A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro
Capítulo XXIV
Antes de conduzir Alinska à presença do adm inistrador civil, quis Delm ont deixar decorrer ainda m ais alguns m eses. Debalde a sua prim eira paixão, ateada de novo com a m aior violência, lhe não perm itia apreciar a inconveniência de um passo tão precipitado. Um confuso sentim ento de seus deveres, ainda o continha, m au grado seu: as virtudes de sua m ulher tinham inspirado aos habitantes do distrito a m ais com pleta adm iração; as extravagâncias da húngara, por um efeito contrário, não podiam atrair as sim patias desses m esm os habitantes; e era para recear, que conhecedores das novas núpcias do coronel, se não dessem a esses insultos, disfarçados com o nom e de divertim ento, com os quais se costum a, nas vilas e aldeias de França, enxovalhar o dia de um segundo
noivado [2]. Apesar disso, era necessário que estas considerações tivessem um term o; era m ister que o coronel tom asse um partido, e ele se resolveu portanto a falar particularm ente ao adm inistrador do distrito. Este cavalheiro, ainda que adm irado à vista de tão estranha confidência, nem por isso testem unhou o pesar que ela lhe causava. Em tais ocasiões lim itava-se o seu dever em desem penhar as form alidades exigidas pelas leis: a elas se resignou, prom etendo a Delm ont, que para evitar m aior escândalo, ele m esm o iria ao castelo, para celebrar o ato nupcial.
Preenchida esta form alidade, pretendia Delm ont, instigado cada vez m ais pelo seu am or, que Alinska se constituísse definitivam ente sua esposa; e sem nada lhe com unicar, sem m esm o lhe dar m otivo para que ela o conj eturasse, passou a entender-se com o cura da paróquia, o qual lhe prom eteu, que de bom grado se prestaria a quanto fosse m ister para facilitar a união religiosa dos dois am antes. O coronel, cheio de franqueza e de lealdade, não duvidou fazer-lhe am pla confidência de quanto se passava. Declarou o atentado violento, que Alinska tinha praticado sobre si m esm a; os receios religiosos, que por tal m otivo a torturavam ; o m edo que tinha de entrar em um a igrej a, de onde lhe parecia, que a cólera divina a expulsava; o susto que lhe causava um m inistro da religião, e a necessidade que havia de em pregar a m aior circunspeção para com um a m ulher, cuj o espírito se achava enfraquecido pelas desgraças que havia suportado, e pelos prej uízos com que fora educada.
O cura não era felizm ente desses hom ens, que, colocados por suas m esquinhas ideias no centro de um pequeno círculo, nem sabem sequer o m eio de sair daquele enredo. Mais esclarecido e conhecedor de quanto lhe cum pria fazer, sabia m uito bem que para evitar um escândalo, lhe seria perm itido afastar-se das regras ordinárias. Considerava o susto da j ovem húngara; os rem orsos que sentia, com o suficientes holocaustos, para m odificar o rigor das leis canónicas: no seu arrependim ento via ele quanto era necessário para substituir, ao m enos m om entaneam ente, a revelação exigida no tribunal da penitência. Não fez portanto dificuldade algum a em com prom eter-se a ir à m eia-noite abençoar, na capela do castelo, o casam ento de Alinska com o coronel, um a vez que o adm inistrador civil tivesse cum prido j á o seu dever.
Satisfeito, por ter vencido esta dificuldade, voltou Delm ont para o lado da sua am ante, e aproxim ando-se dela com ternura, lhe participou, que naquela m esm a noite seriam irrevogavelm ente unidos. Súbito rubor cobriu sem dem ora as pálidas faces da bela estrangeira; m as ao m esm o tem po tristonha nuvem parecia ofuscar-lhe os olhos: seu corpo trem ia convulsam ente; viu-se obrigada a encostar-se a um a m esa, que se achava j unto a ela!
— Pois j á, Eduardo! — exclam ou ela. —Já! Sois na verdade m uito apressado! Porque não preferistes antes que a nossa ventura se prolongasse por m ais algum tem po?
— Acaso pretendo eu destruí-la? Não quero antes assegurá-la para sem pre? A nossa união aprovada solenem ente, acaso se não tornará m ais doce, m ais duradoura?
— Vós assim o j ulgais, insensato! Sem elhai-vos a todos os m ortais! Não vedes m ais do que o presente; o futuro não vos assusta, porque a vossa im aginação vo-lo apresenta sem eado de flores.
