A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro

Étienne-Léon de Lamothe-Langon · Capítulo 2 de 25

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A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro

Capítulo I

 

Im éritas e im previstas calam idades, obrigaram o coronel Eduardo Delm ont a abandonar, em 1815, a terra do seu nascim ento. Esta terra era a opulenta cidade de Paris, a capital do m undo inteiro, onde ele vivam ente desej ava passar o resto de seus dias; m as a fortuna, que tudo m ove a seu bel-prazer, não quis perm itir-lhe esta ventura. Eduardo, depois da segunda entrada dos Bourbons, pediu precipitadam ente a sua dem issão, e com os olhos inundados de lágrim as, que a custo podia conter, anunciou a sua m ulher, que um a im periosa necessidade os obrigava a buscar longe de Paris, e m esm o de Ly on, onde ela nascera, um canto de terra isolado, onde pudessem viver no pacífico rem anso da solidão.

Esta notícia aterrou madame Delm ont, sem contudo lhe causar vivas inquietações. Am ava seu m arido; ele a am ava igualm ente; seus filhos faziam as delícias do seu coração; as ocupações dom ésticas, as belas artes que cultivava; tudo isto era suficiente, para ocupar, em qualquer parte onde se achasse, os m om entos que pudessem restar-lhe dos doces e sagrados deveres da m aternidade: não fez portanto, a seu m arido a m ais pequena reflexão sobre o discurso que acabava de lhe dirigir; lim itou-se unicam ente a fazer-lhe algum as perguntas, assaz naturais, a respeito da súbita resolução que tom ava; nascidas todas elas do receio que tinha, de que algum a falta política houvesse com prom etido o coronel.

Sossegada com pletam ente sobre este obj eto, e instruída, de que algum as especulações particulares eram o único m otivo, que tornava necessário um retiro de alguns anos, abraçou ternam ente seu esposo, j urando-lhe, que de bom grado preferiria o descanso da solidão, ao tum ulto de Paris.

O em penho que Delm ont m ostrava em precipitar o m om ento da sua partida, era na verdade extraordinário: nem sequer quis assistir à venda da sua rica m obília. Encarregou um am igo para o representar neste negócio; e no im ediato dia àquele em que com unicou a sua m ulher o seu proj eto, partiu na com panhia dela e de seus filhos, levando apenas um único dom éstico, e sem se haver despedido das poucas pessoas que form avam o pequeno círculo das suas relações!

Depois de haver saído das barreiras de Paris, parecia Eduardo m ais desafogado, e com o se um enorm e peso o tivesse aliviado. Seus olhares, que vagueavam com um a espécie de inquietação, enquanto atravessava Paris, tom aram certa expressão m ais tranquila, logo que puderam contem plar a am enidade dos cam pos. Parecia que respirava m ais livrem ente, e apertando com extrem o a m ão de sua m ulher, assim lhe dizia:

— Eis-nos finalm ente livres dessa cidade tum ultuosa, onde se reúnem alternativam ente todos os povos do universo: quanto m e tardava o m om ento de franquear seus m uros, e de lhe dizer de longe um eterno adeus!

— Por que m otivo, m eu am igo — lhe disse ela, — vos explicais por sem elhante m odo? Não é porventura Paris o berço que vos viu nascer? Acaso perderia para vós, esta soberba capital, os atrativos que outrora vos oferecia? Com que entusiasm o não exaltáveis vós as suas belezas! Não é ela porventura a m esm a cidade? E ainda que as nossas circunstâncias tivessem m udado, seria isso m otivo para vos desgostardes tão singularm ente dum a terra, que ainda há pouco fazia as vossas m aiores delícias?

— Sim , é verdade — replicou o coronel; — confesso não poder hoj e suportar a presença desse lugar, que tanto m e encantava. Os acontecim entos que se têm sucedido com tanta rapidez; a profanação desta cidade pela presença de inim igos, tantas vezes vencidos; o furor dos partidos que tão velozm ente se tem ateado; as diversas opiniões desunindo corações tão perfeitam ente de acordo; tudo isto m e tem inspirado a m ais entranhável aversão pelo solo natal!... Essa m agia de Paris desapareceu para m im : não a considero hoj e senão com o cidade ordinária, onde m e fora im possível, principalm ente neste m om ento, continuar a residir.

— Tranquilizai-vos, pois, m eu am igo: os vossos desej os acham -se satisfeitos; que o céu vos depare na cidade, onde vam os habitar, o sossego e a satisfação, que Paris não podia oferecer-vos!...

