A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro
Capítulo XX
No seguinte dia, quando madame Delm ont viu fazer os prim eiros preparativos para a j ornada, dem onstrou arrepender-se do engaj am ento, que havia feito na véspera. Renovando suas instâncias, bem quisera ela que seu m arido renunciasse ao seu proj eto; m as estes rogos foram inúteis; quaisquer que fossem os secretos sentim entos de Delm ont, sabia perfeitam ente qual era o seu dever, para se deixar vencer em sem elhante crise; m ostrou-se portanto inexorável, com o as circunstâncias o exigiam ; e as solicitações de um a m ulher, j á defecada pela enferm idade, foram inteiram ente infrutuosas.
Madame Delm ont, antes de partir, escreveu um bilhete a Alinska, para lhe participar, que, na com panhia de seu m arido e de sua filha, ia passar duas sem anas em Tolosa; que esta resolução fora tom ada precipitadam ente, e que por isso lha não tinha podido com unicar com antecipação; m as, que no caso de lhe ser possível, ela teria a m aior satisfação em que fosse visitá-la, e que desde j á lhe oferecia um a câm ara no edifício onde iam habitar.
O doutor, a quem tinham m andado prevenir de m adrugada, chegou na m esm a ocasião em que a fam ília ia entrar na sege de posta. Apenas o coronel, cham ando-o à parte, pôde dizer-lhe, sem entrar em m aiores detalhes, que a im aginação de madame Delm ont, achado-se possuída de assustadoras ilusões, ele j ulgara necessário distraí-la, a fim de dissipar esses supersticiosos vapores; e que para o conseguir, a conduzia por algum tem po ao m eio do tum ulto de um a grande cidade. Apesar da pena, que o doutor sentia pela ausência dos seus am igos, e do desej o de conferenciar com o coronel a respeito da estrangeira, não pôde desaprovar a resolução tom ada; prom eteu-lhes, que iria vê-los m uitas vezes a Tolosa, e todos se despediram com afeto e saudade.
Os grandes gelos tinham tornado praticáveis os cam inhos daquele distrito. Os viaj antes puderam seguir a estrada, que, subindo até Mervilla, atravessa o concelho de Auzeville, vindo j untar-se à que segue em pouca distância de Saint-Agne. Dois fortes cavalos os conduziram rapidam ente à hospedaria do Grand Soleil, em Tolosa; ali tom aram um m om entâneo aposento, até que o coronel concluísse o arrendam ento de um a casa, onde fossem definitivam ente residir. Esta casa era situada na rua dos Cordoeiros, quase em frente da igrej a do ex-m osteiro do m esm o nom e. Pertencia-lhe um vasto j ardim ; e a serenidade e pureza do ar era de tal m odo, que a fam ília Delm ont nada perdera com a m udança que fizera.
Naquela m esm a noite foram dorm ir à sua nova habitação. O coronel fez colocar o seu leito no m esm o quarto, que fora destinado para sua m ulher.
— Bem vedes — lhe disse ele gracej ando, — que venho colocar-m e num a posição vantaj osa para vos socorrer em caso de ataque: eis-m e aqui ao pé de vós, com a m inha espada, com as m inhas pistolas; enfim com todo o m eu arsenal de guerra, para com bater com vantagem o dem ónio que pretende m altratar-vos. Espero contudo, que não será necessário oferecer-lhe batalha, porquanto, estou certo que nos não seguiria a estes lugares: os espetros, ou espíritos m alignos não têm licença de vaguear pelas cidades; só lhes é perm itido penetrarem nos velhos castelos.
Estes gracej os não colheram resultado algum : madame Delm ont continuava tristonha e pensativa; o seu silêncio parecia inalterável; o m al que a oprim ia era terrível; ele lhe estorcia cruam ente o m agoado coração! Deitou-se cedo; o coronel ainda se dem orou algum tem po levantado; e quando, depois, se reclinou tam bém sobre o seu leito, ficou surpreendido do extrem o quebrantam ento que sentia; e tão depressa pousou a cabeça sobre o travesseiro, para logo veio Morfeu fechar-lhe as pálpebras. Despertou ao alvorecer do seguinte dia; e com o percebeu que sua m ulher se voltava a cada m om ento para escolher m elhor posição, resolveu-se a perguntar-lhe com o havia passado a noite.
— Sem pre do m esm o m odo! — lhe respondeu ela — É verdade que m udei de habitação, m as não de suplício!... Continuai a escarnecer-m e; m as o cruel vampiro ainda m e não abandonou; pelo contrário, pareceu-m e esta noite m ais atroz, m ais ávido do m eu sangue!
