A Águia Solitária

Danielle Steel · Capítulo 18 de 25

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A Águia Solitária

Capítulo 17

 

Quando Kate acordou na m anhã seguinte sorriu ao sentir Andy ao seu lado e virou-se para ele. Quando o fez viu Joe. Não fora um sonho nem um pesadelo. Fora o culm inar de todos os anos que ela o am ara, e dos três anos em que haviam estado separados. Kate não sabia o que fazer a seguir. Tinham de se esquecer um do outro, disse a si m esm a, enquanto o via com eçar a m exer-se. O bebê continuava dorm indo.

Joe acordou pouco depois, e quando a viu, sorriu.

— Estarei sonhando? Ou terei m orrido e ido para o céu na noite passada? — Tudo era sim ples para ele. Não era casado e não corria o risco de destruir a vida de outra pessoa, exceto a dela e a sua. Isso bastava.

— Você parece horrivelm ente feliz — acusou ela, aninhando-se j unto dele. Os m om entos que passavam na cam a de m anhã, aninhados um no outro, conversando, fora sem pre a sua parte preferida do dia. — Não deve ter um pingo de consciência.

— Pois não — confirm ou ele. Sorriu e beij ou-lhe a nuca. Há m uito que não era tão feliz; naquele m om ento tudo estava bem no m undo. — O bebê está bem ? Ainda deve estar dorm indo?

— Ele está ótim o. Costum a dorm ir até tarde — disse ela, sensibilizada com a preocupação dele.

Joe com eçou a beij á-la de novo e aproveitaram o fato de Reed continuar dorm indo para tornar a fazer am or. Parecia tudo um sonho. Era com o se ele nunca tivesse se afastado, só que tinham am bos am adurecido nos últim os três anos e ela era casada e tinha um filho. Mas aquilo que partilhara na cam a com Joe, e em toda a parte, nunca partilhara com nenhum outro hom em . Os sentim entos que nutriam um pelo outro eram m uito fortes para poderem ser com preendidos. Pareciam um a espécie de atração prim itiva. Tinham de estar j untos. Eram tão diferentes, tão distintos, cada um tão único e, contudo, tam bém eram um só. Não eram necessárias explicações, e apenas poucas palavras. Durante a m aior parte do tem po, nem um a palavra era necessária. As palavras eram apenas a desculpa externa daquilo que sentiam . As desculpas que pediam . As prom essas que j á não conseguiam m anter. As palavras não im portavam m inim am ente. Era o resto que os unia à alm a um do outro.

O bebê acordou finalm ente com um grito saudável. Kate deu-lhe de m am ar enquanto Joe tom ava um a ducha, e depois preparou o café da m anhã para am bos. Ele queria dem orar-se tom ando-o com ela, e riu-se quando o bebê lhe sorriu da sua cadeirinha. Por fim , Joe disse que infelizm ente tinha um a reunião nessa m anhã e que precisava ir andando. Teria adorado passar o dia com eles.

— Você pode alm oçar? — perguntou ele a Kate quando se levantou e vestiu o casaco.

— O que vam os fazer, Joe? — retorquiu ela com um a expressão preocupada. Ainda estavam a tem po de parar. Podia ser um a vez, um m om ento por que ela podia penar durante o resto da vida. Ainda era suficientem ente cedo para poderem parar antes de destruírem tudo e todo m undo. Kate tinha m uito m ais a perder do que ele. Cabia-lhe a ela parar, sabia-o, m as não suportava perdê-lo de novo. No seu íntim o sabia que era tarde dem ais.

— Acho que estam os fazendo o m elhor que sabem os, Kate. Nada m ais podem os fazer. Com o tem po há de ocorrer-nos algum a coisa. — Possuía um j eito especial de não ver os abism os que tinha pela frente, exceto quando construía aviões.

— Isso é perigoso — disse ela enquanto aj eitava as lapelas do casaco de Joe. Adorara o aspecto dele, o seu rosto cinzelado, a covinha no queixo, os om bros largos m uito m asculinos, os olhos que a seguiam por todo o lado, as pernas com pridas. Estava em briagada com ele. Joe era o seu sonho, sem pre fora, desde os seus dezessete anos. Era um a força m uito grande para poder ser com batida. Para Joe era a m esm a coisa. Ficara hipnotizado com ela desde a prim eira vez que a vira, e pairara na sua direção com o um a traça para a luz.

— A vida é perigosa, Kate — disse ele calm am ente, sorrindo-lhe e beij ando-a. Não conseguia saciar-se dela, nem ela dele. — Talvez não valha a pena se assim não for. É preciso pagar um preço elevado pelas coisas que valem a pena. Nunca tive m edo de pagar por aquilo que desej o, ou em que acredito. — No entanto, daquela vez estavam pagando tam bém com as vidas de outras pessoas. — Você quer encontrar-se com igo no alm oço?

Ela hesitou e depois assentiu. Queria estar com ele o m áxim o de tem po possível. Sabia que não tinha alternativa.

— Eu arrum o um a am a. Onde quer encontrar-se com igo?

Ele sugeriu o Lê Pavilion, que fora sem pre um dos locais preferidos dela, e com binaram encontrar-se ao m eio-dia. Depois de ele ter ido em bora, Kate deu novam ente de m am ar ao bebê e sentou-se em silêncio no sofá. Havia fotografias dela e de Andy por toda a sala, e um a fotografia grande tirada no casam ento. Estar com Joe novam ente fazia Andy parecer um sonho distante. Sabia que o am ava, recordou a si m esm a, ele era seu m arido. Mas Andy sem pre parecera um rapaz quando com parado com o hom em que Joe j á era. Havia algo em Joe que a inebriava a cada vez que o via. Ele tinha razão, era perigoso, m as nesse preciso m om ento Kate soube que era m uito tarde para voltar atrás e os riscos m ereciam ser corridos pela felicidade que partilhavam .

Deitou o bebê no berço e telefonou à am a. Ao m eio-dia, encontrou-se com Joe no Le Pavilion. Usava um vestido de seda verde-pálido, com um alfinete de peito de esm eraldas que a m ãe lhe dera havia alguns anos. Estava linda e com um ar delicado e o vestido contrastava espetacularm ente com o seu cabelo verm elho-escuro. Joe estava sentado olhando para ela, tal com o estivera dez anos antes. Havia um certo perigo em exporem -se tanto em público, m as tinham falado do assunto e decidido que alm oçar abertam ente pareceria m enos suspeito se alguém os visse do que se parecessem estar escondendo-se.

— Você não é o Joe Allbright? — m urm urou ela sentando-se ao lado dele.

Joe sorriu. Adorava o aspecto dela, a form a com o se m ovia, o seu cheiro, a form a com o atravessava um a sala, totalm ente inconsciente da sua beleza. Juntos form avam um casal extraordinário. Contrastavam bastante, m as ficavam m uito bem j untos, sem pre tinham ficado. Fazia parte da m agia que exsudavam e partilhavam .

— Você quer ir voar neste fim de sem ana, — perguntou ele ao alm oço. Kate sem pre adorara os aviões dele, e havia três anos que não voava. Ele disse-lhe que tinha um m odelo pequeno m uito engraçado que lhe fora entregue no dia anterior. — Você vai adorar, Kate — disse Joe com um sorriso, parecendo m ais do que nunca um rapaz bonito.

— Claro. — Kate não tinha m ais nada para fazer. Estava livre durante os três m eses e m eio seguintes e, independentem ente do que acontecesse a seguir, percebe que aquele tem po lhes pertencia. Não valia a pena lutar. Abandonara-se ao destino. Os laços que os uniam não podiam ser cortados. Pelo m enos ainda não.

Dem oraram bastante tem po alm oçando, tendo sido m uito circunspectos, e em seguida ele retornou para o trabalho e ela para casa. Iria levar Reed ao parque e encontrou um a carta de Andy quando chegou em casa. Era divertida e terna, e ele sentia tantas saudades que lhe despedaçou o coração. Ficou sentada durante bastante tem po com a carta na m ão, chorando. Nunca se sentira tão culpada e sabia que o que estava fazendo era errado, m as não podia parar. Por m uito que gostasse de Andy, precisava estar com Joe.

Estava m uito calada nessa noite quando Joe voltou. Ele tivera um dia m uito ocupado no escritório e sentia-se exausto. Ela preparou-lhe um uísque com soda e depois serviu-se de um copo de vinho. O bebê j á estava dorm indo.

