A Virgem da Hungria, ou a Mulher Vampiro
Capítulo XVIII
No dia seguinte, saindo Alinska do seu retiro, parecia não conservar a m enor lem brança da conversação que tivera com madame Delm ont. Mélervant ainda existia no castelo; ela o tratou com o de ordinário, sem lhe dar a m ais pequena dem onstração do que se havia passado a seu respeito; porém se para o facultativo pôde ela m ostrar-se indiferente, outro tanto lhe não acontecia para com Eduardo. Por m uitas vezes fixava os olhos sobre ele, com um a expressão de descontentam ento e de raiva, que quase o fazia estrem ecer de susto. Em pregava para com ele certas m aneiras, às vezes fam iliares, outras algum tanto bruscas! Elas poderiam dar a conhecer que não eram estranhos um ao outro, se os dois circunstantes não tivessem a íntim a convicção de que o raciocínio da húngara se patenteava às vezes confuso e enfraquecido.
O coronel, que pelo contrário conhecia a verdade, estrem ecia com aquele novo capricho. Quanto m ais cara lhe era Alinska, m enos desej ava ele que o conhecessem ; e receava sobretudo que sua esposa concebesse as m ais leves suspeitas, que não deixariam de despertar em seu coração o m ais terrível ciúm e. Pela sua parte, fazia todo o possível para tam bém se fazer com preender: suplicava a Alinska por m eio de seus gestos, de seu relancear de olhos, que o não com prom etesse, e que desem penhasse a prom essa que lhe fizera; porém seus esforços eram inúteis; nem por isso deixava ela de continuar o m esm o m anej o. Neste com enos chegou um m ensageiro em busca do doutor, cuj a presença era reclam ada por um vizinho do castelo, que tinha sido acom etido de um ataque apoplético; ao m esm o tem po, madame Delm ont precisou retirar-se ao seu quarto; e os dois inim igos ficaram em presença um do outro.
— Então j á vos não recordais da prom essa que m e fizestes? — disse logo o coronel à estrangeira.
— E vós esquecestes-vos — lhe replicou ela, — que o vosso coração m e fora prom etido? Ainda outra vez vos repito, ó dos hom ens o m ais falsário! Atrever-vos-eis a crim inar a santidade de m eus j uram entos? Faço a vosso respeito, aquilo que m e apraz fazer; m as não é este o lugar oportuno para questionarm os. É necessário que vos fale em particular; assim o exij o.
— Quando?
— Hoj e m esm o, à m eia-noite.
— Aonde?
— Na grande sala; ali ninguém virá interrom per-nos.
— Que m e quereis dizer?
— Sabê-lo-eis.
— E se nos surpreenderem ?
— Nada receeis.
— Isto não vai bem !
— Com parecereis?
— Receio!...
— Trem ei, se acaso vos espero debalde!...
Madame Delm ont, voltando neste m om ento, pôs term o a esta rápida conversação, que tinha lugar a m eia voz. Ela chegou tão inopinadam ente, que seu m arido se perturbou, e não deixaria decerto de fazer algum reparo, se ela porventura se não achasse em perfeito sossego a respeito da conduta de seu esposo.
Desde que Alinska entrara no castelo, ainda até ali não havia ostentado tão excelente hum or. Abandonou sua natural m elancolia; quase que parecia alegre, e seus esforços conseguiram arrancar a Helena um m eio sorriso, que era por certo o prim eiro que havia agitado seus lábios, depois que deplorava a perda de seu filhinho.
Delm ont, longe de partilhar a afetada alegria de Alinska, cada vez se tornava m ais som brio e taciturno, à m edida que o sol declinava. Apenas pronunciou algum as insignificantes palavras durante o j antar; um a vaga inquietação o devorava; não se atrevia a lançar seus olhos, nem sobre Alinska, nem sobre sua m ulher. A entrevista a que se havia obrigado, agitava-o vivam ente; ele receava que por algum acaso fortuito o não encontrassem praticando com a húngara; sabia quanto é difícil reprim ir a indiscrição dos dom ésticos, e sabia tam bém que desta circunstância dependia a tranquilidade e o sossego de sua fam ília.
