A Águia Solitária
Capítulo 1
Kate Jam ison viu Joe pela prim eira vez num baile de debutantes em dezem bro de 1940, três dias antes do Natal. Ela e os pais tinham ido de Boston a Nova Iorque passar um a sem ana para fazer algum as com pras de Natal, visitar am igos e ir ao baile. Kate era am iga da irm ã m ais nova da debutante. Não era norm al as garotas de dezessete anos irem a esses bailes, m as Kate surpreendera tanta gente e tinha tanta m aturidade para a sua idade que para os anfitriões foi fácil incluí-la.
A am iga de Kate sentira-se radiante, tal com o ela. Era a festa m ais bonita a que algum a vez tinha ido, e o salão onde ela entrou pelo braço do pai encontrava-se cheio de pessoas extraordinárias. Chefes de Estado, im portantes figuras políticas, viúvas ricas e m ães de fam ília, e m uitos j ovens bonitos. Todos os nom es im portantes da sociedade de Nova Iorque estavam presentes, e vários de Filadélfia e Boston. Setecentas pessoas conversavam nas elegantes salas e no lindíssim o salão de baile espelhado, e nos j ardins havia um a tenda. Havia centenas de criados de libré a servi-los, um a orquestra no salão e outra na tenda. Havia m ulheres bonitas e hom ens bem -apessoados, j óias e vestidos extraordinários e os cavalheiros envergavam casacos brancos. A convidada de honra era um a garota bonita, pequena e loura, com um vestido feito de encom enda a Schiaparelli. Aquele era o m om ento por que esperara toda a vida; estava sendo oficialm ente apresentada à sociedade. Parecia um a boneca de porcelana ali com os pais recebendo os convidados, e um criado anunciava o nom e de cada um à m edida que entravam com suas roupas de noite.
Quando os Jam ison entraram , Kate beij ou a am iga e agradeceu-lhe tê-la convidado. Era o prim eiro baile do gênero a que ia, e por m om entos as duas garotas fizeram lem brar o quadro de Degas com as duas bailarinas, am bas m uito contrastantes. A debutante era pequena e loura, com um corpo suavem ente torneado, ao passo que Kate dava m ais nas vistas. Era alta e m agra, com cabelo acobreado-escuro que lhe dava pelos om bros. Tinha um a tez leitosa, enorm es olhos azul-escuros e um a silhueta perfeita. E enquanto a debutante era contida e calm a, de Kate parecia em anar eletricidade e energia. Quando era apresentada aos convidados pelos pais, olhava as pessoas nos olhos e deslum brava-as com o seu sorriso. Havia algo no seu aspecto, e m esm o no form ato da sua boca, que sugeria que estava prestes a dizer algo engraçado, im portante, algo que os outros queriam ouvir e recordar. Tudo em Kate prom etia excitação, com o se a sua j uventude fosse tão exuberante que ela tinha de partilhá-la.
Era cativante, sem pre fora, com o se viesse de um local diferente e estivesse destinada a grandes feitos. Nada nela era vulgar, destacava-se em todas as m ultidões, não só pela sua beleza, m as tam bém pela sua argúcia e encanto. Em casa, andava sem pre cheia de idéias travessas e planos loucos, e enquanto filha única divertira e entretera os pais. Nascera quando eles tinham algum a idade, após vinte anos de casam ento, e, quando era bebê, o pai costum ava dizer que valera a pena esperar por ela, e a m ãe concordava prontam ente. Adoravam -na. Nos seus prim eiros anos ela fora o centro do m undo deles.
Os prim eiros anos de Kate haviam sido fáceis e despreocupados. Nascida num a fam ília abastada, em criança conhecera apenas conforto e facilidades. O pai, John Barrett, descendia de um a ilustre fam ília de Boston, e casara com Elizabeth Palm er, cuj a fortuna era ainda m aior do que a dele. As fam ílias tinham ficado m uito satisfeitas com o casam ento. O pai de Kate era conhecido no m eio financeiro pela sua sensatez e bons investim entos. E depois viera o colapso da Bolsa em 1929, arrastando o pai de Kate e m ilhares com o ele num m arem oto de destruição, desespero e perda. Felizm ente, a fam ília de Elizabeth achara m á idéia perm itir que o casal unisse as suas fortunas. Durante m uito tem po não haviam tido filhos e a fam ília de Elizabeth continuou a ocupar-se da m aior parte das finanças dela. Miraculosam ente, ela quase não foi afetada pelo colapso financeiro.
John Barrett perdeu toda a sua fortuna, e apenas um a pequena parte da da m ulher. Elizabeth fizera tudo o que podia para tranquilizá-lo e aj udá-lo a pôr-se novam ente de pé. Mas o desgosto acabou por destruí-lo. Três dos seus clientes m ais im portantes e am igos suicidaram -se m eses após terem perdido as suas fortunas, e dois anos depois John acabou tam bém por ceder ao desespero. Kate m al o viu durante esses dois anos. Ele fechara-se num quarto do prim eiro andar, raram ente recebia alguém , e pouco saía. O banco que a sua fam ília abrira, e que ele dirigira durante quase vinte anos, fechara dois m eses após o colapso financeiro. John tornou-se inacessível, distante, solitário, e a única coisa que o anim ava era ver Kate, que na época tinha apenas seis anos, a vaguear pelos seus aposentos, a trazer-lhe um doce ou um desenho que fizera. Com o se pressentisse o labirinto em que o pai estava, ela tentava instintivam ente tirá-lo de lá, m as em vão. Até que um dia encontrou a porta dele trancada e passado algum tem po a m ãe proibiu-a de ir lá em cim a. Elizabeth não queria que ela visse o pai bêbado, em desalinho, com a barba por fazer, m uitas vezes a dorm ir dias inteiros. Era um a visão que a teria assustado e destroçou o coração da m ãe.
