As Casas de Armas de Isher
Capitulo Sétimo · O Quartel-General do Distrito Número 19 era…
O Quartel-General do Distrito Número 19 era um edifício no estilo antigo, desenhado em forma de cascata. O modelo era exagerado, renovando-se a cada instante. Torrentes de mármore sucediam-se jorrando para frente a partir de aberturas ocultas, e terminando por fundir-se umas às outras.
Não era um grande edifício, mas era suficientemente imponente para fazer com que Cayle estacasse. Seus quinze andares e seus grandes escritórios, cheios de máquinas e de funcionários eram impressionantes. Não havia imaginado que o homem bêbado que encontrou na nave tivesse uma tão vasta autoridade. Um quadro, com uma lista de nomes na entrada do edifício, assinalava tanto as funções civis quanto as militares. Cayle presumiu que encontraria o Coronel Medlon em algum lugar indicado pela inscrição: Salas do Estado-Maior – Terraço.
Uma nota no fim do quadro de avisos dizia: Passes de segurança para o elevador para o terraço no balcão de recepção do 15. ° andar.
O departamento de recepção anotou seu nome, mas foi necessário fazer uma consulta antes que o homem acoplasse a ficha a um transmissor a fim de submetê-la ao exame de uma autoridade. Por fim, veio um homem de meia idade, em uniforme de capitão. Ao divisar Cayle fez uma carranca e disse:
- O Coronel não gosta de rapazes. Quem é você? O tom de sua pergunta não soava nada promissor.
Mas Cayle sentiu a teimosia crescer dentro de si. A longa experiência que tinha em desafiar seu pai deu-lhe forças para dizer com voz firme:
- Conheci o Coronel Medlon na viagem para a Cidade Imperial, ontem, e ele insistiu para que eu viesse vê-lo. Se o senhor fizer o favor de informá-lo de que estou aqui...
O Capitão o olhou durante meio minuto. Então, sem dizer uma palavra, tornou a entrar no escritório particular. Voltou a aparecer, balançando a cabeça, mas agora já com um ar mais amistoso.
- O Coronel disse que não se lembra de você, mas lhe concederá um minuto.
O homem baixou o tom de voz e perguntou:
- Ele estava, hum, alto?
Cayle fez que sim com a cabeça. Não se sentiu seguro para fazê-lo com palavras. O Capitão disse em voz baixa, denotando urgência:
- Entre e faça-o pagar, ele merece. Uma pessoa muito importante procurou-o duas vezes hoje e ele não a recebeu. Agora você o deixou nervoso. Ele está com medo do que possa ter dito quando estava sob a influência do álcool. Você sabe, ele não ousa tocar numa gota quando está na cidade.
Cayle seguiu o desleal capitão, possuindo agora uma imagem a mais do mundo de Isher. Ali estava um oficial inferior aparentemente manobrando para conseguir o cargo de seu superior.
Mas esta idéia desapareceu no momento em que ele saiu do elevador. Em seu lugar, surgiu a preocupação quanto à sua capacidade de lidar com uma situação como esta. Veio-lhe a desagradável sensação de que ela não seria suficiente. Bastou-lhe, porém, olhar o homem sentado atrás da grande escrivaninha, num dos cantos do grande salão, para que se evaporasse o receio de ser jogado fisicamente para fora do 19. ° Distrito.
Era o mesmo homem da nave porém, de algum modo, mais magro. Seu rosto, que parecera inchado enquanto estava bêbado, agora parecia menor. Seus olhos eram pensativos e ele tamborilava nervosamente sobre o tampo da mesa.
Disse para o capitão, com voz baixa e autoritária:
- Pode deixar-nos a sós, capitão.
O Capitão retirou-se com um olhar fixo em seu rosto. Cayle sentou-se.
O coronel disse:
- Creio que me lembro agora de sua fisionomia. Sinto muito; acho que andei bebendo um pouco. Medlon sorriu, constrangido.