Esta resposta consternou Eduardo, dando-lhe a triste convicção, que o espírito de sua m ulher se achava de tal m odo enfraquecido, que difícil seria inspirar-lhe algum alento. Assaz instruído, para acreditar nos desvarios de Helena, via-se contudo obrigado a convencer-se, que ela sucum bia ao rigor de um a alucinação fatal, que desorganizava sua razão. Assentou que nada devia negligenciar para distraí-la; queria até obrigá-la a frequentar as sociedades, a ir ao teatro, esperando vencer (com o pretexto de lhe restituir a saúde) todas as obj eções, que lhe oferecia um a m ãe inconsolável pela m orte de seu filho. Naquele m om ento, j ulgando m ais oportuno guardar silêncio, nada replicou aos queixum es que acabava de lhe fazer. Levantaram -se am bos; e com o o tem po corria m agnífico, Delm ont lhe perguntou se não desej aria dar um passeio pela cidade; não a pé, pelo estado de debilidade em que se achava, m as sim de sege, o que decerto a não fatigaria.
Madame Delm ont j á tinha chegado a esse estado de m arasm o e de hipocondria, que nos torna indiferentes a tudo quanto pode deleitar-nos quando nos acham os em perfeito estado norm al. Viu contudo o prazer que o seu consentim ento causaria a seu m arido; anuiu com efeito ao seu convite, ainda que m uito pouco curiosa se sentia de gozar dessa distração. Partiram am bos depois de alm oçar, acom panhados de sua querida filha. Foram prim eiro visitar a casa m unicipal, pom posam ente decorada com o nom e de Capitólio: viram com o m aior interesse as salas, onde estavam reunidos os bustos dos hom ens m ais
ilustres de Tolosa; aquela, onde a academ ia dos j ogos florais [1], celebra as suas assem bleias particulares, e onde preside a estátua de Clem ence Isaure, restauradora daquela célebre instituição, esculpida em m árm ore branco. Os nossos viaj antes foram depois lançar um golpe de vista sobre a nova alam eda de Angulèm e, e m agníficas construções do castelo de água, situado num a das extrem idades da cidade, e que devia proporcionar-lhe os chafarizes e fontes que até ali lhe faltavam : trabalhos na verdade adm iráveis, e devidos ao zelo de M. de Bellegarde, maire de Tolosa, que, com sua adm inistração económ ica e paternal, m ereceu sem pre o reconhecim ento de seus concidadãos.
O m useu tam bém foi um dos obj etos que suscitou a curiosidade de monsieur e de madame Delm ont. Am bos tinham nascido em cidades, onde as artes eram apreciáveis, e cultivadas com feliz resultado: eram conhecedores da pintura e do desenho, para poderem apreciar dignam ente os excelentes quadros, que lhes eram patentes. Ficaram sobretudo m aravilhados à vista daqueles, cuj a existência era devida ao delicado pincel de um artista tolosano, pouco conhecido no resto da França, e que pela vivacidade do seu engenho, pelo fogo de suas com posições, se achava colocado a par dos m ais abalizados autores. António Rivals, superior à fam a que deixou, enriqueceu a sua pátria com prim ores que para sem pre farão seu nom e im ortal.
A parte do m useu, que era consagrada às antiguidades, com o aos m onum entos da idade m édia, atraiu a atenção de Delm ont, que era m uito curioso deste ram o de ciência. Adm irou o excelente arranj o de grande núm ero de obj etos curiosos, que cingiam por todos os lados um vasto claustro, no centro do qual se via um j ardim elísio. Inform ou-se do nom e daquele que fora encarregado deste arranj o, e sua adm iração cessou, quando ouviu nom ear M. Alexandre du Mege, sábio arqueólogo, e literato m uito distinto.
