A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro

Étienne-Léon de Lamothe-Langon · Capítulo 7 de 25

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A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro

Capítulo VI

 

Chegou enfim o desej ado dom ingo, em que todos os habitantes do distrito esperavam encontrar na igrej a a bela desconhecida. Madame Delm ont, exata em cum prir os deveres de cristã, não deixou de concorrer ao augusto sacrifício da m issa: foi um a das prim eiras que ocupou um lugar conveniente, do qual pudesse satisfazer a sua curiosidade, relativam ente à estrangeira. Decorreu o tem po, sem que ela se apresentasse: fez-se a procissão; cantou-se a m issa, com grande pom pa; e nenhum a das pessoas, que habitavam a casa isolada, com pareceu. Isto causava a todos grande adm iração! As conj eturas m ais extravagantes se puseram em j ogo; e entre os m ais faladores, foi decidido, ou que a dam a estava doente, ou que pertencia à seita dos calvinistas: desde logo um sentim ento m alévolo se levantou contra ela; censuravam -na altam ente, por se recusar com obstinação a satisfazer a pública curiosidade.

Raul era o único que exultava com esta nova circunstância. A continuação dos atoleiros havia interrom pido os passeios dos filhos do coronel; não podiam sair do castelo, e iam perdendo gradualm ente as lem branças da sua nova am iga.

Mas, se a sua tenra idade lhes fazia riscar da im aginação suas prim eiras im pressões, não acontecia outro tanto para com madame Delm ont. Esta queria absolutam ente ver a desconhecida, e esperava com im paciência o m om ento, em que a terra se consolidasse, para lhe facilitar o gozo de alguns passeios. Na terça-feira seguinte realizou-se o seu desej o: o calor do sol havia secado inteiram ente a hum idade; o dia ostentava o m ais vivo esplendor. Raul, ocupado dos preparativos da vindim a, tinha-se ausentado para Aureville, onde o aguardava um tanoeiro, com quem precisava conferenciar. Helena aproveitou-se desta circunstância, para sair com Eugénio e Julieta, e foi para o lado do pequeno prado, que dirigiu seus passos.

Um sentim ento particular, cuj a causa lhe era desconhecida, produzia dentro de sua alm a com oções inexplicáveis; seu coração parecia oprim ido por um peso enorm e; respirava com sum a dificuldade, e um a indisposição geral se deslizava em seus m em bros. Em consequência deste desfalecim ento, não gozava seu espírito daquela vivacidade e energia que lhe eram naturais; entregava-se a m elancólicas m editações, que debalde se esforçava por banir: a alegria de seus filhos não era bastante para despertar a sua; e por duas vezes sentiu desprender de seus olhos um a lágrim a, sem que fosse ali m andada j á por algum a pena secreta, ou por algum sofrim ento m otivado.

Foi em tal situação, que desceu m ansam ente a colina, atribuindo a sua perturbação a esse vago receio, que sem pre nos agita, quando buscam os averiguar aquilo que não conhecem os, e quando nossas ideias se perdem num espaço, aliás m uito perigoso para a nossa razão.

Chegando ao prado, receosa de lançar em torno a si vistas curiosas, assentou-se madame Delm ont, j unto de um salgueiro, aquele m esm o onde poucos dias antes se havia encostado Raul: um banco natural, form ado de verde relva, que bruscam ente crescia naquele sítio, a convidava a descansar sobre ele. Helena, tirando do seu saquinho um a obra de bordado, se pôs a trabalhar, enquanto deu sinal aos dois traquinas para brincarem . Im ediatam ente se entregaram a este grato exercício, o qual durava j á depois de um quarto de hora, quando, a pequena distância, ligeiros e argentinos sons de um a harpa, se deixaram ouvir...

Madame Delm ont, surpreendida com este novo incidente, apressou-se, por m eio de um m udo sinal, a cham ar seus filhos j unto a si, antes que eles m esm os pudessem com eter algum a indiscrição. Im pôs-lhes o m ais escrupuloso silêncio, fê-los assentar a seu lado, e escutou, com a m aior avidez, as sonoras árias, que desem penhava o escondido professor.

Depois de alguns sim ples, e quase m onótonos prelúdios, passou insensivelm ente a m ais solenes m elodias; m as em breve, um retornelo, cheio de pressão e de veem ência, se lhe seguiu, e a m ais doce voz, ainda que um pouco sum ida, entoou o singular rom ance que passam os a descrever:

Este dia tão belo, e tão brilhante,

Desta onda, destes vales a beleza,

Meus olhos não atraem , nesse instante

Em que m inha alm a é só da natureza?...

