A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro
Capítulo XIV
Entre as ocorrências que haviam agitado a vida do coronel Delm ont, a aparição da húngara no castelo de R ***, era sobre todas a que m ais o surpreendia. O enérgico caráter desta j ovem , que tão m al j ulgara; esse am or extrem oso, do qual, naquele m om ento, lhe dava ainda a m ais evidente prova; tudo isto lançava em seu coração com oções tão extraordinárias, que ele m esm o não sabia explicar. Não era só para lhe lançar em rosto o seu perj úrio, que ela tinha atravessado tão vastos países; suas exigências deviam ir m ais longe, e o pobre coronel estrem ecia, antevendo as terríveis cenas que ela lhe preparava. Por outro lado (tal é a extravagância do espírito hum ano!) ainda que seus m ais ardentes desej os fossem de a não tornar a ver, não podia ele sufocar o íntim o receio, que sentia de a perder de novo: ele daria de bom grado a m aior porção da sua fortuna, a quem lhe desse a certeza de a salvar! Desej ava praticá-la um a só vez, dizia ele; precisava ouvir de sua própria boca a narração da sua viagem até R ***: deste m odo, debaixo do exterior de um a sim ples curiosidade, ocultava Delm ont a si m esm o a existência de outro sentim ento m ais cruel, e quiçá m ais crim inoso!... Mas enquanto assim discorria, protestava tam bém sufocar em seu seio esse sentim ento, e de afastar do coração da virtuosa Helena a infernal paixão do ciúm e, que tantas vítim as arrasta consigo no m edonho abism o, que a vom itara. Resolveu-se portanto a tratar Alinska, enquanto lhe fosse possível, com o sim ples estrangeira, salvo se ela m esm a, por algum a im prudência, o obrigasse a declarar a verdade.
Todavia, a inquietação que o devorava, não lhe perm itia gozar o m enor descanso. A m orte de seu querido filho, a do seu pobre Raul, a quem tanto am ava, despedaçavam continuam ente seu am argurado coração. No prim eiro, via desaparecer o obj eto de suas paternais afeições, e das m ais lisonj eiras esperanças: no segundo, perdia um am igo, de cuj a lealdade não podia duvidar; e que nas críticas circunstâncias em que se achava, lhe podia servir da m aior utilidade. Era portanto m uito natural, que o infeliz coronel m isturasse suas lágrim as às de sua m alfadada consorte, e que j unto a ela receasse novos acontecim entos, que o próxim o dia parecia vaticinar-lhe. Outro cuidado, não m enos cruel, ainda o perseguia: desej ava sobretudo, que sua esposa ignorasse o triste m om ento que devia para sem pre separá-la dos restos m ortais de seu caro filho. Estrem ecia ao m ais pequeno m urm úrio que sentia; apertava Helena em seus braços, com o se quisesse anunciar-lhe a consum ação da sua desventura.
Graças a um vizinho oficioso, e ao digno pastor da paróquia, o m ais profundo silêncio presidiu à fúnebre cerim ónia, que teve lugar ao despontar do prim eiro alvor do dia: os tristes cânticos dos levitas só principiaram a grande distância do castelo, e o vento que soprava com violência, ainda levava para m ais longe esses m esm os cânticos e os ecos m elancólicos do sino da paróquia. Madame Delm ont tinha form ado o doloroso proj eto de ver ainda seu filho: cham ava por ele, quando j á descansava debaixo da fria terra, que devia consum i-lo; e a desesperação aum entou m uito m ais, quando lhe deram a certeza, que do seu caro Eugénio só lhe restava a m ais dolorosa recordação e saudade.
O coronel, dedicado em extrem o a m inorar, com suas reflexões consoladoras, a pungente dor que ele m esm o partilhava, quase se ia esquecendo de que Alinska se achava tão perto dele. Só no decurso do dia se lem brou de perguntar notícias dela a M. Mélervant (era o nom e do cirurgião), quando este veio procurá-lo.
— Já vos disse — lhe replicou ele, — que em tudo que respeita a esta criatura, existe um não sei quê de inexplicável, e que debalde procuro penetrar. Ninguém poderia esperar um tão extraordinário m ilagre; todavia ainda não posso afirm ar se ela viverá. A sua ferida é assaz perigosa; e outra que anteriorm ente havia recebido, e que quase profundara até ao coração, são grandes m otivos para m uito duvidar da sua existência.