— Hoj e recebi um a carta do Andy. Sinto-m e péssim a, Joe. Se ele descobrir, vai ficar destroçado. Provavelm ente vai se divorciar de m im — disse ela, deprim ida.

— Ótim o. E aí eu caso com você. — Pensara nisso durante todo o dia e estava quase decidido. Mas quisera ponderar um pouco m ais no assunto antes de falar com ela.

— Você está dizendo isso só porque eu sou casada com outro. Se eu fosse livre, fugiria a sete pés — com entou ela com um sorriso.

— Experim enta.

— Não posso.

— Não falem os disso. Vam os é aproveitar o tem po que tem os — respondeu ele calm am ente.

E foi precisam ente isso que fizeram .

Durante o m ês seguinte alm oçaram j untos várias vezes por sem ana, j antaram j untos todas as noites, em casa e fora, foram voar aos finais de sem ana, foram ao cinem a, conversaram , fizeram am or, riram -se e isolaram -se no seu pequeno m undo. Joe até brincava com o bebê quando chegava na casa e ficou anim adíssim o quando descobriu o prim eiro dente de Reed. Pareciam um a fam ília perfeita e que Andy não existia. As visitas sem anais da sogra, às terças, eram a única coisa que faziam Kate lem brar-se dele, m as ela tinha o cuidado de ocultar todos os vestígios da presença de Joe na casa. E sem pre que saíam , eram suficientem ente discretos, de form a que quem os visse j ulgaria que eram am igos e não nam orados. Mas sentiam -se com o m arido e m ulher. Eram um casal inseparável.

Ela escrevia para Andy quase todos os dias, m as as cartas eram estranhas. Só esperava que ele não reparasse. Essencialm ente falavam de Reed, e diziam pouco a seu respeito. Parecia o m elhor. E o que ele lhe contara sobre os j ulgam entos era fascinante. Mas tam bém lhe dissera que tinha m uitas saudades dela, que a am ava e que estava ansioso por voltar para j unto de Reed e dela. Cada carta era com o um a punhalada no coração de Kate. Não tinha idéia do que fazer, e ela e Joe com binaram de não decidir nada até o outono.

Em agosto prom etera aos pais passar um a sem ana com eles em Cape Cod, m as detestava ser obrigada a abandonar Joe. Tinham tão pouco tem po. Já estavam no m eio dos quatro m eses de ausência de Andy. No entanto, Kate sabia que se não fosse para Cape com o bebê os pais saberiam que algo estava m al e podiam ir a Nova Iorque, descobrindo Joe vivendo com ela. Ele m udara-se no final de j ulho. Por isso decidira que era m elhor ir. Joe disse que estaria m uito ocupado enquanto estivesse fora, e com binaram que ela lhe telefonaria. A m ãe de Kate reconheceria a voz de Joe se ele ligasse. Era estranho estarem com tantos subterfúgios e não se orgulhavam disso, m as não lhes restava alternativa. Se aquilo era o que queriam , o que achavam que deviam ter, tinham de seguir as regras possíveis.

Estava em Cape há cinco dias, e chegara a noite do churrasco anual. Kate deixou Reed com um a am a e foi até a casa dos vizinhos com os pais. Estava anim ada, faltavam apenas dois dias para voltar a ver Joe. Sentia-se im paciente.

Estava bebendo um copo no terraço sobre as dunas quando se virou e o viu entrar. Felizm ente, fez um ar adequadam ente surpreendido. Aliás, ficou perplexa. Joe quisera surpreendê-la e fora visitar os am igos, pelo que ia ao churrasco com eles. Os anfitriões ficaram satisfeitos por voltarem a vê-lo. Joe Allbright não era um hom em fácil de esquecer. Joe avançava lentam ente pelo terraço, dando apertos de m ão e cum prim entando as pessoas, quando a m ãe de Kate o viu.

— O que está ele fazendo aqui? — perguntou a Kate.

— Não faço idéia — respondeu Kate, virando-se para que a m ãe não visse o seu rosto. Achava que Joe fora im prudente ao ter vindo. Era tentar o destino e não sabia se se sairiam bem .

— Você sabia que ele viria? — A inquisição com eçara.

Clarke atravessou o terraço para apertar a m ão de Joe. Estava feliz por vê-lo, apesar do que acontecera entre ele e Kate. Aquilo j á ficara para trás, ela casara com outro. O passado era o passado, pensava Clarke.

— Porque é que eu havia de saber que ele viria, m ãe? Ele tem am igos aqui. Já esteve aqui antes.

— Mas acho estranho. Já não vem aqui há três anos. Talvez quisesse ver você.

— Duvido. — Kate estava de costas para ele, m as quase o sentia aproxim ar-se, e pressentia a m ãe observando-los. Só esperava que não se traíssem , em bora não confiasse especialm ente no seu com portam ento. A m ãe conhecia-a m uito bem .

Joe chegou finalm ente j unto dela, e cum prim entou educadam ente Liz, que lhe apertou a m ão com relutância e lhe lançou um olhar gelado.

— Olá, Joe — cum prim entou com frieza.

— Olá, Mistress Jam ison. Muito prazer em vê-la. — Ela não respondeu e ele virou-se então para Kate. Os seus olhares cruzaram -se e Kate m anteve um a rédea de ferro em si enquanto o cum prim entava. — Que bom voltar a ver-te, Kate. Ouvi dizer que tem um bebê. Parabéns.

— Obrigada — respondeu ela calm am ente e afastou-se para falar com outra pessoa. Sabia que a m ãe ficaria aliviada e, com esperança, não pressentiria nada. Kate m urm urou isso a Joe quando ficou ao lado dele na praia, m ais tarde. Encontravam -se assando salsichas e as dela j á estavam queim adas. Só estava interessada em falar com ele. — Foi um a loucura você ter vindo até aqui. Se eles descobrirem , terão um chilique.

— Tive saudades suas. Quis ver você — disse, parecendo sincero e j ovial.

— Volto para casa daqui a dois dias — sussurrou, com vontade de o beij ar e abraçar, e de sentir os braços dele à sua volta. Mas não ousou sequer olhar para ele.

— A sua salsicha está transform ando-se em cinza — m urm urou. Ela riu, e os seus olhares cruzaram -se por um instante. E quando ela se virou viu a m ãe observando-os.

— Ela odeia-m e — com entou Joe, enquanto dava um prato a Kate. Não era totalm ente descabido que falassem um com o outro, m as era evidente que a m ãe dela não aprovava. Parecia que o queria ver m orto, ou pelo m enos afastado de Kate o m ais possível.

No fim , os pais dela foram em bora cedo porque Liz estava com dores de cabeça, e ela e Joe foram dar um a volta pela praia, com o tinham feito anos antes. Tinham história entre eles, m uita. Dez anos era m uito tem po, e contava bastante. Para eles, pelo m enos. Com o nunca tinham se casado, para Liz o que sentiam um pelo outro não tivera im portância. Na sua opinião, tinham sido anos desperdiçados, e dissera-o várias vezes a Kate. Esta não era da m esm a opinião. Tinham sido os m elhores anos da sua vida.

Era agradável afastarem -se e cam inharem na areia ao luar. Deitaram -se lado a lado na praia, lá bem longe, beij aram -se e retornaram de m ãos dadas. Largaram -se m uito antes de chegarem à casa e em seguida foram bastante circunspectos. Kate saiu da festa antes dele. Quando chegou em casa, os pais j á estavam na cam a e Reed dorm ia profundam ente. Kate deitou-se e ficou pensando em Joe. Divertiam -se tanto j untos e tinham um a boa vida. Cada um a das coisas que haviam desej ado acontecera, o bebê dela, o êxito dele, m as parecia não haver form a de unirem as suas vidas, e se o tentassem fazer, alguém sairia m achucado. Parecia um quebra-cabeças chinês, ou um labirinto, em bora naquele caso Kate soubesse que não havia saída

Levantou-se cedo com o bebê. A m ãe j á estava na cozinha quando Kate desceu as escadas tentando não fazer barulho, o que era difícil com Reed. Ele arrulhava, palrava, ria-se e guinchava, e ela fechou a porta da cozinha silenciosam ente, viu então a m ãe sentada à m esa da cozinha, lendo o j ornal local e a bebendo um a xícara de chá.

Liz não levantou os olhos ao dirigir-lhe a palavra enquanto Kate sentava o bebê na cadeirinha.