Enfim , cada qual se retirou ao seu dom icílio. Madame Delm ont, que havia dias se queixava de um quebrantam ento geral em todos os seus m em bros, foi a prim eira que se deitou. Despediu Germ ana, recom endando-lhe que fizesse outro tanto: Delm ont que tam bém se havia recolhido à sua câm ara, em lugar de se despir, assentou-se sobre um sofá; e, trém ulo com o o crim inoso que se acha prestes a com eter um novo flagício, ali aguardava, sem im paciência, que soasse a hora designada para o fatal encontro. Em tão cruel situação, tudo incom oda, tudo m ortifica: a noite corria com dem asiada rapidez, para os desej os do nosso herói; bem quisera ele suspender o tem po na sua carreira; m as este, regulado por infalível com passo, cam inhava com igualdade, sem que nada fosse capaz de o prender. Na sua m archa descarregou sobre o bronze a últim a pancada da m eia-noite, e foi cam inhando avante, em dem anda do seu giro. Ao ouvir aquele terrível sinal, levantou-se Delm ont, e foi-se dirigindo às escuras para o sítio que lhe fora indicado.
A com pleta obscuridade que reinava nesta vasta sala; o agudo frio que penetrava pelas j anelas, m al reparadas; o receio de ser descoberto; tudo se reunia para inspirar a Delm ont um tal estrem ecim ento, com o ainda não tinha sentido; nem m esm o nessas ocasiões em que na frente de quinhentas bocas de fogo aguardava im pávido a m orte, na posição im óvel que o seu dever lhe havia prescrito! Mas então estava ele em profunda paz com o seu coração; nada o perturbava; a sua consciência era tranquila; m as ali ele se achava em contradição consigo m esm o; estava às ordens de um a m ulher, que j á não podia contribuir para a sua ventura, e que podia pelo contrário perdê-lo com um só gesto. Por outro lado poderia ele desobedecer-lhe? Não devia recear que incitada pelo seu caráter im petuoso, não revelasse publicam ente o funesto segredo que lhes era com um ?... Delm ont j ulgava que a tudo deveria sacrificar-se para conter um a am ante desorientada!
Ela não tardou a com parecer: penetrou pela porta da escada, vinha vestida de branco, e m eia velada com um grande xaile preto, que lhe dava a sinistra aparência de um espetro, que não sabe desm entir seu terrível olhar, nem a extrem a palidez de seu rosto cadavérico. Trazia na m ão um a lanterna que pousou precipitadam ente sobre o chão, logo que reconheceu o coronel; e avançando para ele com aparência dum contentam ento m elancólico, lhe exprim iu quanto se sentia satisfeita da sua exatidão.
— Sem pre hei de ser solícito em obedecer a Alinska, logo que desej e ver-m e, sobretudo depois de m e haver assegurado...
— Eduardo, eu vos suplico não torneis a recordar-m e um a prom essa que m e não é possível cum prir. Quê!... deveria eu disfarçar-m e sem m otivo? Não poderia lutar contra vós, com todos as vantagens que m e oferece a m inha situação, quando vej o que pretendeis em pregar todos os m eios para m e desviar destes lugares; quando vej o que não receais auxiliar as loucas pretensões, que ainda esta m anhã se atreveram a fazer-m e?
— Acreditai, Alinska, que tanto com o vós, eu sofri cruelm ente, quando tive conhecim ento dessas pretensões; a sim ples conj etura de que elas existiam , m e era insuportável; m as que podia eu fazer? Calar-m e, e deixar-vos operar livrem ente. Esperava... quero dizer, sabia que a vossa resposta seria negativa; e desde logo concebi a grata certeza que não tornariam a im portunar-vos.
A estas últim as palavras, um raio de alegria se viu relam pej ar nos olhos de Alinska.
— Vós esperáveis! dizeis: ah! porque m e não é dado conceber tam bém algum a esperança? Vej o-m e condenada a presenciar um a ventura, que m e é odiosa, e que j am ais gozarei! É m ister que m e arranque de um lugar que se torna para m im insuportável. Cheguei a ver-vos, consum ei a m inha desventura; só m e resta ausentar-m e.
— Pois vós partireis, Alinska? vós!... Ah! isso seria fazer grande inj úria à nossa am izade!
— A vossa am izade, Eduardo, pouco se m e dá de a ofender! Não exij o de vós esse dom , ainda m esm o que m o oferecêsseis com sinceridade! Estou satisfeita com a m inha sorte (continuou ela com um sorriso m isturado de infernal m alignidade). A m inha partida, desem baraçando-vos da m inha presença, vos restituirá o sossego de que vos tem privado. Não estrem ecereis m ais, com o fazíeis quando m e oferecia aos vossos olhos, ou quando vos falava; não vos distraíreis finalm ente do am or que vos inspira aquela que a m im preferistes...
