A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro

Étienne-Léon de Lamothe-Langon · Capítulo 22 de 25

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A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro

Capítulo XXI

 

A ansiedade da fam ília Delm ont havia chegado ao seu m aior auge: ignorava-se se Alinska, apesar das vivas solicitações que lhe eram dirigidas, viria a Tolosa: o doutor, a quem as suas ocupações cham avam a outros lugares, teve que pôr-se a cam inho ao pôr do sol, sem que visse chegar a bela indiferente. Eram oito horas da noite, quando a sege, que tinha partido ao m eio-dia, parou à porta da residência de Delm ont. Ao ruído que fez, levantou-se o coronel; e tom ando um a vela, desceu rapidam ente, m enos para ir ao encontro da estrangeira, se porventura tivesse chegado, do que para evitar aos olhos de sua esposa a agitação em que se achava. Ao chegar ao fundo da escada, deparou com um a m ulher envolvida num a grande roupagem negra, que cam inhava gravem ente para ele de tal m odo, que no prim eiro m om ento se poderia tom ar por um a aparição sobrenatural. Mas quanto não foi m aior o seu sobressalto, quando viu à claridade da luz que levava, a grande palidez que cobria o rosto de Alinska! Era com efeito ela, ou para m elhor dizer, era um espetro! Parecia naquele m om ento achar-se m ais perto do túm ulo, do que a m esm a madame Delm ont, cuj a vida tocava (ainda m al!) o seu últim o extrem o!

O coronel, confuso à vista de tão estranho espetáculo, não pôde sequer pronunciar essas palavras que a civilidade exigia dele. Ficou im óvel, contem plando os estragos que um tão pequeno espaço de tem po havia produzido sobre as feições de Alinska. Esta, com feroz sorriso, e havendo observado ao m esm o tem po a sua confusão:

— Eis-m e aqui — lhe disse ela; — haveis m e cham ado; m as não vos lisonj eeis de m e obrigar a partir, quando o desej ardes.

Estas rudes palavras, pronunciadas com vivacidade, só puderam ser ouvidas por aquele a quem se dirigiam . Ele estrem eceu; m as esforçando-se enfim para recuperar sua coragem , balbuciou algum as palavras, com aparência de galanteio, as quais lhe adquiriram em resposta o m ais terrível e fulm inante olhar.

Chegando am bos ao quarto de madame Delm ont; esta, ao ver a húngara, que lhe pareceu m oribunda com o ela, deixou escapar algum as lágrim as, estendendo-lhe ao m esm o tem po a m ão com am izade.

— Quanta bondade não tendes — lhe disse ela, — de haver cedido aos m eus rogos! Mas perm iti-m e, que vos pergunte, porque não tendes solicitado tam bém alguns socorros, de que m e parece carecer o estado de vossa saúde?

— O estado exterior da m inha pessoa vos ilude! — replicou a estrangeira. — Não m e sinto em pior situação do que aquela em que m e haveis conhecido; ser-m e-ia até m uito difícil de passar m elhor ou pior do que passo: m inhas feições vos parecem alteradas, a m inha palidez vos aflige; tudo isto, senhora, nasce do estado em que m e deixou a vossa carta, e as ordens que continha. Sabeis quanto a solidão m e apraz; custa-m e m uito deixá-la; m as quando se m e pede com tal extrem o, não seria possível recusar-m e. Quereis-m e ao pé de vós; aqui m e tendes: estais certa de encontrar em m im o auxílio de que careceis?

Estas palavras, tão pouco graciosas, afetaram desagradavelm ente madame Delm ont, que não podia com preender o verdadeiro sentido delas. Um a pequena reflexão lhe fez recordar o caráter de Alinska; recordou-se tam bém da extravagância de suas m aneiras, e concluiu, que nada havia de que se adm irar a seu respeito.

Helena precisava um a com panhia; tinha-se costum ado àquela; deveria queixar-se de a encontrar de novo, ostentando sem pre seus m odos extravagantes, e suas m aneiras selvagens?

Contudo, Alinska, apesar do seu m au hum or aparente, acarinhou a m enina Julieta, que antes de se ir deitar, quis dar-lhe a seu m odo as boas vindas. Alinska inclinou-se para a beij ar, e o fez com tanto afeto, que para logo ficou reconciliada com a extrem osa m ãe. Enquanto a Delm ont, incapaz de proferir um a só palavra, ele se sentia absorvido na m ais profunda m editação: encarava com susto o futuro, o qual não via senão envolvido nos m ais sinistros vapores!

