A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro

Étienne-Léon de Lamothe-Langon · Capítulo 4 de 25

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A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro

Capítulo III

 

Ao saber esta desagradável nova, o coronel não hesitou um só m om ento. Repreendia-se a si m esm o por se haver dem orado tanto tem po; j ulgava-se cúm plice nos erros de sua irm ã! Era pois necessário aplicar-lhe pronto rem édio; e havendo consultado a opinião de Helena, que em tudo se conform ava com a sua, tom ou o cam inho de Tolosa, certo de que nesta cidade encontraria logo os m eios necessários para se transportar a Nantes. Partiu sozinho, deixando na com panhia de sua m ulher e filhos o probo e valoroso Raul, a quem considerava com o verdadeiro irm ão, com o sincero am igo. Helena custou-lhe m uito esta cruel e prim eira separação; m as reprim indo coraj osam ente a sua dor, apenas testem unhava aquele sentim ento de saudade, que lhe era im possível ocultar...

— Oh m eu am igo! — lhe disse ela, derram ando copiosas lágrim as; — não vos dem orareis m uito tem po; apressai-vos em voltar aos m eus braços. E agora que esta habitação se tornará para m im a m ais cruel e negra solidão; considerar-m e-ei sozinha desde o m om ento em que nela vos não vej a!...

Delm ont procurou derram ar algum as gotas de bálsam o consolador no aflito e am argurado coração de sua esposa; achavam -se no fim de setem bro; prom eteu-lhe, que o de dezem bro seria a época m ais distante do seu regresso, e que ela devia confiar na sua ternura, para se persuadir que ele voltaria o m ais breve que lhe fosse possível. Mas no m om ento da despedida, no instante de pronunciar o últim o adeus, todas as consolações se tornam inúteis, e não fazem m ais do que agravar a dor de dois corações am antes que se desprendem ! O m al presente nos aterra; o futuro não pode seduzir-nos; a esperança perde toda a sua m agia; não sentim os, não conhecem os senão as torturas do m om ento!...

Os prim eiros dias que se seguiram à partida de Delm ont deixaram Helena na m ais com pleta apatia. Seu espírito, im pressionado por m il sinistras ideias, tornou-se suscetível dos receios m ais supersticiosos. Já não subia de noite as escadas do castelo, nem se atrevia a atravessar o grande salão, sem que se sentisse acom etida de terror secreto, e da m ais viva com oção. A nossa im aginação, sem pre solícita em reproduzir-nos quanto possa assustar-nos, duplicava seus esforços, para encher de terror a alm a inconsolável da infeliz Helena. Pouco bastava para fazê-la estrem ecer; parava m uitas vezes, toda convulsa, j ulgando ouvir algum ruído m edonho, ou extraordinário; outras, ela fechava os olhos, com o quem queria evitar algum a sinistra aparição! A com panhia de seus filhinhos não era suficiente, para sossegá-la, durante os serões, que principiavam j á a ser m uito longos e enfadonhos. Cham ava então Raul; fazia assentar j unto a si Germ ana (sua cozinheira); m as esta pobre rapariga era m uito suscetível em acreditar quanto podem im aginar espíritos fracos e sem nenhum a instrução. Helena os dem orava j unto a si horas inteiras, com o pretexto de lhes dar alguns esclarecim entos, relativam ente às suas obrigações, ou para lhes pedir contas das com issões, de que eram encarregados.

Ainda que os cam pos se achem desertos, e as habitações m uito separadas, nem por isso a investigação da baixa classe deixa de ser m ais curiosa e solícita. Existe para ela m il circunstâncias, cuj os detalhes m uito a divertem ; registam os acontecim entos m ais ordinários; a m ais fútil ação lhe parece dem asiado im portante; a m ais leve palavra é cuidadosam ente com entada; tudo se sabe logo: o cam po das conj eturas tom a a m aior consistência, e as m urm urações m ais perigosas, saem m uitas vezes de bocas, às quais o observador superficial apenas concederia o dom da sim ples palavra.

A chegada de madame Delm ont a R ***, havia intrigado, sobrem aneira, aqueles aldeões. Quantas narrações exageradas não faziam eles a seu respeito! Quantas fábulas ridículas não foram inventadas! Mas o tem po havia decorrido; o m esm o obj eto nem sem pre pode ocupar a m alignidade pública. A fam ília Delm ont, ao cabo de quinze m eses, parecia j á naturalizada no país: j á dela se não ocupavam m ais, do que a respeito de alguns trabalhos dom ésticos de que ela precisava. Os hom ens com unicavam a Raul, e as m ulheres a Germ ana, as novidades que tinham ouvido, no dom ingo, à porta da igrej a.

