A Águia Solitária

Danielle Steel · Capítulo 5 de 25

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A Águia Solitária

Capítulo 4

 

Depois de ter retornado ao colégio, Kate sentiu-se inquieta, em bora não percebesse por que. As colegas foram chegando um a a um a e contaram o que haviam feito durante o fim -de-sem ana. Algum as tinham ido para casa de am igos, outras para j unto da fam ília. Kate conversou com as am igas, m as não falou a nenhum a da visita de Joe. Era m uito difícil de explicar e ninguém acreditaria que não estava apaixonada. Ela própria não o poderia afirm ar com convicção.

Sally Tuttle foi quem por fim lhe perguntou quem era o hom em que lhe ligara da Califórnia.

— Ele estuda lá? É um antigo nam orado? — Tinha curiosidade, m as Kate respondeu num tom neutro evitando o olhar dela.

— Não, é só um am igo. Trabalha lá.

— Tinha um a voz agradável. — Isso era dizer pouco, m as Kate lim itou-se a assentir.

— Eu apresento-te se ele vier a Boston — gracej ou Kate, e em seguida foram preparar-se para as aulas do dia seguinte.

Um a das garotas retornou do fim de sem ana que passara com a fam ília no Connecticut e anunciou que ficara noiva. Aquilo fez com que tudo o que Kate sentia, e insistia que não sentia, parecesse ainda m ais estranho. Tinha um fraco por um hom em doze anos m ais velho que insistia que nunca se casaria. E nem sabia que Kate tinha um fraco por ele. Era de fato ridículo. Quando foi se deitar nessa noite, Kate convencera-se de que estava sendo incrivelm ente estúpida e, que se não tivesse cuidado, aborrecê-lo-ia e perderia a sua am izade, e ele nunca m ais a levaria para voar. E não queria que isso acontecesse. Ainda tinha esperança de que um dia ele a ensinasse a voar.

Para sua surpresa, Joe telefonou no dia seguinte.

Disse que tinha acabado de aterrissar no aeroporto. O voo fora difícil, tivera de parar três vezes para colocar com bustível, e atravessara duas tem pestades de neve. Estivera retido no solo durante algum tem po, devido a granizo em Way noka, Oklahom a. Kate achou que ele soava exausto, e a viagem levara-lhe vinte e duas horas.

— Foi m uito sim pático da sua parte telefonar-m e — disse, surpreendida e feliz. Não esperara voltar a ter notícias suas e ficou um pouco confusa, m as desconfiava que ele estava apenas sendo sim pático. O que ele disse a seguir confirm ou-o.

— Não queria que você se preocupasse — retorquiu Joe num tom neutro e ligeiram ente distante. — Com o vão as coisas por aí?

— Bem . — Na realidade, sentia-se triste desde que ele partira, e estava chateada consigo própria por causa disso. Não havia m otivo para se sentir ligada a ele. Joe não a encoraj ara e nada fizera para a iludir. Mas tinha saudades suas, em bora soubesse que não devia. Aos seus olhos, era com o ter um fraco pelo governador, ou pelo presidente, ou por qualquer outra pessoa im portante que estaria sem pre longe do seu alcance. A única diferença era que ela e Joe eram am igos, e gostava tanto da sua com panhia que era difícil não se deixar levar pelo prazer de estar com ele. Para além do m ais, vira um lado seu que poucas pessoas viam , lá em cim a no céu. Não fazia idéia da im portância que isso tam bém tivera para ele.

— Mal posso esperar pelas férias do Natal. — exclam ou, fingindo que a sua anim ação era devida às férias e não ao fato de ele se m udar de novo para leste, a fim de trabalhar com Charles Lindbergh. Agradava-lhe saber que estaria m ais próxim o. Perguntou a si m esm a se os pais a deixariam ir a Nova Iorque vê-lo, talvez acom panhada por um a das suas am igas. Mas não com entou isso com Joe. Sabia instintivam ente que, se o tivesse feito, ele teria ficado assustado.

— Telefono-lhe daqui a uns dias — disse ele com um a voz cansada. Estava desej oso de se m eter na cam a depois do voo de vinte e duas horas que atravessara o país.

— Isso não fica m uito caro? Talvez devêssem os restringir-nos às cartas.

— Eu ligo-lhe de vez em quando — retorquiu ele com cautela, — a m enos que você prefira que eu não o faça. — Parecia prestes a distanciar-se, não tão descontraído com o estivera no fim de sem ana. O seu acanham ento parecia m ais pronunciado ao telefone. Ligar-lhe era um grande passo para ele.

— Não, claro que quero que m e ligue! — exclam ou Kate m uito depressa. — Só não quero que gaste m uito dinheiro por m inha causa.

— Não se preocupe com isso. — Os telefonem as eram , afinal de contas, m ais baratos do que os j antares. Levara-a a bons restaurantes, o que para ele era raro. Raríssim o. Poupava todos os cêntim os que ganhava para o desenvolvim ento de novos m otores e de novos aviões. Mas quisera fazer algo de especial por Kate. Ela m erecia-o. — Kate? — perguntou com voz rouca.

Ela esperou, m as Joe nada m ais disse até ela responder. Parecia que queria ter a certeza de que ela ainda ali estava antes de se aventurar.