— Você sabia que ele viria ontem à noite, não sabia? — perguntou num tom de acusação, olhando finalm ente para ela.

— Não, não sabia — respondeu Kate com sinceridade. — Não fazia a m ínim a idéia.

— Há qualquer coisa entre vocês dois, Kate, sinto-o. Nunca vi duas pessoas tão atraídas um a pela outra. Pressente-se isso m esm o quando vocês estão do outro lado de um a sala. — Fora por isso que Kate nunca conseguira esquecê-lo, nem ele a ela. — Parece quase um fascínio anim al. Vocês não conseguem largar-se.

— Mal falei com ele ontem à noite — respondeu Kate dando um pedaço de banana ao filho, que a colocou na boca.

— Você não precisa falar com ele, Kate. Ele sente-te, tal com o você o sente. Ele é um hom em perigoso. Não o deixe aproxim ar de você. Destruirá a sua vida. — Mas j á era m uito tarde. — Foi grosseiro da parte dele ter vindo aqui. Fê-lo porque sabia que você estava aqui. Adm ira-m e que tenha tido a ousadia, em bora j á nada m e surpreenda — disse ela irritada. Continuava achando que Joe era um a am eaça, especialm ente com Andy fora. E tinha razão.

— A m im tam bém não. — disse Clarke alegrem ente ao entrar na cozinha. Beij ou o bebê e olhou para a m ulher. Percebeu que ela e Kate estavam discutindo, m as não fazia idéia sobre o quê, nem tentou adivinhar. Preferia m anter-se fora das discussões delas. — Foi agradável ver o Joe ontem à noite. Tenho lido um as coisas sobre a com panhia aérea dele, vai ser um enorm e êxito, aliás, j á o é. Ele diz que vão abrir escritórios na Europa. Quem teria pensado há cinco anos que isto iria acontecer? — perguntou ele im pressionado, enquanto a m ulher punha a xícara na lava-louça.

— Foi grosseiro da parte dele ter vindo — com entou ela, e Clarke ficou surpreendido.

— Por quê?

— Sabia que ia ver a Kate. Ela é um a m ulher casada, Clarke. Ele não devia vir atrás dela até Cape Cod, nem até qualquer outro lugar. — Nem devia estar vivendo com ela, pensou Kate. A m ãe teria m andado interná-la se soubesse. Talvez devesse fazê-lo. — Ele sabe isso. Só o fez para a obrigar a suportá-lo.

— Não sej a tola, Liz. Águas passadas não m ovem m oinhos. Isso foi há anos. A Kate está casada e ele deve ter alguém . O Joe é casado, Kate?

— Acho que não, pai. Não sei m esm o.

— Vi-o falar com você na praia — acusou a m ãe.

— Não há m al nenhum nisso — interveio Clarke. — Ele é um bom hom em .

— Se fosse, teria casado com a sua filha em vez de a ter feito esperar dois anos por ele durante a guerra e de a ter usado durante outros dois depois de ter voltado — ripostou ela. — Graças a Deus a Kate ganhou j uízo e casou com outra pessoa. É um a pena o Andy não estar aqui ontem à noite.

— Pois é — disse Kate baixinho, m as a m ãe viu algo nos olhos dela de que não gostou. Havia ali algo reservado e escondido, com o se ela ocultasse um grande segredo, e tudo indicava que era sobre Joe.

— Você é um a idiota se tiver algum a coisa com o Joe, Kate. Ele vai voltar a usar você e você vai destroçar o coração do Andy. O Joe nunca irá casar-se. Grave as m inhas palavras. — Já o tinha dito anteriorm ente, e até ali tivera razão. Mas Kate tam bém sabia que Joe queria casar com ela agora, pelo m enos era o que ele dizia, em bora fosse m ais fácil dizê-lo agora que ela era casada com outro. Passado algum tem po, Kate pegou o bebê e foi sentar-se no alpendre ao sol. Quando levantou a cabeça, viu um avião fazer loopings no céu. Era fácil adivinhar quem era. Joe era criançola, m as fazia-a sorrir.

O pai saiu de casa para ver a causa do barulho, e sorriu.

— É um aviãozinho bonito — com entou, ainda olhando para o céu.

— É o últim o proj eto dele — disse Kate antes de conseguir conter-se, e o pai olhou para ela.

— Com o é que você sabe, Kate? — No seu tom não havia acusação, apenas preocupação.

— Ele disse-m e ontem à noite.

Clarke sentou-se ao lado dela e fez-lhe um a festa na m ão.

— Lam ento que as coisas não tenham dado certo, Kate. Às vezes acontece. — Sabia o quanto ela o am ara e o que sofrera quando tinham rom pido. — Mas a sua m ãe tem razão. Não seria correto se voltasse a envolver-se com ele. — Estava preocupado com ela; Kate parecia tão triste.

— Não m e vou envolver, pai. — Detestava m entir-lhe, m as não tinha alternativa. Sabia que o que ela e Joe andavam fazendo era errado, m as parecia im possível deixá-lo escapar. Não havia outro hom em no m undo que a fizesse sentir aquilo, na cam a e fora dela. Parecia que ele a com pletava, tal com o ela o com pletava. Cada um dispunha das peças que faltavam ao outro para ficar com pleto. Não tinha idéia do que iria fazer quando Andy voltasse para casa, m as pelo m enos ainda faltavam dois m eses. Ela e Joe tinham tem po para pensar no que iriam fazer quando chegasse a hora.

Joe continuava voando, fazendo loopings e rotações, e fez um a redução de velocidade assustadora que levou Kate a tapar a boca com a m ão. Tinha certeza de que ele iria cair. O pai observava-a. A coisa era pior do que ele j ulgara e com eçou a pensar se Liz não teria razão e de fato se passava algo. Mas não quis perguntar nada a Kate. Ela era adulta e ele achou que não devia bisbilhotar.

Kate retornou a Nova Iorque no dia seguinte e Joe telefonou-lhe assim que ela chegou em casa. Ela repreendeu-o pela redução de velocidade que a aterrorizara e ele riu. Sabia que não correra perigo. Nunca corria.

— É m ais perigoso atravessar a rua em Nova Iorque, Kate. Você sabe isso. — Achava graça ela ter ficado preocupada. — Os teus pais fizeram -te passar um m au bocado? — Calculava que sim , depois de o terem visto no churrasco, e tinha razão.

— Só a m inha m ãe. Acha que se passa qualquer coisa.

— Muito perspicaz — com entou ele, adm irado. — Disseste-lhes algum a coisa?

— Claro que não. Eles ficariam horrorizados. E quando penso nisso, acho que tam bém eu estou horrorizada. — Meditara no assunto durante a viagem . Joe não gostou do tom dela. Kate sentia-se cheia de rem orsos, Andy estava tão inocente naquilo tudo. Não fazia idéia do que acontecia naquele m om ento em sua casa. Joe sentia que tinha direito a fazê-lo, porque a conhecia há m ais tem po. Mas fora Andy quem casara com ela no ano anterior, e lhe dera um filho. E era Joe quem tinha o coração dela, que sem pre tivera.

— Ainda posso voltar para casa esta noite, Kate? — perguntou ele com tanta hum ildade que ela ficou sensibilizada. Por m uitos rem orsos que sentisse, não conseguia dizer-lhe que não.

Joe chegou um a hora e m eia m ais tarde e, com o sem pre, correram para a cam a. O desej o que tinham um pelo outro era com o um a onda gigante, varria tudo ao passar e deixava-os ofegantes. Um a sem ana sem se verem fora m uito tem po.

Setem bro passou correndo após o Dia do Trabalho. Joe teve de ir à Califórnia durante uns dias e em seguida foi a Nevada para um voo de ensaio. Convidou Kate para acom panhá-lo, m as ela achou que não devia aceitar. Não poderia explicá-lo a Andy se ele telefonasse. Ele ligara apenas um a ou duas vezes durante aqueles dois prim eiros m eses, não pudera ligar m ais vezes, m as escrevia-lhe todos os dias.

No fim de setem bro, Kate e Joe j á viviam j untos há dois m eses. Com eçava a parecer um a situação norm al e agradável, com o se fossem casados. Ele estava tão descontraído um a noite, quando a m ãe dela telefonou, que quase atendeu o telefone. Kate arrancou-lhe o auscultador antes que ele tivesse tem po de falar, e ficaram am bos perplexos quando perceberam o que ele quase fizera.