— Outra ferida, dizeis vós! Explicai-vos: pareceu-m e ouvir dizer, ontem quando cheguei, que um só tiro de pistola acertara nessa infeliz criatura.
— Eu não vos disse, que essa segunda ferida era recente. Há m uito tem po, que foi causada por um instrum ento cortante: longe de se achar de todo cicatrizada, ainda hoj e gotej a sangue! Oferece um aspeto particular que, confesso, não possuir os necessários conhecim entos para o caraterizar. Noutro qualquer indivíduo, ela m e apresentaria um perigo im inente; e contudo, parece, que há m uito tem po que existe esta m ulher, exercendo livrem ente todas as funções da vida, sem que essa ferida, que deveria lançá-la no sepulcro, lhe cause o m enor obstáculo! Certo, ela não pode queixar-se da natureza, que sem dúvida a dotou do m ais salutar e vigoroso tem peram ento. Ainda se observa nela um a circunstância m ais particular: a sua m ão esquerda existe continuam ente encerrada dentro de um a luva de grossa pelica; quis arrancar-lha, para dar a esta desgraçada toda a liberdade em seus m ovim entos; m as quando lhe toquei no braço, senti que ele se agitava extraordinariam ente; e a m ão, que naquele m om ento se achava aberta, fechou-se com tal força, que não m e foi possível realizar o m eu desígnio.
— Tudo quanto m e dizeis, doutor, causa-m e na verdade a m ais extraordinária surpresa. Não vos desanim eis, eu vos conj uro; bem vedes os deveres que a hum anidade nos prescreve para com esta desafortunada; além de que, só ela pode m inistrar-nos os detalhes dos acontecim entos desta desastrosa noite; talvez possam os obter dela interessantes esclarecim entos, para descobrir os m iseráveis, cuj a tentativa, sem proveito para eles, tão fatal se tornou para nós.
— Sr. coronel, as vossas instâncias não são necessárias: além dos deveres aos quais m e resignei, adotando a profissão que exerço, não vos ocultarei, que esta m ulher m e inspira o m ais vivo interesse. A rara perfeição de suas form as, a beleza de seu rosto, lançaram em todos os m eus sentidos um a inquietação que j am ais havia experim entado. Se for tão feliz, que possa restabelecê-la, oh! eu vo-lo confesso, não duvidarei solicitar a posse da sua m ão, com o recom pensa de m eus desvelos... m as por que m otivo pareceis com ovido com esta confidência que vos faço? Acaso vos parecerá condenável este m eu procedim ento?
— Quem ? eu!... enganais-vos: e com que direito poderia censurar-vos? O que m e parece, contudo, é que quanto se passa em torno a nós é extraordinário e incom preensível. Enam orais-vos de um a pessoa que ainda ontem não conhecíeis; e quando ela pertence ainda m ais ao outro m undo do que a este, é que vos lem brais de a esposar! Que acontecerá, quando a esses dotes físicos, que j á vos encantam , descobrirdes em seu espírito as apreciáveis qualidades, que provavelm ente deve possuir?
— Coronel, perm iti-m e que vos diga que o m odo com que vos explicais, a este respeito, m e surpreende: parece que vos esqueceis da dolorosa situação em que vos achais...
— Oh! desculpai, m eu caro doutor, a agitação em que m e vedes; nem sei o que digo, nem o que faço: tal é a entranhável dor, que m e oprim e! Vós m e recordais, que as m inhas palavras se acham em perfeito acordo com a desordem de m inhas faculdades. Ai!... na m inha situação, cuj o suplício não podeis apreciar, devo ser desculpado se falto porventura às conveniências, que noutra qualquer ocasião não deixaria de respeitar.
Este discurso, longe de desm entir o que talvez pretendesse inculcar, dava ao doutor, pelo m al alinhavado de suas frases, a prova evidente de que o coronel, todo entregue à sua j usta m ágoa, não tinha ainda recuperado inteiram ente o uso da sua razão. Não supôs portanto, que algum m otivo secreto, um rápido m ovim ento de ciúm e, houvessem influído no espírito do coronel. Este, envergonhado de se haver esquecido um m om ento da resolução em que se achava, e de dar a Mélervant o direito de ler em sua alm a, preferiu antes deixar-lhe acreditar, que o excesso da sua dor era o único m otivo da preocupação de suas ideias. Mais tranquilo a este respeito, m udou de conversação, instando de novo com o facultativo, para que se não ausentasse do castelo, enquanto a estrangeira e madame Delm ont carecessem da sua presença.
