A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro

Étienne-Léon de Lamothe-Langon · Capítulo 24 de 25

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A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro

Capítulo XXIII

 

Não era o sono, sem dúvida, que Delm ont ia buscar; as m ais cruéis ideias o preocupavam , e durante o resto da noite não fez m ais do que passear aceleradam ente, adm irando a espaços, por um a j anela, o efeito produzido pela lua sobre a vasta paisagem , que se desenrolava em torno a ele. Em vão pretendia duvidar da realidade da visão, que havia deslum brado seus olhos; todas as circunstâncias se reuniam , para o convencer de que se não tinha iludido. O prim eiro alvor do dia veio enfim surpreendê-lo em sua fadiga: então m enos agitado, sentiu dim inuir em seu espírito esse horror, quase invencível, que nos oprim e, enquanto reinam as som bras da noite; seu sangue m ais refrigerado corria com m enos dificuldade, e o seu coração j á não palpitava com essa violência, com que até ali nem sequer lhe perm itia resfolegar.

Todas as m anhãs vinha Julieta abraçar seu pai: estas carícias, eram para ele um a satisfação m isturada de am argura; m as que de m odo algum quereria dispensar. Naquele m esm o dia veio a m enina visitá-lo à hora costum ada: porém a sua fisionom ia, de ordinário risonha, estava m elancólica; e a m ais extraordinária palidez se via espalhada sobre suas feições!

— Estás doente, m inha filha? — lhe perguntou Delm ont, cheio de inquietação.

— Não, m eu pai — respondeu ela. — Mas não passei m uito bem a noite.

— E porque não dorm iste? Segundo as inform ações de Germ ana, é esse um dever que cum pres sem pre m aravilhosam ente.

— Oh! papá; de boa vontade vo-lo diria, se ela m esm a m o não proibisse.

— Talvez fosse m elhor não te questionar; contudo tenho viva curiosidade de saber a causa da tua insónia. Deve ser decerto m uito im portante, porque teu lindo rosto não se vê hoj e adornado das rubras cores, que lhe são tão fam iliares.

— E prom eteis-m e de não chorar, se vos disser a verdade?

— Espero ter a força necessária para resistir ao prim eiro m ovim ento, no caso de ser trágica a tua narração — replicou Delm ont com afetado sorriso, apesar de sentir j á em sua alm a um certo abalo de susto que o m ortificava.

— Pois bem ! Sabei que m inha querida m ãe, e o m eu Eugénio, vieram visitar-m e!... Dem oraram -se com igo quase toda a noite j unto ao m eu leito, para m e defenderem , segundo m e diziam , da ferocidade do dem ónio, que a eles m esm os assassinara, e que devia tam bém ressaciar-se de m eu sangue! Tive grande m edo quando os vi; m as depois fiquei m uito contente e sossegada. Eugénio parecia tão satisfeito! Minha m ãe olhava para m im com tanta ternura! Prom eteram que m e não perderiam de vista; e partiram ao rom per da m anhã, assegurando-m e que dali em diante nada tinha que recear. Falaram -m e de m uitas coisas; m as acreditareis vós, que nem um a só vez pronunciaram o vosso nom e, apesar de lhes dizer quanto vós os pranteáveis?... Quereis saber o que então fizeram ? Abanaram am bos a cabeça, e sorriram -se, sem nada m e responderem !...

A m enina poderia prolongar por m uito tem po a sua triste narração, sem que o consternado pai se atrevesse a interrom pê-la. Cheio de confusão, atorm entado por tudo quanto há de m ais terrível e pavoroso, estava m udo, im óvel, petrificado, com o se um golpe m ortal lhe houvera repassado as entranhas! A incom preensível coincidência que achava no relatório de sua filha, com a visão que havia presenciado, o m ergulhava num pélago de reflexões, de onde não podia arrancar-se. Surpreendido pela prim eira vez, de um terror supersticioso, para logo se sentiu dom inado pelo poder dos prej uízos. Todavia o tem po se passava; Julieta continuava em pé diante dele, esperando que lhe dissesse algum a coisa. Alfim , ele se resolveu a rom per o silêncio, e com voz enternecida agradeceu à m enina quanto acabava de dizer-lhe.

— Deves, m inha filha — lhe disse ele, — considerar este sonho com o um benefício do nosso Deus. Foi ele que quis dar-te a conhecer, que tua m ãe e teu irm ão te vigiam constantem ente do alto do céu, para te defenderem contra o dem ónio, ou para m elhor dizer, contra o pecado: eis aqui a explicação dessas palavras que pretendes ter-lhe ouvido.

