A Águia Solitária
Capítulo 3
As prim eiras sem anas de aulas foram m uito agitadas para Kate. Tinha de com prar livros, de assistir a aulas, de se encontrar com professores, um conselheiro que a aj udaria na escolha do horário, e um a casa cheia de garotas para conhecer. Nem se deu ao trabalho de ir para casa nos finais de sem ana, para grande tristeza da m ãe. Mas pelo m enos fazia o esforço de telefonar de vez em quando.
Já estava em Radcliffe havia três sem anas quando escreveu a Joe. Não que não tivesse tido tem po antes disso, m as quisera esperar até ter algum a coisa interessante para lhe dizer e quando se sentou à m esa num a tarde de dom ingo, tinha m uitas histórias acerca do colégio. Falou-lhe das outras garotas, dos professores, das aulas, da com ida. Nunca fora tão feliz com o ali em Radcliffe. Era a prim eira vez que provava a liberdade, e estava adorando.
Não lhe falou dos rapazes de Harvard que conhecera na sem ana anterior, porque não achara apropriado e não era algo que quisesse partilhar com ele. Havia um do segundo ano, Andy Scott, com quem sim patizara bastante, m as ele era insignificante quando com parado com Joe, que se tornara o paradigm a do hom em ideal. Mais ninguém era tão alto ou tão atraente, ou tão bem sucedido, ou excitante. Era um pouco inj usto com pará-lo a alguém , e Andy parecia água perto de vinho quando ela o com parava a Joe Allbright. Mas era um a com panhia divertida e capitão da equipe de natação de Harvard, o que im pressionava as outras calouras.
Em vez disso, Kate contou a Joe tudo o que estava fazendo e com o se sentia feliz por estar ali. A sua carta, quando ele a recebeu, era anim ada, exuberante e entusiasta, todas as coisas que ele m ais gostava nela. E sentou-se assim que recebeu a carta para lhe responder, falando-lhe dos últim os desenhos, da sua últim a vitória sobre um problem a previam ente insolúvel. Falou-lhe dos seus voos de ensaio m ais recentes, m as preferiu não lhe falar acerca de um rapaz que m orrera no dia anterior, num voo de ensaio sobre Nevada. Ele era para ter feito esse voo, m as atribuíra-o ao outro para poder assistir a um a reunião. Fora Joe que tivera de telefonar à m ulher do rapaz e ainda se sentia um pouco deprim ido por causa disso. Mas esforçou-se por escrever um a carta ligeira, cheia de novidades e anim ação e quando a concluiu, sentia-se frustrado. A sua carta parecia tão aborrecida quando com parada com a dela, pois o seu dom ínio das palavras era m uito inferior. No entanto, m eteu-a no correio e perguntou a si m esm o quanto tem po Kate levaria para responder-lhe.
Ela recebeu a carta de Joe exatam ente dez dias depois de ter enviado a sua, e sentou-se para lhe escrever durante o fim de sem ana. Recusou sair com Andy Scott para poder ficar no quarto e escrever para Joe um a longa carta cheia de novidades, e as outras garotas que viviam com ela cham aram -lhe m aluca. Mas o coração de Kate j á fora entregue ao aviador da Califórnia. Não lhes disse quem ele era nem lhes contou m uito a respeito dele. Disse apenas que era um am igo e desculpou-se com Andy dizendo que tinha dor de cabeça. E nada na carta indicava que sentisse por Joe outra coisa que não um a grande am izade. Nada escrevera que a pudesse trair, e pintou-lhe um a série de retratos divertidos com um a sábia escolha de palavras. Ele riu m uito quando leu a carta dela sentado à m esa. A descrição que ela fazia da vida estudantil era hilariante. Tinha um enorm e j eito para ver e descrever os elem entos m ais escandalosos de quase todas as situações e ele adorava receber notícias suas.
A correspondência entre am bos continuou ao longo do outono e tornou-se m ais séria com o agravar da guerra na Europa. Trocavam opiniões e preocupações e ela respeitava os pareceres dele. Joe continuava acreditando que a Am érica iria entrar na guerra a qualquer m om ento e pretendia voltar a Inglaterra, trabalhar com o consultor para a RAF. Contou-lhe que Charles fora a Washington para se encontrar com Henry Ford, que partilhava a sua opinião a respeito da guerra. E depois tentou, pelo m enos, diverti-la tanto com o ela o divertia. Com eçava a passar os dias anim ado e ansioso com a perspectiva da chegada das cartas dela.
Dois m eses m ais tarde, na terça-feira que antecedeu o fim de sem ana de Ação de Graças, ela recebeu um telefonem a na casa onde vivia no com plexo universitário, e partiu do princípio que eram os pais. Iria para casa no dia seguinte e a m ãe devia querer saber a que horas pretendia chegar. Bebera café com Andy no dia anterior e ele dissera-lhe que ia para casa, em Nova Iorque, passar o fim de sem ana e que lhe ligaria de lá. Jantara com ele um a ou duas vezes durante os últim os dois m eses, m as a coisa não fora a lado nenhum . Estava dem asiado intrigada com a sua correspondência com Joe para se interessar por um estudante do segundo ano. Joe era m ais excitante do que qualquer outro hom em que ela j á conhecera.
— Sim ? — disse para o auscultador à espera de ouvir a m ãe e ficou perplexa ao ouvir Joe num a ligação extraordinariam ente nítida da Califórnia. A garota que atendera o telefone falara com a telefonista, m as não se dera ao trabalho de dizer a Kate que era um telefonem a interurbano e que não era a m ãe. Era a prim eira vez que ele lhe telefonava. — Que surpresa! — exclam ou, corando m uito, m as felizm ente ele não pôde ver. — Um feliz Dia de Ação de Graças, Joe!
— Para você tam bém , Kate. Com o vão as coisas aí pelo colégio? — Fez um com entário acerca de um a história hilariante que ela contara e riram -se m uito.
Kate ficou adm irada com o seu nervosism o falando com Joe. Algum a coisa nas cartas de am bos tornara-os m ais vulneráveis e m ais francos, e agora era estranho falar com ele.