— De que cidade falais vós?...

— Falo daquela, onde provavelm ente nos fixarem os... Eis-nos aqui sobre a estrada do m eio-dia: qual será o term o da nossa viagem ? Será em Bordéus, em Tolosa, em Tarbes, ou em Pó?

— Ai! m inha cara Helena (assim se cham ava sua esposa) — replicou o coronel com algum desconcerto: — receio constranger-vos a consum ar com pletam ente o sacrifício!... Julgais porventura que sairia de Paris, para ir habitar outra cidade, no m eio do ruído da m ultidão, sem pre im portuna? Que m e resolva a estabelecer em grandes povoações, onde passa todos os dias considerável núm ero de estrangeiros, que seus negócios, ou curiosidade obrigam a viaj ar pelo interior da França? Não, j am ais: conheço que na situação em que m e acho, só a solidão m e pode convir. Tende a incom parável bondade de vos não queixardes da m inha resolução tirânica: quero buscar um a quinta isolada, onde ninguém possa recordar-m e o passado, e sobretudo...

Corou de repente, suspendendo a frase que ia continuar, e lançando sobre Helena um indefinível olhar que, com efeito, inculcava as m ais íntim as e dolorosas recordações.

Helena talvez se assustasse, se acaso pudesse acreditar, que m otivos secretos poderiam produzir os profundos pesares que Delm ont parecia inculcar: sabia que as desgraças da França m agoavam , não pouco, seu coração; conhecia tam bém as m ortificações que o ralavam , vendo-se privado de várias propriedades que lhe pertenciam , e por consequência de dar a seus filhos a brilhante educação que lhes havia destinado. Sabia do m esm o m odo avaliar a ternura que lhe consagrava; ocultava-lhe portanto o pesar que sentia de se ver privada da sociedade, e dos prazeres do m undo, que na sua idade não podiam deixar de lhe ser gratos: portanto, sem profundar m ais esta m atéria, tom ando carinhosam ente a m ão de seu m arido, assim lhe disse:

— Sossegai, m eu am igo: as saudades de Paris não m e m ortificam . Será para m im indiferente qualquer pequeno torrão que pisarm os: tenho-vos a m eu lado, nossos filhos nos acom panham , transporto a m inha harpa, os m eus pincéis... que m ais posso desej ar? Onde m e será vedada a verdadeira felicidade?

— Com o! querida m inha. Pois a solidão de um a quinta não vos assusta?

— Assustar-m e-ia, se porventura m e achasse separada dos entes que neste m undo m e são m ais caros; na com panhia deles, a vida m e será sem pre agradável e deleitosa!

— Oh! de que cruel torm ento m e não sinto aliviado! Creio-vos sincera, m inha am iga; não duvido de que as vossas palavras não sej am as expressões dos puros sentim entos do vosso coração. Pois bem ! não vo-lo ocultarei; preciso evitar o tum ulto que nos rodeia. É a solidão de um deserto, o que m ais convém ao m eu espírito: preciso portanto, para m e tranquilizar, de um abrigo que m e ponha a coberto da tem pestade que m e am eaçava; não convém que sej a nem próxim o de um a cidade, para que aí nos não venham atorm entar, nem tão pouco m uito distante dela, para que nos privem os de alguns socorros, que possa reclam ar a nossa saúde, a de Eugénio e Julieta (eram os nom es de seus filhos, ainda m uito j ovens).

— E onde j ulgas poder encontrar esse retiro, Eduardo?

— Pouco distante de Tolosa.

— Parece-m e que durante as vossas cam panhas, nunca habitastes essa cidade? Tendes aí algum as relações? Já fixastes definitivam ente o lugar que devem os habitar?

— Ainda não. Ignoro qual ele sej a; o acaso há de proporcionar-m o: dirij o-m e para perto de Tolosa, pela única razão de ser inteiram ente desconhecido nesta cidade, e por isso que perdendo-se de m im o rasto, ninguém irá ali surpreender-m e... a vista dos hom ens m e é odiosa neste m om ento!... Oh! quanto não quisera eu haver perdido a m em ória do passado!... Quanto não desej ara, m inha cara Helena, haver só vivido para vós!...