Aqui um golpe de vista lançado por Alinska, sobre a fisionom ia daquele que a escutava, lhe provou que ela se queixava sem m otivo; todavia não quis dar a entender aquilo que conj eturava.
— Vós sois senhora de ficar, ou de partir; talvez devesse m esm o engaj ar-vos a tom ar esta últim a resolução; m as persuadi-vos, que o m eu coração não exige a vossa ausência: ele viveria satisfeito j unto a vós, se porventura vos não tem esse; sente m ais que nunca, quanto sois sedutora, e de ora em diante vós sereis confundida em todos os seus proj etos de prosperidade.
— E que lugar m e daríeis vós nesse coração? Qual seria a consideração que m e daríeis j unto a vós?... Não m e respondeis!... Que devo pois agourar do vosso silêncio?
— Ele vos explica a confusão em que m e acho. Que poderei dizer-vos que possa satisfazer-vos? Os laços que m e prendem , vós bem o sabeis, são indissolúveis.
— Sim , são indissolúveis, com o tudo quanto pertence ao vosso sexo... com o tudo quanto existe... até à m orte!
Havia nestas últim as palavras um a expressão tão m isteriosa, tão atroz e sinistra, que Delm ont, estrem ecendo, recuou horrorizado, lançando logo seus olhos sobre os de Alinska; m as aj udado pela frouxa claridade da lanterna, ele os viu im pregnados dessa particular indiferença, que quase sem pre os anim ava. Nenhum constrangim ento se divisava no sem blante daquela j ovem criatura; tudo nela se achava em tanto desacordo com as suas palavras, que Delm ont se viu quase obrigado a acreditar, que seus ouvidos o tinham iludido. Procurava m esm o alim entar esta grata ilusão, sem testem unhar de m odo algum o descontentam ento, que no íntim o da alm a o torturava.
Seguiu-se um instante de silêncio. Alinska parecia pouco disposta a interrom pê-lo; Eduardo continuava a m editar sobre o que se passava: am bos pareciam ter m uito que dizer, para de novo se interrogarem . Contudo esta singular situação devia term inar: foi a húngara a prim eira que tom ou a palavra.
— Vós m editais bem profundam ente, Eduardo! — disse ela — Acaso vos ocupais do passado, ou trabalhais porventura em form ar planos sobre o porvir?
— Não; nem m edito sobre o passado, nem sobre o futuro; só o presente m e agita; só ele m e pertence; só ele m e lança num abism o de dificuldades inexplicáveis, sem poder com binar tantos sentim entos opostos, que m e agitam .
— Não vos enfadeis, se vos faço a confidência de que a vossa covardia m e é conhecida. Sois incapaz de tom ar um partido; apenas sabeis distinguir os vossos desej os; e ignoro por que m otivo as nossas alm as tão opostas puderam sim patizar, a vossa fraca e pusilânim e; a m inha, forte e coraj osa, que nunca pôde sucum bir a quaisquer dificuldades da vida!
— Ah! Alinska, tudo vos é perm itido; podeis hum ilhar-m e a vosso bel-prazer; m as se vos fosse dado ver o que se passa em m eu coração; se a vossa situação fosse a m inha, talvez não escarnecesses do m eu desespero.
— Depois de breves reflexões, pronta seria m inha resolução: pesaria os diversos m otivos que se m e apresentassem ; escolheria, e desde logo arroj ar-m e-ia coraj osa pelo cam inho que m ais m e agradasse.
— E se esse cam inho vos desviasse da verdadeira senda; se ele vos conduzisse ao erro, ao crim e, e ao opróbrio?
— Não deixaria de m e enredar em todo esse labirinto, se porventura o tivesse preferido: a indecisão é o pior de todos os m ales! Mas na vossa situação, tendes porventura bem m editado nos obstáculos que vos rodeiam ? Sabeis decerto de que lado se acha o m al, ou a virtude? Para vos guiar a qualquer destes pontos não se vos oferecem dois cam inhos iguais? Não éreis vós todo m eu, antes de pertencer a outra? Qual é a lei que, favorecendo direitos novam ente adquiridos, condena a prioridade dos antigos?
— Alinska! Que dizeis vós? Que é o que de m im pretendeis?
