A Águia Solitária
Capítulo 22
Joe entrou no Hospital Greenwich às seis da tarde de quarta-feira. Tinham passado cinco dias desde o acidente. Kate estava ligada a um a m áquina e entubada. Ainda não saíra do com a, em bora j ulgassem que a concussão na cabeça m elhorara. O inchaço dim inuíra, o que era bom sinal. Os pais dela tinham retornado ao hotel para descansar. Andy Scott encontrava-se ao pé da cam a quando Joe entrou no quarto. Os dois hom ens entreolharam -se longam ente e Joe leu no olhar de Andy tudo o que ele pensava a seu respeito.
— Com o é que ela está? — perguntou Joe, tocando na m ão de Kate. Achou-a m uito pálida, parecendo quase m orta, m as Andy j ulgara notar um a certa m elhora nessa tarde. Não fora trabalhar durante toda a sem ana. Não lhe parecera bom deixar Kate sozinha, e Julie tinha m uito que fazer com as crianças. A am a viera de Nova Iorque para a aj udar assim que tivera notícias de Joe.
— Mais ou m enos na m esm a — respondeu Andy.
Joe reparou de im ediato no ventre liso de Kate, e com oveu-se, sabendo o que isso significaria para ela. Ele próprio andara anim ado com a perspectiva de ser pai de um bebê, ou m elhor, de dois bebês, m as agora isso deixara de ter im portância. A sua única preocupação era Kate.
— Obrigado por ter ficado com ela — agradeceu Joe educadam ente quando Andy pegou o casaco e se preparou para sair. Havia um a enferm eira sentada ao lado da cam a, observando os dois hom ens. Ela não sabia qual a relação deles com Kate, m as era evidente que antipatizavam um com o outro.
Andy parou j unto à porta e falou em voz baixa.
— Onde é que raio você esteve, hom em ? Ninguém soube de você durante quatro dias! Tinha responsabilidades: um a m ulher grávida e dois enteados. — Andy era incapaz de conceber que alguém pudesse desaparecer durante dias daquela m aneira. Perguntou de si para si se ele não estava traindo Kate, m as não o conhecia. Joe era assim m esm o. Kate habituara-se, m as ainda havia vezes em que não era fácil. Joe aproxim ava-se quando estava pronto, e por vezes não telefonava durante dias. Andy achava inconcebível ninguém saber onde Joe estava. Aquilo exem plificava bem por que m otivo ele não podia desaparecer. Andy não se im aginava fazendo aquilo à m ulher e aos filhos.
— Estive num barco — respondeu Joe com frieza. Parecia-lhe um a explicação razoável. — Vim assim que soube. — No entanto, sentia-se pouco à vontade por ela ter estado cinco dias no hospital sem ele. Não queria era adm iti-lo diante de Andy Scott. Este nada tinha a ver com o assunto, Kate era apenas a m ãe dos seus filhos. Mas para Andy isso era suficiente. — Os pais dela j á sabem ? — perguntou Joe de repente. Nem se lem brara de perguntar isso a Hazel quando ela lhe ligara.
— Estão aqui — respondeu Andy. — Encontram -se instalados num hotel.
— Obrigado pela sua aj uda — disse Joe, m andando-o em bora.
— Telefone se puderm os fazer algum a coisa. — Dizendo isto, Andy saiu do quarto e fechou a porta.
Joe sentou-se ao lado de Kate. A enferm eira afastou-se e ocupou-se com qualquer coisa no lavatório j unto à porta para que Joe pudesse ficar sozinho com a m ulher. Joe fitou-a com um a expressão aflita. Não se im aginava perdendo Kate.
Por m uito estranha que a relação de am bos parecesse aos outros, ele am ava-a profundam ente há quinze anos. Ela era a sua m elhor am iga, o seu consolo, a sua m entora, o seu riso, a sua alegria, por vezes a sua consciência e fora sem pre o am or da sua vida, a única m ulher que realm ente am ara.
— Kate, não m e abandone... — m urm urou ele quando a enferm eira saiu. — Por favor, querida... volta... — Ficou ali sentado durante as horas seguintes, agarrando-lhe na m ão, as lágrim as a decorrerem -lhe pelo rosto.
Um m édico veio ver o paciente e, à m eia-noite, trouxeram um divã a Joe. Ele decidira passar a noite lá. Não queria estar longe se ela m orresse. Passou a noite acordado, e de vez em quando espreitava para ver com o ela estava. Miraculosam ente, às quatro da m anhã Kate m exeu-se.
Joe estava quase adorm ecendo, m as assim que a ouviu gem er sentou-se. A enferm eira observava os olhos de Kate.
— O que se passa? — perguntou ele enquanto a m ulher procedia ao exam e. Ela tinha um estetoscópio nos ouvidos e não ouviu o que ele disse. Kate gem eu novam ente e, de olhos ainda fechados, virou a cabeça para Joe. Era com o se até nas grutas negras da inconsciência soubesse que ele ali estava. — Querida, sou eu... estou aqui... abre os olhos. — No entanto, Kate não em itiu m ais nenhum som e ele voltou a deitar-se. Tinha a estranha sensação de que alguém no quarto o observava. Sentia-o na pele, e estava apavorado com a possibilidade de ela m orrer. Isso fê-lo perceber o quanto a am ava e sem pre soubera que ela o am ava m uito. Só não queriam sem pre as m esm as coisas. Kate queria estar com Joe e ele precisava de vagar pelo m undo com os seus aviões. Mas não a am ava m enos por causa disso, só que para ele havia outras prioridades e j ulgava que ela aceitara isso. Não sabia por que, m as sentia-se culpado por causa do acidente. Seria incapaz de o adm itir perante alguém , m as achava que devia ter estado presente. Não fizera idéia de que algo acontecera a Kate, passara três dias m aravilhosos no barco do am igo inglês, com quem voara durante a guerra. Até pensara bastante em Kate e no bebê que iriam ter. Custava-lhe im aginar o que seria ter gêm eos. Mas isso agora não im portava.
Joe não pregou olho nessa noite e às seis da m anhã levantou-se, escovou os dentes e lavou o rosto. Tinha acabado de voltar para j unto da cam a quando Kate se m exeu e abriu os olhos. Fitou Joe e este ficou sem fôlego com a surpresa.