— Está tudo bem . Vou am anhã para casa. Por acaso, até pensei que era a m inha m ãe ligando-m e. Vou estar em casa no fim de sem ana. — Já lhe havia dito num a carta, m as era algo bom para se dizer no silêncio que havia se feito.
— Eu sei. — Do outro lado ele estava tão nervoso com o ela. Sentia-se de novo um garoto, apesar de todos os esforços para soar confiante. — Estava ligando-lhe para saber se gostaria de j antar com igo. — Susteve a respiração enquanto esperava pela resposta.
— Jantar? — Kate fora apanhada desprevenida. — Onde... quando?... vem até aqui? — perguntou sem fôlego.
— Por acaso j á estou aqui. Esta viagem surgiu à últim a hora. O Charles está em Nova Iorque e eu precisava lhe pedir um a opinião. Vou j antar com ele hoj e e podia ir encontrá-la durante o fim de sem ana.
Na verdade, podia ter esperado pela opinião do seu m entor, m as quisera um a desculpa para ir a Nova Iorque e fora fácil arranj á-la. Disse a si m esm o que aquilo nada significava, que ia apenas visitar um a am iga e que se ela estivesse m uito ocupada, retornari à Califórnia. Mas não lhe referira o assunto antes de fazer a viagem porque achou que seria m ais eficaz se a convidasse depois de j á estar lá. Fora um plano engenhoso e eficaz, em bora tivesse sido desnecessário. Ela teria ficado encantada por voltar a vê-lo, e tentou m anter a voz firm e e um tom desprendido quando respondeu.
— Quando quer ir? Adoraria vê-lo. — Era a voz de um a am iga, não de um a m ulher apaixonada. Representavam am bos m uito bem os seus papéis, em bora o desafio fosse grande. Tudo aquilo era novidade para Joe, e para Kate tam bém . Nunca tivera um pretendente adulto e ele nunca tivera aqueles sentim entos assustadoram ente desconhecidos por outra pessoa.
— Posso ir quando você quiser — respondeu num tom despreocupado.
Ela pensou um pouco. Não sabia se seria o m ais correto, ou qual era a opinião da m ãe, m as achou que o pai ficaria satisfeito, por isso decidiu arriscar.
— Gostaria de se j untar a nós no Dia de Ação de Graças? — Não respirou até ouvir a resposta, e do outro lado da linha houve um a ligeira pausa. Parecia tão adm irado com o convite com o ela ficara ao ouvi-lo ao telefone.
— Tem certeza de que os seus pais não iriam im portar-se? — Não queria introm eter-se nem arrum ar problem as. Mas tam bém não com binara nada com os Lindbergh nem com m ais ninguém . Estava habituado a passar sozinho aquela data festiva.
— Tenho certeza — respondeu cheia de coragem , rezando para que a m ãe não ficasse m uito zangada. Mas tinham tam bém outros convidados, e em bora Joe fosse tím ido, seria um a adição interessante para a m esa. — Está bem para você assim ?
— Está ótim o. Posso pegarr um avião na quinta de m anhã. A que horas j antam ?
Ela sabia que os outros convidados iriam chegar às cinco e que o j antar seria servido às sete.
— Os outros convidados chegam às cinco, m as você pode chegar antes se precisar. — Não queria que ele tivesse de aguardar no aeroporto.
— Às cinco está ótim o — respondeu com serenidade. Teria ido às seis da m anhã se ela lhe pedisse. Não sabia por que, m as estava ansioso para vê-la. Após anos de solidão em ocional, estava cego, surdo e m udo em relação aos seus próprios sentim entos. — É m uito form al? — perguntou de repente com nervosism o. Não queria aparecer de terno se todos os outros estivessem de sm oking. E se precisasse de um , teria de o pedir em prestado a Charles e depois de devolve-lo.
— Não, o m eu pai costum a vestir um terno escuro, m as ele é bastante form al. Vista o que achar m elhor.
— Ótim o, levo o m eu m acacão de aviador — brincou ele. Ela riu-se.
— Gostaria de ver isso.
— Talvez possam os com binar um voo pequeno este fim de sem ana, para vocÊ e para o seu pai.
— Mas não diga nada à m inha m ãe. Ela ainda se engasgaria com o peru e obrigaria-o a ir em bora no m eio do j antar.
— Não vou dizer nada. Então até quinta.
Despediram -se com m uita descontração, m as ao pousarem o auscultador repararam am bos que tinham a palm a das m ãos transpirando. Kate ainda tinha de dizer à m ãe que ele iria j antar lá.
Aflorou o assunto na tarde seguinte quando chegou em casa e encontrou a m ãe verificando a porcelana na cozinha. Era conhecida pelo seu m agnífico serviço e pelos elaborados arranj os florais. E estava m eio ausente quando Kate entrou na cozinha, tentando perceber a disposição dela.
— Olá m ãe! Precisa de aj uda? — A m ãe olhou surpreendida por cim a do om bro. Kate era sem pre a prim eira a fugir quando percebia que era preciso de aj uda na cozinha. Dizia sem pre que as tarefas dom ésticas a aborreciam e eram aviltantes.
— Você foi expulsa do colégio? — perguntou a m ãe com um a expressão divertida. — Deve ter feito um a coisa m uito m á, um a vez que se ofereceu para m e aj udar a contar a louça. É m uito grave?
— Não poderá ser por j á ter am adurecido um pouco, agora que estou no colégio? — retorquiu Kate com um a expressão arrogante, e a m ãe fingiu pensar no assunto por uns instantes.
— É possível, m as pouco provável. Só está lá há três m eses, Kate. Acho que a m aturidade com eça a acontecer no segundo ano, e só surge com pletam ente quando estivere no últim o.
— Ótim o. Está dizendo-m e que depois de m e licenciar vou querer m esm o contar a louça.
— Absolutam ente! Em especial se o fizer para o seu m arido — respondeu a m ãe com firm eza.
