As Casas de Armas de Isher

A. E. Van Vogt · Capítulo 8 de 32

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As Casas de Armas de Isher

Capítulo Quinto · Não conseguiu ficar sentado. Por três vezes,…

 

Não conseguiu ficar sentado. Por três vezes, ao perambular pela nave, parou em frente aos grandes espelhos energéticos. Os seus olhos injetados de sangue, que naqueles espelhos pareciam ter vida independente, devolveram-lhe o olhar feroz. E acima da desesperada preocupação quanto ao que fazer agora, pairava a dúvida: Por que me escolheram eles para vítima? O que é que havia com ele que fez com que a quadrilha se lhe dirigisse direta e inequivocamente?

Ao virar as costas ao terceiro espelho, viu a garota da loja de armas. Seu olhar deteve-se nele, sem reconhecê-lo. Sem esperanças, Cayle moveu-se para fora de sua linha de visão e afundou numa poltrona.

Seu olhar desatento foi atraído por um movimento. Um homem, do outro lado do corredor, deixou-se cair sobre uma cadeira. Envergava um uniforme de coronel do Exército de Sua Majestade Imperial, e estava tão bêbado que mal conseguira sentar-se à mesa, e o mistério de como havia conseguido chegar até aquela cadeira devia ter as suas origens nas mais profundas leis do equilíbrio.

Virou a cabeça e seus olhos torvos esbarraram em Cayle:

- Você está me espionando, hein? - sua voz diminuiu de tom mas aumentou em intensidade. - Garçom!

Um garçom aproximou-se solícito.

- Sim senhor.

- O melhor vinho para mim e minha sombra. Assim que o garçom se foi, ele ace- nou para Cayle.

- Não quer sentar-se aqui? Poderíamos viajar juntos, não é mesmo? - sua voz adquiriu um tom confidencial. - Sou um pau-d'água, eu sei. Há muitos anos estou escondendo isto da Imperatriz. Ela não gosta - balançou a cabeça, denotando tristeza. - Ela não gosta disso nem um pouco. Mas então, o que está esperando? Venha cá!

Cayle aproximou-se, maldizendo aquele bêbado idiota. Mas também havia uma esperança. Ele havia esquecido, mas agora lembrava que a jovem da casa de armas lhe havia sugerido entrar para o Exército Imperial. Se ele conseguisse obter daquele alcoólatra as informações que precisava para ser rapidamente admitido, a perda do dinheiro já não seria mais tão importante.

Sorvia seu vinho atentamente. Estava muito mais tenso do que gostaria de aparentar. Ficou observando seu companheiro mais velho com olhares rápidos e disfarçados. O passado do homem começou a emergir por entre uma multidão de confidencias incoerentes. Chamava-se Laurel Medlon. Coronel Laurel Medlon, disse a Cayle, confidente da Imperatriz, íntimo da corte, e chefe de um distrito de arrecadação de impostos.

- Diabo, hic, e um bom distrito - disse com uma satisfação que deu às palavras um valor maior do que tinham por si.

Olhando sardonicamente para Cayle, disse-lhe:

- Então quer entrar nisto também, hein? - um soluço cortou-lhe a frase. - Bem, venha ao meu escritório, amanhã...

Sua voz tornou-se arrastada. Começou a murmurar para si mesmo, e quando Cayle perguntou-lhe algo, resmungou ininteligivelmente sobre a sua chegada à Cidade Imperial.

-... quando eu tinha a sua idade. Rapaz, como eu era inocente! - um espasmo de bêbada indignação o sacudiu: - Eu sei, esses malditos monopólios de tecidos têm diferentes padrões de fazenda que mandam para todo o país. Você vê logo quem vem do interior. Eu fui manjado logo...

Então era isso: suas roupas!

A injustiça desta história toda deixou-o alquebrado. Seu pai nunca lhe permitira comprar os ternos nem mesmo na cidade vizinha de Ferd. Fara havia protestado: "Como posso esperar que os comerciantes daqui entreguem a mim o que têm para consertar se a minha família não negocia com eles?" E tendo formulado esta pergunta irrespondível o velho considerava o assunto encerrado, não aceitando mais nenhum argumento.