Os dois dom ésticos, quando tinham ocasião, repetiam a madame Delm ont, quanto ouviam . Ela se envergonhava interiorm ente pela extravagante satisfação que sentia em os ouvir; m as na ausência de seu esposo, era-lhe m ister a distração; e fosse qual fosse a m atéria que se tratasse diante dela, não deixava de apreciá-la m ais, do que a isolação a que se via condenada.

Já tinha decorrido um a sem ana que Delm ont se ausentara do castelo, quando Germ ana se apresentou um a noite com tal m odo de im portância, que deu logo a conhecer, que algum a notícia extraordinária tinha que anunciar. Assim aconteceu: a boa da rapariga, logo que se assentou, j unto do candeeiro que alum iava o serão, assim se explicou:

— Então, senhora — disse ela a Helena; — j á sabeis que nos não acham os sozinhas neste lugar? Já o país se povoa, j á os estrangeiros abundam ; e se isto continuar, será necessário, segundo dizem , pedir licença ao sr. prefeito, para estabelecer um m ercado, todas as segundas-feiras, na praça de R ***.

— Oh! m eu Deus — exclam ou madame Delm ont, toda adm irada; — e quais são esses num erosos habitantes que aqui vêm estabelecer-se?

— Para vos dizer a verdade, senhora, ainda se não veem m uitos; m as eles aparecerão. Já contám os o sr. coronel Delm ont e sua fam ília; e agora m ais um a dam a, cuj a história todos ignoram , e que acaba de fazer a aquisição daquela linda propriedade, que se acha no fundo do próxim o outeiro, situada no m eio do bosque.

— Escolheu com efeito um a casa bem isolada; deve por certo ser assaz coraj osa, ou trazer consigo grande com itiva, para escolher, sem receio, sem elhante habitação.

— É o que todos dizem ; e contudo, vive só, por isso que se não deve contar um velho criado que tem , tão débil, tão pálido, e tão cadavérico, que parece m ais um habitante do outro m undo, do que um vivente! Enquanto à dam a, dizem que é form osa, ainda que o seu m odo pareça algum tanto extraordinário. Não posso contudo assegurá-lo, porque ainda a não vi; m as dom ingo que vem , será necessário que m e ache bastante doente, para faltar à m issa: é im possível que ela se não apresente na igrej a; e então observá-la-ei de m odo, que possa dar-vos exata inform ação, se porventura, vós m esm a não tiverdes ocasião de a ver.

— Não duvido, Germ ana, do cuidado que haveis de ter para a exam inar o m elhor que vos for possível; m as enquanto não chega esse m om ento, dizei-m e o que se diz a seu respeito: sabe-se porventura o m otivo que a obrigou a vir habitar em um lugar tão pouco agradável, no inverno? É de Tolosa? É viúva, ou é casada?

— Todas essas questões j á se fizeram ao seu dom éstico, sem que fosse possível obter dele um a única resposta satisfatória: diz-se que é um cabeçudo, um grosseiro, um m alcriado!... Sabeis vós quais são as suas réplicas? — Sim ; não; talvez; não vos im porte, etc; e com estas únicas palavras com pra e paga os obj etos de que carece, e retira-se logo, m udo e silencioso com o se fosse um a estátua. O m ais que se tem podido conj eturar, é que tanto ele com o a am a não nasceram em França; têm um a pronúncia singular, e entre eles servem -se de um a linguagem estrangeira. Talvez sej am alguns hereges ingleses, que vêm fugindo de um país am aldiçoado por Deus, onde, segundo dizem , não pode o sol brilhar um dia inteiro; onde a vinha não vegeta, e onde os figos j am ais são cultivados!...

— Então, se essa dam a for inglesa, não podereis vê-la dom ingo na igrej a.

— Isso será possível? Oh! que m aldita gente, que nem sequer ouvem a santa m issa; deveriam queim á-los vivos. Talvez sej am huguenotes m as não, não é possível; a dam a deve ser boa cristã, e não há de fugir da igrej a, com o se fosse um a excom ungada.

— E há j á m uito tem po, que ela reside no país? — continuou Helena, que sentia j á o m aior desej o de encontrar na pessoa da estrangeira um a sociedade, que pudesse inspirar algum a distração à insípida m onotonia em que vivia.