— Mãe, está bem , está bem . Fiz um a coisa no espírito do Dia de Ação de Graças que a senhora sem pre m e ensinou. — Kate enfrentou a m ãe com um a expressão inocente.
— Matou um peru?
— Não, convidei um a pessoa am iga sem casa para j antar. Não sem casa, m as sem fam ília. — Parecia um a introdução razoável.
— Isso é m uito querido da sua parte. Um a das garotas da sua casa em Radcliffe?
— Um a pessoa am iga da Califórnia — explicou ela, tentando preparar a m ãe antes de lhe dizer.
— É perfeitam ente com preensível que ela não possa ir para casa. Claro que pode convidá-la. Vêm j antar aqui dezoito pessoas, e há m uito espaço na m esa.
— Obrigada, m ãe. — Kate pareceu aliviada, pelo m enos tinham espaço para ele. — A propósito, não é um a garota. — Kate susteve a respiração e aguardou.
— É um rapaz? — perguntou a m ãe espantada.
— Mais ou m enos.
— De Harvard? — A m ãe parecia satisfeita. Adoraria que a filha nam orasse com alguém de Harvard, e era a prim eira vez que a ouvia falar no assunto. E só três m eses passados desde o início do ano letivo.
— Ele não é de Harvard. — Kate m ergulhou na água gelada, — é o Joe Allbright.
Houve um a longa pausa durante a qual a m ãe a fitou com um olhar cheio de perguntas.
— O piloto? Com o é que teve notícias dele?
— Telefonou-m e na terça-feira. Vem visitar os Lindbergh e não tem nada para fazer no Dia de Ação de Graças.
— Não é um pouco estranho ele telefonar-te? — A m ãe parecia desconfiada.
— Talvez. — Não lhe falou das cartas, pois j á era difícil explicar por que m otivo o convidara. E agora tinha de arranj ar um a razão plausível para explicar.
— Já tinha lhe telefonado antes?
— Não, não tinha, — respondeu. A m ãe não lhe perguntou se ele tinha lhe escrito. — Acho que ele sim patiza m uito com o pai e talvez se sinta sozinho. Não m e parece que tenha fam ília. Não sei por que é que telefonou, m as quando m e disse que não tinha planos para este fim de sem ana, tive pena dele. Achei que a senhora e o pai não iriam im portar-se. É o espírito do Dia de Ação de Graças — disse j ovialm ente, tirando um a cenoura da geladeira.
A m ãe não ficara m uito convencida, conhecia bem a filha e nunca a vira assim . Mas com cinquenta e oito anos ainda não se esquecera do que se sentia quando se era adm irada por um hom em m ais velho, ou do que era estar enam orada. No entanto, algo em Joe Allbright a preocupava. Era tão calado e distante, e ao m esm o tem po tão ardente. Era o tipo de hom em que, se virasse a sua atenção para nós, podia ser arrebatador. E m esm o que Kate não entendesse isso, por não ter experiência, a m ãe entendia e era isso que a preocupava.
— Não m e im porto que ele venha j antar — disse Elizabeth Jam ison, — m as im porto-m e se ele andar atrás de você, Kate. É m uito m ais velho que você, e não m e parece que sej a o tipo de hom em por quem você deva apaixonar-se.
Com o é que se decidiam aquelas coisas, com o é que decidíam os por quem nos apaixonar ou não? E com o se podia controlar isso? Mas Kate lim itou-se a assentir.
— Não estou apaixonada, m ãe. Ele só vem aqui com er peru.
— Às vezes é assim que essas coisas com eçam , pela am izade e pela fam iliaridade — avisou a m ãe.
— Ele m ora na Califórnia — retorquiu abruptam ente Kate.
— Adm ito que isso faz com que eu m e sinta m elhor. Está bem , vou falar com o seu pai. E, detesto dizer isto, m as ele vai ficar encantado. No entanto, j uro que se ele se oferecer para levar o seu pai num avião perigoso ponho arsênico no recheio dele. E pode contar-lhe o que eu disse.
— Obrigada, m ãe — agradeceu Kate com ar radiante, saindo da cozinha.
— Pensei que ia aj udar-m e! — exclam ou a m ãe antes de a porta da cozinha se fechar.
— Tenho de entregar um trabalho na segunda, é m elhor despachar-m e! — gritou Kate.
A m ãe não se deixou enganar. A expressão no olhar de Kate depois de ela ter lhe dito que Joe podia ir j antar deixava-a apavorada. Ela própria tivera aquela expressão um a vez, quando um am igo do pai a cortej ara secretam ente e lhe destroçara o coração. Mas felizm ente os pais tinham descoberto e intervido antes de algo horrível ter acontecido. E ela conhecera o pai de Kate algum as sem anas logo a seguir. Mas agora estava preocupada com Kate e Joe Allbright. Nessa noite, falou no assunto com o m arido, quando j á estavam no quarto. Contudo, ele não partilhava os seus receios.
— Ele só vem j antar, Elizabeth. É um hom em interessante. Não é idiota ao ponto de andar atrás de um a garota de dezoito anos. É um tipo atraente, pode ter todas as m ulheres que quiser.
— Acho que você está sendo ingênuo — com entou ela. — A Kate é m uito bonita e acho que está fascinada. O Joe é um a figura m uito rom ântica. Metade das m ulheres deste país adoraria correr atrás do Charles Lindbergh, e tenho a certeza de que algum as delas tentaram . O Joe tem o m esm o tipo de m ística e de encanto. Todo aquele distanciam ento e o fato de ser aviador tornam -no um a figura rom ântica para um a adolescente.
— Está com m edo que a Kate ande atrás dele? — O pai parecia sobressaltado. A filha era bastante aj uizada, m as a m ulher ainda a considerava um a criança.
— Possivelm ente. Por acaso, preocupa-m e m ais que ele ande atrás dela. Porque lhe ligou para o colégio, e não para você?
— Está bem . Adm ito que ela é m uito m ais bonita do que eu. Mas é m uito sensata e ele parece ser um cavalheiro.
— E se se apaixonarem um pelo outro?
