A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro

Étienne-Léon de Lamothe-Langon · Capítulo 16 de 25

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A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro

Capítulo XV

 

Madame Delm ont, e seu m arido principalm ente, estavam bem longe que Alinska viesse visitá-los. Receando que ela por im paciente não abusasse do seu estado, em lugar de responderem à sua pergunta, am bos se dirigiram ao seu quarto.

— Que fazeis, senhora? — lhe perguntou Helena — É deste m odo que m ostrais docilidade aos preceitos do vosso facultativo? Ele vos tinha ordenado m aior resguardo, e vós pretendeis subtrair-vos a este m esm o resguardo?

— Tenho — respondeu Alinska — a m aior consideração pelos talentos do doutor; m as tam bém creio que a m edicina tem seus lim ites, além dos quais, nada vê, nada conhece, nada com preende. O nosso am igo (perm iti-m e que lhe dê este sagrado nom e), j ulga do m eu estado por outras circunstâncias, que talvez lhe pareçam iguais às m inhas; m as ele se engana com pletam ente! A m inha existência é extraordinária; não m e é dado m orrer; e vós m esm os j á vistes a prova. Deverei pois, quando sinto m inhas forças vigoradas, suj eitar-m e a preceitos que não fariam m ais do que prolongar a m inha convalescença? Sinto-m e m elhor, quase restabelecida; devo portanto agitar-m e?...

Madame Delm ont, desde que recebera a estrangeira no castelo, havia reconhecido que era inútil contrariá-la: não quis fazê-lo portanto nesta ocasião. Contentou-se apenas, de lhe replicar, que ninguém m elhor do que ela devia saber o que lhe convinha, e que confiava que a prudência a guiasse constantem ente. O coronel guardava o m ais profundo silêncio. Podia dizer-se que era aquela a prim eira vez que tornava a ver Alinska; contem plava com grave com oção os estragos que a desgraça e sofrim entos tinham operado sobre aquele interessante rosto.

A j ovem húngara tinha perdido o brilhante colorido, que tanto aform oseava seus encantos; seus olhos pareciam inanim ados, e contudo ainda atraíam sobre si os olhares das pessoas que os adm iravam ; ainda assim m esm o am ortecidos, inspiravam um vislum bre desse am or que dentro em si ocultavam . Seu talhe elegante, a regularidade de suas feições, as graças que adornavam aquele todo, tudo nela se divisava ainda, apesar dos terríveis estragos, que seus infortúnios lhe haviam causado: sobretudo, o que m ais interessava era aquela doce m elancolia, que continuam ente ofuscava sua bela fisionom ia; patenteava claram ente as m ortificações de sua alm a; inspirava contínuo desej o de as acalm ar, e de lhe restituir a ventura por que tanto anelava.

Alinska, a seu turno, tratava o coronel com essa indiferente civilidade, que anuncia que, aquele a quem se endereça, nos é absolutam ente estranho: sufocava seus íntim os sentim entos, a fim de que, m au grado seu, eles se patenteassem . Mas se acaso conhecia, que algum a testem unha não podia surpreendê-la, então ela se anim ava; seus olhos se incendiavam , lançando sobre Delm ont terríveis exprobrações, que pareciam dizer-lhe: restitui-me novamente o teu amor, e tudo será perdoado. Delm ont interpretava, sem custo, suas m udas e m isteriosas expressões; contudo j ulgava poder afrontá-las, sem se lem brar que para vencer os perigos de tal guisa, era necessário, não só arrostá-los, m as tam bém fugir deles.

Am antes, que vos lisonj eais de não travar de novo a cadeia despedaçada, vós vos iludis com pletam ente: dois corações que um a vez se am aram e que tornam a encontrar-se depois de longa separação, eles se reúnem de novo, e quiçá com m ais ardor, com um a paixão m ais veem ente!

Enquanto todos praticavam benignam ente, chegou o doutor, de volta do giro ordinário que costum ava fazer pelo distrito de Falgarde. Já lhe tinham dito o pouco caso que a estrangeira fizera de seus conselhos salutares; vinha disposto a adm oestá-la; m as toda a sua cólera se cobrou vendo-a num estado que lhe provava, de um m odo positivo, seu com pleto restabelecim ento.

