A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro

Étienne-Léon de Lamothe-Langon · Capítulo 5 de 25

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A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro

Capítulo IV

 

Raul, havendo certificado a madame Delm ont, que a estrangeira lhe era desconhecida, tinha m entido à sua consciência. Não era possível que se tivesse esquecido de suas feições: sabia quanto aquela que as possuía, era digna de inspirar a m ais ardente paixão, e receava m uito de um encontro, que parecia oferecer no futuro as m ais terríveis tem pestades. Mas em tais circunstâncias deveria ele em peçonhar a tranquilidade que desfrutava sua virtuosa e digna am a? Deveria ele acender em seu coração as cham as devoradoras do infernal ciúm e? Desgraçadam ente há ocorrências na vida, em que é indispensável ocultar a verdade; em que é necessário fazer um pacto com a m entira, a fim de evitar m aiores calam idades. Um a dessas ocorrências era aquela que então se oferecia; e Raul, ainda que despeitoso, lhe sacrificou, de bom grado, a sua natural franqueza: resolveu-se pois a calar aquilo que sabia! Mas quanto não desej ava ele ver term inado o serão, para poder retirar-se ao seu quarto, a fim de refletir profundam ente sobre o que devia fazer em tão apertada situação! Ao m esm o tem po, a prudência lhe ditava quanto era im portante ocultar a madame Delm ont as com oções que agitavam sua alm a. Cham ou portanto em seu auxílio toda a sua energia e sangue frio, e conseguiu por este m odo dom ar todos os gestos da sua fisionom ia, onde Helena não pôde divisar m ais, do que a m esm a indiferença que ordinariam ente o caraterizava.

Tão depressa bateram as onze horas no relógio da escada, retirou-se Raul im ediatam ente ao seu quarto; e sentando-se j unto de um a secretária, que ali havia, principiou a escrever a seu am o, referindo-lhe quanto se passava.

« Quão grande não será a vossa surpresa, m eu coronel, lhe dizia ele, quando souberdes que Alinska habita neste m om ento em R ***, e que é a m ais próxim a vizinha que tendes do vosso castelo! Que virá fazer neste país depois de haver decorrido tanto tem po que dela vos separastes? Qual será o seu proj eto?... Nada posso dizer-vos: não m e reconheceu; ao m enos quando m e viu, não deu dem onstração algum a de que assim acontecesse. Dai-m e as vossas ordens; executá-las-ei sem dem ora. Quereríeis antes tornar a vê-la, e ter com ela um a entrevista, para vos instruirdes de seus desígnios, ou então preferireis, que madame, e vossas filhas, saiam im ediatam ente deste lugar? Este partido talvez fosse o m ais razoável: nunca sereis feliz, nem vivereis sossegado, enquanto existir esta infeliz húngara, ou ao m enos enquanto ela puder perseguir-vos com a sua presença e com seus reproches!»

Acabando de escrever estas últim as palavras, estrem eceu Raul, j ulgando sentir j unto a si o rum orej ar de um vestido, e a respiração de um a pessoa, que se inclinava sobre sua cabeça, com o quem pretendia ler o que ele escrevia.

A ilusão era tão perfeita, que não duvidou que madame Delm ont se não achasse j unto a ele; e desesperado por tal incidente, que verdadeiram ente o aterrava, não se atreveu logo a levantar os olhos, nem a voltar o rosto; m as depois de haverem decorrido alguns m inutos nesta constrangida situação, sentindo reinar o m ais profundo silêncio, lançou, espavorido, os olhos em torno a si, e conheceu que se havia iludido: ninguém se achava no seu quarto; tudo estava silencioso e m udo; apenas de espaço a espaço se ouviam os gritos de um solitário xofrango, pousado sobre o pináculo de um a das torres do castelo.

Esta certeza causou-lhe inexplicável alegria: apressou-se em lacrar a sua carta, e depois de haver fechado cuidadosam ente a porta do quarto, deitou-se, procurando entregar-se às doçuras do sono, de que tanto precisava. Mas por m uito tem po não lhe foi possível esse gozo; a m isteriosa Alinska não podia sair da sua im aginação; e no m eio do seu despeito, praguej ava o bravo soldado, com o se estivesse com andando um pelotão de recrutas! Todavia, esforçando-se por se esquecer a si m esm o, ele o conseguiu enfim : suas pálpebras, cansadas de tão longa vigília, se fecharam pouco a pouco; e o hom em , em si m esm o, não existia m ais senão para se ocupar das celestiais inteligências.

