A Águia Solitária
Capítulo 8
No final de outubro Kate estava estudando para os exam es, era o seu penúltim o ano, e a governanta da casa onde ela vivia veio dizer-lhe que tinha um a visita. Sem fazer perguntas, Kate calculou que fosse Andy. Ele j á estava no segundo ano da Faculdade de Direito e trabalhava que nem um escravo.
Kate correu rapidam ente escadas abaixo, com um livro ainda na m ão e um a cam isola azul-pálida sobre os om bros. Vestia um a saia cinzenta e sapatos pretos e brancos, e assim que o seu pé desceu o últim o degrau, viu-o. Era Joe, m uito alto e incrivelm ente atraente no seu uniform e. Tinha um ar m uito sério e Kate ficou sem fôlego ao vê-lo. Ele pareceu retrair-se um instante e, sem dizer um a palavra, Kate lançou-se-lhe nos braços e ele apertou-a com força. Pressentiu que Joe passara um m au bocado. Parecia incapaz de falar, m as percebeu que precisava tanto dela com o ela dele. A guerra com eçava a pesar para todos, incluindo para Joe.
— Estou tão feliz por te ver — disse ela de olhos fechados ainda nos seus braços. Haviam sido dez m eses de agonia, sem pre preocupada, perdendo o seu filho, desconhecendo o seu paradeiro.
— Eu tam bém — respondeu ele, afastando-a por fim e olhando-a nos olhos. Estava cansado. Tinha a sensação de estar constantem ente voando, e um núm ero devastador de aviões fora abatido. Os Alem ães com eçavam a ficar desesperados e atacavam em força. Joe fitou-a com ar sério e Kate percebeu que ele se sentia de novo acabrunhado j unto de si. Às vezes levava algum tem po a abrir-se e a reaj ustar-se. As suas cartas eram tão agradáveis e tão cândidas que por vezes se esquecia de com o ele era tím ido. — Só tenho vinte e quatro horas, Kate. Am anhã à tarde tenho de estar em Washington e volto à Europa à noite. — Encontrava-se nos Estados Unidos para reuniões acerca de um a m issão ultra-secreta, e o seu voo não fora fácil. No entanto, não podia partilhar nada daquilo, nem ela fez perguntas. Algo na sua expressão lhe indicou que ele pouco podia dizer. E era ainda m ais estranho perceber que se não tivesse perdido o bebê em m arço ele teria regressado e encontrado um a criança de um m ês. Claro que Joe o desconhecia por com pleto. — Você pode sair da escola por algum tem po?
Eram quase hora de j antar e ela não tinha planos. Tam bém os teria cancelado.
— Claro. Quer ir para a m inha casa? — Seria agradável ter algum a privacidade, e se ficassem na sala das visitas do colégio teriam de cum prir todas as regras de visita. Ao fim de dez m eses am bos queriam m ais liberdade
— Podem os ficar sozinhos em algum lugar. — Ele só queria descontrair-se e estar com ela. Mesm o após todo aquele tem po não lhe apetecia falar. Queria olhá-la e senti-la perto de si. Estava dem asiado cansado para encontrar as palavras certas. Kate pressentiu o desalento dele.
— Quer ir para um hotel? — perguntou em voz baixa de form a a que ninguém ouvisse. Havia outras pessoas por perto.
Ele olhou-a com alívio e assentiu. Apetecia-lhe deitar-se ao lado dela durante algum tem po. A m ente de Kate fervilhava enquanto fazia planos.
— Porque não liga para Palm er House da cabine lá fora? Ou para o Statler? Eu volto daqui a alguns m inutos.
Foi à recepção assinar a sua saída e telefonou à m ãe do telefone no corredor do prim eiro andar inform ando-a de que iria passar a noite na casa de um a am iga, para que pudessem estudar em grupo para os exam es, pois não queria que a m ãe se preocupasse em caso de ligar. A m ãe respondeu que era m uito sim pático da parte dela e agradeceu o telefonem a. Kate sabia que nunca ocorreria à m ãe que a história era m entira.
Cinco m inutos depois, Kate estava novam ente na recepção e Joe aguardava-a lá fora. Levava algum as coisas num a m alinha, entre elas um diafragm a. Beverly dera-lhe o nom e de um m édico e Kate fora a um a consulta e dissera que estava noiva. Depois do que acontecera da últim a vez, queria estar preparada para quando Joe voltasse.
Tinham um quarto no Statler, disse com nervosism o. Sentiam -se um pouco acabrunhados por irem diretam ente para um hotel, m as dispunham de m uito pouco tem po e queriam estar sozinhos. Ele pedira um carro em prestado e conversaram a cam inho do hotel. Kate não conseguia tirar os olhos dele. Estava bonito com o sem pre, em bora m uito m ais m agro. E parecia m ais velho do que no ano anterior, ou talvez m ais am adurecido. Havia tantas coisas que queria dizer-lhe, coisas que nunca quisera escrever nas cartas, e ele queria tam bém fazer-lhe m uitas perguntas.
Com eçaram a descontrair-se a cam inho do hotel. Parecia que ainda na véspera tinham se visto, m as, por outro lado, parecia tam bém que ela não o via há anos. O m ais estranho era que depois de ter dorm ido com ele e de ter perdido o bebê se sentia quase com o sua esposa. Não precisava de um papel passado, de um a cerim ônia ou de um a aliança. Independentem ente das burocracias, ela pertencia-lhe.
Joe tirou um a m ala pequena do porta-m alas quando chegaram ao hotel e depois estacionou o carro na garagem . Juntou-se a Kate no vestíbulo e deram entrada. Ficaram registrados com o Maj or e Mrs. Allbright e foram tratados com respeito. O recepcionista reconheceu-o. E um m ensageiro ofereceu-se para levar a m ala.
— Não é preciso, obrigado — agradeceu Joe com um sorriso quando o recepcionista lhe deu a chave.
Joe e Kate subiram no elevador sem dizer um a palavra e, quando ele abriu a porta, ela ficou aliviada ao ver que o quarto era bonito. Esperara um a coisa deprim ente e pequena e, em bora isso não lhes im portasse, havia algo de indecoroso em registrar-se num hotel com um hom em . Nunca fizera nada sem elhante e achava um a coisa bastante ousada. Contudo, não ia perder a oportunidade de passar a noite com ele, especialm ente se era a única noite que ele tinha de folga. Tal com o todas as pessoas nas m esm as circunstâncias, viviam cada dia com o se fosse o últim o, e podia m uito bem sê-lo.
Houve um certo constrangim ento quando se viram no quarto, m as quando Joe se sentou no sofá e deu um a palm ada no assento ao seu lado, ela sorriu e obedeceu.
— Nem acredito que você está aqui — disse ela com um a expressão que dava a entender as saudades que tivera.
— Nem eu, — respondeu Joe.
Ainda dois dias antes estivera num caça escoltando bom bardeiros sobre Berlim . Haviam perdido quatro aviões e agora via-se sentado num quarto de hotel em Boston, com ela. Achou-a m ais bonita que nunca. Parecia tão j ovem , fresca e tão distante da vida que ele levava havia quase dois anos. Tinham -no avisado duas horas antes do voo e era um a sorte que o tivessem deixado ir de licença, ainda que por pouco tem po. Durante o voo, Joe receara não conseguir vê-la. A noite no Statler era um a dádiva inesperada. E para Joe, pelo m enos, parecia surrealista. Pareciam pom bos que regressavam sem pre para j unto um do outro, por m uito longe que tenham estado. Encontravam -se sem pre, quer em Cape Cod quer em Washington, ou ali, e retom ariam a relação onde a haviam deixado. Por m uito tem po que tivesse passado, o m esm o fogo e a m esm a m agia estavam sem pre presentes.
Ele beij ou-a então, sem dizer m ais nada. Parecia precisar dela para se confortar, para sarar as feridas da sua alm a. Precisava apenas de beber da fonte pacífica que ela lhe oferecia. Kate pareceu com preender aquilo de que ele precisava. E sem pre que estava com ele, ainda que por pouco tem po, sabia o quanto era am ada. Era um a sim biose perfeita.