— Vej o, senhora — lhe disse ele, — que j á não careceis de m eus serviços; daqui avante, vós m esm a podereis dirigir-vos a vosso bel-prazer; subtraístes-vos à m inha autoridade; que o céu perm ita, que vos não arrependais!

— Por que m otivo, senhor, m e quereis privar dos vossos desvelos e raro talento? Quando a natureza m e abandonar, sem pre eles m e serão necessários e proveitosos. Acreditai, que neste m om ento sinto renascer todas as m inhas forças e vigor. O m eu coração, que respira m ais livrem ente, recuperando sua energia, cada vez se sente m ais possuído da gratidão que sinceram ente vos consagra. Perm iti-lhe pois que vos tribute um a pequena dem onstração do seu reconhecim ento; não lhe façais a afronta de recusar esta graça.

Acabando de proferir estas palavras, Alinska tom ou de cim a da m esa um m agnífico anel de diam antes, de um valor assaz considerável. Ofereceu-o ao doutor, o qual, todo confuso, não sabia o que devia fazer. Desej ava recusar um dom , que j ulgava superior aos seus serviços; desej ava que a j ovem deidade reconhecesse de outro m odo esses m esm os serviços; m as Alinska era tão im periosa, quando desviava de si a m enor aparência de fam iliaridade, que o doutor se não atreveu a recusar aquele precioso dom , senão por m era form alidade. Ela insistiu de novo, com tanta graça e perseverança, que ele se viu obrigado a aceitá-lo. Recebeu-o pois suspirando; m eteu-o no dedo, não podendo deixar de dar a conhecer ao coronel, por m eio de expressivo gesto, que não era por aquele m odo, que ele desej ava que Alinska lhe testem unhasse a sua gratidão.

Madame Delm ont estava im paciente por ouvir a narração circunstanciada, de quanto se havia passado nessa noite terrível, cuj a lem brança existiria com ela, enquanto vivesse: ao m esm o tem po não se sentia com a coragem necessária para ouvir tão tristes detalhes. Não querendo contudo retardar por m ais tem po as explicações, que todos aguardavam , com ansiedade, levantou-se da cadeira onde era assentada; e repetindo de novo seus cum prim entos a Alinska, pelo seu restabelecim ento, a deixou com o coronel, e com o doutor, a fim de ouvir suas declarações.

A húngara estrem eceu involuntariam ente, quando a tal respeito foi interrogada: poder-se-ia ler sobre seu rosto, quanto ela se sentia contrariada, de se ver constrangida a explicar-se sobre um obj eto por certo tão desagradável.

Guardou, por alguns instantes, profundo silêncio, ou fosse para m editar, ou com a ideia de que talvez não fosse de novo interrogada. Enganou-se: Delm ont, com balbuciante voz, o fez de novo. Alinska, cada vez m ais com ovida, voltando seus belos olhos (que neste m om ento tom aram um a expressão, à qual não estavam costum ados) sobre o coronel, m ostrou-se resolvida a obedecer-lhe; e com efeito ela tom ou a palavra nestes term os:

— Madame Delm ont, oprim ida pelo cansaço, tinha-m e pedido de vigiar em seu lugar, o querido e desventurado m enino, que perdeu...

Aqui, o desconsolado coronel não pôde reprim ir um triste suspiro, que do fundo do seu coração se exalava. Alinska, toda perturbada, calou-se ao m esm o tem po, e um a expressão dolorosa contraiu subitam ente suas feições. Hesitou antes de continuar a narrativa; m as enfim , revestindo-se de resolução, prosseguiu por este m odo:

— Eu nada podia recusar a esta generosa dam a; e apesar da m inha repugnância, cuj a causa não podia com preender, m as que o resultado j ustificou plenam ente, consenti em passar a noite j unto do infeliz Eugénio. Pela volta da m eia-noite, o sono, que desde m uitos anos raras vezes fechava m inhas pálpebras, veio então afagar-m e por tal m odo, que, lutando em vão contra ele, m e vi obrigada a sucum bir. Inclinei a cabeça sobre a alm ofada de um sofá, e em breves m om entos m eus olhos se cerraram . Desde então nada m ais posso dizer-vos, senão que m e senti bruscam ente acordar por um ruído bastante forte. Abri os olhos, e à claridade da lua vej o dentro do quarto, quatro hom ens arm ados, que cam inham direitos a m im . O terror e o susto que de m im se apoderaram , não m e perm itiu gritar: um daqueles m iseráveis m e prende pelos braços; outro dirige-se ao leito onde o m enino repousava: neste conflito abre-se de súbito a porta do quarto, e Raul se apresenta im pávido. Dois tiros de pistola desfecharam ... E poderei eu dizer por quem ? Ignoro-o... a segunda bala m e fere o peito, e caio... j ulgando nunca m ais levantar-m e. Não há dúvida que os salteadores se haviam introduzido pela j anela, porquanto ouvi dizer depois à m inha enferm eira, que se tinha achado um a escada de corda, a qual descia até ao fundo da parede. Enquanto a m im , não o poderei afirm ar; nada m ais pude ver do que assassinos e a m orte, que certam ente m e destinavam . Ser-m e-ia tam bém im possível explicar-vos a verdadeira causa do trespasse de vosso filho. Acaso seria aquele o últim o instante de seus dias? ou então seria o susto o seu verdadeiro verdugo? Ai... o pobrezinho não poderá j á explicá-lo, e a nenhum m ortal é dado conhecer os segredos da m orte!

Foi deste m odo que Alinska referiu sua história, cuj a veracidade ninguém podia contestar: era ela a única que sobrevivera; aqueles que poderiam desm enti-la, e talvez dá-la m elhor a conhecer, eram para sem pre exilados desta terra, em que o crim e e a m entira triunfam tantas vezes da lealdade e da virtude! De tão fracos esclarecim entos nada se podia deduzir: não se havia descoberto o m ais insignificante rasto dos assassinos, apesar das severas indagações a que se procedera; contudo eles tinham penetrado no castelo de R ***; as provas eram infelizm ente m ais que evidentes!... O assassinato do pobre Raul, e o ferim ento da estrangeira confirm avam a presença destes m alvados!... Um a pobre criancinha tinha sido tam bém a deplorável vítim a desta catástrofe! Delm ont e Mélervant perdiam -se em suas com plicadas reflexões, ao passo que Alinska tornara a cair em sua habitual im passibilidade. Exprim iu a seus interlocutores o desej o que havia de ficar sozinha por alguns m om entos, a fim , dizia ela, de dar a suas faculdades enfraquecidas, o m eio de se restabelecerem do abalo m oral, que a sua narração lhes tinha ocasionado. Um tal desej o, era o m esm o que term inante ordem , à qual Delm ont e o doutor deviam obedecer. Retiraram -se sem dem ora, e foram am bos com unicar a madame Delm ont o que acabavam de ouvir. Esta narração apenas a com oveu; nada lhe declarava a respeito de seu filho; o m istério da sua m orte continuava a ser-lhe oculto; o resto, pouco cuidado lhe causava: não via m ais do que um ataque ordinário de salteadores, o qual, sem que tivesse o resultado que esses m alvados esperavam , tinha sido contudo assaz sanguinolento.

Alinska, desde este m om ento principiou a adotar de novo o curso de sua vida ordinária. Encerrada quase sem pre no seu quarto, apenas se patenteava às horas de com ida; e depois de j antar m uito poucas vezes tinha a condescendência de praticar alguns m inutos com a fam ília. A sua conversação tornava-se grave e m elancólica, parecia haver inteiram ente olvidado a paixão, que pelo coronel a devorava, assim com o as poucas palavras que pronunciara na prim eira entrevista que com ele tivera no castelo. Ente incom preensível! que era ao m esm o tem po arrastado pela m ais delirante ternura, e que sabia afetar em seus gestos e feições a m ais com pleta indiferença!