— Não há dúvida; assim se m e afigura. E por que m otivo vos conservareis sem pre m ergulhada nessa m elancolia, que absorve as faculdades de vossa alm a? Para que viestes procurar-m e, sem a esperança de para sem pre nos unirm os? Não dizíeis vós que eu vos pertencia? Reconheço agora esses direitos; entrego-m e a m eu senhor; e vós rej eitareis o que é vosso?
— Oh! enquanto a seres m eu, ninguém pode contestá-lo. A prom essa traçada com vosso sangue, é m ais sólida garantia do que todas essas cerim ónias, que m e são indiferentes. Porém satisfeita de vos ver, não posso deixar de encarar com horror a hora, que m e dará sobre vós terríveis direitos. Ah! Eduardo, se m e acreditas, vai pedir ao m agistrado, que não se apresente no castelo: tu não podes im aginar as desgraças que te aguardam , se definitivam ente te ligas a m im .
Disse, retirando-se aceleradam ente da presença de Delm ont, e indo procurar no fundo do seu quarto um a solidão que ninguém se atrevesse a perturbar. O coronel ficou com o interdito, à vista do que acabava de ouvir. Receava o excesso de Alinska, quando se visse em presença do m inistro do altar; m as j á não era tem po de tom ar novo partido; a pedra j á se havia soltado; era m ister deixá-la term inar a sua carreira.
Eram necessárias duas testem unhas para contratar legítim o m atrim ónio, quer fosse na presença do adm inistrador civil, quer do cura da paróquia. Delm ont escolheu para esse fim o seu criado, e o m ordom o do castelo: com o não estavam longe dele, tinha a certeza de os achar prontos no m om ento em que os precisasse; e por isso, não havia o risco, de que fossem , com indiscreta revelação, despertar a m alignidade pública, que j á desconfiada, soltava terríveis am eaças, que faziam estrem ecer o coronel. Este estava resolvido, assim que efetuasse o seu casam ento, a dirigir-se logo a Tolosa, com sua nova esposa, e dali a Paris, onde fixaria de novo a sua residência. A habitação de R *** era-lhe j á insuportável; trazia-lhe à lem brança terríveis recordações, as quais se tornavam para ele um abism o de torm entos.
Chegou finalm ente a noite. Alinska, sem pre encerrada no seu quarto, havia testem unhado o desej o de não sair dali, senão no últim o m om ento. Delm ont, agitado por todas as com oções, capazes de com over o coração hum ano, vagueava por toda a parte: im petuoso vento soprava horrivelm ente; penetrava por todos os lados no castelo, im itando, com seu diverso sibilar, um as vezes os gem idos de um ente sofredor, outras as infernais risadas dos dem ónios; açoitava com violência as m al reparadas j anelas; fazia ranger as portas interiores, que pareciam produzir um lúgubre m urm úrio: o seu furor era tão desm edido, que a intrépida alm a do coronel ressentia um a espécie de terror. Sentia um a certa opressão, que sem dúvida não era a de alegria; e m ais de um a vez, quase se ia convencendo, de que a hora de um a união tão desej ada, podia não ser talvez a da ventura!
Em um dos passeios que o coronel dava ao acaso pelo interior do castelo, aproxim ou-se m aquinalm ente da sala, onde, naquele m om ento, se achavam os seus dom ésticos em com panhia de alguns dos trabalhadores da granj a. Falavam entre si da ordem que seu am o lhes havia dado, para que lhe aprontassem a sege à m eia-noite. Uns, adm iravam -se que ele quisesse sair tão tarde; outros procuravam adivinhar o fim de um a saída tão inopinada.
— Isso não m e adm ira — dizia um dos trabalhadores. — Todos nós sabem os que o coronel há m uito tem po que passa as noites em cuidados; e por isso, talvez prefira antes ir passear a estas horas, do que deitar-se na sua cam a, para ser ali m olestado por sonhos terríveis e por visitas desagradáveis...
— Que é o que dizeis, Pedro? — exclam ou Janeta, com voz m edrosa. —
Quais são essas visitas de que falais?
— Falo daquelas, que sua m ulher lhe faz todas as noites, depois que m orreu. Aí tendes o sineiro da paróquia, o m esm o cura, segundo dizem , e a tia Pernot, que publicam ente declaram , que m uitas vezes tem visto surgir do sepulcro nossa antiga senhora e am a, cham ar por seu filho, que igualm ente se levanta do m esm o j azigo, e cam inharem am bos direitos ao castelo...