Ela ia voar com ele quase todos os finais de sem ana, acom panhava-o à fábrica, ele pedia-lhe a opinião e ela dava-lhe conselhos. Os colegas de Joe haviam com eçado a considerá-la esposa dele. Mas, extraordinariam ente, nunca tinham encontrado ninguém conhecido nos restaurantes, no cinem a, nem na rua. Grande parte dessa boa sorte devia-se ao fato de a m aior parte das pessoas que ela conhecia saírem de Nova Iorque durante o verão. Mesm o depois do Dia do Trabalho não houvera encontros com pessoas que poderiam suspeitar que ela e Joe tinham um caso. Haviam encontrado um ritm o fácil que dava certo para am bos.

E então, em m eados de outubro, Kate ficou de rastros quando Andy telefonou dizendo que ia voltar para casa. Ele disse a Kate que estava m uito grato por ela ter aceitado a ausência dele sem queixas. As cartas de Kate haviam sido m aravilhosas e ele estava desej oso de voltar vê-la e a Reed. As fotografias que ela enviara eram adoráveis e Andy disse que o bebê se parecia ainda m ais com Kate do que antes, excetuando a cor do cabelo. Contou a Kate que os j ulgam entos em que participara tinham corrido bem , m as que estava ansioso por term inar o trabalho nas duas sem anas seguintes e voltar para casa.

Na noite em que ele telefonou Kate e Joe sentaram -se na cozinha durante horas falando sobre o assunto.

— O que vam os fazer? — perguntou ela m uito triste. Agora que tinha de enfrentar a realidade sentia-se atorm entada. Alguém iria sair m achucado, possivelm ente todos eles, talvez até Reed. Não havia alternativa. Era necessário tom arem decisões e ela e Joe tinham chegado a um a espécie de acordo em poucos dias.

— Quero casar com você, Kate — disse ele. — Quero que ae divorcie. Você pode ir para Reno e ficar lá seis sem anas. Poderíam os casar no fim do ano. — Kate não desej ava m ais nada dele. Mas para fazer isso agora, teria de destruir a vida de Andy. Parecia um golpe m uito cruel, e inj usto. Andy nada fizera para m erecer aquele destino, e não tinha culpa que ela tivesse voltado a sucum bir aos encantos de Joe.

— Nem sequer sei o que lhe dizer — observou, olhando para Joe, angustiada. Os pais dele iriam ficar m uito abalados, e os seus tam bém . Mas para Andy seria ainda pior. E ele nem sequer desconfiava do que estava prestes a acontecer.

— Diz-lhe a verdade — retorquiu Joe m uito prático. Era fácil para ele ser o vencedor. Só tinha de recuar e deixar que Kate desse o golpe fatal. — Que alternativa tem os, Kate. Afastarm o-nos de novo? É isso o que quer fazer? — Era a única opção que lhes restava, para além de continuarem com um rom ance clandestino, e Kate sabia que a pressão e a m entira a levariam à loucura, e Joe concordou. Queria viver e casar com ela, até queria estar com Reed, e se fossem casados estaria. — Tenho pena do Andy, m as acho que ele tem o direito de saber.

— Você está falando sério quanto a casarm os, Joe? — Ainda se recordava das palavras da m ãe e conhecia-o bastante bem . Joe am ava a sua liberdade e os seus aviões. Mas tam bém a am ava. E tinha quase quarenta anos. Ela acreditava que ele estava finalm ente disposto a assentar e a com prom eter-se com ela. Kate só queria ter certeza disso antes de pedir o divórcio a Andy. Para além de ficar devastado por perdê-la, sabia que ele ficaria destroçado por não viver com o filho.

— Estou falando sério — respondeu Joe. — Está na hora, Kate.

Para ela, teria sido há três ou quatro anos. Ou até cinco. Ele levara bastante tem po para chegar lá. E os pais dela teriam ficado m ais satisfeitos se tivessem se casado antes ou durante a guerra. Mas independentem ente do cam inho que tivessem tom ado para ali chegar, estava lá e queria que ela fizesse o que estava fazendo. O destino estava nas suas m ãos. Ele podia apenas convencê-la de que estava falando sério e que queria casar.

— Digo-lhe assim que ele chegar em casa — retorquiu. Não ansiava por isso, m as tinham concordado que era algo que precisava de ser feito.

Kate contratou um a am a e passaram um fim de sem ana num a acolhedora estalagem do Connecticut situada num local recatado. Joe j á estivera hospedado lá antes e ninguém o incom odara. Parecia o esconderij o perfeito para eles. Muitas vezes, as pessoas reconheciam -nos nos locais onde iam e, aos desconhecidos, ele apresentava-a com o esposa. Kate não respondeu a princípio quando a m ulher da estalagem a tratou pelo nom e de Joe. Percebeu que iria ser estranho desistir do nom e de Andy. Há m ais de um ano que se cham ava Kate Scott. Já fora difícil habituar-se a não ser Jam ison ao fim de vinte e seis anos. E agora iria ter outro nom e. Parecia que andava num carrossel. Era ali que queria estar há m uito tem po, m as agora que as coisas aconteciam pareciam estranhas.

Joe tirou as coisas lá da casa na noite anterior à chegada de Andy, m as dorm iu com ela. Os dentes do bebê estavam nascendo e ele chorou toda a noite, Kate tinha os nervos em frangalhos e, de m anhã, até Joe parecia tenso. Ela só queria pôr fim àquela situação. Iria falar com Andy nessa noite e j á se convencera de que iria ser um a cena desagradável.

Tinha a sensação de ter vivido isolada com Joe durante quatro m eses. Evitara as pessoas conhecidas para poder guardar aquele segredo, e não estivera com nenhum dos novos am igos. Até ali, ninguém parecia ter descoberto o que acontecera, m as nas sem anas seguintes todos iriam saber.

Depois de falar com Andy, Kate ia falar com os pais e sabia que tam bém não seria um a conversa agradável. Já ensaiara tudo m entalm ente, e com Joe tam bém . O destino deles era estarem j untos. Sem pre fora. Kate só lam entava causar tanto sofrim ento a Andy. Nunca devia ter casado com ele, pensou. Não fora j usto. Mas não esperara que Joe voltasse a entrar na sua vida. Se isso não tivesse acontecido, talvez o casam ento dela com Andy tivesse continuado a ser feliz. Nunca saberiam . E pelo m enos assim ela tivera Reed. Em bora Joe tivesse certeza de querer Kate e Reed, não sabia se queria ter filhos seus. Haviam falado disso várias vezes e ele não estava convencido de que ter filhos m elhoraria a qualidade de vida de am bos. Mas por enquanto ele bastava a Kate

Joe saiu para o trabalho às nove da m anhã e Kate iria buscar Andy no aeroporto ao m eio-dia. Disse a Joe que lhe ligaria assim que pudesse, m as não sabia se o conseguiria fazer nessa noite. Por respeito ao m arido, tinha de esperar para ver com o as coisas corriam . Contudo, prom eteu ligar-lhe o m ais tardar no dia seguinte.

Fizeram am or nessa m anhã antes de Joe ir em bora, ele beij ou-a um a últim a vez e lançou um beij o a Reed.

— Tenta não se afligir, querida. Sei que fará o m elhor possível. É preferível agora, ao fim de um ano, do que daqui a cinco anos. É um favor que você lhe faz ao acabar com tudo j á. Ele vai voltar a casar e a ter um a vida boa.

Irritava-a o fato de Joe ser tão prático. Era fácil ser o vencedor. Kate tinha certeza de que as coisas não pareceriam tão sim ples a Andy quando ele ouvisse a novidade.

Kate pegou um táxi para Idlewild às onze horas. Levava Reed com ela e usava um vestido preto sim ples e um chapéu preto. Percebeu que tinha um ar um pouco fúnebre, m as achou apropriado. Não iria ser um dia m uito feliz.

Consultou o placar das chegadas ao entrar no aeroporto e viu que o voo dele chegaria no horário. Foi para j unto da porta de desem barque esperar com o filho.

Andy foi um dos prim eiros passageiros a desem barcar. Parecia cansado após o voo e quatro m eses de trabalho árduo, m as sorriu assim que viu a m ulher e o filho e beij ou-a com tanta força que lhe fez cair o chapéu.

— Tive tantas saudades suas, Kate! — Tirou-lhe o filho dos braços, m al podendo acreditar no quanto ele crescera. Reed j á estava prestes a fazer oito m eses. Tinha oito dentes e quase conseguia ficar-se de pé sozinho. Quando Andy o abraçou, ele estendeu os braços na direção da m ãe e com eçou a chorar.

