A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro

Étienne-Léon de Lamothe-Langon · Capítulo 8 de 25

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A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro

Capítulo VII

 

No seguinte dia tornaram a falar os m eninos em voltar ao seu prado favorito; Raul, designado para os acom panhar, obedeceu com violência. Todavia, Alinska não lhes apareceu, o que causou no velho m ilitar um vivo contentam ento, repetindo-se no seguinte dia a m esm a ausência: era neste m esm o, que Raul devia receber notícias do seu coronel; esperava com ânsia a volta do m ensageiro, que contudo não chegava. Já era noite escura, quando ele bateu finalm ente à porta do castelo.

— As cartas!... depressa; as cartas — lhe bradou Raul, — com m il bom bas! j ulgava que tivesses por lá ficado!...

— As cartas! — respondeu o m ensageiro; — estais iludido, sr. Raul: não trago m ais do que um a; ei-la aqui, desej o que sej a aquela que tão ansiosam ente aguardais.

Raul se apoderou dela com a m aior avidez; e aproxim ando-a da lanterna que trazia, exam inou o sobrescrito: era com efeito do coronel; m as dirigia-se a madame Delm ont!!... Um a punhalada não houvera penetrado tanto no fundo do coração do soldado, com o a falta da carta que ansioso esperava; não sabia o que devia fazer!... A negligência do seu coronel em lhe escrever, parecia-lhe incom preensível; dava m il voltas à m issiva, que tinha em suas m ãos; chegando-se até a persuadir, que o coronel se havia enganado com o sobrescrito, e que a carta era efetivam ente para ele: todavia não se atreveu a verificá-lo; m as não pôde deixar de trem er convulsam ente quando a entregou a sua am a.

Madame Delm ont, conhecedora da devoção, que o bom sargento consagrava a seu m arido, tinha por costum e ler-lhe alguns artigos das cartas que recebia, se porventura não continham obj etos de íntim a particularidade: assim o praticou tam bém naquela ocasião, com unicando ao seu ouvinte, que o coronel passava excelentem ente; m as que ainda não podia fixar a época da sua vinda. Os esposos, que diligenciava reunir, continuavam a existir na m esm a discórdia e desinteligência; não era possível reconciliá-los, sem grandes precauções; e Eduardo em pregava toda a sua habilidade para o conseguir. Term inava a sua carta, pedindo a sua esposa, que o recom endasse ao seu bom Raul, de cuj o silêncio se queixava, apesar da prom essa que lhe tinha feito de lhe dar circunstanciados detalhes, de quanto se passasse nos cam pos, cuj a cultura ficara ao seu cuidado.

Esta últim a parte era um golpe m uito sensível, para que o m ilitar se não ressentisse.

— Pelos bigodes de Roldão! — exclam ou ele — Eis aqui um a repreensão, que decerto não m ereço. Sou porventura culpado que m eu coronel não tenha recebido as m inhas cartas? Esses detalhes que ele desej ava, enviei-lhos circunstanciadam ente, no m esm o dia em que madame lhe escreveu, e de cuj a carta acaba de ter resposta. Ah! sr. m ensageiro do inferno, eu vos regalarei o espinhaço com o m ereceis!...

Madame Delm ont, penalizada à vista da cólera, que divisava no rosto de Raul, ia em pregar todos os m eios para o sossegar, quando este, retraindo-se de súbito, assim dizia:

— Oh! com o sou desgraçado! Se a m inha carta se desencam inhou, não foi esse pobre diabo, que teve culpa: não tenho m otivos para desconfiar dele; até lhe recom endei, que m e trouxesse um recibo do em pregado no correio de Tolosa, que provavelm ente é quem se perm ite o arroj o de desvairar as cartas que nos são dirigidas; e esse recibo foi-m e fielm ente apresentado. Vam os vam os; neste negócio há caveira de burro; aqui há m ãozinha diabólica que o enreda a seu bel-prazer!