— Chegou aqui no m esm o dia em que partiu o sr. coronel: apeou-se na cabana do pastor Paulo, a quem perguntou, se haveria na aldeia algum a casa para com prar ou arrendar. Paulo, que não tem m alícia algum a, respondeu-lhe: que os irm ãos Gerlot queriam vender a sua casinha do bosque; m andou cham á-los sem dem ora, aj ustou-se com eles, e naquela m esm a noite foi dorm ir à sua nova aquisição. Com o Paulo e os irm ãos Gerlot são todos cabisbaixos, fizeram desde logo um m istério deste negócio, receando, que alguém lhe censurasse a considerável som a de dinheiro, que talvez apanharam a esta pobre dam a. Mas tudo vem a saber-se; e não fui eu a derradeira que ouvi a sua história. Haverá um a hora, que a m ulher do sineiro da freguesia veio referir-m a, e por isso vim correndo, para transm iti-la à m inha senhora e am a.

Helena, com um a pequena inclinação de cabeça, agradeceu a Germ ana as boas intenções que m anifestava a seu respeito, resolvendo-se logo a nada negligenciar para ligar conhecim ento com a estrangeira recém -chegada.

Enquanto as duas interlocutoras praticavam sobre esta m atéria, guardava Raul profundo silêncio, m eneando a cabeça de espaço a espaço. Este m ovim ento, e a sua taciturnidade, surpreenderam vivam ente madame Delm ont, que lhe perguntou, se ele concebia algum as desconfianças a respeito da desconhecida.

— À fé, senhora m inha — lhe disse ele; — a aparição desta desconhecida não m e parece m uito satisfatória. Um a m ulher, ainda m oça e form osa, segundo dizem , encerrar-se em um a casa isolada, com um velho criado! Será isto decente? E o seu m arido?... A sua fam ília?... Não será acaso um a m iserável aventureira? Conheci tantas, que seguiam o nosso regim ento, dessas m isteriosas princesas, que evitam todas as vistas, e que cuidadosam ente se ocultam , até ao m om ento de pilharem em suas redes algum incauto: só então é que se apresentam em pleno dia, alardeando seu desm edido luxo e sua conduta crim inosa; e quando conhecem que a sua vítim a está totalm ente depenada, desaparecem logo, à m aneira dessas fátuas luzes, que algum as vezes se veem vaguear por entre os bosques, e no fundo dos fossos que cercam os castelos.

— Acredito, com o vós — respondeu Helena, — que nas grandes cidades facilm ente se encontram dessas desgraçadas criaturas, que para traficar seus encantos com m ais facilidade, se ocultam m isteriosam ente entre trevas, para m elhor estim ular a curiosidade dos am adores; porém em R ***, m eu pobre Raul, que viria buscar um a dessas m iseráveis? Qual é o rico proprietário que aqui se acha para seduzirem ? Não vej o em torno de nós, m ais do que algum as fam ílias, que dentro em poucos dias deixarão o cam po até ao próxim o verão. Não estam os nós num a época desastrosa, em que grandes infortúnios podem conduzir a resoluções desesperadas? Esta dam a não fugiria talvez da grande sociedade, por não ter os m eios necessários de se apresentar no m eio dela, com aquele esplendor, que a sua elevada j erarquia dem andava? O lugar que escolheu para seu retiro, parece j ustificá-la. Seria, porventura, no m eio de um bosque, desviada das principais estradas, que um a m ulher sedutora viesse estabelecer o seu dom icílio? Não quereria ela antes aproxim ar-se dos lugares m ais frequentados pelos viaj antes? Vam os, Raul, não sej ais tão desconfiado; não j ulgueis tão ligeiram ente o vosso próxim o...

Raul nada m ais replicou; m as nem por isso se m ostrava convencido. O passado servia-lhe de livro; e nele lhe parecia ler com evidência os acontecim entos do futuro.

O seguinte dia ofereceu-se um dos m ais belos da estação. Os m eninos, acom panhados de Raul, saíram a passeio ao pôr do sol, dirigindo-se pelas ruas do bosque, que se estendiam desde o castelo, até às próxim as colinas e vales que as rodeavam . Madame Delm ont, um pouco incom odada, não pôde acom panhá-los a tanta distância: dem orou-se na pequena aldeia, onde se entreteve com alguns de seus habitantes, que voltavam das vindim as. Por toda a parte ouvia falar da m isteriosa estrangeira; a sua presença excitava a curiosidade de todos; observavam com avidez os seus m ovim entos; sabiam que no fim da tarde saía da sua habitação para passear pelos arredores; m as enquanto brilhava o sol, ela se m ostrava raras vezes; passava os dias num quarto isolado, onde ninguém entrava. O seu velho criado era encarregado de todos os detalhes da casa; m as sem pre taciturno e m elancólico, evitava qualquer conversação, e guardava constantem ente um silêncio, que não convinha à ávida curiosidade dos faladores do lugar. Todas estas particularidades não faziam m ais do que aum entar o desej o que Helena tinha de conhecer a estrangeira. Madame Delm ont, possuindo as m ais belas qualidades, era contudo filha de nossa m ãe com um : era m ulher!... Porém sabia ocultar debaixo de um a com pleta indiferença, a secreta curiosidade que a devorava; e quando a noite principiava a desenrolar seu m anto sobre a natureza, voltou ao castelo, acom panhada de Germ ana, que tinha saído ao seu encontro.

