarto ao lado do dele, e Reed dorm ia no berço. Tinha vinte e um m eses e dorm ia profundam ente quando a am a foi para casa nessa noite.

— Gostaria de dorm ir com igo esta noite, Kate? — perguntou Andy e, sem dizer um a palavra, ela despiu o vestido e enfiou-se na cam a dele. Andy não se iludiu; ela não o am ava. Eram dois náufragos num m ar agitado, a tentarem agarrar-se a tudo para sobreviver. Até um ao outro, se todo o resto falhasse.

Depois disso, ela m al se lem brava de ter feito am or com ele nessa noite. Sabia apenas que acordara na cam a dele e que voltara logo para a sua. Quando ele acordou no dia de Ano Novo ela não estava na sua cam a.

Tiveram am bos ressacas m onum entais e conversaram m uito pouco nesse dia. Kate estava profundam ente aborrecida com o que acontecera na noite anterior. Jurara a si m esm a catorze m eses antes que não voltaria a dorm ir com Andy. E cum prira, até à véspera. Mas estava m uito sozinha e o cham panhe libertara um a torrente de desej o que não fora saciada durante m uito tem po.

Não falaram m ais no assunto e retornaram à sua solidão e só no fim de j aneiro é que ela lhe contou a novidade. Ficara devastada ao descobrir. Era m ais um elo a prendê-la a Andy, m as há m uito que desistira de poder libertar-se. Andy deixara-o bastante claro. Ela pertencia-lhe até ao fim da vida. E agora esperava outro filho.

Andy contava que isso voltasse a aproxim á-los, m as afastou-os ainda m ais. Kate andava constantem ente enj oada, dia e noite. Passou a prim avera na cam a e só se levantava um pouco à tarde para levar Reed ao parque. A sua doença era m ais um a form a de afastar Andy.

Jantavam em silêncio à noite e os únicos sons no apartam ento depois de Andy chegar em casa era o papaguear de Reed. Andy e Kate j á m al se falavam . E em j unho Kate viu nos j ornais que Joe ficara noivo. Telefonou para o felicitar e descobriu que ele estava em Paris. Ele deixara de lhe telefonar. Com vinte e nove anos, Kate tinha a sensação de que a sua vida chegara ao fim . Estava casada com um hom em por quem nada sentia, ia ter um filho que não desej ava e perdera o hom em que sem pre am ara. O bebê deveria nascer em setem bro e Kate parecia não se im portar. As únicas alegrias da sua vida eram o filho e as recordações de Joe.

Foi Andy que acabou por ir ter com ela pouco antes do nascim ento do segundo filho. Kate estava deitada na cam a lendo, e Reed dorm ia ao lado dela. Fizera dois anos em m arço e era um a criança encantadora e m eiga. Ela levantou os olhos do livro quando Andy entrou no quarto. Olhar para ele era o m esm o que olhar para um desconhecido. Era difícil im aginar que j á haviam sido chegados, que haviam estado apaixonados, que haviam sido am igos.

— Com o é que você se sente? — perguntou ele sentando-se na cam a. Durante oito m eses nunca haviam estado tão próxim os. E há quase dois anos que era assim . Os únicos m om entos bons que tinham partilhado haviam sido durante o prim eiro ano de casam ento, antes de ele ter ido para a Alem anha e de Joe ter aparecido.

— Sinto-m e grande — respondeu ela com um sorriso. Falar com ele era com o falar com um hom em quase estranho, alguém que conhecera anos antes e não se via há m uito.

— Achei que gostaria de saber. Vou sair de casa depois de o bebê nascer. — Tom ara a decisão sem anas antes e alugara um apartam ento nessa tarde. Não podia viver m ais assim . Tudo o que haviam partilhado ou sonhado há m uito que m orrera. E sabia que não podia continuar a m antê-la com o um a ave num a gaiola. Há m uito que o espírito de Kate voara dali. A vitória que ele obtivera sobre Joe não tivera o m ínim o significado, Andy sabia-o agora. Kate nunca lhe pertencera. Sem pre havia sido de Joe.

— Porque é que você vai em bora? — perguntou ela pousando o livro.