— Assim é m elhor — disse ele com um sorriso, sentindo-se invadir por um enorm e alívio. — Bem -vinda. — Ela suspirou e fechou os olhos de novo. Joe estava im paciente para que a enferm eira regressasse, para poder dizer-lhe que Kate acordara. Antes de isso acontecer, Kate olhou de novo para ele e fez um esforço enorm e para falar. Não parecia adm irada por vê-lo ali.
— O que aconteceu... — A voz dela era tão tênue que Joe m al conseguia ouvi-la, por isso inclinara-se e aproxim ara o ouvido da boca dela.
— Você teve um acidente — m urm urou ele, sem saber por que não falara em voz alta. Não queria assustá-la falando m uito alto
— O Reed está bem ? — Kate lem brava-se de estar no carro com ele, m as não do que acontecera na volta.
— Está ótim o. — Joe rezou para que ela não fizesse ainda perguntas sobre o bebê. Não queria que ela soubesse que ele m orrera, nem que eram gêm eos. — Acalm e-se, querida. Estou aqui com você. Você vai ficar boa. — Rezava para que fosse assim .
Ela franziu o cenho com o se tentasse com preender o que ele dissera.
— Porque você está aqui?... Estava viaj ando...
— Mas j á não estou. Estou aqui. Voltei.
— Por quê? — Kate não fazia idéia da gravidade dos seus ferim entos, e ainda bem . E então, instintivam ente, a m ão dela m oveu-se na direção da barriga, e Joe tentou detê-la, m as em vão. Os olhos de Kate arregalaram -se e ela olhou para Joe; antes que ele pudesse falar, as lágrim as correram -lhe pelo rosto.
— Kate, não. — Não foi capaz de dizer m ais nada e encostou a m ão dela à sua boca, beij ando-a. — Por favor, querida.
— Onde está o nosso bebê? — perguntou ela a custo, em itindo depois um som anim al, com o um uivo de dor, e agarrando-se a Joe. Este tom ou-a nos braços com cuidado, para não lhe m achucar a cabeça. Kate soubera instintivam ente o que acontecera e ele nada podia fazer para confortá-la. Sentia-se feliz por ela estar viva.
A enferm eira retornou com o m édico e ficaram satisfeitos por ela ter recobrado os sentidos, m as o m édico disse a Joe que o perigo ainda não passara. Kate tivera um a concussão grave e estivera em com a cinco dias. Tinha um a fratura séria na perna e perdera m uito sangue quando abortara os filhos. A convalescença deveria levar alguns m eses. Havia a possibilidade de ela poder não vir a ter m ais filhos. Os danos provocados pelo acidente haviam sido consideráveis. Mas Joe achava que isso era o de m enos; estava m uito m ais preocupado com ela. Não queria ter m ais filhos, especialm ente se a gravidez pusesse Kate em risco.
Ela ficou tão perturbada ao perceber que abortara que tiveram de lhe dar um sedativo e Joe aproveitou para ir a Nova Iorque. Queria passar pelo escritório e ir em casa buscar roupa para os dois. Retornou a Greenwich às cinco da tarde. Os pais dela estavam de saída e Elizabeth Jam ison recusou-se a falar com ele. Havia lágrim as nos olhos de Clarke quando se virou para Joe.
— Devia ter estado aqui, Joe — lim itou-se a dizer, partindo em seguida.
Joe ficou calado. As palavras de Clarke tinham -no ferido com o um punhal. Com preendia o que eles estavam sentindo, em bora lhe parecesse pouco razoável. Fora um m ero acaso ela ter tido um acidente e perdido os filhos. Afinal de contas ele tinha o direito de fazer viagens de negócios, em bora talvez não o de desaparecer num barco durante três dias com a m ulher grávida em casa. Mas j ulgara que ela estava bem . E a sua presença nada teria alterado, a não ser o fato de não a ter deixado dirigir até Connecticut. No entanto, não podia protegê-la vinte e quatro horas por dia. O condutor que batera no carro dela estava bêbado, com o havia com provado a autópsia. Podia ter acontecido em outro lugar, em qualquer época, e até se fosse ele a dirigir. Joe achava que estava servindo de bode expiatório por ter estado ausente. Mas nada daquilo fora por sua culpa. Ele era m arido de Kate, não era Deus.
No final da sem ana Joe conseguira que Kate fosse transferida para um hospital em Nova Iorque. Era m ais fácil visitá-la ali e ele achou que a visita das am igas poderia anim á-la, m as Kate estava tão deprim ida que se recusou a ver a todos. Disse-lhe que queria m orrer.
Ele passou o fim de sem ana no hospital com ela e falaram com Reed pelo telefone, m as depois ela só quis chorar. Estava m uito m al. Joe ficou aliviado quando partiu para Los Angeles na sem ana seguinte, por três dias, em bora não o tivesse adm itido a ninguém . Sentia-se incapaz de aj udar Kate. Ligou-lhe várias vezes por dia.
Ela teve alta no final de abril. Ainda tinha gesso na perna e andava com a aj uda de m uletas, m as a cabeça j á estava boa. Só tinha dores de vez em quando. O gesso foi tirado no início de m aio. Kate voltara a parecer a m esm a e perdera bastante peso. Mas a m ulher para quem Joe voltava à noite não era a m esm a com quem ele casara. Parecia que a luz que ele sem pre vira brilhar nela se extinguira. Estava cansada e deprim ida durante a m aior parte do tem po e recusava-se a sair de casa. Passava os dias chorando. Joe não sabia o que fazer, ela m al falava com ele, aliás, raram ente abria a boca, não se interessava por nada do que ele dizia. Vê-la naquele estado estava deixando-o louco.
Em j unho, as crianças foram passar quatro sem anas na casa de Andy e Julie e ao saber que ela estava novam ente grávida Kate ficou ainda pior. Já tinham lhe confirm ado que abortara gêm eos no acidente e passava o tem po lam entando os filhos perdidos.
