A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro
Capítulo XXII
Delm ont, a quem foi m ister a m ais heroica coragem para suportar as fúnebres cerim ónias, que a igrej a costum a celebrar nesse m om ento fatal, em que se lança no fundo de um a cova um corpo, cuj os elem entos m ateriais são form ados da m esm a terra, se retirou da igrej a paroquial, am parado pelo seu am igo doutor. Não quis m eter-se de novo na sege para vencer a pequena distância que tinha a percorrer até ao castelo; e abism ado na m ais entranhável dor, ocultava seu rosto aos curiosos olhares da m ultidão, atraída por um a pom pa tão extraordinária, fúnebre e ao m esm o tem po m agnífica. Cada passo que dava, lhe suscitava um a recordação daquela que para sem pre havia perdido! A sua com oção aum entou-se ainda m ais, quando penetrou na m orada, onde por tanto tem po havia gozado a ventura do sossego e da com pleta satisfação de sua alm a. Subiu rapidam ente a escada, com o quem queria evadir-se a novas recordações, e abraçando-se com sua filha, quase que ia para lhe perguntar onde estava sua m ãe: tal era a perturbação em que seu am argurado espírito se achava!
O doutor, que pela sua qualidade de facultativo tinha ocasião de presenciar m uitas vezes cenas de igual natureza, tentou pôr um term o àquela que tinha diante dos olhos, engaj ando Germ ana a conduzir Julieta à câm ara que lhe era destinada, e onde provavelm ente a dam a estrangeira a estaria esperando. O nom e de Alinska, inopinadam ente pronunciado, despertou um novo sentim ento no coração do coronel. Mélervant, que não obrara sem desígnio prem editado, bem quisera conhecer o efeito que suas palavras produziriam sobre o seu am igo; m as um a rápida reflexão salvou Delm ont da espécie de laço que lhe era arm ado: reconheceu, que em tais circunstâncias valia m ais não se explicar claram ente; e fazendo um esforço sobre si m esm o, parecia escutar com indiferença aquilo que fazia vibrar um a das fibras da sua sensibilidade.
Não colhendo resultado algum deste sim ulado ataque, não quis o doutor tentar segundo: receava em pregar m al o seu tem po, e decidiu-se a reservar esta nova guerra para ocasião que lhe oferecesse m aior vantagem . Havia na verdade m uito pouca generosidade neste procedim ento; m as qual é o hom em que sej a superior a si m esm o, quando conhece im inente perigo em suas m ais doces afeições? Mélervant estava enam orado; receava com vislum bres de razão, que um rival m ais feliz do que ele, se colocasse entre o seu am or, e a m ulher a quem adorava.
Qual seria o hom em , que nas suas circunstâncias im pusesse silêncio ao tum ultuar de seus sentim entos, para não faltar às conveniências sociais? Seria difícil de o encontrar; essa m aneira de pensar não se acha na natureza hum ana, que de ordinário se abandona, com m ais facilidade ao pendor que as paixões lhe inspiram . O doutor era incapaz de atraiçoar o coronel, de lhe inspirar ciúm es, de lhe causar desconfiança; m as sem se j ulgar crim inoso, não deixava de querer profundar os arcanos de seu coração. Tinha-lhe prom etido ficar com ele durante aquele dia; assim o cum priu. À hora da ceia m andou Alinska prevenir o coronel, que não podia sair do seu quarto, nem tão pouco fixar o dia em que o estado da sua saúde lhe perm itisse com parecer.
Esta participação, conquanto desagradável fosse para o doutor, que m uito desej ava ter ocasião de ver a sua ingrata beldade, não deixava de satisfazer o coronel, que sabia m ais que ninguém , até onde poderia levá-lo a sua indom ável fraqueza: receava a presença de Alinska, principalm ente naquela ocasião, em que a dura m orte tinha despedaçado a barreira de bronze que até ali separava os dois am antes. Conhecia que na situação em que se achava, seria m uito pouco sensata qualquer expressão que não fosse a do sentim ento e da saudade; e cheio de respeito pelas conveniências do dever, e da terna am izade que consagrava à digna m ulher que perdera, desej ava evitar todas as ocasiões que pudessem obrigá-lo a m ostrar-se inferior aos seus deveres.