— Porque hei de ficar? Você tinha razão. Foi um erro. Lam ento ter-te engravidado na noite de fim de ano. Isto veio com plicar as coisas para o seu lado.

— Acho que é o destino. — Novam ente, essa palavra. Era ele que fazia as pessoas irem e virem , ou ficarem , ou desej arem poder ficar, e não tom arem a decisão certa quando deviam . Acaso. — O bebê vai fazer bem ao Reed. Para onde é que você vai. — Parecia estar falando com alguém que encontrara no trem , não com o hom em que outrora am ara. Já não tinha certeza de tê-lo am ado. Provavelm ente não. Tinham funcionado m elhor com o am igos. Ela ficara destroçada depois de ter deixado Joe. Am bos tinham pago um preço m uito elevado pelas suas ações.

— Devia ter te dado ouvidos há dois anos — disse ele. Kate assentiu, m as não disse nada. Os dois anos que ele levara para concordar em dar-lhe o divórcio haviam -lhe custado Joe. Perguntou a si m esm a se ele j á teria casado. Os j ornais não haviam dito m ais nada, apenas que ele ficara noivo vários m eses antes. E agora ela tinha de respeitar isso. Era m uito tarde para am bos. E certam ente para si. Andy desperdiçara a vida dela e destruíra-lhe os sonhos. Estes pertenciam agora à m ulher que ia casar com Joe. Kate não tinha nenhum .

— Provavelm ente tinha razão em querer tentar — disse ela a Andy, tentando ser j usta. Estivera m uito apaixonada por Joe para sequer considerar isso. O casam ento com Andy term inara no m om ento em que ela voltara a ver Joe.

— Volta para ele, Kate — disse, parecendo o am igo que havia sido antes. — Nunca com preendi aquilo que vocês dois tinham , nem por que, m as sej a o que for, é m uito poderoso, m erece tê-lo se o desej a tanto assim . — Kate quase m orrera quando Joe partira. Não restava nada. Sentia-se m orta por dentro. — Diz-lhe que você está livre. Ele tem o direito de saber. — Andy passara dois anos cheio de rem orsos pelo que havia dito a Joe, especialm ente depois de ter visto Kate fechar-lhe todas as portas. Mas não tinha idéia de com o desfazer o m al que lhe fizera aos olhos de Joe. E não tinha coragem de contar a Kate. No entanto, por m uito que ela e Joe se am assem , ou tivessem am ado, Andy desconfiava que Joe lhe perdoaria tudo.

— Ele está noivo — respondeu ela com ar som brio.

— E depois, — retorquiu Andy com um sorriso. — Estávam os casados quando ele voltou a aparecer. Se te am a, há de querer-te agora.

— É assim que as coisas funcionam ? — perguntou, sorrindo pela prim eira vez para Andy após vários m eses. Durante dois anos ele fora o seu carcereiro, nada m ais. Talvez agora, ao libertá-la, pudessem voltar a ser am igos. Era o que ele esperara quando decidira deixá-la partir. Até ele queria m ais. — É m uito tarde para nós. — Andy sabia que ela estava falando de Joe. — Ele está noivo.

— Lem bro-m e de quando todos pensavam que ele tinha m orrido e você continuou acreditado que ele estava vivo. Você está m orta há dois anos, Kate. Precisa voltar a ter um a vida. Você sem pre quis estar com ele.

— Eu sei. É um a loucura, não é? Sem pre quis. Desde a prim eira vez que o vi que fiquei presa a ele. Foi m uito estranho. Parecia que tinha um anzol gigante a prender-m e. Nunca fui capaz de arranca-lo.

— Então não o faça agora. Nada para j unto dele. Faz o que tiver de fazer, m as segue o seu sonho. — Ele fizera-o, m as o sonho que seguira pertencera a outra pessoa, sem pre pertenceria. Ela fora sem pre de Joe, nunca sua.

— Obrigada — disse, e Andy inclinou-se para lhe dar um beij o no rosto.

— Vê se dorm e — disse ele, saindo do quarto.

