A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro

Étienne-Léon de Lamothe-Langon · Capítulo 12 de 25

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A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro

Capítulo XI

 

Passem os agora a um a época m ais aproxim ada àquela, onde deixám os os nossos leitores, a fim de lhes oferecer alguns detalhes, que não deixarão de satisfazer a sua curiosidade.

Lem brar-se-ão, que deixám os a m isteriosa húngara no castelo de R ***, e que a sua presença naquela habitação, não podia deixar de ser um terrível agouro para a fam ília Delm ont. Raul, que se achava assaz instruído dos detalhes, de que apenas acabám os de dar um pequeno extrato, tinha bastos m otivos de receio, e sofria cruelm ente, por não poder com unicá-los a pessoa algum a, nem tão pouco transm iti-los ao conhecim ento do coronel. Se Alinska, longe do castelo tinha podido intercetar a sua correspondência, quanto m ais fácil lhe não seria fazê-lo, residindo no m esm o castelo?

Atorm entado com estas ideias, form ava ele os m ais ardentes votos, para que o seu coronel voltasse quanto antes, esperando que a sua presença, quando não pudesse evitar inteiram ente algum a cena desagradável, decidiria ao m enos Alinska a buscar fora do castelo outro asilo. Agitado por m il diversos sentim entos, j ulgou conveniente procurá-la, a fim de penetrar, se tanto lhe fosse possível, seus secretos pensam entos.

Muitos proprietários do distrito tinham -se apressado j á a oferecer à estrangeira seus serviços, talvez m ais instigados pelo desej o e curiosidade de conhecê-la de perto, do que por verdadeiro im pulso de obsequiá-la. Todos se acharam com pletam ente iludidos: ela se obstinava a relacionar-se com a sociedade, suplicando a madame Delm ont, que não perm itisse, que a sua solidão fosse perturbada por pessoa algum a. Manifestou a sua vontade com tal perseverança, que Helena j ulgaria faltar às leis da hospitalidade, se porventura violentasse os seus desej os. Anunciou portanto às pessoas, que se achavam reunidas na sua sala, que era inútil persistirem na ideia de ligar as m ais pequenas relações com a estrangeira, porquanto ela se recusava pertinazm ente a apresentar-se diante de qualquer delas, ainda que fosse a m ais qualificada do distrito. Foi portanto necessário renunciar a um a entrevista, da qual todos aguardavam os m ais curiosos resultados. Apenas o adj unto do maire declarou, gracej ando, que só ele teria o direito de obrigar a com parecer a bela desconhecida, a fim de lhe exigir o com petente passaporte; porém , com o que ela se não achava inscrita em nenhum a lista de pessoas suspeitas, nem lhe era indigitada pelos agentes de polícia, não ultrapassaria para com ela aqueles deveres que a civilidade prescreve para com um a dam a. M. Bérneval foi m enos razoável do que ele, certificando que se tivesse a honra de ser maire, ou ainda o seu adj unto, não deixaria de obrigar essa dam a a um a rigorosa interrogação. Então um geral clam or se levantou de todos os lados, contra um a exigência, que não podiam deixar de considerar com o curiosidade incivil, com o atroz violência feita a um a senhora. Algum as que se achavam presentes, declararam , que se M. Bérneval continuasse a falar por sem elhante m odo, elas se veriam obrigadas a esbulhá-lo do honroso título de cavalheiro francês, o qual sem dúvida lhe era devido, pelo seu nascim ento, e por suas m aneiras delicadas.

Mas, enquanto na sala se gracej ava a respeito de Alinska; enquanto se dava um a prova de que a sensibilidade neste m undo é filha unicam ente de conveniências pessoais; o nosso Raul, aproveitando o m om ento em que sua am a se achava entretida, dirigiu-se denodadam ente ao aposento da húngara. Encontrou-a assentada ao pé de um a j anela: o m enino Eugénio, sobre seus j oelhos, exam inava um livro, ornado de estam pas; e a estrangeira, em bebida na m ais grave m editação, parecia lançar sobre ele um olhar, que decerto não era o da benevolência. Poder-se-lhe-ia notar ao m esm o tem po um a certa indecisão, que parecia contrastar com a ferocidade de um a resolução fortem ente determ inada.

