A Águia Solitária

Danielle Steel · Capítulo 3 de 25

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A Águia Solitária

Capítulo 2

 

Depois do m agnífico baile de debutantes no Natal, e tal com o desconfiara, Kate não teve notícias de Joe Allbright. Apesar do cartão de visita que o pai lhe dera, não telefonou. Ela leu artigos sobre ele e fez questão de procurar todas as notícias a seu respeito; viu o seu nom e nos j ornais e até nos docum entários de notícias passados no cinem a quando ele ganhava algum a corrida. Batera vários recordes na Califórnia, fora elogiado pelo últim o avião que desenhara com a aj uda de Dutch Kindelberger e John Leland Atwood. Kate sabia agora que os voos de Joe eram lendários, m as ele encontrava-se no seu próprio m undo, distante do dela, e sem dúvida havia-a esquecido.

Parecia pertencer com pletam ente a outra vida, a anos-luz da dela. E Kate estava certa de que nunca m ais voltaria a vê-lo. Iria ler artigos acerca dele durante o resto da sua vida e recordar-se das horas que haviam passado a conversar um a noite, quando ela ainda era um a j ovem .

Em abril foi aceita em Radcliffe e os pais ficaram radiantes, tal com o ela. A guerra não corria bem na Europa e falavam disso constantem ente. O pai continuava a insistir que Roosevelt não iria perm itir o envolvim ento dos Estados Unidos, m as m esm o assim , os relatos do que ocorria na Europa eram perturbadores e dois rapazes que ela conhecia tinham ido para Inglaterra j untar-se à RAF. O Eixo com eçara um a contra-ofensiva no Norte de África, e o general Rom m el ganhava sucessivas batalhas com o Afrikakorps. Na Europa, a Alem anha invadira a Iugoslávia e a Grécia, e a Itália declarara guerra a Iugoslávia. E em Londres, duas m il pessoas eram m ortas por dia nos ataques da Luftwaffe.

Devido à guerra, j á não podiam ir à Europa no verão pelo que, pela segunda vez, passaram esse período em Cape Cod. Tinham lá um a casa e Kate sem pre gostara de ir lá. Estava especialm ente anim ada naquele verão, um a vez que iria para o colégio no outono. A m ãe ficara satisfeita por ela não ter de ir para m uito longe. Cam bridge ficava apenas do outro lado do rio e Kate e a m ãe trataram de todos os preparativos antes de irem para Cape, onde tencionavam ficar até o Dia do Trabalho, a prim eira segunda-feira de setem bro. Clarke visitá-las-ia aos finais de sem ana, com o habitualm ente.

Foi um verão de tênis e de festas e de longos passeios na praia com os am igos. Kate nadava no m ar todos os dias, e conheceu um rapaz m uito sim pático que ia para Dartm outh no outono, e outro que entraria no segundo ano em Yale. Eram todos j ovens abastados, inteligentes e com sólidos valores m orais. Um grande grupo deles j ogava de tudo na praia, desde o golfe ao croquet, passando pelo badm inton, e m uitas vezes os rapazes j ogavam futebol enquanto as garotas assistiam . Foi um verão longo e despreocupado e as únicas som bras chegavam na form a das notícias vindas da Europa, que a cada dia que passava eram m ais preocupantes.

Os Alem ães haviam tom ado Creta, e havia confrontos ferozes no Norte de África e no Oriente Médio. Os Britânicos e os Italianos travavam com bates aéreos sobre Malta. E no final de j unho, os Alem ães tinham invadido a Rússia e apanhado os Russos com pletam ente desprevenidos. Um m ês m ais tarde, o Japão entrara na Indochina. Foi um verão de batalhas ferozes e de m ás notícias vindas de todo o m undo.

Quando Kate não estava pensando na guerra, pensava na sua ida para Radcliffe. Faltavam apenas alguns dias, e ela estava m uito m ais anim ada do que deixava transparecer. Muitos dos seus am igos do liceu tinham optado por não continuar os estudos. Ela era m ais a exceção do que a regra. Duas das am igas tinham -se casado após o fim do liceu e outras três haviam anunciado os seus noivados nesse verão. Com dezoito anos, Kate sentia-se j á um a solteirona. Dentro de um ano, a m aior parte teria filhos e ainda m ais am igos seus ter-se-iam casado. Mas ela concordava com o pai, queria ir para o colégio, em bora ainda não soubesse o que iria estudar.

