A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro

Étienne-Léon de Lamothe-Langon · Capítulo 20 de 25

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A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro

Capítulo XIX

 

Ao alm oço com pareceu Alinska, com o de ordinário. A placidez de seu rosto, a expressão indiferente de seus olhares, não deram lugar a madame Delm ont, a conj eturar a resolução que a sua hóspede havia tom ado. O m esm o coronel quase se chegou a iludir: a chegada de Alinska causou-lhe a m ais grata surpresa. Receava que tivesse realizado j á a sua retirada, e concebeu a esperança, que talvez ela a tivesse procrastinado, se porventura a não houvesse renunciado com pletam ente. Parecia sem pre a m esm a; falou de algum as obras, que pretendia fazer; ninguém im aginaria a conversação que tivera com Delm ont na noite antecedente. Entrou depois para o salão, assentou-se ao bastidor, e trabalhou, segundo seu costum e, com a m aior atenção. Neste com enos, apresentando-se no castelo um aldeão em procura de Mr. Delm ont, este teve que retirar-se ao seu quarto, onde costum ava tratar os seus negócios. Assim que se retirou, levantou-se Alinska, e saiu tam bém do salão, com o dirigindo-se à sua c â m a r a . Madame Delm ont sabia quanto lhe eram desagradáveis as m ais insignificantes questões, que se lhe dirigiam ; e por isso nada se atreveu a perguntar-lhe.

Decorreu um a hora, sem que a húngara voltasse. Quando Eduardo tornou, perguntou a sua m ulher, aonde ela tinha ido.

— Saiu logo que vos retirastes, m eu am igo: j ulguei que iria buscar alguns novelos de lã, que lhe faltassem para o seu bordado; m as se assim fosse, há m uito que teria voltado.

Esta sim ples, e tão natural resposta, causou vivo sobressalto àquele que a escutava. Pareceu-lhe que o proj eto se tinha realizado; convenceu-se de quanto era néscio, em acreditar que Alinska tivesse adiado esse m esm o proj eto; porquanto não duvidava, que ela tivesse saído do castelo. Contudo, querendo sim ular a sua com oção, j ulgou oportuno afetar um a indiferença, que seu coração decerto não gozava. A confirm ação do que tanto receava, não tardou m uito tem po! Depois dum breve intervalo, o novo criado que substituíra o infeliz Raul, se apresentou no salão, trazendo um a carta, que entregou a madame Delm ont: era de Alinska, e era aquela a prim eira vez que se viam letras suas! Eis aqui o conteúdo desta carta:

 

« É m eu dever, senhora, pedir-vos desculpa pela m aneira, talvez incivil, com que m e separo de vós. Voltei a ocupar a m inha prim eira habitação, envergonhada de vos ter incom odado tanto tem po, e cheia de reconhecim ento pela sum a bondade, com que sem pre m e tratastes. Porque m e não será possível poder dar-vos irrefragáveis provas da m inha gratidão? Um a fatalidade, sem exem plo, m e im pele sem pre a operar contra a m inha própria vontade: esta circunstância é para m im um constante, um terrível suplício! Não encontrei em vós senão a m ais perfeita e acrisolada bondade; e contudo será necessário... perdoai o m eu desvario, que m e não deixa pleno exercício às m inhas faculdades m orais. Ignoro quais sej am m eus desej os; m as m ortifica-m e o conhecim ento do poder que tenho! Bem quisera continuar a residir no vosso castelo; m as seria necessário resignar-m e a ver continuam ente um hom em , cuj os sentim entos, a m eu respeito, m e obrigavam a evitar. Seria inj usto pretender privar-vos de suas visitas: era portanto necessário, que eu tom asse o m eu partido. Eis-m e pois em m inha casa; nela tornei a entrar, com a m esm a tendência, que antes tinha, para gozar da m ais profunda solidão: não interrom perei decerto esta solidão, sem que m e sej a perm itido, livre de im portunos, ir pessoalm ente m anifestar-vos os sentim entos de estim a e de gratidão, que por este m odo hoj e vos envio.»

 

Em seguida das frases, que acabam os de transcrever, e que eram assinadas pelo sim ples nom e de Alinska, liam -se tam bém algum as palavras de civilidade para o coronel.