Minutos depois, ele dirigiu-se à cam a com ela. Joe sentiu-se um pouco culpado quando se despiram . Pretendera levá-la para j antar fora e conversar um pouco antes de fazer am or com ela, m as nenhum tinha vontade de estar com pessoas ou em um restaurante. Desej avam estar apenas um com o outro e com os seus sentim entos. Nem precisavam de palavras.
Ele beij ou-a com ternura e paixão quando se deitaram e, ao despi-la, reparou no quanto havia estado fam into dela. Para sua surpresa, não houvera m ais ninguém . Nos dez m eses que haviam estado separados, ele só quisera a ela. E Kate só quisera a ele.
Ela ficou um pouco atrapalhada quando o deixou para ir ao banheiro durante alguns m inutos e ele só lhe fez perguntas m uito depois de terem acabado de fazer am or e estarem deitados nos braços um do outro, saciados e tranquilos, pairando no seu pequeno m undo isolado e seguro. Ligeiram ente envergonhada, ela falou-lhe do diafragm a e ele pareceu aliviado.
— Preocupei-m e com isso durante vários m eses depois da últim a vez — adm itiu. — Perguntava a m im m esm o o que faríam os se você engravidasse. Nem podia retornar para casar contigo, — disse e ela ficou com ovida com as suas palavras. Era bom saber que ele pensava assim e que se preocupara com ela. Não fizera idéia de com o ele reagiria e sentiu naquele m om ento que podia contar-lhe o que acontecera.
— Eu engravidei da últim a vez, Joe — disse ela baixinho. Tinha a cabeça pousada no om bro dele e o seu cabelo tocava-lhe o rosto.
Ele virou a cabeça para fita-la.
— Está falando sério? E o que você fez? — Parecia que um raio o atingira. O assunto há m uito que deixara de o preocupar, ela nunca lhe dissera nada, e nunca supusera que ela pudesse ter engravidado. — Ou.. nós... você...
Ela sorriu ao ver a expressão dele. Era m ais de espanto do que de m edo. E queria saber por que m otivo ela nunca lhe contara. Kate cresceu im ensam ente aos seus olhos quando Joe percebeu que, independentem ente do que tinha acontecido, ela resolvera o assunto sozinha.
— Perdi-o em m arço. Não sabia o que fazer, m as sabia que se algum a coisa te acontecesse nunca m e perdoaria se tivesse decidido agir. Tinha de o ter, se era isso que estava destinado. Estava quase no terceiro m ês de gravidez quando o perdi — disse ela de lágrim as nos olhos.
Joe apertou-a com m ais força.
— Os seus pais sabem ? — Im aginava-os furiosos com ele, e com razão. Sentiu-se cheio de rem orsos ao pensar naquilo por que ela devia ter passado.
— Não, não sabem — tranquilizou-o, aconchegando-se m ais a ele. O consolo que ele não pudera dar-lhe antes dava-o agora. — Pretendia abandonar a escola em abril e contar-lhes. Não podia fazer m ais nada. Fui atingida por um garoto quando andava de bicicleta e acho que foi isso que provocou o aborto. Ele bateu-m e com bastante força e desm aiei. Perdi o bebê nessa noite.
— Você esteve internada? — perguntou horrorizado. Aquilo nunca lhe acontecera antes, em bora tivesse acontecido a m uitos dos seus am igos. No entanto, ele nunca pusera um a garota em apuros, fora sem pre cuidadoso, exceto com Kate.
— Estava no colégio, m as duas das garotas da m inha casa tom aram conta de m im — contou discretam ente, poupando-o dos porm enores. Sabia que ele teria ficado ainda m ais perturbado se tivesse visto o estado em que ela ficara. Kate levara m eses para sentir-se norm al. Perdera tanto sangue que só m uito depois recuperara totalm ente as forças. Naquele m om ento j á estava recuperada.
Joe pensou que se a gravidez tivesse sido levada a bom term o naquela época teriam um bebê de um m ês. Era um a coisa estranha.
— Sabe, é engraçado. Pensei nisso durante m uito tem po. Sem pre achei que iria m e dizer que isso acontecera. Não sei por que, m as quando voltei para a Inglaterra não pensava em outra coisa, estava absolutam ente certo de que tinha ficado grávida. Mas você nunca disse nada e eu não quis perguntar. Não sei se alguém lê a sua correspondência. E depois acho que esqueci o assunto. Mas durante uns m eses tive um a sensação estranha. Porque não m e contou, Kate? — Sentia-se triste por ela não o ter feito, m as com preendia. E adm irou-a por isso m ais do que ela podia im aginar. Kate resolvera o assunto sozinha, recuperara-se, aparentem ente sem lhe guardar rancor. Ficou com ovido com isso e com a coragem dela. Adivinhou, pela m aneira com o ela falava, que não devia ter sido um m om ento fácil.
— Achei que você j á tinha m uito com que te preocupar e não quis sobrecarregar-te.
Ele assentiu e apertou-a ainda com m ais força.
— Tam bém era o m eu bebê.
— Teria sido, — e ela ficou novam ente cheia de pena. Nada m ais queria do que estar com ele e ter o seu filho, m as o destino assim não o quisera, pelo m enos por enquanto. E dado o que estava acontecendo na vida de am bos, o que acontecera fora o m elhor.
— Ainda bem que agora você está tom ar precauções. — Tam bém tinha trazido preservativos. Não queria ser irresponsável com ela e arriscar-se. A últim a coisa de que precisavam era de um a criança para com plicar as suas vidas.
Falaram algum tem po sobre a guerra e Kate perguntou-lhe quanto tem po m ais pensava ele que ela iria durar. Joe suspirou.
— É difícil calcular. Quem m e dera poder dizer que vai acabar depressa. Não sei, Kate. Se bom bardearm os os boches, talvez um ano.
Era em parte por isso que ia a Washington, para ver se podia acelerar o bom bardeam ento com alguns aviões novos extraordinários. Até ali fora desencoraj ante, os Alem ães continuavam vindo im placavelm ente em vagas. Por m uitos alem ães que os Aliados m atassem , ou por m uitas cidades e fábricas e depósitos de arm am entos que destruíssem , eles pareciam sem pre ter m ais. Aparentavam ser um a m áquina de guerra indestrutível.
E a guerra no Pacífico tam bém não correra bem . Com batiam um povo com um a cultura e num terreno que lhes eram com pletam ente estranhos. Aviões kam ikaze bom bardeavam porta-aviões, navios eram afundados, aviões eram abatidos E no outono de 1943, o m oral dos Aliados estava bastante ruim .
Kate tinha a sensação de que um núm ero incrível de pessoas suas conhecidas m orrera. Era devastador. Vários rapazes que ela conhecera em Harvard e no MIT nos últim os dois anos haviam falecido. Dava graças por nada ter acontecido a Joe
Falaram m uito durante essa noite, o que era pouco habitual nele, m as dispunham de pouco tem po. Não podiam descontrair-se calm am ente. Tinham apenas de estar ali, de ser tudo o que podiam no pouco tem po de que dispunham E durante o resto da noite tentaram não pensar na guerra.
Fizeram am or de novo e não saíram do quarto. Pediram o j antar e, quando o criado lhes perguntou se estavam em lua-de-m el, riram -se. Não falaram do futuro nem fizeram planos. Ela só queria que ele perm anecesse vivo. Não era capaz de pensar no que desej ava para si própria, só queria estar com ele, quando e onde pudesse, sem pre que pudesse. Mais do que isso seria com o pedir um m ilagre, um sonho infantil. Sabia que a m ãe não aprovaria aquela situação, m as a m ãe não com preendia. Um anel de noivado não teria alterado nada, nem o m anteria vivo. Joe tam bém não lhe pediu nada, a não ser o que ela quisesse dar-lhe espontaneam ente, e, na m edida das suas capacidades, ela deu-lhe tudo.
Dorm iram profundam ente nessa noite, prim eiro abraçados e depois afastados. Acordaram sobressaltados quando perceberam que não era um sonho e que estavam realm ente j untos.
