A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro

Étienne-Léon de Lamothe-Langon · Capítulo 3 de 25

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A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro

Capítulo II

 

Tão depressa chegou a Tolosa, principiou logo o coronel Delm ont a diligenciar o retiro que desej ava. Para esse fim dirigiu-se a um notário, pedindo-lhe esclarecim entos sobre algum a propriedade, que se achasse m ais isolada, longe das estradas principais, m as que não fosse dem asiadam ente desviada da cidade. O acaso lhe facilitou essa aquisição. O dono do castelo de R *** situado num dos m ais férteis distritos do Languedoc, e pouco distante de Tolosa, não habitava, havia m uitos anos, este antigo edifício: tinha procurado em vão alguns am adores da vida cam pesina, que quisessem habitá-lo; m as ainda até ali se lhe não tinha apresentado algum . Foi por isso que facilm ente anuiu a todas as proposições, que lhe fez Delm ont, o qual, instruído de que aquela m ansão se achava para alugar, tinha ido visitá-la, e ficara encantado da sua situação, e m ais com odidades que lhe oferecia.

Concluído o arrendam ento, saiu o coronel im ediatam ente de Tolosa, com a sua fam ília, para ir ocupar o castelo de R ***, m andando transportar, após ele, os m óveis necessários para seu serviço: eram sim ples, m as cóm odos; a sua elegância substituía o luxo, que se acha em pouca harm onia com as belezas da natureza, Acom panhava-os um velho sargento do regim ento de Delm ont, cham ado Raul, bravo m ilitar, que devia a vida ao seu coronel, e que havendo obtido a sua baixa, se determ inara a partilhar a sua sorte, e o servia m ais com o am igo do que com o dom éstico. Um a cozinheira, que tom aram em Tolosa, e um a aia para a madame, com pletavam a fam ília de Delm ont. Helena e seu esposo, tinham renunciado inteiram ente ao fausto e às grandezas, nada disto j á podia oferecer-lhes o m ais pequeno atrativo.

Os prim eiros dias da sua estada no castelo, foram em pregados nos exercícios necessários aos arranj os de um a nova habitação: era m ister que todos trabalhassem , por isso que os dom ésticos eram poucos; e o arranj o do interior da casa ficou ao cuidado do coronel, e do intrépido Raul. Foram eles, que colocaram os papéis, que dispuseram os espelhos e os m óveis, e arm aram os leitos: suas m ãos costum adas a m anej ar as arm as, serviam -se habilm ente dos instrum entos apropriados àqueles trabalhos.

Helena, da sua parte, não ficava em ociosidade: ocupava-se de tudo que dizia respeito às roupas e outros obj etos dom ésticos; nada negligenciava; e am bos os esposos trabalhavam , sem se esquecerem de derram ar em seus corações a grata efusão da sua ternura, e da m ais recíproca confiança.

Todavia, no m eio de tão suaves tarefas, um estrem ecim ento involuntário se apoderava do coronel: sinistra m elancolia parecia inculcar em sua alm a a existência de algum pesar secreto; e m uitas vezes, Helena se via obrigada a voltar os olhos, para evitar a seu m arido o desgosto de lhe dar a conhecer que ela tam bém sentia as penas que o agitavam .

Outras vezes, ele parecia sossegado e satisfeito. A presença de seus filhos encantava-o; gostava de os ver brincar, e ele m esm o se m isturava algum as vezes a seus j ogos folgazãos e infantis! Ora se entretinha com a sua flauta, em que era em inente; ora, acom panhado de seus cães, percorria as num erosas colinas, de que aquele país tanto abunda. Era então, que em brenhando-se em som brio bosque, se assentava j unto de um carvalho, cruzava os braços sobre o peito, abandonando-se a profundas m editações, que duravam às vezes m uitas horas. Só ao declinar do sol, é que a passagem de alguns cultivadores o despertava do seu letargo: batia fortem ente sobre a fronte, e tom ava, pensativo, o cam inho da sua residência.

Achava-se ela situada sobre um a altura, de onde se avistavam as im ensas quintas que havia em redor. Ao norte, alongando-se a vista sobre vastos outeiros, lá se divisavam para o horizonte as vilas de Mervilla e de Vigoulet, observando-se ao m esm o tem po no fundo dos vales abundantes searas, cam pos cultivados com todo o esm ero, prados artificiais, e alguns pequenos bosques; restos das im ensas florestas, que noutro tem po cobriam aquele distrito.