Helena, que não duvidava a im portância que dava Raul, e com m uita razão, ao descam inho da sua epístola, não quis dar seguim ento a este incidente: satisfeita com as notícias que acabava de receber de seu m arido, não sentia outros pesares além daqueles, que lhe causava a forçada prolongação da ausência do coronel. Ela voltou ao seu quarto, e o ex-m ilitar retirou-se ao seu aposento. A intenção deste últim o era de principiar um a terceira carta, de sair do castelo, antes do despontar da aurora, e de ser ele o próprio m ensageiro que a conduzisse a Tolosa; por isso que no m eio de seu despeito, desconfiava até da probidade dos em pregados do correio.

Determ inado a seguir este partido, único que poderia tranquilizá-lo, abriu o seu arm ário, e o pequeno cofre, para tirar o papel, e m ais obj etos necessários para escrever, quando à claridade de sua lanterna, que frouxam ente o alum iava, pôde descobrir um obj eto, que lhe pareceu reconhecer... era a sua carta, tal com o a tinha escrito; alguns pingos de sangue a m anchavam , e um a m ão trém ula e incerta, tinha traçado, sobre o sobrescrito, as seguintes palavras:

A tua correspondência será sempre infrutuosa: Eduardo não receberá jamais uma só regra da tua mão, que não seja para lhe falar restritamente de seus negócios domésticos.

Raul tinha-se visto m ais de vinte vezes em face de centenares de bocas de fogo, que vom itavam a m orte por diversos m odos; m uitas vezes o sabre de um hussardo inim igo tinha voltej ado sobre sua cabeça; e contudo em nenhum desses recontros tinha ele experim entado um terror, igual àquele que neste m om ento gelava seu coração, e que parecia assassinar todas as suas faculdades! Lançou m aquinalm ente, em torno a si um tím ido relancear de olhos, com o se aguardasse ver surgir diante dele algum fantasm a hediondo, algum espetro infernal! Muitas vezes levou a m ão sobre sua fronte, para enxugar o frio suor que dela gotej ava; m as contudo ele se conservava im óvel, com o se um a m aga fascinação o deslum brasse.

Quanto m ais refletia sobre o que se passava, m ais ele se perdia em fantásticas conj eturas. Pretendia por m om entos duvidar da evidência, j ulgar-se iludido por algum pesadelo horrível; m as a carta estava diante de seus olhos, e em seu poder o recibo do respetivo em pregado do correio, que Raul podia ler e reler m il vezes, se tanto lhe aprouvesse: parecia-lhe portanto que aquele em pregado era o único culpado neste negócio; m as assim m esm o um a nova dificuldade se lhe apresentava. Com o era possível, que a carta voltasse a R *** com tanta brevidade? Quem podia possuir as tríplices chaves do seu quarto, do seu arm ário, e do seu cofre? Qual seria o traidor que se ocultava no m eio da fam ília? Achar-se-ia ele entre os trabalhadores, ou entre as duas criadas de serviço? Raul perdia-se por entre o caos de suas reflexões: por todos os lados não via m ais do que dificuldades invencíveis; e todavia enxergava, através de tudo isto, um a realidade incontestável, que desorganizava todos os cálculos da prudência hum ana. Era então, que o velho soldado, que até ali apenas acreditava na existência da vida eterna (tal era a desgraça da educação que recebera!), se via quase obrigado a reconhecer a existência desses entes, interm ediários entre a criatura e o Criador. Nesses m om entos de fraqueza, am aldiçoava e tem ia ao m esm o tem po o poder dos m ágicos da Hungria, de quem tanto ouvira falar, quando percorreu aquele país. Nem m esm o os terríveis vampiros deixavam , naquela ocasião, de vir cruelm ente torturar seu espírito abatido. Esses duendes que, segundo as narrações de um a nação inteira, abandonam o sepulcro, de onde os finados não devem surgir j am ais, para vaguear sobre a terra; e que no m eio da escuridão da noite vão buscar nas veias dum desgraçado o fundam ento dum a horrível existência, que sem ser um a perfeita vida, não deixa contudo de se desviar do verdadeiro trespasse. Mas, m uitas vezes, desprezava Raul essas ridículas superstições, esses grosseiros erros; abraçava outras conj eturas m ais naturais, m ais plausíveis. Era a intriga, a traição que ele receava, e protestou vigiar com a m aior atenção, a fim de surpreender aquele, ou aquela que provavelm ente auxiliava Alinska, em seus infernais proj etos.