Delm ont, observando esta singular conduta, tornava-se cada dia m enos solícito em evitar um encontro, que a húngara afetava igualm ente não apreciar. Chegou a persuadir-se que o terrível abalo que Alinska sofrera em seus sentidos, e o sangue que perdera, reform ando seus princípios de vida, teriam talvez apagado as labaredas, que seu coração abrasavam : um tal resultado, produzido por sem elhante causa, houvera sido para ele assaz venturoso. Doutro lado, ele se esquecia algum as vezes a contem plar, com dem asiado interesse, aquelas feições encantadoras, que outrora tinham sido gravadas pela m ão de am or, na sua m ente. Com parava-as, a seu pesar, pela sua enérgica vivacidade, com as da virtuosa Helena, ainda que estas lhe pareciam m ais plácidas, m ais delicadas, e quiçá m uito m ais belas. Delm ont era hom em ; e com o tal, possuía um a porção dessa funesta tendência, que im periosam ente nos atrai m enos para essas belezas doces e m odestas, do que para aquelas que sabem desenrolar, para nos seduzir, a im petuosidade de um caráter firm e e resoluto. O am or próprio, em tais circunstâncias, vem m uitas vezes em socorro de um sentim ento exagerado; lisonj eia-se dos esforços que fazem os para lhe com prazer; aprecia-os, talvez m uito além do seu valor; ao passo que desdenha quase sem pre um a afeição sim ples, ingénua, e natural, que em nada se sem elha a esses m ovim entos desordenados, que nascem de um coração fingido e perverso.

Alinska, para seguir Delm ont, tinha abandonado seus parentes e sua pátria: tinha vencido, para o am ar, os terríveis efeitos da cruel ausência; tinha esquecido finalm ente o crim inoso procedim ento do seu am ante!... Oferecia-se bela, radiosa de seus encantos e de sua paixão; enquanto Helena, havendo acolhido pacificam ente as hom enagens de seu esposo, lhe abandonara sua m ão; e tanto que sua união se efetuara, ela se m ostrava sem dúvida terna e am ável; m as sem lhe oferecer esse arrebatam ento am oroso, esse delírio incom preensível, que fazem as delícias de dois corações que se am am ! Estas duas rivais com batiam am bas pela m esm a causa; isto é, am bas disputavam o m esm o coração com arm as desiguais. E poderia a vitória ser duvidosa? Não o acreditam os: os direitos do dever são m uito fracos, quando não são auxiliados pela vivacidade de um am or ardente.

Nesta época achava-se o inverno no seu m aior auge. Os cam inhos, ora se tornavam intransitáveis pelas grossas chuvas que caíam , ora ressequidos pelo sopro enregelado do vento norte, ofereciam livre trânsito aos viandantes. O coronel não deixava de aproveitar estas ocasiões para se entregar ao divertim ento dos bravos: ia caçar a ligeira lebre, ou as aves do ar, que nesta estação inospitaleira não encontram facilm ente guarida sobre as árvores despidas de seus ram os, nem o sustento que os fortes gelos lhes proíbem tirar dos cam pos.

Um a m anhã, em que a terra se via am ortalhada em vasto lençol de geada, despontou o astro vivificador da natureza com aquela pom pa e esplendor, que o acom panham . Pequenos nevoeiros, enovelados no fundo dos vales, se revolviam preguiçosos; subiam aos ares, e o vento que soprava com suavidade, era suficiente para os dissipar com pletam ente. Foi então que Eduardo j ulgou ocasião oportuna para estrear um fam oso cão, que tinha com prado; e, sem prevenir nem madame Delm ont nem Alinska, saiu antes de alm oçar com a sua espingarda, dirigindo seus passos para o pequeno outeiro, que se elevava até Mervilla.

A caça, perseguida pertinazm ente por encarniçados e num erosos inim igos, ia desaparecendo pouco a pouco daqueles sítios. Delm ont, para encontrar algum a, teve que percorrer grande espaço de terreno. Atravessou sucessivam ente os concelhos de Péchabou, de Pom pertusat, de Dey m es, de Montbrun, voltou por Coronsac; e cansado enfim de tão com prido giro, sem dele colher resultado algum , desej ou descansar um instante, antes de entrar no castelo, onde em breve soaria a hora de j antar. Pouco distante dele, no declive dum pequeno m onte, havia form ado a natureza, sobre certa planura, um a espécie de lago, que era alim entado por fonte fecunda, cuj a nascente j am ais se esgotava. Anosas árvores, alguns chorões, corpulentos carvalhos, salgueiros do Oriente, e um a m ultidão de lindos arbustos decoravam este lugar, que pela sua situação, pela sua frescura, e pela deliciosa som bra, que na prim avera o abrigava, oferecia grato asilo ao cam inhante fatigado; aos am igos que se aprazem de viver j untos; e aos am antes felizes, que desej am evadir-se às vistas escrutadoras da im portuna sociedade. O golpe de vista que dali se gozava era assaz encantador: ele se dilatava sobre férteis planícies e outeiros, anim ados de num erosas habitações que abrangiam , em seu vasto horizonte, os nevosos pináculos dos Pirenéus.