— Este lugar — replicou Mélervant, — será de hoj e em diante o m eu quartel general, salvo se a isso vos opuserdes. Não o abandonarei senão por m om entos, e só no único caso, em que algum im previsto acidente reclam e os m eus serviços fora dele.
Delm ont perguntou-lhe depois se lhe seria perm itido ver a enferm a, a quem , segundo prescreve a civilidade, desej ava fazer um a visita.
— Podeis fazer o que for da vossa vontade; m as seria o m esm o que dirigir os vossos cum prim entos a um cadáver. Esta dam a, ainda pelo espaço de quinze dias não poderá sair do estado de insensibilidade em que se acha. O m uito sangue que perdeu, é a causa principal do seu desfalecim ento; e nós seriam os m uito felizes, se no fim de um m ês ela pudesse responder às nossas questões.
— Será necessário revestirm o-nos de paciência até esse tem po; — replicou o coronel, afetando a m aior indiferença — vós sereis o guia de nossas ações; não preciso dizer-vos, que ficais investido do m ais absoluto poder a este respeito.
Mélervant respondeu a esta civilidade com um a sim ples inclinação de cabeça: de repente abre-se a porta do quarto de madame Delm ont; Germ ana, toda desconcertada, vem anunciar que sua am a acabava de desm aiar. Os dois personagens, ao ouvir esta triste nova, term inaram a sua conversação, para correr aonde seus deveres e ternura os cham avam .
Por m uitos dias se repetiram os delíquios de madame Delm ont, que só tinham origem na cruel aflição, que não cessava de atorm entá-la. Nada podia distraí-la; absorvida num a só ideia, nela reconcentrava ainda as coisas m ais opostas ao seu m esm o sofrim ento.
Alinska iludiu com pletam ente o doutor em todos os seus cálculos. A sua saúde restabeleceu-se em m uito m enos tem po do que aquele que lhe fora prognosticado; e ele m esm o nem sequer teve a dita de ser o prim eiro, que ouviu as prim eiras palavras que a bela estrangeira pronunciara.
Ao oitavo dia, depois do fatal acontecim ento, vindo Delm ont ao quarto da húngara, para se inform ar do progresso de suas m elhoras, com o tinha por costum e fazer todos os dias, achou a enferm eira assaz im pacientada pela dem ora do seu alm oço. O coronel propôs-lhe, que fosse ela m esm a reclam á-lo, enquanto ele ficava vigiando a doente, que prom etia não abandonar enquanto ela não voltasse. A enferm eira, m uito satisfeita com esta condescendência, correu sem dem ora aonde o seu apetite a cham ava.
Delm ont, sozinho na presença do im portante obj eto de seus prim eiros am ores, ficou por m uito tem po im óvel e contem plativo em frente do leito onde Alinska repousava; abandonando-se bem depressa à m ais severa e dolorosa m editação, observando aquele m acilento rosto, aquelas faces descarnadas, aqueles olhos totalm ente fechados. A sua im obilidade era com pleta; apenas um a ligeira respiração testem unhava, que o fio de existência a considerava ainda na classe dos vivos.
— Pobre criatura!... — exclam ou Delm ont — e era neste estado que devia tornar a ver-te?... Era a este lugar, onde a tua fatal ternura devia arrastar-te?...
Um suspiro que dos lábios de Alinska se evaporou, veio retum bar nos ouvidos do coronel, prom ovendo-lhe ao m esm o tem po um a penosa sensação. Aproxim ou-se m ais, e viu então que as pálpebras daquela, que tão atencioso exam inava, se agitavam brandam ente por um m ovim ento convulsivo; abriu enfim seus olhos, que de súbito se fixaram sobre o coronel; suas faces se coraram , e seus lábios articularam o nom e de — Eduardo!...
— Alinska!... acaso m e reconheces?... — lhe disse Delm ont, quase sufocado pela sensação que sentia — Oh! quanto não deves odiar a m inha presença!
— Eduardo, ainda m e am as?...
A esta questão inesperada, e a qual não era fácil responder, ficou Delm ont com o petrificado. Seus lábios iam quase pronunciar um a resposta afirm ativa; m as a sua razão, talvez m esm o a verdade, reprim iram essas palavras crim inosas. Apenas escondeu o rosto em suas m ãos, continuando a guardar o m ais profundo silêncio.
