A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro
Capítulo V
Madame Delm ont, que das j anelas do grande salão, observava desde m uito tem po o com eço da trovoada, principiava a conceber vivos receios pela dem ora de seus caros filhos. Não pôde conter a sua im paciência; e saindo do castelo, foi cam inhando na direção do bosque, a fim de m ais breve os encontrar. Assim o conseguiu, porque antes de decorrerem dez m inutos, ouviu as risadas da travessa Julieta, vendo correr para ela os obj etos do seu am or, que de novo principiaram a elogiar a desconhecida dam a, apresentando-lhe os presentes, que lhes tinha feito. O j ogo da bola, a engraçada boneca, ricam ente vestida, tudo era exaltado com o m aior entusiasm o! Madame Delm ont era m ãe, e não podia deixar de j ulgar favoravelm ente aquela, que parecia tanto am ar os entes que tão caros eram ao seu coração. Questionou-os, pois, sobre o que a estrangeira lhes dissera.
— Oh! desta vez, — disse a m enina — não se entreteve m uito em falar-nos: não cessou de conversar com Raul, e parece-m e que se retirou m uito encolerizada contra ele.
Esta inoportuna revelação destruiu de todo os proj etos que o ex-sargento havia form ado. Ofereceram -se-lhe logo os inconvenientes de um a denegação, que, sem dúvida, madame Delm ont não acreditaria. À vista deste incidente, tom ou desde logo o partido que lhe parecia m ais acertado; em bora tivesse que se em brenhar num dédalo de m entiras e im posturas; não esperou portanto que o interrogassem ; e tão depressa Helena m andou retirar os m eninos:
— Bastante razão tinha eu, madame, — disse ele — de desconfiar desta desconhecida. Tende a certeza de que não veio a R *** sem algum desígnio sinistro e oculto. Ela m e interrogou por m ais de um a hora, a respeito da vossa fam ília, e de todos os nossos vizinhos: queria saber tudo; conhecer a idade, a classe, as ocupações de cada um . Parecia não se cansar com as suas perguntas. Oh! confesso-vos que a sua investigação era na verdade m uito fatigante e aborrecível. Procurei a princípio, iludir com civilidade, suas indiscretas interrogações; m as ela não se deu por vencida; repetiu de novo os seus ataques. Redobrava as suas perguntas; parecia um fogo rolante; j á m e faltava a paciência para tolerar tanta curiosidade. Reuni então a m inha esquadra, e por m eio de um a carga vigorosa, pus o inim igo em com pleta derrota. Esta resistência a indignou; e em preendeu logo a sua retirada, fazendo transluzir o seu m au hum or e desconcerto.
Este discurso, m isturado de term os m ilitares, não pôde deixar de fazer sorrir madame Delm ont. As interrogações da estrangeira não lhe pareciam tão repreensíveis quanto Raul pretendia. Parecia-lhe bem natural, que, disposta a habitar aquele país, procurasse conhecer as fam ílias que nele residiam .
— Espero, m eu bom Raul, — disse ela — que as vossas respostas não fossem ofensivas, ou desagradáveis. É necessário em pregar o m aior respeito para com as dam as; e um m ilitar, sobretudo, não deve j am ais deslizar do trilho da civilidade, e das conveniências.
— Isso é bom para os nossos oficiais — replicou Raul; — m as cá para os inferiores, que não gozam os dos seus privilégios, não j ulgam os a propósito im itá-los em seus galanteios.
Depois destas palavras, ditas de um m odo bastante rude, despediu-se o velho m ilitar de sua am a, que tam bém se lhe não deu de term inar um a prática, cuj o fim havia falhado: voltou para j unto de seus filhos, enquanto um terrível vento se elevava, acom panhado de grossas bagas de chuva. Nem madame Delm ont, nem os m eninos, tinham m edo do estam pido do trovão; porém Germ ana e Janeta (era o nom e da outra criada) assustavam -se extraordinariam ente. Correram para j unto de sua am a, em busca de um asilo, que ela de bom grado lhes concedeu. Raul, vendo-se então de todo livre, dirigiu-se ao seu quarto; e tendo a certeza de que ninguém viria perturbá-lo naquela ocasião, pôs-se de novo a escrever ao seu coronel, apesar de certa inquietação involuntária que, de m om ento a m om ento, assaltava seu coração.