A prim avera reanim ava então a natureza, oferecendo-lhe dias serenos, que tanto contrastavam com a tristura do coronel. Com a seiva um a nova vida parecia renascer por toda a parte; as árvores revestiam -se de verdes folhas, os prados esm altavam -se de radiosas flores; o ar respirava o m ais agradável perfum e: os ternos passarinhos, cham ando-se reciprocam ente por entre as selvas, encetavam seus am ores; e o rouxinol com m elodioso gorj eio, deleitava os ouvidos do viaj ante fatigado, e do intrépido caçador, que escondido por entre as brenhas, aguardava paciente a carreira de algum a lebre, que atento espreitava j unto do ligeiro galgo. Neste m om ento em que tudo se reanim a, o m esm o hom em parece ressentir um a nova existência; seu sangue circula com m ais velocidade em suas veias; um a secreta languidez, um a carência im periosa o im pelem às m ais gratas e ternas afeições: ele am a, é verdade, em todas as estações do ano, m as na prim avera, ele cede m enos ao im pulso de sua alm a do que aos poderosos desej os de seus sentidos. Delm ont sentia, a seu pesar, todas estas agitações inseparáveis do hom em , e que ele talvez m ais que ninguém , tanto sabia apreciar.
Um m ês j á era decorrido, e ainda Alinska continuava a guardar no castelo de R *** a m esm a solidão, que observava na casa isolada em que habitara. Seu quarto, a exceção dos dom ésticos que a serviam , era inacessível a todas as pessoas da fam ília. Só Julieta era por ela recebida; m as esta m enina, cuj o caráter se não conform ava com a m elancolia, preferia antes correr pelos cam pos em com panhia de Germ ana e de outras crianças da sua idade, que o acaso lhe deparava: deste m odo, à exceção das horas em que Julieta era obrigada a estudar, conservava-se Alinska encerrada, parecendo sem pre disposta a não quebrar os votos que provavelm ente houvera feito.
Delm ont m ais de um a vez se sentia disposto a censurar este singular procedim ento. Ao princípio receava encontrar-se em presença da sua am ante; m aldizia depois a pertinácia e obstinação que ela em pregava em fugir-lhe; e tanto m ais parecia querer evitá-la, quanto m ais por um efeito contrário sentia ele a m aior im paciência de a ver. Todavia, fossem quais fossem seus desej os a este respeito, não se atrevia ainda a m anifestá-los. Passava tristem ente os dias; um as vezes entregue à leitura, outras a percorrer os cam pos: estas digressões o conduziam m uitas vezes ao seu passeio favorito, o qual se estendia até à aldeia de Lacroix, sobre as m argens do Arriége. Deleitava-se em subir à crista de um pequeno outeiro, que oferecia de todos os lados o golpe de vista m ais encantador, vendo desenrolar para a parte do poente im ensa perspetiva, que os olhos se não cansavam de adm irar. Muitas vezes folgava Delm ont de repousar à porta da antiga e desm oronada igrej a de Falgarde. Assentado sobre um a pedra que noutro tem po pertencera a algum sepulcro, dali adm irava as riquezas das belas cam pinas que o cercavam , verdadeiro contraste das ruínas do santo edifício, a cuj a som bra se albergava, e que se achavam em com pleta oposição com a vida anim ada, que lhe ofereciam as vizinhas cabanas. Ali tudo era triste e silencioso; os sinos que outrora cham avam os fieis a oração, j aziam m udos e despedaçados! A foice do tem po tinha ferido igualm ente as paredes da igrej a; achavam -se de todo arruinadas, distinguindo-se contudo no m eio de tantos estragos, um funéreo escudo, que testem unhava o orgulho assaz im potente, para se perpetuar, quer nos m árm ores m ais duros, quer nos bronzes m ais com pactos! Ali, os cultivadores, a quem o am or do interesse ou a precisão de suas fam ílias tornavam laboriosos, se ocupavam sem descanso, ou na cultura das terras, ou em vigiar seus num erosos rebanhos: m il brados, canções alegres, anunciavam a presença do hom em ; por toda a parte adm irava-se a m aior atividade. Os plainos longínquos viam -se cobertos de bois, arrastando a charrua; e bandos de cam poneses, sem eando m ilho, com pletavam o brilhante colorido daquele quadro. Mas ao passo que o coronel aproxim ava sua im aginação de tão deliciosa perspetiva, esses m esm os sons, tão gratos a seus ouvidos, pareciam desvanecer-se insensivelm ente: profundo silêncio reinava então no cem itério, onde se achava; e esse lúgubre silêncio, que só as aves não sabem respeitar, inspirava em sua alm a m elancólicas em oções, despertando nela novas e cruéis saudades, pela perda da sua infeliz Helena! Quando estas recordações o m agoaram com m aior vivacidade, levantou-se precipitadam ente; e continuando a sua digressão, ia procurando distrair-se na contem plação de novos obj etos, que a natureza lhe oferecia.
