A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro

Étienne-Léon de Lamothe-Langon · Capítulo 17 de 25

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A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro

Capítulo XVI

 

— Acaso vos inspirarei eu — lhe disse ela, um pouco oprim ida, — tão cruel antipatia? Não podereis encarar-m e sem estrem ecer? E ser-m e-ia necessário recorrer ao acaso para vos encontrar a sós?...

Eduardo, atacado por este m odo, sentiu a necessidade de responder; m as ao m esm o tem po receava de não poder conter-se num j usto m eio, e esta posição tão desagradável o aterrava cruelm ente.

— Ai!... — replicou ele — E convir-nos-á porventura de nos acharm os a sós? Os acontecim entos, que tantas vontades destruíram , não nos separaram (ainda m al!) para j am ais nos reunirm os? Deveria eu, Alinska, esperar ver-vos nesta extrem idade da França, quando os laços que nos uniam , foram para sem pre despedaçados?...

— E quem os despedaçou, Eduardo? Qual de nós m erece essa acusação? Só o tem po nos separou; m eus insignificantes atrativos talvez desaparecessem ; m as o m eu coração é sem pre o m esm o. Vós m esm o recebeis neste m om ento a triste prova: prova que deve esm agar-vos debaixo do seu peso!...

— Não careço, Alinska, da vossa presença, para m e repreender a m im m esm o do m al que vos tenho causado. Os erros da m inha m ocidade se oferecem a m eus olhos, revestidos com as cores m ais hediondas; conheço até que ponto vos enganei; e a m inha consciência m e retraça a cada instante o quadro doloroso do passado. Mas que poderem os nós fazer? O presente não pode ser alterado; a nossa situação é penosa; apenas nos resta o lenitivo de a suportar com coragem e resignação: o destino assim o determ ina; cum pre obedecer-lhe!...

— Vós vos explicais, Eduardo, de um m odo assaz obscuro. Falai-m e com franqueza; respondei-m e livre e desafogado; dizei-m e pois quanto pensais, e eu m e explicarei tam bém com a m esm a lealdade e candura.

— E com o seria possível, que eu vos patenteasse quanto se passa em m eu pobre coração? Deveria eu fazê-lo, ainda m esm o que m e fosse possível? Não existem porventura laços im periosos que a outra m e prendem ? Estes laços não são eles form ados pelo dever, pela Providência, pela religião? Sede m ais generosa do que eu, Alinska; fazei voluntariam ente o sacrifício que se torna indispensável. Esquecei-vos de m im , se tanto vos é possível!...

— Tendes razão em duvidá-lo: com o vós, tam bém tenho as m inhas fraquezas; os m eus erros talvez! Vós não receastes abandonar-m e, para oferecer a outra a fé que m e havíeis j urado; e eu não posso triunfar de m eus sentim entos, apesar m esm o da inutilidade desse triunfo! Conheço que a m inha presença vos im portuna, m as não posso retirar-m e; sei que m e não resta a m ínim a esperança, e contudo apraz-m e afagar um a vã quim era! E por que m otivo serei eu m ais forte do que vós? Esse dom que não soubestes reservar-m e, não é dado às m inhas forças usurpá-lo.

— Os vossos discursos, Alinska, duplicam o m eu desespero. Daria de bom grado a m inha vida para desfazer o que se acha realizado; para que fosseis feliz, para saboreardes em paz os doces frutos da existência.

— Existem votos, que não podem ser escutados, Eduardo — replicou Alinska com sinistra expressão. — Já para m im não pode haver, sobre a terra, nem descanso, nem ventura; e quando m e reclinar na m inha derradeira m orada, ali m esm o só poderei encontrar enj oo, m iséria, torm entos... exasperação!... E o causador de tantos m ales, de tantos infortúnios, sois vós Eduardo!... Daríeis a vossa vida para m e fazer feliz, dizeis vós! Esse sacrifício não depende de vós: acaso não sois propriedade m inha? Porventura não m e fizestes a prom essa sagrada de ser m eu? Não foi ela escrita e selada com o vosso sangue?...

— Não nego que vos dei esse penhor da m inha ternura; m as esse escrito fatal, anulado pela m inha posterior conduta, de nada vos serve atualm ente. As nossas leis não o reconhecem , e a união que contraí, é indissolúvel.