— Podiam acontecer coisas piores. Ele não é casado. É respeitável. De fato, até bastante. Tem trabalho. E não, não é um banqueiro de Boston. Mas isso podia acontecer, sabe? Ela pode conhecer um hom em que não sej a m édico, advogado ou banqueiro. Pode conhecer um oriental ou um príncipe indiano, ou até um francês, ou, pior ainda, um alem ão, em Harvard, e pode acabar do outro lado do m undo. Mas não podem os m antê-la trancada em casa para sem pre. E se o Joe Allbright for o tal, se ele a fizer feliz e for bom para ela, consigo viver com isso. Ele é um bom hom em , Elizabeth, e sinceram ente não creio que isso vá acontecer.
— E se ele m orrer com a queda de um avião e a deixar viúva com um a casa cheia de bebês? — perguntou a m ãe, parecendo em pânico.
Clarke sorriu.
— E se ela casar com um rapaz que trabalha num banco e ele for atropelado por um trem elétrico... pior ainda, se a tratar m al ou se ela se casar com ele só para nos fazer a vontade? Prefiro que ela case com alguém que realm ente a am e afirm ou num tom calm o, m as Elizabeth parecia cada vez m ais aflita.
— Acha que ele está apaixonado por ela? — sussurrou.
— Não. Acho que ele deve ser um cara solitário sem nenhum local para ir no Dia de Ação de Graças e, conhecendo a nossa filha, ela sentiu pena dele. Acho que nenhum deles está apaixonado pelo outro.
— Foi isso que a Kate disse, que tinha pena dele.
— Está vendo? Não te esqueças do que te disse, você está preocupando-se por nada — retorquiu, abraçando-a. — Ela é um a boa garota, com um coração sensível, tal com o a m ãe.
Elizabeth suspirou e tentou convencer-se de que Clarke estava certo, m as no dia seguinte, quando Joe apareceu, Kate não parecia ter pena dele. Parecia anim ada, bela e radiante por vê-lo. E Joe tinha um ar atordoado quando seguiu Kate até à sala de j antar e se sentou ao seu lado. E quando Clarke o incitou durante o j antar falando dos seus aviões, Kate olhou-o com um a expressão de adoração. Elizabeth não ficou m inim am ente tranquila ao ver o à vontade e a adm iração que transparecia entre os dois, e ficou com a sensação de que eles se conheciam m elhor do que diziam . Pareciam m uito descontraídos a tagarelar um com o outro.
As cartas tinham criado um a aura de descontração entre eles que era im possível ocultar dos pais, e Kate nem o tentou. Era evidente que ela e Joe eram am igos e que se sentiam atraídos um pelo outro. Elizabeth tam bém teve de adm itir, pelo m enos para si m esm a, que ele era inteligente, educado e encantador e que tratava Kate com ternura e respeito. Havia no entanto outra coisa que a assustava. Joe parecia um pouco frio, retraído e quase assustado, com o se tivesse sido m agoado a certa época da vida. Por m uito sim pático que parecesse, parecia estar sem pre inalcançável.
E quando Joe falou dos aviões, fê-lo com tam anha paixão que Elizabeth não pôde im pedir-se de perguntar a si m esm a se um a m ulher poderia com petir com a sua paixão pelos voos. Estava disposta a acreditar que ele era um bom hom em , m as não necessariam ente o m ais indicado para Kate. Liz não achava que Joe tivesse o necessário para ser um bom m arido. A sua vida estava cheia de perigos e de riscos, e não era isso que desej ava para Kate. Queria que ela tivesse um a vida confortável, feliz, com um hom em que não quisesse fazer nada m ais perigoso do que sair de casa para pegar do chão o j ornal da m anhã. Durante toda a vida Elizabeth protegera Kate do perigo, da doença, da dor, m as receava que não seria capaz de a proteger de um coração destroçado. Kate tivera m ais do que a sua conta disso quando o pai m orrera e Elizabeth sabia que se Joe e Kate se apaixonassem não haveria m aneira de proteger a filha. Ele era dem asiado cativante e dem asiado excitante. Até o seu ar reservado era apelativo, fazia um a pessoa querer tocar-lhe e aj udá-lo a saltar os m uros que ele construíra à sua volta. E viu Kate fazer isso ao j antar. Ela esforçava-se por pô-lo à vontade e fazê-lo falar.
Kate desej ava descontraí-lo e aj udá-lo a sentir-se em casa. Nem percebia o que estava fazendo. E quando os observou, Elizabeth soube que o pior acontecera. Em bora Kate ainda o desconhecesse, Liz adivinhou que a filha o am ava. Não conseguia perceber era o que Joe sentia por ela. Atração com certeza, e dificuldade em resistir ao seu m agnetism o, m as, para além disso, ninguém sabia, nem sequer o próprio Joe. Elizabeth teve a certeza de que ele tentava resistir ao que sentia por Kate, em bora sem êxito.
— Está vendo? Eles são apenas am igos... eu bem te disse — m urm urou Clarke pondo-lhe um braço sobre os om bros quando saíram da m esa do j antar. Era evidente que não via o m esm o que ela.
— O que te leva a pensar isso? — perguntou ela com ar triste.
— Olha para eles, falam com o dois velhos am igos. Ele trata-a com o um a criança durante a m aior parte do tem po. Trata-a com o um a irm ã m ais nova.
— Acho que estão apaixonados um pelo outro — disse Elizabeth, deixando-se ficar m om entaneam ente para trás. Haviam tido um grupo sim pático ao j antar, e Joe fora um a adição valiosa. Não era a conversa dele à m esa que a preocupava, m as sim as suas intenções para com Kate.
— Você é um a rom ântica incurável, m inha querida — disse Clarke, beij ando-a.
— Não, infelizm ente não sou. Acho que estou sendo cínica, ou talvez apenas realista. Não quero que ele a m agoe, e ele pode fazê-lo. E m uito. Não quero que isso lhe aconteça.
— Eu tam bém não. O Joe não faria isso. É um cavalheiro.