Estas am orosas palavras, que por certo deviam lisonj ear madame Delm ont, produziram em seu coração um sentim ento inteiram ente contrário. O m odo com que seu esposo as pronunciara, parecia um a acre repreensão que a si m esm o fazia: a sua fisionom ia m anifestava naquele m om ento sinais evidentes dessa agitação da alm a, que aos olhos de perspicaz observador é m uito m ais expressiva do que os m ais eloquentes discursos. Helena, ainda que esposa, am ava seu m arido, com o nos prim eiros dias do seu him eneu. Nenhum sentim ento de ciúm e havia ainda torturado seu coração, porque os desvelos e carinhos de Delm ont lhe haviam provado, que só ela ocupava toda a sua im aginação; m as esta placidez podia ser de um a outro m om ento alterada! Helena j am ais quis indagar a vida de seu m arido, antes do dia, que pela prim eira vez se conheceram : sabia perfeitam ente que um j ovem e agradável m ilitar não podia estar isento dessas aventuras de galanteio, em cuj a ciência não são pouco profundos; m as ao m esm o tem po com prazia-se em acreditar, que a velocidade com que os exércitos franceses tinham percorrido a Europa inteira, não havia perm itido aos bravos, que os com punham , de alim entar por m uito tem po essas intrigas de am or, e de se abandonarem a esses sentim entos de alm a, que só podem ser perigosos, quando se cultivam por m uito tem po. Helena vivia, portanto, sobre este obj eto, isenta de cuidados; contudo, no m om ento em que o coronel lhe falava, um a fatal ideia lhe fazia acreditar, que algum a dessas intrigas, ainda que rem ota, não deixava de ter grande parte em um a viagem , que m ais se assem elhava a um a fuga!

Quaisquer que fossem as ideias de madame Delm ont a este respeito, j ulgou conveniente não expendê-las: diligenciava m esm o repeli-las, encetando um a conversação sobre a história do país que deviam habitar, e cuj a celebridade ecoava na Europa inteira.

— Não devem os recear — dizia o coronel, — a exaltação dos partidos, nesta província da França: não vim os aqui para tom ar parte nas suas crim inosas intrigas, ou vinganças inj ustas; vim os procurar a paz e o descanso; satisfarem os a todos os deveres do cidadão probo, obedecerem os fielm ente às leis, sem j am ais nos queixarm os das autoridades: seria para deplorar, que vigiando com tanto esm ero sobre a nossa conduta, servisse ela de pretexto aos furores dos inquisidores do nosso pensam ento. Além disso, no m eio dos cam pos, isolados em um a quinta solitária, quem se atrevera a acusar as nossas ações? Nada receeis a este respeito, m inha boa am iga, a prudência há de preservar-nos de qualquer perigo.

Os filhinhos, enj oados de ouvirem um a conversação que não podiam partilhar, interrom peram -na, neste lugar, fazendo a seus caros pais algum as observações, relativas ao país que atravessavam . Delm ont, querendo satisfazer à sua engraçada e inocente loquacidade, voltou para eles sua paternal atenção, enquanto sua esposa buscava, com perspicácia, descobrir em suas feições, os sentim entos que se albergavam em sua alm a, sem que lhe fosse possível adivinhar o m otivos dos risos sardónicos, das contrações de m úsculos, que im prim iam alternativam ente um singular caráter sobre a bela e distinta fisionom ia do coronel. Ela possuía a necessária perspicácia para atribuir aquelas em oções de alm a, a sim ples proj etos de fortuna: a do coronel era assaz suficiente para que a perda de um a pequena fração pudesse afetá-lo por sem elhante m odo.

Quanto m ais Helena procurava penetrar este m istério, tanto m aior era o labirinto em que se achava em brenhada, e seu rosto encantador parecia obscurecer-se, m au grado seu, com a m ais cruel m elancolia. Delm ont facilm ente o conheceu; e atribuindo esta espécie de m ortificação à sua partida de Paris, procurou logo, por m eio dos m ais assíduos desvelos, dissipar os negros pesares que oprim iam a am argurada esposa: não lhe custou m uito em satisfazer o seu desej o. Helena, penhorada pelos cuidados e terna solicitude de seu m arido, querendo evitar os terríveis efeitos de suas m elancólicas conj eturas, resolveu-se a esquecer o passado; e entregando-se toda à situação em que existia, só cogitava em saborear a doce satisfação de se ver no m eio de seus queridos filhos e de seu m arido.

Nesta tão agradável consideração, facilm ente desaparecem os cuidados e aflições que tantas vezes nos oprim em !...

Que bálsam o tão salutar não derram a ela sobre o coração de um a m ãe! Quanto se não tornam suaves as penas que m om entaneam ente sentim os, quando o am or conj ugal, abraçado com o am or paternal, o aj uda a banir para longe do coração as inquietações que o m altratam !