"E aqui estou eu", pensou Cayle, "limpo por causa daquele velho". A raiva fútil cedeu. Porque cidades maiores, como Ferd, provavelmente tinham padrões especiais também, tão facilmente identificáveis como os de Glay. A injustiça disso, viu com clareza, não dependia só da estupidez teimosa de um homem.

Mas era uma coisa útil de se saber, se bem que um pouco tardia.

O coronel estava se animando. E, mais uma vez, Cayle perguntou:

- Mas como o senhor entrou para o exército? Como conseguiu se tornar oficial?

O bêbado disse alguma coisa sobre a Imperatriz estar sempre se queixando a respeito do recolhimento de taxas. Depois falou dos problemas decorrentes dos ataques feitos às lojas de armas. Mas falava desconexa-mente. Finalmente veio uma resposta à sua pergunta.

- Eu paguei cinco mil créditos pela minha patente - maldito crime... - continuou depois. - A Imperatriz agora insiste em dar as patentes de graça. Isto não vai funcionar. Todo homem tem seu preço.

Acrescentou com indignação:

- Eu paguei tanto!

- O senhor quer dizer - insistia Cayle - que agora se pode conseguir patentes sem ter que pagar?

Na sua ansiedade tinha segurado a manga do paletó do homem.

Os olhos do coronel se abriram subitamente. Olhou Cayle com suspeita.

- Quem é você? - perguntou secamente. - Vá embora.

Sua voz se tornou dura, quase sóbria.

- Por Deus - disse - não se pode mais viajar hoje em dia sem encontrar um parasita. Estou até pensando em prendê-lo.

Cayle levantou-se, pálido. Sentia-se à beira do pânico. Estava sendo atingido demais e com muita freqência em pouco tempo.

A sua mente tornou-se clara novamente. Viu que estava parado à porta do bar dianteiro. Seal e os seus companheiros ainda estavam lá. Empertigou-se, agora sabia por que tinha voltado para olhá-los.

Virou-se e dirigiu-se diretamente ao local onde estava a moça da loja de armas. Estava sentada num canto, lendo um livro, uma moça esbelta e bonita, de aproximadamente vinte anos. Estudava seu rosto, enquanto ele lhe narrava o episódio do jogo, como havia perdido todo o seu dinheiro. Cayle havia terminado.

- O que eu queria saber é se devo ir falar com o comandante. Que acha?

Ela balançou a cabeça.

- Não - disse - eu não faria isso. O comandante e a tripulação recebem uma comissão de quarenta por cento nestas viagens. Eles apenas ajudariam a esconder o seu corpo.

Cayle afundou-se na poltrona. Sentia-se sem forças. Esta viagem, a primeira além de Ferd, estava roubando todas as suas energias.

Perguntou, sem circunlóquios:

- Por que não escolheram você? Está bem, eu sei que você não está usando roupas do interior, mas como é que eles escolhem?

- Estes homens nos sondam com aparelhos de transparência. A primeira coisa que descobrem é se você tem uma arma da loja de armas. Neste caso, eles o deixam em paz.

- Você pode emprestar-me a sua? - o rosto de Cayle estava sombrio. - Quero dar-lhes uma lição.

A jovem encolheu os ombros.

- As armas das casas de armas são reguladas individualmente. A minha não funcionaria em suas mãos, E além disso, elas só podem ser usadas em defesa própria e agora já é tarde para você se defender.

Cayle olhava tristemente a paisagem. A beleza das maravilhosas cidades que apareciam cada momento apenas aumentava mais sua depressão. Lentamente, o desespero voltou:

- O que é que as lojas de armas sabem fazer, além de vender armas?

A jovem hesitou.

- Temos um centro de informações - disse finalmente.

- Informações, como? Que tipo de informações?

- Oh, de tudo. Onde as pessoas nasceram. Quanto dinheiro têm. Os crimes que cometeram ou estão cometendo. Claro, não interferimos.

Cayle escutava ao mesmo tempo pouco satisfeito e fascinado. Não tinha a intenção de se deixar distrair mas, por outro lado, há muito tinha em sua mente dúvidas a respeito dessas lojas de armas.

E agora estava falando com alguém bem informado.

- Mas o que fazem? - perguntou com insistência. - Se têm todas essas armas maravilhosas, por que não derrubam o governo?

Lucy Rall sorriu sacudindo a cabeça.