O ruído de passos, despertando-a de sua distração, seu aspeto recuperou desde logo aquele ar de indiferença que lhe era ordinário. O intrépido sargento apresentou-se diante dela, fazendo-lhe apenas um a pequena vénia, à qual se não dignou corresponder; m as esta incivilidade não foi capaz de o intim idar, nem de suspender o ataque, que havia prem editado.

— Então Alinska — lhe disse ele, — conseguistes finalm ente introduzir-vos num a casa, onde a prudência deveria banir-vos, e que vós m esm a deveríeis evitar, para sossego vosso e de um a fam ília tão respeitável. Quais são pois os vossos proj etos? Acaso pretendereis trazer convosco a desordem , a intriga, e a desunião? Recom pensareis por este m odo o asilo hospitaleiro, que tão generosam ente vos concederam ? Não vos seria m ais conveniente, um a vez que persistis em ver de novo o coronel, de o ir esperar a Tolosa?...

— Parece-m e, Raul, que nas circunstâncias em que nos acham os, não seria decerto aos m eus inim igos a quem pediria conselhos; e vós sois com efeito bem infeliz naqueles que acabais de dar-m e. Não fostes vós m esm o, que outrora m e ensinastes a am ar o m ais pérfido dos hom ens? E contudo vós j á o conhecíeis!... Sabíeis quanto era excessiva a sua ligeireza; m as isso não vos conteve no propósito de com pletar a m inha ruína! Quem m e assegura, pois, que os conselhos, que há pouco m e destes, se achem tam bém envolvidos na m ais infam e perfídia?...

— Se alguns erros com eti, foram nascidos unicam ente da m inha idade, e não do m eu coração; m as hoj e, guiado unicam ente...

— Já não acredito nas palavras dos hom ens; não m e desviarei da vereda que m e foi traçada. Consegui entrar nesta casa, nela ficarei até que tudo se ache para m im concluído, até ir sofrer os torm entos eternos, que m e aguardam .

— Se não tendes feito m al a ninguém , porque receais esses torm entos?

— Não será contigo — replicou a húngara, com voz terrível, — que pretendo discutir esse obj eto. Já estou cansada de te ouvir; cansada de responder; a tua presença m e im portuna; deixa-m e, foge, cessa de m e incom odar...

— Sinto m uito desagradar-vos; porém se a m inha presença vos incom oda, não vos lisonj íeis que ela vos abandone, enquanto existirdes neste castelo. Antes de aqui entrardes, j á as vossas inteligências eram de tal m odo, que desde logo protestei de as surpreender, vigiando noite e dia, sem cessar, para que o rem anso, que esta boa fam ília gozava, antes de aparecerdes em R ***, não fosse alterado.

— Oh! certam ente, Raul; a tua vigilância te será m uito necessária; asseguro-te que dela hás de tirar grande proveito: m as não receias tu, que esse teu procedim ento venha a esgotar a m inha paciência? Deverei suportar a afronta de que na m inha presença fales por sem elhante m odo? Fraco e m iserável obstáculo aos m eus desej os, em breve cessarás de os contrariar, se porventura m e resolver a punir-te. Não o duvides, im becil; tu, que m e falas com tanta audácia, hás de ser banido do castelo, antes do que eu...

— Não duvido que a m inha presença vos fatigue; m as ser-vos-á m ais fácil corrom per esses pobres cam poneses, do que arrancar-m e a confiança, que m eus am os em m im depositaram . Nenhum deles prestará ouvidos às vossas lam úrias; e, se eu quisesse, não decorreria um a hora sem que recebesseis term inante ordem para buscardes outro abrigo. Bastava pronunciar um a palavra...

— Que não serias capaz de proferir... ninguém , m elhor do que tu, soube avaliar as consequências. Acredita-m e, Raul; se a ventura de madame Delm ont te é cara, deixa que ainda goze desses dias, que lhe foram designados. Só em últim o extrem o poderá ser por m im esclarecida; e se acaso a sua existência for envenenada, que se queixe unicam ente de ti; tu serias o seu próprio algoz!

— Mas acabem os de um a vez: que é o que pretendeis? Sobre que fundais as vossas esperanças?