— Olá — disse ela com sono, sorrindo-lhe e abrindo os olhos na m anhã seguinte. Sentira o calor dele durante toda a noite e as suas pernas fortes ao seu lado ao espreguiçar-se. Ele beij ou-a. A noite que acabara de passar fora bastante diferente daquelas a que estava habituado nos últim os tem pos.
— Você dorm iu bem ? — perguntou Joe, puxando-a para si. Estavam de barriga para o ar, sussurrando. Ela adorou acordar ao seu lado.
— Senti-te ao m eu lado durante toda a noite e achei que estava sonhando.
Nenhum dos dois estava habituado a dorm ir com alguém ao lado e haviam estranhado, em bora se sentissem felizes por estarem j untos.
— Eu tam bém , — disse ele com um sorriso, pensando no que haviam feito. Queria saborear todos os m om entos que passava com ela e levar essa recordação.
— A que horas você tem de ir em bora? — perguntou Kate um pouco tensa. Era im possível esquecer que aquelas horas haviam sido um m ilagre.
— Tenho de em barcar no avião para Washington à um a da tarde. É m elhor deixar-te no colégio pelas onze e m eia.
Ela faltaria às aulas nessa m anhã e não se im portava com as consequências, nada a faria deixá-lo m ais cedo do que o necessário.
— Quer o café da m anhã?
Kate tinha apenas fom e dele. Beij aram -se, as suas m ãos com eçaram a vaguear e, pouco depois, encontraram -se de novo.
Às nove horas levantaram -se e pediram o café da m anhã. Quando o criado apareceu, j á tinham tom ado banho separadam ente e envergavam os roupões do hotel. Com eram torradas, suco de laranj a, fiam bre e ovos e partilharam um bule de café. Aquilo era um s festa para Joe, que sobrevivia há tanto tem po com rações m ilitares que j á havia esquecido o que era a verdadeira com ida. Para Kate, o café da m anhã era relativam ente norm al, m as não o fato de ter Joe à sua frente do outro lado da m esa. Achou lindo o rosto sério e cinzelado dele. Joe bebia calm am ente o café e lia o j ornal. Depois os seus olhos encontraram os dela e sorriu.
— Tal com o a vida real, não é? Quem haveria de dizer que estam os em guerra?
Mas o j ornal não falava em outra coisa e as perspectivas não eram boas. Pousou o j ornal e sorriu para Kate. Haviam partilhado um a noite m aravilhosa e, sem pre que estava com ela, era com o encontrar um a parte desaparecida de si. Havia nele um vazio que nunca percebera até a ver. Durante o resto do tem po, outras coisas pareciam preenchê-lo. Não necessitava de m uita gente. Mas aquela m ulher tocara-o com o poucas. Nunca conhecera ninguém com o ela, pensou ao contem plá-la. O seu olhar era tão intenso, os seus m odos diretos, francos, destem idos. Parecia um a j ovem corça farej ando o ar e gostando da sensação. Am ava a vida e tinha sem pre um a gargalhada pronta, e naquela m anhã não foi diferente.
Kate pousou a xícara e sorriu-lhe
— Porque você está sorrindo? — perguntou Joe com ar divertido. O bom hum or dela era contagiante. A sua natureza era bem m enos alegre que a dela. Não que fosse infeliz, era apenas sério e calado, e ela gostava disso.
— Estava pensando na cara que a m inha m ãe faria se nos visse.
— Não pense nisso. Fico cheio de rem orsos. O teu pai m ataria-m e e eu não o culparia. — Em especial depois do que ela lhe contara acerca da gravidez e do aborto. Sabia que os Jam ison teriam ficado horrorizados, e com razão. — Não sei se conseguirei voltar a enfrentá-los.
— Bom , pode vir a ser obrigado a fazê-lo, por isso é m elhor superar isso.
Tal com o ela superara. Em especial agora que vira Joe. Quase sentia pena de ter colocado o diafragm a, queria m esm o ter um filho dele. Desej ava-o m ais até do que casar. Com o Joe nunca falara em casam ento, ela com eçara a pensar que só as pessoas de idade se preocupavam com isso, e as suas am igas que haviam se casado pareciam crianças tolas. Disse a Joe que elas só se preocupavam com os presentes de casam ento e com as dam as de honra, e depois queixavam -se que os m aridos passavam m uito tem po com os am igos, ou que bebiam m uito, ou que eram m aus para elas. Pareciam crianças fingindo ser adultas. Ter o filho dele seria um elo com o nenhum outro, real e im portante e que nada tinha a ver com as outras pessoas. Mesm o sabendo os problem as que teria de enfrentar, Kate adorara estar grávida dele. Sabia que teria para sem pre um a parte dele consigo, e provavelm ente a m elhor parte. Rezara para que fosse um rapaz e planej ara ensinar-lhe tudo sobre aviões. Ultim am ente Kate andava sem pre com m edo de perder Joe na guerra e um bebê seria um a parte dele que teria sem pre.
Joe percebeu que ela devia estar pensando coisas boas a seu respeito e pegou-lhe na m ão, levando-a aos lábios.
— Não fique tão triste, Kate. Eu volto. Esta história ainda não acabou. Nunca acabará. — Não sabia que as suas palavras eram proféticas.
Ela sentia-se com o ele.
— Tem cuidado contigo, Joe. Só isso im porta.
Estava tudo nas m ãos do destino. Ele iria para o outro lado do m undo arriscar a vida todos os dias, e só Deus sabia quem iria sobreviver ou não. Todo o resto lhes parecia pouco im portante.
Depois do café da m anhã vestiram -se e quase não saíram do quarto a tem po. Ele beij ava-a e abraçava-a e m al conseguiam tirar as m ãos um do outro. No entanto, ele tinha de a deixar no colégio e de chegar na hora no aeroporto. Não podia entrar atrasado na reunião de Washington ou, pior ainda, perder o avião. O que o trouxera ali era um assunto m uito sério e im portante para o desfecho da guerra na Europa. Am ava Kate, m as cada coisa no seu devido lugar. Tinha coisas im portantes a fazer que não a incluíam .
Fizeram a viagem em silêncio. Kate olhava para ele de vez em quando. Queria recordar o seu rosto naquele m om ento para poder consolar-se nos dias vindouros. Achava que estavam fazendo tudo em câm ara lenta. Chegaram m uito cedo no com plexo de Radcliffe. Saíram do carro e ela fitou-o de lágrim as nos olhos. Não suportava ter de o deixar de novo, m as sabia que tinha de ser coraj osa. A noite que tinham acabado de passar j untos fora um a dádiva inesperada.
— Mantém -te em segurança — m urm urou Kate quando Joe a abraçou. “Mantém -te vivo” era o que tinha querido dizer. — Am o-te, Joe — disse com um nó na garganta. Não queria dificultar ainda m ais a despedida.
— Eu tam bém te am o... e da próxim a vez que algum a coisa im portante te acontecer quero que m e conte. — Havia sem pre a possibilidade de ela tornar a engravidar, apesar do diafragm a. Ele ficara grato por ela não ter querido sobrecarregá-lo com aquele fardo e am ava-a ainda m ais por isso. — Fica bem . E dá cum prim entos aos seus pais, se lhes disser que m e viu.
Ela não pretendia fazê-lo. Não queria que eles desconfiassem que fora para um hotel com ele. Rezou para que ninguém a tivesse visto entrar e sair de lá.
Ficaram abraçados durante um longo m om ento, rezando para que os deuses fossem benévolos para com eles, e depois Kate ficou vendo-lo afastar-se no carro com as lágrim as a correrem -lhe pelo rosto. Era um a cena fam iliar naqueles dias. Havia soldados feridos em todas as cidades e vilas, soldados que tinham voltado para casa feridos ou m utilados. Havia bandeirinhas nas j anelas em hom enagem aos fam iliares que com batiam em algum lugar. Havia soldados e garotas a despedirem -se lavados em lágrim as e gritos de alegria no retorno. Havia crianças j unto aos túm ulos dos pais. Kate e Joe não eram diferentes dos outros, e tinham m ais sorte que m uitos. Era um período sério para todas as pessoas e um período de tragédia para alguns. Kate tinha apenas certeza de que era um a sortuda por ter Joe.