Mostra-se-m e a ventura vacilante.

Quando m ais a esperava com certeza;

E perdendo da vida o doce engano,

Falaz esp'rança e m eu algoz tirano.

Suave sono que conforta a vida.

Meigo recobro que nos dá alento,

Em dura se converte acerba lida.

Em novo, ingrato, m ais cruel torm ento.

Rápido foge o tem po, e sem guarida,

Debalde espero um feliz m om ento.

Renova-se-m e a dor, e na am argura,

Perco o prazer, a paz, perco a ventura.

Exânim e tentei desventurosa

Lançar-m e na m ansão da sepultura;

Mas um a nova pena torm entosa

Veio roubar-m e à sua som bra escura:

Eu vivo, e não existo, pois saudosa

Triste m e envolve eterna quadra dura;

Na fria estância aonde habita a m orte

Não tenho esp'rança de m udar de sorte!

Não poderem os descrever, senão de um m odo m uito im perfeito, os sentim entos, que agitaram Helena, enquanto durou o m isterioso rom ance. Ela o escutava com profundo estrem ecim ento; não podia duvidar, que aquela que o cantava, não fosse algum a desgraçada; porquanto, todos sabem , que o infortúnio, quando fala, tem em sua voz inflexões particulares, que decerto se não sem elham com aquelas que exprim e o dileto da prosperidade: m as esta circunstância, longe de intim idar madame Delm ont, pelo contrário m ais a estim ulou a aproxim ar-se da estrangeira. Um m eio se lhe ofereceu inopinadam ente para o conseguir: não pôde conter a vivacidade natural de Eugénio e de Julieta, que havendo reconhecido a voz da sua am iga, ardiam de im paciência de correr j unto a ela. Assim o fizeram , logo que lhes foi possível; e com efeito a encontraram a pequena distância, assentada no tronco de um a velha árvore, que pouco havia fora cortada. Tinha em suas m ãos um a pequena harpa, sim plesm ente adornada, que continuava a tocar, apesar de ter um a de suas m ãos constantem ente calçada de um a luva!

Mostrou-se assaz encantada de ver os m eninos, cham ando ao m esm o tem po o seu criado, que se conservava em algum a distância dela. Aproxim ou-se para tom ar conta do instrum ento; e havendo-se desviado novam ente, perguntou a húngara a Julieta, qual sorte de j ogo deveria entretê-las. A pequena m aliciosa j á tinha form ado o proj eto de conduzir a estrangeira ao lugar onde estava sua m ãe: ocultou-lhe que ela se achasse tão perto; só lhe disse que sabia correr m uito, e que estava certa, que a sua am iga não poderia apanhá-la, se quisesse dar-lhe três ou quatro passos de dianteira.

Alinska aceitou a proposição. Julieta fugiu; era vivam ente perseguida; m as, dirigindo a carreira para o sítio onde estava madame Delm ont, que se achava encoberta pela espessura da árvore, e por um a pequena m oita de roseiras selvagens, em breves m om entos pôs na presença, um a da outra, as duas dam as, que talvez tanto desej avam conhecer-se: a m enina lançou-se, sem dem ora, nos braços m aternais; e a húngara, confusa e surpreendida, parou no m esm o m om ento em que ia apoderar-se da sua pequena contendora, conservando-se im óvel no m esm o sítio de onde avistara Helena. Esta últim a, m uito satisfeita pelo serviço, que o acaso acabava de prestar-lhe, se levantou apressadam ente, dando alguns passos para se aproxim ar da estrangeira, procurando ao m esm o tem po, com vistas escrutadoras, penetrar, se tanto lhe fosse possível, no interior da sua pessoa.