Ela ficou na cam a pensando em Andy depois de ele ter ido em bora. Era estranho sentir tão pouco, nem tristeza nem alívio. Não sentia nada, não sentira durante dois anos. Estivera adorm ecida. Pensou no que ele lhe dissera a respeito de Joe e perguntou a si m esm a se ainda seria possível. Segue o seu sonho... nada... voa... vai ter com ele... Sorriu ao virar-se de lado e adorm eceu. Era difícil acreditar que o sonho algum a vez seria seu. Sem pre estivera fora do seu alcance. E estava novam ente. Joe ficara noivo e talvez j á tivesse casado. Kate achava que não lhe cabia introm eter-se na vida dele. Joe tinha direito àquilo que conseguira. E era estranho chegar à conclusão que acabara por perder am bos, Andy e Joe. Independentem ente daquilo que Andy lhe dissera, era m uito tarde para telefonar para Joe. O m elhor que podia lhe fazer era deixá-lo partir.

Andy levou-a ao hospital quando chegou a hora. Daquela vez tiveram um a m enina, a quem puseram o nom e de Stephanie. Duas sem anas m ais tarde, Andy saiu de casa. Foi um m om ento surpreendentem ente pouco em otivo. Tudo o que havia entre eles m orrera há tanto que sentiram apenas alívio.

Kate foi para Reno com os filhos e um a am a quando Stephanie fez um m ês. Ficou lá seis sem anas e retornou de trem , divorciada, em 15 de dezem bro. Estivera legalm ente casada com Andy durante três anos e m eio, e na realidade apenas um . Soube por um am igo que Andy estava saindo com um a pessoa e que, aparentem ente, estava apaixonado. Ela desej ou que assim fosse. Tinham estado sozinhos durante m uito tem po. Queria que ele casasse e tivesse m ais filhos. Merecia m uito m ais do que aquilo que ela lhe dera, em bora am assem am bos, Stephanie e Reed. Ele visitava os filhos nas tardes de quarta-feira e em finais de sem ana alternados. Correra tudo de form a tão discreta que parecia não ter acontecido. Agora que term inara, parecia um sonho. Os pais de Kate lam entaram o divórcio m uito m ais que ela ou Andy. Nunca aceitaram nem com preenderam por que m otivo o casam ento chegara ao fim .

Um a sem ana depois de terem retornado de Reno, Kate foi com Reed com prar um a árvore de Natal e sentiu-se ela própria pela prim eira vez em anos. Entoaram cânticos de Natal enquanto cam inhavam e quando chegaram ao terreno onde eram vendidas as árvores, Reed escolheu um pinheiro enorm e. Ela estava indicando aos hom ens onde deveriam entregá-lo, enquanto Reed saltitava e batia palm as, quando viu alguém sair de um carro de cabeça baixa por causa do frio. Com eçara a nevar. Ele tinha um chapéu e um casaco escuro e ela reconheceu-o ainda antes de ele se virar. Nesse m om ento ele viu-a. Era Joe. Ele estacou e sorriu. Não conversavam há m eses nem se viam há dois anos.

Quando ele avançou na sua direção ela não conseguiu deixar de sorrir. Destino. Ali estava Joe. Vê-lo fê-la recordar a m agia que sem pre haviam partilhado. Os seus cam inhos haviam -se cruzado e afastado, m as ele aparecia sem pre outra vez. No churrasco, no navio, no baile quando ela tinha dezessete anos. Tinham passado doze anos. Vê-lo trouxe de volta o sonho.

— Olá, Kate. — Ele viera com prar um pinheiro. Kate j á nem sabia onde ele vivia. Califórnia, Nova Iorque. Noutro lugar. Ela não lhe telefonara nem lhe escrevera. Haviam sofrido m uito dois anos antes. Estava feito, pensou Kate. Pelo m enos, devia a Joe um a certa paz. Mas um poder ou um a força desconhecidos interviera e fizera com que os cam inhos de am bos se cruzassem m ais um a vez.

— Olá, Joe — respondeu ela com um sorriso. Era bom voltar a vê-lo apesar de tudo. Estava na m esm a. Kate sentiu um aperto no coração.

— Com o vai a sua vida? — Ele queria saber m uita coisa, m as parecia pouco apropriado fazer perguntas a Kate com um a m ultidão à volta e com Reed ao lado dela. Já tinha idade suficiente para com preender o que eles diziam .