— Talvez sej a m elhor assim , som os velhos para ter m ais filhos — disse Joe tim idam ente, sem saber o que dizer. Mas as suas palavras só serviram para irritar Kate ainda m ais. — Vam os ter m ais tem po um para o outro, e você pode viaj ar m ais com igo. — Mas ela não queria ir a parte nenhum a com ele. Joe ofereceu-se para a levar à Europa ou à costa oeste, m as ela quis ficar em casa.
Durante dois m eses Joe tentou tudo o que sabia para a anim ar, e em seguida fez o que m elhor fazia. Fugiu. Era m uito difícil estar com ela. Estava constantem ente irritada e deprim ida. Parecia que o culpava, tal com o todos, por não ter estado presente, pelo acidente, pelos filhos m ortos. Joe não conseguia aguentar m ais. O velho dem ônio da culpa roía-lhe de novo os calcanhares. Fez todas as viagens que pôde, e bem que precisava, pois estivera em casa com ela durante bastante tem po e o seu im pério com eçava a dar sinais de tensão. Quando Joe voltou à estrada tinha os nervos em frangalhos. E de cada vez que telefonava para casa discutia com Kate. Parecia um pesadelo sem fim . Ele não queria que as coisas fossem assim , m as j á não sabia o que fazer nem com o encontrar Kate. Ela perdera-se em algum lugar e a m ulher em que se transform ara afastava-o.
Joe viaj ou constantem ente durante três m eses e no final do verão pareciam dois estranhos a cada vez que ele ia para casa. Ela foi para Cape Cod com os pais e os filhos e desta vez Joe não os acom panhou. Ficou em Los Angeles. Tinha certeza de que Elizabeth iria tecer inúm eros com entários, m as j á não se incom odava. Há anos que ela o detestava e Joe era de opinião que não tinha de lhe provar nada, nem a Kate. Voltara para casa, estivera presente, fizera tudo o que pudera e ainda assim continuava não sendo o suficiente!
Em setem bro esteve em casa por duas sem anas e esperava que nessa época ela se encontrasse m ais anim ada, m as quando lhe disse que tinha de ir ao Japão, Kate teve um chilique.
— Outra vez? Quando é que vai parar em casa? — Com eçara a transform ar-se num a m egera. Joe lam entou ter ido para casa.
— Estarei quando você precisar de m im , Kate. Fiquei em casa durante o m áxim o de tem po possível. Tenho de gerir um a em presa. Tenho m uito gosto em que você vá com igo se quiser. — A sua voz soava fria e retraída.
— Não quero. — Ela sentia-se inquieta, infeliz e discutia por tudo e por nada, o que só piorava as coisas entre am bos. — Quando é que volta para casa? — perguntou e pela prim eira vez na vida Joe im aginou-se odiando-a. Não queria, m as ela não lhe dava alternativa. A Kate de antigam ente parecia ter desaparecido. Ele sabia que ela ficara perturbada por causa dos gêm eos, m as com aquele com portam ento dava cabo dele e com eçava ela própria a parecer um a m orta-viva. O pior de tudo era que Kate desej ava Joe desesperadam ente, precisava dele para se anim ar, m as estava tão perdida na sua autocom iseração que não sabia com o cativá-lo. De cada vez que tentava, o desespero e a ira interpunham -se e afastavam Joe. Eram incapazes de se encontrar e a única coisa que ela queria era estar com ele. Nunca deixara de o am ar; a pessoa que detestava era ela própria. Reviu m entalm ente os acontecim entos m ilhares de vezes (conduzir o carro, perder os gêm eos) perguntando a si m esm a por que m otivo se oferecera para levar Reed a Greenwich nessa noite. Se não o tivesse feito, os gêm eos j á teriam nascido. Agora nunca m ais teria filhos de Joe. Ele m ostrara-se bastante firm e quando lhe dissera que não queria voltar a tentar. Ela detestava-o tam bém por isso, e quando foi incapaz de encontrar palavras para expressar a sua dor, virou a sua ira contra ele. A única coisa que Joe sabia era que perdera a m ulher. Eram desconhecidos e inim igos vivendo sob o m esm o teto. E ele raram ente estava em casa.
Em outubro passou apenas quatro dias em Nova Iorque E quanto m ais tem po lá estava, pior Kate ficava. As ausências dele faziam -na sentir-se abandonada, desesperada e traída e isso só alim entava a sua fúria. A m ãe a acicatá-la tam bém não aj udava. Liz dizia que Joe estava usando Kate, que queria apenas exibi-la. Kate com eçara a pensar que ele j á não a am ava e em vez de lhe dem onstrar o seu am or para o trazer de volta, batia-lhe com a porta na cara. Passado algum tem po, ele deixou de tentar aproxim ar-se. Não faziam am or desde o acidente, há quase seis m eses e Joe estava farto.
— Kate, assim acaba com igo — tentou ele explicar o m ais calm am ente possível. Fora passar o fim de sem ana em casa e ela pressentia que ele passava o tem po fugindo. Era incapaz de suportar a ira, as acusações e a culpa. — Não posso voltar para casa e m e deparar sem pre com isto. Você tem de superar o que aconteceu. Sei que é doloroso para você e que foi horrível ter perdido os gêm eos, m as não quero perder aquilo que tivem os. — Há m eses que não via a m ulher que am ava. Ela tornara-se um fantasm a irado. — Você tem dois filhos extraordinários, porque não se contenta com eles? Porque não vem com igo para Los Angeles? Não sai de casa há m eses. — Tentava fazer de tudo para anim á-la
— Não quero ir a lugar nenhum — ripostou ela, e desta vez ele deu-lhe troco. — Tentara m ostrar-se paciente, m as isso só servira para o m agoar.
— Não quer, pois não, Kate? Só quer ficar aqui sentada cheia de pena de você m esm a. Bem , por am or de Deus, Kate, vê se cresce. Não posso passar o tem po todo aqui pegando na sua m ão. Não posso trazer aqueles bebês de volta e, quem sabe, talvez tenha sido pelo m elhor, talvez o destino não quisesse que tivéssem os m ais filhos. A decisão não foi nossa, foi de Deus.