Alinska era esbelta, e de talhe m aj estoso: suas form as, ao m esm o tem po que graciosas, apenas tinham a disposição necessária para conservar a sua beleza: seu rosto oferecia um perfeito ovado; sua boca era pequena; seu nariz um pouco aquilino; seus olhos grandes; sua fronte m aj estosa, era ornada de belos cabelos, cuj o ébano luzidio, através de um a redezinha de ouro, segurava grande núm ero de m adeixas, das quais algum as, que se escapavam , caíam graciosas sobre seus om bros. Finalm ente, Alinska era bela, e contudo não eram os seus encantos que inspiravam a m ais viva im pressão; havia em suas feições, um não sei quê de incom preensível, um a analogia tão indefinível, que ninguém podia cansar-se de exam inar, sem contudo poder averiguar, se era prazer que ela inspirava, ou o m ais incom preensível terror! A alvura da sua cútis era sem igual, rosadas cores a m atizavam ; contudo divisava-se no m eio deste m isto certas som bras sepulcrais, certos sinais cadavéricos, que pareciam destruir de espaço a espaço a harm onia daquele todo. A frescura de seus lábios só podia com parar-se à do prim eiro botão de rosa, que desabrocha sobre as m argens do Eridão, em serena e calorosa m anhã de abril: desej aríeis contem plá-los sem cessar; m as um m ovim ento convulsivo, um sorriso im pregnado de infernal m alícia, algum as contrações nos m úsculos de suas faces, davam bem a dem onstrar que a alm a da estrangeira se não achava em perfeito rem anso; e que, apesar de seus esforços, não podia dom ar a violência de suas paixões, ou o azedum e de suas lem branças. Mas que poderia dizer-se de positivo, quando se exam inavam seus olhos? Qual seria a expressão de que nos poderíam os servir, para explicar a m istura odiosa, da m ais celeste doçura, com a m ais terrível vivacidade? Um as vezes era o fogo da vida que os afogueava; outras, carregados e som brios, conservavam -se inanim ados e na m ais com pleta estagnação! Não era possível exam iná-los, sem se observar, que eles passavam alternativam ente da atividade da vida, à com pleta inércia da m orte!... não inculcavam nada de quanto existe; tão pouco patenteavam o com pleto triunfo da m orte; m as sim um m isto, sem igual, destes dois obj etos reunidos, um am algam a de contrastes os m ais opostos; e que, aquele que os encarava, não podia j am ais lisonj ear-se de os haver visto sem elhantes. Um vestido de lãzinha branca, guarnecido de fitas pretas, e de um feitio desconhecido em França; um negro xaile de caxem ira, eram apenas os seus adornos: este vestuário era por certo m uito sim ples; m as achava-se em perfeita harm onia, com aquela que o traj ava.

Madame Delm ont, depois de um rápido exam e, que não pôde deixar de lhe inspirar a perplexidade que acabám os de descrever, e que por m ais tem po não quis prolongar; vendo que Alinska se não resolvia a falar-lhe, sem contudo sair do lugar onde se achava, j ulgou conveniente encetar a conversação, dirigindo-lhe seus agradecim entos, pela bondade com que tinha contribuído para o divertim ento de seus filhos.

Ao ouvir pronunciar suas últim as palavras, a m acilenta fronte de Alinska se corou ligeiram ente; seus olhos lançaram de si um certo fulgor, que veio repercutir sobre os de Helena, e a seu turno ela lhe dirigiu a palavra.

— É com efeito madame Delm ont, a quem tenho a honra de falar? Ela m e perdoará, se ainda m e não apresentei em sua casa; m as buscando um a com pleta solidão; não vindo a este país, senão para m e entregar, com todo o ardor, à execução de um proj eto, cuj a única im portância pôde arrancar-m e da m inha derradeira m orada, não j ulguei procurar outras distrações, ainda que m uito apreciáveis a m eus olhos. Não m e dem orarei neste sítio senão por um tem po determ inado: apenas o terei para desem penhar os m eus deveres; as m inhas horas são contadas, senhora; e os m inutos, que posso dar aos m eus prazeres, não são por certo m uito num erosos.

— Sinto m uito, senhora — respondeu Helena, — não poder gozar da vossa sociedade; j ulgo que ela m e seria m uito grata e agradável.

— Guardai-vos bem de o acreditardes — exclam ou a húngara, com o se fosse arrastada por um m ovim ento superior as suas forças; — não desej eis a m inha presença: é a desesperação... as lágrim as... a m esm a m orte... que ela roj a após de si!...

Um golpe de vista, que madame Delm ont lançou sobre o vestido da desconhecida, foi bastante para lhe explicar esta espécie de enigm a. Não duvidou que a m orte tivesse arrebatado à infeliz dam a algum dos entes que lhe fossem m ais caros, e que suas palavras não fossem suscitadas pelas saudades que deviam despedaçar seu coração. Apressou-se pois em lhe responder que, não era no m eio de um a solidão, que podíam os deparar com o lenitivo de nossas m ágoas; m as que era necessário buscar, no seio da sociedade, as consolações de que carecem os.