Mélervant, enj oado tam bém por não ver a húngara, concebeu enfim a resolução de se explicar francam ente com o coronel, cuj os sentim entos, a este respeito (com o j á dissem os) lhe eram suspeitos. Queria saber a inteligência secreta, que poderia existir entre ele, e a estrangeira, para poder deste m odo dirigir no futuro a sua conduta: m as m uitas vezes viu seus desígnios contrariados por ocorrências particulares, que lhe não perm itiam ir ao castelo, quando queria, ou que o encontravam , nesse lugar, com algum as pessoas, diante das quais não lhe era dado encetar com o coronel as conferências que desej ava.
Delm ont, sem conj eturar esta resolução, tam bém não tinha com o seu am igo a m esm a liberdade com que noutro tem po se tratavam .
O doutor, em consequência da m orte de madame Delm ont, tornava-se para ele um rival... seu rival!... era este um nom e que ele se envergonhava de pronunciar! E contudo o seu coração, bem a seu pesar, assim o considerava. Um vago pressentim ento lhe fazia recear as instâncias que Mélervant podia fazer-lhe: pej ava-se a sua delicadeza, do m istério, com o qual era necessário que ele ocultasse os seus sentim entos, se porventura a tanto o constrangessem ; e sem dúvida assim aconteceria tão depressa o doutor lhe falasse da constante paixão que o devorava por Alinska.
Delm ont, torturado por este m odo, raras vezes podia entregar-se ao descanso do sono. Muitas vezes, depois que os m oradores do castelo gozavam as doçuras desse deus benfazej o, velava ele no seu aposento, procurando escapar, por m eio de suas leituras, ao pesar que suas cruéis reflexões lhe procuravam . Mas debalde em pregava ele esse m eio para o conseguir: a im agem de Alinska, a lem brança de Helena, absorviam a sua atenção, e era m aquinalm ente, que seus olhos se espraiavam sobre palavras, que não era possível gravar em sua m em ória!
Um a noite, que m ais que nunca se achava horrivelm ente atorm entado por essas penosas recordações, sentiu-se de repente, com o fatigado de tanta inação; e para acalm ar a efervescência de seu sangue, se resolveu a sair do quarto com o desígnio de se encam inhar ao salão do castelo, e buscar ali algum refrigério. Tom ou a sua lâm pada; e atravessando diferentes salas, chegou finalm ente àquela aonde se destinava. Pousou a luz sobre a cham iné; e aj udado pela frouxa claridade, que ela espargia, principiou a passear agitado, no m eio dum a obscuridade apenas dissipada. Havia j á algum tem po que ali se achava, quando sentiu agitar a porta que dava saída para a escada... Para sobressaltado... dali a pouco, essa m esm a porta, com força im pelida, volta sobre seus eixos, e Alinska se apresenta!... Apenas o coronel pôde reconhecê-la! As negras vestes que a cobriam , confundiam -na com as trevas, que a lâm pada m al podia penetrar! Mas nem por isso a palidez de seu rosto deixava de sobressair com m aior expressão: não parecia criatura hum ana, m as sim um a aparição horrível, cam inhando só pelo m eio do espaço! A im petuosa im aginação do coronel até lha representou, por um m om ento, coberta de sangue, e aj udada de denegridas asas! Esta visão desapareceu com a rapidez do relâm pago, não deixando de aterrar e confundir aquele que a ancorava. Alinska, sem testem unhar a m enor surpresa à vista do seu am ante, que ao prim eiro olhar reconhecera, suspendeu a sua m archa, encostando-se a um velho canapé, com o se houvera sentido súbito deslum bram ento.