Todavia, antes de principiar este novo género de guerra, pouco em harm onia, com seu caráter franco e sincero, form ou o desígnio de se avistar de novo com o chefe principal das tropas ligeiras que devia com bater. Resolveu-se portanto, que na m anhã do seguinte dia iria procurá-la na sua casa de bosque; e esta ideia apenas lhe deixou algum as horas de repouso, durante o rem anso da noite. Levantou-se, cada vez m ais convencido da necessidade de um a entrevista com a estrangeira; e assim que j ulgou poder ser adm itido na sua presença, tom ou o cam inho da pequena m ansão que ela habitava. Quando chegou, ainda a porta estava fechada: bateu, m as ninguém lhe respondia; bateu segunda vez com m aior força, sem que o silêncio do interior fosse interrom pido! Quanto m ais esperava, m ais a sua paciência se agravava: fez retinir pela terceira vez o m artelo, sem obter m elhor resultado. Que deveria pois fazer? Estaria a casa abandonada, ou então não quereriam de propósito abrir a porta? Seria m ais conveniente continuar o assédio, ou voltar no seguinte dia?

Enquanto hesitava sobre o partido que deveria tom ar, sentiu pouco distante de si um ruído assaz ligeiro; voltou-se prontam ente, achando-se face a face com o decrépito servo de Alinska. Este personagem era de talhe colossal; desde m uito que o seu crânio, inteiram ente desguarnecido de cabelos, se achava exposto às intem péries do ar; um a espantosa placidez se via espalhada sobre seu rosto cadavérico; seus olhos am ortecidos pareciam im óveis, e não rolavam debaixo de suas pálpebras enregeladas; o som da sua voz era ao m esm o tem po rouquenho e prolongado, e um hálito em pestado se exalava de sua boca, na qual apenas se enxergavam cinco ou seis dentes. Um gibão de pano grosso cobria este gigantesco personagem : tudo anunciava nele o cansaço de um a existência dem asiadam ente prolongada, e o desprezo de tudo quanto pode agradar ao com um dos hom ens.

— Olá, nosso am igo! — lhe bradou Raul, assim que o avistou, sem se assustar pelo seu desagradável exterior — Acaso vossa am a j á tom aria o seu voo? Andará j á pairando sobre os cam pos, para desaninhar os im plum es passarinhos?

— E quem vos dá o direito — respondeu o velho dom éstico — de m e dirigir sem elhante questão? Conhecer-nos-em os nós, para m e falardes com tanta fam iliaridade?

O tom severo com que foi dirigida esta réplica, não era decerto m uito lisonj eiro. Raul, apesar da confiança que tinha em si m esm o, ficou por algum tem po em perfeita confusão: contudo, não querendo dar-se por vencido, logo ao rom per das hostilidades, tom ou a seu turno a palavra:

— Vam os, m eu velho com padre, não vos agonieis; venho aqui para falar a vossa am a; j á bati à porta com o se fosse um surdo, e ainda não senti dentro sinal de vida; chegastes m uito a propósito; interroguei-vos; e pareceu-m e não haver em tudo isto coisa algum a que não sej a m uito natural; portanto não tendes que respingar, com o acabais de fazer. Acaso sereis vós com o certos figurões, que acham m ais fácil de despropositar do que de responder razoavelm ente? A vossa querela intem pestiva quase m e dá lugar de o acreditar.

— Se vós m e conhecêsseis, meu amigo — replicou o velho, — veríeis facilm ente que nada pode existir de com um entre nós. Vós seguis ainda o vosso cam inho, e o m eu há m uito tem po que acabou. Isto não é dizer-vos, que sofreria inj úrias ou am eaças; m as espero que não chegarem os a esse extrem o, porquanto a nossa conversação não será dem asiadam ente longa. Que pretendeis a m inha am a, com o lhe cham ais? Eu m e encarrego de lhe transm itir o vosso recado, com tanta fidelidade, com o se propriam ente lho désseis.