Assim que seus filhos voltaram , correram para ela com a m aior vivacidade.

— Oh! m am ã, m inha cara m am ã — exclam aram am bos ao m esm o tem po; — j á vim os a bela e m isteriosa dam a; falám os-lhe; e foi ela que nos deu estas coroas de flores. Oh! quanto é am ável; quanto é bela!...

Estes discursos infantis, este encontro im previsto, ainda m ais excitaram a curiosidade de madame Delm ont.

— Vam os, m eus filhos — lhes disse ela; — não faleis am bos ao m esm o tem po: basta que um de vós m e conte quanto se passou; e se acaso se enganar, o outro lhe lem brará algum a circunstância, de que se esqueça.

Esta proposição era na verdade m uito j udiciosa, se outras dificuldades se não oferecessem para obstar-lhe. Julieta, cheia de vivacidade e gentileza, não parecia disposta a ceder a palavra a seu irm ão, que tam bém pela sua parte reclam ava o direito de m ais velho, para ser o narrador de tão grande aventura.

Helena tentou prim eiro os m eios de conciliação; m as seus esforços não produziram nenhum resultado: Julieta queria falar, e Eugénio não queria estar calado por m odo algum . Viu-se pois obrigada a carinhosa m ãe, a fazer intervir sua autoridade; e um a ordem absoluta im pôs rigoroso silêncio à desconsolada m enina, a qual se retirou logo, um pouco am uada, para um canto, protestando, que ainda que seu irm ão se enganasse, não seria ela decerto quem o advertisse.

Eugénio, cheio de orgulho, pela preferência que sua m ãe lhe concedia, testem unhou-lhe por um gracioso sorriso o seu reconhecim ento; e de pé, diante dela, principiou a sua narração por este m odo:

— Eu desej ei, m inha cara m am ã, descer ao vizinho vale, e pedi a Raul que ali nos conduzisse, a fim de colherm os alguns j acintos selvagens, que abundam naquele prado. Ele consentiu; e havia alguns m om entos que ali saltávam os, quando Julieta, que é m ais travessa do que eu, correu para o lado do bosque...

— Isso não é verdade, senhor — clam ou Julieta, toda estim ulada pela acusação de Eugénio: — eu corria atrás de um a borboleta azul e verde; e tu, m entiroso, fazias outro tanto. Olhai, m am ã, continuou a j ovem traquinas, nada sabereis exatam ente de Eugénio; eu vos conto tudo quanto se passou, por isso m esm o que foi a m im a quem a dam a falou prim eiro.

— Já vos disse que vos calasses, todas as vezes que Eugénio se não enganar — replicou com doçura e gravidade madame Delm ont: — persisto na m inha prim eira determ inação; que não sej a necessário que eu a repita pela terceira vez.

A severidade desta observação, tão pouco em harm onia com a viva ternura que Helena consagrava à sua am ável filha, causou à pobre m enina tão penetrante dor, que um a torrente de lágrim as se precipitou de seus olhos; e lançando seus bracinhos ao pescoço de sua m ãe, ela soluçava am argam ente, m isturando m il beij os aos fundos suspiros que seu coração soltava. Helena reconheceu então, que se havia m ostrado assaz severa; e sem proferir um a só palavra, afagava com suas m ãos os louros cabelos de sua filha, pousando sobre sua fronte de j aspe um terno e carinhoso beij o, que em breve recuperou à pobre m enina toda a sua tranquilidade e placidez.

Todavia, Eugénio ia continuando a sua narração, referindo com o a estrangeira se havia oferecido a seus olhos, no m om ento em que ele corria em busca de sua irm ã, que se tinha perdido no m eio das giestas; com o a foi encontrar dando a m ão à m esm a dam a, e com o esta tom ou parte nos seus j ogos, ainda que parecia não ser dem asiadam ente alegre e galhofeira: conservava-se séria, ainda m esm o quando brincava; e as risadas que Julieta soltava, pareciam sobressaltá-la e afligi-la!