— Isso é um a falsidade abom inável — exclam ou o criado do coronel, o qual tendo nascido num a grande cidade, não acreditava em sem elhantes superstições.
— Não vos enfadeis, sr. Gervásio; não tom eis tanto calor: talvez que antes de pouco vej ais tam bém aquilo que os outros têm visto. Estou persuadido de que esta noite tam bém há de ter as suas m aravilhas, com o as precedentes, porquanto, segundo todos os indícios, j ulgo que a tal aparição há de ter lugar m ais cedo do que de ordinário. Ao voltar de Souterréne, onde fui buscar alguns pom bos, encontrei no cam inho a tia Pernot, a qual m e disse:
« Pedro, se vais para o castelo, não te esqueças de rezar as tuas orações noturnas; aj unta-lhe tam bém um De profundis, e dois Pater, porquanto coisas m uito extraordinárias devem ter lugar esta noite. Aqueles que giram pelo m eio das trevas, sem m edo dos m alfeitores, ou das feras danadas, acordaram m ais cedo do que era seu costum e; o vento que assopra, com o j am ais ouvi assoprar, os despertou sem dúvida; ainda há pouco os vi passar; cam inhavam m ais apressados do que de ordinário, com o se receassem não chegar a tem po!»
Seria m ister a Delm ont um a força de alm a m ais que hum ana, para que se não aterrasse, ouvindo tão estranha narrativa. Seus sentidos consternados lhe absorviam grande parte da sua energia; e receando ouvir o final da conversação, retirou-se vagarosam ente, subindo as escadas. Achava-se j á no últim o degrau, quando sentiu em um dos intervalos de silêncio, que o vento, a espaços, lhe concedia, um pequeno sussurro j unto a ele, que parecia em anar de um a respiração difícil. Para subitam ente, volta-se... duas figuras brancas passam velozes a seu lado, e com a m esm a velocidade am bas se perdem na escuridão das trevas!... Ele as viu distintam ente, j ulgara reconhecê-las; seus j oelhos se dobraram ; foi-lhe im possível reprim ir o seu terror; e caindo sobre o degrau, ficou por m uito tem po na m ais com pleta im obilidade. Um grande tum ultuar de vozes veio despertá-lo da espécie de quebrantam ento em que ficara: reconheceu a fala do adm inistrador m unicipal. Levantou-se com a m aior prontidão, procurando disfarçar o sobressalto em que se achava; adiantou-se para receber aquele que, alguns m om entos antes, esperava com tanta ansiedade. A prim eira palavra que o adm inistrador lhe dirigiu, foi para lhe perguntar se sentia algum incóm odo; tão alteradas haviam ficado suas feições! Delm ont respondeu com evasivas, conduzindo logo o m agistrado à sala de visitas, onde o deixou um instante, para ir anunciá-lo a Alinska.
Era necessário atravessar toda a parte do castelo, que se estendia para o lado do norte, para chegar ao aposento da húngara; e conquanto tivesse m andado alum iar as diferentes peças que ali conduziam , apenas ao percorrê-las, se atrevia Delm ont a levantar os olhos: tal era o receio que tinha de deparar com algum a sinistra aparição!
Alinska estrem eceu ao vê-lo, e m ais ainda quando ele se explicou. Lançou sobre ele um olhar, no qual se desenhavam tão diversas sensações, que fora im possível descrevê-las. Ela tinha deixado seus traj os de luto; um vestido branco, sem guarnição algum a, adornava seu talhe m aj estoso; um sim ples colar de pérolas, um ram o de flores de laranj eira, entrelaçado em seus cabelos, eram os únicos adornos que traj ava. Era na verdade bela, se porventura o pudesse ser; quando suas feições, tom avam ao m esm o tem po, m uitas e diversas expressões, e todas elas penosas e repugnantes, quando se contem plavam . Sua boca se contraía, para não oferecer o aspeto de um sorrir sardónico, que nela se divisava a cada m om ento; seus olhos, quase sem pre gelados, brilhavam naquela ocasião de um m odo que, decerto, não inculcava nem o prazer, nem o contentam ento; m as nada obscurecia a riqueza de suas form as, a elegância de seu talhe, a m aj estade do seu porte. Alinska era na verdade própria para inspirar os m ais vivos desej os; sobretudo, quando a obscuridade do lugar onde se achava, não perm itia senão ver furtivam ente sua fisionom ia, sem pre triste e m elancólica.