— Ele j á nem sequer sabe quem eu sou — observou Andy m uito triste enquanto saíam do aeroporto, pondo-lhe um braço por cim a dos om bros. Parecia-lhe que estivera ausente vários anos. Não só achou que o bebê não sabia quem ele era, com o tam bém que Kate parecia estranha. Ela disse que estava feliz por vê-lo, m as parecia estar de luto. Perguntou-lhe com o tinham corrido as coisas na Alem anha e os j ulgam entos, m as quando ele tentou pegar-lhe na m ão, ela afastou-a, a fim de procurar algo na m ala. Não queria induzi-lo em erro.

Foi preparar o alm oço assim que chegaram em casa e depois deitou Reed. Só queria pôr fim àquela situação. Mal podia esperar. Não lhe agradava continuar m ais tem po com aquela farsa. Andy m erecia-lhe m ais respeito.

— Kate, você está bem ? — perguntou ele depois de ela ter deitado o filho.

Ela tinha um ar m ais velho e m ais sério no vestido preto. Andy não sabia o que acontecera durante a sua ausência, m as estava certo de que fora algo grave. A atm osfera que os rodeava parecia incrivelm ente tensa e Kate evitava o toque dele, os seus braços, os seus olhos.

— Podem os sentar-nos e conversar? — perguntou ela quando entraram na sala, sentando-se no sofá. Andy ficou de frente para ela e Kate foi apenas capaz de pensar em Joe ao olhar para ele.

Aquilo era a pior coisa que j á fizera na vida a alguém . Quando deixara Joe três anos antes não fora o m esm o que deixar um hom em que a am ava e levar o filho dele consigo. Mas agora não havia fuga possível. Tinham de enfrentar a verdade. Fora um a idiota ao ter casado com ele e ao pensar que o am or entre am bos poderia crescer, m as as suas intenções haviam sido boas. Estava m uito ligada a Andy e tinham partilhado m uitos m om entos felizes. Contudo, nada daquilo tinha im portância sem Joe.

— O que se passa, Kate? — perguntou Andy. Parecia perturbado, m as controlava-se m uito bem . Am adurecera nos últim os quatro m eses. Vira e ouvira falar de atrocidades que lhe tinham lhe gelado o sangue. Fora im possível não am adurecer com a responsabilidade que lhe havia sido atribuída. E agora voltara para casa para algo ainda pior. Via-o nos olhos dela.

— Andy, com eti um erro terrível — com eçou ela, sentada bem longe dele. Não queria aproxim ar-se nem pegar-lhe na m ão. Desej ava resolver àquela situação o m ais rapidam ente possível, para o bem de am bos.

— Acho que não precisam os falar disto — interrom peu ele, e Kate ficou surpreendida.

— Precisam os sim — continuou. — Tem os de falar disto. Aconteceu um a coisa enquanto você esteve fora. — Pretendia dizer-lhe que voltara a encontrar Joe e que, consequentem ente, tudo se alterara. Mas Andy levantara um a m ão para a calar e ela viu nos seus olhos algo que nunca vira. Era um a espécie de força e de dignidade de que o j ulgara incapaz, e ele arrancou-lhe das m ãos o controle da situação.

— Não preciso saber o que aconteceu. Aliás, não quero saber. Não vai dizer-m e. Não é im portante. Nós é que som os im portantes, e o nosso filho. Não m e diga o que tem para dizer. Não vou ouvir. Vam os fechar a porta atrás de nós e continuar.

Kate ficou tão atordoada que por m om entos foi incapaz de falar.

— Mas Andy, não podem os... — Sentia os olhos encherem -se de lágrim as. Ele tinha de a ouvir. Ela iria divorciar-se dele e casar com Joe. Não queria continuar casada com Andy. E Joe desej ava desposá-la. Não pretendia perdê-lo agora, ao fim de tantos anos. Contudo, Andy tam bém tinha um a palavra a dizer e ela só poderia divorciar-se se ele concordasse. Era evidente que ele adivinhara o que acontecera, ou que pelo m enos suspeitava que o casam ento estava em risco, m as não iria perm itir que ela o enxovalhasse. Já tom ara um a decisão. No que lhe dizia respeito, o assunto estava encerrado.

— Sim , Kate, podem os — disse ele num tom que a assustou. — E conseguirem os. Você vai ter de guardar para você aquilo que queria m e dizer. Som os casados. Tem os um filho. Em breve terem os m ais filhos, espero. E isso é tudo o que vai m e dizer. Entendido? Provavelm ente não devia ter ficado fora tanto tem po, m as acho que fizem os um a coisa im portante na Alem anha e orgulho-m e de ter participado dela. E agora você vai ser a m inha m ulher, Kate, e continuarem os a partir daqui.

Kate ficou atordoada com a força das palavras dele e a expressão dura do seu olhar. Não pareciam nada típicos dele.

— Mas Andy, por favor — im plorou ela com as lágrim as a correrem -lhe pelo rosto. — Não posso fazer isto... não posso... — soluçou. Estava apaixonada por Joe, não por ele. Nunca se sentira tão encurralada na sua vida com o naquele m om ento. Sabia que Andy não iria deixá-la afastar-se, independentem ente do que ela dissesse. A sua única opção era fugir com Joe e viver com ele. Não poderia levar Reed consigo se não fosse divorciada e tivesse a custódia dele. Parecia que Andy a enfiara num a prisão. E os dois sabiam que fora isso que acontecera. Kate ainda não consultara um advogado, quisera falar com Andy prim eiro, m as sabia que não poderia divorciar-se sem um m otivo. E não dispunha de um contra ele. Estava de m ãos atadas, a m enos que ele concordasse. — Você tem de m e ouvir im plorou. Não m e quer assim . — Soluçava, m as a expressão dele era dura.

— Som os casados, Kate. Ponto final. Daqui a pouco j á se sentirá m elhor e um dia há de agradecer-m e. Você estava prestes a com eter um erro terrível e não vou perm itir que isso nos aconteça. Agora vou tom ar um a ducha.. Você quer ir j antar fora com igo esta noite?

Quando olhou para Andy, os olhos de Kate estavam inexpressivos. Não queria ir a lugar algum com ele. Não queria estar casada com ele. Era sua prisioneira, não sua m ulher.

Não chegou a responder-lhe acerca do j antar, nem ele esperou pela resposta dela. Saiu da sala e fechou a porta do banheiro. Estava trem endo, m as Kate não deu por nada. Pela prim eira vez desde que o conhecia, odiava-o. Só queria estar com Joe, m as não podia abandonar o filho. Andy sabia que a tinha presa. Ela nunca deixaria Reed. E se Andy não concordasse com o divórcio, ela estava encurralada.

Quando o ouviu abrir a torneira telefonou a Joe. Ele estava num a reunião, m as pedira a Hazel que o interrom pesse e, m om entos depois veio ao telefone.

— O que se passa? Foi m uito m au? — perguntou ele preocupado. Pensara nela durante todo o dia, perguntando-se o que aconteceria quando ela dissesse a Andy que queria o divórcio.

— Pior do que isso. Ele nem quis m e ouvir. Não m e dá o divórcio. E se não der, não posso levar o Reed.

— Ele está só blefando, Kate. Está assustado. Aguente firm e.

— Você não entende. Nunca o vi assim . Diz que o assunto está encerrado. Nem m e deixou falar. — Kate nem sequer tivera oportunidade de lhe falar de Joe, o que talvez o convencesse. Mas Andy não a deixou falar e Kate teve a sensação de estar rodeada por um m uro de pedra.

— Então pega o bebê e sai daí — disse Joe m uito sério. Ela sentia-se encurralada entre os dois hom ens, com o se fosse um peão. — Ele não pode obriga-la a ficar aí.

— Pode obrigar-m e a voltar com o Reed se m e levar a tribunal. — Parecia assustada, e estava-o. Pela form a com o o m arido olhara para ela, sabia que tinha m otivos para isso. Andy não pretendia largá-la, nem ao filho.

— Ele não vai fazer isso. Vocês dois podem ficar com igo. — Se ela o fizesse o escândalo seria ainda m aior. Kate tinha de convencer Andy a concordar com ela para poder sair. Era a única form a.

— Eu falo com ele logo à noite — disse ela.