O prim eiro alvor do dia quase sem pre vinha encontrar Raul, j á acordado; m as desta vez faltou ele ao seu costum e ordinário: o m esm o sol dardej ava j á sobre as sum idades de Coronsac, quando o velho sargento despertou sobressaltado, ficando surpreendido do profundo entorpecim ento em que j azera. Os trabalhos do cam po j á deviam ter principiado, sem que ele presidisse ao seu com eço. Corrido, por haver com etido esta falta, de que só ele era culpado, deu-se pressa em levantar-se, e correu velozm ente para a granj a, a fim de se inform ar se todos os trabalhadores se achavam presentes. Apenas deu alguns passos, fora do castelo, que a ideia lhe ocorreu de haver olvidado, sobre a secretária, a im portante carta que escrevera a seu am o. Refletiu que a prudência lhe não perm itia de a negligenciar por sem elhante m odo; e, sem m ais preâm bulos voltou ao seu dom icílio para buscá-la, e para depois a entregar a um dos j ornaleiros, para que a lançasse no correio de Tolosa.

A carta j á não estava no lugar onde Raul a tinha deixado; m as, rasgada em m il pedaços, ela se via espalhada sobre o sobrado!... Este aspeto tão espantoso, quanto sinistro, arrancou do coração de Raul a m ais veem ente exclam ação, deixando-o ao m esm o tem po abism ado nas m ais penosas reflexões. Quem teria rasgado aquela carta? Quem teria entrado tão inopinadam ente no seu quarto, para perpetrar tão audacioso atentado? Seria porventura madame Delm ont, Germ ana, ou a criada do pátio? Só estes indivíduos poderiam estar levantados àquela hora; m as ele se recordou, que a criada tinha saído antes dele para ir dar de com er à criação; que Germ ana, ocupada na cozinha, não teria abandonado o seu trabalho; e que as j anelas do quarto de sua am a, estando fechadas, lhe anunciavam que ela ainda descansava. Vivam ente perturbado por tão inaudito acontecim ento, nem sequer pôde resolver-se a escrever nova m issiva; aj untou escrupulosam ente os fragm entos da prim eira, e depois de os reduzir a cinzas no prim eiro fogão que encontrou, tornou a sair, cheio de confusão, não podendo descobrir m otivo plausível, que j ustificasse o que acabava de acontecer-lhe.

Deslizou o dia, sem que Raul tranquilizasse seu agitado espírito. Ainda que persuadido, de que madame Delm ont não fora autora do atentado, com etido no seu quarto, não pôde deixar de sentir-se todo desconcertado, no m om ento em que se achou na sua presença: diligenciando constranger-se, observava os m ovim entos da fisionom ia de Helena; m as nada encontrava de extraordinário que pudesse inspirar-lhe o m enor receio. Estava sossegada; e nada podia inculcar, que um a descoberta im prevista tivesse perturbado o seu espírito. Raul, m uito m ais adm irado, à vista deste desengano, perdia-se em novas conj eturas e receios: ouviu com m ágoa a proposição que os m eninos lhe faziam , de os conduzir de novo ao m esm o passeio, onde os levara no dia antecedente, e onde encontraram (diziam eles) a sua nova am iguinha!

Bem quisera Raul recusar-lhes este pedido; m as madame Delm ont estava presente; e antes que ele falasse, j á ela tinha anuído ao desej o de seus filhos. Enquanto a ele, não lhe era perm itido declarar-se explicitam ente sobre tão m elindroso obj eto: a prudência lhe ordenava, que não viesse perturbar a vida pacífica, de que gozava a esposa do seu coronel. Pôde portanto conter um m ovim ento de im paciência que lhe ia escapando, e tom ando pela m ão os dois m eninos, com eles se encam inhou para o lugar que lhes tinham indicado.