— Não tenho assim tanta certeza disso e, de qualquer form a, ele é um hom em . E um a figura rom ântica. Acho que se sente tão intrigado com o ela com ele, m as parece um hom em m agoado. Não gosta de falar da fam ília e os pais m orreram quando ele era bebê. Só Deus sabe o que lhe aconteceu na infância e que cicatrizes ficaram . E por que m otivo é que ele ainda não casou?
Eram perguntas norm ais para um a m ãe, m as Clarke continuava a achar que ela estava desnecessariam ente preocupada.
— Tem andado m uito ocupado — respondeu ele enquanto se dirigiam à sala de estar para j unto dos convidados.
Kate e Joe estavam sentados a um canto, em brenhados num a conversa e, ao observá-los, todas as dúvidas se desvaneceram na m ente de Elizabeth. Nenhum deles reparava nas outras pessoas presentes e Joe tinha o ar de quem estaria disposto a m orrer por ela, e ela por ele. Era dem asiado tarde. Agora só restava a Elizabeth rezar.
Na sexta-feira, depois do Dia de Ação de Graças, Joe fora buscar Kate em casa e passara a tarde com ela. Tinham ido dar um passeio no j ardim de Boston e depois foram tom ar chá no Ritz. Kate m anteve-o divertido durante todo o tem po com histórias sobre a viagem a Singapura e a Hong Kong e depois com as suas aventuras na Europa. As pessoas que j á tinham voado com ele não o teriam reconhecido. Estava m ais falador com ela do que algum a vez estivera na vida, e passaram a tarde inteira rindo.
Ele levou-a para j antar e depois foram ao cinem a. Viram O Mundo a Seus Pés e adoraram . Era quase m eia-noite quando a deixou em casa e Kate bocej ou ao despedir-se.
— Diverti-m e m uito — disse ela com um sorriso. Joe fitou-a com um a expressão radiante.
— Eu tam bém . — Kate pareceu querer dizer-lhe m ais qualquer coisa, m as arrependeu-se.
Pouco depois ela entrou em casa e encontrou a m ãe no alto das escadas. Tinha ido à cozinha verificar qualquer coisa.
— Divertiu-se? — perguntou a m ãe, tentando não parecer preocupada. Queria perguntar-lhe o que Joe havia dito, e feito, se a tinha beij ado ou feito algo que não devia. Mas decidira seguir os conselhos do m arido e não pressionar Kate
— Diverti-m e m uito, m ãe — respondeu Kate com um ar tranquilo. Adorava estar com Joe, e nunca pensara ser possível gostar tanto de estar com alguém . Custava-lhe acreditar que era apenas a quarta vez que o via. Mas a troca de correspondência durante os últim os três m eses havia-os aproxim ado m uito. Sentiam -se velhos am igos e Kate nem dava pelos anos que os separavam . Ele costum ava parecer-se m ais com um garoto que com um adulto.
— E vai vê-lo am anhã? — Kate podia ter-lhe m entido, m as não quis, e assentiu. — Ele não vai levar-te para voar, certo?
— Claro que não — respondeu Kate. Ele não falara nisso durante todo o dia. E retornaria à Califórnia no dom ingo.
A m ãe deu-lhe a boa noite e Kate dirigiu-se ao quarto com um a expressão pensativa. Tinha m uito em que pensar, em especial para tentar entender aquilo que sentia por Joe Ou talvez isso não fosse im portante um a vez que ele nunca dera a entender que sentia por ela outra coisa que não am izade. Não houvera a m ínim a sugestão de rom antism o, apenas a enorm e atração que sentiam um pelo outro. Apesar disso, Kate estava convencida de que ele queria apenas ser seu am igo.
Na m anhã seguinte Kate ia à cozinha para com er qualquer coisa quando ouviu o telefone tocar no vestíbulo. Era cedo, os pais ainda se encontravam dorm indo, e estava um a linda m anhã de outono. Pouco passava das oito e ela não im aginava quem estaria telefonando àquela hora. Para sua surpresa, ouviu a voz de Joe do outro lado da linha,
— Acordei-a? — perguntou preocupado e um pouco atrapalhado. Receara que fosse a m ãe de Kate a atender o telefone e ficara aliviado por ter sido Kate
— Não, j á estava levantada. Ia com er qualquer coisa — disse ela. Tinha o roupão vestido. Pretendiam alm oçar nesse dia, e ela j ulgava que Joe estava ligando-lhe para lhe dizer a que horas iria buscá-la. No entanto, era m uito cedo para ligar e ficou satisfeita por ter sido ela a atender o telefone. A m ãe teria ficado bastante aborrecida.
— Está um dia lindo, não está? — perguntou, parecendo estar pensando em outra coisa. — Eu... eu tenho um a espécie de surpresa planej ada para você... Acho que irá gostar m uito ou pelo m enos assim o espero. — Parecia um rapaz com um a bicicleta nova, e ela sorriu ao ouvi-lo.
— Vai trazer-m e a surpresa quando vier buscar-m e? — Não fazia idéia do que era, m as pelo que dissera parecia um a coisa excitante.
Joe hesitou antes de responder.
— Estava pensando em levá-la até à surpresa. É difícil levá-la até você. Pode ser, Kate? — Só queria que ela dissesse que sim . Significaria tudo para ele. Era um presente que queria m uito dar-lhe. O m elhor e único presente de que dispunha. O pai dela talvez desconfiasse do que era, m as Kate não fazia a m ínim a idéia.
— Parece intrigante — com entou Kate com um grande sorriso, passando a m ão pelo cabelo com prido verm elho-escuro. — Quando poderei vê-la? — Com eçava pensando que talvez fosse um carro novo, m as não fazia sentido Joe com prar um carro na costa leste se ainda vivia na Califórnia. No entanto, ouvia na voz dele o tipo de anim ação que os hom ens norm alm ente reservavam para as m áquinas e os carros exóticos.
— E se eu for buscá-la dentro de um a hora? — perguntou ofegante. — Consegue estar pronta?
— Claro. — Não sabia se os pais j á estariam de pé, m as podia deixar-lhes um bilhete, dizendo-lhes que saíra antes do previsto. A m ãe j á sabia que ela ia alm oçar com Joe.