— Sim ? — Disse por fim , ligeiram ente ofegante, sem saber o que esperar.

— Vai continuar escrevendo-m e? Adoro as suas cartas.

Ela sorriu, sem saber se devia sentir-se desiludida ou aliviada. Ele parecera tão sério ao dizer o nom e dela que, por m om entos, ficara preocupada. Dava a sensação de que quisera dizer-lhe algo m uito im portante. E para ele era, em bora não fosse o que Kate esperara ou desej ara.

— Claro que sim — respondeu. — Mas na sem ana que vem tenho exam es.

— Eu tam bém — retorquiu ele com um a gargalhada. Tinha voos de ensaio m arcados para toda a sem ana. Alguns iriam ser bastante perigosos, m as queria fazê-los antes de ir em bora da Califórnia, em bora não o revelasse a Kate. — Vou andar m uito ocupado durante as próxim as sem anas, m as ligo-lhe quando puder.

Pouco depois desligou e Kate retornou ao quarto para estudar, tentando não pensar m uito nele.

Durante todo o fim de sem ana um a coisa não lhe saíra da cabeça. Não dissera nada a Joe, m as os pais andavam planej ando um a grande festa no Copley Plaza para ela antes do Natal. Kate iria ser apresentada no baile das debutantes e a sua própria festa seria linda, em bora não tão deslum brante com o aquela em que conhecera Joe. Não ousara aflorar ainda o assunto, m as pretendia perguntar aos pais se podia convidá-lo. Não sabia se ele iria, m as pelo m enos queria convidá-lo. Sabia que se divertiria m uito m ais com ele por perto, no entanto a m ãe m ostrara-se tão nervosa a respeito de Joe que Kate não queria insistir. Ainda havia tem po. A festa teria lugar apenas dali a três sem anas e Joe ainda estava na Califórnia.

Kate tinha a certeza de que quando ele retornasse a sua agenda social ainda não estaria preenchida.

Passados oito dias, Kate estava falando ao telefone com a m ãe à hora de alm oço acerca do baile e de algum as dúvidas, quando um a das suas colegas apareceu no corredor chorando. Kate teve certeza de que lhe acontecera qualquer coisa terrível, talvez m ás notícias de casa, se calhar a m orte de um dos pais. Com o continuava a ouvir a m ãe, Kate não percebeu o que a colega disse.

Liz tinha um a longa lista de perguntas sobre bolos e entradas e sobre a dim ensão exata da pista de dança. O vestido de Kate estava pronto desde outubro. Tinha um corpete sim ples de cetim e um a saia de tule. Sobre os om bros haveria m ais tule branco, através do qual se veria o corpete brilhante. Iria usar o cabelo preso com o as bailarinas dos quadros de Degas. Com o dissera a costureira, ao adm irar Kate, só lhe faltavam os sapatos de ballet. A sua cabeça estava cheia de porm enores fúteis quando com eçou a ouvir pessoas aos gritos. Um grupo de garotas preparara-se para ir alm oçar fora quando a inexplicável gritaria com eçara.

— O que é que a senhora disse, m ãe? — perguntou Kate. Havia tanto barulho à sua volta que ela não conseguira ouvir.

— Disse... oh, m eu Deus... o quê?... Tem a certeza, Clarke?...

Ouviu a m ãe com eçar a chorar e não percebeu o que tinha acontecido.

— Aconteceu algum a coisa ao pai? Mãe, o que é que se passa? — O seu coração com eçou a bater m uito depressa. Olhou em volta e reparou que várias garotas choravam tam bém . Percebeu então que não fora nada com o pai, m as que algo de terrível acontecera. — Mãe, o que é que se passa?

— Sabe. O seu pai estava ouvindo o rádio. — Clarke encontrava-se de pé na cozinha com ar descrente e contava-lhe um a coisa incrível. O país inteiro estava tão chocado com o eles. — Pearl Harbor foi bom bardeado pelos j aponeses há m eia hora. Vários navios foram afundados e m uitos hom ens foram m ortos e feridos. Meu Deus, isto é horrível!

Quando Kate olhou do corredor para os outros quartos, notou que toda a casa estava num caos. Ouviu rádios em todas os lugares e o som contínuo de choro. Muitas garotas perceberam que os seus pais, irm ãos, noivos e nam orados estavam subitam ente em perigo. Não havia qualquer possibilidade de a Am érica continuar fora da guerra. Os Japoneses haviam -na trazido até à sua porta e, apesar de todas as suas prom essas anteriores, o presidente Roosevelt iria ter de tom ar um a m edida drástica. Kate desligou rapidam ente o telefone e retornou ao quarto para ouvir o que diziam as colegas sobre as notícias.

Estavam todas sentadas em silêncio, as lágrim as correndo-lhes pelo rosto enquanto escutavam as notícias na rádio. Um a das garotas era do Havaí, e Kate sabia que havia duas j aponesas no andar de cim a. Nem sequer conseguia im aginar o que elas deveriam estar sentindo, encurraladas num país estrangeiro, tão longe de casa.

Já era noite quando voltou a telefonar à m ãe e tinham todos passado o dia ouvindo rádio. Era fácil acreditar que dali a m uito pouco tem po os j ovens da nação seriam enviados para longe, para m uito longe, a fim de com bater esta guerra. E só Deus sabia quantos deles iriam sobreviver.