Passou o resto do dia no quarto e não foi às aulas da tarde. Tam bém não foi j antar para o caso de ele lhe telefonar. E ele telefonou, às oito da noite, depois da reunião. Estava prestes a ir para o aeroporto, m as não pôde dizer-lhe com o correra a reunião, a que horas era o voo nem qual o destino, eram inform ações secretas. Ela desej ou-lhe boa viagem , disse-lhe que o am ava m uito, e ele respondeu o m esm o.
Kate retornou ao quarto e deitou-se pensando nele. Custava a crer que j á se conheciam há quase três anos e que tanta coisa acontecera desde que haviam se cruzado naquele salão de baile em Nova Iorque, ele com o sm oking em prestado e ela com o vestido de noite. Na época tinha apenas dezessete anos, um a criança. Com vinte sentia-se m uito m ais m ulher. E m elhor ainda, era dele.
Foi passar o fim de sem ana em casa, a fim de estudar para os exam es e de se afastar das outras garotas da sua casa. Não queria ver ninguém ; andava pensativa e m uito calada desde a partida de Joe. A m ãe reparou no seu silêncio ao j antar. Perguntou-lhe se estava tudo bem e se tivera notícias de Joe. Kate insistiu que estava bem , m as os pais não acreditaram . Ela parecia envelhecer e am adurecer a cada dia que passava. O colégio contribuíra para isso, m as a sua relação com Joe catapultara-a para a vida adulta num abrir e fechar de olhos. E o fato de andar sem pre preocupada com ele fazia-a parecer e sentir-se ainda m ais velha. Naquele tem po todas as pessoas cresciam da noite para o dia.
Os pais falaram disso nessa noite, a sós no quarto, e concordaram que ela não devia ser a única garota preocupada com o nam orado. A m aior parte das garotas e das m ulheres do país andava preocupada com alguém , irm ãos, nam orados, m aridos, pais, am igos. Quase todos os hom ens que conheciam tinham ido para a guerra.
— Foi um a pena ela não ter se apaixonado pelo Andy — com entou a m ãe com um ar triste. — Ele seria perfeito e nem sequer está no exército. — Mas talvez ele tivesse sido um a escolha dem asiado óbvia, ou fosse dem asiado m onótono. Apesar de toda a sua bondade e excelente educação, Andy não podia com parar-se a Joe. Tudo em Joe era ofuscante e estonteante. Era a personificação do herói.
Durante as quatro sem anas seguintes Kate andou m uito atarefada. Saiu-se bem nos exam es, apesar de andar com a cabeça no ar. Recebia regularm ente cartas de Joe e ficou sim ultaneam ente aliviada e desapontada ao descobrir três sem anas depois de ele ter partido que não estava grávida. Sabia que era m elhor assim . Para além da agonia de andar sem pre preocupada com ele, não precisava dos problem as que um a gravidez lhe traria.
Quando foi para casa passar o fim de sem ana de Ação de Graças, os pais acharam -na com m elhor aparência e m ais tranquila. Falou sobre Joe ao j antar com os am igos e surpreendeu todos com os seus conhecim entos sobre o que estava acontecendo na Europa Com preensivelm ente, tinha um a opinião m uito desfavorável sobre os Alem ães e não lhes poupou críticas.
Afinal, acabou por ser um fim de sem ana agradável e ela foi para a cam a nessa noite grata por ter visto Joe ainda no m ês anterior. Não fazia idéia de quando ele voltaria aos Estados Unidos, m as sabia que a proxim idade que haviam partilhado a aj udaria a suportar o tem po necessário. Era difícil acreditar que ele j á partira há dois anos.
Dorm iu m al nessa noite, e teve sonhos estranhos que a acordaram várias vezes. Falou nisso à m ãe na m anhã seguinte e ela brincou com Kate dizendo que provavelm ente com era dem asiado recheio de castanha.
— Eu adorava castanhas quando era criança — disse Elizabeth enquanto preparava o café da m anhã para o m arido — e a m inha avó dizia sem pre que elas m e provocavam indigestão. Ainda provocam , m as gosto delas da m esm a form a.
Kate sentiu-se m elhor nessa m anhã. Foi às com pras com um a am iga na parte da tarde e tom aram chá no Statler, o que a fez pensar em Joe e na noite que ali haviam passado. Quando voltou para casa estava bem hum orada. Mesm o assim , tinha sem pre um ar sério. Parecia m ais sensata e m enos travessa do que antes de ir para o colégio. Parecia que conhecer Joe, ou talvez o fato de tem er constantem ente pela vida dele, a tinham tornado m ais introvertida. Estava m ais reservada do que nunca.
Voltou para Radcliffe no dom ingo à noite e teve de novo pesadelos. Quando acordou sobressaltada ainda se lem brava de ver aviões caindo à sua volta. O sonho quase parecera real. Ficou tão assustada que se levantou e se vestiu m uito antes das colegas, foi para a sala de j antar onde tom ou o café da m anhã bem cedo e ficou ali sentada sozinha.
Não sabia por que, m as teve pesadelos toda a sem ana e m al conseguiu dorm ir. Estava exausta quando o pai lhe telefonou na quinta-feira à tarde, e ficou sobressaltada ao ouvir a voz dele. Clarke nunca lhe ligava para lá. Ele perguntou-lhe se ela gostaria de ir j antar em casa nessa noite e Kate respondeu que tinha trabalhos para fazer, m as quanto m ais ela tentava esquivar-se, m ais insistente ele se tornava, até que por fim ela cedeu. Achou aquilo um pouco estranho e ficou ligeiram ente preocupada. Perguntou a si m esm a se um deles estaria doente e quereria dizer-lhe. Esperava que não.
Assim que Kate entrou em casa percebeu que algum a coisa acontecera. Os pais aguardavam -na na sala de estar e a m ãe voltara-se de costas para que Kate não a visse chorar. Estava devastada por ela.
Foi o pai que lhe deu a notícia. Achou-se com m ais coragem que a m ulher. Assim que Kate se sentou, olhou-a nos olhos e contou-lhe que tinha recebido um telegram a nessa m anhã e que ligara para Washington para tentar descobrir o m áxim o possível.
— Não tenho boas notícias — com eçou ele. Kate arregalou os olhos. Aquilo não era por causa dos pais, percebeu ela, era por sua causa, e sentiu o coração bater com m ais força. Não queria ouvir o que ele tinha para lhe dizer, m as era preciso. Não em itiu um único som . — O Joe deu o seu nom e com o fam iliar m ais chegada, j untam ente com uns prim os que ele j á não vê há anos.
A m ãe de Kate recebera o tem ido telegram a e ligara para o escritório de Clarke depois de o abrir. Clarke telefonara im ediatam ente para um conhecido seu no Departam ento de Guerra, a fim de tentar saber m ais porm enores, nenhum dos quais bons. Nessa hora não desperdiçou m ais tem po. Kate quase não respirava.
— Ele foi abatido sobre a Alem anha na sexta-feira de m anhã. — Passara um a sem ana, e na noite de quinta ela com eçara a ter aqueles sonhos horríveis com aviões a caírem do céu. Era sexta de m anhã na Europa. — Viram o avião dele perder altitude, e têm um a idéia do local onde ele aterrissou. O Joe saltou de paraquedas no últim o m inuto e pode ter sido m orto durante a descida, ou pode ter sido capturado. No entanto, não tiveram notícias dele desde esse dia. Ele não consta das listas de oficiais capturados. Voa com um a identidade falsa, m as nem essa, nem o seu verdadeiro nom e apareceram . Pensa-se que ele pode estar sendo m antido preso secretam ente, ou que os Alem ães o m ataram . Creio que ele pode ter inform ações confidenciais que o tornarão de interesse considerável para os Alem ães se estes descobrirem quem ele é. O Joe é um troféu por causa da sua própria história, a presa perfeita por ser herói nacional.
