A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro

Étienne-Léon de Lamothe-Langon · Capítulo 10 de 25

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A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro

Capítulo IX

 

O tem po das vindim as j á tinha passado; Raul havia conseguido interrom per de todo as relações estabelecidas entre os filhos do coronel e a desgraçada Alinska. O m ovim ento e alegria, que se havia espalhado pelos cam pos e vizinhas quintas, em consequência da bela colheita de vinho, entretinha da m esm a form a as duas crianças. Acom panhavam alegres, os vinhateiros nos seus trabalhos: arm ados igualm ente de um a tesoura e de um cestinho, proporcionado às suas forças, aj udavam tam bém a despoj ar as vinhas dos doces cachos, que as ornavam .

Madame Delm ont, satisfeita da ventura de que seus filhos pareciam gozar, esperando ao m esm o tem po a próxim a vinda de seu m arido, seguia prazenteira os passos de Eugénio e de Julieta. Ela havia tam bém perdido o interesse ou curiosidade, que a loucura da sua vizinha lhe tinha inspirado; apenas de tem pos a tem pos se sorria com os transportes de cólera, que M. Bérneval não deixava de exalar, sem pre que se recordava da grosseira receção que tivera na casa isolada. Este pobre gentil-hom em nunca perdia ocasião de falar a este respeito; e a sua narração, acom panhada sem pre de expressões burlescas e extravagantes, não deixava de divertir a pequena sociedade que às vezes se reunia, ora em casa de madame Delm ont, ora na de outra fam ília, residente a pequena distância do castelo, aonde em quase todos os dom ingos concorriam em grande núm ero as pessoas de Tolosa, a fim de ali se divertirem . Naquela casa tudo era satisfação, tudo alegria: um as vezes esta se aum entava pelas cóm icas e divertidas cenas, inventadas e dirigidas por um j ovem advogado, o qual se entretinha m ais em fazer rir os outros, do que em advogar a causa dos seus clientes; outras vezes era um m ilitar im petuoso, que referia a história de suas aventurosas cam panhas, ou que se dispunha a fazer várias habilidades, que j am ais tinham feliz resultado. A m úsica, a que presidia o dono da casa, dava um novo realce àqueles serões; a m elodiosa voz de sua esposa, o talento de vários curiosos, que ali concorriam , tornavam na verdade m uito deleitosa aquela reunião; ao passo, que a um dos lados da sala se sustentava espirituosa conversação, por um célebre m édico, tão am ável na sociedade, quanto discreto para com os seus doentes; e por um a j ovem dam a, cuj o espírito e preciosas qualidades, lhe atraíam a estim a e adm iração de todos.

Algum as vezes redobrava o prazer do círculo, pelas pretensões um pouco exageradas de algum as belas, que se excediam em fazer realçar a sua beleza; referiam -se galantes provérbios e chistosos enigm as; ouviam -se os enfados de tal j ogador de boston, que aproveitava o seu tem po a galantear as dam as, e a ralhar com os parceiros; faziam recitar alguns versos, a um célebre autor, cuj as obras dram áticas dorm iam há m uito tem po no arquivo do teatro francês; ao passo que os espetadores que o escutavam , principiavam tam bém a dorm itar; finalm ente, buscava-se por todos os m odos entreter o tem po, que na verdade parecia deslizar para todos, alegre e prazenteiro.

Madame Delm ont, apesar do m uito am or que tinha ao seu retiro, não deixava de concorrer gostosa a estas reuniões; partilhava os divertim entos que ali se desfrutavam ; e com o ela cantava peregrinam ente, acom panhando-se com a sua harpa, não podia dizer-se que fosse um ente nulo em tão grata com panhia.

