As Casas de Armas de Isher
Uma onda de calor envolveu Lucy quando…
CAPÍTULO DÉCIMO QUARTO
Uma onda de calor envolveu Lucy quando ela empurrou a grade e, surpresa, a moça parou.
Sabia, é claro, que aquela sensação fora provocada artificialmente: era o primeiro passo no caminho que levava aos estranhos cumes da alegria sensual que a Casa de Ilusões oferecia. A partir de agora, até o momento de deixar aqueles lugares, seu sistema nervoso ia ser submetido de maneira quase permanente a manipulações insidiosas.
A hesitação que ela deixou transparecer servia a suas intenções. Recomeçou a andar a passos lentos. O parque, situado na frente da casa, fora admiravelmente concebido. Flores, moitas, surgiam cá e lá, rompendo a monotonia do lajedo. Uma cortina de fetos arborescentes encobria quase inteiramente a entrada da Casa. Lucy penetrou na abóbada vegetal. Havia, primeiro, uma clausura cuja folhagem, elevando-se progressivamente, acabava por formar um longo corredor de verdura brilhante, com teto em arcada.
Por duas vezes, num movimento mais forte que ela, Lucy parou. A primeira vez, quando alguma coisa suavemente acariciou sua face, como uma mão imantada, de dedos afetuosos. A segunda vez, foi mais surpreendente. Com a respiração cortada, o rosto vermelho, sentiu o corpo inteiro incendiar-se. Sentia-se ao mesmo tempo contrariada e feliz, intimidada e febril. Era isso o que sentia uma noiva na noite de núpcias?
Essas delicadezas eram a especialidade das Casas de Ilusões, onde os blasés dos dois sexos podiam recuperar as emoções perdidas, que seus corpos usados haviam há muito esquecido.
O corredor de verdura desembocava num caramanchão de espelhos. Seriam portas? Hesitante, temendo escolher a pior, Lucy esperou que uma delas se abrisse. Mas como, ao fim de alguns minutos, nada acontecesse, tentou empurrar os espelhos. Os seis primeiros continuaram imóveis, mas o sétimo cedeu. Era uma porta de vaivém dando para uma passagem tão estreita que mal deixava lugar para o seu corpo. Suas costas roçavam as paredes e ela tinha a penosa impressão de estar sufocando. Não era apenas um mal-estar físico: seu espírito associava esse desconforto aos terrores do confinamento, ao temor da ameaça desconhecida que surgia subitamente, quando não se podia avançar ou recuar.
Viria essa angústia de uma espécie de consciência culpada? Do fato de que os motivos de sua visita eram inteiramente estranhos aos negócios normais do estabelecimento? Ela era contra as Casas de Ilusões e procurava entravar seu andamento. Essa angústia, no fundo, podia perfeitamente ter como origem o terror de ser desmascarada antes de ter levado seu trabalho a bom termo. Indubitavelmente, a inconfortável passagem não devia inquietar os clientes habituais, que sabiam onde ela terminava.
Seus temores desapareceram tão prontamente quanto surgiram: bruscamente, ela foi envolvida por uma alegria sem limite ao pensar no que a esperava. Arquejante, empurrou a porta da parede que fechava a passagem e encontrou-se, aliviada, numa pequena peça agradavelmente decorada.
- Sente-se, por favor - disse a mulher sentada atrás da escrivaninha - é natural que queiramos ter uma entrevista com os novos clientes.
Lucy sentou-se, calada. Sua interlocutora, já não mais uma jovem, tinha um rosto amável, prejudicado, no entanto, pelos olhos estreitos e inquiridores e pela finura dos lábios.
- Tudo o que me disser fica entre nós. Esboçou uma sombra de sorriso e suas mãos de unhas manicuradas bateram na testa.
- Nada sairá daqui. Mas previno-a de que tenho uma excelente memória. Jamais esqueço um rosto ou uma voz.
Lucy, que conhecera muitas pessoas dotadas de uma memória fantástica, não pôs um só instante suas palavras em dúvida. Até onde ela podia saber, jamais foram encontradas listas de freqentadores nas Casas de Ilusões. Os arquivos eram aparentemente registrados na memória de pessoas capazes de os conservar.
- Nós não fiamos, evidentemente. A quanto monta sua renda anual?
- A cinco mil créditos.