Se o m undo fosse diferente, teria gostado de estudar Direito. Mas era um sacrifício dem asiado grande. Sabia que se escolhesse a carreira de advogada talvez nunca pudesse casar. Era um a decisão que tinha de ser tom ada, e o Direito com o carreira não era um m undo para as m ulheres. Iria estudar algo com o Literatura ou História, com a vertente de Italiano ou Francês. Se não pudesse fazer m ais nada, talvez um dia desse aulas. Mas, para além do Direito, m ais nenhum a carreira a fascinava. E os pais partiam do princípio de que ela se casaria quando term inasse os estudos. O curso seria um a ocupação interessante enquanto esperava pelo hom em certo.

O nom e de Joe surgiu depois de ela o ter conhecido, um a ou duas vezes nos m eses seguintes, não ligado diretam ente a ela, m as a algo novo ou im portante que ele conseguira. O pai m ostrava-se ainda m ais interessado nele depois de o ter conhecido e m encionou-o a Kate m ais do que um a vez. Mas ela não precisava de ser incitada, não o esquecera, em bora não tivesse voltado a ter notícias suas. Era apenas um a pessoa m uito interessante que ela conhecera e o seu fascínio acabou por esm orecer. Os seus outros interesses, com o o colégio e os am igos, eram bastante m ais reais.

Era o últim o fim de sem ana do verão, o fim de sem ana do Dia do Trabalho, quando ela e os pais foram a um a festa a que costum avam ir todos os anos, norm alm ente depois de regressarem da viagem de verão. A festa era um churrasco dado pelos seus vizinhos em Cape Cod. Todas as pessoas da zona ia, havia crianças e pessoas de idade, e fam ílias, e os anfitriões faziam um a enorm e fogueira na praia. Kate estava com um grupo de am igos assando m arshm allows e salsichas quando recuou um passo e esbarrou em alguém que não tinha visto. Voltou-se para pedir desculpa por ter-lhe dado um a pisadela, em bora soubesse que não devia ter doído m uito. Estava descalça, em calções. E ao levantar os olhos para o rosto da vítim a, descobriu espantada que se tratava de Joe Allbright. Assim que o viu, ficou espantada, incapaz de falar, segurando o espeto com o m arshm allow ardendo. Joe sorriu.

— É m elhor olhar para isso antes que pegue fogo em alguém .

— O que está fazendo aqui?

— À espera de um m arshm allow, — respondeu ele, — os seus parecem dem asiado passados. Estavam transform ando-se em cinzas no espeto; ela continuava a fitá-lo, incapaz de acreditar que ele realm ente estava ali. Ele parecia feliz por vê-la e, de calças caqui e cam isola, tinha o ar de um garoto. Tam bém estava descalço.

— Quando é que regressou da Califórnia? — perguntou ela, sentindo novam ente a velha em patia. Sentiam -se com o velhos am igos e pareciam ter esquecido todas as pessoas em volta. Ela estivera com um grupo de rapazes e garotas da m esm a idade e ele fora de carro a Cape com um am igo.

— Não regressei da Califórnia, — respondeu ele com um sorriso, feliz por tê-la encontrado. — Ainda estou lá e estarei pelo m enos até o final do ano. Só vim aqui passar uns dias. Ia ligar para o seu pai na terça-feira e renovar o m eu convite. Já com eçou as aulas?

— Com eço na próxim a sem ana. — Era incapaz de se concentrar. Joe estava bronzeado e m uito bonito, o cabelo m ais louro e ela reparou com o os seus om bros eram largos e m usculosos sob a cam isola e não sob o casaco em prestado que levara à festa. Era ainda m ais bonito do que ela recordava e Kate perdeu subitam ente a fala, o que era um a coisa pouco com um nela. Joe continuava parecendo-lhe um a ave gigantesca am arrada à terra, com os seus braços com pridos, os m ovim entos nervosos das pernas e dos pés. Mas ele agora aparentava sentir-se m ais à vontade com Kate. Pensara nela m uitas vezes e sentia-se m ais fam iliarizado com a situação. Kate continuava segurando no espeto queim ado com os m arshm allows, que não só estavam esturricados com o tam bém gelados. Com um gesto m eigo, ele tirou-lhe das m ãos e atirou-o no fogo.

— Já com eu? — perguntou ele, tom ando o controle da situação.

— Só m arshm allows — respondeu ela com um sorriso tím ido. Joe estava m uito perto dela e, sem querer, a m ão dele tocou na sua.

— Antes de j antar? Sua m arota. Que tal um a salsicha? — Kate assentiu. Ele pegou um espeto, tirou duas salsichas de um tabuleiro, espetou-as e aproxim ou-as do fogo. — Então o que tem feito desde o Natal? — perguntou com interesse.

