A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro
Indrodução
Introdução
O quadro das m uitas superstições, que ainda se toleram em diversas partes da Europa, não deixará por certo de dar vasto assunto à pública curiosidade. É principalm ente na Hungria, na Morávia, no Épiro, e nas ilhas da Grécia, onde se acham m ais arreigadas estas crenças ridículas: ali se acredita com cegueira obstinada nos vampiros, nesses entes m isteriosos, que, não pertencendo, nem à m orte, nem à vida, se acham contudo ligados a um a e a outra; a esses canibais do sepulcro, que possuídos dum infernal apetite, que antes não tinham , se deleitam em sorver o sangue hum ano, para contentar a horrível sede que os devora, e para trazer m esm o ao seio de suas próprias fam ílias o terror e a desolação!
Os vampiros, segundo aquelas crenças, são conhecidos desde a m ais rem ota antiguidade: não foi decerto nas épocas m odernas que se inventaram .
Os antigos, para satisfazerem o apetite dos m ortos, colocavam nos cem itérios quantidade de m esas, cobertas de diversos m anj ares, e de vinhos esquisitos: grande núm ero de autores gregos e latinos o confirm a. Os prim eiros cristãos ainda conservaram por m uito tem po esta ridícula usança, que Santa Mónica, m ãe do célebre bispo de Hipona, ainda quis (depois da m orte de seu filho) propagar pela Itália. Tertuliano, no seu tratado de Resurrectio. Initio, censura asperam ente os pagãos por acreditarem , que os m ortos tinham precisão de com er. É indubitável, que ainda hoj e se encontram nas escavações dos antigos j azigos, onde descansavam os idólatras, e os m esm os cristãos da antiga igrej a, diversos vasos de porcelana, ou de vidro, contendo as ossadas de alguns quadrúpedes e de diferentes aves, que sem dúvida tinham sido oferecidas aos finados, para seu regalo!
Essa opinião supersticiosa, de que m uitos cadáveres conservavam ainda algum a porção da sua existência, data por consequência de tem pos m uito rem otos: ainda hoj e, em quase todos os povos do m undo, se acha ela m ais ou m enos inveterada; contou, e ainda conta entre elevados personagens, num erosos partidários, que pretendem apoiar-se em quantidade de ótim os docum entos, que (dizem eles) se acham revestidos de todos os carateres de autenticidade!
Perm ita-se-lhes m uito em bora que assim o acreditem ; m as o certo é, que o núm ero dos incrédulos é m uito m ais considerável.
Entre os m ais célebres vampiros, que apareceram nos prim eiros tem pos da religião revelada, o m ais conhecido, ou para dizer m elhor, a m ais conhecida, porque era um a m ulher, foi aquele de quem Flégon nos oferece a extravagante história no seu tratado das Coisas maravilhosas.
Pretende ele que em Trallés, na Ásia, abandonara um a rapariga a sua derradeira m orada, para vir passar todos as noites com Machates, seu am ante; que este trato continuara até ao m om ento em que sua m ãe a surpreendera: foi então que caindo por terra, havendo-lhe reprochado a ventura que perdia por causa da sua aparição, soltou definitivam ente o últim o suspiro! Correram logo ao m ausoléu, onde a tinham encerrado; estava vazio; m as acharam dentro um a taça de ouro e um anel de ferro, que Machates tinha dado a Filinniun na véspera do seu trespasse! Flégon pretende ter sido testem unha ocular dum tão extraordinário acontecim ento; e ainda que depois o escrevesse para oferecer ao im perador Adriano, nós não podem os adm iti-lo sem o m ais profundo exam e.
Em tem pos m ais m odernos, tam bém se pretendeu certificar a existência dos vampiros. Eis aqui alguns exem plos que D. Calm et nos oferece, a este respeito, no seu tratado das Aparições e Duendes, que tanto têm assolado a supersticiosa Hungria.