— Na verdade — disse madame Delm ont, — depois de haver lido esta carta em voz alta; eis aqui um m odo bem singular de se despedir de nós! Tudo que diz respeito a esta m ulher, é com efeito assaz extraordinário e m isterioso! Quem poderá com preender, que no m eio do inverno, num a casa de novo construida, cuj o estuque ainda conserva suas em anações m aléficas, vá um a m ulher isolar-se, unicam ente para evitar um hom em , a quem um a sim ples palavra bastaria, para nunca m ais a im portunar!?

Delm ont quis balbuciar um a resposta que parecesse indiferente, e m uito lhe custou a consegui-lo. Madame Delm ont, preocupada com a sua prim eira ideia, não reparou no desconcerto de seu m arido; tocou a cam painha para cham ar Germ ana. Quando esta chegou, apressou-se logo em lhe com unicar o que ela m esm a j á sabia: acrescentou contudo, que conj untam ente com a carta tinha chegado ao castelo um a carreta, para conduzir os obj etos pertencentes à estrangeira. O coronel determ inou que os entregassem sem dem ora; e satisfeito de achar um pretexto para se restabelecer do abalo que sentia, saiu da sala com o fim de ir presidir à entrega dos obj etos que a húngara reclam ava. Então pôde respirar m ais livrem ente, e enquanto seu corpo ali existia, sua alm a e seus pensam entos vagueavam pelos espaços im aginários.

A inopinada partida de Alinska tornou-se um novo alim ento para a curiosidade dos habitantes do distrito. M. Bérneval, que por certo não am ava aquela bela criatura, foi o prim eiro a espalhar m alignos boatos sobre o m otivo que ocasionara esta separação. A m aldade dos hom ens, quando ela se dirige a um fim determ inado, bate a tantas portas, até que descobre o verdadeiro m otivo que até ali vagam ente designara! Foi em consequência desta m archa regular de todas as coisas, que os faladores da vizinhança atribuíam o acontecim ento que acabám os de referir, a um ciúm e de madame Delm ont, que se houvesse declarado. Estes rum ores não passavam dos criados do castelo; felizm ente não chegaram aos ouvidos dos am os: apenas o doutor teve deles conhecim ento, e conquanto favoravelm ente disposto a j ulgar o coronel, ainda se achava m uito possuído do seu am or próprio, para acolher com indiferença um a tal com unicação. Recordava-se de grande núm ero de particularidades, às quais pouco reparo tinha dado, e que naquela ocasião lhe m inistravam grande fusão de esclarecim entos; m as com o hom em , ele se exim ia de os franquear aos indiscretos; preferia antes explicar-se francam ente com o coronel, na prim eira ocasião oportuna que se lhe oferecesse.

Nesta m esm a época, a saúde de madame Delm ont parecia alterar-se sensivelm ente. O seu coração, sem pre despedaçado pela m orte do infeliz Eugénio, havia sem dúvida reconcentrado em seu seio a m ais forte porção da sua dor. Esta cruel circunstância, corrom pendo as fontes da sua existência, ia definhando visivelm ente aquele todo: experim entava sobretudo um a extrem a dificuldade em respirar; perdia as suas forças, e caía num m arasm o, que deveria conduzi-la ao sepulcro.

O doutor, na verdade hom em de elevado m érito, estudava com perspicácia os sintom as dum a enferm idade, que se apresentava debaixo do m esm o aspeto, que aquela, cuj os resultados fizeram sucum bir o filho de madame Delm ont. Um extrem o desalento, um a contínua carência de sustento; ligeiros e contínuos suores; tudo isto se reproduzia nela de igual m aneira. Helena, sem conhecer o perigo de que era am eaçada, tornava-se triste e m elancólica; buscava cada vez m ais a com panhia de seu esposo; parecia am á-lo com m ais veem ência, nesse m esm o m om ento em que pressentia que ia para sem pre separar-se dele!... Delm ont, pela sua parte, estava bem longe de acreditar um perigo im inente. Preocupado pelo procedim ento de Alinska, sentindo com horror que esta j ovem criatura tom ava de novo sobre ele um ascendente, cuj as consequências tanto receava, bem desej ava esquivar-se a si m esm o, e não profundar tudo quanto em sua alm a se passava.