— Acabei o liceu. Entrei em Radcliffe. E é tudo. — Sabia tudo o que ele fizera, ou pelo m enos os recordes que batera. Lera nos j ornais e o pai falava dele constantem ente.

— Muito bem . Sabia que entraria em Radcliffe. Estou orgulhoso de você — disse, e ela corou. Felizm ente, a noite j á caíra, e ali estavam am bos na praia, com a fina areia branca fresca sob os pés.

Joe parecia m ais confiante do que oito m eses antes. Ou talvez fosse apenas por j á se conhecerem . O que Kate desconhecia era que ele havia pensado tantas vezes nela que, na sua m ente, j á eram com o velhos am igos. Tinha o hábito de rever cenas, situações e pessoas na m ente, com o se estivesse vendo um film e, até se tornarem fam iliares.

— Tem dirigido? — perguntou com um sorriso travesso.

— O m eu pai diz que sou um a péssim a m otorista, m as acho que até sou bastante boa. Pelo m enos m elhor que a m inha m ãe. Ela anda sem pre batendo com o carro — respondeu Kate, retribuindo o sorriso.

— Então talvez j á estej a apta a ter lições de voo. Havem os de tratar disso quando eu voltar aqui. Vou regressar a New Jersey no final do ano, para ser consultor num proj eto com o Charles Lindbergh. Mas prim eiro tenho de acabar um as coisas na Califórnia.

Kate não sabia por que, m as ficara radiante por saber que ele ia regressar para a costa este. E tinha consciência de que era um a idiotice , porque não havia razões para pensar que ele quereria vê-la. Era um hom em de trinta anos, m uito bem sucedido na sua área. Ela era apenas um a estudante universitária, ou nem sequer isso. Sabendo quem ele era, Kate sentiu-se ainda m ais im pressionada que da prim eira vez. E era por isso que se m ostrava tím ida. Joe estava m uito m ais à vontade do que na festa.

— Quando com eçam as aulas, Kate? — perguntou ele, quase com o se ela fosse a sua irm ã m ais nova, em bora, tal com o Kate, ele fosse filho único. Tinham isso em com um . Os pais haviam m orrido quando ele era bebê e fora criado por prim os da m ãe, de quem ele adm itia prontam ente não ter gostado e que tam bém não haviam gostado dele.

— Esta sem ana. Tenho de m e m udar na terça — respondeu ela.

— Que grande excitação! — com entou ele, entregando-lhe um a salsicha.

— Não tão excitante com o o que você tem feito. Tenho seguido os seus passos pelos j ornais. — Ele sorriu ao ouvir aquilo, lisonj eado por ter se lem brado dele. Haviam pensado m uito um no outro, m as seria em baraçoso adm iti-lo. — O m eu pai é o seu m aior adm irador. — Joe ainda se recordava de com o ele se m ostrara interessado em si e do quanto sabia a seu respeito. Ao contrário de Kate, que apenas o considerara um cara sim pático e não tinha idéia de que estivera perante um herói.

Term inaram as salsichas e sentaram -se num tronco bebendo café e com endo sorvete. Era servido em cones de baunilha e o de Kate j á com eçara a pingar por todos os lados. Joe observava-a enquanto bebia o café. Adorava olhar para ela, era tão bonita e j ovem , cheia de energia e de vida. Assem elhava-se a um j ovem puro-sangue, a escoicear e aos saltos, lançando a crina de cabelo verm elho-escuro para trás dos om bros. Nunca na sua vida ele pensara que encontraria alguém com o ela. As m ulheres que conhecera ao longo dos anos haviam sido m uito m ais sim ples e apagadas. Kate parecia um a estrela a brilhar nos céus e Joe era incapaz de tirar os olhos dela, com m edo de perde-la.

— Quer dar um passeio? — perguntou por fim , depois de ela ter lim pado os pingos do sorvete.

Ela assentiu com um sorriso.

Cam inharam pela praia com a lua quase cheia brilhando sobre a água. Conseguiam ver tudo na praia e seguiram lado a lado, m uito próxim os, calados durante algum tem po.

Mom entos depois, ele olhou para o céu e depois para Kate e sorriu.

— Adoro voar em noites com o esta. Acho que você tam bém iria gostar. Parece que estam os próxim os de Deus durante algum tem po, é tão calm o. — Partilhava com Kate o que para si era m ais im portante. Pensara nela um a ou duas vezes quando fizera voos noturnos e desej ara que ela tivesse estado com ele. Depois dissera a si m esm o que era m aluco. Ela era apenas um a criança e, se voltasse a vê-la, j á deveria tê-lo esquecido. Mas não esquecera, e sentiam -se com o velhos am igos. Parecia um a dádiva do destino o fato de terem voltado a encontrar-se. Apesar do que lhe dissera, ele ainda não tivera coragem de telefonar ao pai dela. Encontrá-la no churrasco resolvera-lhe o problem a.