No seguinte dia, madame Delm ont declarou, que havia passado um a noite m uito m ais terrível do que as antecedentes. Era fácil acreditá-la à vista do cansaço, e do sofrim ento que se divisava em seu descarnado rosto: via-se que sua debilidade aum entava, e que os últim os fios de sua vida estavam por m om entos a quebrar-se! Parecia inquieta de não ver chegar o eclesiástico, que com tanta ansiedade aguardava. Neste m om ento Germ ana o anunciou; o coronel dirigiu-se ao salão para o receber, e Alinska, soltando espantoso grito, saiu subitam ente por um a porta secreta, retirando-se ao quarto que j á lhe haviam designado.

Se existe entre os hom ens algum obj eto digno de adm iração, é sem dúvida o interessante quadro de um venerável sacerdote, dirigindo consolações religiosas a um desgraçado, prestes na hora extrem a a ver dissipadas todas as ilusões m undanas! Não representa então um frágil m ortal; é o m esm o Deus, revestido de seu poder infinito. Faz que as vistas do infeliz se dirij am para essa esperança, nunca enganadora, de um m undo, onde tudo é igualdade, onde a virtude, que nesta vida se cobre com os andraj os da m iséria, se assenta ali sobre um trono igual àqueles, que são destinados aos m esm os reis, quando eles só tem curado de fazer a ventura de seus povos. Muito se enganam aqueles, cuj os prej uízos lhes fazem encarar a m orte com indiferença! Qual será aquele, cuj a energia sej a assaz veem ente, que não sinta algum terror, algum receio pelo futuro, nesse instante solene, em que a alm a vai com parecer perante o seu Criador? Esse terrível m om ento acaso se agravará ele m ais, quando prestam os ouvidos à voz consoladora, que acalm ando nossa agonia, nos afiança um a ventura eterna, com prada unicam ente pelo preço de um sincero arrependim ento? Não será pelo contrário m aior satisfação term inar a vida, com pletam ente tranquila, sobre o descanso que nos espera na nova existência, à qual a im ortalidade de nossa alm a nos não perm ite subm eter? Se os socorros da religião têm este poder, j unto daquele, cuj os rem orsos lhe corroem a consciência, quanto se não tornam eles m ais saudáveis para aquele, que j am ais se afastou do cam inho da virtude?

Madame Delm ont, cuj a carreira j am ais havia deslizado do exercício dessa m esm a virtude, não tinha outros pesares, ao aproxim ar-se do term o fatal, senão aqueles, que podiam suscitar-lhe a lem brança dos caros obj etos que neste m undo deixava: o porvir certo, que não a atem orizava! Se por um lado, lhe era doloroso separar-se de seu esposo e de sua filha, por outro conservava a bem fundada esperança, de que um dia tornariam todos a reunir-se; recordando-se ao m esm o tem po, de que o seu caro Eugénio a aguardava risonho, e que em breve iria abraçá-lo. Depositou no seio do venerável eclesiástico as ligeiras faltas, de que se acusava; elas lhe foram perdoadas sem a m enor dificuldade; e as m ais doces e eficazes palavras, reconciliando-a com o Criador do universo, lhe davam a grata certeza de que em breve iria assentar-se ao lado dos eleitos do Senhor.

Todavia, o digno m inistro, ao m esm o tem po que a entretinha de sua felicidade futura, não deixava de lhe inspirar ainda algum a consoladora esperança, persuadindo-a, que não devia renunciar de todo a este m undo: dizia-lhe que a sua cura não seria im possível, se a Providência a j ulgasse necessária; representou-lhe tantos enferm os, restituídos à saúde, no m om ento em que a porta do túm ulo se abria para os receber; tantos m ilagres de igual natureza, que madame Delm ont, sem se persuadir inteiram ente do seu restabelecim ento, se sentia contudo m ais sossegada, no m om ento de se despedir dela, e de lhe prom eter que voltaria naquela m esm a noite.