Apenas chegaram ao pequeno prado, onde na véspera tinham brincado, logo viram sair do vizinho bosque a m isteriosa dam a: trazia nas m ãos um j oguinho de bola, e um a linda boneca, que destinava para os m eninos. Assim que estes a avistaram , correram para ela; e Julieta, com o m ais travessa, lançou-se logo em seus braços. Este m ovim ento inocente pareceu com ovê-la: recuou um passo, e lançou sobre a estouvadinha tão som brio olhar, que o intrépido Raul ficou de todo confundido. Mas aquele m ovim ento não durou por m uito tem po: um ligeiro sorriso veio anim ar Alinska, e com graça encantadora, distribuiu aos m eninos os presentes que lhes destinava.

Eugénio, enfeitiçado com o seu j ogo, correu logo a um a vizinha planície para o experim entar; e Julieta, louca de am ores pela sua boneca, pediu licença para ir colher algum as florinhas, que pudesse oferecer à dam a do bosque: a estrangeira consentiu de bom grado; e quando viu que os m eninos se entretinham , em algum a distância, aproxim ou-se ao velho Raul, com o para o interrogar. Este, encostado ao tronco de um a árvore, m editava profundam ente sobre o tem po passado; receava que novas tem pestades não viessem perturbar a serena paz, em que vivia o seu coronel: não estava satisfeito; m as, não sabia os m eios que devia em pregar, para prevenir o futuro que tanto o atorm entava. Em bevecido pois nestas m editações, não tinha visto aproxim ar-se a dam a; m as um a voz, que lhe era assaz conhecida, e que naquela ocasião se tornava um pouco rouquenha, veio arrancá-lo da espécie de torpor em que se achava.

— Então, Raul — lhe disse ela, — que m al vos fiz eu, para m e contrariares sem pre? A inj usta aversão que m e tendes, não deixará um dia de perseguir-m e?

Espantado Raul com sem elhante interpelação, levantou os olhos; e desviando-se do tronco onde descansava, parecia pouco disposto a responder. Todavia, fazendo um esforço sobre si m esm o:

— Alinska, — disse ele, — que pretendeis de m im ? Por que m otivo abandonastes a vossa pátria? Que vindes buscar aos confins da França? Acaso pensareis ainda do m esm o m odo que pensáveis nos prim eiros dias da vossa m ocidade?... Se assim é, eu vos lastim o, ou para m elhor dizer, eu deploro a loucura que vos arrasta.

— O tem po — respondeu a estrangeira com solenidade, — j á não tem poder sobre m im : há um a época na nossa vida em que o seu im pério falece, em que os nossos sentim entos se tornam inalteráveis, com o a m esm a eternidade, de onde dim anam . Não vos atem orizeis com a m inha presença; porque não é j á a m inha vontade quem m e dirige: j á não pertenço a m im m esm a, m as sim a um senhor cruel, im perioso, único m óvel de todas as m inhas ações e m ovim entos. A m inha ferida ainda sangra, e esse tem po, com o dizeis, j á não tem poder de cicatrizá-la!

— E com o podeis — replicou Raul, — conservar ainda quim éricas esperanças?... Tudo se acabou entre vós e o coronel!... Talvez fosse culpado... não o duvido... m as j á lhe não é possível rem ediá-lo! Há m uitos anos que se acha casado com um a m ulher que m erece toda a sua ternura: acaso pretenderíeis perturbar a paz de tão venturoso casal? A vingança vos induzirá acaso a retalhar o coração daquela, que lhe deu a sua m ão?

— E podia ele fazê-lo, Raul? Acaso lhe pertencia seu coração para dispor dele livrem ente? Não foi com o sangue de suas veias, que assinou a obrigação de não levar aos altares outra m ulher que não fosse eu? Tu, que falas do passado, ignoras porventura o pacto que existe entre nós? Não sabes, que esse m esm o passado seria capaz de se reanim ar para esm agar o pérfido que defendes? Acaso seria eu m enos form osa do que tua nova am a? Possuía eu m enos virtudes do que ela? Pôde o crim e j am ais desatar o branco véu que adornava a m inha fronte? Quais foram os erros que com eti? Consistirão eles em haver pago am or com am or, em m e haver abandonado cegam ente a um sentim ento que j ulgava sincero? Reclam ei acaso a prom essa, que tam bém assinei com m eu próprio sangue de nunca pertencer a outro? Não se acha ainda essa fatal obrigação em poder de Eduardo? Será ele esposo legítim o, segundo as leis do céu? Quais os m eus erros? outra vez o repito: que os busque; ser-lhe-ia im possível encontrar um só, ao m esm o tem po que poderia ser esm agado com o peso daqueles que com eteu contra m im !...