— O que o levou a apaixonar-se por voar? — perguntou ela quando com eçaram a andar m ais devagar. Estava um a noite agradável e m uito bonita e a areia parecia cetim sob os pés.

— Não sei... sem pre gostei de aviões, m esm o quando ainda era pequeno. Talvez quisesse fugir... ou subir tão acim a do m undo que ninguém pudesse tocar-m e.

— Do que é que fugia?

— Das pessoas. De coisas m ás que tinham acontecido, e de m e sentir m al por causa delas. — Nunca conhecera os pais e os prim os que o tinham criado haviam sido cruéis. Não houvera am or entre eles. Haviam -no sem pre feito sentir-se um intruso. E aos dezesseis anos, Joe deixara-os. Tê-los-ia deixado antes se pudesse. — Sem pre gostei de ficar sozinho. E gosto de m áquinas. E das pecinhas que as fazem funcionar e dos porm enores de engenharia. Voar é com o m agia, j unta todas aquelas coisas e, quando dam os por nós, estam os no céu!

— Faz com que isso pareça m aravilhoso!

Pararam e sentaram -se na areia. Tinham percorrido um a distância considerável e estavam cansados.

— É m aravilhoso, Kate. É tudo aquilo que eu quis ser e fazer quando crescesse. Custa-m e a crer que agora m e paguem para fazer isto.

— Isso é porque você é m uito bom no que faz.

Ele baixou a cabeça por m om entos, com hum ildade, e Kate ficou sensibilizada com o que viu e pressentiu nele.

— Um dia, gostaria que voasse com igo. Não vou assustá-la, prom eto.

— Você não m e assusta — retorquiu ela m uito calm a. Estavam sentados m uito j untos, e aquilo assustava m ais Joe do que Kate. O que o assustava ainda m ais eram os seus sentim entos. Estava intrigado. E encontrar-se sentado ao seu lado atraía-o com o a um ím ã. Era doze anos m ais velho que ela. Kate vinha de um a fam ília rica, um a fam ília relativam ente im portante, e iria frequentar Radcliffe.

Joe não pertencia àquele m undo e sabia-o. Mas não era o seu m undo que o atraía, era ela própria e o fato de se sentir bem ao seu lado. Nunca conhecera um a m ulher assim . Nem sequer as da sua idade. Nam orara com várias, na sua m aior parte m ulheres que rondavam as pistas de aviação ou garotas que conhecia por interm édio dos outros pilotos, norm alm ente irm ãs. Mas nunca tivera m uito em com um com qualquer delas. Só gostara realm ente de um a e ela casara com outro, pois dissera que estava sem pre sozinha, que ele não tinha tem po para ela. Não conseguia im aginar Kate sentindo-se sozinha, era m uito cheia de vida e dem asiado independente, e era isso que o atraía. Mesm o com dezoito anos j á era um a pessoa com pleta. Por aquilo que ele podia ver, não havia necessidades que ele tivesse de lidar e não pudesse, nenhum a expectativa ou adm oestação. Era apenas quem era e seguia o seu próprio cam inho, com o um com eta, e Joe só queria apanhá-la quando ela passasse por perto.

Kate contou-lhe então que gostaria de estudar Direito, m as que seria m elhor desistir, porque não era um a carreira indicada para um a m ulher

— Isso é um disparate — com entou ele. — Se é isso que desej a, porque não vai para a frente?

— Os m eus pais não querem . Querem que eu faça o curso, m as desej am que m e case. — Ela parecia desiludida. Achava aquilo tão aborrecido.

— Porque não pode fazer as duas coisas? Ser advogada e casar. — Parecia-lhe um a coisa razoável, m as ela lim itou-se a abanar a cabeça. O seu cabelo agitou-se com o um a cortina verm elho-escura. Contribuía para lhe dar um ar ainda m ais sensual e há j á algum tem po que ele tentava resistir a essa sensualidade. Fora bem sucedido, ela nem pressentira que ele se sentia atraído por ela. Achava que estava apenas sendo sim pático e m eigo.

— Consegue im aginar um hom em que deixe a m ulher exercer direito? Qualquer hom em com quem eu casasse haveria de querer que eu ficasse em casa e tivesse filhos. — As coisas eram m esm o assim , e am bos sabiam -no.