Tinha findado o m ês de outubro: ia raiar o segundo dia de novem bro, consagrado aos finados; o ar estava sereno, e o sino da igrej a fazia ouvir distintam ente seus lúgubres e m elancólicos dobres, que convidavam os fieis à oração: j á no salão se principiava a falar da m isteriosa estrangeira; j á todos se dispunham a separar-se para ir gozar de algum descanso, quando, surgindo, quase ao m esm o tem po, do fundo de um vale um a viva claridade, que de súbito repercutiu nos arredores, o sino que até ali solicitava algum as preces pelos m ortos, deixando seu som sinistro, fez ouvir de repente o terrível sinal de alarm e. Um profundo silêncio veio substituir os risos e os folgares dos circunstantes. Todos prestaram ansiosos seus ouvidos; em breve se ouve o m edonho grito:

— Fogo!... fogo!... Ou é em algum a m eda de palha, ou em algum a casa!...

Todos correm às j anelas; dilatam seus olhares sobre o cam po, para o lado onde se divisava o clarão. Madame Delm ont foi a prim eira que conheceu a verdade.

— Julgo não m e enganar — disse ela, — m as parece-m e, que o fogo é na casa onde reside a estrangeira!...

Não se havia enganado; esta asserção, foi logo confirm ada pelo geral clam or. Os hom ens corriam com velocidade, para prestar socorro ao lugar incendiado; ao passo que as tím idas senhoras vacilavam sobre o partido que deviam tom ar. No m eio desta desordem , saiu Helena sozinha; e acom panhada de Raul, que por ela esperava, e que no cam inho não cessava de lhe repetir, que não devia ir pessoalm ente ao sítio do desastre, nem por isso deixava de precipitar seus passos, sem querer escutar as im portunas observações do sargento; tal era o nobre sentim ento que dentro da alm a lhe pululava, para ir socorrer a infeliz estrangeira! Quando chegou ao teatro do incêndio, foi com a m ais entranhável dor, que contem plava o desastroso progresso das furiosas cham as; j á não havia a m ais pequena esperança de salvar a casa! As em bravecidas labaredas a cercavam por todos os lados; nutridas pelo vigam ento e m adeiras, precipitavam -se pelas j anelas, elevando-se j á acim a do telhado! Era em vão que alguns cam poneses benfazej os em pregavam seus desvelos e vontade; faltavam -lhes os m eios de socorro; ninguém podia presenciar tão horrível catástrofe sem que sentisse estorcer-se-lhe de m ágoa o coração!

Assim que madame Delm ont ali chegou, o seu prim eiro cuidado foi, de perguntar pela estrangeira. Designaram -lha, um pouco desviada, sobre um pequeno cabeço, em brulhada num lençol, que a sem elhava ao hediondo aspeto dum a som bra, indignada contra os hom ens: seu rosto estava pálido, seus olhos espantados; nem a m ais pequena expressão de vida os anim ava! Ninguém podia interpretar aquele m odo indiferente, aquela insensibilidade incom preensível.

Vagueavam j unto dela, aproxim avam -se para lastim á-la, para a consolar; ela nada respondia, continuava sem pre a guardar o m ais profundo silêncio. Só a chegada de madame Delm ont pôde arrancá-la de tão letárgico entorpecim ento: reconheceu-a logo, por isso que um singular sorriso se via brincar sobre seus lábios; m as esse sorriso desapareceu m ais rápido do que o relâm pago, e Alinska tornou de novo a em bevecer-se em suas m isteriosas m editações.

— Madame — lhe disse Helena, de um m odo consternado, — tenho sabido respeitar até este fatal m om ento vossas vontades, abandonando-vos à vossa solidão; m as agora que a desventura desfecha sobre vós golpes m ais penetrantes, consenti que vos suplique m e acom panheis ao castelo. Não vos resta a m enor esperança de continuar a viver nesta m orada, que em breves m om entos não será m ais, do que um m ontão de ruínas. Aceitai pois um asilo, que de bom grado, e com a m ais sincera estim a, vos ofereço.

Alinska, ouvindo madame Delm ont, pareceu tornar a si com pletam ente; procurou dissipar as som bras m elancólicas, que cobriam seu rosto; e aceitou, sem constrangim ento ou violência, o oferecim ento generoso que se lhe fazia. Disse a Helena, que pela volta da m eia-noite, ficando talvez m al extinto o fogo da cham iné, ele se acendera de novo; que algum as fagulhas, segundo j ulgava, tinham inflam ado um pouco de linho, que se achava por baixo de um arm ário, e que logo depois o incêndio se m anifestara: Apenas (continuou ela) pude lançar pela j anela do m eu quarto, alguns vestidos, a m inha bolsa e j oias; e precipitando-m e pela escada, j á quase abrasada, corri a buscar um asilo, onde não pudesse sentir a ação das cham as; m as não vej o o m eu pobre criado! Que será feito dele?