— Oh! papá; quando eles vieram eu não dorm ia. Entraram pela porta do m eu quarto, que conduz ao salão de visitas. Não m e falaram do pecado, m as sim dum espírito m aligno, que nos quer perder a todos, e ao qual cham aram um vampiro. Eu bem sei o que isso é, porque o pobre Raul, antes de m orrer, m uitas vezes nos contava a história dessa m aldita raça: ainda posso repetir-vo-la palavra por palavra... Os vampiros, ou duendes...

— Eu a sei m elhor do que tu, m inha querida — interrom peu Delm ont. — Foram j ustam ente esses contos, que deveriam ocultar-vos, que albergados ainda na tua im aginação vieram esta noite perturbar o teu descanso. Acredita-m e, m inha filha; esquece-te do teu sonho, zom bariam de ti, se acaso o repetisses; passarias por um a m enina m edrosa; e se porventura quisesses afirm ar que não dorm ias, cham ar-te-iam até m entirosa. Enquanto a m im , não duvido da veracidade do que dizes; pareceu-te ver o que realm ente não era m ais do que um a ilusão: eis aqui tudo. O que te peço é que nada digas a madame Alinska: causar-lhe-ias grande m ágoa, e a m im igualm ente se acaso m e desobedecesses.

— Ficai sossegado a esse respeito, papá; j á estava prevenida para que nada lhe dissesse. Eugénio m o recom endou com eficácia; pretende que essa dam a é a m inha m aior inim iga!

Este novo golpe feriu j ustam ente o alvo onde parecia destinado. Delm ont, levantando-se logo para recuperar algum alento, despediu sua filha, para que nada m ais lhe dissesse que aum entasse o seu penar. Não podia conceber por que singular m otivo se haviam reunido no m esm o local tantas circunstâncias extraordinárias; por que fatalidade os erros de um sonho se viam revestidos com as m ais brilhantes cores da verdade. Ai!... ele bem sabia que um a m adrasta é quase sem pre a inim iga declarada dos filhos que não gerara. Seu pai tinha-se casado em segundas núpcias, e a m ocidade do coronel foi sem pre envenenada por m eio de querelas continuadas, de acusações inj ustas, de tentativas forj adas para o enredar com o autor de seus dias, ou para lhe arrebatar a m ais bela porção de seus bens. Pela prim eira vez a ideia de dar a sua filha um a m adrasta, lhe causou m edo! Lem brava-se do prej uízo que causaria a esta inocente, se se ligasse a outra m ulher; e a ternura paternal com batia neste m om ento aquele coração, j á por tantos m odos torturado!

Foi com a m aior surpresa que o coronel viu entrar Alinska à hora de j antar, na sala destinada para aquele fim . Ela afetava contentam ento, m as nem por isso deixava de transluzir através dessa forçada alegria o m ais reconcentrado despeito. Lançou seus olhares sobre Julieta, com a som bria expressão dum ódio com prim ido; m as só se abandonava a este transporte, quando os olhos de Delm ont se despregavam de seu rosto. Gracej ou a respeito da solidão que até ali guardara, prom etendo que dali avante, longe de afagar seus pesares, buscaria pelo contrário dissipá-los. Fez brilhar por tal arte o seu espírito, reunia naquela ocasião tantas graças e atrativos, que o coronel ao princípio receoso, pouco tardou em ceder à influência que ela desej ava exercer sobre ele. O passado, se porventura não pudesse de todo esquecer-se, era pelo m enos repelido. Eduardo parecia-lhe ver Alinska nos prim eiros dias de sua paixão recíproca: o seu delírio não teve lim ites, quando ela, tom ando a sua harpa que há tanto tem po não tinha interrogado, principiou a cantar com esquisito gosto o seguinte rom ance, que Delm ont outrora tinha ouvido, e que era a expressão dos sentim entos que a húngara se não atrevia a m anifestar: patenteava igualm ente o em baraço em que se achava na presença de um belo oficial, que colocado pela fortuna em um a situação m uito superior à dela, não parecia destinado a hum ilhar-se a corresponder ao seu am or. Eis aqui o

ROMANCE.

Diz-se que um a vez na vida

Sentir-se deve a ternura,

Que ao prazer se segue a pena,

Que há de sorrir-se a ventura.

Jovem da Hungria

Em ti confia...

O m al receio que aprecias tanto

Nesta m orada

'Stou descansada:

Mais vale a paz do que de am or o pranto!

