A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro
Capítulo X
Em um a época ainda recente tinham arvorado os exércitos franceses, sobre as terras de Viena, suas águias vencedoras. Aquela residência dos Césares, defendida coraj osam ente contra os turcos, não pôde resistir ao ím peto das nossas arm as; não foi necessário, para conquistá-la, que o sangue hum ano salpicasse as suas m uralhas. O chefe, que com andava um a m ultidão de bravos, prosseguiu em 1805 a vereda de sua gloriosa em presa, e conseguiu penetrar à força de fadigas na Hungria. Muitos esquadrões se apoderaram sucessivam ente de diversas vilas, depois de haverem sustentado terríveis com bates contra um a população belicosa.
Entre os oficiais, que faziam parte desta expedição, não era por certo o capitão Eduardo Delm ont, nem o m enos bravo, nem o m enos tem erário. Sua ardente coragem conduzia-o quase sem pre a partilhar as em presas m ais perigosas e arriscadas; m as esses perigos, ele os desconhecia, sem pre que divisava um a reputação de glória, um nom e ilustre no resultado dessas em presas. A fortuna, que parece com prazer-se em prem iar a bravura, quase sem pre o favorecia; m as, por fim , a inconstante, sem o abandonar com pletam ente, não quis por m ais tem po auxiliá-lo; e Delm ont caiu sobre o cam po de um com bate, varado de um a bala, no m esm o instante em que os inim igos se retiravam !
Nessa ocasião, vigiava Raul j unto a ele; era um bravo soldado, que lhe era m uito afeiçoado por princípios de gratidão e de reconhecim ento. Viu cair o seu capitão no cam po da batalha; m as longe de o abandonar, correu para ele, e aj udado por alguns de seus cam aradas, o transportou a um a casa vizinha, que era habitada pela fam ília de um rendeiro assaz abastado. A chegada de um oficial ferido foi considerada pelos húngaros, que o acolheram , com o um a salvaguarda, que os livrasse do furor da soldadesca desenfreada. O dono da casa, respeitável ancião, se apressou a oferecer-lhe o m elhor quarto que possuía, e a m inistrar todos os socorros, de que podia dispor. Cham ou-se logo um cirurgião, que declarou que a ferida não era m ortal, m as que o seu curativo seria m uito dem orado.
Delm ont passou perto de quinze dias em um estado de insensibilidade, quase com pleto; apenas sentia o ruído que j unto ao seu leito se fazia; e seus olhos, constantem ente fechados, não lhe perm itiam observar o desvelo, com que era tratado. Entre as pessoas, que vigiavam pela conservação da sua existência, houvera ele distinguido facilm ente, se suas forças lho perm itissem , um a interessante m oça, filha do rendeiro, que se fazia notável, não só por sua rara beleza, com o por suas m aneiras castas e inocentes. Tocada de um sentim ento de com paixão, que nem ela m esm a poderia definir, passava dias inteiros j unto ao doente, que apesar dum a extraordinária palidez, não deixava de inculcar esses dons, que atraem e encantam ao m esm o tem po, quer por sua extrem a perfeição, quer por um a vivacidade, que o sofrim ento pôde m odificar, m as que não pôde extinguir de todo.
Alinska, a cada passo deparava com um pretexto, que lhe facilitasse o ingresso na câm ara de Delm ont, de onde algum as vezes era banida; ali passava longas horas, que sem pre em pregava num a certa contem plação, cuj as consequências lhe podiam ser m uito fatais. Mas quando alguns oficiais, am igos de Delm ont, ou os seus soldados, vinham saber notícias dele; então, a tím ida húngara, envergonhada de a terem ali encontrado, fugia m ais veloz do que a corça dos m ontes Crapakcienos, e aguardava, para voltar ao seu posto, que os im portunos visitadores se retirassem .