- Onde a senhora trabalha?
Lucy citou uma sociedade conhecida. Tudo estava previsto há muito tempo. Cada membro da Organização constava dos registros do pessoal de uma firma que pertencia secretamente à liga ou cujo proprietário era partidário dos Fabricantes de Armas.
- Quanto é seu aluguel?
- Cem créditos, por mês.
- Quanto gasta em alimentação?
- Entre cinqenta e sessenta créditos, mais ou menos.
- Transporte, dez créditos. Roupa, vinte e cinco. Diversos, dez. Sobram dois mil e quinhentos. Se a senhora vier uma vez por semana, a sessão lhe sairá por cinqenta créditos. Faremos, no entanto, um abatimento desta vez. Trinta e cinco créditos, por favor.
Lucy contou o dinheiro. A crueza desse cálculo espantou-a. Na verdade, ela tinha outras despesas; quando mais não fossem, seus impostos: mil créditos. E ela gastava muito mais de vinte e cinco créditos para se vestir. No entanto, se fosse preciso, se o desejo do prazer apertasse a ponto de esquecer toda a prudência, ela poderia frear suas despesas. Era evidente que as Casas de Ilusões partiam do princípio de que, uma vez engajados, os clientes viriam mais de uma vez por semana. Se Lucy devia enveredar por esse caminho, ela se mudaria para se instalar num bairro menos elegante, usaria roupas menos luxuosas, comeria menos. Havia mil maneiras de fazer economia. Meios tão velhos quanto o próprio vício.
A recepcionista colocou o dinheiro numa gaveta e levantou-se.
- Obrigada. Espero que nossas relações sejam duradouras e satisfatórias. Por aqui, por favor.
A saída dissimulada dava para um vasto corredor que desembocava numa suntuosa alcova. Desconfiada, Lucy parou antes de passar a soleira. "Lembra-te que estás numa Casa de Ilusões", falou consigo mesma. O que parecia real poderia não passar de um engano. Pondo em prática o conselho que Hedrock lhe dera para identificar os fantasmas de origem mecânica, esforçou-se, sem virar a cabeça, para olhar só com o rabo do olho e constatou que a cena estava curiosamente deformada no limite do seu campo de visão. Pareceu-lhe que a peça era maior do que aparentava.
Com um sorriso, caminhou ousadamente, atravessou a parede do fundo e encontrou-se numa espécie de salão imenso, com paredes de espelhos. Uma mulher correu ao seu encontro.
- Queira desculpar-nos, senhorita. Como era sua primeira visita, precisávamos nos certificar de que não conhecia nenhum dos nossos pequenos truques. Alguém falou-lhe desta ilusão ou a senhora já freqentou outras Casas?
Lucy julgou melhor contornar a pergunta.
- Um amigo me falou - explicou descuidadamente, e era a pura verdade.
A resposta pareceu satisfazer à jovem e loura criatura.
- Se quiser mudar de roupa...
Abriu uma porta camuflada e Lucy penetrou num pequeno toucador. Um elegante vestido branco estava pendurado num cabide. No chão, havia um par de sandálias. E nada mais.
Lucy despiu-se lentamente. Caira na engrenagem e lhe seria muito difícil sair. Se não conseguisse entrar em contato com Cayle a tempo, precisaria, quisesse ou não, experimentar o prazer artificial.
O vestido era de uma suavidade maravilhosa. O deslisar do tecido sobre sua pele nua provocou-lhe um arrepio voluptuoso. Era um tecido especial cujo contato estimulava diretamente os centros nervosos do prazer.
Abandonou-se, feliz, à carícia envolvente que descia ao longo do corpo como se fosse uma onda. Uma espécie de vertigem deliciosa fê-la vacilar. "Azar! Aconteça o que acontecer esta noite, vou mesmo é me divertir!"
Calçou as sandálias, abriu a porta às apalpadelas e bateu as pálpebras à vista da sala. De um lado, havia uma fileira de homens, alguns sentados em mesinhas. Defronte, em mesinhas semelhantes, uma fileira de mulheres, simetricamente dispostas em relação aos homens. Ornamentos policrômicos alegravam as paredes. À sua frente, um enorme bar ocupava todo o comprimento da peça. A decoração era autêntica ou se tratava ainda de ilusão? Desistiu de verificar. Que importância tinha? O essencial era que ela estivesse lá, na sala de encontros. Com um pouco de sorte, breve encontraria Cayle. E se não o encontrasse, azar. Haveria outras noites, pensava num sonho enevoado.