Contudo, a trovoada aum entava de violência; os ventos com batiam -se com fúria insana nas vastas planícies dos ares; pareciam apostados a abalar os sólidos e decrépitos alicerces do castelo; e no m eio do estam pido dos raios, do espantoso sibilar da tem pestade, ouvia Raul de espaço a espaço, m isturarem -se àquele horroroso eco, com o gem idos queixosos, articulações, que lhe pareciam form adas por um a voz não pouco fam iliar a seus ouvidos!... Muitas vezes ficava com o suspenso e interdito; m as bem depressa, envergonhado de sua pusilanim idade, tornava a seguir o fio de suas ideias, e quando soou a hora da ceia, j á a sua carta se achava concluída. Não querendo porém correr o risco de a deixar exposta segunda vez às tentativas de Alinska; desconfiando tam bém das duas dom ésticas de madame Delm ont, a fechou cuidadosam ente dentro de um pequeno cofre que possuía, o qual foi tam bém encerrar no fundo de um arm ário. Tom ando as chaves, tanto de um com o do outro, saiu do quarto m ais sossegado, bem convencido de que o seu depósito ficava em perfeita segurança. A trovoada continuava com horrível bram ido; a chuva tinha dim inuído, e Germ ana e Janeta, ainda trem iam , trespassadas pelo susto, que delas se apoderara: as crianças, cansadas de esperar pela ceia, dorm iam am bas sobre um sofá, e Helena entretinha-se a ler a viagem a Itália do abade Richard. A chegada de Raul reanim ou as duas criadas, decidindo-as a retirarem -se aos seus respetivos postos; e a ceia, que j á tardava, foi enfim servida.
Pela m eia-noite purificou-se a atm osfera; as nuvens se aglom eraram sobre os outeiros de Lauraguais, e a bonança foi-se gradualm ente espalhando sobre a natureza. Raul tinha visto com algum a satisfação o desarranj o do tem po: sabia que quando a terra se achava m olhada, ficava o passeio interdito por m uitos dias, e esperava portanto, que neste intervalo sobreviesse tal acontecim ento, que rom pesse com pletam ente as relações form adas entre os filhos de seu am o, e a estrangeira: lisonj eava-se até, que um a resposta do coronel destinasse talvez um a nova residência à sua fam ília.
Preocupado com estas ideias, que assaz o torturavam , pouco tem po dorm iu o bravo soldado. Ainda o novo dia não brilhava, j á ele se tinha levantado; e procurando as suas chaves, abriu o arm ário e o cofre, para se apoderar da carta, que sem dem ora desej ava enviar a Tolosa. Encontrou-a às apalpadelas, m as sem poder vê-la, porquanto ainda reinava com pleta escuridão, m eteu-a no bolso do seu gibão, e desceu as escadas do castelo, com o desígnio de cham ar o cam ponês, que tinha designado para seu m ensageiro.
Alguns segundos decorreram , antes de o encontrar: a alva m atutina ia desaparecendo para dar lugar à aurora m uito m ais rosada; seus vivos fulgores principiaram a ilum inar os espaços da natureza, a qual, refrescada pela tem pestade da véspera, se ostentava risonha, com seus adornos radiosos e variados. Foi neste m om ento que o j ornaleiro Mateus se apresentou diante de Raul: este lhe recom endou de se pôr im ediatam ente a cam inho para a cidade, para lançar no correio um a carta da m aior urgência. Ao dar-lhe esta ordem , tirou a carta do asilo que lhe havia destinado; olhou para ela, para exam inar o fecho; m as, oh! surpresa sem igual!... o papel estava todo m anchado de sangue, que m al deixava enxergar o sobrescrito!!!...