O prim eiro relancear de olhos de Delm ont, dirigiu-se por acaso sobre aquele anj o terreal. E que poderia ele fazer, para o contem plar por m uito tem po sem o adm irar? Não conhecia o m eio; e por isso achou que era m ais sim ples entregar-se ao sentim ento, que, a seu grado, parecia enlevá-lo. Em breve careceu de um confidente, com quem pudesse falar livrem ente a respeito daquela, que j á enchia todo o seu coração. Raul foi o escolhido; e ufano com esta distinção, esm erou-se desde logo em se tornar digno dela, aproveitando todas as ocasiões, em que pudesse entreter Alinska com a narração das brilhantes qualidades do seu com andante; sem contudo lhe declarar, de um m odo positivo, quanto este belo m ilitar pensava a seu respeito.
As histórias, que o sargento lhe fazia, prendiam singularm ente a sua atenção: ouvia com o m aior interesse a história dessas batalhas gigantescas, em que tanto se havia distinguido a bravura francesa; sua im aginação acom panhava Delm ont no m eio de perigos, sem pre m ultiplicados; estrem ecia, todas as vezes que seus dias eram am eaçados. Então os seus cuidados se duplicavam ; ora desm aiava, ora se cobria do m ais vivo rubor; a sua respiração tornava-se m ais penosa; e, quando a narração de um a batalha lhe não dava conhecim ento de algum desastre, levantava para o céu seus olhos expressivos, agradecendo m il vezes à Providência, por haver salvado a vida do seu am ante.
Entre o silêncio da noite, no m eio dos trabalhos do dia, apenas se ocupava de um a única ideia: o gentil, o valente capitão não saía um só instante, nem do seu pensam ento, nem do seu coração. Quanto m ais o tem po corria, tanto m ais o ervado farpão a trespassava. Já sentia todos os delírios de um am or cego e violento; e ainda o obj eto da sua ternura lhe não tinha feito ouvir um a só palavra desse m esm o am or!
Delm ont não conservou por m uito tem po um silêncio, que nem se com padecia com a sua profissão cavaleirosa, nem com o seu caráter franco e ousado. Explicou-se finalm ente, e as suas declarações foram ouvidas com o m aior entusiasm o; Alinska estava então nessa idade feliz, em que a desconfiança não perturba os nossos desej os; am ava com toda a energia de sua alm a; parecia-lhe m uito natural que fosse reciprocam ente correspondida. Não conhecia, nem a diferença de classes, nem a desigualdade de fortuna: o seu am ante era j ovem e am ável; ela era tam bém j ovem e bela; tudo portanto lhe parecia igual; am bos tinham nascido um para o outro; o futuro não lhe parecia m ais, do que a prolongação do presente!
Mas no m eio dos transportes m ais veem entes, ela se conservava tão pura, com o a m esm a virtude; um só pensam ento crim inoso não m anchava sua candura; e Delm ont, absorto de haver encontrado tanto excesso de am or, reunido a um a acrisolada inocência, nunca se atreveu a profanar tão belos, tão nobres, tão virtuosos sentim entos. Quanto m ais via a interessante Alinska, tanto m ais sua ternura se aum entava para com ela. Chegou ao seu m aior auge; e um a noite, depois de haver passado com ela os m ais gratos m om entos, picou, com agudo ferro, um de seus braços, e com o sangue que tirara deste ligeiro golpe, escreveu e assinou um a prom essa de casam ento, que confiou à lealdade da sua am ante. Enlevada, por esta ação tão rom anesca, apressou-se em im itá-la. Este pacto duplicado e recíproco, segundo o antigo uso do país, foi depositado, pelo espaço de cinco noites, debaixo da pedra de um sepulcro: e cum prida esta form alidade, ficava sancionado, por Deus, este solene engaj am ento: pelo m enos era esta a crença daqueles povos!
Ninguém duvida na Hungria, que dois am antes ligados por este m odo, deixem de considerar-se eternam ente unidos: outra qualquer aliança por eles contratada, j am ais poderia ser venturosa e abençoada por Deus! Qualquer donzela desposada por este m odo singular, se porventura vem a ser traída, pode, depois de m orta, surgir do seu j azigo, para atorm entar, na qualidade de vampiro, o pérfido que assim a abandonara!... Desconhecedor de sem elhantes usos, estrangeiro naquele país, ignorava Delm ont aquelas particularidades tão absurdas e supersticiosas. Nada receava do futuro; porquanto j ulgava im possível que pudesse j am ais esquecer-se da sua adorada Alinska.