— Pois não!... Muito obrigado, meu amigo — respondeu Raul, bastante estim ulado da m aneira um pouco livre com que o tratava um indivíduo, que não j ulgava de um a condição superior à sua, — o negócio que tenho a tratar com Alinska, não pode ter interm ediário. É contudo provável que tenhais algum conhecim ento dele; que m esm o tom ásseis um a viva parte no j ogo de peloticas, que aqui m e conduz; m as não m e apraz, de vos com unicar os m eus desígnios. O que pretendo é falar com a húngara: tendes percebido?

— Sim , percebo; m as nem por isso farei o que pretendeis. A húngara, com o tam bém lhe cham as, nada tem a tratar convosco, portanto tom ai o vosso partido; e com o j ulgo que fostes m ilitar, aconselho-vos de fazer aquilo, a que cham ais m eia-volta à direita; e voltai outra vez por onde viestes.

— Sabeis vós, m eu velho, que para m e obrigar a um a retirada, seria m ister um a artilharia m ais num erosa?

— Pois bem , nós a encontrarem os — lhe respondeu o dom éstico, sem se alterar.

Ao m esm o tem po, antes que Raul pudesse adivinhar o seu proj eto, lançou-se furioso sobre ele; agarrou-o apenas com um a m ão; m as com tão extraordinária força que, apesar dos esforços do ex-sargento, o levantou do solo, e o conduziu a um a vereda, vizinha do lugar onde se achavam .

Oh! quanto Raul não lastim ava naquele m om ento não ter trazido o seu sabre, que lhe teria servido a tirar pronta vingança de um a ação, que, a seus olhos, tanto o desonrava! Mas esse ferro, arm a da sua coragem , j á o não adornava, e o seu rude adversário tinha-lhe arrancado até o bordão, de que poderia servir-se!... Nenhum outro m eio de defesa se oferecia a seus inquietos olhares! O terreno daquele distrito, e do Lauraguais, em geral, é de tal natureza, que facilm ente pode percorrer-se por m ais de um a légua, sem encontrar um único calhau: por toda a parte é com posto de um a terra argilosa e com pacta, extraordinariam ente fértil e produtiva.

Mas com o era possível que ele deixasse im pune um a tal afronta? A raiva não deslum brava o intrépido guerreiro: conhecia que lhe era im possível lutar, corpo a corpo, com um velho, que só o era na aparência, por isso que sua força m uscular era superior à dos hom ens os m ais vigorosos que Raul havia encontrado! Cham á-lo a um duelo, era unicam ente o que lhe restava para fazer; e portanto, com um a voz, m eia sufocada pela cólera, propôs ao seu adversário um com bate m ortal.

O estrangeiro, que em todo este tem po não tinha perdido a im perturbável tranquilidade, que em seu rosto reinava, olhava para ele sem nova com oção.

— Que pretendeis de m im ? — lhe disse ele — Deverei eu servir-m e de outras arm as, além daquelas que j á em preguei, para esm agar o vosso atrevim ento e orgulho! Não vos lisonj eeis: não quero bater-m e; sei só defender-m e, e exterm inar im ediatam ente aquele que se atrever a ultraj ar-m e. Já tivestes ocasião de o experim entar; aconselho-vos, criança fraca e vaidosa, de seguir vosso cam inho, e de não voltardes a um lugar de onde talvez vos não deixasse sair de novo.

O tom feroz com que foram pronunciadas estas palavras, o gesto de m orte que as acom panhava, a hom icida cham a que brilhava nos olhos do m isterioso velho, tudo isto havia um a significação, tão fácil a penetrar, que Raul, apesar da sua bravura, se achava confuso, interdito, e totalm ente desalentado! Até vacilava, se deveria, ou não, repetir o seu desafio! Foi neste com enos, que a porta da casa se abriu, e Alinska, ornada com um vestido preto, que dava singular expressão à sua fisionom ia, se apresentou de repente.

