A Águia Solitária
Prólogo
PRÓLOG O
Dezembro, 1974
O telefonem a surgiu quando ela m enos esperava, num a tarde de dezem bro cheia de neve, quase trinta e quatro anos depois de terem se conhecido. Trinta e quatro anos extraordinários. Passara exatam ente dois terços da sua vida com ele. Kate tinha cinquenta e um e Joe sessenta e três. E apesar de tudo o que conseguira, Joe ainda lhe parecia um j ovem . Havia nele um a energia, um a força im pulsionadora. Parecia um a estrela cadente, encurralada no corpo e na alm a de um hom em , sem pre a querer seguir para frente, a voar disparada rum o a obj etivos invisíveis. Ela percebera isso assim que o conhecera. Sem pre o soubera. Nem sem pre com preendera, m as desde o início, m esm o sem saber quem ele era, percebera que era diferente, im portante e especial, e m uito, m uito invulgar.
Kate sentira-o dentro de si. Ao longo dos anos ele tornara-se parte da sua alm a. Nem sem pre fora a parte m ais agradável dela, nem dele, m as era um a grande parte dela, e fora-o durante bastante tem po.
Houvera choques ao longo dos anos, e explosões, altos e baixos, cum es de m ontanhas, nasceres e pores do Sol, e m om entos de paz. Ele fora o seu Everest. O derradeiro. O local que ela sem pre quisera alcançar. Desde o prim eiro m om ento ele fora o seu sonho. Fora o Céu e o Inferno, e de vez em quando o purgatório em algum lugar no m eio. Era um gênio, um hom em de extrem os.
Davam sentido à vida um do outro, e cor e profundidade, e por vezes tinham -se assustado m uito. A paz e a aceitação haviam surgido com a idade e com o tem po. As lições que tinham aprendido haviam sido difíceis e bem m erecidas.
Haviam sido o seu m aior desafio, encarnado os m aiores m edos. E no fim , tinham -se sarado. Com o tem po, encaixaram com o duas peças de um puzzle, sem arestas aguçadas e sem costuras.
Nos trinta e quatro anos que haviam partilhado tinham encontrado algo que poucas pessoas encontram . Fora um a vida tum ultuosa e excitante, e o barulho fora por vezes ensurdecedor, m as am bos sabiam que era infinitam ente raro. Fora um a dança m ágica durante trinta e quatro anos, cuj os passos am bos tinham aprendido com dificuldade
Joe era diferente das outras pessoas, via o que os outros eram incapazes de ver, e tinha pouca necessidade de viver entre as pessoas. De fato, era m ais feliz quando estava sozinho e à sua volta criara um m undo extraordinário. Era um visionário que criara um a indústria, um im pério. Expandira o m undo e ao fazê-lo, alargara os horizontes m ais do que qualquer um poderia im aginar. Era im pelido a construir, a ultrapassar barreiras, a ir constantem ente m ais além .
Joe estava na Califórnia quando o telefonem a surgiu naquela noite, e j á lá estava havia sem anas. Deveria voltar dentro de dois dias. Kate não estava preocupada com ele, j á se deixara disso. Ele partia e regressava com o as estações ou o sol. Onde quer que se encontrasse, ela sabia que nunca estava m uito longe dela. A única coisa im portante para Joe, para além de Kate, eram os seus aviões. Sem pre haviam sido um a parte integrante dele. Joe precisava deles, e do seu significado, de certa form a m ais do que precisava dela. Kate sabia-o e aceitava-o. Tal com o a sua alm a ou os seus olhos, com eçara a am ar os aviões com o se fossem parte dele. Tudo fazia parte do m osaico m iraculoso que era Joe.
Estava escrevendo no diário naquele dia, satisfeita no silêncio da casa tranquila, enquanto o m undo lá fora se cobria de neve. Já era de noite quando o telefone tocou às seis horas, e ela ficou sobressaltada ao ver que era tão tarde. Quando olhou para o relógio, soube que devia ser Joe. Kate tinha o m esm o aspecto de sem pre quando afastou um caracol de cabelo acobreado-escuro e estendeu a m ão para o telefone. Sabia que do outro lado da linha estaria a fam iliar voz grave e aveludada ansiosa por lhe falar do seu dia
— Estou sim ? — disse Kate, antecipando a voz dele. Reparou que ainda nevava lá fora. Era um a m agnífica paisagem de inverno e tornaria m aravilhoso o Natal quando os filhos viessem para casa. Os dois tinham em pregos e vidas e pessoas de quem gostavam . O m undo dela girava agora quase exclusivam ente em redor de Joe. Era Joe que vivia no centro da sua alm a.
— Mistress Allbright? — A voz não era de Joe. Ficou desapontada por m om entos, m as só porque contava ouvi-lo. O m arido acabaria por telefonar. Acabava sem pre por fazê-lo. Houve um a pausa estranha e longa com o se a voz vagam ente fam iliar do outro lado da linha esperasse que ela adivinhasse o m otivo do telefonem a. Era um assistente novo, m as Kate j á falara com ele antes. — Estou ligando do gabinete de Mister Allbright — disse ele, tornando a calar-se e, sem saber por que, achou estranho que o m arido quisesse que o hom em lhe telefonasse. Era quase com o se conseguisse sentir a presença de Joe ao seu lado ali na sala, e contudo não foi capaz de im aginar por que m otivo Joe haveria de querer que fosse o outro a ligar e não ele. — Eu... peço desculpa. Houve um acidente.
Ao ouvir aquelas palavras o corpo dela gelou, com o se tivesse sido atirada nua para o m eio da neve.
Adivinhou antes de ele falar. Um acidente... houve um acidente... um acidente... era um a litania de que ela passara a vida à espera, e depois esquecera, porque Joe tinha tantas vidas. Era indestrutível, infalível, invencível, im ortal. Contara-lhe quando a conhecera que tinha cem vidas, e só usara noventa e nove. Parecia sem pre haver m ais um a.