Foi necessário que Delm ont lhe repetisse m uitas vezes as suas instâncias, para que ela se decidisse a segui-lo. Hesitava de contínuo; queria dem orar quanto lhe fosse possível o m om ento que tanto receava. Suas palavras eram inconsequentes; elas exprim iam um receio continuado de perder a ventura, no m esm o instante em que j ulgavam para sem pre adquiri-la. Contudo a sua resistência teve que ceder: pareceu fazer um esforço sobre si m esm a, e alçando ao céu seus olhos e seus braços, ela parecia inculcar, ou que era constrangida a um sacrifício, ou que im plorava um perdão, que não esperava alcançar. As testem unhas j á esperavam no salão, quando os dois am antes ali entraram . À vista delas e do m agistrado, ficou Alinska m uito m ais perturbada; m as nem por isso deixou de responder, com m odéstia, aos cum prim entos que lhe eram dirigidos. Principiou-se logo a cerim ónia; pouco tem po durou, e Delm ont viu-se unido irrevogavelm ente à sua húngara!...
Todavia o furacão continuava enraivecido, açoitando com fúria insana as paredes e as vidraças do castelo. O m agistrado, que desej ava retirar-se quanto antes, escusou-se aos rogos de Delm ont, que queria que ele se dem orasse até ao seguinte dia. Dirigiu à nova esposa insignificantes em boras, que silenciosa os recebeu, retirando-se depois acom panhado das duas testem unhas, que iam esperar num a sala particular, até que de novo fossem cham adas. Gervásio tinha recebido as necessárias instruções de seu am o: devia introduzir na capela não só o cura, m as tam bém o m ordom o; e prevenir depois o coronel (com o pretexto de ir receber as suas ordens), de que tudo se achava pronto para a bênção nupcial.
Alinska, que tinha ficado a sós com o coronel, nem por isso se achava m enos alterada. Seu seio agitado arfava com violência; seus m ovim entos eram constrangidos; lançava ao acaso seus olhares; m as sobretudo, cada vez que seu esposo se aproxim ava dela, um convulsivo trem or a oprim ia; aum entava-se a sua palidez, e estendia seus braços com o quem pretendia repelir aquele, pelo qual seu coração tanto palpitava. Delm ont observava os terríveis com bates, que pareciam despedaçar o coração de sua am ante. Partilhava os seus m ales; m as esperava tam bém que o tem po, e a intim idade que dali em diante os ligaria, a restituiriam finalm ente ao seu estado natural. Tentava, por m eio das m ais doces palavras, dim inuir o terror que a dom inava; porém os seus esforços eram sem resultado; a perturbação da húngara continuava do m esm o m odo; proferia palavras incoerentes; ora exprim iam o delírio de um am or violento; ora vaticinavam as m ais sinistras vinganças; invocavam a clem ência do céu; repeliam finalm ente os castigos do inferno!
Esta situação era dem asiado penosa, para que durasse m uito tem po. Ela recordava ao coronel, de um m odo assaz im portuno, o que tanto o havia atem orizado quando m eia-noite soara; e foi nesta ocasião que Germ ano se apresentou na sala. Ao seu aspeto, Delm ont se dirigiu ao pé de Alinska, para lhe dizer:
— Vam os, querida am iga; m ais um bocadinho de coragem , e tudo será term inado; vinde; é m ister que partam os antes da um a hora; ainda nos resta um dever a cum prir. É necessário que passem os a outra sala.
— E haverá algum a — respondeu Alinska com voz sinistra; — Haverá algum a, Delm ont, onde m e sej a possível encontrar o repouso? Podereis vós indicar-m e um só lugar, onde essa fatal m ulher m e não persiga?
— Que m ulher! — exclam ou o coronel com vivacidade. — De quem falais vós?
— E acaso pretendeis ignorá-lo? Não se ofereceu ela tam bém a vossos olhos? Que m e quererá ela, sem pre acom panhada dessa criança, que cam inha de contínuo a seu lado?... Acaso será culpa m inha se um a terceira criatura a não acom panha? Por que razão se opôs ela a que eu cum prisse com pletam ente a m inha m issão? Ela bem sabe que não devem os encontrar-nos m ais; ela há de habitar lá em cim a; eu hei de sofrer cá em baixo!...
— Em nom e do nosso am or, Alinska, recuperai as vossas faculdades; vós m e constituís o m ais desgraçado dos hom ens. Que pretendeis vós? Que é o que tendes?