Delm ont, pela sua parte, ainda que talvez m ais com ovido, se aproxim ou logo da j ovem húngara.
— Finalm ente — lhe disse ele, — pude com efeito tornar-vos a ver! E o que é m ais singular, no m esm o lugar, e à m esm a hora, onde m e anunciastes a nossa separação! Quanto não é singular sem elhante encontro! Devê-lo-ei porventura a um sim ples acaso?
— É provável que o acaso aqui vos conduzisse — respondeu Alinska, sem pre com aquele m odo m elancólico, que lhe era ordinário. — Mas quanto a m im , que venho respirar todas as noites nesta sala, não vej o m ais do que um encontro, que m ais cedo ou m ais tarde deveria realizar-se.
— Com o! pois era este lugar onde vínheis todas as noites? — replicou Delm ont. — Quais são os atrativos, que pode oferecer-vos um a sala, que por sua extensão e m au arranj o, só pode inspirar ideias desagradáveis, principalm ente quando os raios do dia nela não penetram ?
— Pouco m e im portam , Eduardo, os resplendores do sol, ou o fúnebre aspeto das m ais densas trevas. Rio-m e de tudo quanto pode intim idar o m eu sexo; o susto é para m im um j oguete, e tal é a fatalidade do m eu destino, que só m e apraz a solidão, e tudo aquilo, que a m assa dos hom ens m ais receia.
— Ai!... Será possível, que nunca m udeis de linguagem ? Não abandonareis por um a vez tão som brias ideias? O passado, cuj a recordação é na verdade m uito dolorosa, j á vai longe; m uitas vezes, a m esm a m archa dos acontecim entos nos traz consolações forçadas, que devem suavizar as penas, que ao prim eiro olhar nos pareciam interm ináveis. Não ressentirá o vosso coração estes efeitos?...
— Não: esses efeitos de que falais, apenas resvalam sobre o m eu coração; m as sem acharem nele a m enor presa. Falais-m e do passado; j á o desconheço; o presente é unicam ente quem m e ocupa; acha-se fixado sobre a m inha fronte; não posso recuar diante dele, e não m e é dado encarar o porvir! Sou estacionária no m eio das revoluções hum anas; e a esperança do m iserável, aquela que lhe prom ete um term o a seus m ales, é para m im sem prestígio. Que lhe haveis de fazer, Delm ont? Sois vós que tendes designado a sorte da infeliz Alinska; não vos adm ireis se essa sorte é invariável.
— Quanto m ais vos escuto, cruel, tanto m ais vossas palavras inexplicáveis dilaceram m eu coração. A que terrível desespero vos abandonais! Sereis porventura a única criatura, que não tenha confiança no futuro? Ah! entrai em vós m esm a; lisonj eai-vos, de que ainda a vossa situação possa m udar... de que a fortuna nem sem pre vos será adversa...
— Poderá ela, Eduardo — replicou Alinska com vivacidade, — arrancar do túm ulo a prom essa que m e fizestes, e que eu ali sepultei?
— A m inha prom essa! dizeis vós?
— Sim , aquela que assinastes com vosso sangue; aquela que para sem pre nos encadeou.
— E é este o m om ento de m a recordar? E quaisquer que fossem m eus sentim entos, não vedes acaso o lúgubre vestido que m e cobre? Já vos não lem brais do triste acontecim ento, que ainda há pouco teve lugar?
— O que eu sei, é que, afetando vós desej ar a m inha ventura, nunca hesitastes em m e cravar no coração um novo punhal; sei que m e enganastes indignam ente; que sois um covarde... eis aqui quanto m e lem bra do passado; o que deve esm agar a vossa consciência, e cuj os rem orsos vos hão de atorm entar até à m orte.
— Desej ei, Alinska, tornar a ver-vos; j ulguei que m e não apresentaria diante de vós, para ouvir vossas cruéis repreensões. Quanto não sois inj usta, e quão m al m e conheceis!...