Este singular acontecim ento arrancou do peito do desconcertado m ilitar um penetrante grito; apenas podia acreditar o que seus olhos viam ; ficou im óvel, voltando por m il m odos a carta, sem poder habituar-se a tão estranha novidade. Voltou então o bolso do seu gibão; m as nada o m anchava, nenhum sinal ensanguentado se divisava! Tom ando então súbita resolução, voltou ao castelo; e entrando no seu quarto, correu a visitar o cofre, que tinha guardado o escrito fatal; m as nem ali m esm o pôde descobrir vestígio algum que indicasse a existência das provas, que tantas dúvidas causavam ao coraj oso Raul!
Todavia, sem perder um m om ento, apressou-se a escrever um a terceira carta; resum iu-se quanto lhe foi possível, m as nem por isso deixou de ser m ais expressivo; e tão depressa a concluiu, entregou-a ao m ensageiro, a quem , para m ais cautela, quis acom panhar até ultrapassar os lim ites do distrito de Castanet.
Raul era bravo; m as não podia defender-se de um certo receio supersticioso. Recordava-se com susto das narrações, ainda que exageradas, que ouvira na Hungria, quando ali esteve com o seu regim ento, relativam ente ao poderio dos hom ens perversos, que sacrificando sua alm a, não se pej avam de fazer um pacto com o inim igo perpétuo da nossa salvação eterna. Lem brava-se, com terror supersticioso, de quanto lhe contavam a este respeito; e os dois incidentes, que acabava de presenciar, o induziam a recear, que Alinska não tivesse partilhado algum a parte dessa varinha de condão, que, segundo se diz, fora repartida pelo diabo com os habitantes da Hungria!...
Mas estas ridículas ideias pouco tardaram em sair da alm a do soldado.
— Ora vam os! Com o sou louco — dizia ele consigo m esm o, — em acreditar em sem elhantes chocarrices! Que os húngaros as acreditem , não adm ira, porque são uns bárbaros; m as em França, onde o diabo perdeu todos os seus direitos, é na verdade o m aior dos absurdos, a m ais com pleta loucura. Aqueles trabalham para ele, e quem m e assegura que mademoiselle Alinska não sej a tam bém um a hábil feiticeira?... Que tenha contudo cautela com igo: se a colho a com por seus diabólicos ingredientes, eu a aj udarei a rem exer a caldeira!...
Acabando este solilóquio, foi visitar um a velha garrafa de rum , que tinha a um canto da cham iné, a qual o restituiu de todo ao seu estado norm al. Protestou que havia de duplicar a sua vigilância, a fim de descobrir as inteligências, que tanto pareciam favorecer a m isteriosa húngara; e na esperança de receber com brevidade a resposta do coronel; entregou-se de novo às suas tarefas ordinárias.
A profunda solidão em que vivia a fam ília Delm ont, não era tão restrita, que de tem pos a tem pos não fosse interrom pida por algum as visitas, que lhe faziam os habitantes das casas de cam po, que em torno existiam , e que eram sem pre recebidos com aquela afabilidade e cortesia, que tanto caraterizavam Helena: ela os via com prazer, sobretudo, desde que seu m arido se ausentara; tinha precisão de se distrair, e por isso m uito apreciava a convivência dos estrangeiros. Não foi por consequência com surpresa, que naquele m esm o dia, pelas duas horas da tarde, ela vira entrar no seu salão um gentil-hom em do distrito, antigo senhor das águas e florestas dos arredores, e que tinha em igrado, unicam ente para im itar os outros, m as que chegando a dez léguas da fronteira, e lem brando-se que tinha trabalhado quanto lhe era necessário pela glória do seu país, voltara com brevidade, a fim de desfrutar em França aquelas com odidades, de que era tão devoto, e que a Alem anha lhe não oferecia. Graças à sua docilidade, em se resignar com todos os sistem as governativos, ele soube passar vinte anos de revolução, em um a quase perfeita tranquilidade. É verdade, que lhe foi m ister usar tam bém do barrete verm elho, conj untam ente com os j acobinos; aplaudir os atentados de 18 do fructidor, os acontecim entos de 18 brumaire, dado seu voto para o consulado vitalício, assim com o para a elevação ao im pério de Napoleão Bonaparte; reunir aos aliados em 16 de abril de 1814; assinar em garatuj as o célebre ato adicional, e levar a tal ponto seu heroísm o, que até chegou a fazer a m ala para a enviar a Gand, quando a notícia do desastre de Waterloo chegou aos seus ouvidos!