John Barrett m atou-se quase dois anos após o colapso financeiro, em setem bro de 1931. Era o único sobrevivente da sua fam ília e deixou para trás a viúva e a filha. A fortuna de Elizabeth continuava intacta, e ela era um a das poucas felizardas do seu m undo cuj a vida não fora m uito afetada, até perder John.
Kate ainda se lem brava do preciso m om ento em que a m ãe lhe contara. Estava sentada no seu quarto bebendo um a caneca de chocolate quente, agarrada à sua boneca preferida, e quando viu a m ãe entrar percebeu que algo de terrível tinha acontecido. A única coisa que conseguia ver eram os olhos da m ãe e a única coisa que conseguia ouvir era o tique-taque dem asiado ruidoso do relógio do quarto. A m ãe não chorou quando lhe contou, disse-lhe com toda a calm a e sim plicidade que o pai fora viver no Céu com Deus. Disse que ele tinha andado m uito triste nos últim os dois anos e que agora seria feliz com Deus. Assim que a m ãe pronunciou aquelas palavras, Kate teve a sensação de que todo o seu m undo lhe desabava em cim a. Mal conseguia respirar, o chocolate escorregou-lhe das m ãos e deixou cair a boneca. Soube que a partir desse m om ento a sua vida nunca m ais seria a m esm a.
Kate assistiu m uito solene ao funeral do pai, e nada ouviu. A única coisa de que conseguia recordar-se era que o pai as abandonara porque se sentira m uito triste. As palavras das outras pessoas rodopiaram à sua volta depois.
De coração destroçado... nunca se recom pôs., m atou-se com um tiro., perdeu várias fortunas... ainda bem que não m ovim entara tam bém o dinheiro de Elizabeth..
Exteriorm ente, nada m udou para elas depois disso, viveram na m esm a casa, viram as m esm as pessoas. Kate continuou a frequentar a m esm a escola e, poucos dias depois da m orte do pai, iniciou a terceira série.
Teve a sensação de estar em transe durante vários m eses. O hom em em quem tanto confiara, que tanto am ara, que tanto adm irara, e que tanto gostara dela, abandonara-as, sem aviso, explicação ou um a razão que Kate pudesse perceber. Sabia e entendia apenas que ele desaparecera e que a sua vida se alterara profundam ente. Um a peça fundam ental do seu m undo desaparecera. E a m ãe andou tão perturbada durante os prim eiros m eses que praticam ente saíra da vida de Kate. Esta teve a sensação de ter perdido os dois pais
Elizabeth tratou do que restava dos bens de John com o am igo e banqueiro Clarke Jam ison. Tal com o Elizabeth, a fortuna e os investim entos dele haviam resistido ao colapso financeiro. Ele era um hom em calm o, bondoso e um porto de abrigo. A esposa m orrera havia alguns anos devido a tuberculose, não tinha filhos e nunca voltara a casar. Mas passados nove m eses da m orte de John Barrett, ele pediu a m ão de Elizabeth. Casaram catorze m eses após o funeral, com um a cerim ônia sim ples que, para além dos noivos, contava apenas com a presença do sacerdote e de Kate, que assistiu a tudo de olhos m uito abertos e expressão solene. Na época tinha nove anos.
Com o passar do tem po, aquela decisão veio a revelar-se acertada. Em bora tivesse sido incapaz de o adm itir publicam ente, por respeito ao falecido m arido, Elizabeth era ainda m ais feliz com Clarke do que havia sido com John. Com binavam bem um com o outro, tinham interesses sem elhantes e Clarke era não só um excelente m arido m as tam bém um pai m aravilhoso para Kate. Clarke adorava Kate, e esta adorava-o. Idolatrava-a, protegia-a e, em bora nunca falassem dele, Clarke passou os anos seguintes tentando com pensá-la da perda do pai. Era um hom em tranquilo e carinhoso e foi com grande regozij o que viu a alegria e as travessuras voltarem a surgir em Kate. E depois de discutir o assunto com Elizabeth e Kate, adotou esta aos dez anos. A princípio, Kate teve receio de que isso fosse um a falta de respeito para com o pai, m as confessou a Clarke na m anhã da adoção que era a coisa que m ais desej ava no m undo. O pai desaparecera silenciosam ente da sua vida assim que os problem as haviam com eçado, tinha ela seis anos. Clarke proporcionou-lhe toda a estabilidade em ocional de que ela precisou depois da m orte dele. Não lhe negava nada e estava sem pre presente.
Todos os am igos de Kate acabaram por esquecer que ele não era o pai dela, e o m esm o se passou com Kate. Pensava no pai em alguns m om entos raros e solenes, m as ele parecia j á tão distante que ela m al conseguia recordá-lo. Da única coisa que se lem brava, quando a tal se perm itia, era do terror e do abandono que sentira quando ele m orrera. Mas raram ente o fazia. A porta que dava para essa parte de si estava fechada, e ela preferia assim .
Não fazia parte da natureza de Kate viver no passado ou agarrada à tristeza. Era o tipo de pessoa que parecia sem pre im pelida para a alegria, e proporcionava-a aos outros onde quer que fosse. O som das suas gargalhadas e o brilho do seu olhar criavam um a aura de alegria à sua volta, para gáudio de Clarke. Nunca falavam de ele a ter adotado. Era um capítulo encerrado na vida de Kate, e ela teria ficado chocada se alguém lhe m encionasse. A paternidade de Clarke ao longo dos últim os nove anos tornara-se um a parte tão integrante de si que Kate j á nem pensava nela. Ele era agora realm ente o seu pai de corpo e alm a, e Clarke pensava da m esm a m aneira. Há m uito que ela se tornara sua filha.