— Ele voou para Albuquerque esta tarde — disse a voz, e, subitam ente, a única coisa que Kate conseguia ouvir na sala era o tique-taque do relógio. Constatou ofegante que era o m esm o som que ouvira há m ais de quarenta anos quando a m ãe lhe fora dizer do pai. Era o som do tem po a esgotar-se, a sensação de cair num abism o sem fundo, e Kate soube que não podia perm itir-se voltar a esse lugar. Joe não deixaria que isso lhe acontecesse. Estava testando um novo m odelo.
A voz continuou, soando subitam ente a Kate com o a de um rapaz. Porque não estava Joe ao telefone? Pela prim eira vez em m uitos anos sentiu as garras do terror à sua volta.
— Houve um a explosão — disse ele num a voz tão suave que Kate não conseguiu suportá-la. A palavra atingiu-a com o um a bom ba.
— Não... eu... não pode ter havido... não pode ser... — Engasgou-se com as palavras e ficou im óvel. Adivinhou o resto antes que ele lhe dissesse. A voz não tinha de dizer m ais nada. Kate soube o que acontecera e sentiu os m uros do seu m undo seguro e protegido com eçarem a desm oronar. — Não m e diga. — Ficaram im óveis durante um longo m om ento, calados, enquanto as lágrim as enchiam os olhos dela. Ele oferecera-se para lhe ligar. Mais ninguém tivera coragem de pegar no telefone.
— Caíram no deserto — disse sim plesm ente, e Kate fechou os olhos, à escuta. Não estava acontecendo. Joe seria incapaz de lhe fazer aquilo. E no entanto ela sem pre soubera que poderia acontecer. Mas nenhum deles acreditara realm ente nisso. Ele era dem asiado j ovem para que algo assim lhe acontecesse. E ela era dem asiado nova para ser sua viúva. Houvera tantas outras com o ela, m ulheres de pilotos, que haviam perdido os m aridos nos testes de aviões. Joe fora sem pre visitá-las. E agora aquele rapaz estava ligando-lhe. Com o podia ele saber quem Joe era? Conhecia apenas o hom em que construíra o im pério. A lenda que havia sido. Havia m uito m ais em Joe que ele nunca saberia. Kate passara m etade da vida aprendendo quem Joe era.
— Alguém verificou os destroços? — perguntou em voz trêm ula. Se o tivessem feito encontrá-lo-iam rindo para eles, sacudindo o pó da roupa, e telefonando a Kate para contar o que acontecera. Nunca nada podia afetar Joe.
O j ovem ao telefone não quis dizer-lhe que houvera um a explosão no ar que ilum inara o céu com o um vulcão. Outro piloto que voava m ais acim a dissera-lhe que parecera Hiroshim a. Nada restava de Joe a não ser o seu nom e.
— Tem os a certeza, Mistress Allbright. Lam ento m uito. Posso fazer algum a coisa pela senhora? Tem alguém com a senhora?
Ela não respondeu logo, incapaz de encontrar palavras. Só lhe apetecia dizer que Joe estava ali com ela, e que sem pre estaria. Sabia que nada nem ninguém poderia roubar-lhe.
— Alguém do escritório irá ligar-lhe m ais tarde por causa dos... hum … preparativos — disse a voz pouco à vontade, e tudo o que Kate conseguiu fazer foi assentir. E, sem m ais um a palavra, desligou. Não havia m ais nada a dizer-lhe, não conseguia nem tinha m ais a dizer. Olhou para a neve, vendo Joe. Era com o se ele estivesse m esm o à sua frente, com o sem pre estivera. Ainda conseguia vê-lo com o na noite em que haviam se conhecido, havia tanto tem po.
Sentiu o pânico a invadi-la, e soube que naquele m om ento tinha de ser forte por ele, que tinha de ser a pessoa em que se tornara por sua causa. Joe esperaria isso dela. Não podia perm itir-se voltar a m ergulhar na escuridão, ou ceder ao terror que o am or por ele fizera desaparecer. Fechou os olhos e disse o nom e dele em voz alta na sala que haviam partilhado.
— Joe... não vás... preciso de ti... — m urm urou com as lágrim as a rolarem -lhe pelo rosto.
— Estou aqui, Kate. Não vou a parte algum a. Você sabe disso. — A voz era forte e calm a e tão real que ela soube que a ouvira. Joe não iria abandoná-la. Fazia o que tinha a fazer, onde era necessário, onde queria, em algum lugar nos seus céus. Com o estava destinado a fazer. Tal com o acontecera durante todos os anos em que ela o am ara. Poderoso. Invencível. E livre.
Naquele m om ento nada poderia alterar isso. Nenhum a explosão podia roubar-lhe. Ele era m aior que isso. Dem asiado grande para m orrer. Ela tinha de libertá-lo m ais um a vez para que ele pudesse fazer aquilo a que estava destinado. Tinha de ser o seu últim o ato de coragem , e o dele.
Um a vida sem Joe era inim aginável, im pensável. Quando ela olhou para a noite viu-o afastar-se lentam ente. E então ele virou-se para lhe sorrir. Era o m esm o hom em que sem pre havia sido. O m esm o hom em que ela am ara durante tanto tem po. Tal com o ele era.
A casa encheu-se de um silêncio incom ensurável e Kate ficou sentada durante bastante tem po pensando nele. Lá fora, a neve continuava a cair e ela recordou a noite em que haviam se conhecido. Ela tinha dezessete anos, e ele era j ovem , poderoso e deslum brante. Fora um m om ento inesquecível que m udara a sua vida, quando olhara para ele e o baile com eçara.