Apesar de todas estas oscilações, o bom gentil-hom em não deixava de falar da devoção que tinha à dinastia de seus legítim os reis, do ódio que a carta consagrava, da pureza de suas afeições cavalheirescas; e se algum m elancólico espírito lhe recordava o fatal barrete, que o adornara, pretendia, com orgulho, que havendo tido o m aior cuidado em escolher um a cor, m enos verm elha, não podia ser arguido com j ustiça de haver usado absolutam ente da libré dos j acobinos.
Este personagem , cuj a índole era a m elhor possível, habitava um a bela casa de cam po no concelho de Mervilla. Passava sua vida pelos cam pos, que lavrava com o seu bordão; era ele m esm o, o seu próprio m onteiro, m ostrando-se sem pre encarniçado inim igo das aves, que perseguia continuam ente às pedradas, com indizível pertinácia! Tinha j antado um a vez, em Tolosa, com o prefeito, e desde então havia-se declarado oposicionista do seu maire: tinha-se tornado o verdugo deste últim o, com suas queixas repetidas, e denúncias sem fundam ento. Pretendia que as suas propriedades fossem sagradas; e sob o im pério do código civil, viam -no sem tréguas, reclam ar a execução das leis do feudalism o. De resto, era um acérrim o visitador, intrépido gastrónom o, bebedor sem igual, não se recusando nunca nem às visitas do castelo, nem às patuscadas do cam po: lia o Eco do meio-dia, sem se exim ir de lançar um golpe de vista sobre o Constitucional, quando encontrava algum de seus núm eros em casa dos assinantes dos arredores.
M. Bernevel, cum prim enteiro fastidioso, assim que se apresentou em casa de madame Delm ont, esgotou todas as frases a que cham ava protocolo da antiga corte. Elogiava tam bém a am enidade do castelo de R ***; a pureza do céu, a fertilidade do solo; deixou escapar algum as insignificantes palavras, relativam ente à negligência das autoridades locais, que não m ultiplicavam as dem andas; queixou-se tam bém das perdas que lhe causavam as m alfazej as pegas, e os daninhos pardais; e depois de haver esgotado todos estes obj etos:
— Então, senhora — continuou ele; — j á sabeis que tendes um a am ável vizinha? digo am ável sem saber o m otivo porquê; porquanto ela m e tem tratado com o m ais inaudito rigor. Tendo sabido, terça-feira passada, pela prim eira vez, de que neste distrito residia um a bela estrangeira, cuj os encantos eram j á apregoados pela voz do público, j ulguei do m eu dever, com o cavalheiro francês, e para lhe dar um a alta ideia da nossa civilidade, fazer-lhe um a visita, que pudesse provar-lhe a viva satisfação que sentia de a ter por vizinha. Ontem pois, negligenciando um a vistoria, que m ando fazer, a fim de calcular a quantidade de am eixas, que os j avalis dom ésticos de um m eu vizinho têm com ido, na m inha tapada, m e resolvi a dirigir-m e à casa do bosque, levando sem pre debaixo do braço o m eu guarda-chuva, por isso que não podem os j á confiar nem do tem po, nem dos hom ens. Chego finalm ente; a porta estava fechada; isso não m e surpreende; cada qual é senhor em sua casa: bato de m anso; abre-se a porta; ia j á para entrar, quando um verdadeiro fantasm a se m e apresenta, para m e tolher o passo. Figurai vós, o m ais alto dos hom ens, e ao m esm o tem po o m ais m agro que até aqui tendes visto: um a fisionom ia de um verdadeiro trapista, olhos de coruj a, um aspeto m ais dum habitante do outro m undo, do que um cidadão deste em que vivem os! A voz áspera e rouquenha, os gestos rudes, o hálito pestilento!...