Clarke Jam ison era um banqueiro m uito adm irado em Boston. Vinha de um a fam ília respeitável, frequentara Harvard, e estava m ais do que feliz com a sua vida. Nunca se arrependera de ter casado com Elizabeth e adotado Kate. Nos aspectos m ais im portantes, considerava a sua vida um êxito. E o m undo era da m esm a opinião. Elizabeth era um a m ulher feliz. Tinha tudo aquilo que desej ava, um m arido que am ava, um a filha que adorava. Kate aparecera na vida dos pais pouco depois do quadragésim o aniversário de Elizabeth. Fora a m aior alegria da sua vida. Todas as suas esperanças estavam depositadas em Kate, queria para ela toda a felicidade E apesar da energia e da personalidade exuberante de Kate, Elizabeth certificara-se de que ela adquiria m odos im pecáveis e um a postura irrepreensível. E depois de ter casado com Clarke, após o traum a do suicídio de John, Elizabeth e Clarke trataram Kate com o um a pequena adulta. Partilhavam as suas vidas com ela e viaj avam m uito para o exterior. Levavam -na sem pre.
Aos dezessete anos, Kate fora à Europa com eles e no ano anterior tinha ido a Singapura e Hong Kong. Vira m ais do que a m aior parte das garotas da sua idade e, quando deslizava por entre os convidados parecendo m ais um a adulta do que um a j ovem , tinha um ar de m aturidade. Era algo em que todos reparavam . Percebia-se im ediatam ente que Kate não só era m uito feliz, com o tam bém se sentia perfeitam ente à vontade na sua pele. Conseguia falar com todos, ir a todo o lado, fazer quase tudo. Nada intim idava ou assustava Kate. Estava excitada com a vida, e isso percebia-se.
O vestido que ela usava no baile de debutantes em Nova Iorque fora encom endado em Paris na prim avera anterior. Era com pletam ente diferente dos vestidos que as outras garotas usavam . A m aior parte deles era em tons pastel ou cores fortes. Mais ninguém usara branco, claro, por deferência para com a convidada de honra. E todas estavam encantadoras. Mas Kate estava m ais do que isso, estava elegante e vistosa. Mesm o com dezessete anos tudo nela indicava que j á era um a m ulher e não um a adolescente. Não de m aneira ofensiva, m as ela parecia exsudar um a espécie de sofisticação discreta. Não havia folhos, nenhum a saia com prida, nada de rendas ou debruns. O vestido de cetim azul-gelo era cortado no viés e parecia cobri-la com o água, sem elhante a um a segunda pele; as alças eram pouco m ais fortes que fios. Realçava o seu corpo perfeito e os brincos de água-m arinha e diam ante que levava pertenciam à m ãe e j á haviam pertencido à avó. Brilhavam sem pre que eram postos à vista pelo seu longo cabelo verm elho-escuro. Não se m aquiara, tendo posto apenas um pouco de pó-de-arroz. O vestido era da cor de um céu de inverno gelado e a sua pele tinha a tonalidade e a m acieza da rosa m ais pálida. Os seus lábios eram verm elho-vivos e cham avam a atenção, pois ela estava constantem ente rindo e sorrindo.
O pai estava gracej ando com ela quando se afastaram dos anfitriões e ela ria com ele, tendo pousado um a m ão graciosam ente enluvada de branco no seu braço. A m ãe seguia atrás e parecia deter-se de cinco em cinco segundos para conversar com am igos. Pouco depois Kate avistara a irm ã da debutante que a convidara para a festa no m eio de um grupo de gente nova e abandonou o pai para ir ao encontro dela. Prom eteram encontrar-se novam ente no salão de baile e Clarke Jam ison observou a filha com orgulho quando ela se aproxim ou do grupo de gente j ovem e bonita e, sem que desse por isso, todas as cabeças se voltaram na sua direção. Era um a garota estonteante. Passados alguns segundos, viu que estavam todos rindo e tagarelando e que os rapazes a haviam rodeado. Estivesse ela onde estivesse, fizesse o que fizesse, ele nunca se preocupava com Kate. Todos gostavam dela e eram im ediatam ente atraídos na sua direção. O que Elizabeth desej ava era que Kate encontrasse um bom partido e casasse dentro de poucos anos.
Elizabeth era feliz com Clarke j á há quase dez anos e desej ava o m esm o para a filha. Mas Clarke fora persistente. Queria que Kate estudasse prim eiro e fora fácil convencê-la. Era um a garota dem asiado inteligente para não aproveitar isso, em bora o pai não esperasse que ela trabalhasse depois de concluir os estudos. No entanto, era de opinião que ela devia usufruir do m aior núm ero de coisas possível e estava certo de que iria aproveitá-las bem . Kate candidatara-se a todos os colégios nesse inverno e no ano seguinte entraria em um , com dezoito anos. Andava m uito anim ada com o assunto e concorrera a Wellesley, Radcliffe, Vassar, Barnard e a um a m ão-cheia de outros que não lhe interessavam tanto. E devido à história do pai em Harvard, Radcliffe fora a sua prim eira escolha. Clarke estava m uitíssim o orgulhoso dela.
Kate saiu com os outros da sala da recepção e dirigiu-se ao salão de baile. Conversou com as garotas que conhecia e foi apresentada a dezenas de rapazes. Parecia perfeitam ente à vontade conversando com m ulheres ou com hom ens, e dava a im pressão que estes cada vez a seguiam em m aior núm ero. Achavam as suas histórias divertidas, o seu estilo excitante, e quando o baile com eçou ela era constantem ente arrebatada das m ãos do par por adm iradores sucessivos. Parecia nunca term inar um a dança com o m esm o hom em com quem a com eçara. Foi um a noite glam orosa e ela estava divertindo-se m uito. E, com o sem pre, as atenções não lhe subiram à cabeça. Gostava delas, m as sabia controlar-se.