— Eduardo, cruel e caro am igo; acaso queres dar-m e a m orte, à qual, por um prodígio, acabo de subtrair-m e?...
Oh! quanto não era sensível àquele a quem se dirigia esta exprobração, de não poder consolar a infeliz, que parecia só renascer, para encontrar no prim eiro m om ento, em que a existência lhe era outra vez restituída, toda a realidade das penas e desgostos, que há tanto tem po torturavam seu pobre coração! Por outro lado, poderia Delm ont alim entar um a funesta esperança, m entir contra a sua consciência? Não era ele o esposo de Helena? Não lhe consagrava ternura e am or, fundados sobre a estim a e a virtude m ais acrisoladas? Deveria trair tantos anos de fidelidade?... Todos estes pensam entos, e m il outras ideias, com batiam seu atribulado espírito. Estava pois vacilante, quando um sufocado suspiro atraiu sua atenção. Não balançou em lançar seus olhares sobre Alinska, e reconheceu assustado que a infeliz caía em novo delíquio: o passageiro rubor havia desaparecido de suas faces, e suas pálpebras tinham -se cerrado outra vez.
Receando ter descarregado o golpe fatal sobre esta m iserável criatura, saiu com o desorientado do quarto, bradando em altos gritos pelo cirurgião, e pelos dom ésticos do castelo. Todos correram assustados; contou-lhes que a estrangeira, que por um m om ento pareceu tornar a si, e que tinha pronunciado até algum as palavras, tornara a cair num a espécie de desfalecim ento letárgico... que talvez se tornasse m uito fatal.
— Pois ela falou! — exclam ou o cirurgião. — Assegurais-m e que articulou algum as palavras! Não vos iludis? Ah! senhor, perm iti que duvide de sem elhante prodígio! Se contudo m e não enganais, então nada posso vaticinar a respeito deste ente tão extraordinário e incom preensível.
Delm ont, tornando a si de seu prim eiro sobressalto, assegurou ao cirurgião, que a doente havia pronunciado, ainda que pouco inteligível, as seguintes palavras: Onde estou eu? Quem se acha junto a mim?
Certo não era deste m odo que ela se havia explicado; m as o coronel não queria por m odo algum declarar o que realm ente lhe ouvira.
Mélervant achou Alinska com um m ovim ento febril assaz pronunciado. Não dissim ulou que o perigo se apresentava com um aparato assustador, e que era necessário que a estrangeira tivesse experim entado algum a com oção terrível, para se achar no estado em que a via. Este discurso foi um raio fulm inante que feriu o coração de Delm ont. Receando não poder dom ar as pungentes em oções de sua alm a, apressou-se em retirar-se ao salão, onde por m ais de um a hora passeou aceleradam ente, sem se atrever a voltar ao quarto de sua m ulher, nem tão pouco ao aposento de Alinska, receando presenciar o seu derradeiro suspiro. Oh! quanto se não arrependia ele neste instante dos desvarios da sua m ocidade, do erro im perdoável que havia com etido! procurando acender no coração franco e sensível da desventurada Alinska um a cham a, que devia ter tão funestos resultados! Então não se lem brava ele do futuro; j ulgava que o am or desaparecia com a m esm a rapidez, com que nos subj uga; não conhecia, que esta paixão, de ordinário tão frágil, se torna robusta e vigorosa, quando dom ina sobre certos carateres. A constância de Alinska assim o confirm ava; nada fora capaz de abalar sua ternura. A distância, a ausência, m il outras vicissitudes, tinham resvalado sobre seu coração sem o esfriar; e esse m esm o coração ainda hoj e conservava todo o delírio da paixão cruel, que outrora o em briagava. Quantos torm entos, quantos com bates não sofria Delm ont com esta febre que o devorava! Através de m edonha nuvem enxergava um porvir cheio de calam idades; e penetrado de horror abandonava-se o desgraçado ao destino fatal que o aguardava. Mas, acaso não sentiria ele tam bém o ervado farpão, de um a espécie de ciúm e, que parecia suscitar-se entre ele e o enam orado facultativo? Este, ainda m oço, podia inspirar, por suas qualidades físicas e m orais, um sentim ento de ternura; declarar-se-ia com Alinska, talvez que até m esm o lhe suplicasse, de orar em seu favor; e Delm ont não seria capaz de fazer tão grande sacrifício.