— As m inhas esperanças!... Já as não tenho; j á as não posso ter; sei que a m inha sorte foi decretada; m as não im porta, ainda m e resta cum prir um dever; algum as ordens a executar. Se há pouco se atrevessem a retalhar m inha alm a, não deixaria ela de se revoltar contra esse rigor; m as hoj e, que tudo para ela se acabou; hoj e que suas vistas podem penetrar o espaço infinito do porvir; hoj e finalm ente, que se acham rotos os laços que ao m undo a prendiam , não pode ela ser agitada por esses m esm os sentim entos, que noutro tem po a deleitavam .

— Juro-vos pela catana de m eu bisavô, Alinska, que vos escuto com todos os m eus cinco sentidos, e nem sequer um a palavra ainda pude com preender. Certo, quando estáveis no vosso país, não carecia eu de tanta circunspecção para vos com preender; m as hoj e sois tão obscura em vossos discursos, que os diabos m e levem se posso adivinhar o que pretendeis dizer. Vam os, falai sem refolhos; isto é, falai claro e sem preâm bulos. Dir-se-ia, que desde que nos não vem os, vos tendes ocupado em ler as produções de certos autores de nossos dias, que para serem facilm ente com preendidas, seria m ister, que publicassem ao m esm o tem po novos dicionários, onde achássem os a explicação daquilo que pretendem dizer; m as talvez eu vos não com preenda, porque sou um pedaço de asno, porque não cultivei as ciências; enfim porque nunca pude subir acim a do patam ar onde m e acho. O que vos falta, é em pregar tam bém em vossos discursos os pontinhos e as reticências, para eu ficar cabalm ente convencido que, com efeito, aprendesteis com tão sublim es m estres.

Raul, explicando-se por este m odo, não fazia m ais do que repetir o que seu am o dizia; desej ando ao m esm o tem po, por m eio de tão extravagante linguagem , tornar m enos severa a conversação de Alinska, que certam ente não era das m ais agradáveis e divertidas. Ele m esm o se sentia dom inado de um sentim ento de m elancolia, cuj a origem não podia conhecer; não estava satisfeito com as palavras, ainda que confusas, da húngara; enxergava através dessas m esm as palavras, o m istério com que ela pretendia envolver-se; algum a coisa de tenebroso, de sinistro, que lhe inspirava inexplicável terror. Sem elhava-se naquele m om ento ao lavrador, que observa nos ares um a carregada nuvem , incerto se ela seguirá avante, ou se derram ará seus estragos sobre os cam pos em que ele depositara toda a sua fortuna.

Raul afetava não recear a am eaça, que lhe fora dirigida, ao m esm o passo que ela tinha trespassado seu coração de lado a lado.

Melhor do que ninguém , conhecia ele a fraqueza de caráter do coronel; sabia, que cheio de bravura e de energia, sobre o cam po dos com bates, facilm ente se abandonava, no m eio da vida dom éstica, às im pressões que quisessem inspirar-lhe: com o tantos hom ens, só num a única circunstância sabia desenvolver a m aior firm eza.

Alinska adivinhava talvez os pensam entos de Raul; ela o observava com extrem a m alignidade; o sorriso do triunfo agitava seus lábios, e brincava com o livro, que Eugénio lhe havia deixado, quando, no m om ento em que o m ilitar entrou, se tinha retirado. Ela não parecia ansiosa de lhe responder; um silêncio assaz prolongado sucedeu ao virulento ataque que lhe fora dirigido. Ainda foi Raul, que interrom peu esse silêncio.

— Vej o finalm ente — disse ele, sem poder disfarçar o vivo despeito que o agitava, — vej o, Alinska, que seria em vão que m e lisonj easse de vos tornar razoável, ou de suplantar a sagacidade, que é natural ao vosso sexo; m as se acaso persistis a levar avante o cum prim ento de um proj eto, cuj os fins não posso penetrar, ao m enos não vos esqueçais da benevolência e cortesia com que fostes recebida no castelo de R ***; não nos obrigueis a arrepender da hospitalidade, que nele tendes achado.