Falando tão energicam ente, parecia que a bela estrangeira não pertencia a este m undo: seu talhe gracioso, e ao m esm o tem po esbelto, a vaga incerteza, que se divisava em seus olhares, os sinais de indignação estam pados em suas feições, e que inspiravam a seus lábios um a expressão terrível; tudo isto parecia inculcá-la com o um a dessas inteligências tem íveis, interm ediárias entre o hom em e a divindade, e que esta investe m uitas vezes dum a porção do seu elevado poder, para punir a perversidade hum ana. Raul não podia suportar a fixidade de seus olhares escrutadores, que pareciam querer esquadrinhar os m ais fundos recônditos de sua alm a! Convinha interiorm ente nas culpas de seu am o; m as, segundo a sua opinião, essas culpas eram irreparáveis. Os anos decorridos pareciam havê-las sancionado; o him eneu do coronel era indissolúvel; e Alinska, apesar da j ustiça de seus direitos, devia renunciar à pretensão de que esses direitos fossem reconhecidos. Assim lho deu a entender na sua resposta.

A estrangeira escutava-o com desdenhoso sorriso; m as, sem o interrom per, sem testem unhar nem surpresa, nem descontentam ento.

Raul lisonj eava-se j á de a ter talvez convencido da inutilidade de suas tentativas: dispunha-se a concluir o seu propósito, quando ela o suspendeu subitam ente, pousando-lhe a m ão direita sobre o om bro!

Este gesto, feito com um a espécie de negligência, produziu contudo, sobre o velho m ilitar, um terrível efeito. No lugar em que Alinska o tocara, tinha ressentido um a extraordinária com oção: figurou-se-lhe haver passado rapidam ente do m eio de um a fornalha abrasadora, a um oceano de gelo! Mas este sentim ento se desvaneceu, logo que a m ão, que o engendrara se havia retirado!

— E a sua prom essa — disse Alinska tranquilam ente, sem se fazer cargo dos argum entos que lhe eram dirigidos — acaso lha restituí eu? Seria ele capaz de m a m ostrar?

— E de que vale essa prom essa, ainda que se ache em vosso poder? Esse docum ento j á nada pode influir sobre o seu destino; os tribunais não lhe dariam a m enor consideração...

— É possível, tem erário francês, que as leis hum anas nada possam no teu país contra tais perj úrios; m as outros j uízes existem , que não pertencem a este m undo: esses, que são incorruptíveis, j á a receberam ; j á a registaram em letras de bronze; é a eles que m e dirij o para alcançar j ustiça; e j ulgo poder esperá-la da sua equidade e benevolência.

— À fé, Alinska, — replicou Raul, que pouco cuidadoso das coisas da religião, só curava das deste m undo: — entregastes a vossa causa em excelentes m ãos; m as parece-m e que tendes de esperar longos anos, antes de ver executar a sua sentença. Acreditai-m e; voltai em paz à vossa pátria, e ide viver na doce com panhia da vossa fam ília. Persuadi-vos que o coronel, em troco dessa prom essa, não hesitará em vos dar quanto possa aj udar-vos para passar um a existência pacífica e abastada.

— Isso não poderá ele fazer — respondeu gravem ente a estrangeira. — Já não tenho parentes; toda a terra é hoj e a m inha nova pátria: Foi ao seu seio que confiei a prom essa de Eduardo; e enquanto às vantagens, que m e ofereces em seu nom e, não careço delas: o ouro é a m eus olhos um a sim ples variedade de lodo; tenho à m inha disposição um a grande porção desse m esm o lodo; e se tu quiseres obrigar-te a não declarar a teu am o, que m e acho neste lugar, eu te ofereço, a m eu turno, m aior quantidade desse m esm o ouro, do que aquela que tua am bição possa desej ar. Tom a — continuou ela, tirando do seu cinto um a bolsa assaz recheada; — tom a esta porção por conta daquele que depois te darei...