É pois verdade que a ternura am ante

Ao coração involuntária desce?...

De m im se apossa em briaguez constante,

Nobre francês m eu vencedor se oferece.

Jovem da Hungria

Minha alm a esfria:

Se m e entrego a tão grato sentim ento,

Seduz nossa alm a,

Mas sua palm a

Causar-nos deve enfim cruel torm ento.

Am o, e de am ar não posso defender-m e,

Perco o repouso, perco a alegria:

À fé que inculcas poderei render-m e;

Ao teu olhar que é todo sim patia?...

Minha beleza,

Dum a francesa,

Não tem o encanto que os m ortais enlaça;

Sua ternura,

Sua fé pura,

Ou dão ventura, ou cruel desgraça!

Quando a bela estrangeira term inava a últim a copla do seu rom ance, o doutor que ninguém aguardava, apresentou-se no castelo. Surpreendido em ouvir tão harm oniosos cânticos, que porventura não deveriam ressoar debaixo daquelas abóbadas, que o luto não tinha ainda de todo abandonado, suspendeu seus passos no m om ento de entrar na sala, e um espelho colocado em frente da porta, lhe deu a faculdade de observar quanto ali se passava. Mélervant vinha com a intenção de se explicar com o coronel, a respeito de Alinska; e o que observava naquele m om ento o dispensava de encetar um a conversação que j ulgava inútil. Os transportes de Delm ont, o relancear de olhos da húngara, aquele acordo tão visível entre dois corações, que partilhavam os m esm os sentim entos; tudo lhe oferecia incontestável prova de que um am or m ais antigo, que até ali não acreditava, unia desde m uito aqueles dois personagens.

As m ais horríveis conj eturas desabrocharam de súbito em seu coração; m as ele as repelia indignado; envergonhava-se delas!... Não lhe era possível duvidar da lealdade do coronel, contudo a fera e som bria Alinska j á lhe não inspirava a m esm a confiança que até ali. Seus olhos penetravam naquele m om ento profundos m artírios, que o faziam estrem ecer horrorizado! Entretanto, j ulgou conveniente apresentar-se, entrando na sala na m esm a ocasião em que o coronel, todo transportado de satisfação, pedia a Alinska que cantasse segundo rom ance. A sua presença pareceu contrariar a húngara, que passados os prim eiros cum prim entos, abandonou a sociedade, retirando-se ao seu quarto.

Delm ont, m ortificado pela sua retirada, que por assim dizer, o deixava entregue ao poder do doutor, bem desej ara que algum a visita viesse interrom pê-los; nenhum a se apresentou; nem o m esm o Bérneval, que tinha por costum e vir todos os dias j ogar um a partida de xadrez com o coronel.

O desm ancho deste últim o era visível; inspirava um a espécie de com paixão àquele que o causara: por isso, para de algum m odo o term inar, ele m esm o se resolveu a principiar o ataque.

— M. Delm ont — lhe disse ele, — sei que sois um hom em honrado, e j ulgo-m e com algum direito à vossa estim a. Dignai-vos responder com franqueza a um a única frase que vou dirigir-vos: ela nada terá de hostil; servirá apenas para eu regular a m inha posterior conduta. Conhecíeis vós a bela estrangeira, que agita há tanto tem po o m eu coração, antes de vir a este distrito?

— Doutor — respondeu o coronel com profunda com oção, — se outro qualquer m e interrogasse, responder-lhe-ia com o m ais obstinado silêncio; m as conheço quanto sou culpado a vosso respeito; só posso reparar o m eu erro, respondendo-vos com a m aior lealdade. Alinska foi a prim eira m ulher que soube inspirar-m e verdadeiro am or. Achava-m e então na sua pátria; não m e foi possível triunfar da sua virtude, e contudo pude esquecer-m e dela, apesar de m e achar com prom etido por m eio das m ais solenes prom essas! Ela nunca renunciou à posse do m eu coração; veio procurar-m e a França; soube que eu vivia retirado neste distrito; apresentou-se em m inha casa sem m e prevenir; e enquanto existiu m inha infeliz consorte, nunca eu quis alim entar a paixão que tão violentam ente a devorava. Eis aqui toda a verdade; j uro pelas condecorações dos bravos, que m e adornam , a realidade dos factos que acabo de descrever-vos.

— Basta, coronel, não pretendo saber m ais; só m e pesa que vos não dignásseis de m e haver feito há m ais tem po esta confidência.