Ao nascente avistava-se em flanco um a m ultidão de colinas, que em doces declives iam descendo para a parte de oeste: estavam cobertas de pequenas aldeias e de casas de cam po, entre as quais, e a pequena distância do castelo, se distinguia o antigo feudo de Souterrène, ainda guarnecido de suas torres quadradas, construídas nos dois ângulos opostos, e de seus bastiões, colocados nas extrem idades contrárias. Apenas existia o edifício do centro, que se conservava intacto, depois de tantos séculos decorridos, enquanto os dos lados, inteiram ente arruinados, haviam cedido o lugar às riquezas da agricultura, e a um a vegetação abundante, que anunciava a fertilidade do solo. De um lado lá se avistava um grupo de cabanas que pareciam form ar o âm ago do concelho; do outro, sobre um pequeno outeiro, tam bém a sim ples igrej inha, e a casa paroquial, ainda m ais m odesta. Para a parte do m eio-dia, um a cordilheira de pequenas alturas, encobria o curso de Arriège: m uitas aldeias, vários estabelecim entos rurais, bosques de vastíssim a extensão, ofereciam por toda a parte a perspetiva m ais variada e pitoresca; m as tudo isto não podia chegar às belezas que se apresentavam pela parte do poente.

No m eio dum a vasta planície, via-se o Gerona, plácido e m aj estoso, passear sua lím pida corrente por entre as agradáveis m argens que o guarnecem : os cam pos, enriquecidos pelo trabalho do lavrador incansável, ofereciam ao longe o aspeto de um j ardim interm inável, sem eado de num erosas fábricas, de lagares, de aldeias, e até de diversas vilas, assaz im portantes. O céu, sem pre sereno e puro, repercutia suas cores azuladas sobre as cristalinas águas do Guey enna, ligeiros vapores surgiam de espaço a espaço do seio das águas, desenhando nos ares diversos arabescos; dir-se-ia que era o perfum e do arom ático incenso, que os habitantes daquele belo país queim avam em honra do Ente Suprem o!

O castelo de R ***, construido no reinado de Luís XIII, j á tinha perdido a sua m agnificência interior. Form ava um quadrado, com posto de diferentes e vastos edifícios, em cuj o centro havia espaçoso pátio. Já não existia dentro das salas e quartos um único m óvel; tinham desaparecido as tapeçarias; as portas totalm ente arruinadas, as j anelas sem vidraças nem contraventos, quase de todo arruinadas, anunciavam , que desde longo tem po se achava esta habitação em com pleto abandono. Os j ardins tam bém j á não existiam ; estavam reduzidos a cam pos, sem eados de trigo e de cevada, e os fossos que outrora defendiam as m uralhas, viam -se inteiram ente entulhados: apenas num vizinho bosque se divisavam os restos de algum as com pridas alam edas. A vigorosa vegetação, que j á não era com prim ida pela tesoura do j ardineiro, tinha invadido por toda a parte aquele terreno: estendia-se pelos m ultiplicados canteiros, que com tanto esm ero tinham sido traçados; e troncos de árvores, m eios quebrados, espinheiros trepadores, opunham m ultiplicados obstáculos às pessoas que pretendiam percorrer aqueles cam inhos, que a natureza ia tornando intransitáveis!

Foi nesta habitação solitária, que a fam ília Delm ont veio estabelecer a sua residência. Foi-lhe m ister grandes fadigas, para estabelecer nela algum a pequena com odidade: algum as salas foram a custo reparadas; pareciam um acam pam ento entrincheirado no m eio das ruínas dum a cidade!

S e madame Delm ont não possuísse m ais do que os gostos fúteis da sociedade, seria sem dúvida m uito desgraçada neste asilo. Não tinha sociedade algum a: as pessoas que possuíam algum as quintas, vizinhas do castelo, só vinham habitá-las durante a bela estação do ano; todas residiam em Tolosa, e nenhum a se exporia, durante o m au tem po, a sofrer os rigores de um clim a desabrido, e a visitar as cam pinas do Lauraguais, inteiram ente intransitáveis pelo inverno. Mas Helena, com o j á dissem os, encontrava em si m esm a os m ais preciosos recursos. A m úsica, a pintura, a excelente escolha das m elhores obras, com que o abalizado génio de tantos autores tem enriquecido a hum anidade, eram suficientes m eios para se deleitar nesses m om entos, que suas tarefas dom ésticas lhe deixavam livres. Um as vezes reproduzia sobre o pano as diversas paisagens, e o sereno céu, que a rodeava; outras, cantava ao som da harpa as com posições m ais m odernas de Alvim are, de Blangini, e de Dugazon, fam osos cantores daquela época; ela derram ava doces lágrim as com Racine, contem plava as m aravilhas da criação do universo com Milton, e vagueava finalm ente num m undo im aginário com o célebre Ariosto. Tam bém cultivava outros autores m ais graves e m ais profundos. Pascal lhe representava ou as m isérias do hom em , ou a loucura dos diversos partidos: adm irava em Bossuet a grandeza da religião, que aprendia a reverenciar nas eloquentes páginas do Cy gne de Cam brai.