As extraordinárias palavras de Alinska acabaram de confundir o velho soldado. Ele sabia perfeitam ente, que a húngara, pobre filha dum cam ponês, não devia ser m uito rica, dando-lhe contudo, naquela ocasião, evidentes provas da sua opulência. Esta circunstância não podia inspirar-lhe algum sossego; m as a estrangeira tam bém a seu turno, não podia lisonj ear-se de o seduzir. A m ão de Raul não se avançou para colher a bolsa; seus olhares, nem sequer se dirigiram sobre o rico presente que ela lhe ofertava.

— E eu tam bém , Alinska, — lhe respondeu ele, — de nada careço; sou superior a todas as m inhas precisões. Agradeço-vos pois a vossa generosidade, ficando persuadida, que nada seria capaz de m e desviar do desígnio de com unicar ao coronel a vossa atual residência, se porventura o houvesse concebido.

— Tu concebeste, m entiroso, esse desígnio — lhe replicou ela arrebatadam ente; — até j á tentaste executá-lo.

Este ataque direto, a inj úria que lhe era dirigida, e que qualquer ente de diferente sexo houvera pago logo com o seu sangue, lançou Raul num abism o de perplexidades. Hesitou se deveria ou não dar largas à sua cólera, ou se pelo contrário deveria dissim ular; m as a força do seu caráter o desorientou, exclam ando com o m aior despeito:

— Dai graças a esse traj o, que vos cobre, m ulher louca e tem erária, que não receais de vos introduzir furtivam ente na casa alheia, para nela surpreender as ações daqueles, que pacificam ente nela residem . Madrugais m uito, segundo m e parece! Mas tende a certeza, de que tarde tornareis a penetrar no castelo de R ***.

Um novo sorriso, cuj a significação era inexplicável, foi a única resposta de Alinska: afetou desprezar o virulento ataque do m ilitar; m as tom ando depois um ar de dignidade, que contrastava com a sim plicidade de suas m aneiras, e do seu vestuário:

— Raul — lhe disse ela, — recorda-te que tom aste ativa parte em m inhas desventuras: hoj e que elas se tornam irrem ediáveis, não queiras lançar-te cegam ente no m edonho abism o que te am eaça. Faz o que te digo; conserva-te neutral no m eio da terrível luta que pode facilm ente engaj ar-se: é este o único m eio de evitares o raio que as m edonhas nuvens, que se aglom eram sobre ti, não deixarão de vom itar!...

Acabou de falar; um fogo extraordinário inflam ou seus olhos! Fez um gesto, cuj a significação era terrível, e precipitadam ente se retirou, seguindo um tortuoso atalho, que bem depressa a ocultou aos espavoridos olhos de Raul: nem sequer quis escutar os reclam os dos m eninos que, cansados de brincar, voltavam de novo em busca dela! O sargento, confundido e aterrado, à vista da cena que acaba de se passar, refletindo seriam ente nas desgraças que podiam sobrevir no futuro, conservou-se por m uito tem po, com o em bevecido, no m esm o lugar: foi Eugénio, que o arrancou finalm ente da espécie de torpor em que se achava!

— Não ouves os trovões, Raul? Olha com o são belos aqueles relâm pagos!... certam ente algum a grande trovoada se prepara.

— Um a trovoada!... — exclam ou Raul — acaso realizar-se-á j á a terrível predição dessa desgraçada!...

Ao pronunciar estas palavras, olhava para o céu, e observava para a parte de oeste, por cim a do Garona, um a m assa enorm e de densos vapores, onde, de espaço a espaço, rebentavam sulfúricos relâm pagos, ribom bando ao m esm o tem po o m edonho e sinistro trovão, que de m ontanha em m ontanha ia ecoando... A prudência não lhe consentia que prolongasse por m ais tem po o seu passeio: tom ou pois pela m ão os seus am iguinhos; e buscando a m ais curta vereda, m as ao m esm o tem po a m enos solitária, conseguiu entrar no castelo, antes que a chuva com eçasse a cair.