Um as vezes ele se regozij ava com a ausência de Alinska, lisonj eando-se, que por este m odo lhe assegurasse a sua tranquilidade; outras desej ava com ardor, que ela voltasse: afigurava-se-lhe, que desde o dia da sua partida se havia tornado aquele castelo na m ais vasta e m edonha solidão. Entrava am iúde no aposento que a estrangeira havia ocupado; im aginava que ainda a via; assentava-se no m esm o sofá onde ela se assentava; agitava as cortinas do leito que lhe servia de repouso; e lançando m elancólico olhar sobre todos os m óveis que guarneciam aquele saudoso asilo, parecia contem plar ainda na sua im aginação aquela que o habitara!... Vãs quim eras por certo eram estas que seu coração, tão vivam ente torturado, lhe suscitava!

Mais de um a vez um nobre sentim ento despertava neste hom em fascinado as verdadeiras conveniências de seus deveres. Então, envergonhando-se de sua fraqueza, repelindo um delírio que o desonrava, ia buscar j unto de sua esposa e de sua filha, outras ideias m ais puras e m ais razoáveis. Interrogava-se a si m esm o, se porventura não era Helena a m esm a m ulher, que pelo espaço de tantos anos havia feito a sua ventura; esquadrinhava na sua consciência qual era a falta que ela com etera; m as nada encontrava em sua conduta, que desm entisse as belas qualidades que possuía. Ainda ostentava os m esm os atrativos que outrora o seduziram , e de cuj o triunfo tanto se orgulhava. Nestas ocasiões, a im agem de Alinska dim inuía o seu prestígio; ela desaparecia quase de todo da sua presença; apenas se lhe oferecia com o nuvem vaporosa, que gradualm ente se ia dissolvendo; m as estes m om entos em que a razão lhe bradava, eram m uito raros, e rapidam ente substituídos por essas ideias extravagantes e crim inosas que quase sem pre o em briagavam ! Alinska, revestida desse m ágico prestígio, que sem pre descobrim os em qualquer obj eto que desej am os, vinha de novo vitoriar-se, sobre um coração que, m au grado seu, a tinha banido. Eduardo, para se desculpar com a sua consciência, observava que aquela bela criatura fora o seu prim eiro am or; que tinha sido por um j uram ento anterior e solene, que se havia abandonado a ela; que laços indissolúveis os haviam prendido, e que aqueles, contraídos depois, não podiam ser tão fortes com o os prim eiros! Cedendo então ao im pulso de sua paixão renascente, reforçada pela im petuosidade que lhe davam os obstáculos que a com batiam , bradava o louco por Alinska; cham ava-lhe a sua querida am ante, e depois caía gradualm ente num a espécie de apatia e de quebrantam ento, dos quais não podia triunfar sem se cobrir de pej o e de vergonha!

Estes com bates, m il vezes repetidos, iam carcom endo sua alm a pusilânim e. Estava em perm anente oposição consigo m esm o, e procurava dissim ular esta perturbação interior; m as no rem anso da noite, ou quando se desviava para longe do castelo, e se via sozinho no m eio de ressequido bosque, era então que ele se abandonava às suas m editações, e que experim entava a violência de seus pensam entos! Dir-se-ia, vendo-o em tão crua lida, que, a m aneira do Lúcifer de Milton, se arroj ava a insultar a m aj estade do m esm o sol.

Alguns dias deslizaram nesta cruel Alternativa. Madame Delm ont sofria cada vez m ais: não tinha podido, com o tanto desej ava, ir visitar a estrangeira; e esta sem pre solitária tam bém não tinha voltado ao castelo: contentava-se de se inform ar de tem pos a tem pos do estado de saúde da sua am iga. Mélervant pelo contrário com parecia frequentes vezes: procurava a ocasião, com o j á dissem os, de se entreter com o coronel, e ao m esm o tem po prestava todos os desvelos da sua arte a madame Delm ont, que parecia declinar dum a m aneira espantosa; m ultiplicava as suas perguntas, a fim de conhecer a causa originária do seu m al; e as respostas que recebia, estavam longe, por sua am biguidade, de o satisfazerem . Delm ont, perfeitam ente de acordo a este respeito, instava com sua m ulher para que se recordasse bem de quanto havia feito, que pudesse deteriorar a sua saúde.

— De nada m e recordo — disse ela. — Ignoro o verdadeiro m otivo do m eu padecer. Vereis, m eu am igo, que hei de sucum bir do m esm o m odo que m eu filho sucum biu, e no m eio de algum a catástrofe igual à sua...

— Que dizeis, senhora? — exclam ou o doutor, interrom pendo-a — O m al que sofreis não tem relação algum a com o de vosso filho. Guardai-vos sobretudo de vos fam iliarizardes com tão terrível ideia; ela seria bastante para vos perder.