— Vi-o correr na direção da aldeia — replicou madame Delm ont, desej osa de ocultar à estrangeira a triste verdade que conj eturava, — m as vós, senhora, é m ister sair deste lugar; a noite vai fria, estais quase nua, e esse lençol não poderá preservar-vos da im pressão do ar. Segui-m e portanto; encontrareis em m inha casa um asilo, que m uito m e lisonj eio de poder oferecer-vos.

Alinska repetiu ainda os seus agradecim entos. As pessoas, que tinham seguido madame Delm ont, quiseram , cada um a, tom ar um a porção da ligeira bagagem ; e j untas com ela, aliás m uito satisfeitas de poderem enfim conhecê-la, todas subiram a próxim a colina, e chegaram ao castelo.

Raul, de quem nos não tem os ocupado até este m om ento, achava-se subm ergido na m ais com pleta confusão. Não podia fam iliarizar-se com a ideia de ver Alinska habitar o m esm o teto onde sua am a residia; j á previa a terrível cena que haveria, quando chegasse o coronel. Um pressentim ento particular lhe fazia tem er as m ais cruéis catástrofes; e, cedendo a um prim eiro m ovim ento, esteve por duas vezes a abrir a boca, a fim de revelar a madame Delm ont a terrível verdade, e dar-lhe a conhecer a em peçonhada serpente, que em seu seio ia afagar e aquecer; m as, receando as consequências dum a confidência, que só ele sabia avaliar, pôde reprim ir o segredo, que seu coração parecia disposto a expulsar. Um severo golpe de vista, que lhe lançou sua cruel inim iga, com pletou o seu desespero; m as não obstante, ele protestava no fundo de sua alm a de a vigiar de tal m odo, que lhe não ficasse am pla liberdade, para poder agitar as diversas m olas de seus infam es desígnios.

Para a não perder de vista, tinha ele seguido em silêncio o grupo, que a acom panhava.

Os aldeões, que tinham ficado em torno da incendiada habitação, descobriram , debaixo de abrasadas ruínas, os restos de um cadáver, horrivelm ente m utilado, cicatrizado pelo fogo, e que j á principiava a decom por-se pela putrificação: exalava um cheiro infecto; a cabeça tinha perdido a sua prim eira form a, ninguém podia reconhecê-lo! Todavia, com o este cadáver foi descoberto j unto dos destroços de um leito, ninguém duvidava, que fosse o do desgraçado dom éstico da estrangeira; tanto m ais que, desde que o incêndio se declarara, ninguém tinha visto aquele m iserável. Todos ficaram surpreendidos pela rapidez com que o cadáver se havia decom posto; e concordaram , entre si, de voltar de dia, para o sepultarem . Mas este piedoso proj eto não pôde realizar-se: um pedaço de parede, que algum as vigas ainda sustinham , desabou sobre o lugar onde j aziam as tostadas carnes, e ossadas do finado; as cham as tornaram a acender-se com violência; tudo consum iram , não deixando deste indivíduo m ais de que um a fraca lem brança, que em breve de todo desapareceu da m em ória dos hom ens.