Joe retornou à reunião e Kate desligou quando Andy saiu do chuveiro. Telefonou para um a am a e concordou em ir j antar fora com ele nessa noite, m as durante o j antar a atm osfera esteve bastante tensa. Ele tratou-a com frieza e aspereza. Queria que ela soubesse que falara sério. Ela esperava convencê-lo durante o j antar, m as não foi capaz.

— Andy, por favor, escuta-m e... não sou capaz de fazer isto. Não quer estar casado com igo assim — im plorou ela. E para conseguir convencê-lo, percebeu que não era o m om ento apropriado para lhe falar de Joe.

— Kate, quando eu fui em bora estava tudo bem . Tudo estava ótim o. E vai voltar a ficar ótim o. Confia em m im . Você está histérica, não sabs o que você faz e não vou perm itir que destrua a sua vida. — Falou com frieza e firm eza e ela teve a sensação de que ele lhe apertava a garganta. Mal era capaz de falar.

— As coisas m udaram . Você esteve fora quatro m eses — disse ela desesperada. Pressentia que ele sabia o que acontecera e com quem . Mas parecia não se im portar. Independentem ente do que Kate dissesse ou fizesse, Andy não a deixaria partir. Não queria saber quem nem por que. Não queria ouvir nada e não trocaram palavra quando retornaram para casa no táxi. Kate teve a im pressão que perdera as forças para se m exer ou andar ou falar com ele.

No dia seguinte arrum ou um a am a e foi ao escritório de Joe. Estava em pânico e Joe ficou bastante abalado. Mas ela precisava do apoio dele e dos seus conselhos. Parecia que na Alem anha Andy se transform ara em um a pessoa que ela não conhecia. Inam ovível e invencível. Conversou com Joe banhada em lágrim as.

— Ele não pode m anter-te lá, Kate. Você não é um a criança, por am or de Deus! Faça as m alas e vem em bora.

— E abandono o m eu filho?

— Você pode voltar para o buscar m ais tarde. Leva o Andy a tribunal, bolas!

— E digo o quê? Que o enganei? Não tenho m otivos para o divórcio. E ele dirá que eu abandonei o m eu filho. Nunca m ais recuperarei o Reed. Dirão que não sou um a boa m ãe por ter tido um caso com você e abandonado o m eu filho. Não posso ir em bora. A m enos que o Andy concordasse.

— Você está dizendo-m e que você vai continuar casada com ele?

— O que m ais posso fazer? — Os olhos dela pareciam dois lagos azul-escuros cheios de dor. — Não tenho alternativa. Pelo m enos por agora. Talvez ele acabe por ceder, m as neste m om ento recusa-se a ser razoável. Nem sequer m e deixa falar no assunto.

— Kate, isto é um a loucura.

Ela sabia que era. Mas Andy fora bastante inteligente e lutava com o um tigre para a m anter perto dele, quer ela quisesse, quer não. Tinha de adm irá-lo por isso. Mas por m uito que adm irasse Andy, era Joe que ela am ava. Ele contornou a m esa e abraçou-a enquanto ela chorava descontroladam ente.

— Nunca devia ter-te deixado há três anos! — exclam ou ela. Agora estava encurralada e sabia que Andy nunca a deixaria partir. Perdera a sua oportunidade de estar com Joe. E não iria abandonar o filho, nem sequer por ele.

— Não te dei alternativa. Fui um idiota por ter te deixado partir há três anos e por ter te dito que nunca foi tão im portante com o os m eus aviões. — Ainda se lem brava do que dissera. Três anos depois, sabia que errara, m as naquele m om ento parecia tarde dem ais. — Você quer que eu fale com ele, Kate? Isso talvez o assuste. E que tal suborná-lo? — Era um a idéia estúpida, m as Joe estava disposto a fazer qualquer coisa.

Kate abanou a cabeça.

— Ele não precisa do seu dinheiro, Joe. É rico. Isto não é por causa de dinheiro. É por causa do am or.

— Possuir um a pessoa não é am or, Kate. É só isso que ele tem . Possui-te agora por causa do seu filho. É a única coisa que a prende a ele. — Contudo, era um a coisa poderosa. Ele consultara um advogado nesse dia. Se ela abandonasse o filho corria o risco de perdê-lo. E se o levasse, Andy poderia obrigá-la a trazê-lo de volta, a m enos que ela o raptasse e desaparecesse. E isso era im possível para am bos. Kate não poderia esconder-se com o m ulher de Joe.

— Estou encurralada, Joe. Não posso sair — disse ela m uito infeliz. Tivera tanta pena de Andy durante os últim os quatro m eses, e agora ele pressionava-os daquela m aneira. Tinha o futuro deles nas m ãos e estava transform ando-o em pó.

— Espera só um pouco. Você não pode viver assim para sem pre. Você é m uito nova, e ele tam bém . Há de acabar por ceder. Há de querer m ais do que isto da vida. — Andy lutava pela fam ília, pela m ulher e pelo filho, e não estava disposto a ficar sem eles.

Joe beij ou-a antes de ela partir e voltar para casa. Quando Andy retornou nessa noite, ela tentou voltar a falar com ele, m as escusadam ente. Dessa vez Andy perdeu a paciência e atirou um prato de porcelana à parede. Fora presente de casam ento de um a das am igas de Kate e partiu-se em m il pedaços enquanto ela chorava. Esperava que Andy ficasse m agoado, m as que se m ostrasse razoável. Não contara que ele fizesse nada daquilo. Não havia saída.

— Porque você está fazendo-m e isto? — perguntou ela soluçando quando ele se sentou com um ar desesperado.

— Para proteger a nossa fam ília, um a vez que você não faz — disse ele, furioso. — Daqui a uns anos você vai agradecer-m e. — Mas entretanto, ela passava um m au bocado.

E o que Kate não sabia, nem suspeitava, era que Andy concluíra de im ediato que se tratava de Joe. Estava escrito no rosto dela. Recordava-se perfeitam ente dos tem pos de colégio, quando ela estivera loucam ente apaixonada por Joe e esperava pelas cartas dele. Era o m esm o olhar que vira nos olhos de Kate quando ela lhe dissera que Joe não estava m orto e pusera fim à relação de am bos. Ele conhecia bem esse olhar. Havia apenas um único hom em no m undo capaz de fazer com que Kate se sentisse assim e tivesse aquele ar. Andy reconhecera-o e soubera de im ediato quem voltara a entrar na vida dela. Não precisava ouvir as palavras.

Tinha tanta certeza que nem se deu ao trabalho de telefonar a Joe. Lim itou-se a aparecer no escritório dele um dia depois de Kate ter estado lá, desesperada. Andy entrou no edifício com ar determ inado e pediu à secretária de Joe que o anunciasse. Ela ficou um pouco atordoada quando lhe perguntou se ele tinha reunião m arcada e ele respondeu que não, garantindo-lhe, no entanto, que Joe o receberia, e sentando-se.

Tinha razão. Menos de dois m inutos m ais tarde, a secretária conduziu-o a um escritório im ponente cheio de obj etos de arte, de tesouros e de recordações que Joe colecionava desde o advento do seu êxito. Joe não se levantou para o cum prim entar, observando-o da cadeira com o a um anim al encurralado. Só tinham se visto um a vez havia vários anos. Mas sabiam quem o outro era e por que m otivo Andy estava ali.

— Olá, Joe — saudou este calm am ente. A sua frieza era a m elhor j ogada de pôquer da sua vida. Joe era m ais alto, m ais velho, m ais inteligente, m ais bem sucedido e Kate estivera apaixonada por ele durante a m aior parte da sua vida adulta. Joe teria sido um adversário de respeito para qualquer hom em . Mas Andy tinha a carta vencedora: o seu filho e de Kate.

— Isto é um a j ogada interessante, Andy — disse Joe com um sorriso preguiçoso. Nenhum deles dem onstrava o que sentia. Estavam am bos zangados, sentiam -se usados e desleais. Teriam gostado de m atar o outro, m as em vez disso Joe indicou a Andy um a cadeira. — Posso oferecer-lhe um a bebida? — Andy hesitou um a fração de segundos e depois pediu um uísque. Raram ente bebia antes de j antar, m as sabia que o álcool talvez o aj udasse a dom inar os nervos. Joe serviu-lhe com gelo e voltou a sentar-se. — Preciso lhe perguntar o que o traz aqui?