Estas poucas palavras, pronunciadas com singeleza, atraíram por um pouco, às m acilentas faces da húngara, um vivo carm im ; m as elas tornaram de novo a descorar, e com o m aior sangue-frio assim lhe respondeu:

— Que censura poderia fazer-m e (fosse qual fosse o m eu subsequente procedim ento) aquele que, acolhido com tanta afabilidade na hum ilde m orada de m eu pai, se atreveu a levar consigo a exasperação, a aleivosia, e a m orte?...

Um a réplica tão vigorosa, e ao m esm o tem po tão j usta e razoável, cobriu subitam ente Raul da m aior confusão e desconcerto. Sentiu quanto era bem m erecida esta severa exprobração; e incapaz de conter sua consciência, que naquele instante lhe desenrolava o quadro de sua passada conduta; com ovido ao m esm o tem po do m odo solene com que Alinska se havia explicado, não pôde deixar de estrem ecer, com o agitado por cruel rem orso; e esforçando-se por ocultar a sua perturbação:

— Vam os, Alinska — lhe disse ele, — o que vai longe j á não existe; os erros dos outros não devem recair sobre os nossos; e o m al que a estes se fizesse, não poderia sanar o que aqueles perpetraram .

Alinska nada respondeu; contentou-se de fazer um gesto, no qual exprim ia o desej o de ficar sozinha; e Raul, que receava que madame Delm ont ali o encontrasse, tom ou o partido de retirar-se, bem decidido a vigiar de perto aquela que não podia deixar de considerar com o im placável inim iga da fam ília.

Quando todos se convenceram , de que a estrangeira se recusava pertinazm ente a receber as visitas, que a curiosidade atraía ao castelo de R ***, este veio a ficar de todo solitário. Raras vezes se falava da m isteriosa beleza, que nele se hospedava; e o m esm o incêndio foi olvidado, desde que o seu resultado deixou de m inistrar alim ento à conversação. Madame Delm ont, que, depois da ausência de seus vizinhos, ficava reduzida ao m ais com pleto abandono, não deixava de estim ar que Alinska continuasse a residir na sua com panhia. Não era decerto porque ela lhe oferecesse um a sociedade agradável: a sua habitual tristura; o silêncio que guardava, quando não era interrogada; a frivolidade e insignificância de suas respostas; e sobretudo o ar indefinível da sua fisionom ia; nada disto podia oferecer-lhe, nem deleite, nem atrativos. É verdade que cantava com m uito gosto; acom panhava-se perfeitam ente com a harpa; m as só se dava a este recreio, quando se achava fechada no seu quarto: um a invencível tim idez, dizia ela, não lhe perm itia que tocasse diante de pessoa algum a. Foi m ister as m ais vivas solicitações, para que madame Delm ont conseguisse que ela lhe franqueasse um pequeno vislum bre de seu elevado talento.

Um a noite, depois das súplicas m ais reiteradas, resolveu-se enfim a tocar o sonoro instrum ento; m as para isso foram necessários os prelim inares m ais extravagantes. Pediu que se ocultasse a luz da lâm pada; retirou-se depois a um dos cantos m ais som brios da sala; e foi então que principiou um cântico, cuj as extraordinárias palavras se achavam em perfeito acordo com a m elancólica m úsica que as acom panhava.

O viaj ante.

Noturno.

O astro da noite, da carreira em m eio,

Com seu fulgor aclara as vítreas águas;

Sobre as m argens dum rio, que serpeia,

Triste se arrasta peregrino enferm o.

Seus olhos buscam um seguro asilo,

Onde descansem seus cansados m em bros;

Princípio im puro gira dele em torno,

Tu serás, oh peregrino, sua presa!

Para ele corre o espírito m aligno,

Levado sobre as asas que aligeira:

Sob as feições se m ostra ao penitente

De ingénua, sim ples, cândida pastora!

« Bom viaj ante, lhe diz, com m eigo riso,

Vem onde m eu velho pai habita,

Esp'rar em doce paz que o claro oriente

Nosso hem isfério doure com seus fogos.»

O tom ingénuo da inocência agreste

Fascina o estrangeiro que, im prudente,

Risonho ao laço sem saber se avança:

Sob seus pés um abism o se abre inteiro,

Nele cai, é cruel a sua m orte:

Fracos m ortais não vos fieis incautos

Na beleza que ilude, quando cham a.