Com o j á dissem os, a húngara, iludindo todas as probabilidades, continuava a restabelecer-se: apenas vinte dias tinham decorrido, e j á ela podia assentar-se sobre a cam a, pronunciar algum as frases, e responder às insignificantes questões que lhe dirigiam ; m as ainda se não achava em estado de em preender exata narração dos acontecim entos dessa noite terrível, que a despoj ara da sua habitação. Madame Delm ont apenas se atrevia nesse tem po a vir visitá-la. A sua presença lhe recordava tanto ao vivo a m orte do seu Eugénio, que ao entrar no quarto de Alinska, suas faculdades a abandonavam , sendo-lhe necessário m uito tem po para se restabelecer. Abundantes lágrim as vieram por um m om ento aliviar a sua dor; e depois dum a visita silenciosa, se retirou de novo ao seu aposento.
Ainda que privada da sociedade da castelã, nem por isso Alinska ficava só. Mélervant com prazia-se em acom panhá-la, tanto quanto suas ocupações lho perm itiam . Delm ont, arrastado por um sentim ento irresistível, tam bém vinha vê-la m uitas vezes, ainda que no fundo de seu coração protestasse de tornar m enos frequentes suas visitas. Todavia, em pregava todo o desvelo em evitar encontrar-se a sós com Alinska: receava nova explicação, que poderia trazer resultados m ais terríveis, do que a prim eira.
Era debalde, que a húngara cogitava o m eio de desviar do quarto as testem unhas im portunas; seus esforços não tinham o resultado, que ela desej ava. Delm ont estava sem pre vigilante; e quando se via exposto a ficar sozinho com a vítim a de um am or tão funesto e desgraçado, não perdia um só m om ento em retirar-se.
Nesses críticos m om entos, um profundo despeito se divisava sobre o rosto da im pacientada Alinska. Buscava, por m eio de um gesto, de um expressivo relancear de olhos, prender ao pé de si aquele que receava os raios de suas j ustas repreensões; e quando o via retirar, ela se abandonava aos m ais vivos transportes de cólera, que quase sem pre se em pregavam sobre a enferm eira que constantem ente a vigiava, e m uitas vezes sobre o m esm o facultativo. Este, cada vez m ais enam orado da estrangeira, suportava com rara paciência as vivacidades, cuj a causa ignorava, e que só atribuía à violência do estado físico da enferm a. Em pregava então todos os m eios de restabelecer a paz e o sossego naquela alm a tão agitada; declarava-lhe que a exaltação ou a cólera lhe podiam ser bastante funestas; e que só poderia restabelecer-se, procurando reprim ir quaisquer afeições m orais, que porventura oprim issem seu espírito. Um sorriso de escárnio era quase sem pre a única resposta que dava às observações do solícito doutor: então, ela parecia tratá-lo com essa superioridade desdenhosa que arroga a si aquele, que se j ulga sem pre m ais superior aos outros.
Mélervant sofria todos estes caprichos com resignação adm irável; aguardava um a recom pensa, que na sua opinião seria m uito superior a todos os dissabores que suportava.
Alinska, ao cabo de duas sem anas, e na época em que o inverno desfechava todo o seu rigor sobre a natureza, declarou que podia levantar-se. O doutor quase chegou a im pacientar-se com esta exigência; ponderou que o desfalecim ento da enferm a ainda era considerável, para que pudesse satisfazer o seu desej o; que devia ainda pacientar-se pelo m enos até à volta da prim avera; que em bora fosse assaz vigoroso o seu tem peram ento, nem por isso deixaria ele de vaticinar-lhe um a recaída, se porventura se não resignasse ao que ele lhe ordenava. Ela nada m ais replicou: era esse o seu costum e todas as vezes que a contrariavam ; m as tão depressa se retirou o facultativo, pediu à enferm eira que lhe fosse buscar um pom o doce, que desej ava com er; e assim que se viu sozinha, apressou-se logo em vestir-se!
Grande foi a surpresa da enferm eira quando voltou; lam entou que Alinska desprezasse as ordens de Mélervant: am eaçou-a com a severa indignação do facultativo, quando a encontrasse levantada. Esta am eaça não assustou a pertinaz Alinska: depois de haver dado alguns passos no quarto, m andou perguntar a madame Delm ont, se poderia receber a sua visita.