Kate olhava para o pai com o rosto inexpressivo, tentando assim ilar o que ele lhe dizia e, por m om entos, não reagiu.
— Kate... os Serviços Secretos dos Aliados acham que ele não se safou — resum iu ele. — E m esm o que tenha conseguido, os Alem ães não o deixarão viver m uito tem po. Provavelm ente j á está m orto, senão os Am ericanos ou os Britânicos j á teriam tido notícias dele.
Ela continuou apática e a m ãe aproxim ou-se e pôs-lhe um braço sobre os om bros.
— Mãe... ele está m orto? — perguntou ela com a voz de um a criança perdida tentando com preender aquilo que alguém acabara de lhe contar num a língua estranha. Não era capaz de o assim ilar. O seu coração recusava-se a saber. Parecia o eco terrível do dia em que a m ãe lhe dissera que o pai m orrera. E, de certa form a, aquilo era pior. Ela am ava m uito Joe.
— Eles acham que sim , querida — respondeu a m ãe baixinho, sofrendo por ela. Kate estava m uito pálida e em choque. Quis levantar-se, m as voltou a sentar-se, e o pai olhou-a cheio de com preensão e pesar.
— Lam ento, Kate — disse ele.
Viu lágrim as nos olhos dele, não só por Joe, m as tam bém por si.
— Não lam ente — retorquiu Kate, levantando-se. Não ia deixar que aquilo lhe acontecesse. Não podia. Nem que aquilo acontecesse a Joe. Não acreditava nem acreditaria até haver um a certeza. — Ele ainda não m orreu. Se tivesse m orrido, alguém j á saberia — insistiu enquanto os pais trocavam um olhar infeliz. Não era a reação que eles esperavam , nem ela a planej ara. Recusava-se apenas a aceitar a notícia. — Tem os de saber apenas que o Joe vai ficar bem , m ãe... pai... é isso que ele esperaria de nós.
— Kate, ele aterrissou na Alem anha, rodeado por alem ães que andavam à sua procura. É um piloto fam oso. Não vão deixá-lo escapar com vida. Você tem de enfrentar isso. — A voz do pai era firm e. Não queria que ela se iludisse.
— Não tenho de enfrentar nada! — gritou, saindo da sala correndo, subindo as escadas e batendo com a porta do quarto.
Os pais viram -na fugir atordoados, e não souberam o que m ais lhe dizer. Esperavam que ela ficasse desolada, m as em vez disso m ostrara-se revoltada com eles e com o resto do m undo. No entanto, assim que se viu no quarto com a porta firm em ente fechada, Kate atirou-se na cam a e com eçou a chorar. Ficou ali durante horas, pensando em Joe e em com o ele era m aravilhoso. Não suportava im aginar o que lhe acontecera, não era possível, não era j usto, só se lem brava dos seus sonhos durante a últim a sem ana e no que ele devia ter sentido ao ser abatido. Ele prom etera-lhe que tinha cem vidas.
Era bem tarde quando a m ãe finalm ente ousou entrar no seu quarto. Quando Kate se virou, a m ãe viu os seus olhos verm elhos e inchados. Sentou-se ao seu lado na cam a e Kate soluçou nos seus braços.
— Não quero que ele estej a m orto, m ãe... — disse, chorando com o um a criança.
Elizabeth chorava tam bém pela filha.
— Eu tam bém não quero — respondeu. Apesar das suas reservas acerca de Joe, ele era um hom em direito e não m erecia m orrer com trinta e três anos. Nem Kate m erecia ficar com o coração destroçado. Nada daquilo era j usto. Nada havia sido j usto nos últim os dois anos. — Só nos resta rezar para que ele estej a bem . — Não queria continuar a insistir com Kate que ele provavelm ente estava m orto. Isso viria com o tem po. Já era difícil aceitar que ele fora abatido. E se acabassem por não o encontrar, Kate teria de aceitar o seu desaparecim ento. Não tinha de o enfrentar naquele m om ento, pois a dor era m uito intensa.
A m ãe ficou com Kate até bem tarde e afagou-lhe o cabelo ternam ente até ela adorm ecer ainda soluçando. Elizabeth estava de rastros.
— Quem m e dera que ela não am asse tanto aquele hom em — disse a Clarke quando por fim foi se deitar. Ele estava tão preocupado com Kate que esperara acordado pela m ulher. — Há algo entre eles que m e assusta. — Vira-o no ano anterior nos olhos de Joe, e vira-o havia pouco nos de Kate. Desafiava a razão, o tem po e as palavras, era um elo entre as suas alm as que nem eles próprios com preendiam . E o que assustava a m ãe de Kate naquele m om ento era desconfiar que o elo se m anteria indestrutível m esm o depois da m orte. Seria um destino terrível para Kate.
Esta estava m uito calada e taciturna no dia seguinte ao café da m anhã, e ignorou todas as tentativas para lhe extorquirem um a palavra. Não disse nada aos pais, bebeu apenas um chá e voltou a subir as escadas com o um fantasm a. Durante o resto do fim de sem ana não saiu do quarto. Felizm ente, faltava apenas um a sem ana para as férias do Natal.
No dom ingo à noite, Kate vestiu-se e retornou a Radcliffe e nem se despediu dos pais. Parecia um a alm a penada. Não dirigiu a palavra às colegas, e quando Beverly a foi cum prim entar e lhe perguntou se ela tinha estado doente durante o fim de sem ana, Kate não lhe contou que o avião de Joe tinha sido abatido. Não tinha coragem de dizer aquelas palavras e adorm ecia todas as noites chorando.
Todos na sua casa sabiam que algo lhe acontecera, e só vários dias m ais tarde alguém leu um pequeno artigo no j ornal dizendo que ele fora abatido. Os Serviços Secretos m ilitares tentavam ser o m ais discretos o possível para não desm oralizarem os am ericanos que tinham ficado na pátria. Disseram que ele desaparecera em com bate e a notícia era bastante vaga. Mas dissera-lhes tudo o que precisavam saber. Todas as garotas da casa sabiam que Joe Allbright visitara Kate.
— Lam ento... — m urm uraram algum as ao passar por ela no corredor. Ela lim itava-se a assentir e a desviar o olhar. Andava com um aspecto terrível, perdera peso e tinha um ar doente quando foi para casa nas férias do Natal. Os esforços da m ãe para a confortar foram em vão. Kate só queria ficar sozinha enquanto esperava por notícias de Joe.
Pediu ao pai que ligasse novam ente ao seu contato em Washington antes das férias, m as não havia m ais novidades. Não houvera sinal de Joe nem chegara qualquer inform ação através de fontes clandestinas. Os Alem ães não se vangloriavam de o ter capturado e, aliás, negaram -no quando isso lhes foi perguntado. Ninguém identificado pelo nom e nos docum entos dele aparecera. E se soubessem que tinham capturado Joe Allbright, tê-lo-iam dito e considerado um a verdadeira vitória contra os Aliados. Tam bém ninguém o vira fugir nem o encontrara desde a queda do avião. Não havia sinal dele em parte algum a.
Nesse ano não houve Natal para nenhum deles. Kate m al foi às com pras, não quis presentes dos pais, levou um a eternidade a abrir os que recebera e passou a m aior parte do tem po no quarto. Só conseguia pensar nele, em que local estaria, no que lhe teria acontecido, se ainda estaria vivo, e se voltaria a vê-lo. Pensava constantem ente nos m om entos que haviam passado j untos e arrependeu-se ainda m ais am argam ente de ter perdido o bebê que haviam concebido no ano anterior. Andava inconsolável e inalcançável, m al dorm ia e em agrecera bastante.