Se madame Delm ont j ulgou procurar-se essa pura satisfação, que a m elodia quase sem pre nos oferece, ela foi com pletam ente iludida! A m úsica, que Alinska havia escolhido, era de tal m odo austera, derram ava no coração tão pungentes em oções, que, longe de deleitar, ela infundia nele a m ais profunda m elancolia. Duas vezes sentiu Helena deslizar-se um a lágrim a ao longo de suas faces; e toda em bebida em suas reflexões, nem pôde sequer cum prim entar Alinska, pelo talento que acabava de patentear.

— Ah! senhora — lhe disse ela, — vós deveis achar-m e bem singular; m as ser-m e-ia im possível ocultar-vos o m al que acabava de infundir em m eu pobre coração: era esse talvez o triunfo que neste m om ento am bicionáveis; obrigar-m e-íeis, sobrem odo, se, m udando de tom , quisésseis, com algum a linda barcarola, acalm ar a agitação em que m eu espírito se acha.

A estrangeira nada respondeu; tornou a assentar-se sobre a cadeira; e tom ando novam ente a harpa, tocou as m ais brilhantes variações sobre o m otivo da m esm a ária, que acabava de produzir tão desagradável efeito. Não era isso decerto quanto Helena desej ava; m as forçoso lhe foi resignar-se aos caprichos de Alinska. Protestou desde logo, de nunca m ais lhe pedir, nem m úsica, nem outro qualquer obj eto, que a obrigasse a desenvolver um talento, cuj o efeito era por certo tão singular.

O m odo bisonho, e quase selvagem daquela m isteriosa personagem , parecia tom ar cada vez m aior consistência: não saía do seu quarto, senão às horas de com ida; assentava-se à m esa, silenciosa, onde apenas tom ava o necessário alim ento para sustentar a sua existência. Em vão instavam com ela para que com esse m ais algum a coisa; recusava obstinadam ente os m ais esquisitos m anj ares, contentando-se apenas em m astigar um bocado de carne, inculcando aborrecer os vegetais. O descanso, que desfrutava no seu aposento, só era interrom pido pelas visitas diárias, que os m eninos lhe faziam . Mostrava-se sem pre benévola para com eles; afagava-os, falava-lhes com ternura, apesar de lançar às vezes sobre eles indefiníveis olhares...

Havia j á duas sem anas que habitava o castelo, sem que seu m odo de viver fosse alterado. Raul, que um só m om ento a não perdia de vista, nada podia descobrir, que lhe parecesse suspeito. Debalde se levantava a toda a hora da noite; nada via de extraordinário; e por isso, a seu pesar, principiava ele a persuadir-se que a tinha j ulgado com dem asiado rigor; e pouco a pouco ia abandonando sua constante vigilância.

A este tem po, principiou Eugénio a sentir algum incóm odo em sua saúde, que não pequeno cuidado causava a sua m ãe. O m enino não se queixava precisam ente; contudo a cor de suas faces ia desaparecendo, e seu corpo em agrecia consideravelm ente. Suas forças iam -se definhando; m archava com grande custo, e era-lhe insuportável a claridade do dia. Ao m esm o tem po aum entava-se a afeição que ele consagrava à estrangeira; não podia separar-se dela; encolerizava-se quando alguém pretendia arrancá-lo dos braços de sua am iga; vagueava continuam ente em torno dela, de um m odo inquieto, e ao m esm o tem po satisfeito, e passava longas horas reclinado em seus braços.

Estas dem onstrações de am izade eram vistas com a m aior indiferença por Alinska. Era para com este m enino, o m esm o que era para com todas as pessoas do castelo; isto é, indiferente, e pouco extrem osa. Não o repelia, conservava-o j unto a si, m as m ostrava-se sem pre pouco sensível aos seus carinhos; evitava m esm o encará-lo; ou se o fazia, era com certo relancear de olhos, onde se não divisava, nem interesse, nem expressão. Todavia, ela se prestava a tratar dele; anim ava-o a tom ar os ligeiros rem édios que lhe eram ordenados; e nessa ocasião, se alguém a não observava, seus olhos se agitavam com um sorriso sardónico, que não exprim ia, nem com paixão, nem interesse.