— E podia eu fazê-lo, m eu am igo? O segredo dos outros acaso nos pertence? Deveria divulgar o de Alinska? Agora m esm o só a vós o tenho revelado, e a m ais ninguém o transm itirei.

— Adeus, M. Delm ont, sede feliz, quanto sinceram ente vos desej o! Que o futuro possa fazer-vos olvidar todas as desventuras do passado!

Depois destas palavras, retirou-se Mélervant a despeito das vivas instâncias do coronel para o engaj ar a j antar com ele.

— Não: perm iti-m e que m e ausente; não devo perturbar com a m inha presença os sentim entos da estrangeira. Ela estaria constrangida; e eu m esm o não seria satisfeito diante dela. Ainda outra vez, adeus, coronel; recebei, ainda o repito, os sinceros votos que form o pela vossa com pleta prosperidade.

Tudo era sem dúvida m uito natural e conveniente, de quanto dizia o doutor; m as Delm ont, apesar disso, j ulgou surpreender em suas palavras o tipo da m ais severa repreensão. Não obstante, ele soube conter-se, repelindo para longe de si quanto o procedim ento de seu am igo podia inculcar de ofensivo.

Algum as sem anas se passaram depois deste incidente, durante as quais, abandonando-se Delm ont gradualm ente ao pendor de sua alm a, se deixou dom inar de novo pela virgem da Hungria! Esta, ora parecia venturosa deste sentim ento, ora se entregava à sua habitual m elancolia. Quanto m aior era a preponderância que tom ava sobre seu antigo am ante, m ais ela se abandonava aos m ais extravagantes caprichos. Sobretudo testem unhava à pobre Julieta a m ais extraordinária aversão! Dir-se-ia que a presença desta infeliz m enina lhe despertava entranhável pesar. Era em vão que procurava vencer ou dissim ular esta singular antipatia; não o podia conseguir; m anifestava-se em todas as suas ações; transluzia em todos os seus olhares! Delm ont não pôde dissim ulá-lo por m uito tem po; testem unhou a sua surpresa; não pôde ocultar até o dissabor que esta circunstância lhe causava.

— Oh! Eduardo — lhe dizia a estrangeira; — eu m esm a m e acuso deste procedim ento m ais do que podeis im aginar. Conheço quanto é inj usto o ódio que consagro a esta am ável criatura; m as pode alguém reprim ir os im pulsos do seu coração? Só eu deveria ser árbitro absoluto daquele que possuis, e tudo quanto pode recordar-m e, que outra m ulher o dom inou, m e é aborrecível e insuportável. O tem po, eu to asseguro, há de tornar-m e m ais razoável; m as por enquanto não m e é dado triunfar de m im m esm a. Am ando-te m ais que nunca, tornei a revestir-m e da m inha fraqueza hum ana. Tem com paixão de m im ; releva algum as das penas que m e atorm entam desde o fatal m om ento em que m e abandonaste.

Este discurso entrecortado de suspiros e acom panhado de abundantes lágrim as arteiram ente derram adas, acalm aram consideravelm ente a agitação do coronel. Julgou necessário desviar para longe daquela que tanto o fascinava, um obj eto que se tornava involuntário m otivo de m il desgostos e dissabores; e sem prevenir Alinska, conduziu um a m anhã a Tolosa a sua Julieta, m etendo-a com o pensionista no convento das religiosas de Malta, e lisonj eando-se ao m esm o tem po que esta separação seria m om entânea; m as a Providência havia ordenado de outro m odo.

A inexplicável Alinska ressentiu viva m ágoa pela partida da m enina.

— Obrigá-la a sair de vossa casa — disse ela ao coronel, — é o m esm o que violentar-m e a sair igualm ente. Era por causa dela que aqui m e dem orava; e um a vez que se separe da vossa com panhia, com que pretexto poderei eu continuar a residir j unto a vós?

— Com aquele que seria para m im o m ais apreciável, Alinska — replicou com ternura o seu am ante. — Com aquele que há m uito tem po desej ava oferecer-vos, se porventura as leis da civilidade e das conveniências sociais m o não vedassem . Vós j á éreis m inha quando tive a loucura de levantar entre nós barreira invencível; m as a Providência dignou-se destruí-la... negar-m e-eis acaso o cum prim ento de um ato que noutro tem po vos teria talvez aditado?