- Você não compreende. As Casas de Armas foram fundadas há mais de dois mil anos por um homem que decidiu que a luta incessante pelo poder, travada por grupos diferentes era insana e que as guerras, civis ou outras, tinham que acabar para sempre. Foi numa época em que o mundo emergia de uma guerra na qual mais de um bilhão de pessoas tinha perecido e ele encontrou milhares de pessoas que concordaram em segui-lo. Sua idéia básica era nada menos que a seguinte: nenhum governo, qualquer que fosse, deveria ser derrubado. Mas deveria haver uma organização com uma finalidade primordial: impedir que o governo tivesse poder absoluto sobre o povo. O homem que se sentisse injustiçado deveria poder comprar uma arma defensiva. Você não pode imaginar o progresso que isto significou. Naquela época de governos tirânicos, era muitas vezes crime capital a simples posse de arma.

Sua voz estava adquirindo uma intensidade emocional. Via-se que acreditava no que estava dizendo. Continuou, com seriedade:

- O que deu ao fundador a idéia, foi a invenção de um sistema de controle atômico e eletrônico que permitia a construção de lojas de armas indestrutíveis e permitia também a fabricação de armas que só podiam ser usadas para defesa. Isto evitava que as nossas armas pudessem ser usadas por assaltantes ou outros criminosos e justificava moralmente o empreendimento. Para fins defensivos, as armas dessas casas são superiores às armas comuns do governo. Funcionam por controle mental e pulam para a mão quando é necessário. Proporcionam proteção contra armas explosivas mas não contra balas, mas são tão mais rápidas, que isso não é importante. "

Ela olhou para Cayle e seu rosto se tornou menos tenso.

- Era isso o que você queria saber? - perguntou.

- Suponhamos que armem uma emboscada - sugeriu Cayle.

Ela encolheu os ombros.

- Não há defesa para isso - balançou a cabeça, sorrindo de leve. - Você realmente não está compreendendo. Nós não nos preocupamos com indivíduos. O que conta é que milhões de pessoas sabem que podem ir a uma loja de armas se precisarem de proteção para si ou para suas famílias. E, o que é mais importante ainda, as forças que, normalmente, gostariam de escravizá-los, são desencorajados pela convicção de que é perigoso explorar o indivíduo.

Cayle estava desapontado.

- Quer dizer que a pessoa é quem tem de se salvar? Mesmo adquirindo a arma a pessoa terá que reagir, ou melhor, resistir sozinha? Ninguém vai ajudar?

Percebeu, subitamente, que ela lhe contara tudo aquilo para explicar porque não podia ajudá-lo. Lucy falou de novo:

- Vejo que está desapontado com o que lhe contei. Mas é assim. E você compreenderá que tem de ser assim. Quando uma pessoa perde a coragem de resistir a uma usurpação de seus direitos, também não pode ser salva por alguém de fora. Acreditamos que o povo tem o governo que deseja e que os indivíduos têm que enfrentar os riscos que a liberdade apresenta, mesmo ao preço de sua própria vida.

O rosto de Cayle estava tenso, refletindo seus sentimentos. Ela interrompeu-o.

- Olhe - disse - deixe-me sozinha por algum tempo. Quero pensar sobre o que você me contou, mas não estou prometendo nada. Darei minha resposta antes de chegarmos ao nosso destino. Está certo?

Ele pensou que era uma forma simpática de se livrar dele. Levantou-se sorrindo e foi sentar-se na sala ao lado. Quando virou-se, Lucy não estava mais lá. Novamente muito tenso, levantou-se e dirigiu-se ao bar.

Atacou Seal por trás, com um violento golpe no lado da cabeça. O homem caiu do tamborete e rolou no chão. Os dois companheiros levantaram-se imediatamente. Cayle golpeou o mais próximo sem piedade. O homem gemeu segurando o estômago.

Ignorando-o Cayle mergulhou em direção do terceiro que estava sacando a arma. Caiu sobre o homem com todo o peso do corpo e deste momento em diante a vantagem era sua. Era ele quem tinha a arma.

Cayle virou-se mesmo a tempo de ver Seal levantar-se. O homem estava esfregando o queixo com a mão e os dois se encararam.

- Devolva meu dinheiro - disse Cayle. - Vocês escolheram o homem errado.

Seal começou a gritar:

- Prendam este homem, estou sendo roubado! É o maior deslavado...