Kate estava j unto ao bufê conversando com um a garota que entrara em Wellesley nesse ano e lhe contava todos os porm enores quando o viu pela prim eira vez. Estava bastante atenta à conversa quando levantara o olhar e dera de cara com ele. Não percebeu por que, m as havia algo hipnotizante. Era bastante alto, de om bros largos, cabelo louro e um rosto cinzelado. E era consideravelm ente m ais velho do que os rapazes com quem tinha dançado. Calculou que devesse ter perto de trinta anos quando deixou de ouvir com pletam ente a garota de Wellesley e observou fascinada Joe Allbright a colocar duas costeletas de borrego no prato. Usava casaco branco com o os outros hom ens, m as parecia ligeiram ente desconfortável e dava a im pressão que teria preferido estar em outro local. Joe continuou avançando j unto à m esa pouco à vontade, parecendo um pássaro gigantesco cuj as asas tivessem sido inesperadam ente cortadas e a quem só apetecia voar dali para fora.
Por fim ele ficou apenas a centím etros de Kate, com o prato m eio cheio na m ão, e sentiu o olhar dela pousado em si. Baixou os olhos na sua direção, com um a expressão séria, e o olhar de am bos cruzou-se. Ficou im óvel durante um m inuto, a observá-la, e quando ela lhe sorriu ele quase se esqueceu que tinha um prato na m ão. Nunca vira ninguém com o ela, tão belo ou cheio de vida. Havia naquela garota qualquer coisa de fascinante, e parecia que estava perto de algo cheio de luz ou olhava para um a luz m uito intensa. Passados alguns segundos teve de desviar o olhar. Baixou os olhos, m as não se afastou dela. Percebeu que não conseguia m over-se, que estava preso ao chão, e pouco depois voltou a olhar para ela.
— Não m e parece que isso sej a com ida que chegue para um hom em do seu tam anho — disse Kate com um sorriso.
Não era tím ida e isso agradou a Joe. Tinha dificuldade em falar às pessoas desde que era rapaz. E, enquanto adulto, era um hom em de poucas palavras.
— Jantei antes de vir — explicou ele.
Não se aproxim ara da m esa do caviar, evitara a grande variedade de ostras que haviam sido com pradas para a ocasião e contentara-se com duas costeletas de borrego, um pãozinho com m anteiga e alguns cam arões. Chegava para si. Kate reparou que ele era bastante m agro. A roupa não lhe assentava m uito bem e calculou que ele a tivesse pedido em prestada para a ocasião. Era um a indum entária de que ele nunca precisava e não contava voltar a vesti-la. Pedira-a em prestada a um am igo. Tentara não ir à festa dizendo que não tinha roupa adequada. E depois fora obrigado a ir quando o am igo lhe arranj ara. Com exceção do seu breve encontro com Kate, teria dado quase tudo para não estar ali.
— Não parece m uito contente por estar aqui — disse, baixando a voz para que só ele conseguisse ouvi-la, com um sorriso e um a expressão de com preensão, e ele sorriu, adm irando-a.
— Com o adivinhou?
— Tinha ar de querer esconder o prato e fugir. Detesta festas? — perguntou. A garota de Wellesley afastara-se e ela podia conversar com ele m ais à vontade. Pareciam estar sozinhos no m eio de centenas de pessoas a rodopiar à volta deles, e não prestavam atenção a m ais ninguém .
— Sim , detesto. Ou pelo m enos j ulgo que detesto. Nunca vi nada com o isto. Tinha de adm itir que estava im pressionado.
— Eu tam bém não — retorquiu com toda a franqueza, em bora no seu caso não fosse por um a questão de preferência ou de falta de oportunidade, m as sim por um a questão de idade. Contudo, Joe não podia saber. Ela parecia tão descontraída e tão cheia de m aturidade que, se alguém lhe tivesse perguntado, ele teria dito que ela devia ter vinte e poucos anos, ou até quase a sua idade.
— É bonito, não é? — perguntou ela, olhando em volta e depois para ele. E Joe sorriu. Sim , era bonito, em bora não tivesse pensado na festa nesses term os. Desde que chegara só pensara no elevado núm ero de pessoas que ali se encontrava, no calor que fazia, nos apertos e nas m uitas outras coisas que preferia estar fazendo. E naquele m om ento, olhando para ela, j á não sabia se a festa fora um a perda de tem po tão grande com o inicialm ente supusera.
— É bonito — respondeu ele, e Kate reparou na cor dos seus olhos. Tinham a m esm a cor dos seus, azul-escuro, quase safira. — E você tam bém é — acrescentou inesperadam ente
Fora tão direto naquele elogio e na sua expressão que as suas palavras significaram m uito m ais para ela do que todas as que j á ouvira dos rapazes que a cortej avam . E em bora fossem dez anos m ais novos, estavam m uito m ais à vontade em sociedade do que ele.
— Você tem uns olhos lindíssim os — disse Joe, fascinado. Eram tão claros, francos, vivos e coraj osos. Ela parecia não ter m edo de nada. Tinham isso em com um , m as de form as distintas. Quando m uito, aquela noite fora um a das poucas coisas que o assustara. Teria preferido arriscar a vida, o que fazia com frequência, do que m isturar-se a um grupo de pessoas com o aquele. Chegara havia m enos de um a hora quando a encontrara, e j á estava farto e desej oso de partir. Esperava apenas que o am igo lhe dissesse que podiam ir-se em bora.