— Então, Ladislau — disse ela ao seu dom éstico, — esqueceis-vos sem pre, que vos proibi de vos entregardes à violência do vosso caráter! Será possível que ainda conserveis alguns restos das loucuras hum anas? Acaso vos será perm itido insultar as pessoas que m e procuram ?

O velho, ouvindo este discurso, estrem eceu subitam ente; m as sobre seu rosto, sem pre pacífico e sereno, não se divisava, nem respeito, nem confusão: apenas um sorriso atroz agitava seus lívidos lábios; nada replicou, m as retirou-se prontam ente, e a lentos passos foi-se dirigindo à m isteriosa m ansão.

A presença de Alinska era neste m om ento, o que Raul m ais desej ava. Foi, para lhe falar, que tinha saído do castelo, e as brutais m aneiras do seu dom éstico não lhe davam esperança algum a de o realizar. Ficou portanto m uito satisfeito com a aparição da húngara, que parecia disposta a ouvi-lo; e foi por isso que ele não balançou a se aproxim ar a ela, sem contudo poder ocultar as expressões de dissabor, que o tratam ento insultuoso do velho lhe havia despertado.

— Com efeito, Alinska — disse ele, — o vosso carcereiro (é este o nom e que m erece) deve dar graças à Providência, por ter suscitado a ideia ao rei de França de m e haver esbulhado de um certo pedaço de ferro, que, durante o tem po que persisti na Hungria, nunca m e abandonou. Se nessa época m e houvera insultado, com o há pouco fez, ter-lhe-ia introduzido, com a m aior doçura, através de seu peito infam e, algum as polegadas desse ferro, que devidam ente o puniria de sua insolência e audácia: m as, paciência; nem sem pre m e achará desprevenido, e eu vos protesto de saldar com ele, um destes dias, as contas, que há pouco contraím os.

— Ora vam os, Raul; não vos lem breis desse desagradável incidente. Ladislau seria talvez culpado: m as vós não deixais de o ser igualm ente: vós o haveis provocado com a vossa insistência: não o j ulgando senão pela aparência da sua idade, acreditastes que seria fácil subm etê-lo aos vossos desej os; m as o vosso erro em breve se dissipou. Acreditai-m e; esquecei o que entre am bos se passou: é o que m ais convém ao vosso descanso. Tudo quanto com preendêsseis, cairia sobre vossa cabeça, e a vossa m esm a vingança vos esm agaria.

— Isso é ótim o de dizer! m as um soldado não se deixa iludir com o sim ples recruta: j á passei o tem po da conscrição, e não sofrerei j am ais um ultraj e. Além de que, terei eu razão de estar m ais satisfeito da am a, do que do seu criado? Não tem os nós igualm ente um im portante negócio para term inar? Não pretendeis porventura fascinar-m e com vossos feitiços e peloticas? Será isso conveniente? E consentirei acaso que viésseis a este país, para m e ultraj ar e para alterar o sossego da fam ília do m eu coronel?

— Raul — respondeu Alinska, com fereza, — ignoro qual sej a a inteligência superior, que vos arrasta à vossa com pleta destruição. Com que audácia vos atreveis a queixar-vos de m im ? Qual de nós será m ais culpado? Não fostes vós, m iserável, que em casa de m eu pai, vos constituístes o principal agente da m inha ruína? Não vos recordais dessa época desastrosa, em que, para auxiliar os crim inosos proj etos do coronel, não cessáveis de m e exaltar sua pérfida ternura? Não estáveis sem pre a m eu lado, procurando desvairar m inha razão, diligenciando fascinar m inha virtude? Desgraçado tentador! Origem do m eu infortúnio! Cabe-vos porventura elevar, na m inha presença, um a voz audaciosa, dizendo-m e que sou culpada? Retirai-vos im ediatam ente, se porventura a vida vos é cara... infam e bicho da terra, que há m uito deveria esm agar com m eus pés, fugi... retirai-vos...