O préstito, que acom panhava Alinska, tinha chegado, com o dissem os, ao castelo. Madame Delm ont resolveu a sua hóspede a deitar-se sem dem ora; e querendo Germ ana aproxim ar-se a ela, para a desem baraçar de algum as roupas que a cobriam , Alinska a repeliu rudem ente, pedindo a deixassem só por alguns m om entos, no quarto que lhe era destinado: a expressão de severa vivacidade, com que fez esta súplica, não deu lugar às m ais pequenas obj eções da parte daqueles que a escutavam . Deixaram -na, pois, segundo os seus desej os, em plena liberdade; e quando se persuadiram que j á estaria deitada, entraram no quarto, para lhe oferecer um caldo, e alguns refrescos. Recusou tudo com obstinação inaudita, declarando, que no estado em que se achava, lhe não era possível tom ar coisa algum a; e insistindo um a das dam as para que bebesse ao m enos um cálice de vinho quente, ela desviou esta bebida por um gesto, que fez com a m ão esquerda; a qual madame Delm ont observou, com surpresa, que ainda se achava calçada. Esta descoberta adm irou-a sobrem odo; m as outro m otivo, m uito m ais grave, veio aum entar o seu pasm o, quando Germ ana, levantando casualm ente os lençóis, que cobriam a estrangeira, observou que eles estavam m anchados de sangue!

— Vós estais ferida, senhora — lhe disse Helena, com íntim a em oção, — porque não quereis que vos prestem os serviços que o vosso estado exige? Para que vos recusais a um a coisa tão natural? O acaso favorável quis deparar-vos, entre os cavalheiros que aqui se acham , um fam oso facultativo, cuj o m erecim ento é assaz reconhecido em Tolosa. Consenti que ele vos preste os seus serviços; a palidez, que cobre o vosso rosto, m anifesta a precisão que deles tendes.

— Não, senhora, não! — exclam ou a estrangeira com certa aparência de desconcerto, que não era fácil definir — Não preciso, nem exij o o m ais pequeno socorro. É verdade, que m e acho ferida; m as há m uito tem po que o estou; o m al que m e fez, j á term inou; doravante nada tenho que recear; e ao preço de um a vida, quando m e fosse possível de novo encetá-la, não quisera expor aos olhos dos profanos m inha ensanguentada cicatriz. Eu m esm o cuidarei nela; deixai-m e, eu vos suplico, entregue por alguns instantes às m inhas reflexões: sossegai os vossos receios; não é para m im que o perigo se torna m ais am eaçador.

Havia nestas palavras um tal m isto de sensibilidade, de negligência, e até de ironia, que aqueles que as escutavam , não podiam deixar de estrem ecer. Todavia não j ulgaram oportuno opor-se por m ais tem po a um a vontade tão expressa: e depois de lhe acenderem um a pequena lâm pada, e posto a seu lado um a cam painha, todos se retiraram em silêncio, para irem m editar longe do sítio, sobre o m istério que parecia envolver esta j ovem criatura.

Madame Delm ont ofereceu aos circunstantes novos refrescos, os quais foram aceites com reconhecim ento; e a conversação, que depois teve lugar, só term inou com o nascim ento do dia. Cada qual se retirou depois à sua habitação; e aqueles que m oravam m ais perto, voltaram dentro de poucas horas para se inform arem do estado da infeliz enferm a. Ela se levantou bastante tarde, e ninguém se atreveu a entrar no seu quarto antes de lhe sentir os passos. Então, madame Delm ont, batendo de m anso à porta do quarto, recebeu o grato convite de entrar. Viu que a estrangeira, tendo-se j á levantado, se achava vestida de preto; o que dava novo realce à extraordinária palidez de seu rosto.

A notícia da m orte do velho Ladislau, j á no castelo se sabia. Madame Delm ont j ulgou ser im possível ocultá-la à estrangeira, receando ao m esm o tem po causar-lhe dem asiada em oção, persuadida, com o estava, de que um sentim ento recíproco de afeição devia ligar estes dois entes m isteriosos. Em consequência, e para não precipitar dem asiadam ente a infausta nova, j ulgou m ais prudente preparar prim eiro Alinska para a ouvir; porém , os seus proj etos foram baldados: a prim eira palavra foi logo adivinhada; e a m ais plácida indiferença se divisou, tanto no rosto da húngara, com o na sua resposta: pareceu de todo insensível a esta narração, não dem onstrando sequer essa com paixão ordinária, que sente qualquer pessoa, quando ouve narrar tão dolorosos acontecim entos.

Um procedim ento tão singular causou a m aior surpresa a madame Delm ont; seu rosto e suas m aneiras não podiam ocultar o seu assom bro; e Alinska, que facilm ente o conheceu, apressou-se logo em reparar sua indiscrição.