— Obrigada. Cham o-m e Kate Jam ison — apresentou-se ela, enquanto ele m udava o prato para a outra m ão e lhe estendia a direita.
— Joe Allbright. Quer com er algum a coisa? — Era direto e obj etivo, e parco de palavras. Dizia apenas aquilo que achava necessário. Nunca tivera j eito para floreados. E ela ainda não pegara sequer num prato. Quando Kate assentiu, ele estendeu-lhe um . Kate serviu-se de m uito pouco: alguns legum es e um pedaço de frango. Não tinha fom e, sentia-se dem asiado excitada para com er. Sem dizer um a palavra, ele carregou-lhe o prato e dirigiram -se para um a das m esas. Sentaram -se em silêncio e, quando Joe pegou no garfo, olhou para ela, perguntando a si m esm o por que m otivo ela teria escolhido a sua com panhia. Fosse qual fosse a razão, essa escolha m elhorara consideravelm ente a sua noite. E a dela.
— Conhece m uita gente aqui? — perguntou Joe sem olhar para m ais ninguém , apenas para ela.
Kate beliscava a com ida e sorriu-lhe.
— Algum as pessoas. Os m eus pais conhecem m ais do que eu — explicou ela, adm irada por se sentir tão pouco à vontade. Não era norm al isso acontecer-lhe, m as tinha a sensação de que todas as suas palavras contavam e que ele escutava todas as inflexões da sua voz. Não sentia com ele a m esm a ligeireza que sentia quando estava com outros hom ens. Havia em Joe algo de incrivelm ente intenso. Com ele, era com o se todos os floreados e subterfúgios tivessem desaparecido.
— Os seus pais estão aqui? — perguntou com ar interessado enquanto com ia outro cam arão.
— Sim . Em algum lugar. Há horas que não os vej o. — E sabia que não voltaria a ver durante m uitas m ais. A m ãe tinha o hábito de se instalar aos cantos com alguns am igos chegados e de assim passar a noite, sem sequer dançar. O pai de Kate ficava sem pre perto da m ulher. — Viem os de Boston para a festa — acrescentou ela para continuar a conversa, e Joe assentiu.
— Mora lá? — Observava-a com atenção. Havia algo nela que o cativava. Não sabia se era a form a com o ela falava ou olhava para ele. Parecia calm a, inteligente e interessada naquilo que ele dizia. Joe não se sentia à vontade com pessoas que lhe prestavam tanta atenção. E para além da evidente inteligência, ela era linda. Adorava olhar para ela.
— Sim . Você é de Nova Iorque? — perguntou ela, desistindo do frango. Não tinha fom e, a noite estava sendo dem asiado anim ada para perder tem po com com ida. Preferia falar com ele.
— Não. Nasci em Minnesota. Vivo aqui há um ano. Mas j á vivi em m uitos lugares. New Jersey, Chicago. Passei dois anos na Alem anha. Vou até à Califórnia no início do ano. Vou para onde houver pistas de aviação.
Parecia esperar que ela com preendesse isso, e Kate fitou-o com um interesse renovado.
— Voa?
Pela prim eira vez, ele pareceu genuinam ente divertido com a pergunta e descontraiu-se ao responder-lhe.
— Acho que pode dizer isso. Já algum a vez esteve num avião, Kate? — Era a prim eira vez que dizia o nom e dela, e ela gostou do som . Fazia-o parecer m ais pessoal, e ficou satisfeita por ele não o ter esquecido. Parecia o tipo de hom em capaz de esquecer nom es sem grande custo e tudo o m ais que não lhe despertasse a atenção. Mas estava fascinado com ela e reparara em todos os porm enores m esm o antes de a conhecer.
— Voam os até à Califórnia no ano passado, para apanhar o barco para Hong Kong. Norm alm ente viaj am os de trem ou de barco.
— Parece que j á viaj ou bastante. O que a levou a Hong Kong?
— Fui com os m eus pais. Visitam os Hong Kong e Singapura, m as até essa época só tínham os ido à Europa. — A m ãe quisera que ela aprendesse italiano e francês, e um pouco de alem ão. Os pais pensavam que poderia ser-lhe útil um dia. Clarke im aginava-a casada com um diplom ata. Ela teria sido a esposa perfeita de um em baixador e, inconscientem ente, ele educava-a para isso. — Você é piloto? — perguntou ela de olhos m uito abertos, traindo assim a sua j uventude.
Ele tornou a sorrir
— Sou, sim .
— Em que com panhia aérea? — Achava-o sim ultaneam ente m isterioso e interessante e viu-o descruzar as longas pernas e recostar-se na cadeira por breves m om entos. Não se assem elhava a ninguém que ela conhecia e queria saber m ais coisas a seu respeito. Não possuía o verniz dos rapazes seus am igos, m as ao m esm o tem po parecia bastante cosm opolita. E, apesar da tim idez, ela adivinhou nele um a grande confiança, com o se soubesse que seria capaz de olhar por si em qualquer parte, m om ento ou circunstância. Havia nele um a sofisticação inata, e Kate im aginou-o facilm ente a pilotar um avião. Para ela era um a coisa rom ântica e poderosa.
— Não voo para com panhias aéreas — explicou ele. — Testo aviões e desenho-os, para atingirem grandes velocidades e serem resistentes. — Era m ais com plicado do que isso, m as era apenas o que precisava de dizer-lhe.
— Conhece o Charles Lindbergh? — perguntou ela com interesse. Joe não lhe disse que a roupa que tinha vestido era dele e que viera com ele à festa, em bora o seu m entor tam bém tivesse estado relutante em ir. Anne ficara em casa, cuidando do filho doente. Joe perdera Charles na m ultidão no início da festa. Desconfiava que ele tinha ido se esconder em algum lugar. Charles detestava festas e m ultidões, m as prom etera a Anne que iria. E na ausência dela convidara Joe para apoio m oral.