Suas pernas tremiam um pouco, quando começou a andar. Olhou com desprezo as mulheres sentadas diante de bebidas servidas em copos minúsculos. A maioria era composta de velhas, muito mais velhas que ela. Desgostosa, voltou os olhos para os homens e então notou que havia duas salas. Uma tela transparente se interpunha entre o grupo de homens e o de mulheres. Quem sabe se aquela separação também era ilusória? Quem sabe se se dissolveria no momento da conjunção?
Porque a conjunção deveria acontecer, como Lucy não duvidava. Parando de se interrogar, passou os homens em revista. Eram jovens, na maior parte. E reconheceu Cayle. Mais exatamente, teve consciência de reconhecê-lo alguns segundos depois que seu olhar pousou nele Sentiu um choque, mas o reflexo de prudência impôs-se. Dominando sua emoção, caminhou com desenvoltura para uma mesinha, na qual sentou-se.
Acabara-se a agradável embriaguez de há pouco. Sentia-se infeliz, agora, ao recordar a fisionomia entrevista. Um Cayle de rosto desfeito. Esgaseado, esgotado, teria reparado nela? Duvidava. "Vou olhá-lo outra vez", pensou, "e desta vez procurarei chamar-lhe a atenção".
Olhou discretamente o relógio. Antes de mais nada, agir com calma. Passou-se um minuto. O ponteiro começou um novo circuito, os segundos continuaram a se suceder. Um... dois... três... quatro... cinco... Um homenzinho esguio levantou a mão. Lucy levantou a cabeça: Cayle devorava-a com os olhos e ela teve um choque.
- Tirem a barreira, rapazes - disse o magrela, alegremente - chegou o momento das apresentações.
Houve uma certa agitação no grupo das mulheres, algumas das quais correram para o lado oposto da sala. Vendo Cayle aproximar-se Lucy não se mexeu. Ele sentou-se na mesa dela.
- A senhorita é encantadora - disse, com voz afetada.
Demasiadamente agitada para emitir um som, ela só pôde responder de cabeça.
Uma recepcionista inclinou-se sobre seu ombro.
- A senhorita está contente? - perguntou, em voz baixa.
Lucy sacudiu o queixo de novo.
- Se quiser me seguir... Por aqui.
Lucy levantou-se. "Assim que estivermos sós, ele e eu, poderemos começar a preparar um plano de fuga", pensou ela.
Uma porta abriu-se com estrondo. A mulher que recebera Lucy na sua chegada apareceu e murmurou algumas palavras no ouvido do homenzinho. Uma campainha tocou. Lucy quis virar-se, mas uma estranha vertigem fê-la vacilar e ela sentiu-se mergulhar num poço sombrio.
A campainha do telestate soou. Eram onze e cinco. Hedrock ligou o aparelho e o rosto embotado de Lucy apareceu na tela.
- Não sei o que aconteceu - disse ela. - Tudo parecia estar andando direito. Ele me reconheceu. íamos ser levados a um canto sossegado. Depois... só escuridão. Quando voltei a mim, estava em casa.
- Não desligue, voltarei já a falar-lhe.
O coordenador chamou o cruzador e foi o comandante em pessoa quem respondeu.
- Ia ligar para o senhor. Houve uma batida, mas eles devem ter sido avisados em cima da hora. Carregaram as mulheres em autoplanos, doze por aparelho, e as levaram para as casas delas.
- E os homens?
Hedrock tinha a garganta seca ao fazer esta pergunta. Era sabido que as Casas de Ilusões tinham meios radicais para garantir sua proteção.
- Foi exatamente por isso que eu não o chamei antes. Eles foram amontoados num transporte que levantou vôo imediatamente. Tentei segui-los mas me tapearam lindamente.
Hedrock esfregou os olhos. O caso Clark ia mal. Nada mais havia a fazer. Nada, senão esperar.
- Obrigado, capitão. O senhor trabalhou bem! Contou a Lucy o que houve.
- Foi assim - concluiu. - É desolador, mas isso elimina Cayle definitivamente. Não podemos correr o risco de intervir.
- Que devo fazer?
- Nada. Esperar.