Devorara os j ornais à procura de um a palavra acerca dele, m as o pai j á lhe garantira que lhe telefonariam antes de m ais algum a coisa aparecer na im prensa. Ele desconfiava que esse telefonem a nunca chegaria. Joe j á devia estar m orto havia sem anas e j azia em algum lugar num a cam pa rasa. Pensar nisso quase levou Kate à loucura. Parecia que um a parte de si fora arrancada, que algum órgão interno que desconhecia fora rem ovido. À noite, ou se deitava na cam a olhando para a parede, ou andava de um lado para o outro no quarto, com a sensação de estar prestes a explodir, e nada a aj udava. Até se em bebedou um a noite e os pais não lhe disseram nada no dia seguinte. Estavam desesperados, nunca tinham visto ninguém tão abalado pela dor. Ela sentia a falta de Joe e nada a aj udaria a não ser o tem po.
Quando retornou às aulas, bom bou pela prim eira vez em um exam e. A psicóloga cham ou-a e perguntou se algum a coisa acontecera durante as férias. Kate tinha péssim a aparência e, em voz em bargada, contou-lhe que um am igo chegado fora abatido num a m issão sobre a Alem anha. Pelo m enos isso explicava as suas notas. A m ulher deu-lhe os sentim entos e disse que esperava que Kate se sentisse m elhor em breve. Foi m uito sim pática e m uito m eiga; perdera tam bém o filho em Salerno no ano anterior.
No entanto, nada do que as pessoas diziam confortava Kate. Quando não se sentia triste, sentia-se zangada.. zangada com os Alem ães, com o destino, com o hom em que alvej ara o avião de Joe, com ele por ter perm itido que tal lhe acontecesse, consigo por am á-lo tanto. Queria libertar-se de tudo aquilo, m as sabia que nunca nada a libertaria dele. Era dem asiado tarde.
Quando Andy voltou a vê-la depois do Natal, a princípio ficou cheio de pena, m as depois repreendeu-a. Disse-lhe que ela estava cheia de pena de si própria, que sem pre soubera que algo podia acontecer a Joe. E no caso de Joe podia ter acontecido em qualquer época, em algum lugar, enquanto fazia acrobacias que desafiavam a m orte nos aviões. Ela e Joe não eram casados, não tinham filhos, nem sequer estavam noivos. Contudo, o que Andy lhe disse só a enfureceu.
— Isso é para eu m e sentir m elhor? Já parece a m inha m ãe! Acha que um anel no dedo faria algum a diferença para m im ? Não significaria nada, Andy Scott, nem m udaria o que lhe aconteceu. Porque é que todos andam obcecados com rituais sociais? Quem se im porta com eles? Ele deve estar num cam po de prisioneiros sendo torturado por causa do que sabe. Acha que um anel no m eu dedo faria algum a diferença para eles? Claro que não. Nem faria para o Joe. Não teria feito com que ele m e am asse m ais, nem que eu o am asse m ais. Estou m e lixando para o anel — disse, com eçando a soluçar, — só quero que ele volte para casa.
Lançou-se nos braços de Andy com o um a boneca desconj untada.
— Ele não vai voltar — retorquiu Andy, abraçando-a. A probabilidade de isso acontecer é um a em um m ilhão.
— Pode acontecer, talvez ele fuj a. — Ela recusava-se a deixar m orrer a esperança.
— Talvez ele tenha m orrido — disse Andy, tentando obrigá-la a enfrentar a verdade. O m ais provável era Joe estar m orto. Kate tam bém o sabia, m as não queria ouvir tal coisa de ninguém . Ainda não se sentia com forças para enfrentar isso. — Kate, im agino que deva ser m uito difícil, m as você tem de superar esta crise. Não pode perm itir que destrua-a.
O pior de tudo era que ela não dispunha de um a alternativa. Fazia o m elhor que podia, m as afogava-se no m edo que sentia por Joe, na sua sensação de pânico e perda. Não fazia idéia de com o iria existir sem ele. E contudo, m esm o nos piores m om entos, tinha a inexplicável sensação de que ele se encontrava vivo. Parecia que um a parte de si ainda não desistira dele, e Kate perguntou-se se algum a vez desistiria. Sentia-se unida a ele até ao fim da sua vida.
Ela e Andy foram j antar na cafeteria e ele obrigou-a a com er. Nesse fim de sem ana insistiu para que ela o fosse ver com petir em natação com o MIT. Kate acabou por passar bons m om entos e durante algum tem po esqueceu a sua tristeza. Todos ficaram radiantes quando Harvard venceu.
Esperou por ele depois e foram j antar fora. Em seguida levou-a para casa. Ela parecia estar com m elhor aparência e Andy teve pena quando ela lhe contou que sonhara com Joe. Continuava convencida de que ele estava vivo, e Andy tinha certeza de que a m ente dela lhe andava pregando peças. Kate não estava disposta a aceitar a possibilidade de ele ter m orrido quando o avião fora abatido.
Por fim , o assunto tornou-se penoso sem pre que era abordado pela fam ília ou pelos am igos. As pessoas diziam -lhe o quanto lam entavam o que acontecera a Joe e ela respondia-lhes que ele devia encontrar-se em algum lugar num cam po alem ão de prisioneiros. Com o tem po, as pessoas deixaram de lhe falar no assunto.
Quando chegou o verão, Joe j á tinha desaparecido havia sete m eses. As suas últim as cartas haviam chegado um m ês depois da queda do avião e ela leu-as à noite, e ficou deitada na cam a pensando nele. Todos diziam que devia esquecê-lo, que ele m orrera, m as o seu coração recusava-se a libertá-lo com o se liberta um pássaro de um a gaiola. Manteve-o bem dentro de si, num local secreto do seu coração. Sabia que era um local onde nunca ninguém voltaria a ir e tinha consciência de que as pessoas que lhe diziam que devia superar a tragédia estavam certas, m as não sabia com o fazê-lo. Ele era com o um a cor que Kate tivesse adquirido, um a visão que tivera, um sonho, e não havia form a de a separar dele.
Os pais incitaram -na a fazer um a viagem nesse verão e, depois de m uitas discussões, Kate concordou finalm ente. Foi visitar a avó em Chicago e dali voou até à Califórnia para ver um a am iga que frequentava Stanford. Foi um a viagem interessante e divertiu-se, m as sentiu que se lim itava a fazer os gestos e não a viver realm ente a vida. Foi um alívio retornar para casa de trem . Teve três dias para ficar olhando para a j anela pensando em Joe, em tudo o que ele fora, e que talvez continuasse a ser. No entanto, até ela própria j á com eçava a pensar que ele não estava vivo.
Quando retornou a Boston no final de agosto, ele j á desaparecera havia nove m eses. Ninguém soubera nada dele nem o vira em nenhum dos cam pos de prisioneiros de guerra. Tanto Washington com o a RAF concordaram por fim que ele m orrera.
Kate não foi a Cape Cod nesse verão. O local trazia-lhe m uitas recordações, em bora só o tivesse visto ali duas vezes. Retornou da Califórnia a tem po de iniciar o seu últim o ano em Radcliffe. Iria especializar-se em História da Arte e não tinha idéia do que faria com isso. Ensinar não lhe agradava e não havia outra carreira que a atraísse particularm ente.
Encontrou Andy algum as sem anas depois de ter retornado, ele iniciara o terceiro ano na Faculdade de Direito e m al tinha tem po para ver os am igos. Adorava o curso e andava cheio de trabalho. Várias das am igas de Kate não regressaram nesse outono, duas tinham se casado durante o verão e outra m udara-se para a costa oeste. Outra com eçara a trabalhar para sustentar a m ãe, pois o pai e os irm ãos tinham m orrido no Pacífico no ano anterior. Parecia um m undo sustentado e dirigido por m ulheres, m otoristas de ônibus, m ulheres carteiros, todos os trabalhos que anteriorm ente haviam sido feitos por hom ens eram executados por m ulheres. Todos haviam se habituado à situação e Kate brincava com os pais dizendo que queria ser m otorista de ônibus quando fosse grande. Infelizm ente, não havia nada que preferisse fazer.