Naquela ocasião todos estes encantos da natureza tinham perdido um a grande parte de suas galas: o luto universal do inverno ali se ostentava tão pesado, com o no resto dos cam pos: apenas algum as sarças vigorosas, e o verde m usgo os guarneciam , com suas variadas grinaldas. Diversos bancos, talhados em um rochedo, ofereciam a Delm ont um cóm odo assento. Ele se aproveitou de um deles; encostado à sua espingarda, se deixou m ergulhar na m ais profunda m editação, cuj a doçura particular se tornava m ais grata ao nosso caçador, pelo m urm úrio m onótono e continuado de um regato que, serpeando por entre um pequeno bosque, vinha tam bém despenhar-se no tanque ou lago, de que j á falám os.

Mil diversos pensam entos com batiam alternativam ente Eduardo; m as no m eio deste conflito, as recordações de sua prim eira m ocidade não tardaram em varrer de sua m em ória quaisquer outras, que porventura o ocupassem ; j ulgava-se ainda nas fraldas das geladas m ontanhas da Hungria. Recordava-se que, durante os rigores de um com prido inverno, calcara m uitas vezes aquelas cam pinas, cobertas de neve, na com panhia de um a m ulher, que então se lhe figurava um anj o! A sua m em ória lhe oferecia neste m om ento as palavras de um rom ance, que ele m esm o com pusera para Alinska, nessas épocas de ventura, em que um passageiro ciúm e perturba m uitas vezes o coração do am ante m ais querido; e cedendo ao desej o de repetir o m esm o rom ance, alçou a voz, e quase insensivelm ente o foi cantando.

Não, não, não sou m ais am ado,

Por m im não sentes ternura,

Do sonho por m im form ado,

Me destruíste a ventura:

Traindo am or assustado,

Refusas à fé m ais pura,

Não, não, não sou m ais am ado,

Por m im não sentes ternura.

De m im longe não com pensas

Tem ores, filhos da ausência,

De m im perto a indiferenças

Dás vida, dás existência:

Sem am or sou nom eado,

Tua alm a outro nom e apura,

Não, não, não sou m ais am ado,

Por m im não sentes ternura.

Com teus olhos não m e falas,

Um sorriso não m e rendes,

Nem o coração abalas.

Quando a teus dotes m e prendes:

De rigor teu peito arm ado,

Me negas m eiga candura,

Não, não, não sou m ais am ado,

Por m im não sentes ternura.

Acabava de term inar a últim a copla; ainda parecia subm ergido em seu delírio, quando de súbito foi interrom pido pelo ruído, que fizeram alguns pedaços de terra, que caíam sobre as águas do lago. Levantou a cabeça, para conhecer o m otivo, e não foi sem viva com oção, que viu Alinska; aquela m esm a, que naquele m om ento tão sensivelm ente ocupava seu espírito! Descia um a pequena escada em espiral, que havia naquele sítio, guarnecida de um a grade de pau, toscam ente construida, e que vinha dar j unto ao lugar onde Delm ont estava assentado. Este, só podia evitá-la, retirando-se através dos cam pos; o que não podia fazer, sem faltar a todas as regras da civilidade. Era incapaz de o fazer; contudo não estava satisfeito por um a entrevinda, cuj os resultados lhe podiam ser m uito fatais. Não podendo reprim ir sua prim eira surpresa, levantou-se de súbito, enquanto a j ovem deidade sentindo talvez a m esm a com oção que ele, se conservou im óvel no m eio da escada; e encostando-se contra a frágil balaustrada, parecia am eaçada de perder suas faculdades.

Assim ficaram am bos por algum tem po, na presença um do outro, sem saberem o partido que deveriam tom ar. Todavia, Alinska, fazendo um esforço, com o quem de novo desej ava recuperar sua coragem , continuou a descer, conseguindo finalm ente chegar j unto a Delm ont.