— Tratou-nos com extraordinária bondade. Era em vão que Raul se im pacientava, para nos conduzir a casa; ela nos fazia dem orar, procurando novas flores para j untar às coroas que enastrava para nos oferecer. Asseguro-vos, cara m am ã, que tudo quanto faz, é com a m elhor graça, apesar de nunca tirar a luva da m ão esquerda, o que decerto a deve constranger. Julieta, que em tudo m exe, quis tirar-lha, m as ela se opôs a esse m ovim ento com a m aior vivacidade, lançando-lhe ao m esm o tem po um olhar tão severo, que a am bos nos fez estrem ecer!

Esta narração foi confirm ada pela m enina, que a seu turno se apressou de tom ar a palavra. Aj untou um a m ultidão de detalhes; disse a sua m ãe, que no m om ento em que se havia em brenhado pelo m ato, vira de repente a bela dam a j unto a si, com o se tivesse sido desencantada do tronco de algum a árvore.

— Tive — continuou Julieta, — um m om ento de susto involuntário: ela o conheceu, e m ostrou-se vivam ente m agoada; correu para m im com am ável sorriso, e suas graciosas palavras m e sossegaram im ediatam ente. Não m e fez pergunta algum a, com o costum am fazer de ordinário as pessoas que m e veem pela prim eira vez. Falou-m e dos prazeres do cam po, do desej o que tinha de ser m inha am iga; e, nem de vós, nem do papá, m e disse coisa algum a.

Raul, interrogado a seu turno, confirm ou tudo quanto os m eninos haviam dito. Mas um a profunda perturbação parecia espalhada sobre seu rosto: em vão buscava dissim ulá-la; patenteava-se, m au grado seu; e madame Delm ont não podia deixar de observar com surpresa tão viva com oção!

— Que é isso, Raul — lhe disse ela; — vós não pareceis tão encantado da dam a estrangeira, com o Eugénio e sua irm ã! Conservais ainda a m esm a desconfiança a seu respeito, ou acaso a reconhecestes?

— Eu, reconhecê-la, madame! — exclam ou ele desm aiando sensivelm ente: — não sei por que m otivo m e fazeis sem elhante pergunta. Juro-vos que não conheço tal criatura; m as nem por isso deixo de persistir em acreditar, que a sua vinda a este lugar é m uito m isteriosa. Se os m eus conselhos não são para desprezar, não perm itireis que os m eninos se liguem intim am ente com ela; e enquanto à sua entrada neste castelo, vós fareis o que m ais conveniente vos parecer. Mas se eu estivesse no vosso lugar, nunca consentiria que ela atravessasse, nem sequer o prim eiro pátio.

— Para usar de tanto rigor a seu respeito — replicou Helena, — ser-m e-ia necessário ter a certeza de que a sua sociedade m e não convinha: talvez em breve m e desengane. Mas não a tendo vós visto senão hoj e, não possuindo razões algum as para fundam entar a vossa antipatia, não poderei deixar de obrar a seu respeito, conform e as circunstâncias se oferecerem . Se porém soubésseis alguns detalhes, relativam ente à sua conduta, que vos provassem , que eu correria o m enor risco recebendo-a em m inha casa, se porventura se decidisse, a visitar-m e; oh! nesse caso, Raul, não duvideis que deixasse de seguir fielm ente os vossos conselhos!...

Ouvindo, que madame Delm ont se explicava com tão extrem a bondade, ficou Raul indeciso por alguns instantes sobre o que deveria dizer; m as esta indecisão acabou subitam ente; e, com voz firm e e resoluta, certificou, que apenas m eras prevenções suscitavam os seus receios; que a dam a lhe era absolutam ente desconhecida; e que sua am a tinha todo o direito de obrar conform e a sua vontade e fantasia.

Helena conhecia a nobre franqueza do velho soldado; e quando ele se exprim iu por este m odo, não pôde deixar de acreditá-lo: atribuía suas insinuações à desconfiança natural naquelas pessoas que têm grande prática do m undo, que têm encarado o m al debaixo de todas as form as, e por isso receam sem pre de o encontrar nesses m esm os lugares onde as aparências m enos o inculcam . É unicam ente na vida retirada, que a alm a se abandona a um a confiança, que ainda ninguém pôde iludir: só a frequência e a prática dos hom ens pode ensinar-nos a tem ê-los, e a fugir deles!