Tinha vinte e um anos e rapidam ente acabou o curso em Radcliffe. Era inteligente, bonita, interessante, divertida e estava bem inform ada. A m ãe dizia que se o m undo não se encontrasse em guerra ela j á estaria casada e teria filhos, se não com Joe, pelo m enos com outra pessoa. No entanto, ela nem voltara a sair com outros rapazes. Tinha sido convidada por vários rapazes de Harvard, por dois excessivam ente inteligentes do MIT, e até por um rapaz sim pático do Boston College, m as recusara sem pre. Não se interessava por ninguém e continuava à espera de um telefonem a de Washington dizendo-lhe que Joe continuava vivo, ou que ele aparecesse na sala de visitas da sua casa. Esperava vê-lo quando entrava nos ônibus, dobrava esquinas ou atravessava ruas. Era im possível aj ustar-se à idéia de que desaparecera, de que deixara de existir no planeta e que por m uito que ela o am asse, nunca m ais voltaria para ela. O conceito de m orte era incom preensível.
As férias significaram m uito pouco nesse ano, em bora tivessem sido m enos dolorosas que as do ano anterior. Estava m uito m ais calm a e foi m eiga e carinhosa para com os pais, m as quando a m ãe a incitava a sair ela m udava de assunto ou saía da sala. Os pais com eçavam a perder a esperança e Liz confiara ao m arido que tem ia que Kate ficasse para tia.
— Custa-m e a crer — respondeu ele com um a gargalhada. — Ela só tem vinte e um anos e estam os em guerra, por am or de Deus! Espera só que os rapazes retornem .
— E quando será isso? — perguntou Elizabeth com um olhar pesaroso
— Em breve, espero.
Mas ainda não havia sinal de que isso fosse acontecer. Paris fora finalm ente libertada em agosto. A Rússia tinha vencido os Alem ães e as tropas russas haviam avançado até à Polônia. Contudo, os Alem ães haviam aum entado os bom bardeam entos na Inglaterra em setem bro. E a sua ofensiva na floresta das Ardenas corria m al para os Aliados. A batalha de Bulge no Natal custara m uitas vidas e desencoraj ara todos na frente.
No últim o dia das férias do Natal, Andy Scott passou lá na casa com um grupo de am igos e convenceu Kate a ir patinar. Iam de carro até um lago próxim o e a m ãe ficou aliviada ao vê-la sair. Ainda tinha esperanças que Kate um dia desse m ais atenção a Andy, em bora ela insistisse que ele era apenas um bom am igo. No entanto, haviam se aproxim ado bastante ao longo dos anos e Elizabeth não perdera ainda a esperança. Achava que ele teria sido o m arido ideal para Kate, e Clarke não discordava, em bora achasse que essa decisão cabia à filha.
Passaram um a tarde m agnífica patinando no lago, caindo, patinar, em purraando uns aos outros. Os rapazes organizaram um a partida de hóquei e Kate patinou em círculos graciosos no m eio do lago. Em criança adorara dança no gelo, e era relativam ente boa nisso. Depois foram todos beber toddies quentes e dar um longo passeio no frio. Kate deixou-se ficar para trás passado algum tem po e Andy fez-lhe com panhia. Estava satisfeito por vê-la com m elhor aparência e finalm ente divertindo-se. Ela disse que as férias de Natal tinham sido agradáveis, em bora adm itisse que não tinha feito m uita coisa, e ele reparou que daquela vez ela não se referira a Joe. Esperou que isso fosse um ponto de virada para ela.
— O que vai fazer no próxim o verão? — perguntou ele, colocando a m ão enluvada dela no seu braço. Tinha cabelo escuro brilhante e olhos castanhos pensativos, e trazia protetores nas orelhas e um cachecol quente.
— Não sei, ainda não pensei nisso — respondeu ela com ar vago. A condensação das suas respirações rodopiava em redor deles.
— Eu tive um a idéia engraçada — disse ele enquanto seguiam os outros. — Vam os acabar os estudos em j unho. — Ela em Radcliffe e ele na Faculdade de Direito. — O m eu pai disse-m e que só tenho de com eçar a trabalhar na firm a em setem bro. Pensei que talvez fosse bom ir em lua-de-m el.
Ela assentia ao ouvi-lo e naquele m om ento fitou-o de cenho franzido.
— Com quem ? — Ficou m om entaneam ente sem fôlego. Havia um a expressão estranha no olhar dele. Pararam de andar e ele fitou-a.
— Estava pensando em você — respondeu ele baixinho e Kate suspirou. Julgara que aquele assunto tinha ficado resolvido. Havia anos que o tratava com o a um irm ão. Mas Andy sem pre tivera um fraco por ela. E tal com o os pais dela e os dele, Andy tam bém achava boa idéia casarem -se.
— Você está brincando? — perguntou, esperançada, m as ele abanou a cabeça e Kate encostou a sua no peito dele.
— Não posso fazer isso, Andy, sabe-o bem . Am o-te com o a um irm ão. — Levantou a cabeça e sorriu-lhe com tristeza. — Seria incesto casar com você.
— Sei que você esteve apaixonada pelo Joe — retorquiu Andy, — m as ele m orreu. E eu sem pre te am ei. Acho que conseguiria fazer-te feliz, Kate.
Mas não com o Joe fizera. Joe fora paixão, excitação, perigo. Andy era chocolate quente e patins. Os dois eram im portantes para ela, m as de m aneiras diferentes e tinha certeza de que nunca iria sentir por Andy o que sentira por Joe. Tinham parado de andar e os outros j á iam m uito m ais à frente, sem fazer idéia do que acontecia atrás deles.
— Acho que não seria correto para você — disse ela com sinceridade, aproxim ando-se dele quando recom eçaram a andar. Ele quisera perguntar-lhe aquilo todo o dia e não tivera oportunidade j unto ao lago. Estivera m uito ocupado j ogando hóquei com os am igos. E ela ficara patinando sozinha. Tornara-se um a garota m uito solitária. — Ainda m e custa a crer que ele partiu e não vai voltar. — No entanto, há pouco tem po com eçara a tentar habituar-se à idéia, em bora lhe custasse e provavelm ente lhe fosse custar sem pre.
— Você não estava noiva dele, Kate. Muitas pessoas têm rom ances com outras antes de se casarem . Algum as até rom pem noivados quando conhecem outras pessoas — disse ele com ar m uito sério. — Vai haver m uitas m ulheres na sua posição depois da guerra. Há viúvas ainda m ais novas que você, e algum as delas têm filhos. Não podem trancar-se em casa durante o resto da vida. Vão ter de viver de novo, e você tam bém Não pode esconder-se para sem pre, Kate.
— Posso sim . — Ela com eçara a achar que o que tivera com Joe fora tão invulgar e especial que se alim entaria disso durante o resto da vida e não existiria para ela outro hom em
— Não é bom para você. Precisa de um m arido, de filhos, de um a vida boa e de alguém que te am e e que olhe por você. — O que ele dizia teria sido m úsica para os ouvidos da m ãe de Kate, m as não para ela. Não estava pronta para pensar em outra pessoa. Continuava apaixonada por Joe.
— Merece m elhor do que um a m ulher que está apaixonada por um fantasm a.
— Era a prim eira vez que Kate adm itia a alguém que Joe poderia estar m orto, e Andy achou isso um prim eiro passo.
— Talvez haj a espaço na nossa vida para um fantasm a. — Andy tinha certeza de que um dia Kate esqueceria Joe.
— Não sei — respondeu ela num tom vago. Contudo, até àquele m om ento não dissera claram ente que não.
— Não tem os de nos casar no próxim o verão, Kate. Só disse isto para ver a sua reação. Podem os levar o tem po que quiser. Talvez pudéssem os apenas sair durante algum tem po.
— Com o as pessoas norm ais? — perguntou, fitando-o e não se im aginando capaz de o am ar. Apesar de ter apenas vinte e três anos, achava Andy um garoto. Joe era dez anos m ais velho que ele. E eram hom ens diferentes. Kate sentira-se atraída por Joe desde que o vira, ele assem elhara-se a um a explosão de luz no seu coração. Andy sem pre fora um rapaz sim pático e um bom am igo. A m ãe dizia que um m arido devia ser assim .
— Então o que você acha? — perguntou ele esperançado.