A hora de j antar reconduziu ao seu novo aposento a fam ília Delm ont. Helena não podia ocultar que se havia distraído bastante com a variedade de obj etos, que alternativam ente tinha contem plado. Achava-se m elhor; com eu com apetite; e até sobre suas faces m acilentas se enxergava um vislum bre de carm im , que parecia querer despontar furtivam ente do m eio daquele rosto de neve. A este aspeto consolador sentia-se o coronel cheio de esperança; todo entregue aos seus deveres, repelia essas ideias, que decerto se lhe figuravam crim inosas; esforçava-se até para banir um sentim ento im perioso, que triunfava de seus esforços, quando pretendia repeli-lo com m aior energia. A noite convidou-os de novo a entregarem -se ao descanso. Delm ont, querendo inspirar m aior coragem a sua m ulher, pediu-lhe licença para se deitar ao lado dela. Helena consentiu; prom etendo-lhe ele, que vigiaria enquanto pudesse, a fim de afugentar com sua presença o m onstro que ela tanto receava. Mas tem erária era por certo esta prom essa! Pouco tem po depois que se deitou, veio o sono atacá-lo com todas as suas doçuras. Lutou em vão com a influência desse fagueiro deus: teve que ceder-lhe a vitória, e seus olhos se fecharam a seu pesar.
Quando acordou, sentiu um a dor bastante aguda, que parecia nascer de seu coração. Apalpou esta parte do corpo; sentiu-a igualm ente dolorosa. Voltou-se para o lado da lâm pada, que ainda era acesa, e o seu pasm o não foi m edíocre, reconhecendo sobre a cútis o sinal de cinco dedos, m arcados com traços am arelos e denegridos!... Persuadiu-se prim eiro que esta pressão fora feita pela m ão de Helena; m as lem brava-se ao m esm o tem po, que m uito profundo havia de ser o seu sono, para que não despertasse com a terrível dor que deveria causar-lhe essa m esm a pressão.
Helena despertou tam bém do seu letargo; nada disse a seu m arido, a respeito de quanto ela ressentira durante a noite; m as este silêncio assaz explicava, que o seu sofrim ento continuava a ser o m esm o, e que ainda vivia sob a influência da terrível fascinação que a definhava. Era portanto necessário, m ais do que nunca, tratar seriam ente de tão grave obj eto. Tornaram a sair à hora costum ada: visitaram as igrej as, os m onum entos públicos, dirigindo-se depois a casa de dois m édicos, a quem pretendiam consultar. Um deles, m em bro de várias sociedades científicas, podia, m elhor que qualquer outro, em preender um a cura que dependesse da ciência hum ana: seus talentos inspiravam um a confiança, que m uito realçavam as graças pessoais de que era dotado, o seu espírito cultivado, e a facilidade de sua elocução. Já conhecido dos dois cônj uges, que o haviam encontrado em R *** em casa de um de seus vizinhos, eles im ploraram fervorosam ente os seus socorros, recebendo dele a certeza que nada negligenciaria, para satisfazer aos seus desej os. Mas ao pronunciar estas palavras consoladoras, j á ele tinha reconhecido que as forças hum anas eram ineficazes, para reanim ar um corpo, cuj a vida se extinguia; a sua ciência não o ofuscava; não queria porém pronunciar, naquela prim eira conferência um a condenação fatal.
Delm ont, iludido pelo que acabava de ouvir, concebeu um a esperança, que conquanto lisonj eira, em breve deveria desvanecer-se. No seguinte dia sentiu-se Helena incapaz de sair do seu quarto; ali m esm o recebeu a visita de Mélervant, que viera de propósito a Tolosa passar o dia com os seus am igos. Um perspicaz olhar que lançou sobre a doente, lhe deu logo a convicção, que a infeliz se aproxim ava ao últim o período da sua existência, e que de um para outro m om ento podia expirar! Meditava pois sobre o que devia obrar, quando seu hábil colega, de quem j á falám os, se apresentou: conduziu-o logo j unto da enferm a; am bos observaram por m uito tem po os sintom as da m oléstia, que crescia com tanta rapidez, e a sua conclusão foi a m esm a. Conheceram que madame Delm ont, o m ais que poderia viver, seria um a sem ana, e decidiram ao m esm o tem po, que era útil prevenir o m arido, do terrível golpe que estava prestes a sofrer.
Esta desagradável m issão devia recair sobre Mélervant, pela intim idade que o ligava com o coronel: pediu-lhe pois um m om ento de audiência, e foi então que lhe descobriu a terrível verdade! Esta triste revelação trespassou Delm ont de pungente dor. Quis ainda opor a dúvida às m ais positivas probabilidades; e quase no m om ento de se separar para sem pre de sua m ulher, sentia renascer por ela todo o afeto que noutro tem po lhe inspirava. Oprim ido pelo seu desespero, encarava com horror a tarefa de patentear a Helena a sua situação. Não podendo tom ar algum a deliberação em tão cruel aperto, conduziu o doutor j unto a ela; e colocando-se de m odo que o não pudesse ver, abandonou-se sem reserva à crua m ágoa que o sufocava.