— Conheço. Trabalham os j untos. Voam os j untosna Alem anha quando estive lá.
Era por causa dele que Joe se encontrava naquele m om ento em Nova Iorque e fora ele quem lhe arranj ara trabalho na Califórnia. Charles Lindbergh era seu m entor e am igo. Haviam -se conhecido num a pista de aviação em Illinois há vários anos, no auge da fam a de Lindbergh, e na época Joe era apenas um rapaz. Mas nos círculos da aviação, Joe agora era j á quase tão conhecido com o Charles. Só não era tão conhecido do público nem tão aclam ado. Joe quebrara vários recordes nos últim os anos e algum as pessoas consideravam -no m elhor piloto que o am igo. O próprio Lindbergh dissera-o um a vez, fora o m om ento alto da vida de Joe até esse m om ento, e m esm o desde essa época. Os dois hom ens tinham um a grande adm iração um pelo outro e eram bons am igos.
— Ele deve ser um hom em bastante interessante... e ouvi dizer que ela tam bém é m uito sim pática. O que aconteceu ao bebê deles foi terrível!
— Eles têm m ais filhos — retorquiu Joe, querendo afastar a potencial em oção do m om ento, m as Kate ficou perplexa com o com entário. Ela achava que isso não faria a m ínim a diferença. Custava-lhe im aginar o terror por que a fam ília devia ter passado. Tinha nove anos quando aquilo acontecera e ainda se lem brava de ver a m ãe chorando quando ouvia as notícias e de lhe explicar o que estava acontecendo. Para Kate soara com o um a experiência aterradora, e ainda soava, e tinha m uita pena daquela fam ília. A agonia parecia até suplantar os feitos de Lindbergh, e intrigava-a o fato de aquele hom em os conhecer realm ente.
— Ele deve ser um hom em extraordinário — com entou Kate com sim plicidade, e Joe assentiu. Nada m ais podia acrescentar à adulação que o m undo tinha para com Lindbergh e, na sua opinião, ele m erecia-a. — O que acha da guerra na Europa? — perguntou então Kate, e Joe ficou pensativo. Sabiam que a m obilização fora votada no congresso havia quase dois m eses e as im plicações disso não podiam ser ignoradas.
— Perigosa. Acho que poderá ficar descontrolada se não tiver um fim rápido. E creio que vam os entrar nela não tarda nada. — Os ataques haviam com eçado em agosto com bom bardeam entos noturnos na Inglaterra. A RAF estava bom bardeando a Alem anha desde j ulho. Ele fora até a Inglaterra dar o seu parecer sobre a velocidade e a eficácia dos aviões ingleses e sabia que a força aérea seria fundam ental para a sobrevivência daquele povo. Milhares de civis j á tinham m orrido. Mas Kate discordou rapidam ente dele, o que o deixou intrigado. Ela era realm ente um a m ulher com opiniões form adas e um espírito voluntarioso.
— O presidente Roosevelt diz que não vam os envolver-nos — disse ela com firm eza. Acreditava nele, tal com o os pais.
— Com a m obilização j á ocorrendo, ainda acredita nisso? Não acredite em tudo o que lê. Não m e parece que tenham os alternativa. — Pensara em oferecer-se com o voluntário para a RAF, m as o trabalho que estava desenvolvendo com Charles era m ais im portante para o futuro da aviação norte-am ericana, especialm ente se os Estados Unidos iam entrar na guerra. Acreditava ser da m áxim a im portância estar em casa naquela época, e Charles concordara com ele quando haviam discutido o assunto. Era por esse m otivo que Joe ia para a Califórnia. Lindbergh tinha m edo de que a Inglaterra não conseguisse aguentar a pressão dos Alem ães e ele e Joe queriam fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para prepararem os Estados Unidos para a guerra, em bora Lindbergh se opusesse violentam ente a isso.
— Espero que estej a enganado — disse ela baixinho. Se não estivesse, isso significava que todos os rapazes bonitos presentes naquela sala correriam um grande risco. O m undo inteiro, tal com o o conheciam , iria ser profundam ente alterado. — Acha m esm o que vam os entrar na guerra? — perguntou ela preocupada, esquecendo-se por instantes de onde estava e pensando em assuntos m ais sérios. A guerra j á se espalhara pela Europa a um ritm o assustador.
— Acho sim , Kate.
Ela adorava a form a com o ele a olhava quando dizia o seu nom e. Havia nele m uitas coisas de que gostava.
— Espero que estej a errado — redarguiu ela.
— Eu tam bém .
E, por se sentir à vontade com ele, nesse m om ento Kate fez algo que nunca fizera.
— Gostaria de ir até ao salão dançar um pouco? — Tinha a sensação de ter encontrado um am igo, m as Joe pareceu pouco à vontade com a sugestão e baixou o olhar para o prato antes de tornar a fitá-la. Não se sentia no seu elem ento.
— Não sei dançar — respondeu ele ligeiram ente atrapalhado e, para seu alívio, ela não riu, fazendo um a expressão surpreendida.
— Não sabe? Eu ensino-lhe. É m uito fácil, basta m exer-se um pouco e pôr um ar de quem está divertindo-se.
A parte de dançar com ela seria sim ples, m as não o resto.
— Acho que é m elhor não. Só iria pisar em você. — Olhou para baixo e viu que ela calçava uns delicados sapatos de cetim azul. — Talvez sej a boa idéia voltar para j unto dos seus am igos. — Há m uito que não conversava com alguém durante tanto tem po, e m uito m enos com um a garota da idade dela, em bora ele ainda não soubesse que ela tinha apenas dezessete anos.