— Vou buscá-la às nove... e Kate... vista roupa quente. — Ela perguntou a si m esm a se iriam dar um passeio, m as, fosse o que fosse, garantiu-lhe que levaria um casaco forte.
Um a hora m ais tarde, aguardava à porta de casa com um casaco de lã e um cachecol quando Joe apareceu num táxi.
— Está m uito bonita — com entou com um sorriso. Ela calçara sapatos baixos e m eias de lã, vestira um a saia de lã e um a cam isola de caxem ira que j á tinha havia anos. E claro, um colar de pérolas. Era o tipo de roupa que costum ava levar para as aulas.
— Está suficientem ente quente? — perguntou com um a expressão preocupada.
Ela assentiu com um a gargalhada. Será que iriam patinar no gelo? Ouviu-o dizer ao m otorista que os levasse a um subúrbio da cidade.
— O que há lá? — perguntou com um a expressão de surpresa.
— Já vai ver.
Então, instintivam ente, ela soube. Nem sequer havia lhe ocorrido que ele a fosse levar para ver o seu avião.
Kate não fez perguntas e tagarelaram durante o cam inho. Ele disse-lhe que gostara m uito dos dois últim os dias e que queria fazer algo de especial por ela. E Kate percebeu que, para ele, m ostrar-lhe o avião era a m elhor coisa que podia fazer. Já sabia pelas cartas que Joe tinha m uito orgulho daquela m áquina, que ele m esm o a desenhara e que Charles Lindbergh o aj udara a construí-la. Só tinha pena que o pai não tivesse vindo tam bém . E nem a m ãe podia obj etar a que fossem ver um avião. Pouco depois chegaram ao Aeródrom o Hanscom , um pequeno aeroporto particular nos arredores de Boston. Havia vários hangares pequenos e um a pista estreita e com prida. Quando saíram do táxi, um pequeno Lockheed Vega verm elho levantava voo.
Joe pagou ao m otorista e fez lem brar um garoto no Natal quando agarrou na m ão de Kate e a conduziu para o hangar m ais próxim o. Entraram por um a porta lateral e ela ficou de boca aberta ao ver o pequeno avião a que ele dava palm adinhas com ar carinhoso e ao qual abriu a porta do cockpit.
— Joe, é lindo. — Kate não entendia nada de aviões e só andara nos aviões com erciais com os pais. Mas pela prim eira vez sentiu um arrepio ao olhar para um avião por saber que Joe o tinha desenhado. Era um a bela m áquina.
Ele aj udou-a a subir até o cockpit e passou m eia hora m ostrando-lhe tudo e a explicando-lhe com o funcionava. Nunca partilhara nada daquilo com um a neófita, e ficou surpreendido ao ver com o ela pegava rapidam ente as coisas e com o se m ostrava entusiasm ada. Kate ouvia avidam ente todas as palavras e fixou quase tudo. Só confundiu dois m ostradores, m as era um erro que m uitos j ovens pilotos com etiam quando estavam aprendendo. Joe teve a sensação de que à sua volta se abriam portas e j anelas quando falava com ela e pôde m ostrar-lhe novas perspectivas de um m undo com o qual ela nunca sonhara. Partilhar tudo com Kate foi ainda m ais excitante para Joe do que para ela. Adorou e o seu coração quase rebentava de alegria ao ver o olhar atento dela enquanto devorava todas as suas palavras e os porm enores m ais ínfim os.
Passara um a hora quando se voltou para ela e lhe perguntou se gostaria de subir com ele uns m inutos, para ver com o é que o avião reagia fora do solo. Não pretendera levá-la para voar, m as ao reparar no seu interesse sentiu-se tentado e Kate não hesitou.
— Agora. — Parecia tão perplexa e anim ada com o ele. Era de fato o m elhor presente que Joe podia dar-lhe. Gostaria de estar com ele j unto ao pequeno avião. Apesar da sua tim idez e do seu pouco à vontade quando estava no solo, ao aproxim ar-se de um avião Joe parecia ser capaz de abrir as asas e voar. — Gostaria m uito, Joe podem os?
Todos os avisos e adm oestações da m ãe foram prontam ente esquecidos. Joe foi inform ar alguém do que pretendiam fazer e retornou com um a expressão satisfeita e um enorm e sorriso.
Tecnicam ente, era um avião pequeno, m as m esm o assim tinha um tam anho respeitável e graças a alguns aj ustam entos que Lindbergh o aj udara a fazer podia percorrer distâncias consideráveis. Ligou o m otor à prim eira e rolaram devagar até à abertura do hangar. Minutos depois avançavam pela pista, após Joe ter feito as verificações rotineiras e de lhes explicar à m edida que as ia fazendo. Ia levá-la lá acim a durante cinco m inutos para ela experim entar e, quando levantaram voo, lem brou-se de um a coisa.
— Não costum a enj oar nos aviões, certo, Kate? — Ela riu-se e abanou a cabeça. Joe não ficou adm irado.
Desconfiara que não era o tipo de garota que enj oava com facilidade, e ficou radiante. Se ela enj oasse estragaria o passeio.
— Nunca. Vai pôr-nos de cabeça para baixo? — perguntou ela com ar esperançoso.
Joe soltou um a gargalhada. Nunca se sentira tão próxim o de alguém com o naquele m om ento, voando com ela. Parecia um sonho.
— Espero que não. Acho que vam os guardar isso para a próxim a, — respondeu enquanto ganhavam altitude.