— Ou tudo, ou nada, Eduardo!... Vós estrem eceis!... Oh! conheço que nem sequer sois digno de escutar-m e!
— Quê!... Pois eu abandonaria um a m ulher, a quem não poderia endereçar a m ais leve acusação! Separar-m e-ia de um a criança... de um a filha!...
— Ou tudo, ou nada, torno a repetir-vos! De que vos queixais quando vos constituo o árbitro absoluto da vossa escolha? Quando vos deixo na m esm a posição em que vos achais? Quando apenas m e contento em vos indicar as duas veredas que se vos oferecem para escolherdes?
— Mulher encantadora! em que pélago pretendeis subm ergir-m e? Não, Alinska; apesar de quanto sinto pela prim eira m ulher, que soube inspirar-m e o m ais ardente am or, não m e aviltarei j am ais aos olhos do m undo, abandonando esse ente virtuoso a quem de boa vontade entreguei todo o m eu afeto e ternura. Sou dela, e hei de ser dela, enquanto viver...
— É certo, que a não podeis abandonar, sem enxovalhar a vossa reputação: ela m e é m uito preciosa; m as quem vos ouvisse falar, diria que essa m ulher é im ortal, ou então que algum pacto existe entre ela e a eternidade!...
— Alinska, vós m e horrorizais! Não quero m ais escutar-vos; talvez que vós m esm a não com preendais a força de vossas expressões!
Um sorriso diabólico foi a única resposta da húngara; e em seus olhos, que pareciam fulm inar os do coronel, se exprim ia a horrível ideia, que na sua m ente borbulhava.
— Não!... nunca!... — exclam ou Delm ont — Aos erros que com eti, não serei tão infam e, que lhe associe um tão nefando crim e!... Bárbara e desum ana m ulher; oh! vós m e horrorizais!...
— Sim !... é verdade!... quando vós envenenastes m eu coração, por certo que não éreis tão crim inoso! Quando guiastes o punhal que m e trespassou o peito, com a leitura da vossa infam e carta, éreis sem dúvida m enos bárbaro do que eu não é verdade?... (Dizendo estas palavras, ela descobriu seu peito, e m ostrou um a ferida sobre o coração, ainda ensanguentada!...) Quando m eus pobres pais, ralados de desgosto, exalaram o últim o suspiro; o m onstro que causou a sua m orte, não era certam ente m ais culpado do que eu: não é assim ?... Não, nada disto m erece ser vingado! Eduardo sem pre foi, e ainda é, o m ais inocente, e o m ais virtuoso dos hom ens!... Só eu é que sou a m ais vil das criaturas; m as o inferno acha-se colocado entre nós; e há de ser o tribunal dos dem ónios que nos há de j ulgar!...
— Oh! desesperação! Oh! terrível extrem o de frenesim ! A que crim inosos excessos vos não abandonais, Alinska!... Quê! A vossa m ão hom icida teve o arroj o de derram ar o vosso próprio sangue?... Ah! foi certam ente esta ação abom inável que abreviou a vida de vossos desgraçados pais!...
— Não, Eduardo; não fui eu o seu verdugo: não tive culpa nessa fatal catástrofe. Fostes vós; unicam ente vós, que os assassinastes!... Eu fui apenas o instrum ento de que vos servistes, para m e privar dos seus carinhos. Eles desapareceram da terra, enquanto vós dorm íeis no rem anso da paz e da ventura, e onde o vosso sono não seria perturbado, se porventura eu não viesse interrom pê-lo. Adeus, único fautor de todas as m inhas m isérias; encarniçado inim igo, que m e haveis privado, para sem pre, do lugar que o céu m e reservava; que tendes consum ado a m inha condenação eterna!
— Vós m e esm agais com o peso de vossas iras: sinto-m e aniquilado; apenas conheço que ainda pertenço ao núm ero dos viventes!... Mas por que m otivo desesperais? Os m eus erros foram grandes, sem dúvida, e contudo espero, cheio de confiança, a sua rem issão; e vós, a quem o delírio dum a paixão funesta tem desorientado, j ulgais acaso que por m eio de sincero arrependim ento...
— Arrependim ento!... — exclam ou a húngara, soltando ao m esm o tem po infernal risada. — O arrependim ento, dizeis vós! É coisa que em m im não pode existir: deixei-o na m inha cabana, com o resto de m eus hum anos sentim entos. Tom ei a m inha carreira; ser-m e-ia im possível colher de novo aquilo, que abandonei após de m im . Só m e resta prosseguir o m eu cam inho; j á sei a recom pensa que m e aguarda ao cabo desta viagem ; j á saboreei até um a porção das suas delícias!...