— As vossas leis!... Sem pre as vossas leis!... Que m e im portam essas form alidades, que os hom ens quiseram sancionar? São fúteis, im potentes a m eus olhos, apesar de sua gravidade aparente; sobretudo elas são volúveis e transitórias, com o aqueles que as instituíram . Não m e hum ilharei a acusar o vosso perj úrio perante os tribunais do vosso país; serei m ais atendida perante o Ente Suprem o, que não j ulga por palavras, m as sim pelos próprios factos. Foi ele que vós reconhecestes por vosso j uiz, quando selastes, na sua presença, a prom essa solene de nunca vos esposardes senão com Alinska! Trem ei, desgraçado, que ele não puna o vosso perj úrio! Sabeis acaso quais são os m eios de que ele pode servir-se para vos despedaçar o coração?...

— Desafortunada Alinska, tranquilizai-vos, não vos arrebateis por tal m odo. Se j á m e não é possível oferecer-vos a m inha m ão, consenti ao m enos que vos consagre outro sentim ento m ais puro do que o am or. Já não podeis ser m inha am ante, em bora; sede ao m enos m inha am iga; contentai-vos com este sagrado título; e que de novo ele nos ligue por um a cadeia, que sendo m enos brilhante daquela que outrora nos prendia, não deixará contudo de ser m ais sólida e duradoura.

A húngara parecia desej osa de oferecer ao coronel poderosas obj eções; m as de repente, dando à sua fisionom ia um a expressão m ais indiferente:

— Am izade!... Dizeis que a insípida am izade é tudo quanto podeis dar-m e em prém io de tantos anos de ternura e de sofrim ento!... Deveria ausentar-m e de vós, para receber de longe a longe algum as cartas insignificantes! Ou então continuar a residir no castelo de R ***, onde, testem unha da ventura de outra m ulher, lutasse de contínuo com m il suplícios e angústias!... Oh! a alternativa é m uito cruel! E contudo não m e é possível exigir outra condição! Com o sou insensata! Ainda há pouco escondida entre aquelas árvores, escutava com deleite m elodiosos sons que pareciam ecoar no fundo da m inha alm a; esquecia-m e do infortúnio, ao ouvir repetir essas doces palavras, que j am ais se apagarão na m inha m em ória!... Sou na verdade m uito louca!...

— Essas palavras, Alinska; esses cânticos deviam provar-vos, que ocupais sem pre a m inha im aginação, e que m e recordo com viva saudade desses tem pos, que para m im tão venturosos foram . Mas, Alinska, eu vos conj uro, salvai-vos, e salvai-m e tam bém da desesperação que m e rala; fazei um esforço sobre vós m esm a, e não cogiteis vingar-vos com o m e haveis certificado na virulenta carta que há tem pos m e dirigistes...

— Tranquilizai-vos, Eduardo; desde o dia em que vos escrevi, as m inhas ideias m udaram inteiram ente o seu curso. Não será por certo por m eios ordinários que busque essa vingança; devo aguardá-la de um poder superior ao dos hom ens; ela depende hoj e m enos da m inha vontade, do que desse Ente Superior, que pune severam ente aqueles que perj uram o seu nom e. Quisera m esm o que ele renunciasse a essa vingança; m as os votos que a este respeito form asse, seriam sem resultado: esse Deus de j ustiça não revogará decerto a sentença terrível que proferiu!...

A gravidade com que Alinska pronunciou estas palavras, produziu em Delm ont súbito terror. Todavia, costum ado a tratar (com o alguns de seus sem elhantes) esta sorte de negócios, com a m ais excessiva ligeireza, sentia naquele m om ento, que se a Providência se não havia constituído positivam ente protetora das am antes abandonadas, ela im punha ao m enos a punição aos sedutores, por m eio dos rem orsos que de contínuo lhe carcom iam a consciência!...

Delm ont esforçava-se para repelir esta horrível ideia; e dirigindo-se a Alinska com afabilidade, e estendendo-lhe a m ão:

— Espero — lhe disse ele, — que o nosso Criador há de perdoar a ofensa que vos fiz, se fores assaz generosa para tam bém a olvidares. Não rej eiteis com tanto desdém esta m ão que vos ofereço. Assinem os entre am bos um tratado de paz. Provai-m e que sereis fiel à vossa prom essa, e que o sossego que ora desfruta m inha m ulher, não será por vós perturbado.

— E sois vós, Eduardo, que vos atreveis a pronunciar a palavra fidelidade! Por que m otivo deveria eu ser m ais fiel do que vós? Depois de haver rom pido os j uram entos m ais sagrados, vós, que talvez vos dizeis hom em de honra, acreditaríeis acaso, que os outros vos devessem guardar lealdade? Ou, aviltar-vos-íeis a tal ponto, que chegásseis a form ar m elhor opinião dos outros, do que de vós m esm o? Além disso, que m e im porta a m im o sossego de vossa m ulher? Não destruístes vós para sem pre aquele de que eu gozava? Esforçar-m e-ei contudo em ser superior a vós; os m eus tiros dirigir-se-ão unicam ente ao vosso coração; se não puder vencer-m e, serei inexorável a vosso respeito: vós tam bém o fostes para com igo!...