— Com m il diabos, com o sois arrogante, Alinska! não reflexionais decerto nas expressões que m e dirigis; e se acaso tivesse a m ania de m e considerar algum gentil-hom em , vós m esm a m e faríeis recordar, bem a m eu pesar, que sou filho de um honrado cam ponês. Contudo, o vosso nascim ento não é por certo m ais ilustre, do que o m eu: vosso pai era na verdade um excelente vinhateiro; m as nunca ouvi dizer, que descendesse das m agnatas fam ílias de Estherasy ou de Palfy .

— Enganas-te, Raul, ou então é um a desforra que pretendes tirar de m im . Não é para te disputar o acaso de um nascim ento, que pretendo desprezar-te. Tu atreves-te a queixar-te de m im ; não quis m ais do que fazer-te recordar do passado, para te constituir a ti m esm o j uiz de qual de nós é o verdadeiro crim inoso.

— Isso para m im é indiferente; j á m e não recordo daquilo que se passou há tantos anos: além disso, se acaso fostes tão crédula, queixai-vos de vós m esm a: o que unicam ente m e im porta, é que se atrevam a surpreender os m eus segredos, a intercetar a m inha correspondência, e que finalm ente se valham de diabólicas inteligências, para desarm onizar a fam ília de m eus benfeitores.

Alinska nada respondeu: contentou-se em lançar sobre Raul um despeitoso olhar, no qual se divisava o m ais terrível e depravado triunfo.

— Repito-vos — continuou o sargento, — que j á estou cansado de vossas intrigas e de vossos enredos. Já m e intercetastes duas cartas, que dirigia ao m eu coronel: ignoro quais os m eios que em pregais para m e contrariar; m as eu vos advirto, que se Deus m e depara sob a m ão um de vossos cúm plices em flagrante delito, o seu processo não durará m uito tem po; saldar-lhe-ei sobre o espinhaço o capital e j uros de nossa dívida pretérita.

— Com o!... Ainda m esm o que fosse o velho Ladislau! — exclam ou Alinska, com um sorriso de desdém e ironia.

— Oh! com m il trovões!... Que se apresente esse carunchoso esqueleto: ainda conservo um a espingarda de m unição, com a qual o obrigarei a fazer íntim o conhecim ento; e contra a qual, assim o espero, de nada servirá a força de seus punhos!

— Raul, pela últim a vez te repito, tu m archas a longos passos para o abism o da tua com pleta destruição.

— -E vós, Alinska, tam bém cam inhais ao term o de vossos crim inosos enredos... Não os sofrerei por m ais tem po: se acaso a terceira carta não chegar às m ãos do coronel, nós verem os se os m agistrados nos não fazem a am bos a devida j ustiça.

— Insensato!... De quem te queixarás tu? Sobre que fundam ento plausível poderás estabelecer a tua acusação? Quererás fazer-m e responsável pela tua loucura? A quem farás acreditar, que posso pôr obstáculos entre ti e teu am o? Tornar-te-ias o escárnio de toda a gente, e isso servir-m e-ia, em parte, de consolação! Frágil j oguete daquela que te fala; não levarás m uito longe a insolente audácia de teus discursos.

— Alinska: vós podeis dizer-m e quanto vos agradar. Conheço que alguns erros com eti a vosso respeito; se com efeito podem considerar-se erros, a cooperação que prestei aos vossos am ores; m as, por Deus! esquecei-vos do passado, e não continueis a incom odar-m e.

— Assim to prom eti; ofereci-te até avultadas recom pensas, se te obrigasses a não participar ao coronel a m inha existência. Para que te obstinas em m e recusar tão insignificante serviço? Deixa que ele volte; consente que, pela últim a vez, lhe fale; a sua tranquilidade, a sua existência m esm o; tudo, enfim , depende dum a entrevista. Além de que, seria debalde que lutasses com igo; pois que em pregaria m eios para te vencer, que não serias capaz de prevenir. Trem e, sobretudo, se soltares um a só palavra, que m e dê a conhecer a essa rival ditosa, que ocupa ao lado de Eduardo o lugar que m e era devido: a tua indiscrição te custaria a vida!... Sim , Raul, eu te sacrificaria im ediatam ente!...