— Há alguém com quem queira casar, Kate? — perguntou bastante interessado. Talvez ela tivesse conhecido alguém desde o Natal, ou j á conhecesse antes. Joe não sabia assim tanto a respeito dela.

— Não, — respondeu, — não há.

— Então por que preocupar-se com isso? Por que não faz o que quer até encontrar o hom em certo? É com o preocupar-se com um trabalho que ainda não tem . Talvez conheça um rapaz sim pático em Radcliffe. — E depois voltou-se para ela com um a pergunta. As pernas de am bos quase se tocavam , esticadas na areia, m as ele não tentou pegar-lhe na m ão ou pôr-lhe um braço sobre os om bros. — Casar é assim tão im portante? Ele, com trinta, ainda não estivera perto de o fazer. E Kate tinha apenas dezoito anos. Parecia ter diante de si um a vida inteira para poder casar-se e ter filhos. Era estranho ouvi-la falar daquilo, com o se fosse um a carreira escolhida e não o resultado natural de algo que sentisse por alguém . Joe perguntou a si m esm o se os pais dela pensariam assim . Não seria de estranhar. Mas ao contrário da m aior parte das m ulheres, que eram m ais reservadas, ela foi com pletam ente franca.

— Acho que o casam ento é im portante, todas as pessoas dizem que é. E creio que um dia tam bém o será para m im . Só não consigo im aginá-lo neste m om ento. Não tenho pressa. Ainda bem que vou estudar prim eiro. — Era um adiam ento para os planos que a m ãe tinha para si. — Nem sequer vou ter de pensar no assunto durante quatro anos, e nessa hora sabe-se lá o que vai acontecer.

— Podia fugir e j untar-se a um circo — disse ele, fingindo querer aj udar, e ela soltou um a gargalhada, deitando-se na areia e pousando a cabeça no braço. Nunca vira ninguém tão belo, pensou ele ao contem plá-la ao luar. Teve de recordar-se da idade que tinha e de que ela não passava de um a criança. Mas, ali deitada, Kate não parecia um a criança; era j á m uito m ulher. Joe desviou o olhar por m om entos, para se recom por. Kate não fazia idéia do que lhe ia na alm a.

— Acho que gostaria de trabalhar num circo — disse ela para a nuca dele. Joe observava as estrelas. — Quando era criança achava as roupas o m áxim o. E os cavalos. Sem pre adorei os cavalos. Os leões e os tigres assustam -m e.

— A m im tam bém . Fui um a vez ao circo, em Minneapolis. Achei-o m uito barulhento. E detestei os palhaços, não lhes achei graça nenhum a. — Aquilo era tão típico dele que ela sorriu. Im aginava-o um rapazinho m uito sisudo, deslum brado com a ação. E os palhaços tam bém lhe haviam parecido sem pre dem asiado óbvios. Preferia coisas m ais sutis, tal com o ele. Por m uito diferentes que fossem , tinham bastantes coisas em com um . E sem pre, logo abaixo da superfície, aquela atração irresistível.

— Nunca gostei dos cheiros do circo, m as acho que seria divertido viver com todas aquelas pessoas. Teria sem pre alguém com quem falar.

Riu-se quando ela disse aquilo e virou-se. Do pouco que sabia a respeito de Kate, parecia-lhe típico ela gostar das pessoas. Fora um a das coisas que o cativara, o seu à vontade. Nunca tivera esse dom , e adm irava-o. Mas para Kate era natural e instintivo, um a parte integrante dela.

— Não consigo im aginar nada pior. É por isso que voo tanto. Não tenho de falar com ninguém desde que fique lá em cim a. No chão há sem pre alguém que quer m e dizer qualquer coisa, ou eu tenho de dizer qualquer coisa. É m uito cansativo. — O seu olhar tinha um a expressão de dor. Havia horas em que m anter um a conversa lhe era bastante penoso. Perguntava-se se isso seria típico dos pilotos. Fizera vários voos longos com Charles em que não disseram nada um ao outro, e haviam -se sentido m uito bem . Falavam só depois de aterrissarem e de abrirem a porta do cockpit. Eram voos perfeitos. Mas Joe não conseguia im aginar Kate sentada em silêncio durante oito horas. — Acho as pessoas m uito cansativas. Esperam tanto de nós. Interpretam m al o que dizem os, pegam nas nossas palavras e distorcem -nas. Com plicam sem pre tudo.

Aquele aspecto dele era interessante.

— É assim que gosta das coisas, Joe? — perguntou ela suavem ente. — Calm as e sim ples?

Ele assentiu. Detestava com plicações. E sabia que a m aior parte das pessoas as adorava.