Parou. Devia ter percebido que não se tratava de ser inteligente e raciocinar. Levantou rápido as mãos e disse:

- Não atire, não seja louco! Nós também não atiramos.

Cayle, dedo no gatilho, conteve-se.

- Meu dinheiro?

Houve uma interrupção. Uma voz alta disse:

- O que está acontecendo aqui? Levante as mãos, você aí com a arma.

Cayle virou-se, ficando de costas para uma parede. Havia três oficiais do avião, com explosores portáteis, parados na porta, cobrindo-o.

Resumiu o caso e recusou-se a entregar a arma.

- Tenho minhas razões para crer - disse - que os oficiais de aviões onde ocorrem tais acidentes não estão fora de suspeita. Agora, depressa, Seal, meu dinheiro.

Não houve resposta.

O jogador desaparecera. Ele e os dois comparsas.

- Olhe - disse o oficial que parecia estar no comando - guarde essa arma e esqueceremos o assunto.

Cayle disse:

- Eu vou passar por essa porta, depois guardo a arma.

Os homens concordaram e Cayle não perdeu tempo, Procurou por todo o avião mas não encontrou sinal de Seal e seus homens. Furioso, procurou o Comandante.

- Seu bandido - disse friamente - deixou que partissem.

O oficial o encarou:

- Meu rapaz - disse finalmente com ironia - você está descobrindo que os anúncios não mentem. Viajar é altamente educativo. Como resultado desta sua viagem, você já está bem mais esperto. Descobriu dentro de si uma coragem insuspeitada. No espaço de poucas horas, você amadureceu mais um pouco. Em termos de luta pela sobrevivência, isto é de um valor incalculável. E em termos de dinheiro, até que pagou pouco. Cayle disse:

- Vou denunciá-lo à sua firma.

O oficial encolheu os ombros.

- Formulários para reclamações estão à sua disposição na recepção. O julgamento será em Ferd e as despesas a seu cargo.

- Já estou vendo - disse Cayle, amargamente. - Tudo a seu favor, não é?

- Não fiz as regras - foi a resposta. - Só vivo de acordo com elas.

Agitado, Cayle voltou ao salão onde tinha deixado a jovem da casa de armas mas não a encontrou. Começou a se preparar para a aterrissagem. Faltava menos de meia hora.

Poucos minutos depois de Cayle a ter deixado, a jovem tinha fechado o livro e se dirigido sem pressa para uma cabine individual de telestate.

Tirou um dos anéis do dedo e o manipulou de forma a completar uma ligação com o estate fora do controle governamental. O rosto de uma mulher apareceu na tela dizendo:

- Centro de Informações.

- Quero falar com Robert Hedrock.

- Um momento, por favor.

O rosto do homem apareceu quase que imediatamente na tela. Os traços eram ásperos mas mesmo assim era um homem bonito, sensível e forte ao mesmo tempo, ressumando orgulho e vitalidade em cada gesto. Sua personalidade fluía de sua imagem como uma corrente magnética. Sua voz soava calma, mas sonora:

- Departamento de Coordenação.

- Aqui fala Lucy Rall, vigia do imperial em potencial, Cayle Clark.

Continuou descrevendo resumidamente o que acontecera a Cayle.

- As análises o qualificam como um prodígio calistênico e o estamos vigiando na esperança de que sua ascensão seja rápida e que possamos usá-lo em nossa luta para impedir que a Imperatriz destrua as Casas de Armas com sua nova arma. Isto está sendo feito de acordo com a diretiva de que não deve ser deixada de lado possibilidade alguma, contanto que haja alguém para executar a tarefa. Acho que ele precisa receber algum dinheiro.

- Sei - o rosto viril do homem estava pensativo. - Qual é o índice da sua aldeia?

- Médio. No começo, ele vai ter alguns problemas na cidade. Mas deve conseguir livrar-se das atitudes provincianas bem depressa. Esta enrascada em que está envolvido agora já o está endurecendo. Mas precisa de ajuda.

Havia decisão estampada no rosto de Hedrock.

- Em casos como este, quanto menos dinheiro se der, maior será a gratidão mais tarde - sorriu - esperemos. Dê-lhe quinze créditos como se fosse um empréstimo pessoal seu. Não providencie qualquer outro tipo de proteção. Deixe-o por sua própria conta. Mais alguma coisa?

- Nada.

- Então até logo.