— E era isso m esm o que você queria, não era? Que eu fizesse um aborto para não ter de passar em casa m ais do que dez m inutos por m ês. Não m e diga o quanto fez por m im , nem que tenho m uita sorte, nem que foi Deus que quis que os m eus bebês m orressem ... não m e diga nada, Joe, porque nunca está aqui. Você levou cinco dias para voltar para casa quando todos j ulgavam que eu ia m orrer. Quem te dá o direito de m e dizer para crescer? Você está fora pilotando os seus m alditos aviões e divertindo-se pelo m undo enquanto eu fico aqui sentada com os m eus filhos. Talvez sej a você que precisa de crescer!
Joe não respondeu. Saiu de casa batendo com a porta e foi dorm ir ao Plaza. Ela passou a noite chorando. Dissera tudo o que não quisera dizer, m as sentia-se infeliz, m agoada e sozinha. E só conseguira afastá-lo ainda m ais. Desej ava-o m ais do que nunca, queria que ele solucionasse todos os seus problem as e enfurecia-se por ele não ser capaz. Joe não podia trazer os gêm eos de volta, não podia ficar em casa com ela, não podia fazer recuar o tem po. Kate estava certa de que com aquele com portam ento afastava Joe cada vez m ais, m as não sabia por que m otivo agia daquela form a. Não podia desabafar com ninguém . Parecia que seis m eses antes caíra num buraco negro e era incapaz de sair dele. Ninguém podia salvá-la. Sabia que tinha de salvar-se sozinha, m as não fazia idéia de com o.
Ele retornou para casa no dia seguinte, m as apenas o tem po suficiente para fazer a m ala, e partiu para Los Angeles. Kate ficou em pânico. Joe m ostrou-se m uito distante e calm o.
— Eu telefono-te, Kate — disse. Não sabia o que m ais lhe dizer. Julgava que ela o odiava. E Kate não sabia com o dizer-lhe que odiava a si própria. Apesar de todos os seus ataques a Joe, ele continuava sendo o am or da sua vida, m as teria sido difícil convencê-lo disso. Kate dissera-lhe coisas tão terríveis e tratara-o com tanto ódio que pela prim eira vez ele se interrogava se algum dia conseguiriam ser capazes de voltar a encontrar-se. A culpa que ela o fazia sentir levava-o a fugir. Joe nunca estivera tão sozinho nem tão infeliz.
Ficou um m ês em Los Angeles e dirigiu a em presa a partir de lá. Até obrigou Hazel a ir para lá só para não ser obrigado a retornar a Nova Iorque. O Dia de Ação de Graças estava próxim o quando ele finalm ente voltou para casa. Abriu a porta devagar e ficou adm irado quando Reed se atirou nos seus braços.
— Joe! Você voltou!
Joe tam bém estava feliz por ver o rapaz. Naquela época, as crianças eram quase o único m otivo por que voltava.
— Tive saudades suas, valente — disse Joe com um sorriso. Tam bém tivera saudades de Kate, m ais até do que esperara. — Onde está a m am ã?
— Saiu. Foi ao cinem a com um as am igas. Costum a ir m uitas vezes.
Reed tinha cinco anos e achava Joe o m áxim o. Detestava quando ele partia e a m ãe passava o tem po chorando. Ela chorara durante bastante tem po. Stevie tinha três anos e estava dorm indo naquele m om ento.
Quando Kate retornou do cinem a ficou adm irada por ver Joe. Parecia m ais calm a do que quando ele fora em bora, e Joe tom ou-a nos braços com um certo receio. Nunca sabia quando ela iria atacá-lo. Já m al se falavam ao telefone quando ele viaj ava.
— Tive saudades suas disse ele.
— Eu tam bém — respondeu Kate, abraçando-o e com eçando a chorar. Parecia estar m elhor, com o se tivesse sido finalm ente capaz de retornar do local horrível onde estivera.
— Tam bém tive saudades suas antes de partir... — Ela percebeu onde ele queria chegar.
— Não sei o que m e deu... Devo ter batido com a cabeça com m ais força do que j ulguei. — Passara m om entos terríveis. O acidente, o aborto, tudo parecia m uito. E a m ãe estava constantem ente espicaçando-a. Joe desej ava que Kate deixasse de falar com ela, m as sabia que nunca poderia lhe pedir um a coisa dessas.
Ela estava bem m elhor desta vez e com eçaram finalm ente a descontrair-se. Concordaram em ficar em casa no feriado e não ir passar o Dia de Ação de Graças na casa dos pais dela. Joe achava que não conseguiria suportar a presença dos sogros, m as claro que não fez com entários. Lim itou-se a dizer que seria bom para am bos ficarem em casa e ela concordou, o que o deixou im ensam ente aliviado. Por azar, três dias antes do Dia de Ação de Graças ele recebeu um telegram a do Japão. A situação era grave e a sua presença era necessária. Joe não tinha a m ínim a vontade de ir, m as para garantir o futuro da relação com ercial, tinha de o fazer. Não sabia com o dar a notícia a Kate.
Quando lhe contou, ela ficou chocada.
— Você não pode dizer-lhes que estam os em um feriado? Isto é im portante, Joe — disse ela à beira das lágrim as. Tentavam não discutir, pois as coisas tinham m elhorado.
— A m inha em presa tam bém é im portante, Kate — disse ele com m uita calm a.
— Preciso que você estej a em casa este ano, Joe. Isto é difícil para m im . — Ainda não superara o traum a, em bora j á estivesse m elhor. — Não m e deixe sozinha. — Era a súplica de um a criança angustiada, de um a criança cuj o pai se suicidara, de um a m ulher que perdera recentem ente não um , m as dois filhos que tanto desej ara. Joe sabia que não podia alterar nada e esperava que Kate se com portasse com o um a adulta.
— Você quer vir com igo? — Não lhe ocorreu perguntar m ais nada.
Ela abanou a cabeça.
— Não posso deixar as crianças num a época destas, Joe. O que iriam pensar?
— Que você precisou fazer um a viagem com igo. Manda-os para casa dos Scott.
Kate não queria fazer isso. Queria passar o Dia de Ação de Graças em casa com eles e com Joe. Tentou dissuadi-lo de partir, m as ele explicou-lhe que por m uito que quisesse ficar, não podia.