Alinska devia esperar sem dúvida esta declaração; m as ela não pôde ouvi-la sem m anifestar a m ais viva com oção; parecia com o interdita enquanto Delm ont lhe falava. Mil diversos sentim entos tum ultuavam em sua alm a, experim entava ao m esm o tem po a influência da ventura e do desespero; via aproxim ar o m om ento em que devia decidir-se a sua existência; conhecia até que ponto deveria levá-la a m issão que se lhe oferecia; em seu coração só devia existir o sentim ento da vingança; m as o am or que triunfa de tudo quanto vegeta sobre a terra, suprim ia um a parte dessas palpitações que o inferno excitava! Pálida e oprim ida, assustava-se Alinska com a resposta que ia dar. Era em vão que esse poder absoluto, que a dom inava, pretendia im por-lhe silêncio: seus sentidos constituíam -na ainda um a criatura terrestre, dando-lhe por consequência a energia necessária de entrar com pertinácia num a luta tão singular. Portanto, fazendo um esforço sobre si m esm a, exclam ou por este m odo:

— Não, Eduardo, não m e faleis de um a cerim ónia, à qual noutro tem po ligava toda a felicidade da m inha existência. Posso porventura ser hoj e vossa, quando não pertenço a m im m esm a? Além disso, quais são as vossas preterições? Insensato! que união vos atreveis a desej ar? Quereis que vá prostrar-m e aos pés dos altares, que para sem pre m e repeliram ? Já vos disse, que banida do tem plo do Senhor, por um a terrível m aldição, não m e é dado penetrar j am ais nesse augusto Santuário. Vós j ulgaríeis que ele nos seria franqueado; m as eu não deixaria de ver sobre o lim iar desse m aj estoso alcáçar, um anj o exterm inador, que vossos olhos m ortais não poderiam enxergar! Vós m e am ais, dizeis vós? Pois bem ! dai-m e a prova, não m e im portunando por m ais tem po. Acredito na vossa ternura; tanto deve bastar-vos; pela vossa parte não podeis duvidar da m inha.

— É porque essa ternura brada ao m eu coração, que eu pretendo apossar-m e dela. Cruel am ante, é tem po de recuperar a vossa razão: não forj eis na vossa im aginação novas quim eras. O suicídio, ainda que não realizado, é aos olhos da Divindade um crim e atroz; m as, sendo certo, que todas as faltas são perdoáveis por m eio de sincero arrependim ento, por que m otivo seria a vossa perseguida com inflexível rigor?

— Eis aí com o são os hom ens! Acusam de insensatos todos aqueles que lhe falam daquilo que não com preendem , ou que lhes anunciam verdades, que não podem penetrar! Sabeis porventura, se o m om ento em que j ulgais realizar a nossa recíproca felicidade, não sej a aquele da nossa eterna separação?... E esta separação, acreditai-o, cobre-m e de susto e de horror!... Aqui ainda podem os viver j untos; além (continuou ela, baixando a voz) m archarem os am bos por cam inhos diam etralm ente opostos. Que diria o levita, perante o qual eu fosse aj oelhar?...

— Possuiria ele o dom de adivinhar? — replicou Delm ont. — Instruí-lo-iam do crim e, que am or vos obrigou a com eter na Hungria?

— Eduardo, Deus m arcou com terrível sinal a fronte do fratricida Caim ; eu tam bém trago sobre a m inha um sinal igualm ente form idável; vós não o vedes, é verdade; m as vê-lo-ia o m inistro de Deus; e então seria m ister separar-m o-nos para sem pre: tanto aqui com o na Hungria, existe um a porção de terra, sem pre consagrada e pronta para receber os corpos condenados a dissolverem -se!...

— Pobre criatura! Quanto vos não lastim o! Desse m odo vos alucinam os prej uízos da vossa educação; desse m odo vos opondes definitivam ente à nossa com um felicidade? Mas se tanto receais os rigores da igrej a, receareis acaso a união consagrada pelas leis civis?

— Oh! enquanto a essa, pouco se m e dá: um a m ão sagrada não tocaria a m inha...

A estas palavras, que Delm ont ouvira com algum a satisfação, nem por isso deixara de lançar um furtivo olhar sobre a luva preta, que constantem ente cobria a m ão de Alinska: esta extravagância inspirou-lhe súbita curiosidade; m as j ulgou não o dem onstrar; guardou para m elhor ocasião satisfazê-la.

— Desse m odo consentis em ser m inha? Nada m ais vos pedirei; m ais tarde acabareis de condescender aos m eus votos, e então...

Um sorriso m elancólico, um balancear de cabeça, que anunciava persistência no que havia dito, foram a única resposta da húngara! Delm ont afetou não lhe dar atenção: tudo esperava do tem po, e da força irresistível da sua ternura.