A acre e m elancólica ironia, que transluzia neste discurso, o m odo indefinível com que era pronunciado, lançaram o coronel na m aior ansiedade. Via diante de si um a m ulher enfeitada com todos os encantos da m ocidade e da form osura, que podendo ser ainda ornam ento da sociedade, estava prestes a sucum bir sob o peso dos m ais terríveis rem orsos. A sua razão, enfraquecida por infortúnios, pelos prej uízos da sua infância, não lhe vaticinava no futuro, m ais do que torm entos, estragos, e a m orte. Ela exagerava o núm ero de suas faltas; parecia-lhe que essa conta que todos nós devem os à Providência, seria por certo m ais terrível do que realm ente era: todavia, nem por isso deixava ela de ser m enos desditosa, porquanto, não é sobre o núm ero determ inado de nossos infortúnios, que o vulgo deve j ulgar de nossos sofrim entos, m as sim sobre a m aneira com o nós os consideram os. O nosso m aior inim igo existe em nós m esm os: um a brilhante im aginação alivia-nos das penas violentas; um a im aginação m elancólica torna positivam ente terríveis e irreparáveis os desgostos, que aos outros parecem suportáveis!
Foi por m eio desta base que Delm ont apreciava o am arum e que repassava o coração da sua vítim a. Com ovido de pura com paixão, debaixo da qual se escondia ainda outro sentim ento m ais grato, um pensam ento único o ocupava, que era de consolar Alinska, de a tranquilizar, e de a fazer enfim venturosa. Aproxim ou-se a ela, e quis tocar-lhe a m ão, que ela tinha sem pre escondida. Este gesto, cuj o fim lhe foi patente, fez estrem ecê-la, obrigando-a a desviar-se.
— Não, Eduardo; não m e experim enteis m ais; tenho-vos m anifestado toda a m inha fraqueza; sucum bi até (quando vos falava) a um transporte de delírio, que neste m om ento m e faz corar de pej o. Só m e resta term inar esta conversação, explicando-vos o m otivo, que m e obrigou a solicitar-vos esta entrevista. Por m ais tem po não devo dem orar-m e em vossa casa; é m ister que m e ausente sem dem ora. Não tenteis com bater a m inha resolução; ela é invariável. Sairei do castelo ao prim eiro alvor do dia; j á m e ocupei em fazer reedificar a casa que as cham as tinham consum ido; fui prevenida antes de ontem , que j á se achava em estado de ser habitada. Entrarei nela para, talvez, não tornar a sair: enquanto a vós, ficai sem o m enor receio a m eu respeito. Foi para m e evitar, que abandonastes os prazeres da capital da França; ide novam ente saboreá-los; tende a certeza, que a m inha pessoa vos não incom odará; ela vos deixa em plena liberdade; e desde este m om ento vos alivio de todos os sustos e terrores que poderia causar-vos.
— Não devo consentir no que pretendeis fazer. Esperai ainda m ais algum tem po antes de nos deixar. Seria conveniente ir habitar um a casa, construida de novo, e no rigor do inverno? Ignorais acaso, quanto é prej udicial a hum idade que ela oferece?
— Para vós, não duvido; para m im certo que não. Maior hum idade do que essa de que falais, j á eu senti noutra m orada, e contudo ainda aqui m e vedes. O m eu partido está tom ado: um plausível m otivo, que farei acreditar, não deixará a m ais leve suspeita sobre a verdadeira causa da m inha resolução. Afetarei recear os im portunos galanteios do doutor; de m e ser absolutam ente necessária a m ais profunda solidão; e passados os prim eiros dias ninguém m ais se lem brará de m im .
O coronel, m ortificado com esta determ inação, sem curar das funestas ideias, que algum as palavras indiscretas da húngara haviam sugerido em seu espírito atribulado, ainda pretendeu aplacá-la; m as ela continuou a m ostrar-se inexorável. Cansada de tantas solicitações, lançou m ão da lâm pada, ausentando-se subitam ente, sem escutar as fervorosas instâncias, que ainda lhe eram dirigidas.
O coronel, depois, voltou tam bém ao seu quarto; e não foram decerto os favores de Morfeu, que em seu leito o aguardavam .