Depois que o padre saíra, entrou o coronel no quarto de sua m ulher. Tentou igualm ente tranquilizar o seu espírito abatido; m as neste m om ento, madame Delm ont, ainda possuída do santo fervor da oração, só parecia ocupar-se de obj etos celestiais. Foi a visita de um dos facultativos de Tolosa, que veio arrancá-la de tão grata m editação. Não a encontrou em pior estado do que na sua últim a visita; ordenou-lhe um a bebida fortificante, da qual esperava o m elhor resultado. Delm ont, adm irado que Alinska não tivesse voltado, correu ao seu quarto, e bateu ligeiram ente à sua porta.

— Quem é? — perguntou ela — Que pretendem de m im ?

— Vinha pedir-vos — lhe respondeu um a voz que lhe era m uito conhecida, — que viésseis ver madame Delm ont.

— Está ela sozinha? Já se retirou esse hom em terrível, cuj a vista m e não é dado suportar? — disse ela abrindo a porta.

— De quem falais? — replicou o coronel.

— De quem falo! Falo do padre; sim dele: desde que saí da Hungria, não m e é possível tolerar a presença de um indivíduo da sua classe. Um a etérea barreira nos separa: j á nada tenho a pedir-lhes sobre a terra.

Enternecido com estas superstições, que atribuía ao atentado que sua am ante havia com etido contra a sua própria existência, não quis o coronel prolongar esta conversação. Lim itou-se a assegurar-lhe, que madame Delm ont se achava só.

— Nesse caso — replicou Alinska, — eu vos sigo; m as, Eduardo, eu vos conj uro; prom etei-m e, se acaso não quereis presenciar o m ais espantoso espetáculo, de não consentir que eu m e ache j am ais na presença de um dos m inistros do Senhor; que tom eis as devidas precauções, para que eu saia do quarto de vossa m ulher, antes que volte o seu confessor. Ai! é este o único favor que ouso suplicar-vos!...

Este discurso, pronunciado com voz balbuciante, deu nova consistência à com paixão do coronel. Prom eteu sem custo, que Alinska seria satisfeita, e voltou na com panhia dela ao quarto de sua esposa, a qual pareceu satisfeita de os ver j untos; sorriu-se com graciosa bondade; e depois de alguns instantes de silêncio:

— Escutai-m e am bos — lhes disse ela. — Pretendem iludir-m e a respeito da situação em que m e acho; enganar-m e-ia a m im m esm a, enquanto resplandece o claro dia; m as a cruel noite em breve m e aniquilará para sem pre! — Aqui estrem eceu Alinska involuntariam ente. — Sei qual é o destino que m e aguarda; ainda m ais alguns m om entos, e a m inha carreira m ortal chegará ao seu term o. Nada tenho que determ inar; só m e cum pre dirigir a Deus algum as preces. Fazei atenção àquelas que tam bém vos dirij o; cum pri-as, eu vos suplico; e que no m om ento da m inha m orte possa levar ao m enos a certeza, de que os m eus últim os desej os foram benignam ente acolhidos.

— Ah! m inha am iga — replicou o coronel com vivacidade, sem que a presença de Alinska o contivesse, — não vos deixeis sucum bir por esse m odo! Vós vivereis ainda para felicidade da vossa fam ília, e vós m esm a satisfareis os desej os que ora possuís.

— Um deles, Eduardo, não pode ser por m im cum prido, por isso que tem relação com m eus despoj os m ortais: é a vós que eu o recom endo; não deixareis decerto de o cum prir. Depois da m inha m orte, quero repousar no m esm o lugar, onde m eu filho m e precedeu; há de ser no cem itério de R ***, que m eu corpo deve ser sepultado; outra qualquer terra parecer-m e-ia estrangeira; é-m e necessário aquela; eu a quero absolutam ente!

Lágrim as sinceras, e fundos suspiros privaram a Delm ont de responder; m as apertando a m ão de sua infeliz m ulher, ele lhe dava com este m udo sinal, a certeza, que se conform aria à sua vontade. Ela não insistiu m ais; e voltando-se para Alinska, que pálida e desorientada escutava e via, com hórrido silêncio, quanto se passava:

— Enquanto a vós, senhora, consenti por algum tem po em vigiar sobre m inha querida filha; tendes-lhe m ostrado algum a am izade; prestai-lhe pois os vossos cuidados, até ao m om ento em que vossos interesses vos obriguem a deixar este país; que m e reste ao m enos, ao deixá-la, a doce convicção, de que ela não passará da vigilância de um a boa m ãe, senão para a de um a verdadeira am iga...