Madame Delm ont, longe de parecer desiludida, respondeu com m elancólico sorriso, que era suficiente para inculcar quanto se achava afetado o seu m oral:

— Conheço que desej ais iludir-m e; pareceria louca se quisesse explicar-vos quanto sinto; todavia, posso assegurar-vos que m e não engano; conheço o que sou, e sei qual é o m al que m e oprim e.

— Esse discurso, senhora — replicou Mélervant, — nos adverte que ocultais algum a causa de que pretendeis fazer-nos m istério. Não fazeis bem : um a tal resolução pode trazer consigo terríveis consequências. Que nada vos contenha, senhora; persuadi-vos que a fraqueza hum ana, tendo subido ao seu m aior auge, não deve parecer ridícula nas com binações extravagantes que nos oferece, sobretudo quando as enferm idades enfraquecem nossa alm a, e a despoj am de toda a sua energia. Qualquer que sej a a ideia que vos aterra, a ilusão que vos ofusca, vós fareis um grande serviço a vós m esm a, declarando-nos toda a verdade; talvez m e m inistreis os m eios de poder restituir-vos a saúde: que saibam os enfim se é o vosso corpo que sofre, ou a vossa im aginação.

Helena recusou-se por m uito tem po a dar a conhecer a opinião que form ava do estado em que se sentia. Delm ont, profundam ente com ovido, observando que ela cada vez m ais se deteriorava, j untou suas instâncias às do doutor; e tão eficazes foram elas, que não se atrevendo Helena a resistir-lhes por m ais tem po, lhes declarou, que um a singular ideia a m ortificava sem cessar; protestando ao m esm o tem po, que j am ais lhe seria possível explicar-se senão a seu m arido; e assim m esm o, debaixo da expressa condição, que ele não zom basse da sua singeleza.

Ainda que este mezzo-termine, não satisfizesse m uito a M. Mélervant, forçoso lhe foi resignar-se. Retirou-se logo, prom etendo ao m esm o tem po que j am ais questionaria o coronel sobre o que madame Delm ont lhe ia confiar, e que só viria no seguinte dia.

Quando Helena ficou a sós com seu m arido, cobriu o rosto com suas m ãos, parecendo tem er a interrogação que ele lhe faria: ele tam bém parecia vacilante, receando que sua m ulher lhe declarasse que tinha conhecim ento, ou de seus passados am ores com a húngara, ou da cham a desgraçada, que circunstâncias fatais tinham de novo acendido. Era contudo necessário que ele tom asse a palavra; e exprim indo-se com voz alterada, perguntou a sua esposa, se com efeito queria depositar em seu seio a confidência prom etida.

— Ah Delm ont! — lhe disse ela — Com o poderei decidir-m e a confiar-vos tão extravagante obj eto? De que m odo m e tratareis vós, quando ouvirdes o segredo da m inha loucura?

— Sem pre com a m esm a am izade, querida m inha; porquanto não posso acreditar, que no m eio de vossas m ágoas duvideis um só m om ento da m inha ternura e inteira devoção.

— E por que m otivo duvidaria eu no vosso afeto, Eduardo? Não, os m eus desgostos não nascem de sem elhante dúvida; seria eu m uito inj usta, se o pudesse conceber. Vej o-m e perseguida por um a visão odiosa!... Oh! quanto não vou parecer ridícula a vossos olhos!

— Não, não, Helena, não o receeis — lhe respondeu Delm ont, possuído de entranhável satisfação, com a certeza de que não era a respeito da sua conduta que ela ia tratar.

— Pois bem ! m eu am igo; ou sej a fraqueza ou superstição, ou qualquer outra coisa, afigura-se-m e, que no decurso da noite um terrível dem ónio m e persegue; um m onstro, que deitado sobre o m eu coração, aspira com sua boca infernal o sangue que circula em m inhas veias; um vampiro finalm ente é quem m e atorm enta!... Não o duvideis; sim , foi ele que causou tam bém a m orte de m eu filho, assim com o de um a j ovem cam ponesa deste distrito!...

— Falais seriam ente, Helena? Acaso pretendeis gracej ar com igo?