— Volto daqui a um a sem ana. Custe o que custar. — No entanto, isso não agradava a Kate. Sentia que ele estava pondo o trabalho de novo em prim eiro lugar, e a ela em últim o. Ali sentada na cam a chorando, Kate parecia um a criança. — Kate, não m e faça isto. Eu não quero ir-m e em bora. Já te disse, não tenho alternativa. Não é j usto você fazer com que eu m e sinta culpado por causa disto. Vej a que isso não é bom para nós.
Kate assentiu e assoou-se e Joe beij ou-a antes de partir. Ela queria com preender, m as continuava sentindo-se abandonada. Joe convidara-a para ir com ele, ansiava pela sua com panhia, m as ela recusara. Pegou então os filhos e foi para Boston.
Joe acabou ficando ausente por duas sem anas. Nem parou na Califórnia no cam inho de volta. Mas quando chegou a Nova Iorque, Kate tratou-o com um a grande frieza. A m ãe trabalhara-a bem durante as duas sem anas que ele estivera fora. Parecia estar decidida a convencer Kate de que ele era m au para ela e que estava se lixando. Nunca lhe perdoara por ter levado cinco dias a retornar quando Kate tivera o acidente e perdera os gêm eos. E detestava-o j á antes disso. Nunca aprovara o seu relacionam ento com a filha, prim eiro porque ele não casara com ela, e depois porque fora por causa dele que ela desfizera o casam ento com Andy Scott, que Liz adorava. Parecia determ inada a destruir aquilo que Joe e Kate tinham . E estava fazendo um bom trabalho. Em apenas duas sem anas, virara novam ente Kate contra ele e, na noite em que ele chegou em casa, ela m al lhe dirigiu a palavra.
Joe não lhe pediu desculpa, não voltou a dar explicações, não se defendeu por ter estado ausente. Fartara-se de fazer isso, há m eses que não fazia outra coisa. Brincou com as crianças nessa noite e leu-lhes um a história quando foram deitar. Queria dar a Kate tem po para se acalm ar e adaptar. Sabia que as suas viagens eram difíceis para ele e que por vezes ela levava algum tem po a tornar a tratá-lo com m eiguice, especialm ente se a m ãe tinha lhe enchido os ouvidos.
Falou-lhe do Japão quando foi deitar se e agiu com o se nada se tivesse passado. Às vezes não reagir era bom . Não era fácil ser paciente com todo aquele cansaço a seguir a um a viagem , m as ele tentava. Não queria que as coisas voltassem a ser o que haviam sido durante os seis m eses a seguir ao acidente. O am biente havia m elhorado, e ele pretendia contribuir para isso, m as entendia que perdera terreno durante a viagem . Aquele feriado era m uito im portante para Kate e para a fam ília e a sua ausência significava m uito. Para Joe significava apenas um a viagem de negócios num m om ento pouco propício. Para ela, era um a estalada, ou pior, significava que ele não a am ava tanto quanto ela j ulgara, ou que talvez nem a am asse totalm ente. A m ãe tentara convencê-la disso.
Durante os dias seguintes o am biente foi m elhorando e ele ficou m ais de duas sem anas em casa. Foram com prar um pinheiro com Stevie e Reed e decoraram -no e pela prim eira vez ao fim de m uito tem po, Joe viu Kate voltar a rir com o antigam ente. A sua cham a voltara a acender-se. Fora um ano difícil para am bos, particularm ente para ela, m as saíra finalm ente das trevas e ele via-a anim ar-se de dia para dia. Joe alegrava-se com isso. Já não era sem tem po; tam bém não fora um período fácil para ele.
Três dias antes do Natal, Joe recebeu um telefonem a inform ando-o de que teria de ir a Los Angeles. Isso não o preocupou. Não pretendia dem orar-se m uito, apenas ter um dia de reuniões, e em seguida voltaria para casa. Prom eteu retornar na véspera de Natal e desta vez nem Kate se aborreceu. Los Angeles não ficava longe. Mostrou-se descontraída e alegre quando ele partiu, e Joe não se sentiu culpado por ir de viagem . Até fizeram am or na m anhã antes de ele sair.
Tudo correu bem em Los Angeles, m as m enos bem depois em Nova Iorque. Nevava desde que ele foi em bora e na m anhã do dia 24 de dezem bro Nova Iorque foi atingida por um a das piores tem pestades da história. Joe tinha certeza de que conseguiria aterrissar e com sorte esperava chegar em casa a tem po. Mas então fecharam Idlewild e cancelaram o voo dele poucos m inutos antes da partida. O avião retornou para o hangar. Joe nada podia fazer. Estava retido.
Retornou para casa e telefonou a Kate. Ela m ostrou-se com preensiva. Em Nova Iorque nada se m ovia. Em pouco tem po haviam caído sessenta centím etros de neve no Central Park.
— Não faz m al, querido, eu com preendo — disse ela, para alívio de Joe. — Kate não queria que ele arriscasse a vida para voltar para casa. Se tentasse fazer a viagem seria obrigado a aterrissar em Chicago ou Minneapolis e depois pegar um trem . Não fazia sentido. Ela prom eteu explicar às crianças o que acontecera.
Acabaram por passar um Natal divertido, m as quando Kate pensou bem , percebeu que em três anos de casam ento Joe faltara a três Natais. E quando telefonou aos pais no dia de Natal e lhes disse que Joe ficara retido em Los Angeles, a m ãe respondeu “Claro.” Isso em nada aj udava Kate. Tentava sem pre arrum ar desculpas para Joe, explicar por que m otivo ele não podia estar presente nas épocas que eram im portantes para todas as pessoas, e particularm ente para ela. Às vezes perguntava-se se ele evitaria propositadam ente esses dias festivos porque haviam sido m uito deprim entes na infância. Mas fosse qual fosse a razão, ela sentia-se sem pre m agoada quando ele não vinha para casa nessas ocasiões, apesar das suas boas intenções ou dos seus esforços. O único que parecia nunca se im portar era Reed. Para ele, Joe nunca fazia nada errado. Nem para Kate, a m aior parte do tem po. Mas isso não a im pedia de se sentir desapontada.
Já que estava retido em Los Angeles, Joe decidiu aproveitar para trabalhar. Retornou a Nova Iorque na véspera do fim de ano. Tinham com binado ir j antar com am igos, m as quando Kate viu o quanto ele estava cansado, cancelaram o j antar e foram para a cam a. Não parecia j usto obrigá-lo a vestir um sm oking e a sair de casa. Viviam em função das viagens de Joe e da sua incapacidade de cum prir o prom etido. Ele andava sem pre de um lado para o outro. Ela não se queixava, m as a tensão fazia-se sentir.