Um penetrante grito, um grito de inexplicável agonia, escapou neste m om ento do peito de Alinska. Cobrindo o rosto com suas m ãos, ela se deixou cair sobre um sofá, parecendo sucum bir ao peso de um a dor secreta. Longe de protestar a Helena, que satisfaria seus desej os, ela se calou, sentindo-se incapaz de se explicar, e de m anifestar o terrível m al, que naquele m om ento a atorm entava. Delm ont, assustado de a ver em sem elhante situação, nem sequer se atrevia a correr em seu socorro; tal era o receio de que ela deixasse escapar um a porção de seus sentim entos: e ele m esm o, que profundo golpe não vinha de receber, ouvindo Helena ordenar à sua rival (ainda que oculta) de a substituir nos seus m ais sagrados deveres? Em tudo quanto se passava, não podia deixar de ver um encadeam ento de circunstâncias m isteriosas, que apesar de suas resoluções, o atraíam invencivelm ente para Alinska. Não se atrevia a penetrar nos abism os do futuro; só cogitava em se reconcentrar na profunda dor que então o m agoava.

Continuando Alinska a guardar silêncio, j ulgou madame Delm ont conveniente repetir a m esm a súplica. Então a húngara, levantando-se subitam ente, e alçando para o céu seus som brios olhos:

— Tu assim o queres, ó Providência divina! — exclam ou ela. — Poderei acaso, eu que j á não existo, lutar contra teus decretos? Sim , aceito a m issão, que m e fizeste propor por esta desgraçada; eu j uro pois, que até à m orte serei a vigilante guarda de sua filha.

Apesar do vivo contentam ento que esta prom essa devia causar a madame Delm ont, não pôde ela deixar de estrem ecer secretam ente, à vista do m odo sinistro com que foi pronunciada. A palavra morte parecia vaticinar-lhe algum a terrível catástrofe; m as não se atrevia a dar a conhecer a perturbação que sentia; só se abalançou a dizer, com o quem pretendia esconj urar o vaticínio:

— Ao m enos não abandoneis a m inha Julieta, senão para a entregardes ao esposo que seu pai lhe destinar.

Um desdenhoso sorriso foi tudo quanto Alinska pôde exprim ir para m anifestar a sua condescendência; nada m ais pronunciou! Dali a pouco pediu licença para se retirar, e a sua ausência se prolongou até depois da segunda visita, que o piedoso cura havia prom etido a madame Delm ont.

Cinco ou seis dias se passaram , durante os quais a infeliz Helena se definhava progressivam ente. Em vão lhe eram prodigalizados todos os socorros da arte; m as não puderam lutar por m ais tem po contra um a causa terrível e secreta, que devia infalivelm ente arrastá-la ao sepulcro! Seu esposo vigiava-a todas as noites, acom panhado de um a enferm eira; e por um a circunstância, na verdade bem singular, em todas essas noites, à m esm a hora, sucum bindo ao cansaço e à fadiga, am bos caíam no m ais profundo e letárgico sono. Todas as m anhãs se queixava a infeliz de m aior debilidade, e particularm ente a seu esposo, ela continuava a acusar o insaciável dem ónio, que sorvia, gota a gota, todo o seu sangue! Delm ont, desesperado de ver que a razão de sua m ulher cada vez m ais se desorientava, nem sequer podia j á com bater a sua fantasia; só lhe respondia pois com lágrim as e com suspiros.

Durante este tem po, não se atreveu Alinska a patentear ao seu am ante, quer por um gesto, quer por um olhar, os sentim entos, que de sua alm a eram inseparáveis: estava com ele, com o se j am ais o houvera conhecido! Ele prodigalizava os cuidados m ais assíduos a madame Delm ont; Alinska poucas vezes saía do quarto da enferm a, m as ao aproxim ar-se a noite, ela se retirava ao seu aposento, sem que ninguém m ais a visse até ao seguinte dia. Nunca se oferecera para vigiar de noite ao pé da sua am iga; parecia que esta dem onstração de am izade era superior às suas forças: Delm ont respeitava os seus caprichos; e ele m esm o, reconcentrado na sua dor, só se em pregava em dar a Helena as provas m ais enérgicas do seu afeto, sem lhe im portar que estes testem unhos do seu am or despedaçassem ou não o coração da húngara!