Madame Delm ont, com voz desfalecida, perguntou ao doutor, se tinha visto a húngara, ou se havia notícias dela.
— Enquanto a vê-la, madame, isso seria im possível, porquanto não sai nunca de sua casa, onde pessoa algum a pode penetrar: apesar deste rigor, não receou M. Bérneval dali se apresentar de novo, apesar da experiência que deveria tê-lo desenganado.
— E então, nessa segunda tentativa não foi m ais feliz do que na prim eira?
— Do m esm o m odo, senhora; e de tal sorte ficou desapontado, que encontrando-m e ontem sobre o cam inho de Falgarde, m e assegurou que esta mulher (assim a qualificava ele), não era digna de frequentar a boa sociedade, por isso m esm o que não tinha sabido apreciar a dele!
Este discurso pareceu distrair um pouco madame Delm ont.
— Enquanto a nós — disse ela, — tem os sido m ais felizes do que M. Bérneval alguns em issários têm enviado para se inform ar de nós. Singular criatura na verdade! Jovem e bela; que sistem a tão singular que adotou! E de feito, ela deve achar-se m elhor no m eio do seu retiro, do que na sociedade. Sem pre m elancólica e indiferente, raras vezes se enternece; e m esm o nessas raras ocasiões m ais parece um autóm ato com m ovim ento artificial, do que um a criatura hum ana. Todavia não posso explicar o ascendente que sobre m im tom ou. Mas confesso-vos que a sua ausência m e deixou saudades; afigura-se-m e, que nas últim as horas da m inha vida m e sej a agradável ter ao pé de m im um a pessoa do m eu sexo, que pudesse ouvir-m e, e que quisesse depois da m inha m orte encarregar-se de m inha pobre filha.
Este discurso, pronunciado com voz alterada, petrificou os circunstantes. Delm ont, por um m ovim ento que não pôde reprim ir, se levantou com im petuosidade, para se apoderar da m ão de sua esposa, no m esm o m om ento que balbuciava algum as palavras de esperança, que eram desm entidas pelo aspeto som brio de seu rosto. Mélervant, m ais costum ado a estas cenas, apesar da viva com oção que sentia, j ulgou oportuno aproveitar a circunstância, para engaj ar madame Delm ont a pedir os socorros da religião. Ela era piedosa; m as desde que chegara a Tolosa, nunca m ais cogitou em cum prir estes deveres, j ulgando que teria tem po de os reclam ar quando voltasse a R ***.
— Vós agravais o vosso m al —lhe disse ele, — enchendo a vossa im aginação de tão lúgubres ideias. Quisera que tivésseis assaz confiança em m im , para m e facilitardes os m eios de m udar a vossa opinião, a respeito do estado de vossa saúde; m as j á que vos obstinais em m e não acreditar, porque não consultais um desses dignos eclesiásticos costum ados a auxiliar os enferm os em tais ocasiões? Talvez que ele possa m elhor tranquilizar-vos, e estou certo que teríeis grande satisfação de praticar com ele.
Um doloroso sorriso se antecipou à resposta de Helena.
— Vós prevenis os m eus desej os — lhe disse ela. — Estava para pedir a m eu m arido que m e cham asse um desses m inistros do Senhor; sinto que daqui em diante terei m ais precisão de seus socorros, do que daqueles que a vossa am izade poderia m inistrar-m e: a ciência deles deve com eçar quando se conhece que a da arte é ineficaz. Mas ao m esm o tem po insisto pelo m eu prim eiro desej o: quisera tornar a ver a j ovem estrangeira, e que ela consentisse em ficar alguns dias na m inha com panhia.
Este desej o, m anifestado por um m odo que bem dem onstrava quanto Helena seria satisfeita que ele se realizasse, surpreendeu vivam ente os dois circunstantes. Delm ont, m ais do que o doutor, devia ressentir-se. Conhecia o perigo que correria de se achar a sós com Alinska num m om ento tão solene, em que talvez a sua presença lhe fizesse olvidar seus m ais sagrados deveres: por outro lado, não sabia com o poderia recusá-lo a sua m ulher, quase agonizante, que sozinha, e com o perdida num país que não era o seu, devia necessariam ente ver-se privada desses cuidados e serviços particulares, que só poderiam ser-lhe prestados por um a pessoa do seu sexo, e cuj os hábitos se achassem fam iliarizados com os dela. O seu em baraço e indecisão não lhe perm itiram responder logo: madame Delm ont, adm irada deste silêncio, lhe perguntou se o pedido que lhe fazia era porventura repreensível, e se antevia grandes obstáculos para se realizar.