— Estou aborrecendo-o? — perguntou Kate abruptam ente, com um a expressão preocupada. Sentiu que ele estava m andando-a em bora, e perguntou a si m esm a se o teria ofendido ao convidá-lo para dançar.
— Bolas, não! — exclam ou ele com um a gargalhada, e ficou ainda m ais em baraçado. Estava m uito m ais habituado a hangares do que a salões de baile, m as, bem vistas as coisas, até estava divertindo-se. — Você é tudo m enos aborrecida. Pensei apenas que preferiria dançar com alguém que o soubesse fazer. — Ele e Charles tam bém tinham isso em com um . Charles não sabia dançar.
— Já dancei m uito esta noite. — Era quase m eia-noite, e só nessa hora é que ela fora com er qualquer coisa. — O que é que gosta de fazer no seu tem po livre?
— Voar, — respondeu ele com um sorriso tím ido. Era fácil estar com ela e ele só sabia falar de aviões. — E você?
— Gosto de ler, de viaj ar e de j ogar tênis. E no inverno faço esqui. Jogo golfe com o m eu pai, m as não sou grande j ogadora. — Adorava patinar quando era criança. — Teria adorado j ogar hóquei, m as a m inha m ãe teve um chilique e proibiu-m e.
— Foi inteligente da parte dela, pois você teria ficado sem dentes! — Vendo o sorriso deslum brante de Kate era fácil perceber que ela nunca j ogara hóquei. — Sabe dirigir? — perguntou, recostando-se na cadeira. Ocorreu-lhe perguntar se ela gostaria de aprender a voar.
Kate sorriu.
— Tirei a carta quando fiz dezesseis anos, m as o m eu pai não gosta que eu dirij a. Ensinou-m e em Cape Cod no verão. Lá não há trânsito e é fácil aprender.
Joe assentiu, m as ficou perplexo com o que ela acabara de dizer.
— Que idade tem ? — Tinha a certeza de que ela devia rondar os vinte e cinco anos. Parecia bastante adulta e tinha um a conversa agradável.
— Dezessete. Faço dezoito daqui a uns m eses. Que idade j ulgava que eu tinha? — Ficou lisonj eada com o espanto dele.
— Não sei... talvez vinte e três... vinte e cinco. Não deviam perm itir que um a garota da sua idade envergasse vestidos com o esse. Assim só confunde os velhos com o eu.
Kate não o achava velho, especialm ente quando ele punha aquele ar desaj eitado e arrapazado. De vez em quando, parecia pouco à vontade e desviava o olhar; depois recom punha-se e voltava a olhá-la nos olhos. Kate gostava da tim idez dele. Fazia um contraste interessante com a sua experiência de voo, e sugeria hum ildade.
— Que idade tem , Joe?
— Vinte e nove. Quase trinta. Voo desde os dezesseis. Ia perguntar-lhe se gostaria de voar com igo um dia destes. Mas calculo que a idéia não agrade aos seus pais.
— Não agradaria à m inha m ãe. Mas o m eu pai acharia divertido. Passa a vida falando do Lindbergh.
— Talvez um dia eu possa ensiná-la a voar. — Ao dizer aquelas palavras, os seus olhos adquiriram um a expressão sonhadora. Nunca ensinara um a garota a voar, em bora conhecesse m uitos pilotos m ulheres; fora bastante am igo de Am élia Earhart até ela desaparecer havia três anos, e voara com a am iga de Charles, Edna Gardner Why te, que considerava tão espantosa com o ele. Ela vencera a prim eira corrida a solo havia sete anos e treinava pilotos m ilitares. Gostava bastante de Joe.
— Costum a ir a Boston? — perguntou Kate esperançosa, parecendo subitam ente m uito j ovem .
Joe sorriu. Havia naquela garota algo excitante, fem inino e j uvenil, m as, ao m esm o tem po, era bastante adulta.
— De vez em quando. Tenho am igos em Cape. Fiquei na casa deles no ano passado. Mas durante os próxim os m eses vou estar na Califórnia. Posso telefonar-lhe quando regressar. Talvez o seu pai queira vir conosco tam bém .
— Ele iria adorar — aquiesceu ela. Achava um a ótim a idéia. Agora só lhe faltava arranj ar um a m aneira de convencer a m ãe. Mas quem sabe se Joe iria telefonar-lhe? Provavelm ente não.
— Você estuda? — perguntou ele com um a expressão curiosa, e Kate assentiu. Joe deixara de estudar aos vinte, e depois disso só estudara aviões, depois de Lindbergh o ter tom ado à sua guarda.
— Vou para o colégio no outono — respondeu Kate.
— Sabe para qual?
— Ainda não. Quero ir para Radcliffe, o m eu pai estudou em Harvard. Gostaria de ir para lá, se pudesse. Mas Radcliffe é relativam ente perto. A m inha m ãe quer que eu vá para Vassar, onde ela estudou. Tam bém m e candidatei lá. Mas não m e agrada tanto. Acho que preferia ficar em Boston. Ou talvez ir para o Barnard aqui em Nova Iorque. Tam bém gosto de Nova Iorque. E você?
Tinha os olhos m uito abertos ao fazer-lhe a pergunta, e ele ficou sensibilizado.
— Não sei. Prefiro as cidades m enores.
Ela não era da m esm a opinião. As raízes de Joe podiam estar nas cidades pequenas, m as algo nele sugeria que essa preferência fora preterida, em bora de form a inconsciente. Joe tornara-se parte de um m undo m uito m aior, em bora ainda não tivesse percebido isso. Kate percebera.
Continuavam falando das virtudes de Boston e de Nova Iorque quando o pai de Kate se aproxim ou e ela o apresentou a Joe.