Com em oraram o aniversário de casam ento, e tudo recom eçou. Ele esteve fora a m aior parte de j aneiro, m etade de fevereiro, todo o m ês de m arço, três sem anas em abril e quatro em m aio. Kate queixou-se várias vezes e em j unho, quando se sentaram para fazer um balanço, concluíram que tinham estado j untos três sem anas em seis m eses. Kate com eçava a pensar que Joe fazia aquilo para fugir dela. Parecia inconcebível alguém ausentar-se tanto com o ele, e disse-o. Joe ouviu as suas críticas e sentiu a j á fam iliar culpa. Kate com eçava a parecer-se um a m ãe que ele desiludira. Parecia ser im possível dirigir a em presa e satisfazer as necessidades de Kate. Ela recusava-se a perceber que era apenas a natureza do seu trabalho e que ele adorava o que fazia. Estivera em Tóquio, Hong Kong, Madrid, Paris, Londres, Rom a, Milão, Los Angeles. Mesm o que Kate tivesse ido com Joe, ele nunca ficava num a cidade m ais do que dois ou três dias. Nesse ano Kate fez algum as viagens com ele, m as ficava sem pre sozinha no hotel à espera. Fazia m ais sentido ficar em casa com os filhos.
Tentou falar com Joe, m as ele estava farto daquela conversa e de se sentir culpado, e ela fartara-se de estar sozinha. Am ava-o com o antes, m as os últim os anos haviam deixado as suas m arcas. O acidente do ano anterior afastara-os, e apesar de terem feito as pazes, a velha cham a extinguira-se. Kate tinha trinta e três anos e vivia com um hom em que nunca via. Ele tinha quarenta e cinco e estava no auge da sua carreira. Kate sabia que tinha pela frente m ais vinte anos daquela vida e que as coisas iriam piorar m uito antes de voltarem a m elhorar. Joe abrira novos horizontes à aviação, acum ulara m ais rotas, desenhara aviões ainda m ais extraordinários e parecia ter cada vez m enos tem po para ela. Kate j á não se queixava, m as três sem anas em seis m eses era pouco tem po para estarem j untos. Por m uito boas que fossem as razões dele, e eram -no a m aior parte das vezes, ele estava sem pre ausente.
— Quero estar com você, Joe — disse ela com tristeza quando ele veio para casa por poucos dias em j unho.
Era um refrão m uito fam iliar. Kate queria encontrar um m eio term o que lhes perm itisse estarem j untos m ais tem po, m as Joe andava m uito ocupado com os seus problem as para discutir o assunto com ela. Cada vez se em brenhava m ais no trabalho. No dia seguinte partiu para Londres. Não lhe dissera que viaj aria ainda m ais durante o resto do ano. Pareciam ter gasto as energias para lutar.
Aquilo não era um a questão de luta, m as de aceitarem o que tinham e apesar do que sentiam um pelo outro há dezesseis anos, nunca tinham tem po para desfrutar um do outro nem para construir nada. Há m uito que ele desistira de tentar convence-la a acom panhá-lo nas viagens. As crianças eram pequenas e precisavam dela. Reed tinha seis anos e Stephanie quase quatro, e Joe sabia que durante os quinze anos seguintes seria m uito penoso para ela deixá-los Tanto quanto podia prever, nos próxim os quinze ou vinte anos surgiriam m il coisas para os afastar. As suas vidas seguiam rum os diferentes, e por m uito que ela tentasse lutar contra isso, ou por m uito que ele a am asse, estavam tão distantes a m aior parte do tem po que m al se viam
Ela foi à Califórnia em j ulho e levou os filhos. Visitaram a Disney lândia e Joe levou-os para passear num avião fabuloso que acabara de ser construído. Mas no m eio da estada Joe teve de partir para Hong Kong num a em ergência. De lá foi direto para Londres, e Kate levou os filhos para Cape Cod. Joe não os visitou durante o verão. Era incapaz de suportar a m ãe dela. E retornaram a Boston m ais cedo, porque Clarke adoeceu.
Joe continuou viaj ando e só em m eados de setem bro voltou para casa, durante três sem anas. Quando Kate o viu, soube que algo m udara. A princípio j ulgou que era outra m ulher, m as ao fim da prim eira sem ana percebeu que era algo m uito pior. Joe j á não aguentava m ais. Não podia ter a carreira que tinha e preocupar-se com Kate. No fim , decidira fugir. O preço que tinha de pagar por am á-la era m uito elevado.
Fora arrebatado pela carreira e os seus aviões haviam conquistado a indústria em todo o m undo. A com panhia de aviação que ele fundara havia onze anos era a m aior e a m ais bem sucedida do gênero. Joe criara um m onstro que os tinha devorado. Sabia que naquele m om ento podia escolher entre o m undo que criara para si e Kate. E quando ela soube isso e o olhou nos olhos sentiu um arrepio. O pior era que tinha certeza de que se am avam com o antes, m as ele afastara-se tanto que era im possível voltarem a encontrar-se. Se Joe a quisesse teria de arrum ar um j eito de a levar até ele. Concluíra m eses antes que isso era im possível. Sentia rem orsos por deixá-la sem pre sozinha, por vê-la poucas vezes, por ter de dar explicações, de pedir desculpa, de nunca estar presente para as crianças. Fora por isso que nunca quisera ter filhos e tinha de confessar que ficara aliviado por ela ter perdido os gêm eos. Descobrira que não podia ter tudo e que não podia dar a Kate o que ela precisava e o que ela m erecia
Pensara nisso durante todo o verão e quando a viu em Nova Iorque, confirm ou as suas suspeitas e ficou com o coração destroçado. A resposta dem orara m uito tem po a surgir porque as perguntas eram m uito difíceis. Se ela lhe perguntasse se ele ainda a am ava, ele teria respondido que sim . Liz Jam ison sem pre tivera razão; e Joe tam bém . O prim eiro am or dele eram os aviões e aquilo que ele desej ava de Kate e o que queria partilhar com ela fora um sonho im possível.