« No princípio do m ês de setem bro de 1737, faleceu na vila de Kilílova, a três léguas de Gradiska, um velho de sessenta e dois anos de idade. Três dias, depois de ser enterrado, apareceu um a noite a seu filho, pedindo-lhe de com er; e obedecendo-lhe este, ainda que horrorizado, viu-o desaparecer logo que concluiu a sua com ida! No seguinte dia contou o filho aos vizinhos, o que lhe acontecera: nessa noite não tornou o pai a aparecer; m as na seguinte, apresentou-se-lhe de novo, pedindo-lhe satisfizesse outra vez o seu apetite! Ignora-se se o filho lhe obedeceu ou não; m as o certo é, que no dia seguinte foram encontrar o infeliz m orto na sua cam a, caindo ao m esm o tem po m ais cinco ou seis pessoas gravem ente enferm as, que todas m orreram pouco tem po depois! O oficial ou balio do lugar, sendo inform ado deste desastroso sucesso, o com unicou im ediatam ente ao tribunal de Belgrado, que lhe m andou logo dois oficiais e um carrasco para investigarem sobre o facto. Procederam à abertura dos túm ulos, daquelas pessoas, que neles tinham sido recentem ente enterradas. Quando chegaram ao do velho, encontraram -no com os olhos abertos, averm elhado, com a respiração natural, m as, sem m ovim ento algum ; o que lhes fez acreditar que era um assinalado vampiro! O carrasco enterrou-lhe aguda estaca no coração; fez-se um a fogueira, e nela reduziram a cinzas o hediondo cadáver...»
« Em 1729 ou 1730, um certo soldado húngaro, habitante de Medreiga, foi esm agado por um a carrada de feno. Trinta dias depois da sua m orte, faleceram de súbito quatro pessoas, com todos os sinais (segundo pretendiam os m oradores daquele lugar) de haverem sido cruelm ente m olestadas pelos vampiros! Lem braram -se então, que Arnold Paul (o m esm o de quem acim a falám os), contava m uitas vezes, que nos subúrbios da Cassoura, sobre as fronteiras da Sérvia turca, fora tam bém atorm entado por um vampiro turco (acreditam igualm ente aqueles povos, que as pessoas, que durante a vida são vampiros pacíficos, se tornam em ativos depois da m orte; isto é, que aqueles que chuparam algum a coisa enquanto vivos, ainda pretendem chupar depois de m ortos!); m as, dizia o tal Arnold, que achara um rem édio infalível para se curar, que consistia em com er um a porção de terra, pertencente ao sepulcro onde o vampiro fora enterrado, untando-se, ao m esm o tem po, com o sangue do m onstro; todavia esta precaução não pôde livrá-lo de que, sendo exum ado, quarenta dias depois da sua m orte, se descobrissem sobre seu cadáver todos os sintom as dum arquivampiro! O seu corpo estava purpurino; seus cabelos, unhas e barba tinham -se renovado; e suas veias estavam prenhes de um sangue fluido, que gotej ava de todos os seus m em bros sobre o lençol em que estava am ortalhado! O hadnagy ou balio do lugar, na presença do qual se fazia a exum ação, e que era experim entado na arte do vampirismo, m andou se cravasse no coração do defunto Arnold Paul, com o era costum e, um a aguçada estaca, que o trespassou de lado a lado, e que (segundo dizia aquela pobre gente) o fizera soltar espantoso grito, com o se realm ente tivesse vida... Concluída esta operação, deceparam -lhe a cabeça, e reduziram tudo a cinzas!...»
« Em 1813, um soldado que se achava aquartelado em casa de um paisano haldamaque, na fronteira da Hungria, pretende que vira entrar, na ocasião em que se achava à m esa com o patrão, um desconhecido, o qual se assentou j unto a ele, principiando tam bém a com er sem a m enor cerim ónia! O dono da casa ficou aterrado, assim com o as m ais pessoas que se achavam presentes. O soldado estava com o interdito, ignorando a causa de tanta confusão; m as, havendo falecido no seguinte dia o m esm o dono da casa, soube o soldado que o desconhecido, que se assentara ao lado deste, era seu pai, que tinha sido enterrado havia dez anos, sendo ele quem causara a m orte de seu filho!