Um ano decorreu, sem que algum extraordinário acontecim ento viesse alterar o sossego em que vivia a fam ília Delm ont. Quanto m ais se deslizava o tem po, tanto m ais descanso e placidez recuperava o coronel; não era acom etido por esse m au hum or que ainda há pouco o devorava; vivia pois em perfeita tranquilidade; nenhum a recordação dolorosa parecia agitá-lo. Helena considerava-se ditosa com a m udança de seu m arido. As suas excursões j á não eram tão frequentes; não buscava com tanta tenacidade, com o no princípio, a solidão dos bosques, ou a agitação da caça: estava sem pre na com panhia de sua esposa e de seus filhos, em cuj a educação se esm erava; e para se distrair destas doces tarefas, cultivava ele m esm o algum as plantas raras, que tinha trazido de Tolosa.

O inverno, que nestes sítios era assaz rigoroso, não podia inspirar a Helena e a Delm ont, o desej o de sair do castelo; e quando as águas do céu haviam alagado as pingues terras que com põem o solo daquele quinhão da França; quando se tornava im possível sair a passeio, era então que o vasto salão do castelo se transform ava num círculo ginástico, onde o pai e os filhos se entregavam a saudáveis divertim entos. Grandes e sinceras risadas retum bavam debaixo daqueles tetos, que por tanto tem po se tinham conservado silenciosos: as horas deslizavam com tanto prazer e utilidade, que facilm ente faziam olvidar as torrentes da grossa chuva, que açoitada por fortes furacões, caía sem cessar, fazendo retinir as vidraças e os telhados!

Os serões se passavam em exam inar várias coleções de preciosos e instrutivos desenhos; algum as vezes um a história referida por Helena reunia em torno a si um círculo de atenciosos ouvintes, que de olhos fixos e de boca aberta, escutavam avidam ente tão interessante narração. Delm ont contem plava, cheio de satisfação, este quadro tão interessante; e m ais que nunca ele exclam ava:

— Oh! quanto não devem ser lastim ados aqueles, que não podem desfrutar com pleta ventura, sem que am argas recordações os dilacerem !...

Ele decerto não desej ava outra m ais sublim e: o seu coração sentia-se satisfeito, e para cúm ulo de felicidade, o passado, ainda algum as vezes doloroso, parecia desaparecer inteiram ente da sua lem brança.

Muitos m eses se passaram ainda no m eio desta grata convivência. Pelo m eado de agosto, um a carta recebida por Delm ont, veio lançá-lo na m ais extraordinária perplexidade! Tinha um a irm ã casada com um m agistrado de Nantes. Culpas recíprocas entre os esposos, ainda j ovens, e talvez ainda escravos das paixões da m ocidade, haviam alterado a paz em que viviam , e ocasionado cenas desagradáveis, que todos os dias se reproduziam . Um verdadeiro am igo destes desgraçados, querendo evitar o fatal resultado que parecia am eaçá-los, j ulgou conveniente prevenir Delm ont de quanto se passava, pedindo-lhe que não perdesse um só m om ento em se apresentar em Nantes: só a sua presença, lhe dizia ele, poderia restituir a harm onia entre cônj uges, quase desunidos.

Esta desagradável confidência contrariava bastante Delm ont. Era-lhe m uito doloroso separar-se da ventura que gozava, para voltar outra vez ao m eio da grande sociedade, que pretendia evitar. Mas ao m esm o tem po seu coração sensível o repreendia severam ente, pela indiferença que m ostrava para com sua j ovem irm ã, para com a qual devia preencher os deveres de pai. Sabia quão necessários lhe seriam seus conselhos, que decerto suspenderiam a carreira, que a precipitava num m edonho abism o. Por outra parte via-se obrigado a separar-se de sua m ulher e de seus filhos, por um tem po indeterm inado: este sacrifício era na verdade penoso; ele o fazia vacilar sobre o partido que deveria seguir. Antes de decidir-se, procurou, por m eio de correspondência, despertar no coração de madame Lem orin (era o nom e de sua irm ã) os sentim entos de conciliação, que nele pareciam dorm itar; m as as representações desta natureza não podiam ser escutadas em um lugar, onde as paixões tum ultuosas se haviam arreigado. Os dois esposos, nas respostas que lhe dirigiram , acusavam -se reciprocam ente, e não testem unhavam o m enor desej o de se conciliarem . Enfim suas querelas tom aram tal increm ento, que a irm ã de Delm ont se resolveu a deixar a com panhia de seu m arido, para se retirar a certa quinta, que pertencia a um a sua am iga.