Levou alguns dias para dizer-lhe. Na véspera de partir para Londres, a fim de adquirir um a pequena com panhia aérea, Joe viu Kate deitada ao seu lado na cam a e soube que nunca m ais voltaria para ela. Preferia tê-la m atado a dizer-lhe aquelas coisas, m as porque a am ava sabia que tinha de libertar-se e libertar a ela.
— Kate.
Ela virou-se para ele ao ouvir o seu nom e e pareceu adivinhar o que ele tinha para dizer. Há três sem anas que via no olhar dele algo terrível e fizera um enorm e esforço para não o provocar. Tentara passar despercebida e não o irritar. Há m eses que não discutiam . No entanto, aquilo nada tinha a ver com discussões nem com am or. Tinha a ver com ele. Joe queria m ais da vida do que aquilo que estava disposto a partilhar com ela. Não lhe restava m ais nada para dar. Nos dezesseis anos que a am ara, dera tudo o que tinha, ou o que pudera. Queria para si o que sobrara. E j á perdera a vontade de pedir desculpas, de se explicar ou de ter de a consolar. Sabia o quanto ela se sentia abandonada quando ele partia, m as j á não se im portava. Satisfazer as necessidades dela e as suas era um a tarefa árdua.
Kate olhava-o sem dizer um a palavra. Parecia um a corça prestes a ser abatida.
Ele respirou fundo e atirou-se. Não servia de nada adiar aquele m om ento, só pioraria tudo. Iria haver m ais Dias de Ação de Graças, Natais, aniversários de casam ento e outros dias festivos que ele desconhecia e não queria conhecer, e os Verões em Cape Cod. Estava casado com ela há três anos e m eio e isso era tudo o que queria dela e o que tinha para dar. Estivera certo desde o início em não querer casar nem ter filhos, nem sequer os dela, por m uito que os am asse naquele m om ento. Mas sentia que não os am ava o suficiente para ficar com eles. Tudo o que queria da vida eram os seus aviões. Era m ais fácil e m ais seguro. Nunca se sentiria m agoado apenas com os seus aviões. Os seus receios eram m aiores do que a necessidade que tinha de Kate.
— Vou deixar-te, Kate — disse ele tão baixo que ela m al ouviu. Lim itou-se a olhar para ele, j ulgando ter entendido m al. Há alguns dias que pressentia que estava para acontecer qualquer coisa, m as pensara que era um a viagem dem orada de que ele receasse falar-lhe. Nunca j ulgara que fosse aquilo.
— O que é que você disse? — Sentiu-se enlouquecer durante um m inuto, com o se o m undo rodopiasse sem controle. Ele não podia ter dito aquilo que ela j ulgava ter ouvido. Mas dissera.
— Disse que vou te deixar — repetiu Joe, incapaz de olhar para ela. — Não aguento m ais, Kate. — Voltou a fitá-la e sentiu um aperto no coração ao ver a sua expressão. Era a m esm a expressão que vira no hospital em Connecticut quando ela descobrira que os bebês tinham m orrido. Provavelm ente era tam bém a expressão que tivera em criança quando o pai se suicidara. Um a expressão de dor infinita e de solidão. Sentiu um a enorm e culpa por estar lhe fazendo aquilo, m as essa culpa, em vez de o aproxim ar dela, afastou-o ainda m ais.
— Por quê? — Kate foi incapaz de dizer m ais. Parecia que o seu coração fora atravessado por um bisturi, que Joe lhe arrancara e o atirara no chão. Tinha dificuldade em respirar. — Porque você está m e dizendo isso? Há outra pessoa? — Ainda antes de ouvir a resposta soube que era algo m ais profundo que isso. Algo que ele não queria e nunca quisera ter. Joe possuía tudo o que desej ava, tal com o ela quando casara com ele. E apenas um deles iria guardar a dádiva que a vida lhes dera. A dádiva que ela lhe dera do fundo do coração era um a dádiva que ele j á não queria receber. Era tão sim ples com o isso. Para ele.
— Não há m ais ninguém , Kate. Nem nós. Você tinha razão, eu estou sem pre ausente. E a verdade é que não posso estar aqui nem você pode estar com igo. — A verdade era que ele queria a vida para si próprio, queria trabalho e não am or. O preço que tinha de pagar pelo am or era m uito elevado. Tinha de perm itir-se sentir, e não queria sentir nada.
— É só isso? Se eu pudesse estar com você iria querer continuar casado com igo? — Já com eçara a pensar em deixar os filhos na casa de Andy pelo m esm o período de tem po em que estavam em sua casa. Mesm o que isso significasse prescindir do tem po que tinha com eles, estava disposta a tentar para não perder Joe. Mas ele abanou a cabeça. Tinha de ser sincero com ela. Nada m ais lhe restava. Trocara a sinceridade pelo am or.
— O problem a não é esse, Kate. Sou eu e o que quero ser quando crescer. A sua m ãe tinha razão, e creio que eu tam bém tinha. Os aviões vêm em prim eiro lugar. Talvez sej a por isso que ela sem pre m e detestou tanto, ou não confiou em m im , porque sabia que eu sou assim . Tenho m e escondido de nós, especialm ente de m im m esm o. Não sou capaz de ser a pessoa de que você precisa e você ainda é suficientem ente nova para encontrar outro hom em . Não sou capaz de continuar fazendo isto.
— Você está falando sério? Assim sem m ais nem m enos? Você quer que eu vá à procura de outra pessoa? Am o-te, Joe. Am o-te desde os m eus dezessete anos. Não posso fugir disso — declarou com eçando a chorar. Ele não a abraçou; achou que isso só iria dificultar as coisas.
— Às vezes afastam o-nos, Kate. Às vezes tem os de olhar bem para aquilo que som os, para aquilo que querem os e não querem os ter. Não possuo o necessário para continuar casado com você, nem com outra pessoa e estou cansado de sentir rem orsos por causa disso. — Estava certo de que nunca m ais voltaria a casar. Com etera um grande erro ao desposar Kate. Ela era m uito m eiga e generosa, m as exigia m uito dele. Joe queria apenas construir e pilotar os seus aviões. Quando o dizia em voz alta parecia um a birra de criança e um enorm e egoísm o, m as era o suficiente para ele.