Joe e Kate tagarelaram durante os prim eiros m inutos, ignorando o som do m otor, e depois instalou-se um silêncio agradável enquanto ela olhava em redor boquiaberta e o observava em silêncio. Joe era tudo o que ela sabia que ele ia ser, orgulhoso, calm o, forte, infinitam ente capaz, com controle total da m áquina que construíra e senhor dos céus ao seu redor. Nunca na sua vida Kate conhecera alguém que parecesse tão poderoso, ou tão m ágico. Parecia que ele nascera para fazer aquilo e estava certa de que nenhum outro hom em vivo poderia fazer m elhor do que ele, nem sequer Charles Lindbergh. Se antes se sentira atraída por Joe, a partir do m om ento em que o viu voar tornou-se irresistível. Teria sido im possível não sentir aquilo. Ele era tudo o que sem pre sonhara e adm irara e personificava tudo o que a m ãe não queria que ela visse nele. Era poder e força, liberdade e alegria. Assem elhava-se a um a ave orgulhosa a pairar sobre o cam po, e quando aterrissaram um a hora m ais tarde Kate só queria voltar a subir com ele. Nunca fora tão feliz em toda a sua vida, nem se divertira tanto, nem gostara tanto de alguém . Era com o se estivessem destinados a passar j untos aquele preciso m om ento e ele criara instantaneam ente um elo entre am bos.
— Meu Deus, Joe, foi perfeito obrigada. — disse Kate quando ele parou o avião e desligou o m otor.
Voar era o que Joe sabia fazer de m elhor e fora para isso que nascera. E partilhara-o com ela. Fora quase um a experiência religiosa profunda para am bos. Ele fitou-a com um a expressão tranquila e ficou em silêncio durante um m om ento.
— Ainda bem que gostou, Kate, — disse, sabendo que teria ficado desiludido se ela não tivesse gostado. Mas gostara. E naquele m om ento ele sentiu desfazerem -se todas as barreiras entre os dois. Nunca estivera tão próxim o de outro ser hum ano na vida.
— Não gostei, Joe. Adorei. — retorquiu ela com solenidade. Estar no ar não só a fizera sentir-se m ais próxim a de Joe, com o tam bém de Deus.
— Esperava que gostasse, Kate. Gostaria de aprender a voar?
— Adoraria — respondeu com um brilho nos olhos. Só lhe apetecia voltar a voar com ele. — Muito obrigada... — Lem brou-se de algo. — Faça o que fizer, não conte à m inha m ãe. Ela m ataria-m e... ou m ataria você... ou provavelm ente aos dois. Eu prom eti-lhe que não voaria.
No entanto, fora incapaz de se conter e tam bém não o desej ara. Havia sido um a experiência tocante, não só o voo, m as tam bém ver Joe no seu habitat natural. Percebeu naquele instante que ele era o hom em m ais excitante que ela iria conhecer. Não havia m ais ninguém no m undo assim . A sua habilidade distanciava-o de todos os outros e o seu estilo tornava-o ainda m ais atraente aos seus olhos. O que acabara de ver fora precisam ente o que im pressionara Charles Lindbergh quando conhecera Joe ainda ele era um rapaz. Voar estava-lhe na alm a. Nenhum dos dois ficara desapontado com aquela m anhã, antes o contrário. Depois de ter desligado o m otor, Joe virou-se e olhou para ela com orgulho.
— É um a excelente copiloto, Kate — elogiou. Ela soubera instintivam ente o que perguntar, o que dizer e quando ficar em silêncio e saborear a alegria e a beleza do céu com ele. — Um destes dias, quando tiverm os tem po, vou ensinar-lhe a voar. — Não só fazia com que pilotar parecesse um a coisa m uito sim ples devido ao seu j eito inato, com o tam bém sabia explicar os rudim entos de um a form a que Kate com preendera. E ficara particularm ente im pressionado com o talento dela.
— Quem dera poderm os passar o dia aqui — observou quando ele a aj udou a descer, deixando Joe satisfeito.
— Pois é. Mas a sua m ãe exigiria a m inha cabeça se desconfiasse que eu voei com você durante um a hora. É m ais seguro que conduzir um carro, m as creio que ela não concordaria.
Sabiam am bos que assim era.
Retornaram à cidade em silêncio e foram alm oçar ao Union Oy ster House. Assim que se sentaram , Kate não conseguiu falar em outra coisa que não no breve voo, na perícia im pressionante de Joe e na beleza do avião. Fora a m aneira perfeita de conhecê-lo m elhor. E assim que se viu no restaurante, Joe voltou a ser um hom em calado e reservado. Era de fato com o um a ave, num m inuto pairando sem esforço no céu, no outro andando desaj eitadam ente no solo. Fora do avião parecia um hom em diferente. Mas continuava sendo um piloto nato e o hom em de enorm e perícia que ela pressentira desde o início e que a atraía.
Enquanto com iam , Kate contou-lhe histórias de Radcliffe e ele com eçou a descontrair-se. Kate tinha um j eito especial para o deixar à vontade e ele sentia-se ainda m elhor agora que ela o vira no seu m undo. Fora o que sem pre quisera lhe m ostrar desde o início e agora pressentia que ela percebia não o quanto voar significava para ele, m as quem ele era.
E à m edida que ela continuava a falar, Joe foi se descontraindo e tornou a baixar as defesas. Era um a das m uitas coisas que gostava nela; m esm o quando não era capaz, ela aj udava-o a abrir-se, por m uito tím ido que se sentisse. Era com o baixar a ponte sobre o fosso e aceder ao castelo. Kate facilitava o processo, e Joe adorava.
Havia tantas coisas de que gostava nela que por vezes se sentia assustado. Não sabia o que fazer a esse respeito. Kate era dem asiado nova para se envolver com ele, e a fam ília um pouco assustadora. Kate tinha pais razoáveis e atentos que não iriam perm itir que algo lhe acontecesse nem pretendiam deixá-la ter dem asiada liberdade. Joe não queria tirar nada de Kate. Só queria estar com ela e gozar da luz que irradiava e do calor que exsudava. Às vezes, sentado ao pé dela, sentia-se com o um lagarto num a rocha, absorvendo o sol. Fazia-o sentir-se feliz, quente e confortável. Mas m esm o esses sentim entos pareciam -lhe por vezes perigosos. Não queria tornar-se vulnerável. Depois seria m uito fácil m agoar-se. Não fazia um a análise fria da situação, m as no seu íntim o sabia que seria assim . Disse a si m esm o que se ela fosse m ais velha as coisas poderiam ser diferentes. No entanto, Kate não era m ais velha; tinha dezoito anos, ele trinta, e por m uito que tivesse gostado de andar de avião com ela, aquilo não iria dar em nada. Apesar de toda a sua resistência, e dos m uros que construíra ao seu redor ao longo dos anos, os m inutos que haviam passado a bordo do avião naquela m anhã tinham sido m ágicos para am bos.