Alinska, ao pronunciar estas últim as palavras, fez um gesto tão im perioso e arrebatado, que rasgou um pedaço de seu vestido; o que deu lugar a Raul para descobrir em seu peito esquerdo um a ferida, que ainda gotej ava algum sangue. O estrem ecim ento involuntário, que nesta ocasião agitava o corpo do velho soldado, não escapou às penetrantes vistas da interlocutora; fácil lhe foi com preender o m otivo, tratando logo de reparar a desordem do seu vestuário.

Raul, pela sua parte, ficou aterrado, sentindo despertar no fundo de sua alm a um sentim ento de com paixão, que ainda até ali não tinha experim entado.

— Oh desgraçada rapariga! — exclam ou ele — Que fizestes vós? E podeis ocupar-vos, no estado em que vos achais, de um a paixão tão perigosa? Entrai, entrai depressa na vossa habitação: a vossa ferida abriu-se de novo; vós ignorais, sem dúvida, o perigo que correis.

— De que perigo pretendes falar-m e? Não conheço j á nenhum sobre a terra.

— Mas vosso sangue corre; as ligaduras certam ente se desataram ; não percais tem po em ir de novo arranj á-las. Se o m eu auxílio vos é necessário, não receeis aceitá-lo.

— Não te incom odes com aquilo, que não deve im portar-te: o m eu sangue não pode correr, porque j á o não tenho: há m uito tem po que se esgotou com pletam ente; aquele que m e anim a, não m e há de faltar; conheço as fontes onde poderei libá-lo; deixa-o portanto correr à sua vontade; não faças caso.

Ao ouvir tão extravagantes palavras, não deixou Raul de acreditar, à sem elhança de madame Delm ont, que a húngara tivesse perdido o uso da razão: a raiva, que em seu coração refervia contra ela, desde logo se acalm ou; buscou então, com doçura, inspirar-lhe m ais pacíficas ideias, chegando até a aproxim ar-se dela para socorrê-la, por isso que observava a terrível palidez que a cobria.

— Não te aproxim es de m im — bradou ela com rouca e desfalecida voz, — não m e toques, ou antes foge de m im ; não te é perm itido observares o que vai passar-se... Ladislau!... Ladislau; vem a m eu socorro, aliás não poderei desem penhar, cabalm ente a m issão que m e foi confiada.

Ladislau ouviu a sua voz, e chegou a tem po para receber Alinska em seus braços, que se achava quase desm aiada. O velho, tendo-a exam inado por algum m om ento, lançou em redor de si um terrível olhar; e, sem nada dizer, fez um gesto com a m ão, para que Raul se retirasse. Este não parecia m uito resolvido a obedecer-lhe; m as um a súbita reflexão o determ inou a retirar-se: receou causar, com sua obstinação, os últim os m om entos da estrangeira; e im pelido por este m otivo, tom ou o cam inho que havia pouco trouxera, subindo a próxim a colina, que devia conduzi-lo ao castelo.

Num a volta do cam inho, que o obrigava a passar de novo j unto do sítio, onde Alinska j azia deitada sobre a relva, j ulgou poder exam inar, a seu grado, o que ali se passava. Viu então, ou pareceu-lhe ver, o velho Ladislau, inclinado j unto a ela, que lhe fazia tom ar um a beberagem verm elha; m as ao m esm o tem po, um a violenta pancada, que recebeu sobre a cabeça, o estendeu subitam ente por terra. Levantou-se furioso para fazer frente ao inim igo, que o atacara; m as ninguém se achava j unto dele! Atribuiu aquele acidente ao im previsto choque de algum ram o de árvore, por isso que naquela ocasião cam inhava j á pelo m eio do bosque.

A sua curiosidade o instigou a se guardar segunda vez para a parte do prado, a fim de exam inar o grupo que ali deixara; m as tal grupo j á tinha desaparecido. Esta súbita desaparição causou-lhe a m ais viva surpresa; e todo em bevecido nas m ais variadas e penosas reflexões, entrou no castelo, dizendo consigo m esm o:

— Praza a Deus, que tudo isto tom e um aspeto m ais natural! Não m e sinto satisfeito com o que tenho observado, e bem desej ava poder penetrar o profundo m istério que nos rodeia.