— Calculo que não. Am bos sabem os. Não foi um a j ogada m uito elegante da sua parte, devo acrescentar — disse Andy cheio de coragem , tentando fingir que não se sentia com o um a criança no gabinete de Joe. Em outras circunstâncias teria gostado de olhar para as coisas que ali se encontravam . E a vista era extraordinária, abarcando Nova Iorque inteira, com os dois rios e o Central Park. — Ela agora é casada, Joe. Tem os um filho. Desta vez não vai a lugar algum .

— Não é assim que vai conquistá-la, Andy. Não pode obrigar um a m ulher a am á-lo m antendo-a com o refém . Já agora, porque não a am arra à parede? Não é tão sutil, m as funciona igualm ente bem . — Joe não tinha m edo dele, nem sequer o odiava. Era um hom em im portante e sabia que nada tinha a tem er. Podia ter com prado e vendido Andy m il vezes, e para Joe isso significava m uito. Era algo que outrora teria sido incapaz de j ulgar possível. Mas esses tem pos tinham chegado e partido. Joe dom inava o m undo e Kate era sua, quer Andy tivesse a chave da cela dela, quer não. Nunca fora dono do coração dela com o Joe era. Kate e Andy nunca tinham partilhado aquilo que Kate e ele tinham , nem nunca partilhariam . Quando olhou para Andy, sentiu pena dele. – Por que veio até aqui, Andy ? Vam os direto ao assunto. O que desej a? — Estava convencido de que com a pressão suficiente da parte de Kate e dele, Andy acabaria por ceder. Contudo, desconhecia com pletam ente, tal com o Kate até ali, quão im placável e determ inado ele era capaz de ser. Daquela vez Andy não pretendia perder, custasse o que custasse.

— Quero que com preenda quem ela é e aquilo que persegue com tanta paixão. Acho que desconhece aquilo por que tanto anseia, Joe.

Este ficou divertido com a escolha de palavras e sorriu. Andy bebeu outro gole de uísque.

— Acha que não a conheço ao fim de dez anos? Não quero chocá-lo, m as tenho certeza de que a Kate lhe contou que vivem os j untos dois anos.

— Por acaso disse, em bora sej a um pouco indelicado da sua parte apresentar as coisas nesses term os. Creio que na época ela vivia num hotel.

— Se foi isso que ela lhe disse — respondeu Joe num tom neutro. Contudo, Kate contara a verdade a Andy. Ele não gostou foi de ter ouvido da boca de Joe.

— E quais foram as suas conclusões depois de ter ”vivido” com ela? Presum o que não tenha tido m uita vontade de a desposar na época. Então por que agora?

— Porque fui um idiota, tal com o os três bem sabem os. Estava construindo a m inha em presa, tinha m uito em que pensar. Não m e sentia pronto para casar. Isso foi há três anos. Na época não tinha tem po para ela. Agora tenho.

— Foi essa a única razão por que não casou com ela? Ou havia nela coisas que o preocupavam , Joe? Ela precisava de dem asiadas coisas, exigia m uito, e você sentiu-se encurralado? Teve vontade de fugir? — Kate contara-lhe tudo quando haviam voltado a encontrar-se, m as Joe desconhecia isso. Lem brava-se vagam ente de com o as coisas haviam sido na época, e a recordação não era agradável. Sentira tudo aquilo que Andy estava dizendo. Não era aquela Kate que ele queria, era aquela em que ela se transform ara agora. A que parecia com preender o que correra m al. — Ela é a m esm a m ulher, Joe. Parece em pânico de cada vez que eu saio de casa. Telefona-m e para todo lugar aonde vou. Se saio para alm oçar, pede à m inha secretária que m e localize. Quando estava grávida, quase m e levou à loucura. Tinha de ir em casa vê-la a m eio do dia. É isso que quer? Tem disponível todo esse tem po, Joe? Deve ser um hom em m uito bem sucedido se dispõe de todo esse tem po. Tem de estar com ela noite e dia. Com o poderá levá-la consigo quando for viaj ar? Ela não larga o Reed. Quer engravidar outra vez. Quer m ais filhos. E vai consegui-los, recorra a que artim anhas recorrer. Conheço a Kate. Ela fez isso com igo em relação ao Reed. Não m e im portei. Mas você vai im portar-se. — Eram m entiras, todas elas, m as Kate há m uito que lhe contara todos os erros de Joe e Andy pretendia explorar a todos. E estava vencendo. Podia ver isso nos olhos de Joe, em bora ele se sentisse na obrigação de defender Kate. Mas estava assustado. Andy pressentia o seu pânico.

— Ela não está apaixonada por você respondeu Joe com firm eza. Há de ser diferente quando estiver com igo. — Não pareceu m uito convencido do que disse.

— Ai, sim ? — perguntou Andy acabando o uísque. — Ela foi m uito diferente em New Jersey ? — Sabia tudo sobre as discussões que os haviam separado, sobre o m edo que ela tinha de ser abandonada, do receio dele de ser engolido. Kate explicara-lhe tudo e Andy usava agora toda essa inform ação. Por um a boa causa, pensava ele.

— Isso foi há três anos. Na época ela era um a garota. — Mas Joe j á não parecia tão seguro. Seria incapaz de o adm itir, m as com eçava a perguntar-se se Andy não teria razão. Com eçava a ficar aterrorizado. Andy pintara-lhe um a im agem de tudo o que ele não queria, por m uito que estivesse apaixonado por Kate.

— Ela ainda é um a garota — disse Andy com ar presum ido, com vontade de beber outro uísque, m as sem coragem para pedi-lo. O que acabara de beber servira para lhe dar coragem , m as não convinha com eçar a ficar tonto. Podia ver a preocupação nos olhos de Joe. Os dem ônios dele tinham renascido. — Ela será sem pre um a garota, Joe. Sabe o que lhe aconteceu em criança. Eu tam bém .

Daquela vez Joe pareceu adm irado. Era o m elhor lutador dos dois, m as Andy encostara-o à parede. Era o diabinho rápido que ia derrotar o cam peão, e j á sentia o gosto da vitória. Não lhe interessava o que tinha de fazer para ficar com Kate, m as não pretendia perdê-la para Joe daquela vez. Custasse o que custasse. E sabia que se fizesse bem a j ogada, Joe nunca lhe contaria que ele tinha estado ali. Era o crim e perfeito e a única form a de não a perder. Tinha de obrigar Joe a fugir.

— Ela falou-lhe do pai? — perguntou Joe. Havia um a certa m ágoa na sua voz. Kate nunca lhe adm itira em dez anos. Ele sabia apenas o que Clarke lhe contara naquele dia em Cape Cod. Mas m ais um a vez Andy não hesitou em m entir-lhe. Kate tam bém não lhe contara nada, ele soubera-o por Clarke pouco antes do casam ento.

— Disse-m e quando estudávam os. Sem pre soube. Éram os bons am igos. — Joe assentiu, m as ficou calado. — Im agina o que ela deve ter sentido? O m edo que ela tem de perder as pessoas que am a? Não seria capaz de sobreviver sem nós. Não seria capaz de viver um dia sozinha. Ela é a m ulher m ais dependente que conheço, e você tam bém sabe isso. Sabe que m e escrevia duas vezes por dia quando eu estive na Europa? — Até isso era m entira. Ela escrevera-lhe pequenas cartas que apenas falavam do filho. Andy desconfiara que algum a coisa se passava, m as nada podia fazer da Alem anha. Tivera de esperar até retornar para casa. — Faz idéia de quão desesperadam ente insegura ela é? De quão receosa? De quão desequilibrada? Calculo que ela não tenha lhe contado que tentou suicidar-se depois de ter vindo em bora de New Jersey. — Ao acabar de dizer aquilo, Andy soube que acertara em cheio. Kate contara-lhe que Joe se sentira cheio de rem orsos, com o aquilo fora doloroso para ele. ”Intolerável” fora a palavra que ela usara. E Joe parecia ter caído de j oelhos no chão ao ouvir o que Andy dissera.

— Ela o quê? — perguntou ele atordoado.

— Calculei que ela não tivesse lhe contado. Creio que foi no Natal. Ainda não tínham os voltado a nos encontrar. Ela esteve internada durante bastante tem po. — Andy não tinha vergonha na cara, m as era um hom em desesperado e estava convencido de que se conseguisse afastar Kate de Joe daquela vez ela seria sua para sem pre. Mas conhecia a m ulher. A única form a de o fazer seria m atá-la, ou m atar Joe. Nada m enor que isso daria certo. Ela am ava m uito Joe.