— Eu tam bém gosto de coisas sim ples — disse Kate, ponderando no que ele acabara de lhe dizer. — Quanto às calm as, não sei. Gosto de falar, gosto de pessoas, de m úsica... e às vezes de barulho. Detestava a casa dos m eus pais quando era criança porque era sem pre m uito silenciosa. Eles eram m ais velhos e m uito calados e eu não tinha com quem falar. Era com o se esperassem que eu m e com portasse com o um a adulta, só que m enor. Eu queria ser criança, suj ar-m e, fazer barulho, partir coisas e despentear-m e. Nunca havia nada desarrum ado em nossa casa. Era sem pre tudo tão perfeito. Não foi fácil.

Ele era incapaz de im aginar um a coisa assim . Vivera no m eio do caos na casa dos prim os, onde tudo estava sem pre desarrum ado, a casa sem pre suj a, as crianças com um ar desm azelado. Quando eram pequenas choravam sem parar, e depois de crescerem discutiam constantem ente em voz m uito alta. Ele só fora feliz depois de ter saído de lá. Perguntavam -lhe sem pre o que é que ele tinha de errado, queixavam -se sem pre do trabalho que ele dava e am eaçavam m andá-lo para casa de outros prim os. Ele não se afeiçoara a ninguém , sem pre com receio de que acabassem por m andá-lo em bora, pelo que não valeria a pena gostar deles. E fora assim desde essa época, com outros hom ens e até com m ulheres, especialm ente com m ulheres. Era m ais feliz quando se m antinha reservado.

— Você tem a vida que todas as pessoas gostariam de ter, Kate. O problem a é que essas pessoas não im aginam com o seria se a tivessem . De certa form a calculo que sej a opressivo. — Ela pintara um retrato de rigidez e perfeição. No entanto, era tam bém um am biente seguro providenciado pelas pessoas que a am avam , e ela sabia-o. Mas ansiava ir para o colégio e afastar-se deles. Estava pronta. — O que faria se tivesse filhos? O que m udaria?

Era um a pergunta interessante, e fê-la m editar.

— Acho que os am aria m uito e que os deixaria ser quem fossem , não quem eu queria que eles fossem . Não havia de querer que eles fossem eu, m as eles próprios. E deixá-los-ia fazer m ais coisas que eles gostassem . Com o você. Se quisessem voar, eu deixaria. Não m e preocuparia com o perigo, com o fato de ser um a loucura, nem lhes diria que não é próprio e que teriam de fazer o que eu esperava. Acho que os pais não têm o direito de fazer isso, obrigar as pessoas a m eterem -se em m oldes porque foi isso que eles fizeram . — Era evidente que ansiava por liberdade. Era tam bém o que ele sem pre quisera. Não havia grilhões suficientem ente fortes para o segurar. Ele não só queria, com o tam bém precisava da sua liberdade, para conseguir sobreviver. Teria quebrado qualquer corrente, qualquer cadeado, qualquer coisa que o prendesse. Era algo de que nunca desistiria por ninguém , por nada.

— Talvez tenha sido m ais fácil para m im , porque não tive pais. — Joe contou-lhe que os pais tinham m orrido num acidente quando ele tinha seis m eses e que fora m orar com uns prim os.

— Eles foram bons para você? — perguntou com pena. Não parecia ter sido um a história feliz.

— Nem por isso. Usaram -m e para dar os recados e tom ar conta dos filhos deles. Eu era apenas outra boca para alim entar. E quando veio a Depressão ficaram contentes por ver-m e partir. Facilitou-lhes as coisas. Nunca tiveram dinheiro.

E Kate conhecera apenas o luxo, a segurança e o conforto. A Depressão não afetara a fam ília financeiram ente, ou pelo m enos a da m ãe. Kate só conhecera um a existência segura, com pletam ente protegida. Custava-lhe até im aginar com o teria sido a vida de Joe. Para ele, voar significava liberdade. Ela nunca tivera isso, nem ansiara por tal. Queria apenas um pouco m ais de liberdade do que a que tinha. A sua necessidade era inferior à dele.

— Um dia quer ter filhos? — Kate perguntava-se com o eles iriam encaixar-se na sua vida, ou se seriam im portantes. Ele tinha idade suficiente para pelo m enos ter pensado no assunto.

— Não sei. Nunca pensei m uito nisso. Talvez não. Acho que não seria um grande pai. Nunca estaria presente, estaria sem pre voando. E as crianças precisam de um pai. Provavelm ente seria m ais feliz se não tiver filhos. Se tivesse, se calhar andaria sem pre pensando naquilo que não fiz por eles e sentiria-m e m al.

— Quer casar-se?