« Que pretendeis?» m e perguntou ele, sem m e tratar por senhor, com o é costum e.
— Esta brusca e inesperada questão m e surpreendeu algum tanto; todavia, com o não é fácil que um nobre soldado do exército de Condé se perturbe facilm ente: « Sou» , lhe disse eu, « um gentil-hom em da vizinhança, que vem apresentar os seus respeitos a vossa am a, e que pede a honra de falar-lhe» .
Esta resposta, cheia de civilidade, dava-m e todo o direito de esperar, que fosse logo introduzido; m as não aconteceu assim . Este cérbero de nova espécie, sem consideração ao m odo delicado com o lhe havia falado, ostentando a m aior rudeza e grosseria, assim m e disse:
« Não m e é possível dar-vos entrada nesta casa, com o acabais de solicitar: m inha am a, sem pre solitária, não tem sequer um m om ento, que possa consagrar à sociedade. Não veio aqui para ser visitada, e não colheríeis m elhor resultado, se porventura vos apresentásseis segunda vez a esta porta.»
Assim falou o grosseiro personagem ; e sem esperar a m inha réplica, recuou um passo, pondo ante m im e ele a barreira da porta, que m e fechou na cara, com a m aior insolência! Não tenho expressões com que possa descrever-vos a m inha indignação; retirei-m e despeitoso, e tenciono visitar todos os m eus vizinhos, para os prevenir da sorte que os aguarda, se porventura se lem brarem de querer desem penhar, com o eu quis, os deveres da civilidade e da delicadeza.
Esta narração divertiu m uito madame Delm ont, que protestava de se não expor a um a sem elhante receção, ainda que m uito desej o tinha de conhecer a m isteriosa estrangeira. Ela se lisonj eava de ter a felicidade de a encontrar em algum dos passeios, que costum ava dar com seus filhos, sem contudo deixar de censurar a grosseria do criado, aj untando, com graça, que M. Bérneval lhe era, provavelm ente, desconhecido; porquanto, não podia persuadir-se, que se assim não fosse, não deixaria ele de tributar-lhe os respeitos e atenções que lhe são devidas.
Este gracioso cum prim ento, quase que consolou o antigo senhor das águas e florestas: para esquecer de algum m odo o contratem po que tivera, ele passou logo a entreter-se de notícias políticas, que naquele tem po eram assaz transcendentes para ocupar seriam ente o espírito dos franceses. Madame Delm ont sabia m uito bem , que a este respeito bastava dar largas à sua verbosidade, para o lisonj ear. De tudo tinha perfeito conhecim ento; os segredos das cortes lhe eram conhecidos; era ele quem dirigia as intrigas diplom áticas; era ele quem , a seu grado, organizava os m inistérios; o que naquela época era fácil, sem que para isso se fosse taxado de feiticeiro, ou visionário...
Havendo esgotado tão vasto assunto, ocupou-se das notícias locais; referiu a tabela dos últim os preços correntes do m ercado de Tolosa; assegurou, que se lhe não dessem com brevidade um curato, ia sair do distrito; queixou-se da insolência dos caçadores clandestinos que lhe m atavam as suas lebres, sem lhe esquecer as vantagens que esperava colher da cultura de um cam po que m andara arrotear. Toda esta narração foi escutada com um a aparência de interesse, que m uito o deleitava. Despediu-se de madame Delm ont, encantado de suas m aneiras, correndo dali a casa de um visconde, seu vizinho, para fazer o devido elogio daquela dam a.
— Muito bem — lhe respondeu o fidalgo; — m as a que fam ília pertence? Naturalm ente, tanto ela, com o seu m arido hão de ser dessa gente da revolução!... desses que ainda não entraram nas carruagens do rei, e que por consequência não passam de honrados plebeus; o que para falar a verdade, pouco vale entre nós!...