O seu am igo doutor, vinha de vez em quando a Tolosa; tão pouco im portunava a intratável estrangeira com seus galanteios; aplicava todo o seu desvelo sobre a doença de Helena, cuj o m om ento fatal prognosticou na últim a visita que lhe fez. A sua presciência não o enganou: os sacram entos da igrej a j á tinham purificado a alm a da infeliz, quando se extinguiu com pletam ente, no m om ento em que despontava o dia, cuj a carreira não vira term inar!... O coronel não se achava naquela ocasião ao lado dela; tinha-se retirado m om entaneam ente ao seu quarto, onde o eclesiástico, que tinha passado a noite em oração j unto da m oribunda, o veio dispor para a cruel separação que acabava de efetuar-se!

Não buscarem os descrever as dolorosas com oções, que de tropel se apoderaram do coração de Delm ont, quando a verdade lhe foi patenteada. Arrancado por m uitas vezes do inanim ado corpo de sua m ulher, pelo seu am igo. Mélervant, que dele se não separava; só quando recebeu em seus braços sua lacrim osa filha, é que o infeliz pôde escutar, não im portunas consolações, m as a voz da necessidade, que lhe ordenava subm eter-se a um infortúnio irrem ediável. Enquanto durou este funesto dia não apareceu Alinska; ninguém a viu em parte algum a; nem j unto ao esposo inconsolável, nem j unto à m enina, a quem havia prom etido de servir de m ãe. O doutor j ulgou-se autorizado a procurá-la próxim o da noite, no seu aposento, onde talvez carecesse de seus serviços: bateu à porta, e com a perm issão que lhe foi dada, penetrou no quarto.

Alinska, em brulhada em seu negro xaile, estava assentada j unto da cham iné. Tinha a cabeça encostada sobre um a m esa, e toda a sua figura coberta de longas vestes. Ouviu as palavras de Mélervant, sem procurar encará-lo. Respondeu-lhe com voz desfalecida e sossegada, que de nada carecia; que não saía do seu quarto, porque em tão grave m om ento, só a solidão lhe aprazia; que havia de desem penhar a obrigação que contraíra; e que partiria no seguinte dia para o castelo de R ***, onde esperaria por Julieta, para tom ar conta dela.

O doutor que esperava receber outra resposta, m ostrou algum a adm iração, vendo que Alinska não queria acom panhar os restos m ortais da sua am iga; m as reconcentrando em sua alm a o que pensava a este respeito, lim itou-se em perguntar-lhe, se queria que lhe aprontassem um a sege para fazer a j ornada.

— Tam bém vos agradeço esse obséquio, senhor — respondeu Alinska, sem pre sem olhar para ele. — Já tom ei as m edidas necessárias para m e transportar ao castelo; hei de partir de m adrugada; ser-m e-ia im possível assistir à cerim ónia dolorosa do enterro...

Calou-se: sua constante im obilidade parecia ordenar ao doutor que se retirasse; assim o praticou, adm irando sem pre as extravagâncias desta j ovem criatura! Transm itiu a Delm ont o que ela lhe havia dito; este ficou satisfeito que a presença de Alinska não viesse distraí-lo dos sentim entos, que naquela am argurada ocasião deviam ocupá-lo. Dois dias se passaram antes que as autoridades civis e religiosas perm itissem , que o corpo da desgraçada Helena se transportasse ao cem itério do distrito de R ***.

Durante este tem po não saiu o coronel do quarto da sua defunta. Abandonava-se ali à m ais profunda m elancolia; era em vão que pretendiam arrancá-lo à sua dor. Inform aram -no de que um a sege viera buscar Alinska ao despontar do dia, a qual im ediatam ente se pusera a cam inho. Esta partida o consolou de algum m odo, porquanto o aspeto da húngara lhe causava um a com oção tão particular, que quase lhe tirava a faculdade de se entregar livrem ente a seus pesares. Finalm ente, ele m esm o conseguiu sair de Tolosa; conduziu consigo sua filha, seguindo am bos o fúnebre cortej o, cuj os m elancólicos cânticos lhes inspiravam a m ais pungente am argura. O novo cura de R *** concluiu a triste cerim ónia, e a desafortunada m ãe foi encontrar seu derradeiro asilo j unto do caro filho, cuj a m orte talvez fosse a causa principal do seu fim .

Corram os denso véu sobre as circunstâncias deste sinistro acontecim ento!...