Kate riu-se, lem brando-se das palavras de Andy antes dele ir em bora. Diz-lhe. Telefona-lhe. Joe encontrara-a. Ela decidiu arriscar.

— Estou divorciada.

— Quando é que isso aconteceu? — Ele pareceu surpreendido, m as satisfeito.

— Voltam os de Reno na sem ana passada. Levei as crianças com igo.

— Crianças? — perguntou ele adm irado.

— A Stephanie. Tem três m eses. Em bebedei-m e na últim a passagem de ano. — Era bastante inform ação para partilharem durante a com pra de um a árvore de Natal, ao fim de dois anos, e Joe pareceu divertido. — E você?

— Tam bém m e em bebedei na passagem do ano, m as não posso m ostrar-te nada. Fiquei noivo em j unho. As coisas não andam m uito bem lá agora. Ela detesta os m eus aviões.

— Então não vai dar certo — com entou Kate. Estava radiante por voltar a vê-lo. Sabiam am bos que nada m udara. A cham a continuava existindo, tal com o desde o início. O que haviam partilhado fora único, e continuava sendo.

— As coisas entre nós darão certo, Kate? — perguntou ele aproxim ando-se. Já tinham sofrido m uito. Talvez fosse m uito tarde, havia sem pre essa possibilidade. Ou talvez tivessem sorte desta vez, se tentassem , se ousassem . Talvez um dia tivessem de ter a coragem de tentar, e de fazer com que as coisas funcionassem . E quando Joe olhou para ela, todas as coisas horríveis que Andy dissera a seu respeito havia dois anos deixaram de im portar.

— Não sei. O que acha? — Ela estava disposta a tudo, m as não queria dizer-lhe.

Correra tanta água debaixo da ponte, oceanos. Guerras, e o im pério que ele construíra, o casam ento dela, o rom ance que haviam tido dois anos antes, e agora o divórcio. Tinham -se j untado e separado tantas vezes, de tantas form as, — m as o elo de ligação continuava lá, a m agia, a cham a. Podiam senti-la naquele m om ento, ao olharem um para o outro na neve.

— Vam os para casa, m am ã — pediu Reed puxando-lhe o braço. Com eçava a ficar im paciente por estar ali à espera e não sabia quem era aquele hom em .

— Vam os j á, querido — respondeu Kate, fazendo um a festa no rosto da criança.

— O que acha? — perguntou Joe, olhando-a intensam ente com os seus olhos azuis enquanto o seu chapéu se cobria lentam ente de neve.

— Agora? Você quer saber agora? — perguntou ela, olhando incrédula para Joe.

— Esperam os doze anos, Kate — respondeu ele calm am ente. Parecia-lhe tem po suficiente.

— Pois esperam os. Se for obrigada a dar-te um a resposta j á, diria para tentarm os. — Quando acabou de falar, Kate susteve o fôlego, sem saber o que iria ele pensar ou dizer, ou se a sua resposta o assustaria e o levaria a fugir. Mas daquela vez ele não ia a lugar algum . Olhou para ela e m anteve-se im óvel.

— Acho que você tem razão. Devem os ser loucos. Só Deus sabe se isto irá dar certo. Tem os andado desencontrados, m as talvez tenha chegado a nossa hora. — Nunca chegara antes. Queriam sem pre um a coisa diferente do outro, algo im possível. Parecia que o destino conspirara para os m anter afastados e agora subitam ente ali estavam . E, com sorte, talvez tivesse chegado o m om ento certo para os dois.

— E a sua noiva? — perguntou Kate com ar preocupado. Andy pusera fim à relação de am bos dois anos antes, e talvez agora fosse Kate a fazê-lo a outros.

— Dá-m e um a hora. Vou dizer-lhe que o proj eto foi cancelado, que ela falhou o voo de ensaio — respondeu ele com um sorriso.

— E quanto a crianças? — Tinha curiosidade a esse respeito, não que fosse um dia querer ter m ais filhos. Era um a conversa de loucos, m as típica deles. Pareciam relâm pagos a brilhar no céu, ilum inando o m undo um do outro.