— Não posso acreditar nisso — disse Joe abalado, e Andy exibiu um a expressão de tristeza. — Num hospital psiquiátrico? — Andy assentiu, incapaz de falar devido ao constrangim ento. Mas o dardo envenenado que lançara a Joe estava fazendo efeito. O veneno corria pelas veias dele. Era-lhe insuportável pensar que ela tentara suicidar-se por sua causa. Apavorava-o e tê-lo-ia transform ado não apenas no m au rapaz que o haviam acusado de ser na infância com o tam bém em um hom em m alévolo. E um a frágil parte de si não podia perm itir que ele se arriscasse a isso, tal com o Andy esperara.

— O que vai fazer a respeito do desej o que a Kate tem de engravidar novam ente? Ela disse-m e ontem que queria m ais dois filhos. — Andy continuava a desferir golpe após golpe.

— Ontem ? — perguntou Joe chocado. — Creio que deve ter entendido m al. Eu fui m uito claro a esse respeito.

— A Kate tam bém . É m uito parecida com a m ãe, em bora de form a sutil. — Andy tam bém sabia o quanto Joe detestava Liz. — E ainda não falam os do assunto m ais im portante para m im , o m eu filho. Está realm ente preparado para educá-lo, para j ogar basebol com ele, para se levantar à noite quando ele tiver um a otite, um pesadelo ou vom itar. Não sei por que, m as não o vej o fazendo isso.

Andy deixou que as suas palavras assentassem , e Joe com eçava a ficar visivelm ente aflito. Ele e Kate não haviam falado de nenhum a daquelas coisas. Ou m elhor, ele achava que sim . Kate dissera que ficaria contente só com um filho e que arranj aria um a am a para poder viaj ar com Joe de vez em quando. Contudo, Andy pintava-lhe um a im agem com pletam ente diferente dela. Saber que tentara suicidar-se quando se sentira abandonada por ele deixava-o com o louco. Era a culpa na sua form a m ais pura, e para ele bastante tóxica.

— Então em que pé ficam os, Joe? Não quero perder a m inha m ulher, a m ãe do m eu filho. Não quero que ela se sinta abandonada quando você viaj ar, e que tente fazer novam ente algum disparate. A Kate é m uito frágil, m uito m ais do que parece. É de fam ília. Afinal de contas, o pai suicidou-se. Ela pode facilm ente seguir-lhe o exem plo um dia destes.

Era um a peça cruel para Kate. Ela não tinha idéia do que Andy estava fazendo-lhe aos olhos de Joe, nem tão pouco do que ele estava fazendo a Joe. Andy tocava nos m edos de Joe com o se estes fossem teclas de um piano, e Joe estava tão ansioso que m al podia falar. Só lhe apetecia fugir e só conseguia recordar-se de Clarke a descrevê-la com o um a ave com um a asa quebrada. Joe não tinha m aneira de saber que Kate nunca pensara em suicidar-se, e por m uito infeliz que tivesse sido por causa dele, tal coisa nunca lhe passara pela cabeça. No entanto, o ardil de Andy alcançara o seu obj etivo. Por m uito que Joe am asse Kate, entendia que casar com ela era um a responsabilidade que não podia assum ir. Já o soubera antes. E Andy convencera-o facilm ente de que tivera razão.

— Então em que pé ficam os? — insistiu Andy inocentem ente. O que acabara de fazer não era digno de um hom em . Joe nunca o teria feito a Kate nem a ninguém , m as os seus m edos estavam tão arraigados que fora incapaz de perceber o ardil de Andy por aquilo que ele era: o ato de um hom em desesperado. Julgou-o verdade. E, sentado à m esa, sentiu vontade de chorar.

— Acho que tem razão. Creio que por m uito que tente, a form a com o vivo a m inha vida por causa do m eu trabalho causaria danos irreparáveis a Kate. Im agine que ela se m ate enquanto eu estivesse num a viagem . — Só de pensar naquilo ficava doente.

— Creio que poderia acontecer — respondeu Andy com ar pensativo, com o se sopesasse aquela possibilidade, olhando para Joe. A única coisa que viu nos seus olhos foi m edo.

— Não posso lhe fazer isso. Pelo m enos você está de olho nela. Não teve m edo de partir durante quatro m eses para a Alem anha? — perguntou m om entaneam ente intrigado, m as Andy foi rápido a explicar.

— Os m eus pais prom eteram olhar pela Kate, bem com o os dela. E além disso ela vai a um psiquiatra duas vezes por sem ana.

— Psiquiatra? — Joe ficou de novo chocado. — Ela vai a um psiquiatra?

Andy assentiu.

— Calculo que ela tam bém não tenha lhe contado isso. É um daqueles segredos som brios que ela guarda.

— Pelo visto guarda bastantes. — Mas entendia por que. Não era algo de que alguém devesse orgulhar-se, nem o fora o suicídio do pai.

O secretism o de Kate a respeito disso perm itira que Andy dissesse tudo o que quisesse. Kate nunca fora a um psiquiatra em toda a sua vida, com o ele bem sabia, nem tentara suicidar-se, nem tão pouco o perseguira quando ele saíra para trabalhar. Ele tam bém nunca fora ter com ela a m eio do dia. Eram tudo m entira, m as tinham dado certo.

— Não sei o que dizer à Kate — com entou Joe com ar desesperado. Am ava-a, e ela am ava-o, m as acreditava agora que tentar partilhar a sua vida com ela acabaria por destruí-la ou até m atá-la. Era um risco que não estava disposto a correr, um a culpa que não poderia carregar.

Joe só queria m andar Andy em bora e ficar sozinho. Nunca se sentira tão infeliz, nem quando Kate fora em bora de New Jersey. Aquilo era m uito, m uito pior. Tivera certeza de que iria casar com Kate e que com o tem po Andy acabaria por afastar-se. Mas entendia agora que seria m elhor para ela ficar com Andy. Mais seguro e m elhor para a criança. Não havia realm ente alternativa. E para indicar que a batalha term inara, levantou-se e apertou a m ão de Andy com um a expressão severa.

— Obrigado por ter vindo — disse, — acho que acabou de fazer o m elhor para a Kate. — Am ava-a m uito para a colocar em perigo, e o m edo de ela poder suicidar-se era um grande risco, j á para não falar nos m edos que Andy tam bém despertara nele.

— Você tam bém acabou de o fazer — respondeu Andy, enquanto Joe o acom panhava à porta do gabinete.

Quando a porta se fechou, Joe foi sentar-se de novo à m esa a olhar para a vista. Só conseguia pensar em Kate enquanto as lágrim as lhe escorriam pelo rosto. Perdera-a novam ente.

Kate não soube o que aconteceu naquele dia entre Joe e Andy. Não chegou sequer a saber que eles tinham se encontrado. Andy voltou para casa nessa tarde e não lhe disse nada, m as tinha um ar vitorioso que a enoj ou. O seu carcereiro, que outrora fora seu m arido, estava satisfeito consigo próprio. E ela odiou-o ainda m ais. O am or que havia entre eles desaparecera.

Dois dias m ais tarde, Joe convidou-a para alm oçar. Encontraram -se em um pequeno restaurante som brio onde j á tinham ido, e nenhum deles tocou na com ida. Ele disse-lhe apenas que pensara no assunto e que sabia que não podia arrancá-la do casam ento com o risco de ela perder o filho. Era algo que não poderia fazer. Ao ouvir Joe, Kate viu a culpa nos olhos dele. Sofria. Muito m ais do que ela supunha. Desde que estivera com Andy, Joe só conseguira pensar na tentativa de suicídio dela três anos antes, e por sua culpa. Por isso decidira deixá-la. Foi um a hora de alm oço cheia de sofrim ento para am bos, e Kate chorou no táxi a cam inho de casa. Joe dissera-lhe que tinham de se afastar, de esquecer um ao outro. A dor tinha de term inar para am bos. Ele tivera m edo de lhe dizer m uito m ais com receio de que ela se suicidasse.

E deitada na cam a chorando, depois de ter chegado em casa, Kate j ulgou que nunca m ais veria Joe. Desej ou estar m orta, m as não o suficiente para pôr fim à vida. Tal nunca lhe passara pela cabeça.

E Joe fez o que m elhor sabia fazer. Fugiu. Voou para a Califórnia nessa noite. E quando Andy chegou em casa e a viu, soube que isso acontecera. Vencera, independentem ente do preço.