Um raio de luz pareceu anim ar os am ortecidos olhos da húngara; seus lábios reprim iram a custo algum as palavras, prestes a escapar-lhes. Seguiu-se um instante de silêncio; e este silêncio não deixava de oferecer-lhe alguns atrativos. Um a serenidade, que em seu rosto havia m uito tem po se não divisava, parecia querer de novo reanim á-lo, quando um a terrível ideia veio destruir de todo este prazer m om entâneo. O olhar de Alinska tom ou um a expressão m edonha e sinistra; pousou a m ão sobre o peito, com o querendo reprim ir as dolorosas palpitações que em seu coração sentia.
— Tam bém eu, Eduardo — disse ela. — Tam bém eu tinha um a im periosa necessidade de vos tornar a ver. Afigurava-se-m e ao ver-vos, que nos seria fácil voltar a essa época saudosa e abençoada porque am bos hem os passado; e poderei dizer-vo-lo?... Vós poderíeis ainda apresentar-vos a m eus olhos, tal qual éreis nessa m esm a época; m as a vossa desventurada am ante j á nada possui de quanto vos deleitava...
— Nesse tem po, Alinska, tão caras m e eram as virtudes, que adornavam vosso espírito, com o os atrativos sedutores, que aform oseavam a vossa pessoa. O tem po poderia talvez arrebatar um a pequena porção de vossos encantos; m as teria ele poder para destruir as preciosas qualidades, contra as quais sua foice devastadora se em botaria?
— Nada posso responder-vos; a m inha voz seria im potente para o fazer; só posso dizer-vos, que o m eu corpo é o m esm o que então era: que só vós ocupastes todas as faculdades da m inha alm a; e que o vácuo em que m e vej o atualm ente, nada tem de terrestre. O enj oo em que vivo; este aborrecim ento de m im m esm a, provém da eternidade!... Adeus; é necessário que m e retire. Não prolonguem os por m ais tem po um a entrevista, que só nos deve produzir pesares. Esclarecidos m utuam ente, sobre nossos sentim entos, esperem os que a Providência resolva os nossos destinos. Oh! quanto não é pesada a tarefa, de que a sua cólera m e encarregou!...
— Sim , com o vós, tam bém eu j ulgo que nada m ais nos resta que dizer. Deixem os correr o tem po; nós nos encontrarem os um dia, em que nos possam os regozij ar livrem ente, e então...
— E então am bos m archarem os em linha reta para o sepulcro, único tálam o nupcial que nos aguarda...
— Que horrível predição! Alinska, sois na verdade a m ais cruel das m ulheres! Acaso não enxergareis no futuro m ais do que a m orte... um ataúde?...
Alinska nada m ais replicou; retirou-se apressadam ente; e quando chegou à próxim a escada, soltou um a risada tão diabólica, que inspirando a Delm ont o m ais profundo pavor, lhe pareceu ouvir as gargalhadas de algum a potência infernal!
— Pobre criatura! — disse ele. — Os grandes infortúnios que tem sofrido, transtornaram suas faculdades intelectuais! As suas extravagâncias desnaturalizaram um caráter tão am ável; m as ela se torna m ais interessante por suas desventuras, do que outra qualquer, por suas prosperidades. Talvez que ela volte a outras ideias m ais j ustas e razoáveis; talvez que o principal m otivo que a reduziu a tão m ísero estado, sej a o m esm o que restabeleça inteiram ente a sua razão...
Ao term inar estas palavras, que no m eio da sua agitação havia pronunciado em voz alta, j ulgou sentir j unto a si um fundo suspiro. Voltou-se subitam ente para aquele lado, e no canto m ais obscuro da sala, apenas enxergou um a figura, vestida de branco, conduzindo um a criança pela m ão, com a qual entrara para o salão de visitas... Delm ont, apesar da sua coragem , não pôde deixar de estrem ecer à vista de tão estranha aparição! A sua m esm a im aginação lhe havia desenhado sobre o fantasm a, certas feições, que nunca em seu coração se haviam apagado! Hesitou prim eiro sobre o que faria; m as lançando m ão da lâm pada, se dirigiu logo ao salão... Estava solitário! Só o eco de seus passos precipitados perturbavam o silêncio daquele vasto recinto!... Contudo seus olhos não o tinham iludido... Voltou ao seu quarto, banhado em suor, e com o coração despedaçado de rem orsos!...