Cayle pensou que o que o outro havia dito a respeito da Imperatriz devia ser extremamente perigoso para alguém em sua posição. Em voz alta disse:
- Não percebi nada de anormal, senhor. Hesitou um instante.
- Ainda que, pensando a respeito, creio que o senhor foi bastante liberal em suas confidencias.
Cayle parou por um instante. Depois continuou:
- Acredito que tenha sido a sua posição que lhe tenha permitido falar de modo tão franco e livre.
Houve um silêncio. Cayle teve tempo para, cautelosamente, congratular-se por suas próprias palavras, mas não se deixou iludir. Aquele homem não tinha chegado à sua atual posição por falta de inteligência ou de coragem.
O Coronel Medlon disse finalmente:
- Bem. O que foi que... eh... combinamos? Cayle respondeu:
- Entre outras coisas, coronel, o senhor me disse que o Governo estava precisando de oficiais e me ofereceu uma patente.
O Coronel falou com voz dura:
- Não me recordo dessa oferta. De qualquer modo, se eu consegui ficar tão inconsciente a ponto de fazê-la, tenho, infelizmente, que informá-lo de que não tenho autoridade para fazer de você um oficial. Existe um procedimento legal a ser observado com respeito à obtenção de patentes, que se encontra totalmente fora de minhas mãos. E uma vez que há uma tão grande estima pela carreira militar, há muito que o governo a encara como uma fonte de renda. Por exemplo, o posto de tenente lhe custaria cinco mil créditos, mesmo com o apoio de minha influência. O de capitão o faria despender a enormidade de quinze mil créditos, o que é uma fortuna para um rapaz de sua idade e...
Cayle estivera ouvindo com um crescente desconforto. Revendo suas próprias palavras, pareceu-lhe ter feito o possível com o material à sua disposição. Ele simplesmente não estava em condições de tirar partido das indiscrições de Medlon. Sorrindo forçadamente perguntou:
- E quanto custa a de Coronel?
O oficial deu uma gargalhada. Depois disse muito jovialmente:
- Meu rapaz. Esta não se paga com dinheiro, e sim com a própria alma: uma mancha negra de cada vez.
Interrompeu-se, sério. Depois disse:
- Veja bem, sinto muito se ontem fui um tanto liberal com as patentes de Sua Majestade, mas você deve compreender como são essas coisas. E para provar-lhe que não sou um homem sem palavra, mesmo quando estou fora de controle, eu lhe direi o que fazer. Traga-me cinco mil créditos no prazo de, digamos, duas semanas, se lhe for conveniente, e eu praticamente lhe garanto a patente. Que lhe parece?
Para um homem que possuía menos de quarenta créditos, esta perspectiva de solução era bem impraticável. Se a Imperatriz havia ordenado que não se vendessem maia as patentes no futuro, esta ordem estava sendo totalmente ignorada por subalternos corruptos. Cayle teve assim o seu segundo vislumbre sobre a situação em que se encontrava o reinado da Imperatriz Innelda.
Ela e seus conselheiros não eram todo-poderosos. Ele sempre pensara que apenas as Casas de Armas restringiam o seu poder. Mas a rede que a havia envolvido era muito menos tangível. A grande massa de pessoas que a serviam tinha os seus próprios esquemas, seus próprios desígnios, que perseguiam com mais ardor do que o que dedicavam à mulher a quem haviam jurado fidelidade.
O coronel mexia nos papéis em cima da mesa. Estava terminada a entrevista. Cayle se preparava para dizer algumas palavras finais quando o telestate na parede atrás de Medlon se iluminou. O rosto de uma mulher jovem apareceu na tela. Ela disse sem rodeios:
- Coronel, com todos os diabos, onde tem estado?
O coronel retesou-se e voltou-se lentamente para a tela. Mas Cayle não precisou da reação intranqila do coronel para saber quem era aquela mulher.
Ele estava vendo a Imperatriz de Isher.