— Estais enganada — replicou a estrangeira: — existem épocas na vida, em cuj os lim ites um a poderosa m ão costum a levantar barreiras de bronze, que ninguém pode dem olir; m uralhas onde param todas as carreiras hum anas, e além das quais se não encontra m ais, do que um a sorte definitivam ente determ inada. Já não espero alívio algum : daqui avante, o m eu destino será tão perm anente e infalível, com o a m esm a eternidade, da qual é um a verdadeira porção.

A exaltação destas frases, tão pouco com uns na vida ordinária, acabaram de confirm ar as prim eiras ideias de madame Delm ont. Estava convencida, que fundos pesares perturbavam a existência desta j ovem criatura, e quiçá a sua m esm a razão. Com padecia-se do seu infortúnio; e desej ando ligar intim idade com ela, estendeu-lhe a m ão para lhe tom ar a sua; j ustam ente aquela que se achava calçada com um a luva. Alinska preveniu este m ovim ento; recuou um passo para o evitar!

— Que fazeis, senhora? — disse ela com im petuosidade — Não queirais, frágil criatura, precipitar a sorte que vos aguarda. Sabeis vós, que se m e tocásseis, celebraríeis um pacto com a m atéria; que vos engaj aríeis com as m esm as parcas?...

Madame Delm ont, desde este m om ento, não pôde duvidar da enferm idade m ental da estrangeira: procurou então distraí-la, entretendo-a com outro obj eto.

— Se a com panhia de pessoas razoáveis vos desagrada por tal m odo; ao m enos, estas crianças, que nos escutam , parecem haver m erecido as vossas com placências.

— As m inhas com placências, dizeis vós! — respondeu Alinska, com voz assaz sinistra — Oh!... certam ente lhes não aconselharei de tal acreditarem ! Direi antes, que essas com placências não são m ais do que a m oratória, que o carrasco concede ao infeliz condenado, enquanto prepara o laço com que deve estrangulá-lo...

Estas palavras eram por tal m odo tão extraordinárias e terríveis, que madame Delm ont, possuída de súbito receio, fez um m ovim ento involuntário, com o quem queria desviar seus filhos: então um sorriso, cheio de inocência, se via errar sobre os lábios de Alinska; os seus olhos tom aram aquele ar de doçura, que às vezes neles se divisava.

— Oh! perdoai-m e, senhora — disse ela, — perdoai-m e o susto que vos causei; m as tenho m om entos, em que toda em bevecida no passado e no porvir, m e não considero do presente; m eus discursos insensatos escapam de m inha boca, apesar dos m eus esforços; e o m eu coração inanim ado, não pode conter, sem se indignar, o único sentim ento que lhe é dado conservar.

— Respeito, senhora, a pungente dor que vos dilacera; lim itar-m e-ei em fazer ardentes votos, para que ela se m inore; e se a vista de m eus filhos vos inquieta, vedar-lhes-ei a frequência dos lugares onde vos acheis.

— Acreditai-m e; guardai bem estes m eninos, de que pareceis tão orgulhosa: um a doença cruel um veneno... quem sabe?... m il causas sinistras podem roubar-vo-los!... Vigiai, vigiai sobre eles; não os percais de vista; sua idade é ainda tão tenra; a sua existência ainda tão frágil, que pode ser que antes de pouco tem po, vos custem as m ais cruéis e acerbas m ágoas...

Disse, e de novo assom ou a seus olhos um desvario extraordinário; sua boca, aliás tão engraçada, se contraía horrivelm ente; suas feições se alteravam , e era m enos um a m ulher do que um cadáver que Helena contem plava! Bem quisera esta term inar tão penosa cena; m as um sentim ento de com paixão continuava a dom iná-la: receava abandonar sem socorros um a criatura, cuj a triste alienação lhe parecia com pleta.

— Acaso não sofreis dem asiadam ente neste m om ento? — lhe perguntou ela — Não vos será possível continuar o vosso passeio? Quereis perm itir-m e que vos acom panhe até à vossa habitação?