Madame Delm ont escrevia quase todos os dias a seu m arido, para lhe participar o estado de m arasm o, em que seu filho se achava. Com unicava-lhe os sustos e receios que a atorm entavam , suplicando-lhe term inasse um a ausência que tão penosa se tornava. Já lhe havia com unicado o desastroso incêndio da casa isolada, e que era no castelo onde a infeliz estrangeira achara um asilo. Em suas respostas, partilhava Delm ont as aflições de sua esposa: prom etia-lhe, que em breve voltaria; esperava concluir um a feliz conciliação entre sua irm ã e seu m arido; e logo que eles se reunissem definitivam ente, não se dem oraria um só m om ento em deixá-los. Pouca atenção havia prestado à história da estrangeira; e por isso, apenas lhe dizia as palavras necessárias para aprovar plenam ente o procedim ento, que sua m ulher tivera em tais circunstâncias. Term inava as suas cartas, dirigindo ao céu ardentes votos, para que o seu Eugénio recuperasse, quanto antes, sua deteriorada saúde.

Mas o céu não parecia propício aos votos do desditoso pai. O m enino ia-se definhando progressivam ente; suas rosadas cores j á de todo tinham desaparecido; a sua respiração j á era dem asiado difícil, e sua cabeça vacilante, pendia de contínuo sobre seus om bros, apesar dos repetidos esforços que ele fazia, para a conservar no seu equilíbrio natural. Esta fatal m udança consternava madame Delm ont, que contudo parecia nutrir lisonj eira esperança sobre a perícia de um fam oso m édico, que vivia no vizinho distrito, e que vinha todos os dias observar os m ovim entos de tão singular enferm idade. Não tinha podido ainda fixar o seu j uízo: o m enino ia sucum bindo visivelm ente debaixo da influência de um m arasm o, cuj a causa ninguém podia conhecer. A pobre criaturinha parecia sofrer pungentes dores; m as no m eio do seu progressivo desfalecim ento conservava um apetite devorador, que aum entava, à m edida que o m al tam bém crescia; queixava-se, sem cessar, de sentir um a fom e, que com dificuldade podia saciar: era sobretudo pela m anhã, antes de se levantar, que essa excessiva vontade de com er se fazia sentir com a m aior vivacidade. Pedia então que lhe dessem os m anj ares m ais nutrientes, e devorava-os, com o se houvera passado m uitos dias sem com er!

O m édico, à vista destes sintom as, j ulgava reconhecer às vezes os efeitos da solitária, que m uito se conform avam com essa fom e voraz, que consum ia o infeliz m enino.

Mas outras observações m ais perspicazes, lhe m anifestavam novas aparências, em tudo contrárias à sua prim eira opinião. Ocultava a perplexidade em que se achava, para não aterrar de todo sua m ãe, que se achava j á tão cruelm ente ralada. Quis antes afetar, que só a solitária poderia causar o padecim ento de Eugénio, m ostrando-se ao m esm o passo possuído das m ais lisonj eiras esperanças do o salvar; m as, por desgraça, bem via ele a dificuldade em que se achava de o fazer!...

Alinska, raras vezes abandonava o seu pobre am igo. Ouvia as questões do facultativo, os queixum es de madame Delm ont, sem nunca partilhar da conversação de am bos: só parecia anim ar-se, quando era m ister dar algum rem édio ao m enino: então em pregava para com ele toda a sua influência, a fim de o tornar m ais condescendente. Eugénio sorria-se para ela com a m aior graça; tom ava-lhe a m ão, que não estava calçada, e prom etia tom ar os rem édios, se porventura ela o não deixasse.

— Não, m eu am iguinho — lhe dizia ela, — nada receies a esse respeito: acho-m e assaz identificada com o teu ser, para que de ti m e separe. Só te abandonarei nesse term o fatal, em que tam bém m e vej a obrigada a abandonar tudo quanto existe sobre a terra.