O rigor desta resposta acabou de aterrar o coronel: parecia-lhe insuportável, e contudo nada tinha de exagerada.

No m eio da sua exasperação, nem se lem brava da velocidade com que o tem po cam inhava, nem que o sol principiava j á a dourar os lim ites do horizonte, nem finalm ente que eram horas de voltar ao castelo. Todo ocupado da situação do m om ento, nada podia distraí-lo. Alinska, apesar de tão agitada com o ele, foi quem prim eiro lhe lem brou os seus deveres.

— Aproxim a-se a hora de j antar — lhe disse ela; — a vossa caçada não poderia prolongar-se por m ais tem po, sem causar pungentes cuidados àquela, cuj o repouso vos é tão caro. Ide por este cam inho; ele vos conduzirá diretam ente ao castelo; por um atalho aí m e dirigirei tam bém . Adeus, Eduardo, nada m ais m e resta dizer-vos; m as quanto não receio por vós as iras do céu!

Ao pronunciar estas palavras, sem esperar outra resposta, subiu Alinska a pequena escada por onde descera, e em breves m om entos sua rápida carreira a ocultou de todo aos olhos de Delm ont, que tendo subido após ela ao alto da colina, buscava com inquieto olhar o rasto de um a m ulher, que havia nascido para deleite e para torm ento da sua vida. Longa e dem orada foi a sua m archa; o astro do dia j á tinha com pletam ente desaparecido; j á o m anto da noite principiava a desdobrar-se sobre a terra, quando o am argurado coronel chegou ao castelo. Já ali encontrou a húngara, assentada j unto de Helena, prestando a m ais viva atenção a um lenço que bordava.

O serão se passou silenciosam ente: o tem po ainda não tinha podido m artirizar a pungente dor de madame Delm ont; conservava-se quase sem pre em constante im obilidade, com um livro na m ão, sem voltar um a só folha, deixando cair sobre ele de espaço a espaço um a furtiva lágrim a: a m ais profunda m elancolia a dom inava; e só por m om entos, recuperando o exercício de seu espírito abatido, testem unhava a seu esposo a expressão da sua ternura. Não consentia que sua filha se desviasse j am ais de seu lado. Se algum as vezes, arrebatada pelo seu ardor natural, Julieta se olvidava dos preceitos de sua m ãe, esta saía precipitadam ente do quarto, cham ando-a em altos brados, e só se tranquilizava quando voltava em com panhia da m enina. Então por m uito tem po ela se entretinha, contem plando a risonha fisionom ia de Julieta; figurava-se-lhe, que j á se achava im pregnada da terrível enferm idade que lhe havia roubado o seu caro Eugénio. O seu desespero não tinha lim ites; em vão lhe dava o doutor a m ais positiva segurança a respeito da saúde de sua filha; apenas conseguia m inorar as angústias, que tornavam a renascer a cada instante.

Eduardo, entranhavelm ente oprim ido à vista de tão cruel tristura, sentindo aum entar sua própria m elancolia, receava deixar sua m ulher sozinha; m as por outro lado ele sofria, j unto dela, todos os torm entos dum a alm a sensível e am argurada. Via que sua m ulher, toda entregue a Julieta, não conhecia que ela m esm a ia m inando os princípios de sua existência, abandonando-se a tanto extrem o. Um a palidez sinistra se divisava j á sobre suas faces; seus olhos se encovavam , e seu peito opresso deixava escapar a espaços, rouquenhos sons, com o se fosse atacada dessa terrível m oléstia, que só term ina às orlas do sepulcro!...

No seguinte dia veio ao castelo o facultativo. Entrou conj untam ente com o gentil-hom em Bérneval. Este, dom inado sem pre por insaciável curiosidade, espreitava com im paciência o feliz m om ento de se encontrar com a m isteriosa estrangeira, cuj a história se lhe figurava tão interessante. Já tinha vindo m uitas vezes, sem poder j am ais satisfazer os seus desej os. Não se lisonj eava pois de a encontrar, quando, com a m ais viva satisfação, a descobriu assentada ao lado da cham iné, tendo Julieta sobre seus j oelhos. Não era por certo o tato das conveniências, a qualidade que m ais distinguia a pessoa de Bérneval. Costum ado a viver no cam po com pessoas a quem se j ulgava superior, não podia contrafazer seus hábitos: ignorava todas essas delicadezas, que são entre a sociedade o apanágio das pessoas bem educadas; e ufano de sua elevada prosápia, que talvez lhe pudessem contestar, ostentava-se afável para com aqueles, que supunha superiores a ele; grosseiro e austero para com os outros. Depois de haver tom ado assento j unto ao fogão, apressou-se logo em dirigir a madame Delm ont os cum prim entos da etiqueta, e voltando-se para Alinska:

— Madame! — lhe disse ele — (ainda que este título talvez vos não pertença, porquanto ignoro se sois ou não casada): não é culpa m inha se há m ais tem po vos não rendi as m inhas hom enagens. Há dias que m e apresentei à vossa porta, e vosso escudeiro (Deus o tenha em bom lugar!) se recusou grosseiram ente a introduzir-m e j unto a vós. Na verdade, quase que deveria regozij ar-m e com o incêndio que devorou a vossa propriedade, porquanto é unicam ente a este desastre que devo a honra de vos tributar os m eus respeitos.

Este m odo de explicar-se não podia agradar a nenhum dos circunstantes. Alinska, a quem este discurso se endereçava, não vendo nele um a interrogação direta, continuou silenciosa, ao passo que o doutor, j ulgando obsequiá-la, se apressou a perguntar-lhe novas da sua saúde: agitou então os lábios e em breves palavras respondeu a esta pergunta. M. Bérneval, pouco desconcertado pelo enj oo, que poderia notar sobre todos os sem blantes, se voltou para Mélervant:

— Bofé, sapientíssim o doutor! vós possuís um privilégio que eu por certo não gozo! Tivestes a ventura de obrigar a falar esta interessante dam a!...

— Não há dúvida, senhor, que ela m e fez a honra de responder; m as devo essa fineza à pergunta que lhe fiz, a única por certo, que um a pessoa bem educada tem direito a dirigir a qualquer indivíduo, com quem não tem relações de intim idade.

— Bem m e haviam j á dito, m eu caro doutor — replicou o gentil-hom em , — que vós atiráveis furiosam ente para o liberalism o: assim o acabais de provar... Que pretendeis dizer, falando em pessoas bem educadas? Porventura não m e contais vós no núm ero delas?

Apesar da severa indiferença que se divisava no rosto de Alinska, e de sua ordinária im passibilidade, não pôde ele deixar de sorrir-se, ouvindo as im pertinentes expressões de Bérneval: madame Delm ont encolhia os om bros, e o coronel por m era prudência reprim ia em seus lábios a exprobração prestes a escapar-lhe contra o grosseiro personagem . Este, observando o silêncio do cirurgião, j ulgou havê-lo derrotado com pletam ente; continuou a dar largas ao curso de suas insignificantes palavras, referindo a nova contenda que travara com um de seus vizinhos, contra o qual j á tinha enviado ao prefeito do departam ento um a representação em form a, que esperava fosse atendida.

— E qual foi o crim e que ele com eteu contra essa autoridade — perguntou Mélervant, — para que vos dirigísseis a ela, sobre um a questão de m era com petência do j uiz de paz?

— Bravo! Excelente questão! Sabei, sr. esculápio do distrito, que qualquer hom em que se atrever a provocar-m e, não pode ser senão um fam oso j acobino! Basta isso para conhecer quanto deve ser prej udicial à sociedade um sem elhante biltre.

Delm ont, ainda solícito de m udar de conversação, perguntou a M. Bérneval, se era verdade que a paróquia teria enfim um cura em pregado unicam ente no serviço dela.

— É verdade, coronel — lhe respondeu ele; — fui j antar dom ingo passado com o excelentíssim o bispo; e este científico prelado, que se digna honrar-m e com sua particular benevolência, m e assegurou que antes de pouco tem po term inaria a nossa igrej a um a viuvez tão prolongada.

Madame Delm ont, tom ando então parte nesta conversação, perguntou ao nobre cavalheiro se sabia com o se cham ava o novo cura.

— Não, senhora, eu o ignoro — respondeu ele. — O que apenas posso dizer-vos é, que todos exaltam suas qualidades, o seu espírito conciliador, e a firm eza de seu caráter. Diz-se que tem m uita instrução, e que ainda que estrangeiro, se torna m uito digno do cargo que lhe é destinado. Já m e tarda de o ver entre nós; espero que por m eio de suas prédicas, consiga inspirar aos rústicos m ais subm issão, provando-lhes quanto lhes som os superiores; que, sobretudo, não deixará de esconj urar essas ridículas superstições que principiam a tom ar raízes entre o povo, ao m esm o passo, que a sua incredulidade vai tom ando m aior increm ento.