O soldado espalhou logo esta notícia pelo regim ento, a qual chegou pouco depois aos ouvidos do general, que ordenou ao conde de Cabreras, capitão do regim ento de infantaria de Alandetti, para o inform ar circunstanciadam ente sobre o facto. Transportando-se pois este oficial sobre o sítio indicado, em com panhia de outros cam aradas, de um cirurgião, e de um auditor, trataram logo de colher o depoim ento de todas as pessoas da fam ília, que unânim es atestaram , que o ressuscitado era com efeito pai do dono da casa, e que tudo quanto dissera o soldado era verdade!
Em consequência fizeram desenterrar o corpo deste espetro; encontraram -no com o um hom em que acabava de expirar, e seu sangue com o se ainda estivesse vivo! O conde de Cabreras fez-lhe cortar a cabeça, e ordenou que assim tornasse a ser enterrado! Fez depois o seu relatório ao general: este o transm itiu à corte do im perador, o qual ordenou que se enviassem logo àquele lugar oficiais de guerra, de j ustiça, m édicos, cirurgiões, e alguns sábios, a fim de exam inarem com toda a atenção as causas de tão extraordinários acontecim entos.»
Porém todos esses vampiros de quem tem os falado, devem ceder a palm a a outro, de quem o venerável D. Calm et, nos transm itiu os m alefícios, e sobretudo a insolência. Term inarem os pois narrando a sua história.
« Um pastor da aldeia de Blou j unto à vila de Shadan, na Boém ia, apareceu durante algum tem po depois da sua m orte: falou com diversas pessoas, que nenhum a delas viveu m ais de oito dias! Os cam poneses de Blou desenterraram o corpo deste pastor, e por m eio de um a estaca com que o passaram de lado a lado, o cravaram sobre a terra; m as ele zom bava daqueles que assim o tratavam , dizendo-lhes, que m uita m ercê lhe faziam em lhe dar um a estaca para com ela se defender dos anim ais que o perseguissem ! Nessa m esm a noite tornou a levantar-se; atem orizou m uitas pessoas, sufocando ainda m uito m aior núm ero delas, do que até ali havia feito! Entregaram -no depois ao carrasco, que o colocou sobre um carro para ser conduzido fora do lugar, onde deveria ser queim ado. O cadáver berrava com fúria infernal; estrebuchava com pés e m ãos, com o se ainda estivera vivo!... Quando de novo o trespassaram com agudas estacas, soltou terrível grito, derram ando abundância de denegrido sangue!... As cham as o consum iram finalm ente, e esta terrível execução pôs term o às aparições do m edonho espetro!»
Eis aqui m ais do que seria necessário para instruir os leitores de que os vampiros, a que tam bém cham am excomungados, lobisomens, duendes, etc., têm representado, e continuam talvez a representar, entre os povos supersticiosos, im portantes cenas. Desgraçadam ente os séculos m ais esclarecidos ainda não puderam banir de todo o fanatism o e a superstição. O espírito hum ano é sem pre o m esm o; um as vezes nega a existência de um obj eto, outras o acredita e reverencia; cético, a respeito dos principais dogm as da religião, acredita cegam ente nas extravagâncias da astrologia, nas peloticas dos charlatães, e na infalibilidade da buena-dicha. Tudo se confunde dentro de nossos cérebros, adm irável recetáculo de quanto existe de m ais contraditório, assim com o das conceções as m ais extravagantes!
É sobretudo nos cam pos, onde se depara grande núm ero de crédulos, sem pre dispostos a abraçar quanto lhes parece sair das verdadeiras regras da natureza. A sim plicidade da rústica existência dos aldeões parece suscitar-lhes a necessidade de lançar a sua im aginação no m eio desse oceano sem lim ites, de quanto há de m ais fantástico e m aravilhoso. Deleitam -se em sim ples quim eras, ouvindo a narração de contos terríveis e fabulosos!