Esta questão despertou o coronel, das m editações em que parecia subm ergido: apressou-se em responder, que se acaso se não havia logo explicado, era pelo receio de que a húngara se não recusasse a ceder às solicitações que lhe fizessem .
— Todavia — aj untou ele, — com o quereis absolutam ente que ela venha, vede se podeis escrever-lhe duas linhas; a elas j untarei tam bém as m inhas súplicas, e enviarem os sem dem ora o nosso criado, com um a sege para a conduzir.
Delm ont, falando por este m odo, esforçava-se para conter as inflexões que poderiam denunciar o estado em que sua alm a se achava; tem ia sobretudo a perspicácia do doutor, e em tais circunstâncias não quisera ele, a troco de todas as venturas da terra, que seu segredo fosse surpreendido por olhos j á prevenidos. Apesar de seus esforços, não pôde dissim ular inteiram ente a sua em oção; m as esta, nem por isso surpreendeu o doutor: ele a atribuía ao estado de perturbação em que o seu infeliz am igo devia encontrar-se.
Madame Delm ont tentou traçar um pequeno bilhete, para exprim ir a Alinska quanto ficaria satisfeita de a tornar a ver. Foi-lhe m ister m ais de um a hora, para escrever algum as linhas, cedendo depois a pena a seu m arido, para aj untar as seguintes frases:
« Sim , senhora, nós reclam am os este ato da vossa bondade. Sej am quais forem as resoluções por vós tom adas, elas devem ceder às vivas instâncias que vos dirigim os. Voltai para a nossa com panhia. Madame Delm ont desej a com ardor a vossa presença; eu a invoco igualm ente: com o existem na vida circunstâncias que devem obrigar-nos a renunciar nossos proj etos, eu vos peço que vos não dem oreis um m om ento em ceder benigna às nossas instâncias. Dai-nos m ais esta prova da vossa benevolência. Um a escusa da vossa parte provar-nos-ia, que desej ais absolutam ente rom per a nossa am izade; e por que m otivo m ereceria m inha pobre m ulher tanto rigor?...»
Enquanto Delm ont acabava de escrever, e dar as convenientes ordens ao criado, o doutor que conhecia Tolosa, tinha saído com o desígnio de ir buscar um m inistro de paz e de consolação, que pudesse confortar madame Delm ont no penoso cam inho que ainda lhe restava para se desviar deste m undo. Encontrou com efeito um eclesiástico, que m elhor do que outro qualquer, era capaz de preencher o fim para que o cham avam : era o pastor de um a das grandes paróquias daquela cidade. Este venerável cura, ainda que avançado em anos, possuía o fogo ardente da caridade cristã. Am ável no seu rigor piedoso, indulgente com as faltas que só eram fruto de involuntários erros, não se com prazia em m ostrar a Divindade, sem pre terrível, sem pre irritada; ele a representava pelo contrário acessível ao arrependim ento, e m isericordiosa para com os desvios do coração. A sua eloquência cheia de unção, e sum am ente persuasiva, tinha um atrativo particular; falava com autoridade, quando num a cerim ónia anual benzia as flores de ouro e de prata que os poetas alcançavam com o galardão de suas produções; falava com o pai, ou fosse sobre a cadeira da verdade, ou fosse no tribunal da penitência. Foi pois a este digno varão que o doutor se dirigiu. Descreveu-lhe a crítica situação de madame Delm ont, a carência que tinha das luzes de um sacerdote esclarecido; e por m eio de reiteradas instâncias conseguiu vencer a repugnância que o digno pastor m ostrara, em ir buscar um a ovelha que não pertencia ao seu rebanho. Prom eteu-lhe que iria vê-la no seguinte dia; e o doutor correu a levar esta consoladora nova àqueles que ansiosam ente o aguardavam .
Helena desde este m om ento parecia m ais resignada. Não era possível conceber qual fosse o sentim ento particular que parecia atraí-la para Alinska; a m isteriosa sim patia que existia entre estas duas criaturas, que, segundo a diferença de carateres deveriam viver sem pre separadas. Mas pelo contrário madame Delm ont desej ava tornar a vê-la; esta fantasia, levada até à exaltação, era decerto um a das consequências de sua doença tão extraordinária. Não cham ava ela para j unto de si a serpente que devia devorá-la?!...