— Tenho sede... grande sede!!
— É m uito fácil contentar-vos.
— Não são refrescos que pretendo! Careço de sangue!... de sangue, Eduardo!... do teu sangue!!...
— Oh! desventurada m ulher! Acaso ter-vos-á abandonado a vossa razão? Entrai em vós m esm a; esquecei-vos do passado; lem brai-vos que som os um do outro, que um a carreira de ventura se abre diante de nós...
— Três passos são apenas suficientes, para interpor essa carreira, que tão ditosa vos parece; e ao cabo dela, não encontrarei eu o frio ataúde onde j á repousei?
— Não quero m ais escutar-vos; vinde; resta-nos a cum prir o últim o dever.
Disse, e cingindo-lhe a cintura com um de seus braços, a conduziu rapidam ente à capela, sem poder vedar os retum bantes gritos que ela soltava, que pareciam harm onizar perfeitam ente com o bram ido da tem pestade.
— Eduardo! Eduardo! Acaso m e quererás assassinar duas vezes? Já estás fatigado da tua pobre com panheira? Nem sequer a deixas respirar a alva m atutina? Queres separar-te dela para sem pre?
— Não é esse o m eu desígnio, Alinska; quero ao contrário, tornar indissolúveis os laços que j á nos prendem ; quero que ninguém , neste m undo, possa separar-nos.
— A m orte!... A m orte!... Oh! quanto ela é dolorosa!... E tu, m eu Eduardo, deverás tam bém m orrer? Sim , tu m e pertences; entregaste-te de novo ao m eu dom ínio, e a m inha terrível m issão está prestes a term inar...
No m eio das fúrias deste inexplicável delírio, conseguiu o coronel arrastá-la até à capela, onde chegou quase sem sentidos. Um grito ainda m ais terrível lhe escapou do peito, quando o altar ilum inado, e o padre com hábitos sacerdotais, se ofereceram a seus olhos!
— Oh! Providência! Oh! destino! — exclam ou ela, debulhada em lágrim as. — Pela vez prim eira m e vej o obrigada a ceder ao vosso ascendente... a m inha ruína é inevitável!...
Delm ont, apesar do estado de exasperação em que via Alinska, quase a obrigou a força a aj oelhar. Ela não resistiu; soluçava, derram ava copioso pranto; suas feições, j á tão alteradas, acabaram de decom por-se; e as palpitações violentas de seu seio cessaram inopinadam ente! Um delgado fio parecia suster ainda aquela existência, prestes a evaporar-se. Continuava a cerim ónia; acabava de benzer-se o anel nupcial; o padre o entrega ao esposo, para que o passe ao dedo de sua m ulher: a m ão desta achava-se calçada com um a luva, com o j á dissem os; o coronel, por um rápido m ovim ento, arranca-lhe a luva, sem que ela pudesse preveni-lo; e a hedionda e descarnada m ão de um esqueleto se oferece aos espavoridos olhos do coronel e do padre!...
As testem unhas deste horrível espetáculo soltam ao m esm o tem po um a exclam ação de pavor. O m inistro do altar recua cheio de assom bro e de confusão!
— Dem ónio! — bradou ele. — Em nom e do Deus Criador, eu te conj uro que te dês a conhecer...
Esta ordem j á não podia ser executada; o cadáver da húngara tinha caído sobre o pavim ento; e de três feridas, novam ente abertas, se extravasavam torrentes de um sangue negro, im puro, e corrom pido!...
FIM
Notas
[1] Jogos em honra de Flora.
[2] Charivari; é o nom e que dão a estes divertim entos, que consistem em
concorrer de noite à porta dos noivos, onde lhes dão um a estrepitosa
serenata de chocalhos, trom betas desafinadas caçarolas, tangidas por
m artelos, assobios, etc, etc.
(O tradutor).
Ficha técnica
Título: A virgem da Hungria, ou a mulher vampiro. Título Original: Le vampire, ou la Vierge de Hongrie Autor: Étienne Léon de Lam othe-Langon (1824). Capa: Porm enor do « Retrato da senhora Mazet» de József Rippl-Rónai.
Edição digital: (zero papel), 2.ª edição, novem bro de 2012. Ortografia usada: Variante europeia. Em conform idade com o acordo ortográfico da língua portuguesa de 16 de dezem bro de 1990.
Você terminou A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro
Étienne-Léon de Lamothe-Langon
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