Ostentam grande som a de práticas supersticiosas, nas quais encontram a sua consolação e o seu apoio! Povoam os velhos castelos, as fundas cavernas, as florestas solitárias, os escarpados rochedos, dum a m ultidão de fantasm as, de génios, de fadas, de feiticeiros, e de m ágicos, que fazem m over a seu bel-prazer, e pelos quais sabem explicar, todos os acontecim entos, e todas as coisas, que eles m esm os não são capazes de definir. É por isso, que entre eles se acolhem com m ais avidez as narrações em que figuram as alm as do outro m undo, e outras inteligências superiores à hum anidade! Os vampiros, por exem plo, nunca quiseram habitar as grandes cidades, ou outros lugares em que resida a alta sociedade; isto é, aqueles que possuem m aior instrução e m ais vastos conhecim entos; buscam pelo contrário os países m ais selvagens e ignorantes, ou as aldeias m ais rem otas e m iseráveis. É só ali, onde podem fazer afoitam ente as suas excursões, sem receio de serem desm ascarados; é ali que sabem intim idar os espíritos fracos e pusilânim es; e é por este m odo que conseguem iludir os hom ens, que se fossem m ais instruídos, repeliriam com indignação suas ridículas im posturas; m as, desgraçadam ente, para satisfazer certos interesses, convém que estes prej uízos ainda se tolerem !...
E porque não acreditarem os nós tam bém na existência dos vampiros? Porventura não foram eles acreditados por tantos personagens distintos? D. Calm et, por exem plo, não se com prazia em com provar a sua existência?... É verdade que Voltaire o escarneceu; e nós, costum ados a im itar as m acaquices dos estrangeiros, adotám os cegam ente a opinião deste fam oso escritor! Rim o-nos dos vampiros; e o m esm o lord By ron não pôde m udar a nossa opinião a este respeito!... Pois bem , caro leitor, não receam os dizê-lo, o autor de Mérope não tinha razão; o frade beneditino havia profundado m ais esta m atéria; nós nos lisonj eam os de assim o provar, cham ando unicam ente a vossa atenção para o que na época atual se passa entre nós.
Não são porventura vampiros puritanos, insaciáveis do nosso sangue, esses fam osos conquistadores, ruína das nações, flagelo da hum anidade? Não deparam os a cada passo com hom ens ávidos de nossas fadigas e suor, que ainda acham m uito ligeiro o peso enorm e com que nos esm agam ?
Julgais vós, que esses m iseráveis, que correm pelas vilas e aldeias, vexando os desgraçados habitantes, com suas inj ustiças e m aus tratos, não sej am verdadeiros vampiros? E aquele que se acha colocado em lugar em inente, e que deparando no m eio da sua carreira com a virtude oprim ida, com a inocência abandonada, as esm aga debaixo de seus corcéis, as sufoca com o peso do ouro que o adorna, não será tam bém um vampiro... um infam e?...
Julgais acaso, que o banqueiro, que alim enta um a casa de j ogo, onde se absorvem tantas fortunas, onde se perdem tão m eritórias reputações, não figura na lista dos principais vampiros?
No centro das m ais opulentas capitais, nos lugares m ais obscuros, quer de noite, quer de dia, não encontram os nós m uitos vampiros que, cobertos com a m áscara sedutora da hipocrisia, ocultam um coração perverso, palpitante dos vícios e das inclinações m ais abj etas?... Serão estes outra coisa m ais do que vampiros, verdadeira escória da sociedade?
Finalm ente por toda a parte não vem os m ais do que vampiros: encontram -se adornados com as vestes venerandas do sacerdócio, com a toga do m agistrado, com a brilhante farda do m ilitar, e com a charpa respeitável do com ando!... O seu m aior núm ero avulta entre os fornecedores, e os grandes em presários; entre os agentes da j ustiça, entre os agiotas, e até m esm o entre os facultativos!...