— Você tem dois filhos, creio. Tem os de decidir tudo neste m om ento. Eu nem fazia idéia de que iria encontrar-te. Há algum a possibilidade de voltar a ver-te para que possam os discutir o resto? — perguntou ele com um a gargalhada.

Kate viu no seu olhar que ele estava feliz e j á não tinha m edo. Pelo m enos naquela hora.

— Creio que sim — respondeu ela a sorrir. A vida por vezes tom a rum os inesperados.

— Você tem o m esm o endereço? — Ela assentiu. Ligo para você logo à noite. Mas por favor não case, não volte para o Andy e nem fuj a. Fica sentadinha um as horas e tenta não se m eter em confusão, está bem ? — pediu ele.

— Vou tentar. — Ela era incapaz de parar de sorrir.

— Muito bem . — Ele aproxim ou-se e abraçou-a. Reed observava-os, intrigado com o hom em . — Bem -vinda, Kate.

A vida dela fora um deserto desde que haviam se separado e a dele fora preenchida por trabalho e aviões e recentem ente por um a m ulher que enj oava andando de elevador e detestava andar de avião com ele, ao contrário de Kate. As suas vidas tinham dado m uitas voltas, e algum as delas inesperadas. Os quase dois anos que ele passara na Alem anha, o casam ento dela com Andy, os dois últim os anos de solidão até ele finalm ente a libertar. Custava a crer que chegara o m om ento certo para am bos. Nenhum deles tinha certeza disso, m as era o que parecia e de repente não havia um m inuto a perder. Joe não pretendia esperar m ais doze anos para descobrir. Não iria deixá-la partir desta vez, nem iria fugir.

— Ligo-te daqui a duas horas e passo em sua casa à noite. Tenho de fazer um a coisa prim eiro.

Kate j á calculava o que era. Joe tinha de rom per um noivado. E, daquela vez, não se im portou com o que ele teria de sacrificar para voltar para j unto dela. Queria-o, sim plesm ente. Tinham subido o Everest e haviam se encontrado lá em cim a, e Kate não pretendia partilhar o prêm io com ninguém . Joe era seu. Conquistara o direito de estar com ele.

Joe telefonou-lhe duas horas m ais tarde e apareceu lá em casa às oito, depois de as crianças se encontrarem dorm indo. Estavam tão fam intos um do outro que não perderam tem po com palavras. Fecharam a porta do quarto e quase se devoraram . Pareciam duas pessoas esfom eadas, e tinham realm ente passado fom e durante m uito tem po. Haviam levado um a eternidade para chegar ali, m as finalm ente estavam em segurança, ou pelo m enos esperavam estar. Era im possível saber. Tinham de tentar. Não havia garantias, apenas sonhos, e nessa noite, quando adorm eceram nos braços um do outro, sabiam que estavam onde sem pre quiseram estar.

Joe brincou com Reed na m anhã seguinte enquanto ela dava de m am ar a Stephanie, e depois enfeitaram a árvore. Passou o Natal com eles e, dois dias depois, ele e Kate dirigiram -se à Câm ara Municipal. Foram sozinhos, de m ãos dadas, sem am igos ou testem unhas, sem falsas esperanças. Telefonaram aos pais dela quando chegaram em casa. A im previsibilidade da notícia chocou-os, m as não os surpreendeu. Liz recordou Clarke que finalm ente perdera a aposta que fizera, a respeito de Joe casar com Kate. Acreditara que ele nunca o faria.

— Nunca pensei ver este dia — disse Liz espantada quando desligou o telefone.

Kate e Joe tam bém não. Haviam levado m uito tem po, num a estrada infinita cheia de curvas.

— Você está feliz? — perguntou Joe quando ela se enroscou na cam a ao seu lado nessa noite.

— Muito feliz — respondeu ela com um sorriso rasgado. Finalm ente era Mrs. Joe Allbright.

Ele observou-a durante m uito tem po depois de ela ter adorm ecido. Tudo nela o fascinava, e Kate era finalm ente sua. Não via com o as coisas poderiam sair m al. Parecia ser a com binação perfeita. Ele sem pre fora a paixão dela, e ela o seu sonho. O final feliz dela surgira. O de am bos.