— As vossas palavras m e espantam , senhor — disse o doutor. — Vós inim igo dos supersticiosos, quando eu os j ulgava tão estreitam ente ligados com a m assa geral dos prej uízos!

— Ignoro o que pretendeis dizer, m eu caro: pela m inha parte detesto as superstições; porque elas desviam os aldeões de seus deveres. Desde que estes im becis se persuadiram , que este distrito era infestado de vampiros, não se atrevem a dar um só passo, durante a noite, fora de seus tugúrios.

— Vampiros!... Vampiros entre nós!... Acaso se propagaria tam bém em R *** um tão m iserável e ridículo em buste? Qual seria o louco, que se atrevesse a espalhar em França essas fábulas absurdas, que tanto têm desacreditado a Grécia e a Hungria?

Ao pronunciar estas últim as palavras, não pôde o coronel dispensar-se de lançar um olhar sobre Alinska. Ele a viu toda confusa e desconcertada: suas feições eram todas transtornadas, exprim indo singular horror; tinha aberta m eia boca; seus olhos estavam im óveis, e por um rápido m ovim ento, que súbito reprim iu, dem onstrou desej os de se levantar, e de retirar-se. Talvez que um a pronta reflexão desse ao coronel a chave de ouro, que lhe patenteasse a verdadeira causa do penoso sobressalto que Alinska experim entara.

Era im possível que um a criatura da Hungria não acreditasse na realidade dos vampiros: m uitas vezes ela havia falado ao coronel sobre a existência destes dem ónios. Havia-lhe contado grande núm ero de histórias, as m ais ridículas e extravagantes: só o nom e de vampiro infundia naqueles povos o m ais constante terror. Deveria Eduardo neste caso surpreender-se da com oção extraordinária que se apoderara de Alinska, ouvindo recordar tão inopinadam ente um a superstição, cuj a crença ela devia partilhar? Bem quisera ele dar novo curso à conversação; m as não lhe foi possível obtê-lo. M. Bérneval, m uito satisfeito de poder responder à questão que se lhe dirigia:

— É a um desgraçado — disse ele, — que j á não existe, a quem devem os o susto que atualm ente se acha espalhado nas aldeias. Foi o vosso criado Raul que contou a esses pobres habitadores dos cam pos a história desses m alfazej os entes, ávidos de sangue hum ano, quando eles pasm ados deploravam a trespasse singular dum a cam ponesa vossa vizinha. Desde então não tem sido possível desvanecer o pavor que deles se apoderou: não se enxerga um a só criatura, depois que o sol se esconde. As m ulheres saem unicam ente em pleno dia; e durante as trevas, raro é o hom em que se aventura a percorrer os cam pos. Por Deus, senhora, continuou o falador, dirigindo-se a Alinska, não queirais im itar este povo rude e idiota em seus loucos receios; tendes elevado espírito para não acreditar sem elhantes loucuras. Esses duendes feiticeiros ou vampiros só podem existir no cérebro do im becil, que prim eiro se atreveu a espalhar sem elhante patranha.

Aqui lançou a húngara sobre M. de Bérneval um olhar tão lúgubre, acom panhado dum sorriso tão terrível, que apesar do seu denodo, ele ficou suspenso com o interdito, no m eio do seu discurso, perdendo com a palavra esse ávido desej o de falar, que dele era inseparável.

O doutor, que ignorava o que o coronel sabia a este respeito, j ulgou poder tam bém praticar sobre esta m atéria. Principiou a gracej ar relativam ente aos ridículos sonhos que só na Grécia e na Hungria podem inventar-se. Desafiou todos os vampiros, para que se atrevessem a vir perturbar o sono de um hom em coraj oso; e levaria m ais longe este gracej o, se os reiterados e expressivos gestos do coronel o não interrom pessem . Um instante de silêncio se seguiu; quando madame Delm ont, falando depois:

— E por que m otivo — disse ela, — rej eitarem os nós obstinadam ente essas crenças m isteriosas? Sej a qual for a sua atrocidade, poderem os nós conhecer a fundo os m eios de que a Providência se serve para nos flagelar? Podem existir esses vampiros, e talvez m esm o que sej a a um desses m onstros que eu deva a prem atura m orte do m eu querido Eugénio!...

De repente, um grito agudo escapa do seio da estrangeira; levanta-se im petuosam ente; quer dar um passo, e cai sobre o sobrado, privada do uso de seus sentidos!...