— Já sabia, Delm ont, que m e havíeis escarnecer; que assim responderíeis à m inha confidência; m as pouco m e im porta o que podeis pensar, quando tenho a fatal certeza da obsessão de que m e queixo. Não é um sonho periódico que m e oprim e todas as noites; o agudo farpão que sinto trespassar-m e as entranhas, o peso do ente que parece esm agar-m e, perturbam sem cessar o m eu repouso; m as um a potência superior reprim e todos os m eus m ovim entos, fecha as m inhas pálpebras, e resiste aos esforços que faço para lhe escapar. Grito debalde; as vozes expiram antes de chegar a m eus lábios; sinto-m e desfalecer; a substância da m inha vida desaparece gradualm ente: terríveis pesadelos m e atorm entam , depois que o espírito m aligno m e abandona; conheço quanto m e haveis de lastim ar, o conceito que form areis da m inha razão; a tudo isso responderei apenas o seguinte: tenho a convicção daquilo que digo; a m inha enferm idade continua a ser desconhecida, ao passo que vai fazendo rápidos progressos.

— Quanto m ais m e falais, Helena, tanto m ais recresce a m inha adm iração. Não sei que possa dizer-vos sobre tão extraordinário obj eto. Não vedes, que sois o j oguete dum a triste ilusão? O vosso sangue agitado vos referve nas veias; as vossas digestões são penosas; os pesadelos, cuj os efeitos conheceis, são o principal m otor da vossa languidez; eis aqui tudo! Não aj unteis aos pesares verdadeiros que sofreis, os de um a im aginação enferm a, m il vezes m ais terríveis. Não m e cansarei em vos provar a im possibilidade, de que os vossos receios se realizem . A Providência j am ais perm itiu, que as leis da natureza fossem invertidas de um m odo tão absurdo: quase que é blasfem ar contra ela, o acreditar em sem elhantes horrores. Careceis de distrações; estes lugares j á vos não convêm ; é m ister partirm os m esm o am anhã para Tolosa, onde nos fixarem os até que se verifique o vosso com pleto restabelecim ento.

— Não, Eduardo, não consentirei em abandonar este castelo. Peço-vos que continueis a residir nele: um a coisa, m uito cara ao m eu coração, a ele m e prende.

— Ele só pode recordar-vos o m ais fatal acontecim ento; não foi o vosso berço; vam os antes viver em Ly on, na vossa pátria, enfim onde vós m esm a escolherdes. É m ister que o espetáculo de novos obj etos vos faça olvidar aqueles que vos inspiram a m ais fera m elancolia.

— Não sairei daqui; se fosse para outra terra, não poderiam depositar m eus restos m ortais j unto aos do m eu pobre Eugénio!...

Esta enternecedora réplica, que foi acom panhada de abundantes lágrim as, despedaçou o coração de Delm ont. Vivam ente com ovido, tam bém o seu pranto veio m isturar-se ao de sua esposa! Mas nem por isso se rendeu aos seus desej os: alegou os m otivos m ais poderosos para a decidir a sair do castelo; e à força de rogos, obteve enfim o seu consentim ento, para irem passar quinze dias a Tolosa. Ela o obrigou a prom eter-lhe, que a essa época, fosse qual fosse o estado em que se achasse, ele a reconduziria àquela habitação. O coronel a isso se obrigou sem dificuldade, bem persuadido, que no caso que a m oléstia se agravasse, não reclam aria ela a execução literal daquele tratado.

Delm ont, apesar do pendor que o arrastava para o lado de sua paixão crim inosa, não deixava de consagrar a sua m ulher um verdadeiro e sincero am or. Ela se tornava, naquele m om ento, m ais cara ao seu coração, j ulgando que seu espírito se achava tão vivam ente afetado. Ele tam bém possuía um caráter um pouco exaltado; e todo entregue aos seus deveres, esquecia-se até, que ia ausentar-se de Alinska; m as esta ideia, quando se ofereceu ao seu espírito, não foi capaz de m udar sua resolução: considerava-se com o obrigado a fazer este cruel sacrifício. Talvez se lem brasse, de que aquela, cuj o am or a tinha obrigado a percorrer tão longo espaço, a vencer tantos sacrifícios, para de novo se reunir a ele, não deixaria de o ir procurar a um a distância tão dim inuta, e que podia vencer-se em duas horas. Não afirm arem os, que fosse realm ente esta a sua ideia; m as o coração do hom em é de tal m odo construido, que seria loucura lisonj ear-m o-nos de levar a verdadeira luz aos seus m ais íntim os recônditos.