Ela soltou um a gargalhada. Era com o ter um rapaz a convidar-nos para irm os conhecer a sua casa na árvore ou para sair com ele pela prim eira vez. Não conseguia levá-lo a sério.
— Acho que você é louco por m e querer — respondeu ela.
— E você?
— Não sei. Nem im agino com o seria nam orar com você. Deixa-m e pensar no assunto. — Nos últim os três anos e m eio tentara acasalá-lo com algum as garotas da sua casa, no entanto Andy sem pre se m ostrara m ais interessado nela. — Parece-m e um a idéia m aluca — disse Kate, m as Andy não ficou desencoraj ado. As coisas tinham corrido m elhor que o previsto e ele estava satisfeito. Havia m eses que andava reunindo coragem para lhe dizer aquilo, e receara que fosse m uito cedo. No entanto, j á fazia m ais de um ano que Joe desaparecera.
— Talvez não sej a tão m aluca com o j ulga. Porque não vem os com o correm as coisas durante os próxim os m eses? — sugeriu Andy.
Kate assentiu. Sem pre gostara dele, e talvez a m ãe tivesse razão.
Contudo, nessa noite, depois de ele a ter deixado na casa dos pais, ficou deprim ida ao pensar nisso. Deixar Andy falar no assunto parecia um a traição para com Joe, e pensar nele fazia-a sentir ainda m ais a falta de Joe. Não só eram diferentes com o existiam em m undos diferentes. Tudo em Joe era excitante, fascinante. Ela sem pre ficara m aravilhada com as suas histórias de aviões e voar com ele fora um dos m om entos altos da sua vida. Para além do que Joe lhe dissera e do que haviam feito j untos. Houvera sem pre entre os dois um a atração poderosa, quase irresistível. Era o tipo de quím ica que nenhum deles conseguia explicar. E essa quím ica não existia com Andy Scott. Em vez de um a luz brilhante a refulgir em algum lugar dentro dela, tudo o que Andy representava na sua m ente era um local quente e confortável. E quando tornou a vê-lo alguns dias m ais tarde, disse-lhe.
— Chiu! — fez ele, encostando um dedo aos lábios dela. — Já sei o que vai dizer. Esquece. Não quero ouvir nada. Você está apenas assustada.
Mas o problem a era que não estava apaixonada por ele. Não contou aos pais o que ele lhe dissera. Não queria aum entar as esperanças da m ãe nem entusiasm á-la. Ela própria ainda não estava convencida. Antes pelo contrário, só a idéia de sair com ele lhe dava m edo. Sentia-se um a tonta.
— Dá-m e só um a oportunidade — continuou ele. Que tal irm os j antar na sexta-feira? E podíam os ir ao cinem a no sábado.
Kate teve a sensação de que um a criança a pedia em nam oro. Ele era inteligente e m eigo, sim pático e de confiança, m as com o ficara em casa quando todos os outros tinham ido para a guerra, parecia m enos m aduro aos olhos de Kate.
Mesm o assim Kate arrum ou-se para ir j antar com ele na sexta-feira. Usou o vestido preto que a m ãe lhe dera no Natal, sapatos de salto alto, um a j aqueta de pele e um colar de pérolas. Estava m uito bonita com o seu cabelo castanho-averm elhado quando ele a foi buscar, de terno escuro. Parecia o sonho de todas as garotas. Mas não o dela.
Tiveram um j antar m uito agradável num restaurante italiano de North End e depois ele levou-a para dançar. No entanto, Kate tinha a sensação de que aquilo era um a piada. Preferia ter ido com er na cafeteria, com o habitualm ente. Mas não lhe disse.
Andy foi m uito circunspecto quando a levou para casa e não a beij ou. Não queria afugentá-la e com preendia que ela achasse que era m uito cedo. Na noite seguinte levou-a de novo para ver o film e Casablanca, e foi um passeio m ais descontraído. A seguir foram com er um ham búrguer. Kate ficou espantada por ter se divertido. Era agradável sair com um rapaz e ele era um a ótim a com panhia, em bora continuasse a achar que estar com ele não era excitante nem rom ântico. Andy era apenas um am igo e não se im aginava, pelo m enos por enquanto, sentindo por ele m ais do que am izade. No entanto, achava que devia esforçar-se por dar-lhe um a oportunidade.
Ele tentou finalm ente beij á-la no Dia dos Nam orados. Joe desaparecera havia quinze m eses, m as foi só nele que ela conseguiu pensar ao sentir os lábios de Andy nos seus. Ele era bonito, sensual e j ovem , m as ela achava que devia haver qualquer coisa de errado nela. Parecia que tudo dentro dela, no seu coração, na sua cabeça, na sua alm a, estava adorm ecido. Quando a luz de Joe se apagara dentro dela, tudo escurecera. O seu coração ainda não o abandonara.
Andy pareceu não reparar e durante os m eses seguintes saíram um a vez por sem ana e ele beij ava-a quando a deixava em casa. Nunca tentou ir m ais longe, e ela sentiu-se aliviada. Sabia que Andy não havia de querer que ela arruinasse a sua reputação e desconfiava que ele não fazia idéia de que ela fizera am or com Joe. Dizia-lhe constantem ente que a am ava e, à sua m aneira, ela tam bém o am ava. Os pais andavam radiantes por ela sair com ele, m as Kate fartava-se de insistir que a coisa não era séria e quando o pai a olhou nos olhos, ficou com o coração destroçado. Percebeu facilm ente o que estava lá dentro e o que não estava. Viu apenas um a dor incom ensurável. Era o m esm o que olhar para um poço de dor sem fundo. O fato de ela conversar e sorrir e ter recom eçado a rir não o enganou.
Certo dia ao j antar, quando a m ulher com eçou a falar sobre Andy, Clarke tentou desencoraj á-la. Achava que o que ela andava fazendo era perigoso para Kate.
— Não os force, Liz. Deixa-os encontrar o seu cam inho.
— Eles parecem -m e bem . Tenho certeza de que vão ficar noivos.
— Mas o que significaria isso? — perguntou Clarke a si m esm o. Que ela estivera profundam ente apaixonada por um hom em e tinha de casar com outro para o substituir, quer o am asse quer não? Clarke achava isso um erro abism al. Ele e Liz estavam casados havia treze anos e ele continuava apaixonado com o no início. Não queria m enos para a filha.
— Acho que ela não devia casar com ele — disse Clarke.
— Porque não? — retorquiu Liz, furiosa. Não queria que o m arido estragasse aquilo.
— Ela não o am a, Liz. Olha para ela. Continua apaixonada pelo Joe
— Ele nunca foi o hom em certo para ela e está m orto, pelo am or de Deus!
— Isso não altera o que ela sentiu por ele. Talvez leve alguns anos para superar isso.
Com eçava a tem er que Kate nunca superarasse. E casar com Andy só pioraria as coisas, especialm ente se ela o fizesse para lhes agradar. Podia enchê-la de desespero. Nesse caso, seria m elhor ficar sozinha, por m uito sim pático que Andy fosse.
— Deixa-os em paz e deixa-os decidir — pediu ele, m as Liz abanou a cabeça.
— Ela precisa se casar e ter filhos, Clarke. O que espera que ela faça quando acabar os estudos em j unho? — Fazia com que o casam ento e os filhos parecessem um a terapia ocupacional, e isso com eçava a irritá-lo.
— Prefiro que ela arranj e um em prego a casar-se com o hom em errado — respondeu ele com firm eza.
— Não há nada de “errado” com o Andy Scott. — As idéias esquisitas do m arido com eçavam a intrigá-la. Talvez ele tam bém tivesse ficado um pouco deslum brado com Joe Allbright. Mas por m uito deslum brante que ele tivesse sido, m orrera. E Kate tinha de continuar com a sua vida.
Apesar dos argum entos e das preocupações dos pais, Kate continuou saindo com Andy aos finais de sem ana e esforçando-se por sentir por ele m ais do que am izade, m as não conseguiu. E na prim avera, todas as atenções estavam voltadas para Inglaterra, França e Alem anha. A m aré com eçava a m udar.