Estas palavras afetuosas tornavam -se sem valor, aos olhos daqueles que as escutavam , pela sequidão e indiferença com que eram proferidas. A húngara, raras vezes m isturava ao que dizia, e m esm o ao que fazia, essa expressão, que sabe m anifestar o verdadeiro sentim ento de um coração sincero e sem doblez. Dir-se-ia, ao exam iná-la com atenção, que ela se sem elhava m enos a um vivente, do que a um autóm ato anim ado, que se m ove uniform em ente pelas notas, que lhe dão im pulso. Tanta indiferença excitava por m om entos, dentro de alm a de Helena, um pequeno m ovim ento de cólera; m as esse m ovim ento em breve se desvanecia, quando se recordava, que a razão desta infeliz criatura se achava m uito enfraquecida, por causa de algum grande infortúnio que lhe sobreviera. Só este m otivo a dissuadia a fazer-lhe questões, que naturalm ente costum am dirigir-se a quem , sem conhecerm os, prestam os benigno gasalhado. Sabia por ela m esm a, que a sua dem ora no m eio-dia da França, devia ser lim itada. Alinska lhe havia feito um a m eia confidência, de tal m odo, que madame Delm ont se achava resolvida a esperar a volta da prim avera, para tom ar a seu respeito um a resolução decisiva.

Neste m om ento, toda entregue aos cuidados de seu filho, só via com prazer o quanto este era predileto pela estrangeira. Era para ele um a doce distração, quando seu habitual desfalecim ento lhe não perm itia partilhar os galhofeiros j ogos de sua irm ã, achar-se reclinado nos braços da sua amiga. Quanto m ais se prolongava a sua existência, m ais seus m em bros se descarnavam . Em breve, nem m esm o lhe foi possível sair do seu quarto, e só com dificuldade extrem a, é que raras vezes podia dar ainda algum as pequenas passadas.

O bom Raul, que tam bém am ava com o m aior extrem o o infeliz Eugénio, parecia inconsolável à vista da cruel m oléstia que o devorava. Daria do m elhor grado m etade da sua existência, para o ver restabelecido. Frequentes vezes, sem nada dizer a sua am a, dirigia-se a Tolosa, e trazia consigo um m édico, em quem confiava m ais, do que naquele que o tratava; m as debalde se lisonj eava ele de obter por este m eio, o que não era possível conseguir. A resposta que deu este novo facultativo, depois de várias visitas, lançaram na aflita alm a do ex-m ilitar um novo desalento, um a nova desolação!

O tratam ento ia de perfeito acordo com um a m oléstia, cuj a causa se ignorava: a estas palavras podia j untar-se ainda um a receita, carregada de diferentes drogas, sem que por isso fossem diferentes os resultados: eram sem pre os m esm os; e aos olhos que se não achassem deslum brados, era da últim a evidência, que o pobre Eugénio cam inhava, pouco a pouco, para o sepulcro.

Esta cruel certeza apoderou-se finalm ente do coração de Raul. Não duvidava que a Providência quisesse arrebatar-lhe aquele anj o de doçura, e a sua exasperação não tinha lim ites. Num de seus m om entos de delírio, em que a alm a se abandona às m ais extraordinárias conceções, im aginava o desconsolado ex-m ilitar, que o pobre Eugénio perecia envenenado, e que só a húngara poderia perpetrar tão abom inável crim e. Um a tal ideia parecia gelar-lhe o sangue nas veias; em breve ele se envergonhava de a ter concebido; m as dali a pouco, ela vinha de novo torturar cruelm ente a sua im aginação: acom panhava-o para toda a parte, perturbava-lhe o sono; era, num a palavra, o seu verdugo! Era em vão que ele lutava com a inverosim ilhança, que tão horrível ideia lhe oferecia: observava a extrem osa m aneira que Alinska em pregava para com Eugénio, e o desvelo com que o tratava, não o deixando um só m om ento; e horrorizava-se portanto de im aginar, que ela em pregasse tanta assiduidade e carinho, só com o desígnio de observar o progresso do veneno, e para evitar que ele tom asse algum corretivo que pudesse m artirizar o seu terrível efeito. Vacilante, entre m il conj eturas, buscava por todos os m odos o m eio m ais eficaz de descobrir a verdade, e de sair da confusão em que se achava.