— Eu, sofrer! oh! não o acrediteis: ignoro até o que sej a sofrim ento, porquanto agora m esm o m e acho no m eu estado habitual. Ele deve parecer-vos talvez desagradável; ignoro se m e apraz, ou se m e é odioso; m as vej o que ele vos aflige; procurem os portanto esquecê-lo. Vej am os qual será o obj eto de que tratarem os? Não nasci para profundar as altas ciências; m as hoj e posso falar de todas elas; arranquei de m eus olhos o véu da hum ana ignorância; explicar-vos-ei aquilo que os m esm os hom ens não são capazes de com preender.

Este discurso anunciava a continuação de form al dem ência. Helena buscou de novo despertar no espírito da estrangeira ideias m ais razoáveis, e m enos vagas: insensivelm ente o conseguiu. Alinska, afetou m ais placidez e m aior raciocínio, principiando a tratar, com aparente ingenuidade, doutros obj etos m ais vulgares. Helena persuadiu-se que a desconhecida não era, com efeito, destituída de instrução, ainda que contudo houvesse em suas m aneiras, algum a coisa de rude, de m eio selvagem , que m anifestava o caraterístico de um a educação pouco cultivada: nada disse, porém , que desse a conhecer o que na realidade era; apenas se podia conj eturar de sua pronúncia estrangeirada, que não nascera em França, e que Alem anha era a sua pátria.

Madame Delm ont conj eturou então, que, vítim a de um am or apaixonado e m enos feliz, havia perdido um a porção dessa inteligência celestial, que constitui aquilo a que cham am os a nossa razão: em consequência achou que era natural, que o ancião, a quem talvez fora confiada, a fizesse perm anecer na solidão, desviada, inteiram ente, da sociedade dos hom ens. Assim se explicava esse m istério, que a princípio tanto tinha suscitado a pública curiosidade.

A conversação se voltou depois a respeito da m úsica. Madame Delm ont, que era tam bém em inente na harpa, tratou de dar à sua nova conhecida aqueles elogios que ela m erecia, ainda que todos eram repelidos com m odéstia; m as, no m eio desta pudica reserva, divisava-se um certo sentim ento de indiferença, que não fora fácil definir. Falava do seu talento, com o de outra qualquer pessoa; nada lhe causava adm iração, ou orgulho: havia nela um a abnegação com pleta, de tudo quanto nos encanta; não era decerto egoísm o; m as sim um a ligeireza enregelada, um enj oo tão com pleto de tudo, que, sem o partilhar, ninguém podia deixar de a lastim ar. Será isto um a m ulher, ou um a estátua? perguntava Helena a si m esm a. Não será senão para sofrer que ela se acha ligada a hum anidade?...

Finalm ente, o sol que principiava a esconder-se por detrás dos pináculos das contíguas m ontanhas, ia m ergulhando os vales nessa vaporosa obscuridade, sem pre precursora das trevas da noite. Os m eninos, cansados de brincar, sem que ninguém houvesse partilhado seus j ogos, foram os prim eiros que pediram para voltar ao castelo.

— Sim , m eus m eninos — lhes disse Alinska, — a hora de nos separarm os se aproxim a; tudo quanto é corporal, deve buscar o repouso; não tardará que o espaço sej a inteiram ente habitado por inteligências superiores. Adeus, senhora; quisera não vos ter conhecido; a nossa entrevista m e inspirará por m uito tem po bem cruéis pesares!...

Acabando de falar, retirou-se precipitadam ente, com o arrastada pela m ais entranhável com oção.

Madame Delm ont, sem pre disposta a j ulgar bem a inocência, se com prazia em ver nas palavras da desconhecida um testem unho não equívoco de sua benevolência; sentia não poder engaj á-la, a tam bém viver, alguns m om entos, para os outros; e acom panhada de seus filhos, tom ou, silenciosa, o cam inho da sua habitação.

Muito satisfeita, dali em diante, de ter visto livrem ente a estrangeira; lisonj eando-se tam bém de ter, talvez, adivinhado o m otivo de suas penas e do seu retiro, contou ligeiram ente a Raul quanto passara no seu encontro. O fiel servo, que tinha tom ado o seu partido, sobre o que se passasse, até à próxim a chegada da resposta que esperava do coronel, não m ostrou a m enor surpresa, ouvindo a narração de sua am a; só desej ava instruir-se, se Alinska despertaria no espírito de madame Delm ont algum as conj eturas ou receios; m as não lhe foi possível conhecê-lo, e conj eturou então que a húngara tinha sabido dissim ular; por isso que no rosto de Helena se não divisava a m ais ligeira perturbação.