Kate estava fascinada, nunca conhecera ninguém assim , ninguém tão sincero. Tinham isso em com um . Diziam o que lhes ia na alm a, sem m edo do que os outros pudessem pensar deles. Era raro Joe abrir-se daquela form a, m as nada tinha a esconder nem nada de que se desculpar. Não deixara detritos no seu rastro, e nunca m agoara outra pessoa, pelo m enos que soubesse. Até a garota de quem gostara, que o deixara, não o fizera zangada. Fora-se em bora quando percebera que ele não podia estar presente. Outras coisas eram m ais im portantes para Joe, m as ele nunca o escondera.

— Nunca conheci um a m ulher capaz de se encaixar na m inha vida sem ficar infeliz. Acho que voar é um a vida solitária para a m aior parte das pessoas. Não sei com o é que o Charles consegue ser casado, pois não passa m uito tem po em casa. Acho que a Anne se m antém ocupada com os filhos. É um a m ulher extraordinária. — E sofrera m uito. Kate tinha m uita pena dela. — Talvez encontre alguém com o ela... — Joe sorriu a Kate, agora j á eram am igos, — em bora isso sej a pouco provável. Há poucas m ulheres assim . Não sei, acho que sem pre pensei que não era talhado para o casam ento. Devem os fazer na vida aquilo que querem os, e ser quem querem os. Não podem os obrigar-nos sendo algo que não som os. Não funciona. É aí que as pessoas se m agoam . Muito. Não quero fazer isso a ninguém nem a m im próprio. Preciso fazer o que faço e ser quem sou.

Ao ouvi-lo Kate pensou que devia estudar Direito. Mas sabia que os pais iriam ficar tristes. Joe estava sozinho no m undo, e sem pre estivera. Não tinha de responder perante ninguém , nem de agradar aos outros, apenas a si próprio. A vida dela era com pletam ente diferente. Carregava nos om bros o fardo das esperanças e dos sonhos dos pais, e seria incapaz de fazer algo para os m agoar ou desiludir. Não podia fazer isso. Especialm ente depois daquilo por que o pai as obrigara a passar.

Ficaram sentados em silêncio durante m ais algum tem po, descontraídos e a gozar da com panhia um do outro, pensando nas palavras que haviam trocado. Tudo tão sincero, tão aberto. Não havia artifícios nem fingim entos, e por m uito diferentes que fossem , e que as suas vidas tivessem sido, sentiam -se fortem ente atraídos um pelo outro. Eram com o duas faces da m esm a m oeda.

Joe foi o prim eiro a falar, virando-se para a olhar de novo e vendo-a deitada tranquilam ente na areia contem plando a Lua. Não ousara deitar-se ao seu lado, com receio do que pudesse vir a sentir. Seria m elhor m anterem um a certa distância. Era a prim eira vez que sentia tal coisa, m as o m agnetism o dela era forte com o as m arés.

— Acho que devíam os voltar. Não quero que os seus pais fiquem preocupados ou que m andem a polícia à m inha procura. Já devem pensar que você foi raptada.

Ela assentiu e endireitou-se devagar. Não dissera a ninguém onde ia, nem com quem , m as calculava que várias pessoas a tivessem visto afastar-se. Não sabia se tinham reconhecido Joe, m as tam bém não dera explicações nem se dera ao trabalho de ir procurar os pais para lhes dizer. Receara que o pai quisesse ir com eles, não por desconfiar de Joe, m as por gostar tanto dele.

Joe deu-lhe a m ão, aj udando-a levantar-se e regressaram devagar na direção da fogueira que ainda conseguiam ver, lá bem ao fundo na praia. Kate ficou adm irada ao reparar na distância que haviam percorrido, m as nem dera por isso ao lado de Joe. E a m eio do cam inho, enfiou a m ão no braço dele, e ele encostou o braço ao tronco, sorrindo. Ela teria dado um a excelente am iga, só que, para seu grande desgosto, ele queria m ais do que am izade. Mas não iria perm itir que isso acontecesse e ceder aos seus sentim entos. Não estava em posição de o fazer. Na sua opinião, Kate m erecia m ais do que ele tinha para dar. Com todo aquele à vontade e beleza, parecia longe do seu alcance.

Levaram m eia hora para chegar j unto dos outros e ficaram am bos surpreendidos ao ver que ninguém dera pela falta deles, ou sequer reparara que tinham se afastado.

— Acho que podíam os ter ficado lá m ais tem po — disse Kate sorrindo para Joe quando este lhe entregou um a caneca de café e se serviu de um copo de vinho. Raram ente bebia, porque estava sem pre voando. Mas nessa noite não iria pilotar nenhum avião.