— Causo-vos adm iração, madame. — lhe disse ela — Form ais talvez a m eu respeito um a desagradável opinião, não é verdade?... Deveria m ostrar talvez m ais sensibilidade, com a m orte do m eu pobre Ladislau; m as sabei que pouco lhe im portam a ele essas estéreis dem onstrações de interesse; nenhum as relações nos ligavam : tendo saído am bos do m esm o asilo, vivíam os j untos, porque assim nos era m ister. A vontade do Ente Suprem o, que tudo governa, quis separar-nos; pois bem , essa m esm a vontade não tardará m uito em reunir-nos de novo, e essa reunião não há de ser m om entânea; m as sim por toda a eternidade! Por que m otivo derram arei pois as m inhas lágrim as? Já nenhum as conservo nas m inhas pálpebras; secaram -se todas pela dor m ais pungente e dilacerante; derram ei abundância delas durante a m inha vida m ortal; agora, que só existo porque m e não é possível reclinar sobre o túm ulo, com o tanto desej ara, irei porventura ocupar-m e de um obj eto, que nada m e interessa? Oh! não; certam ente não. Um único obj eto m e anim a; só m e dirige um único alvo; e quando se achar cum prida a m inha m issão, abandonarei, indiferente, este invólucro m ortal, que j á não posso tolerar!...

Alinska poderia continuar a falar por m uito tem po, sem que madame Delm ont a interrom pesse. Havia um não sei quê de tão incom preensível, de tão inconsequente, em tudo quanto dizia, que não era fácil decidir, se deveriam tem ê-la ou lastim á-la. As palavras escapavam de sua boca, com tão m onótona expressão, que quase sem pre destruíam o efeito que poderiam produzir; a im obilidade de seus olhares tornavam -na com o estranha ao que dizia; tudo, finalm ente que dela dim anava, era fora das regras ordinárias; e o seu m odelo, ou a sua cópia não podia encontrar-se em parte algum a. Este extravagante discurso adm irou de tal m odo Helena, que não pôde achar expressões para lhe responder. Mudou portanto de conversação, perguntando depois à sua hóspede, se porventura quereria tom ar algum sustento. Alinska fez um gesto afirm ativo, e a nossa castelã saiu logo para dar as suas ordens, a fim de trazerem o alm oço, que de antem ão tinha sido preparado.

Os m eninos esperavam com im paciência o m om ento de poderem ser adm itidos na presença daquela, que lhes havia m anifestado tanta am izade; e por m uitas vezes, através da porta que se conservava entreaberta, j á a travessa Julieta tinha m ostrado sua engraçada fisionom ia. Com o ninguém parecia observá-los, conservavam -se quietos e m udos; m as quando viram entrar o alm oço, reanim aram seus brios, e penetraram , quase em tum ulto, dentro do quarto! Alinska recebeu-os com sorriso, que m uito se esforçava para inculcar benigno; súbito rubor veio corar suas feições, que ao m esm o tem po se contraíam , com o se o coração fosse trespassado naquele m om ento por terrível golpe! Nem Eugénio, nem sua irm ã o perceberam ; falavam , quase ao m esm o tem po, do desastre da noite antecedente; e o m ocinho Eugénio m ostrava j á um a prem atura sensibilidade, que poderia talvez perturbar seus dias, se a Providência lhe houvera reservado um a existência prolongada.

Madame Delm ont, ufana com a presença de seus caros filhos, prodigalizava-lhes as m ais vivas carícias; não podia separá-los de seus braços, ao passo que a húngara vivam ente agitada, sem dúvida por algum a dolorosa recordação, lançava, com o a furto, sobre este ditoso grupo, um olhar cheio de desdém , e no qual o observador sagaz não deixaria de divisar a m ais concentrada cólera. Muitas vezes, para dissim ular os sentim entos que dentro de alm a lhe referviam , escondia o rosto com suas m ãos, um a das quais se conservava sem pre com luva, e por bastos m om entos pareceu em bebida nas m ais fundas m editações!