— Peço desculpa por ter estado m onopolizando a sua filha — disse Joe com um a expressão ansiosa. Receava que Clarke Jam ison fosse aborrecer-se com ele por causa da idade da filha, m as fora tão agradável conversar com ela. Tinham estado j untos por quase duas horas.
— Olhe que não o culpo — retorquiu o pai de form a agradável. — Ela é um a excelente com panhia. Já tinha perguntado-m e onde se encontraria, m as vej o que esteve em boas m ãos. — Achou que Joe parecia inteligente e educado, e quando ouviu o seu nom e ficou bastante surpreendido. Clarke sabia pelo que lera acerca dele nos j ornais que Joe era um aviador de renom e e perguntou de si para si com o teria ele acabado falando com Kate e se ela saberia quem ele era. Ao lado de Lindbergh, ele era um dos m elhores, em bora ligeiram ente m enos fam oso. Clarke sabia que ele vencera corridas de aviões no país a bordo do fam oso Mustang P-5 de Dutch Kindelberger.
— O Joe ofereceu-se para nos levar a voar um dia destes. Você acha que a m ãe teria um ataque?
— Acho que sim — respondeu o pai com um a gargalhada, — m as talvez eu consiga convencê-la. É m uito sim pático da sua parte, Mister Allbright. Sou um grande adm irador seu, e aquele recorde que bateu há pouco foi assom broso.
Joe ficou atrapalhado com os elogios de Clarke Jam ison, m as satisfeito por ele saber. Ao contrário de Charles, Joe conseguia evitar atrair as atenções, m as isso com eçava a tornar-se cada vez m ais difícil após os seus recentes feitos.
— Foi um voo excelente. Tentei convencer o Charles a ir com igo, m as ele estava m uito ocupado em Washington com a Com issão Conselheira Nacional de Aeronáutica.
Clarke assentiu, im pressionado, e seguiu-se um a anim ada conversa sobre os avanços da guerra na Europa. A m ãe de Kate j untou-se a eles. Disse que estava ficando tarde e que queria ir para casa. Clarke apresentou Joe à m ulher. Ele pareceu tím ido, m as m uito educado. E era evidente que estavam todos prontos para irem em bora. Sem hesitar, enquanto se dirigiam para a porta, Clarke entregou o seu cartão de visita a Joe.
— Ligue-nos se algum a vez for a Boston — convidou num tom hospitaleiro, e Joe agradeceu-lhe. — Vam os ver se podem os aceitar a sua oferta. Eu estou com vontade de o fazer! — Piscou o olho a Joe e este soltou um a gargalhada. Kate sorriu. O pai parecia sim patizar bastante com Joe. Pouco depois, os dois hom ens apertaram as m ãos e Joe disse que ia ver se encontrava Charles. Sabia que o seu m entor gostava tanto de festas com o ele e que devia estar escondido em algum lugar, pelo que seria difícil de descobrir no m eio da m ultidão. Ainda estavam pelo m enos quinhentas pessoas presentes, vagueando entre a casa e a tenda aquecida no j ardim . Então, depois de ter se despedido da m ãe dela, Joe virou-se para Kate.
— Gostei de j antar com você — disse ele fitando-a com um a expressão intensa. Os seus olhos pareciam carvões azuis a luzir. — Espero tornar a vê-la. — Parecia falar sério, e ela sorriu. De todas as pessoas com quem estivera naquela noite, ele fora o único que a im pressionara. Havia nele algo de m uito raro e extraordinário e no fim da noite ela percebeu que conhecera um hom em espantoso.
— Boa sorte na Califórnia — m urm urou, perguntando a si m esm a se os cam inhos de am bos voltariam a encontrar-se. Não sabia se ele lhe telefonaria. Não aparentava ser esse tipo de hom em . Tinha o seu próprio m undo, a sua paixão, um êxito considerável na sua área e era pouco provável que fosse atrás de um a garota de dezessete anos. Aliás, ao falar com ele Kate ficara quase com a certeza de que não telefonaria.
— Obrigado, Kate — respondeu Joe. Espero que consiga entrar em Radcliffe. Tenho certeza de que vai conseguir. O colégio terá m uita sorte em tê-la com o aluna, independentem ente de o seu pai ter estudado em Harvard. — Apertou-lhe a m ão, e desta vez foi Kate que baixou os olhos ante a intensidade do seu olhar. Parecia que ele a observava porm enorizadam ente, com o se para gravar a sua im agem na m em ória. Foi um a sensação estranha, m as Kate sentiu-se atraída para ele por um a força a que era im possível resistir.
— Obrigada, — m urm urou.
Então, com um a ligeira vênia na sua direção, Joe voltou-se e desapareceu na m ultidão para ir à procura de Charles
— Que hom em extraordinário! — com entou Clarke enquanto avançavam lentam ente para a saída e iam buscar os casacos ao bengaleiro. — Sabem por acaso quem ele é? — E contou a Kate e à m ãe os feitos extraordinários de Joe e os recordes que ele batera nos últim os anos. Clarke parecia saber de todos.
Quando entraram no carro, Kate olhou pela j anela, pensando nos m om entos que passara falando com ele. Os recordes que Joe batera nada significavam para ela, em bora o adm irasse por isso e percebesse que ele era im portante e bem sucedido na atm osfera rarefeita em que vivia. Mas era a essência do hom em que a atraía. O seu poder, a sua força, a sua ternura, até o seu ar acabrunhado tinham -na tocado com o nunca nada a tocara. Soube naquele m om ento, sem a m enor dúvida, que ele levara consigo um a parte de si própria e o que m ais a perturbava era não saber se algum dia voltaria a vê-lo.