Passaram -se dias, sem anas, e alguns m eses; a paz tinha-se assinado; novos rum ores de guerra se espalharam e o regim ento, onde Delm ont servia, j á tinha partido na direção da Alem anha setentrional. A ferida do capitão, apesar de cicatrizada, ainda lhe serviu de pretexto para se dem orar m ais algum tem po em convalescença; o seu am or deslum brava-o de tal m odo, que até o fazia esquecer de seus m ais sagrados deveres; m as um a term inante ordem , que recebeu do seu coronel, veio quebrar de todo o encantam ento deste novo Renaud. Era pois necessário, ou aviltar-se aos olhos da sua pátria, ou separar-se de Alinska! Terrível era por certo este com bate; m as a glória saiu vencedora.
Delm ont, depois de haver triunfado da sua fraqueza, ainda teve que com bater a de sua am ante. Procurava consolá-la por m eio das m ais solenes prom essas; obrigava-se a voltar antes de pouco, para ratificar, j unto ao altar, o pacto sagrado, que am bos haviam j urado: o único prazo que pedia, era a conclusão da nova guerra que ia com eçar; isto é, um ano, pouco m ais ou m enos. Finalm ente, a pobre Alinska, ainda que desconsolada, não teve outro rem édio senão resignar-se com tão funesta separação.
— Eduardo — exclam ava ela, no cruel m om ento da despedida, — lem bra-te, que eu sou tanto tua, com o tu serás sem pre m eu; não posso desligar-m e do m eu j uram ento senão por m eio de nossas núpcias; e tu deves efetuá-las, antes que o fúnebre lençol para sem pre nos envolva!...
Delm ont, satisfeito por haver encontrado ocasião de a tranquilizar, repetiu as m esm as palavras que ela lhe dirigia: abraçou-a ternam ente, e partiu para nunca m ais a tornar a ver!...
Por m uito tem po lhe guardou a m ais severa fidelidade; m as a ausência fatal produziu nele os seus terríveis efeitos. A húngara ia desaparecendo insensivelm ente da sua im aginação; j á se não recordava das solenes prom essas que lhe fizera; e o seu him eneu com Helena acabou de apagar em sua alm a a grata lem brança de seus prim eiros am ores! Contudo, ela nunca deixava de lhe escrever; im pacientava-se com um a dem ora, que nunca parecia term inar; m as nem por isso deixava de conservar lisonj eira esperança... Bem via, que o capricho de Napoleão obrigava as suas legiões a percorrerem as diversas partes da Europa; conhecia, ainda que com pesar, que Delm ont não podia concluir o seu casam ento, enquanto se achasse no interior da Espanha, com o em suas cartas lhe assegurava. Mas enfim , quis a Providência despedaçar o instrum ento de bronze, de que se havia servido, para subj ugar tantos povos; e a paz, que por tanto tem po fora perturbada, foi de novo restabelecida sobre a terra. Este feliz sucesso ofereceu a Alinska essa ventura, que tão vivam ente desej ava; as suas cartas tornavam -se cada vez m ais urgentes; nelas anunciava a Delm ont, que se acaso não viesse buscá-la, quanto antes, ela m esm a iria procurá-lo a Paris.
Eduardo, elevado ao posto de coronel, e esposo de Helena, estrem eceu com a leitura daquela carta, que parecia vaticinar-lhe um a interm inável série de desventuras. Tom ou um a resolução desesperada, não receando declarar a verdade à sua infeliz am ante; essa fatal verdade, que tão cara lhe devia custar!... Com inexplicável ansiedade, esperava ele a sua resposta. Não decorreu m uito tem po sem que a recebesse; e foi então, que ele procurou sua m ulher; e que, sim ulando um a perda na sua fortuna, lhe declarou, que era m ister deixar Paris, e buscar um asilo m ais desviado do tum ulto das cidades. Depois não se atreveu m ais a lançar seus olhos sobre a fatal m issiva; e num m om ento de terror, tom ou o partido de reduzi-la a cinzas, para evitar que sua consorte pudesse descobrir o verdadeiro m otivo de sua precipitada resolução.