O últim o dia que estiveram j untos passou m uito depressa. Retornaram a casa de Kate e j ogaram cartas na biblioteca. Joe ensinou-a a j ogar dados. Ela revelou-se um a excelente j ogadora e ganhou duas vezes, tendo ficado encantada. Bateu palm as e parecia um a criança ao rir. E nessa noite ele levou-a para j antar fora. Haviam tido um fim de sem ana bastante agradável, e quando Joe se despediu, não fazia idéia de quando voltaria a vê-la. Pretendia retornar a Nova Iorque pelo Natal, m as ele e Charles Lindbergh tinham m uito trabalho em m ãos, estavam desenhando um novo avião. Joe sabia que iria ser difícil roubar m uito tem po a Charles. O seu m entor andava bastante ocupado fazendo discursos em m anifestações do m ovim ento Am érica Prim eiro. O próprio Joe tam bém m al tinha tem po para se coçar. Pelo m enos durante os dois ou três m eses seguintes duvidava ter tem po de ir a Boston. E hesitou em pedir-lhe que fosse visita-li. Pedir-lhe isso seria j á um pouco avançado e duvidava que os pais dela consentissem .
Ela parecia m ais calada do que habitualm ente quando ele se despediu. Encontravam -se nos degraus no exterior da casa e, pela prim eira vez em três dias, Joe parecia estranham ente pouco à vontade.
— Cuide de si, Kate — disse olhando para os sapatos. Kate sorriu. Queria tocar-lhe no queixo e obrigá-lo a olhar para ela, m as não o fez. Sabia que se esperasse o tem po suficiente, ele voltaria a fitá-la. E foi o que aconteceu pouco depois.
— Obrigada por ter m e levado para voar — m urm urou Kate. Era um segredo que partilhavam agora. — Faça boa viagem para a Califórnia. Quanto tem po irá dem orar?
— Cerca de dezoito horas, dependendo do tem po. Há um a tem pestade sobre o Midwest, por isso posso ter de desviar para sul e sobrevoar o Texas. Ligo-lhe quando chegar.
— Gostaria m uito — sussurrou. O seu olhar estava repleto das coisas que não haviam dito um ao outro, coisas que ela ainda não sabia se entendia, e do elo que se form ara entre am bos a bordo do avião. Kate continuava sem saber o que ele sentia por ela, se é que sentia algum a coisa que não afeto fraternal. Tinha quase certeza de que aquilo que o trouxera a Boston fora am izade. Ele não dera a entender m ais nada, nem dava a entender naquele m om ento. Às vezes tratava-a com o um pai. E, contudo, havia sem pre um a contracorrente de algo m ais sério e m isterioso entre os dois. Kate não sabia se seria fruto da sua im aginação, ou se haveria m esm o algo m ais que tem iam . — Eu escrevo-lhe — prom eteu.
Joe sabia que ela cum priria a prom essa. Adorava receber as suas cartas. A sua com plexidade e a facilidade com que ela escrevia espantavam -no. Quase pareciam contos, e frequentem ente com oviam -no ou faziam -no rir.
— Vou tentar vê-la pelo Natal, m as eu e o Charles estam os m uito ocupados — disse Joe e ela pensou que gostaria de se oferecer para ir encontra-lo, em bora não tenha ousado dizê-lo. Sabia que os pais ficariam m uito aborrecidos. A m ãe j á andava preocupada por passar tanto tem po com ele no fim de sem ana de Ação de Graças, e até Joe j á o pressentira.
— Cuide de você, Joe. Voe com cuidado — disse Kate num tom de preocupação que o sensibilizou. Ela estava tão encantadora.
— Você faça o m esm o e vej a se não chum ba! — brincou, e ela riu-se. E depois, dando-lhe um a palm adinha no om bro, abriu a porta de casa com a chave dela, desceu rapidam ente os degraus e acenou-lhe do passeio. Parecia que queria fugir antes que fizesse algo que não devia. Ela sorriu ao entrar em casa e fechou a porta sem fazer barulho.
Tinha passado três agradáveis dias com ele repletos de m om entos de ternura, de à vontade e de am izade. E a experiência de voar com ele. Disse a si m esm a, enquanto subia as escadas para o prim eiro andar, que estava contente por tê-lo conhecido. Um dia contaria aos filhos essa experiência E não duvidava que os filhos não seriam dele. A vida de Joe j á estava preenchida com aviões, voos, voos de ensaio e m otores! Nela não havia espaço para um a m ulher, ou o que havia era m uito pequeno, e certam ente não para um a m ulher e para filhos. Ele próprio havia lhe dito em Cape Cod no final do verão, e repetira-o naquele fim de sem ana. As pessoas eram um sacrifício que ele estava disposto a fazer, para bem da sua paixão pelos aviões. Dispunha de pouco tem po para outra pessoa, dissera várias vezes, e ela constatara-o. Mas, ao m esm o tem po, parte de si não aceitava isso nem acreditava. Com o poderia ele estar disposto a desistir de um a fam ília por causa dos aviões? Contudo, não lhe com petia discutir isso, e sabia-o. Tinha de aceitar o que ele lhe dizia. E disse a si m esm a que independentem ente do que sentia, ou daquilo que im aginava que ele sentia por ela, tudo não passava de um a ilusão. Nada m ais que um sonho. No dom ingo, antes de Kate retornar ao colégio, a m ãe não disse nada a respeito de Joe. Decidira seguir o conselho do m arido e esperar para ver o que acontecia. Talvez ele tivesse razão e Joe não voltasse a procurá-la. Talvez fosse apenas um a estranha am izade entre um hom em adulto e um a j ovem . Elizabeth assim o esperava. Mas por m uito que tentasse acreditar no que Clarke dissera, não estava convencida.