Joe sabia que não podia ter ficado afastado da festa durante m uito m ais tem po com Kate. Não confiava nas suas ações perto dela. O que sentia era dem asiado poderoso e confuso e quase ficou aliviado quando os pais vieram à sua procura porque iam em bora. Clarke Jam ison m ostrou-se encantado por vê-lo.

— Que agradável surpresa, Mister Allbright. Quando é que regressou da Califórnia?

— Ontem — respondeu Joe com um sorriso, depois de ter apertado a m ão dos pais de Kate. — Só vim passar uns dias aqui. Pretendia ligar-lhe.

— Quem m e dera que o fizesse. Ainda estou à espera de apanhar carona sua um dia destes. Talvez da próxim a vez que vier aqui.

— Está prom etido — asseverou Joe. Considerava-os pessoas m uito sim páticas. Deixaram Kate sozinha com ele durante alguns m inutos para irem despedir-se e agradecer aos anfitriões, de quem eram velhos am igos. Então Joe virou-se para ela com um a expressão estranha. Queria perguntar-lhe um a coisa, pensara nisso toda a noite. Não sabia se era apropriado, ou se ela teria tem po depois de com eçar as aulas. Mas decidiu fazer a pergunta do m esm o j eito e j á dissera a si próprio que não havia qualquer risco para am bos, o que era um pouco errôneo. Mas, acim a de tudo, não queria induzi-la em erro ou tentá-la m ais do que o suportável. Sentia-se grato pela distância entre am bos, pelo m enos física.

— Kate, — com eçou ele, parecendo de novo tím ido, e ela reparou. — O que acharia de escrever-m e de vez em quando? Adoraria ter notícias suas.

— Sério? — perguntou Kate surpreendida. Depois de tudo o que dissera a respeito de não se casar e de não ter filhos, ela sabia que ele não andava atrás dela. Tinha quase certeza de que ele só queria a sua am izade. De certa form a, isso parecia-lhe um a coisa segura, m as tam bém um desapontam ento. Sentia-se m uito atraída por Joe. E ele não dera a entender que o sentim ento era recíproco. Pelo pouco que haviam falado, percebera que ele era exím io em esconder o que sentia.

— Gostaria de saber o que você anda fazendo — disse Joe num tom benigno que servia apenas para ocultar o seu pouco à vontade. Sabia o suficiente para não o revelar, pelo m enos. — Eu falo-lhe dos m eus voos de ensaio na Califórnia, se não achar o assunto m uito enfadonho.

— Gostaria m uito! E, em princípio, poderia passar ao m eu pai as cartas. Ele tam bém gostaria de le-las.

Joe escreveu o endereço num papel e entregou-lhe.

— Não sou um grande escritor, m as vou fazer o m elhor possível. Gostaria que ficássem os em contato e de saber com o é que as aulas estãp. — Joe esperava parecer um velho am igo, ou um tio, nunca um pretendente ou um potencial m arido. Kate pensava que fora extrem am ente sincero consigo, m as havia coisas que lhe om itira, com o por exem plo, sentir-se m uito atraído por ela, e tem er isso. Se se perm itisse, poderia entregar-se-lhe totalm ente e, se tinha a certeza de algum a coisa era de que nunca iria perm itir que isso acontecesse. Se pudesse canalizar os seus sentim entos para a am izade, não haveria riscos ou perigos para am bas as partes. Mas independentem ente do que acontecesse, não queria perdê-la. Daquela vez, queria m anter-se em contato com ela.

— Tem o cartão do m eu pai com o nosso endereço. E assim que o souber, m ando-lhe o m eu endereço de Radcliffe.

— Escreva-m e assim que o tiver. — Isso significava que teria notícias assim que chegasse à Califórnia, tal com o desej ava. Ainda não saíra de perto dela e j á estava com saudades. Era um a situação terrível, m as não podia evitá-la. Era im pelido para Kate com o se para um a luz na escuridão, um local acolhedor do qual desej ava estar perto.

— Faça um a boa viagem de retorno — disse ela, hesitando por um instante quando o olhar dos dois cruzou e m uito foi dito sem palavras, tal com o Joe pretendia. Nunca era capaz de encontrar as palavras certas.

Pouco depois, Kate encam inhou-se para as dunas a fim de encontrar os pais e desapareceu. Joe ficara observando-a. Ela parara no alto, acenara-lhe e ele retribuíra o aceno. A últim a im agem que Kate reteve dele foi a de um hom em alto, com os olhos postos nela e um a expressão séria. E depois de ela ter ido em bora voltou a cam inhar pela praia sozinho.