— Não m e im porta que você fique m uito tem po fora — argum entou ela. — Posso m anter-m e ocupada com as crianças. Joe, não pode destruir a nossa vida. Am o-te, as crianças am am -te... não quero saber que nos vej am os pouco, prefiro estar casada com você do que com outra pessoa.
Joe não podia dizer o m esm o. Queria a sua liberdade m ais do que qualquer outra coisa. Liberdade para continuar a construir o seu im pério e desenhar aviões extraordinários, liberdade para não am ar Kate. Dera-lhe tudo aquilo que tinha. Nesse verão percebera que durante o últim o ano ficara fingindo. Não queria fazer-lhe isso, nem fazê-lo a si m esm o. Não lhe restava m ais nada. Movia-se apenas com os vapores do com bustível. Detestava telefonar-lhe, detestava estar ali, detestava voltar para casa nos feriados, de inventar desculpas quando não podia voltar para coisas que eram im portantes para ela. Dera-lhe quase quatro anos da sua vida, e bastava.
Ela sentou-se na cam a em choque e, quando Joe acabou de falar recom eçou a chorar. Pressentia que quase o perdera, ou que j á o perdera havia alguns anos. Um dia ele escapulira em silêncio e ela não o vira partir. Joe viera buscar o que deixara para trás, e a única coisa que não queria levar era ela. Kate não tinha idéia do que iria fazer durante o resto da vida. Morrer, esperava. Depois de ter casado com ele e de ter visto os seus sonhos tornarem -se realidade, em bora por vezes com algum a dificuldade, não se im aginava vivendo sem ele. Agora teria de tentar. Parecia que alguém viera lhe dizer que Joe m orrera e de certa form a, m orrera. Optara pelo trabalho e pelo êxito, não pelo am or. Em sua opinião, era a opção errada.
— Você pode ficar no apartam ento com as crianças o tem po que quiser. Vou passar o resto do ano na Califórnia. — Perguntara nessa m anhã a Hazel se ela podia m udar-se para Los Angeles até o fim do ano. Ela tinha netos em Nova Iorque, m as parecera-lhe um a proposta divertida. Não fazia idéia de que ele pretendia deixar a m ulher.
Kate olhou-o horrorizada
— Você j á decidiu tudo isso? Quando?
— Provavelm ente há m uito tem po. Acho que neste verão. E quando voltei a Nova Iorque, achei que estava na hora. Não vale a pena adiar isto m ais. Acho que m e afastei há bastante tem po.
O que acontecera? O que ela fizera? Em que teria falhado? Parecia im possível acreditar que não fizera-lhe algum a coisa terrível, m as a verdade é que não fizera, além de ter casado com ele. Era a única coisa que Joe não quisera, em bora tivesse j ulgado querer. Enganara-se. Ela fascinara-o, intrigara-o, excitara-o, m as nada m ais. Fora atraído para ela com o um a traça pela luz, m as preferia o céu em vez do calor dela e tinha de voar para longe.
Kate chorou toda a noite em silêncio. Afagou o cabelo de Joe e observou-o enquanto ele dorm ia. Se Joe fosse outro, ela teria pensado que ele enlouquecera. Mas havia algo m uito frio e m uito calculista no que ele dissera. Era a única m aneira que ele conhecia de se salvar e fê-la recordar a sua separação em New Jersey alguns anos antes. Sem saber o que m ais fazer, Joe fechara-se em ocionalm ente e fugira. Ela fora dispensada, não a queria m ais. Nunca ninguém lhe fizera algo tão cruel, nem o pai, ao suicidar-se. Aos olhos de Kate, os m otivos que Joe apresentara não bastavam para que ele a deixasse, m as bastavam para ele. Expulsá-la do coração, por m uito doloroso que fosse, era a única coisa que ele sabia fazer.
Kate não pregou olho e levantou-se ao nascer do dia, lavou o rosto e voltou a deitar-se. Joe estava encostado a ela, com o habitualm ente, quando acordou, m as não disse nada e levantou-se silenciosam ente.
Quando saiu do apartam ento rum o a Londres despediu-se dela com cuidado. Não queria criar-lhe falsas esperanças. Ia deixá-la para sem pre, e no seu âm ago Kate sabia-o.
— Am o-te, Joe — disse e, por um m om ento, ele viu a garota que outrora conhecera com o seu vestido de noite em cetim azul-pálido, o cabelo verm elho-escuro. Recordou-se dos olhos dela nessa noite e eram os m esm os que ele via agora. Mas ao fitá-los viu um a dor im ensa. Kate parecia não ter m udado naqueles dezessete anos. — Am ar-te-ei sem pre — m urm urou Kate ao perceber que estava vendo-o pela últim a vez. Nunca m ais voltariam a estar j untos assim . Durante a sua estada em Nova Iorque ele não fizera am or com ela. Não quisera iludi-la, nem desej ava fazê-lo agora. Mandava-a de volta para a vida dela, a fim de poder recuperar a sua.
— Boa sorte — disse ele, lançando-lhe um últim o olhar. Era difícil deixá-la e, à sua m aneira, Joe am ava-a o m elhor que podia. Não da m esm a m aneira que ela o am ava, m as paciência. Isso teria bastado a Kate, m as não bastara a ele. Curiosam ente, Joe queria m enos e não m ais. — Eu tinha razão, sabe? — observou enquanto Kate o fitava, tentando gravar na m em ória a sua im agem , o rosto que am ava tanto, os olhos, as m açãs do rosto, a covinha no queixo. Era um sonho im possível. Sem pre foi.
— Não tinha de ser — respondeu ela devorando-o com os seus olhos azuis. Mesm o naquele m om ento, no m eio de tanta dor, ela estava linda. Mais do que ele desej ava. — Ainda podíam os ter isto, Joe. Podíam os ter tudo. — O que ela dizia era verdade, Joe sabia, m as j á não o queria. Disse a si m esm o que tinha o suficiente sem ela.
— Não quero, Kate — disse ele cruelm ente. Queria que ela com preendesse, não podia m agoá-la m ais. Não suportava a culpa e a dor.
Ela viu-o sair em silêncio e fechar a porta.